Por Éder Fonseca, Facebook, 30 de maio de 2026.
"Este país não pode dar certo. Aqui, prostituta se apaixona, cafetão tem ciúme e traficante se vicia."
Frase atribuída a Tim Maia.
Paradoxos como esses parecem participar da cultura brasileira. A figura da jabuticaba, fruto existente apenas no Brasil, é frequentemente utilizada como metáfora para fatos e situações que parecem fazer parte apenas do nosso cotidiano, como se fossem singularidades únicas no universo.
A princípio, a História sustenta esse folclore: no Brasil recém independente, a abolição da escravatura já era um assunto bastante debatido. José Bonifácio, o patriarca da Independência, em seu Pronunciamento Contra a Escravatura (1823), defendia abertamente a libertação dos escravos, para escândalo de uma assembléia constituinte formada em sua maioria por senhores:
"É tempo, pois, e mais que tempo, que acabemos com um tráfico tão bárbaro e carniceiro; é tempo também que vamos acabando gradualmente até os últimos vestígios da escravidão entre nós, para que venhamos a formar em poucas gerações uma nação homogênea, sem o que nunca seremos verdadeiramente livres, respeitáveis e felizes!"
Infelizmente, nem o prestígio do Patriarca lhe defendeu contra interesses tão poderosos. Pouco a pouco, os inimigos de Bonifácio minaram sua relação com o Imperador, envenenando-o e convencendo-o a se livrar do velho aliado. Finalmente expulso e exilado, este nem sequer veria terminada a obra que iniciara, a Constituição de 1824.
Porém, engana-se quem pensa que apenas os latifundiários eram adversários da nobre causa abolicionista. Após o comércio se transformar em tráfico pela proibição inglesa, uma burguesia urbana começou a emergir nos grandes centros, notadamente no Rio de Janeiro. Era uma classe média alta que enriquecia a custa do comércio - tráfico - dos infelizes africanos que chegavam nos porões de navios tenebrosos.
O primeiro paradoxo nesta história é que alguns dentre esses traficantes eram... negros ou mestiços, mas não é a isso que pretendo me ater nesta diatribe. Esta burguesia emergente, acumulando riquezas na capital do Império, conquistaria em breve poder político equivalente.
Fragilizada pela abdicação de Pedro I e por revoltas separatistas em várias partes do território, a regência do Padre Feijó cedeu à pressão inglesa pela proibição do tráfico ultramarino e baniu oficialmente o comércio de escravos em 1831. A Lei previa punições severas para traficantes e "importadores", porém estes eram fortes demais e transformaram a lei em letra morta. Daí surge a expressão "lei para inglês ver".
É isso que você acabou de ler: o trafico e comércio de escravos já eram proibidos no Brasil desde 1831. A lei nunca foi revogada, era somente desrespeitada sem repressão eficaz.
Uma das razões para este insucesso, e agora finalmente abordaremos o absurdo a que se destina este texto, foi uma forte campanha dos traficantes em nome da defesa da "soberania nacional" contra a interferência inglesa em nossos assuntos. Sim, o primeiro movimento nacionalista da nossa história foi em defesa dessa infame burguesia que lucrava com o comércio de seres humanos destinados ao trabalho escravo!
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| Parede pichada com as iniciais "C.V", do Comando Vermelho. |
E assim chegamos ao mês de maio de 2026. Uma outra espécie de tráfico empesteia o país. Seus chefes acumulam riquezas e enorme poder, inclusive político, chegando a controlar porções do território que abrigam até um quinto da nossa população. Nestas áreas não há Estado: a soberania é exercida pelos senhores do crime, que possuem até seu próprio sistema de "justiça".
Diante da notícia de que uma nação estrangeira resolveu designar tais facções como terroristas - ou seja, chamando-as pelo seu devido nome, porque é exatamente isto que elas são -, como reage parte significativa de nossa burguesia na política e na imprensa? Rechaçando a medida sob o argumento da defesa da soberania nacional, como se a ameaça a nossa soberania não fosse o domínio de organizações criminosas armadas sobre parte do nosso território, mas o simples fato de um terceiro país denominá-las como terroristas.
É absurdo, mas um absurdo que, como se vê, tem sua lógica enraizada na história do país. Pois uma classe dirigente formada na ladroagem, na espoliação, na exploração econômica da desgraça humana, diante da realidade inescapável do terrorismo criminoso, só poderia se refugiar onde?
Naquele último refúgio que, segundo Samuel Johnson, pertence aos canalhas. A saber, o patriotismo.
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