Soldados ucranianos em meio à destruição durante confronto com a Rússia.
Por Jorge Serrão, Jovem Pan News, 28 de fevereiro de 2022.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 2 de março de 2022.
É fundamental iniciar um debate público sério sobre o emprego da energia nuclear, inclusive para fins militares na defesa do país; nação que não tem poder real de dissuasão fica sujeita à invasão.
Tempos esquisitos. Só se fala de “guerra”. A invasão da Ucrânia pela Rússia “rouba” a atenção. De repente, igual ao que aconteceu com a Covid, surgem “especialistas” por todos os lados. Muita bobagem veiculada na mídia tradicional e muita besteira circulando nas redes sociais. Sorte que algumas análises certeiras prevalecem. Uma delas, bem resumida, foi postada pelo General de Exército na reserva Maynard Marques de Santa Rosa, ex-Secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (gestão Jair Bolsonaro):
“Estamos assistindo ao colapso da Ucrânia e à impotência ocidental. A truculência russa mostra que o mundo mudou. Formam-se, no mínimo, dois blocos de poder: o Ocidente (em declínio) e o Euroasiático. O vácuo que surge é uma grande oportunidade para o Brasil.”
No alvo. Estrategistas têm obrigação de compreender a dimensão do verdadeiro conflito global em andamento. A real disputa hegemônica é entre a visão e prática da Economia Planificada (cujos expoentes são a China e a Rússia) versus a Economia de Mercado (Estados Unidos e países desenvolvidos da Europa). No meio dessa batalha global (ou globalitária), como ferramenta de ilusionismo, aparecem as disputas ideológicas. Tudo jogo de aparência para desviar a real razão da disputa de poder: a conquista e manutenção da hegemonia política/econômica. Nações que têm soberania plena (leia-se, bomba atômica) conseguem fazer qualquer ameaça ou bravata em tempos beligerantes. O resto assiste bestificado, sofre diretamente ou, pior, paga a conta dos conflitos e guerras intermináveis. A indústria bélica lucra descaradamente. O paradoxo: a economia entra em pleno emprego de fatores. Aí surgem as “oportunidades”.
Muitos conflitos e guerras vão estourar em diferentes partes do Planeta Terra. Os brasileiros precisam agir com cautela diante de uma grande corrida armamentista que começa a virar realidade. O Brasil precisa acordar para um debate sobre o emprego da energia nuclear. O assunto não pode ser tabu, por imposição dos globalistas ou por omissão da classe política brasileira. É relevante ressaltar que nenhum país sem “bomba atômica” está livre de sofrer “intervenções” (ou invasões) das nações com poder de ação e dissuasão nuclear. Vale recordar que, em 2021, a ONU liderou uma verdadeira cruzada contra a soberania do Brasil na Amazônia. Foi colocada em votação uma resolução internacional sobre a região – que seria, na prática, “internacionalizada”. Curiosamente, foi o poder de veto da Rússia no Conselho de Segurança que livrou o Brasil dessa investida globalista. Daí se consegue entender, agora, que o governo federal tenha declarado a “neutralidade” do Brasil no conflito Rússia x Ucrânia.
O Brasil não pode ser uma Ucrânia amanhã. Historicamente, temos problemas estruturais. O problema essencial é que não conseguimos formular um Projeto Estratégico de Nação. Parecemos um eterno Titanic, que uma hora vai afundar, mas que tem uma boia mágica que atrasa o desastre inevitável.Na realidade, somos uma rica colônia de exploração, mantida artificial e metodicamente na miséria dependente. Não podemos nos resumir ao papel de exportador de commodities [recursos primários]. Não merecemos sobreviver reféns ou sob controle de uma oligarquia feudal, promotora do regime do Crime Institucionalizado, se locupletando das benesses estatais (dinheiro dos pagadores de impostos). Felizmente, a maioria da população, que sempre se mostrou impotente, agora começa a esboçar ações e reações para conquistar soberania.
Por isso, é fundamental que todos compreendam que temos “guerras” a resolver aqui, no “Togaquistão”. Nosso inimigo local e real é a Cleptocracia, seu Mecanismo e sua Juristocracia. Tudo com influência direta do Narconegócio. No momento, alimentar polêmicas inúteis e equivocadas sobre o conflito da Ucrânia apenas nos tira do foco da nossa complexa briga interna. O voto certeiro será fundamental para o começo da recuperação do equilíbrio institucional no Brasil. Enquanto não houver recuperação do “poder-de-fogo” e identidade do cidadão, não tem solução. Povo sem voz, sem identidade, não tem vez. Ou cuidamos do nosso pedaço, com soberania, ou não temos nada de concreto. É Pátria Honesta e Soberana, ou seremos escravos globalitários. Pense nisso.
Bibliografia recomendada:
A Farsa Ianomami. Carlos Alberto Lima Menna Barreto.
Enfermeiras da FEB nos Estados Unidos, 19 de setembro de 1944.
Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 13 de fevereiro de 2022.
Enfermeiras do Exército Brasileiro, Unidade 2890-A (Primeiro Esquadrão de Caça Brasileiro com Destacamento Médico) no Píer 5 prestes a embarcar para serviço no exterior, 19 de setembro de 1944. Fotografia Oficial Corpo de Comunicações do Exército dos EUA, Porto de Embarque de Hampton Roads, Newport News Virginia.
Esse grupo de enfermeiras havia se formado no Rio de Janeiro e passado dois meses nos Estados Unidos antes de embarcar para o exterior. As enfermeiras serviram com o restante da Força Expedicionária Brasileira na campanha do Norte da Itália, que durou até maio de 1945.
Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 13 de fevereiro de 2022.
A pintura Um Momento de Paz, do artista Saulo Pfeiffer, representa soldados da Força Expedicionária Brasileira em uma igreja destruída na Itália, observando a estátua dum anjo auxiliando uma pessoa durante um momento de calmaria na guerra. Os febianos apresentam os dois modelos de insígnia divisional, com a famosa cobra fumando no soldado em evidência, e o escudo verde com a inscrição "Brasil" no soldado à direita. O soldado no centro carreganas costas uma submetralhadora M3 Grease Gun ("Engraxadeira").
Saulo Pfeiffer é um ponta-grossense admirador da militaria (e até mesmo amigo do 13º Batalhão de Infantaria Blindado) e possui um perfil artístico no website Artstation (Link), onde suas várias obras podem ser visualizadas.
Insígnias da FEB ao redor da insígnia do 5º Exército americano.
Por Euler de França Belém, Jornal Opção, 14 de julho de 2018.
Livro revela que 7 guerrilheiros do Araguaia negociaram com militares e sobreviveram. Edinho, Duda, Piauí, Rosinha, Josias e Tuca saíram vivos da Guerrilha do Araguaia. Goiano foi infiltrado no PC do B e guerrilheira teve caso com sargento do Exército.
O jornalista Hugo Studart, mestre e doutor em História pela UnB, reabre, com seu mais recente livro, a história da Guerrilha do Araguaia, sugerindo que nem mesmo o PC do B valorizou os camponeses que participaram da batalha, e exibe a cadeia de comando militar que devastou a organização comunista.
A Guerrilha do Araguaia passou por um processo de “reforma agrária” e não é mais propriedade privada exclusiva do Partido Comunista do Brasil. Durante anos, o PC do B se comportou como dono da história da batalha, enquanto os militares fingiam que nada tinham a ver com os fatos acontecidos no Sul do Pará e Norte de Goiás (Tocantins), entre 1972 e 1974. Aos poucos, pesquisadores acadêmicos e jornalistas não vinculados à organização de esquerda começaram a apresentar estudos rigorosos e objetivos — e não relatórios partidarizados — a respeito do confronto. Os melhores livros são de responsabilidade de jornalistas, como Eumano Silva, Taís Morais, Elio Gaspari, Luiz Maklouf de Carvalho, Leonencio Nossa e Hugo Studart, que, na prática, são historiadores. Studart defendeu dissertação de mestrado na Universidade de Brasília, que resultou no livro “A Lei da Selva — Estratégias, Imaginário e Discurso dos Militares Sobre a Guerrilha do Araguaia” (Geração Editorial, 383 páginas, de 2006). Agora, lança em livro sua tese de doutorado“Borboletas e Lobisomens — Vidas, Sonhos e Mortes dos Guerrilheiros do Araguaia” (Francisco Alves, 660 páginas).
No livro, que vai além da tese de doutorado, há o imbricamento do historiador rigoroso com a perspicácia do jornalista investigativo e a fluência do escritor que, sim, Studart é. Seus dois livros são cruciais àqueles que querem entender a Guerrilha do Araguaia de maneira mais ampla e matizada. Não há a preocupação de criar vilões e tampouco mocinhos, e sim a de apresentar um quadro nuançado do que aconteceu na região do Araguaia. O pesquisador contempla as visões dos contendores, guerrilheiros e militares, e apresenta sua interpretação — equilibrada e objetiva. De certa maneira, “reabre” a história da guerrilha. O capítulo 19, “Sonata para Carmen”, apresenta uma história que, por vezes, não agrada à esquerda — que tende a apresentar uma guerrilha que, de tão heroica, deixa a impressão de que saiu “vencedora” e defendia a democracia. O pesquisador descobriu, e relata os casos de maneira abrangente — sem julgamentos morais toscos ou ideologizados —, que ao menos sete guerrilheiros, dados como mortos, inclusive por suas famílias e militares, estão vivos. Fizeram acordos e ganharam novas identidades.
Pouco antes de entrar para o PC do B e para a guerrilha, o estudante de farmácia e bioquímica Hélio Luiz Navarro de Magalhães, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, compôs uma música e a tocou no piano para sua mãe, Carmen Navarro Rivas. Depois, desapareceu e sua mãe nunca mais o viu. Há alguns anos, um repórter do Jornal Opção publicou uma reportagem — entre as fontes estava um guerrilheiro do Araguaia, Micheas Gomes de Almeida, o Zezinho do Araguaia —, na qual se informava que Hélio Navarro, o Edinho, havia sido visto no Mato Grosso, onde teria chegado a trabalhar com garimpo. Dias após a publicação da matéria, uma mulher, S. L., ligou na redação e ameaçou: “A mãe do Hélio Navarro, a sra. Carmen Navarro, ficou chateada com o texto publicado e pode processar o jornal”. Curiosamente, a família não moveu ação judicial contra o jornal.
Hiato de poder
Luíza Augusta Garlipe, a Tuca; Hélio Luiz Navarro de Magalhães, o Edinho; Maria Célia Corrêa, a Rosinha; Luiz Renê Silveira, o Duda; Antônio de Pádua Costa, o Piauí, e Tobias Pereira Júnior, o Josias, foram capturados pelo Exército e poupados pelos oficiais do Exército.
No livro, Studart apresenta evidências, com fartura de informações, de que Hélio Navarro e pelo menos mais seis (mais quatro são mencionados) guerrilheiros sobreviveram depois de capturados — o que era raro, sobretudo no fim dos combates. Havia uma ordem do ministro do Exército do governo de Emílio Médici, Orlando Geisel — “Não sai ninguém da área” —, que, numa tradução realista, significa: “Matem todos”. O ministro, antes de conversar com o presidente da República, discutiu o assunto com Milton Tavares, chefe do Centro de Informações do Exército (CIE), e o tenente-coronel Carlos Sérgio Torres, do CIE. De fato, militares começaram a matar guerrilheiros capturados e que não representavam nenhum perigo para eles e para a sociedade. Entretanto, a partir de certo momento, na transição do governo de Médici para o governo do presidente Ernesto Geisel, um “ditobrando” que às vezes era “ditoduro”, houve uma mudança.
Hélio Navarro era filho de Hélio Gerson Menezes de Magalhães, capitão-de-mar-e-guerra da Marinha, e sobrinho do almirante Gualter Meneses de Magalhães, anticomunista visceral e chefe do estado-maior da Armada. Por isso, o Centro de Informações da Marinha (Cenimar) pedia informações ao Exército sobre o guerrilheiro, pois o queria vivo. O tenente-coronel Leo Frederico Cinelli, do CIE, havia sido amigo de Carmen Navarro na juventude e era a ponte entre o Exército e Marinha.
Cinelli “assumiu a missão de tentar” entregar Hélio Navarro aos pais. Em fevereiro de 1974, o militante do PC do B, depois de ferido de raspão, é preso. Ele estava com Luiz Renê Silveira, o Duda, e gritou: “Não quero morrer, chama meu pai, que é oficial da Marinha”. “Desde o início, Edinho e Duda mostraram-se dispostos a colaborar”, anota Studart. Antônio de Pádua Costa, o Piauí, resistiu, mas cedeu. Duda “guiou patrulhas militares na caça aos companheiros” e Piauí serviu de guia.
Correu entre os militares que o “filho do almirante” (na verdade, Gualter era tio do esquerdista) havia sido capturado e a informação foi levada à cúpula do Exército em Brasília. O guerrilheiro chegou a citar Cinelli, que, avisado pelo major Leônidas Soriano Caldas, o dr. Ribamar, contatou o Cenimar. “O almirante Fernando Rocha Paranhos, chefe do Cenimar, designou o comandante Lameira, à época capitão-de-corveta, para a missão de resgatar o filho do colega.” Como a esquerda tinha o hábito de justiçar “desertores” e “traidores” da causa, oficiais do Exército e da Marinha temiam pela vida de Hélio Navarro.
Uma Equipe Zebra com dois guerrilheiros capturados no Araguaia. Os "zebras" eram militares e mateiros atuando descaracterizados em missões de contra-guerrilha.
Em fevereiro de 1974, militares prenderam a “esquelética” Maria Célia Corrêa, a Rosinha, que havia sido namorada dos guerrilheiros João Carlos Wisnesky, o Paulo, e Divino Ferreira de Souza, o Nunes (goiano). Grávida de Nunes, submeteu-se a um aborto, sob pressão do comandante guerrilheiro Zé Carlos (André Grabois). Faminta, delirava. Oficiais concluíram que não oferecia qualquer “perigo” e decidiram deixá-la viva. O pesquisador repara que havia o precedente de Marcos José de Lima, o Ari Armeiro, que, preso em setembro de 1972, passou a servir aos militares, chegou a ser infiltrado na guerrilha e sobreviveu. Edinho pediu aos militares que poupassem a vida de Duda e Piauí. A enfermeira Luíza Augusta Garlipe, a Tuca, formada pela USP, foi presa com a famosa guerrilheira e geóloga Dina (Dinalva Conceição Oliveira Teixeira). Como não era “perigosa”, foi poupada. Tobias Pereira Júnior, o Josias, também escapou.
Studard afirma que, com o novo governo, o de Geisel, houve, num certo momento, um “hiato de poder”. O general Confúcio de Paula Avelino, novo chefe do CIE, “decidiu discutir a pertinência de uma operação para poupar a vida de alguns guerrilheiros”. O tenente-coronel Cinelli concordava com seu superior e o tenente-coronel Carlos Sérgio Torres era refratário à ideia.
Os mortos-vivos
Dinalva Conceição Oliveira, a Dina; Dinaelza Soares Santana Coqueiro, a Maria Diná; e Lúcia Maria de Souza, a Sônia, do PC do B, eram guerrilheiras de grande coragem. Elas combateram duramente as forças do Exército.
A ideia de trocar a identidade dos guerrilheiros “arrependidos” foi do tenente-coronel Flávio Demarco, o Tio Caco, coordenador-geral da Operação Marajoara. Os “arrependidos” seriam considerados, para os registros oficiais, como “mortos”. Eram os “mortos-vivos”.
A “operação mortos-vivos”, classificada como “secreta”, foi planejada e organizada em Brasília pelo major Ronaldo Lira, do CIE, sob coordenação do tenente-coronel Cyro Etchegoyen. Ele recebeu o apoio do comandante Lameira, do Cenimar. “No Araguaia, a execução ficou a cargo do major Leônidas Soriano Caldas.” O sargento José Reis, o Régis, era seu assistente direto. O capitão Sebastião Rodrigues de Moura, que passou à história como Major Curió, não foi avisado da operação. Porque defendia a execução dos prisioneiros.
Para disfarçar a operação, inclusive ludibriando militares de certa relevância hierárquica, o sargento Régis simulou que os guerrilheiros Edinho, Duda e Piauí haviam sido executados. Na verdade, foram transferidos para Brasília. O sargento Remo simulou a execução de Rosinha. Tobias Pereira Júnior foi retirado de automóvel do cenário da guerrilha.
Aos 24 anos, Hélio Navarro, o mais protegido, foi o primeiro a ser levado para Brasília. Seguiram-no Duda, de 22 anos, Piauí, de 30 anos, Rosinha, de 29 anos, Josias, de 24 anos, e Luiza Augusta Garlippe. Na capital, foram levados para a Polícia Federal — o general Antônio Bandeira era seu diretor — mas ficaram sob a responsabilidade do CIE.
Sob proteção do almirante Gualter, Hélio Navarro conseguiu emprego no hipermercado Carrefour, em São Paulo. Tobias Pereira “recomeçou a vida no Mato Grosso”. Sua família, sintomaticamente, não pediu indenização ao governo federal e não fala com historiadores e jornalistas.
Luiz Renê, Antônio de Pádua e Rosinha ganharam empregos em Brasília, arranjados pelo coronel Jarbas Passarinho, que era ministro da Educação. O objetivo era “lavar” a nova identidade, forjar currículos. Tanto que, depois, os três deixaram o Ministério da Educação. (Studart não conta, pois não é objeto de sua pesquisa, mas Passarinho conseguiu empregos para ex-esquerdistas goianos que se apresentaram como “arrependidos”. Dois moram em Brasília e um em Goiânia. Um deles se aposentou pela Universidade Federal de Goiás.)
Em 1980, Hélio Navarro foi visto por Elza Monerat, no Rio de Janeiro. Ele casou-se e tem dois filhos. “Com o falecimento de seu pai, em 1999, Hélio Luiz se apresentou à Receita Federal em 8 de agosto de 2001, com sua verdadeira identidade, a fim de regularizar o CPF e liberar inventário.” Em seguida, desapareceu. Não há registro de que tenha procurado a mãe e sua irmã, Aglaé. Certa vez, Carmen Navarro enviou uma carta, por intermédio de um militar, e o ex-guerrilheiro a leu e chorou muito. Mas não há registro de que tenha feito algum contato. Luiz Renê também não procurou sua família.
Paixão na guerrilha
O livro de Studart sugere que a Guerrilha do Araguaia, vista como movimento unicamente do PC do B — com a participação majoritária de pessoas que frequentaram universidades —, deve ser reavaliada. Trata-se de um movimento mais popular do que parece, que contou com ação de vários camponeses, que participaram direta, como guerrilheiros, e indiretamente, como base de apoio. Vários camponeses foram torturados e mortos. “34 camponeses restaram mortos ou desaparecidos durante os conflitos. Há outros 43 camponeses que deram apoio à guerrilha.” Setenta e sete camponeses participaram da luta ao lado dos militantes do PC do B — além de “outros 142 chefes de família apontados como simpatizantes”. O pesquisador “coloca-os” na história — uma história “ignorada” inclusive pelos comunistas —, apresentando seus nomes. Os militares que dirigiram o combate aos militantes da esquerda são mencionados por nomes completos, além dos codinomes. São arrolados, entre os outros, o coronel Gilberto Airton Zenkner, o tenente-coronel Carlos Sérgio Torres, o major Leônidas Soriano Caldas, o capitão Roberto Amorim Gonçalves, o major Lício Augusto Ribeiro Maciel (que aparece em vários livros), o major Roberto Sampaio Loureiro, o major Thaumaturgo, o major Diprimio, o major Othon do Rêgo Monteiro Filho (Otto), o major Nilton de Albuquerque Cerqueira (o Faixa Branca), o major Celso Seixas Marques Ferreira (dr. Brito), o tenente-coronel Leo Frederico Cinelli, o tenente-coronel Wilson Brandi Romão (dr. Zico), o tenente-coronel Flávio Demarco, o tenente-coronel Hydino Sardenberg Filho e o major José Brant Teixeira. Desmitifica-se o Major Curió, que, apesar da fama (disseminada por jornais e pelo militar), não era um personagem central e cuja autonomia era menor do que se costuma pensar.
Adepto da foquismo — focos guerrilheiros instalados notadamente no campo —, o PC do B acreditava que, a partir das matas, do campo, se poderia cercar as cidades e derrotar a ditadura. Paradoxalmente, os militares usaram a cidade, com sua fartura de homens, armas e aviões, para cercar o campo e destruir a guerrilha. O maoísmo do partido era mais produto de uma fé, fanática, do que de uma análise criteriosa e realista da correlação de forças. Só com muita boa vontade é possível admitir que a maioria dos estudantes que foram lutar no Araguaia era de fato guerrilheira. Eles eram jovens criados em cidades, é provável que muitos nunca tinham visitado uma fazenda e tiveram dificuldade de se adaptar à vida na mata — a maior parte jamais se adaptou e, no geral, vivia doente. Alguns, quando puderam, escaparam.
Há um segredo de polichinelo: em 1974, um dos líderes da guerrilha, Ângelo Arroyo, escapou do Araguaia — tendo Micheas Gomes de Almeida como guia —, ao lado de um terceiro homem. Zezinho do Araguaia não revela o nome; garante que não se lembra. Há a suspeita de que tenha sido João Amazonas. Mas o “guia” afirma que era um homem mais alto.
Ao contrário de outros livros, que são sisudos, o de Studart aventura-se, por vezes, por assuntos da vida privada. Dina, a borboleta (era difícil pegá-la, diziam os camponeses), era casada com Antônio Carlos Monteiro Teixeira, mas era apaixonada por Pedro Gil. Para a camarada Lúcia, que sugeria que não era possível amar na floresta, ela disse: “Você tem de entender que a mata é nossa casa, nossa vida. Precisamos ser felizes aqui”. Alguns guerrilheiros, como Francisco Chaves e Áurea Eliza Pereira Valadão, tinham interesse nas artes dos terecozeiros. Áurea chegou “a se consultar com um espião-terecozeiro”. Era um agente disfarçado. Certa feita, ao ser traído por uma viúva, de quem era amante, Osvaldão Orlando Costa expropriou seu castanhal. O camponês Raimundo Severino, o Raimundinho da Pedrinha, não deixou por menos: “Osvaldo trocou o chifre pelo castanhal”.
No livro “Autópsia do Medo — Vida e Morte do Delegado Sérgio Paranhos Fleury” (Globo, 650 páginas), de Percival de Souza, há a revelação de que uma irmã do jornalista Raimundo Rodrigues, ex-editor da Veja e do jornal Movimento, havia sido amante do delegado que torturou dezenas de militantes da esquerda. Studart revela outra história parecida. Criméia Alice de Almeida, guerrilheira do Araguaia, teve um relacionamento afetivo com o sargento Joaquim Artur Lopes de Souza, o Ivan — o militar que matou Dina.
Há a terrível história de Maria Lúcia Petit, que, ferida gravemente, teria sido enterrada viva. Rosalindo Cruz Souza, o Mundico, foi justiçado pelos guerrilheiros — teria sido assassinado por Dina. A tese mais aceita é que mantinha relacionamento com Áurea Valadão, que era casada com Arildo Valadão, e o adultério, talvez sobretudo o feminino, não era aceito. Studart apresenta outra informação: ele queria sair da guerrilha — e isto era considerado um crime pelo qual se pagava com a vida.
As mulheres guerrilheiras, como Dinalva Conceição Oliveira Teixeira, a Dina, Dinaelza Soares Santana Coqueiro, a Maria Diná, Helenira Rezende de Souza Nazareth, a Fátima Preta, e Lúcia Maria de Souza, a Sônia (feriu o major Lício Augusto Ribeiro e o major Curió e disse: “Guerrilheiro não tem nome, tem causa”), demonstraram uma coragem impressionante — que chegou a assustar oficiais e soldados.
Um cabo do Exército infiltrado no PC do B, durante a guerrilha, continuou como militante até morrer. Joaquim Arthur, o Ivan, infiltrou-se no Destacamento B, o de Osvaldão Orlando Costa. Em 1972, revela Studart, o general Antônio Bandeira infiltrou no Araguaia um antigo militante da VAR-Palmares. “Ele era de Goiânia” e tinha “entre 35 e quarenta anos”, era “mulato, magro, trabalhador”. Atuou no destacamento de Osvaldão.
O livro de Studart abre, para quem quiser, as portas para novas pesquisas. É um manancial de ganchos para aqueles que planejam escrever dissertações de mestrado, teses de doutorado ou mesmo reportagens. O que se comentou aqui não representa 10% da obra, que, ao ampliar horizontes, é fundamental para a compreensão da Guerrilha do Araguaia. A obra é incontornável para pesquisadores e leitores comuns.
"Batismo de Fogo do Treze". Pintura sobre o 13º RI de Ponta Grossa na Revolução de 1924, óleo sobre tela de Saulo Pfeiffer.
Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 24 de dezembro de 2021.
O quadro imortaliza o batismo de fogo da unidade em 12 de agosto de 1924, ocorrido ás 12:15h, na ponte ferroviária sobre o Rio Pardo, na cidade de Salto Grande/SP, durante a Revolução Paulista de 1924. Essa batalha aconteceu apenas um ano após a criação do 13° Regimento de Infantaria (13º RI).
Atualmente, o antigo regimento chama-se 13º Batalhão de Infantaria Blindado (13º BIB), com o título Batalhão Tristão de Alencar Araripe, em homenagem ao oficial que foi prolífico escritor militar da Biblioteca do Exército e que comandou o regimento em 1941. Tristão de Alencar Araripe foi Presidente, por seis mandatos, do Instituto de Geografia e História Militar do Brasil e atingiu o posto de marechal em 1964.
Saulo Pfeiffer (esquerda) e sua obra.
O quadro foi apresentado à unidade pelo artista plástico Saulo Pfeiffer, ponta-grossense e amigo do batalhão, no dia 12 de agosto de 2019. O talentoso artista possui um perfil no website Artstation (Link), onde suas várias obras podem ser visualizadas.
Após essa primeira batalha, o regimento jamais foi derrotado em combate, nisto gerando o lema Nunca Vencidos, que dá nome ao monumento e à medalha do batalhão. Durante a cerimônia foi colocada uma coroa de flores em frente ao monumento histórico Nunca Vencidos, em homenagem aos mortos e feridos em todas as batalhas em que a unidade participou. Também foi entregue a recém-criada Medalha Nunca Vencidos, que representa todas as batalhas em que o 13º BIB participou.
A cerimônia também foi agraciada com a presença de dois pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que lutaram na Itália durante a Segunda Guerra Mundial: os senhores Major Odorico Dias de Góes e Tenente Jair Miranda.
O 3º Sargento Thomas Carpenter, da Guarda Nacional do Exército de Nova York, segundo da direita, e outros soldados formados no Curso Internacional de Operações na Selva, realizado pelo Centro de Treinamento em Guerra na Selva do Exército Brasileiro, brandem seus facões.
Por Eric Durr, Guarda Nacional de Nova York, 10 de dezembro de 2019.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 16 de setembro de 2021.
Soldado da Guarda Nacional de NY é aprovado em difícil curso de guerra na selva brasileira.
LATHAM, N.Y. - O 3º Sargento Thomas Carpenter, da Guarda Nacional do Exército de Nova York, sabia que iria afundar ou nadar quando apareceu no Centro de Instrução de Guerra na Selva (CIGS) do Exército Brasileiro em outubro de 2019.
Ele foi inscrito no Curso Internacional de Operações na Selva de seis semanas que o Exército Brasileiro oferece para soldados estrangeiros. Mas o NCO em treinamento, de 38 anos, do 2º Batalhão, 108º Regimento de Infantaria, sabia que precisava passar no teste inicial de natação ou voltaria para casa.
"Foi uma grande luta conseguir nadar", lembrou o graduado da Escola de Rangers do Exército dos EUA. "Foi um pesadelo."
Por uma semana depois de chegar no quartel-general da escola em Manaus, no Brasil, ele ficou na piscina trabalhando com instrutores até que pudesse nadar de uniforme completo, com sua arma e rebocando uma mochila.
Seis semanas depois, o aspirante, residente de N.Y., não apenas conquistou o cobiçado Brevê de Onça do guerreiro de selva emitido pela escola, como também foi o terceiro graduado com honra no curso internacional.
"Eu era burro demais para desistir", disse Carpenter.
Insígnia do 2º Batalhão, 108º Regimento de Infantaria, Guarda Nacional de Nova York.
Passar pela escola é grande coisa, de acordo com o tenente-coronel do Exército Rob Santamaria, um militar de ligação na Embaixada dos Estados Unidos no Brasil. "A maioria dos especialistas militares na selva considera a Escola de Guerra na Selva do Exército Brasileiro a principal escola de selva do mundo", disse Santamaria.
“A graduação do 3º Sargento Carpenter no Curso Internacional da da Escola de Guerra na Selva do Exército Brasileiro deu credibilidade instantânea à Guarda Nacional do Exército de Nova York e conquistou muito respeito junto ao Exército Brasileiro”, acrescentou.
O desempenho de Carpenter não surpreendeu ninguém que o conheça, disse o Sargento-Mor David Piwowarski, principal suboficial da Guarda Nacional do Exército de Nova York.
"O 3º Sargento Carpenter incorpora o espírito do homem-minuto [minuteman, miliciano colonial]", disse Piwowarski. "Num prazo muito curto, sem nenhum treinamento específico, ele respondeu com dureza a este percurso exigente apenas com o treinamento que já tinha sob o cinto e com muita coragem."
A Guarda Nacional de Nova York foi convidada a enviar soldados para a escola de guerra na selva do Brasil como parte da nova parceria de treinamento e intercâmbio entre a Guarda Nacional de Nova York e as forças armadas do Brasil, rubricada em março de 2019.
Ser capaz de nadar bem é uma parte vital do curso de guerra na selva porque os rios substituem as estradas na floresta tropical, explicou Carpenter.
“Onde eles operam na selva amazônica existem apenas duas estradas”, disse Carpenter. "Quase tudo é feito através do sistema fluvial. Eles usam as redes fluviais para transportar suprimentos e pessoas."
A onça é o símbolo do CIGS.
Ao chegar à escola, todos os participantes devem passar por testes de habilidades básicas, incluindo os requisitos de natação, para indicar que eles podem enfrentar o curso. Em seguida, eles se vão para a selva.
A primeira fase do curso de seis semanas concentra-se em viver e sobreviver na selva, disse Carpenter. Os soldados aprenderam o que podiam ou não comer. "Nós não comemos cobras, mas eu tive que pegar uma", disse ele.
Eles também aprenderam a evitar insetos mortais, animais e cobras. Lidar com a umidade constante foi outra habilidade que aprenderam, disse Carpenter. "A chuva não é como a chuva daqui", disse ele. "É como a chuva da monção. É uma batalha constante para manter a ferrugem longe e manter tudo em boas condições operacionais." Navegar na selva densa também é uma habilidade especial, disse Carpenter.
Dependendo da estação, os níveis de água nos riachos e rios podem ser drasticamente diferentes. Os brasileiros emitem mapas diferentes para diferentes épocas do ano refletindo essas mudanças, disse ele. E o dossel da selva torna difícil criar mapas com características de contorno precisas, disse ele.
Os soldados aprenderam a seguir a "linha seca" durante a navegação, explicou. Eles ficariam em terreno elevado e evitariam as ravinas, o que significava que demorariam mais para ir a qualquer lugar.
Essas habilidades de sobrevivência e navegação foram testadas em um exercício de quatro dias em que cada grupo de combate foi lançado na selva e recebeu uma distância, uma direção e tarefas para realizar ao longo do caminho. "Eles nos lançaram em um lugar onde sabiam que não havia frutas e vegetais para comer", disse ele. "Nós praticamente morremos de fome."
Brevê de Onça do guerreiro de selva.
As duas semanas seguintes foram passadas na água. Eles voaram de helicóptero - saltando de um helicóptero para a Amazônia - e aprenderam a fazer jangadas e a impermeabilizar equipamento. Por fim, Carpenter e sua equipe - que incluía soldados da China, Canadá, França e Paraguai - realizaram uma inserção de dois quilômetros no rio. “Ficamos na água por três horas naquela noite”, lembrou. "Estávamos molhados 24 horas por dia, 7 dias por semana", disse Carpenter. "Se não estivéssemos na água, chovia todos os dias. Se não estivesse chovendo, você estava suando através do uniforme."
A fase final do treinamento focou em táticas militares na floresta tropical. Esse treinamento foi semelhante ao da Escola de Rangers do Exército, disse Carpenter. Os homens planejaram e conduziram patrulhas e missões táticas. Eles desceram de rapel na selva de helicópteros pairando no ar. Esta fase foi culminada com uma patrulha de longo alcance.
A principal diferença entre a Escola de Rangers e o treinamento na selva brasileira é que a selva é várias vezes mais densa do que a floresta e os pântanos da Flórida onde os Rangers treinam, disse Carpenter. "Uma força inimiga pode estar no topo de uma patrulha antes deles perceberem", disse ele.
Cerimônia do facão de selva.
Ao final das seis semanas, Carpenter e os demais estudantes internacionais, inclusive um outro americano, foram presenteados com seu Brevê de Onça - o símbolo oficial de um guerreiro de selva brasileiro - e um facão.
"É um facão muito legal", disse Carpenter. "No final do curso, você tem uma cerimônia do facão."
“Alguém já qualificado te presenteia e então você o batiza agitando-o através da fumaça de uma fogueira”, acrescentou.
Desde que o Brasil fundou sua escola de guerra na selva em 1964, mais de 6.300 soldados conseguiram passar pelo curso, disse Santamaria. São 530 formandos do curso internacional do Exército brasileiro uma vez por ano.
A fogueira.
Carpenter é o 30º membro do Exército dos EUA a passar pelo curso, disse ele. Seu objetivo agora, disse Carpenter, é trazer as habilidades que aprendeu de volta para sua unidade e outras formações da Guarda Nacional do Exército de Nova York. "Não sou um bom sargento a menos que treine soldados e os torne melhores do que eu", disse ele.
O principal conselho que ele daria a outros soldados da guarda em direção ao curso de selva é se concentrarem na natação e, em seguida, nadar um pouco mais. "Todos que foram lá estavam preparados", disse Carpenter. "Eu era o único idiota que não fazia ideia das coisas."
O 3º Sargento Thomas Carpenter, da Guarda Nacional do Exército de Nova York, à direita, está ao lado de outros dois soldados homenageados pelo Curso Internacional de Operações na Selva realizado pelo CIGS, brandindo a estatueta do guerreiro da selva.
Bibliografia recomendada:
A History of Jungle Warfare: From the earliest days to the battlefields of Vietnam. Bryan Perrett.
Jungle Warriors: Defenders of the Amazon. Carlos Lorch.
Soldado Francisco de Paula carregando um obus 105mm com os dizeres "A cobra está fumando...". (Colorização de Marina Amaral)
Valmiki Erichsen
Capitão de Artilharia
Ex-comandante da 2ª Bateria do 3º Grupo
Estamos quase no fim da Campanha da Primavera. Os alemães, descontrolados e atacados por todos os lados, procuram fugir para o norte. A Infantaria Brasileira, sem dar tréguas, persegue o inimigo na sua carreira desenfreada.
O III Grupo de Artilharia, com suas três Baterias de Tiro acantonadas em um prédio escolar, acha-se em Bibbiano à espera das suas viaturas que foram requisitadas para o transporte dos nossos infantes. É nessa situação que no dia 27 de abril de 1945, à 1h, o Comandante da 2ª Bateria (Capitão Valmiki) foi acordado pelo Capitão Piza (ST), que fazia-se acompanhar do Major Molina da AD/I, para receber a seguinte ordem: "De ordem do Senhor General Comandante da AD [Artilharia Divisionária], o Comandante do Grupo designou a 2ª Bateria para se deslocar imediatamente a fim de apoiar um ataque que iria ser feito em Fornovo di Taro, por um Batalhão do 6º RI; os canhões seriam tracionados pelos tratores do IV Grupo, que para isso seriam requisitados, enquanto a Bateria se preparava para partir."
Às 3h, tudo pronto, partimos tendo o jipe do Major Molina como guia. Este deslocamento foi feito com muita cautela, tendo o guia que bater muitas vezes nas casas para saber o caminho, até chegarmos à estrada principal. Nesta, mesmo no escuro, era fácil a caminhada porque estava toda balizada. Ao chegarmos à Cidade de Parma, encontramos algumas ambulâncias que vinham conduzindo cadáveres alemães. Desta cidade em diante a marcha foi mais vagarosa porque era necessário tomar mais precauções, pois nada se sabia da situação. Às 5h chegamos às proximidades de Collecchio e paramos, pois o inimigo havia se retirado desta localidade há 18 horas. Imediatamente depois de tomar todas as providências de segurança, segui com o Major Molina e o Capitão Piza para receber as ordens do Coronel Nelson de Mello, Comandante do Destacamento, que era o Comandante do Batalhão que ia efetuar o ataque. Como a chegada do Batalhão estava prevista só para às 9h e vendo que não havia perigo iminente, fui buscar a Bateria para dentro da cidade, onde, aproveitando a oportunidade, servi a primeira refeição aos pracinhas.
Às 9h chegou o Major Gross a quem me apresentei como Oficial de Ligação e Comandante da Bateria que veio apoiar o ataque. Quero aqui salientar que foi um prazer apoiar pela primeira nesta guerra o Batalhão do meu antigo companheiro de trabalho na EEFE [Escola de Educação Física do Exército]. Ficou então assentado que o ataque só seria desencadeado depois das 12h e que eu tomaria posição antes do início do movimento para estar em condições de atirar a qualquer momento e, mais ainda, que a Companhia de Obuses do 6º RI, comandada pelo Capitão Ventura, iria à retaguarda e só entraria em posição quando fosse necessário. Desta forma procurei logo, na redondeza, um bom lugar para ocupar posição e verifiquei pela carta que podia, se necessário fosse, bater sem mudar de posição até o objetivo final que era Fornovo.
Como toda a cidade estava situada em uma região plana, escolhi uma posição ao lado da estrada por ser de fácil acesso e por ficar abrigada pelas árvores. Abrindo um parêntesis, direi que, ao percorrer esta localidade para a escolha de posição, entrei no castelo que ali existe e fui encontrar, deitado numa cama de campanha, junto à lareira, o cadáver de um tedesco [alemão] com a cabeça enrolada em gaze e com a fisionomia perfeita, parecendo ter falecido àquela madrugada, evidenciando-se que os tedescos, na sua fuga precipitada, não tiveram nem tempo de levar todos os feridos. Ocupada a posição, como não tínhamos dados topográficos, foi a Bateria apontada pela Bússola, ficando os Tenentes Observadores Avançados encarregados de regular o tiro assim que estivessem em condições. A Bateria não havia trazido muitos tiros porque os tratores não comportavam mais do que 35 granadas.
Antes de começar o desenvolvimento do Batalhão, reuni os dois Observadores Avançados, Tenente Sá Earp, que atuaria com a 2ª Cia, e o Tenente Valença, com a 3ª Cia. Estudamos a carta, que aliás quase nada nos indicava pois era na escala de 1/100.000, e tiramos os alcances para os pontos mais fáceis de serem identificados. Tivemos que assim proceder porque era a única carta que tínhamos, tendo portanto os Observadores que seguirem para suas missões verdadeiramente no escuro. A única coisa que fiz foi dar a seguinte ordem: "Agarrem um italiano da região para identificar os pontos." Cada Observador levava a sua equipe e só nos entendíamos pelo rádio.
Às 13h começou a se movimentar pela estrada o Batalhão. Tive a impressão de estar em uma boa poltrona de um dos nossos cinemas, pois foi uma avançada cinematográfica ao encontro do inimigo. Os nossos pracinhas, alegres e cantarolando, apinharam-se em cima dos tanques americanos [M4 Shermans do 760º Batalhão de Tanques] que estavam à disposição do Batalhão. Talvez nenhum dos nossos pracinhas estivessem pensando que a morte poderia surpreendê-los a 2km à frente. Logo atrás vinham os jipes dos Comandantes Avançados. Dos lados das estradas desenvolvia-se a outra Companhia em coluna por um e a Companhia de Obuses ia após os jipes. Assim, ao lado do Comandante do Batalhão, assisti ao desenvolvimento de todos os elementos do Batalhão.
Segui em seguida com o Major Gross para o seu Posto de Comando (PC) Recuado, situado a 1km à frente do ponto de partida, onde almoçamos rapidamente e seguimos logo após para o PC Avançado, a mais 1km. Este PC que era uma casa e serviu também como meu Observatório, pois dali vi o desenrolar dos acontecimentos. Quando os tanques chegaram um pouco além do PC Avançado, começaram a receber tiros dos tedescos, tendo que desbordar para a margem esquerda da estrada. Os Infantes da 2ª Cia começaram a dar combate e progredir em direção a Talignano. A 3ª Cia se deslocou mais para a esquerda, a fim de procurar envolver o inimigo. A Artilharia continuava silenciosa, pois ainda não havia para os Observadores campo de observação. A chuva que desabou repentinamente muito atrapalhou a progressão dos Observadores, porque, com o terreno escorregadio, o transporte do rádio é bastante difícil. Desta forma, só os tanques e a Companhia dos Morteiros auxiliavam os Infantes. Foram os mesmos progredindo até que se apossaram de Talignano e desta forma, pôde o Tenente Sá Earp pedir os primeiros tiros para regular a Bateria.
Eram já 5h e a chuva tinha passado. Ocupada esta localidade, o Tenente seguiu para Gayano juntamente com o Pelotão que para lá se dirigia, não sendo possível chegar tal a intensidade do fogo inimigo. O Tenente Sá Earp presenciou uma triste ocorrência quando o Tenente Monteiro, Comandante do Pelotão de Minas do 6º RI, que ia a seu lado, foi atingido por diversos estilhaços de uma granada que arrebentou em cima deles. Gravemente ferido, foi o Tenente Monteiro logo transportado para a retaguarda. Mais tarde, vim a saber que, ao voltar a si, mandou este recado para sua progenitora: "Diga à mamãe que nunca tive medo." Hoje, o Tenente Monteiro já é Capitão e acha-se completamente restabelecido.
Do meu Observatório, que era o forro da casa, apreciei os tedescos retirando-se de Segalara. Eles corriam para fora da casa, deitavam-se, e logo depois, levantando-se, atiravam com as bazucas [Panzerschreck] contra os nossos pracinhas. Os Generais Cordeiro e Zenóbio, que estiveram lá toda a tarde, observaram também estas cenas.
Certa ocasião, quando os dois Generais acima citados com mais alguns Oficiais se dirigiam para uma casa mais avançada, os tedescos deram uma rajada de metralhadora na direção do PC, que por pouco não os atingia. Em frente ao PC, atrás de uma casa, os nossos morteiros não paravam um instante de atirar.
O Tenente Valença, que estava com a 3ª Cia, continuava desbordando pela esquerda, até que conseguiu, cerca das 20h, chegar a Segalara. Já estava escurecendo e o Tenente Valença pediu tiro fumígeno a fim de poder chegar a Gayano, que era o local de onde partiam os tiros dos tedescos. O Tenente Valença, por ser achar debaixo do fogo inimigo, custou um pouco a regular e, como a insistência dos pedidos para que a Artilharia atirasse era tão contínua, eu, ao lado do Major Gross, sem nada estar vendo, comandei uma rajada para a linha de fogo a fim de mostrar aos tedescos que possuíamos artilharia e acalmar um pouco os nossos. Mais tarde vim a saber que estes tiros foram bastante eficientes, pois o número de soldados inimigos era tão grande que em qualquer lugar que os mesmos caíssem eram sempre eficazes.
Suportaram os nossos Infantes dois contra-ataques dos tedescos e o Tenente Valença, com sua calma peculiar, satisfez todos os pedidos de tiros solicitados. Assim, ajudamos muito a Infantaria a não recuar um palmo sequer.
Cessada um pouco a violência do combate, apareceram na estrada três Oficiais alemães que vinham em nome do General Picô [Otto Fretter-Pico] propor a rendição da já célebre 148ª.
Estava eu no PC Recuado depois de ter ido à Bateria para me alimentar quando estes Oficiais lá chegaram. Daí foram levados ao Coronel Nelson de Mello em Collecchio e começaram então os entendimentos para a rendição. A Bateria atirou até às 5h da manhã do dia 28, hora em que o Comandante do III Grupo deu ordem ao Tenente Rapozo, Comandante da Linha de Fogo, para suspender os tiros.
Tenente-General Otto Fretter-Pico (à esquerda, com binóculos) rendendo-se formalmente ao General Olímpio Falconière da Cunha em nome da divisão expedicionária, 29 de abril de 1945.
Colunas de prisioneiros alemães da 148ª e da 90ª.
Soldado brasileiro, com a cobra fumando no braço, balizando prisioneiros alemães.
Esta noite dormi no PC Avançado juntamente com o Comandante do Batalhão e, à meio-noite, quando conversávamos com o Tenente Americano, que comandava o Pelotão de Tanques, o Major comunicou que talvez não tivéssemos mais que lutar, ocasião em que o Tenente Americano exclamou: "Fine".
Para os artilheiros foi um prazer saber que um dos primeiros pedidos dos Oficiais tedescos era para que os tiros de artilharia cessassem. Na manhã do dia 28 chegaram ao local do PC Avançado o Comandante da Força Expedicionária Brasileira e o Generais Zenóbio Falconière, que vieram receber a rendição.
Às 17h começou o espetáculo que nunca sairá da memória dos que tiveram a felicidade de apreciá-lo:
ERA A RENDIÇÃO DA 148ª
O Coronel Otto von Kleiber em conversações com o Major Altair Franco Ferreira para a rendição da 148ª Divisão de Infantaria, 29 de abril de 1945. (Colorizada)
- Capitão Valmiki Erichsen, A Artilharia na Rendição da 148ª Divisão de Infantaria Alemã, Revista do Exército Brasileiro, Rio de Janeiro, 122 (3): pg. 56-59, julho-setembro de 1985.
A rendição de Fornovo
(Sala de Guerra)
Bibliografia recomendada:
FEB pelo seu Comandante. Marechal J.B. Mascarenhas.