sexta-feira, 30 de setembro de 2022

ARTE MILITAR: A situação no Extremo Oriente

"A situação no Extremo Oriente em 2022."

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 30 de setembro de 2022.

Mapa da situação geopolítica atual do Extremo Oriente, desenhado pelo ilustrador de Hong Kong apelidado de "Ah To". Trata-se duma recriação de um famoso desenho de jornal chinês chamado "Mapa da situação atual" de 1902. Ilustrado por Tsé Tsan-tai (Xie Zantai, 1872-1939), também de Hong Kong. O mapa de 1902 ilustrou como a China da Dinastia Qing foi dividida entre diferentes potências imperialistas.

A situação atual mostra o expansionismo da China comunista e sua relação com os países na área Ásia-Pacífico. O Urso Russo, agravado pela guerra na Ucrânia, entrega uma carta de amor para o Urso Chinês; representado como o Ursinho Poof, que é o apelido de Xi Jingping. O Urso Chinês é adorado por ursos pandas vestindo roupas de isolamento por causa do coronavírus, enquanto senta em um outro panda como se fosse um trono. A câmera representa a vigilância constante do Estado-policial chinês. Os russos são retratados como ursos polares, são mostrados amarrados nos tanques como escudos-humanos. Um urso panda chinês está mediando a entrega de armamentos norte-coreanos para um urso polar russo.

O Japão afiando a katana é representado como um sol nascente. A China exige soberania sobre o Mar da China Meridional e negocia com os vizinhos. Um panda chinês enjaula Macau e Hong Kong, e um urso com uma pistola na mão ameaça Taiwan, este protegido pela água americana. O Tibete é espancado pelo aparato de Estado, e Xinjiang, onde estão colocando muçulmanos uyghurs em campos de concentração ("re-educação"), é uma imagem desaparecida.

"Mapa da situação atual", 1902.

"Mapa da Situação Atual", também conhecido como "Mapa da Situação no Extremo Oriente" e "Mapa da Situação Atual do Leste Asiático", é um famoso desenho dos assuntos então correntes na China. Naquela época, a China estava à beira de ser dividida por potências estrangeiras, e o autor desenhou este mapa especialmente para policiar o povo chinês sobre o que estava acontecendo.

Bibliografia recomendada:

China's Wars:
Rousing the Dragon, 1894-1949,
Philip Jowett.

Leitura recomendada:

Nos caminhos da influência: pontos fortes e fracos do soft power chinês16 de outubro de 2021.


terça-feira, 27 de setembro de 2022

AGM-158 JASSM. O míssil de cruzeiro inteligente dos Estados Unidos.



FICHA TECNICA
Comprimento: 4,27 m.
Envergadura: Asas fechadas: 0,55 m; Asas abertas: 2,4 m.
Peso: 1020 kg.
Alcance: 370 km (AGM-158A); 925 km (AGM-158B); 1900 km (AGM-158D).
Velocidade: Subsônica (aprox 850 km/h)
Propulsão: Turbojato Teledyne CAE J402-CA-100
Ogiva: 450 kg de penetração tipo WDU-42/B
Sistema de guiagem: Navegação inercial (INS), GPS, Sistema de reconhecimento por imagem infravermelho IR na fase terminal
Plataformas de lançamento: B-1B, B-2A , B-52H, F-15E, F-16, F/A-18, F-35, C-130 e C-17.

DESCRIÇÃO
Por Carlos Junior
Uma das mais recentes armas aerotransportadas desenvolvidas pela indústria bélica dos Estados Unidos é o míssil de cruzeiro AGM-158 JASSM (Joint Air-to-Surface Standoff Missile). O termo "standoff" empregado no nome do míssil diz respeito a sua capacidade de atacar alvos a partir de distancias que excedem a capacidade de defesa ou de contra ataque inimigo. Assim, o AGM-158 permite a um avião de combate convencional, como um F-15, por exemplo, a atacar um alvo que esteja pesadamente defendido por baterias antiaéreas de longo alcance sem expor o avião ao raio de combate dessas armas defensivas aumentando a capacidade de sobrevivência do piloto e sua cara aeronave.
Com um desenho bastante incomum, o AGM-158 foi projetado para ser furtivo, uma vez que as defesas antiaéreas tem sido cada vez mais capazes de destruir misseis de cruzeiro, notadamente os de velocidade subsônicas.

O projeto JASSM teve inicio no meio da década de 90 e visava uma nova arma ar superfície que além da precisão e alcance elevado, também gozasse de capacidade furtiva para que dificultasse as defesas antiaéreas a conseguirem destruir o míssil. Nesse ponto é interessante fazer uma observação. Mísseis de cruzeiro, notadamente os ocidentais, são armas de velocidade subsônica. Isso traz um aumento de vulnerabilidade frente as ameaças antiaéreas modernas, principalmente mísseis MAMPADS (Misseis de defesa antiaérea portáteis, como o míssil Stinger norte americano ou o Igla russo, amplamente empregado pelas forças armadas brasileiras), ou mísseis de médio alcance guiados por radar. Mesmo que esses mísseis de cruzeiro subsônicos voem muito baixo usando o relevo para evitar serem detectados pelos radares inimigos, a verdade é que ainda sim há uma vulnerabilidade relevante. A Rússia, China e Índia seguiram por um caminho diferente e desenvolveram vários modelos de mísseis de cruzeiros supersônicos, sendo que a alta velocidade deles é o elemento que dificulta muito (para não dizer impossibilita completamente) que as defesa antiaéreas possam destrui-los 
Embora o AGM-158 não seja uma arma muito grande, ainda sim, não pode ser transportado no compartimento interno do F-35. Por isso, o F-35 precisará perder sua furtividade e transportar estes mísseis em cabides externos sob as asas.

A abordagem dos Estados Unidos para esta nova arma foi a de manter a velocidade subsônica, porém, colocando furtividade e um sistema de controle de voo e de guiagem que permita, se necessário, manobrar para trocar de alvo em pleno ataque, caso ocorra um alvo de oportunidade de maior valor, ou mesmo, enganar as defesas antiaéreas inimigas caso tenham conseguido detectar ele (furtividade não é invisibilidade, sendo que uma aeronave furtiva pode ser detectada se estiver perto demais de uma antena radar inimiga), para que não  consigam determinar qual alvo, de fato, o míssil irá atacar.
O AGM-158 permite que a aeronave lançadora possa engajar seus alvos a uma distancia segura das defesas anti aéreas inimigas (capacidade stand off) aumentando a capacidade de sobrevivência da aeronave em teatros de operação de alta intensidade.

Com quase 5 metros de comprimento, o AGM-158 não é, digamos .... uma arma pequena. Alias, seu peso também é considerável. São pouco mais de uma tonelada de peso. O AGM-158 é um pequeno avião kamikaze. No lugar de um sistema de propulsão de foguete, ele usa um turbojato Teledyne CAE J402-CA-100 que fornece 300 kg de empuxo, com alta eficiência de consumo de combustível (JP10), o que lhe garante um alcance de 370 km na sua versão básica inicial (AGM-158A). Como deu para perceber na minha ultima frase, esta moderna arma aerotransportada tem versões. Assim, a versão AGM-158B JASSM-ER tem o alcance aumentado para 970 km. Esse aumento de alcance se deu pela substituição do motor da versão A pelo motor Williams International F107-WR-105 que opera de forma mais eficiente e entrega o dobro de potencia e aumentou a quantidade de combustível dentro do míssil, sem, contudo, alterar suas dimensões externas. vale ainda mencionar a versão antinavio batizada de AGM-158C LRASM (Long Range Anti-Ship Missile ou Míssil Antinavio de Longo Alcance) que foi baseada no JASSM-ER, mas que devido a necessidade de substituição do sistema de guiagem, teve modificado o espaço interno da arma o que levou a uma pequena redução no alcance para 560 km (valor estimado).
Todas as aeronaves de combate norte americanas, com exceção do A-10, estão com o AGM-158 integrado. Isso permitiu um enorme aumento da capacidade de combate das aeronaves de fabricação norte americanas. Na foto um F-16C Block 50 da força Aérea da Polônia.

O sistema de guiagem empregado no JASSM é composto por um sistema INS/ GPS com um sistema infravermelho com reconhecimento automático de imagem na fase terminal. A capacidade de precisão desse sistema permite uma margem de erro CEP (Circular Error Probable) de apenas 3 metros do ponto exato pretendido. Para se ter uma ideia, de quanto isso é muito bom, uma bomba com um kit de guiagem por GPS JDAM extremamente popular por ter sido empregado nas ultimas guerras em que os e Estados Unidos tem entrado desde a invasão do Iraque, tem um CEP de 13 metros.
O caça F/A-18E da marinha dos Estados Unidos com um protótipo so AGM-158C LRASM (Long Range Anti-Ship Missile) que deverá substituir o AGM-84 Harpoon na missão de atacar navios inimigos.

A ogiva do AGM-158 é um penetrador WDU-42/B pesando 450 kg e foi projetada para destruir alvos pesadamente blindados como um bunker subterrâneo e pode ter sua configuração de tempo para detonação programada para haver um retardo, permitindo uma maior penetração no alvo antes de detonar os 450 kg da carga explosiva. 
A versão antinavio usa uma ogiva do mesmo peso, porém de um tipo diferente, sendo de penetração com fragmentação, mais indicada para causar sérias avarias em navios.
O B-2A Spirit lançando um míssil AGM-158 em testes.

O AGM-158, em suas diversas versões foi projetado para ser empregado pelos bombardeiros B-1B Lancer, B-2A Spirit, B-52 Stratofortress, caças F-15 Strike Eagle, F-16 Fighting Falcom, F/A-18E Super Hornet, F-35 (usado externamente), Transportadores C-130 Hercules e C-17 Globemaster III. Muito provavelmente a Marinha dos Estados Unidos deverá encomendar uma variante lançada de superfície, no caso, de lançadores verticais MK-41 amplamente disseminados em navios de guerra norte americanos e de muitos de seus aliados.

           

sexta-feira, 23 de setembro de 2022

Incursões paraquedistas na Indochina: duas incursões francesas no Vietnã

Pelo Tenente-Coronel Albert Merglen, Exército Francês.

Military Review, abril de 1958.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 23 de setembro de 2022.

Durante os oito anos de guerra travada pelo Exército Francês no Vietnã contra as forças comunistas do Viet-Minh, as duas ações militares que obtiveram o maior sucesso material e moral - com o mínimo de perdas e no menor tempo - foram as incursões aerotransportadas em 9 de novembro de 1952 em Phu-Doan, e em 17 de julho de 1953 em Lang Son.

Devido à precisão das informações de inteligência, a surpresa e a bravura das unidades engajadas, essas operações nas áreas de retaguarda do inimigo permitiram a captura ou destruição de importantes depósitos de armamentos e munições que apoiavam toda a atividade Viet-Minh no Vietnã do Norte.

O crescente poder destrutivo das armas nucleares pode muito bem levar a um aumento na possibilidade de mais pequenas guerras de "brush fire" (tiroteio no mato).

É por essa razão que o estudo dessas duas operações aerotransportadas francesas apresenta interesse histórico e didático. Em uma aliança, o conhecimento das experiências de um aliado - "fracassos e sucessos" - é a base do aumento da eficiência.

Após um breve esboço da situação geral no Vietnã em outubro de 1952, o planejamento e a execução das incursões serão analisados para incluir as lições aprendidas durante essas operações.

"Parceiros em futuras alianças devem estar preparados para trabalhar e planejar juntos agora, se quiserem atingir o máximo em cooperação. Isso deve incluir a coordenação da organização, o desenvolvimento técnico e as táticas."

A situação geral

Soldado Viet-Minh segurando uma mina Lunge na rua Hàng Đậu, durante a Batalha de Hanói, em dezembro de 1946.

Quando o ataque surpresa Viet-Minh começou em 19 de outubro de 1946 em Hanói, o Exército Francês tinha apenas cerca de 30.000 homens na Indochina (área de cerca de 300.000 milhas quadradas, população, 29 milhões de habitantes). Inicialmente, de 1946 a 1950, a guerra era do tipo "guerrilheiro". Então, lentamente, devido à organização comunista e à ajuda chinesa, uma luta aberta ocorreu do final de 1950 a 1954.

Quando o Alto Comando Viet-Minh lançou a invasão do país Tai no outono de 1952, um equilíbrio de poder fora alcançado. (Figura 1) Os objetivos da operação eram a conquista de uma linha de partida contra o Laos, a ligação com o Sião [Tailândia] e a captura da preciosa safra de ópio.

Figura 1:
O Vietnã em 1952-1953.

Nessa época, o Exército Viet-Minh incluía, além de 300.000 auxiliares locais e 120.000 "guerrilheiros" provinciais, um Exército Regular com seis divisões de infantaria e uma divisão de artilharia de cerca de 100.000 soldados bem equipados e treinados. Em 23 de outubro de 1952, as divisões vermelhas cruzaram o Rio Negro, movendo-se em direção ao sudoeste. O suprimento para essas tropas veio da área de Tuyen Quang, via Yen Bay.

O Alto Comando francês, em vez de dissipar seus esforços em uma defesa frontal, decidiu atingir a linha de comunicações e depósitos inimigos na zona vital de Phu-Doan, entre Tuyen Quang e a baía de Yen. O ataque à baía de Yen, base avançada da ação ofensiva do Viet-Minh contra o país Tai, teria sido a melhor manobra, é claro. No entanto, os meios disponíveis em unidades terrestres e aéreos não eram suficientes para conduzir uma tal operação. Restava apenas a possibilidade de empreender uma ação contra Phu-Doan, a qual recebeu o codinome Lorraine (Lorena).

Realizada em outubro, Lorraine essencialmente era uma incursão terrestre expandida a qual fora iniciada a partir de Vietri. No início de novembro, uma poderosa força-tarefa de infantaria e blindados havia alcançado uma área a cerca de 32 quilômetros a partir da importante encruzilhada de Phu-Doan, onde estradas e vias fluviais se uniam para permitir o abastecimento da ofensiva do Viet-Minh.

O Tenente Hélie de Saint Marc, Capitão Merglen (autor) e o Capitão Bloch, então comandante do 2e BEP, em Na San, no final de 1952.
(Frans Janssen
 / NLLegioen).

A Operação de Phu-Doan

Figura 2:
A Incursão Aeroterrestre sobre Phu-Doan,
9 de novembro de 1952.

Decidiu-se lançar uma operação aerotransportada de tamanho de equipe de combate regimental (regimental combat team, RCT) em cada lado do rio Song-Chay para assegurar a destruição dos depósitos e instalações do inimigo.  Uma coluna motorizada deveria efetuar a junção com a força aerotransportada (Figura 2).

O conceito da operação foi de, na manhã de 9 de novembro, lançar a força primeiro para tomar o cruzamento da estrada sobre o rio e a encruzilhada, e então destruir os depósitos inimigos. A força-tarefa infantaria-blindados, que iniciara o seu movimento durante a noite anterior, deveria realizar junção com os paraquedistas durante a noite. A totalidade da aérea seria limpa sistematicamente por alguns dias antes do recuo para Vietri. Era sabido que o inimigo possuía forças consideravelmente fortes na região de Phu-Doan.

A força-tarefa aerotransportada incluiu três batalhões (1º e 2º Batalhões Estrangeiros de Paraquedistas da Legião Estrangeira e o 3º Batalhão de Paraquedistas Coloniais), dois pelotões cada um com três canhões sem recuo de 75mm, um pelotão de engenharia com equipamento de cruzamento de rios, e um pelotão de demolição. Disponíveis para a operação estavam 53 aviões C-47 Dakota, os quais fariam duas missões cada, e usariam Hanói como aeródromo de partida.

O plano previa o lançamento simultâneo de dois batalhões às 09:30, um deles com o quartel-general da força em um zona de lançamento (ZL) ao norte do rio Song-Chay, e o outro em uma zona de lançamento ao sul do rio. O lançamento seria realizado após a neutralização das aldeias limítrofes por aviões de combate e sob a proteção de bombardeiros B-26 que circulavam sobre a área durante a operação. Às 12:30, outro batalhão deveria ser lançado na zona de lançamento do norte. A altitude do salto foi de 600 pés. As zonas de lançamento seriam marcadas com granadas de fumaça lançadas por um avião de busca três minutos antes do vôo dos primeiros seriados.

A condução da operação

Velames enchem o céu,
Visão comum na Indochina.

A operação ocorreu conforme o planejado - 2.354 paraquedistas capturaram a cabeça-aérea ao custo de um morto e 16 feridos. Às 17:00h foi feita a ligação com a força-tarefa motorizada, a qual assumiu o comando da força aerotransportada. 

Importantes depósitos de armamento, munição e suprimentos foram encontrados. O seguinte material foi recuperado:

  • 34 morteiros
  • 30 lança-foguetes antitanque
  • 14 metralhadoras
  • 40 submetralhadoras
  • 250 fuzis
  • dois canhões sem recuo de 57mm

Pela primeira vez, um caminhão russo "Molotova" foi capturado. Os paraquedistas realizaram a limpeza da área, destruíram fábricas de armamento e depósitos de alimentos e enviaram patrulhas de longo alcance na direção de Yen Bay com bem poucas perdas. Em 6 de novembro, após uma semana de operação, eles foram trazidos de volta em caminhões para Hanói.

Lançamento de paraquedistas de aviões Dakota, 1952.

Infelizmente, este belo sucesso foi limitado por um revés de última hora. Quando a força-tarefa terrestre da Operação Lorraine se retirou dois dias depois, conforme planejado, a retaguarda foi emboscada por dois regimentos Viet-Minh e perdeu os homens e material.

Esta operação destacou o fato de que, embora a captura de depósitos nas áreas de retaguarda do inimigo seja relativamente fácil por uma operação aerotransportada, é muito perigoso ficar lá por muito tempo, exposto a um contra-ataque concentrado pelas reservas inimigas. A Operação Lorraine, realizada com forças fracas, conseguiu apenas atrasou a ofensiva do Viet-Minh no país Tai, e não a deteve. A capital, Son La, foi capturada pelo inimigo antes do final de novembro, e o Comando francês foi obrigado a reagrupar suas unidades isoladas ao redor do aeródromo de Na San.

Os batalhões paraquedistas, que haviam saltado em Phu-Doan, foram transportados por via aérea para Na San dois dias após seu retorno a Hanói. O General Gilles, comandante das forças aerotransportadas no Vietnã do Norte, assumiu o comando das forças de defesa. Três divisões do Viet-Minh tentaram em vão tomar de assalto Na San e foram forçadas a se retirar do país Tai com pesadas perdas.

A Operação de Lang Son

Caporal-chef Auguste Apel, da Legião Estrangeira,
em Na San, 13 de dezembro de 1952.

Durante a primavera de 1953, uma nova ofensiva do Viet-Minh no Laos falhou em uma campanha na qual os batalhões paraquedistas novamente se destacaram. Um grau de equilíbrio de poder foi alcançado. As forças do Viet-Minh, no entanto, estavam recebendo crescente assistência da China comunista. Para cortar esse fluxo logístico, foi planejada uma operação aerotransportada, chamada Hirondelle (Andorinha). O objetivo da operação era Lang Son, uma importante instalação de estoque de suprimentos na área de retaguarda do inimigo (Figura 3).

O problema era capturar a cidade e os depósitos bem guardados, e destruir materiais e instalações. Tudo isso teria que ser realizado e a força aerotransportada retornada ao território amigo, antes que as tropas do Viet-Minh pudessem reagir. O terreno, montanhoso e arborizado com poucas estradas e trilhas, apresentava dificuldades adicionais.

Paraquedista do 3e BPC é atingido durante o assalto ao ponto de apoio 24 em Na San, 1º de dezembro de 1952.

O inimigo tinha disponível em Lang Son um batalhão local e duas companhias provinciais, além de algumas unidades antiaéreas leves na fronteira chinesa, a uma distância de cerca de 13 quilômetros. Elementos de uma divisão de infantaria, localizada perto de Thai Nguyen, poderiam estar disponíveis em aproximadamente 48 horas. Entre Lang Son e Tien Yen, oito companhias provinciais estariam em condições de reagir durante o primeiro dia, e de quatro a seis batalhões no segundo dia. Era, portanto, imperativo que a operação fosse completada o mais rápido possível.

O conceito da operação

Figura 3:
Incursão Aeroterrestre sobre Lang Son,
17 de julho de 1953.

O conceito da operação, anunciado pelo General Gilles, era executar um ataque aerotransportado na manhã de 17 de julho [de 1953] para capturar e destruir os depósitos próximos a Lang Son e a encruzilhada sobre o rio Song-Ky-Cung. Esta travessia, nas cercanias de Loc-Binh, constituía o ponto essencial para a retirada. Uma ação terrestre auxiliada por unidades atacando a partir de Tien Yen deveria ocorrer de 17 a 21 de julho para permitir o recuo da força paraquedista através de Loc-Binh e Dinh-Lap, para Tien Yen.

A força-tarefa aerotransportada incluía um quartel-general, três batalhões (6º e 8º Batalhões de Paraquedistas Coloniais, e o 2º Batalhão Paraquedista da Legião Estrangeira), e um pelotão de engenharia com 14 botes pneumáticos. As colunas de coleta ou junção consistiam de três batalhões de infantaria, três "comandos" [batalhões de comandos], um pelotão de tanques e uma companhia de engenharia com três escavadeiras. Um batalhão paraquedista e uma bateria de canhões sem-recuo de 75mm (aerotransportada) foram mantidos em reserva nos aeródromos de partida em Hanói.

Durante a Operação "Hirondelle", três pára-quedistas coloniais (incluindo o "melhor caçador do batalhão", no meio) do 8º GCP (Groupement de Commandos Parachutistes) posam ao pé de um poste de sinalização em Lang Son.

O sucesso da operação dependeria da completa surpresa quanto a data e local da incursão. Por esta razão, todo o planejamento preparatório foi realizado no máximo sigilo pelo comandante da força, auxiliado apenas por um oficial do G2 [inteligência]. As ordens do G3 [operações] foram dadas por escrito em 15 de julho; as unidades foram alertadas às 14:00h em 16 de julho e confinadas aos quartéis. Às 15:00h de 16 de julho, as instruções dos comandantes de batalhão foram realizadas.

Dado que os batalhões paraquedistas podiam levar consigo apenas armas leves e equipamentos orgânicos, o apoio aéreo foi planejado cuidadosamente. Aviões de caça deveriam atacar todas as instalações e postos de observação detectados em fotografias aéreas, os quais poderiam intervir nas zonas de lançamento. Esta ação deveria ocorrer 15 minutos antes da hora do salto. Apoio de fogo aéreo durante o salto e a subsequente reorganização deveria ser fornecidoAlém disso, provisão foi feita para cobertura de metralhamento e bombardeamento contínuos e para iluminação noturna por chamada por bombardeiros seriados.

O médico-chefe do 6e BPC, o Tenente Rivière, observa o lançamento de paraquedistas às 8:10h da manhã de 17 de junho de 1953, durante a Operação Hirondelle, em Lang Son.

A incursão começou em 17 de julho às 08:10h quando o quartel-general e dois batalhões foram lançados de 56 transportes C-47 próximo a Lang Son. Às 12:00h, próximo a Loc-Binh, o terceiro batalhão com o pelotão de engenharia anexado saltou de 29 transportes C-47.

A operação ocorreu conforme o planejado. As unidades Viet-Minh foram completamente surpreendidas. A polícia local e as companhias provinciais fugiram. Apenas os destacamentos de guarda dos depósitos resistiram resolutamente. Depósitos importantes foram descobertos e preparados para destruição por equipes especiais. Uma grande quantidade de material foi capturada.

Às 16:00h, os depósitos foram destruídos e todas as estradas levando para o sul e o norte foram minadas. Os dois batalhões em Lang Son iniciaram a sua retirada. Enquanto isso, o batalhão de Loc-Binh havia assegurado a travessia do rio Song-Ky-Cung e estava protegendo o flanco contra movimentos vindos da fronteira chinesa.

Retirada das unidades paraquedistas que participaram do ataque aos depósitos do Viet-Minh em Lang Son, passando por colunas de civis.
Durante a incursão, cerca de 200 civis de Lang Son aproveitaram a inesperada presença dos paraquedistas franceses para fugir sob sua proteção da região que estava sob administração do Viet-Minh desde 1950.

Às 23:00h de 18 de julho, os primeiros batedores da força aerotransportada encontraram, nas cercanias de Dinh-Lap, a coluna terrestre lutando desde Tien Yen. Os engenheiros foram capazes de reparar a estrada sinuosa para um certo grau e caminhões levaram os paraquedistas de volta nas últimas horas de luz de 19 de julho. Na manhã de 20 de julho, as unidades aerotransportadas foram embarcadas em LCT (Landing craft tank / embarcação de desembarque para tanques) para serem trazidos de volta para Haiphong, e então de caminhão novamente para Hanói. Dos 2.001 paraquedistas que saltaram na operação, as perdas foram extremamente leves: um morto, um desaparecido, três morreram de exaustão durante a marcha, e 21 feridos.

Este notável sucesso, considerando as pequenas forças engajadas, tiveram uma repercussão profunda no Vietnã do Norte. O esforço de guerra Viet-Minh foi dificultado de forma notável na área vital do Delta do Rio Vermelho. Uma onda de confiança se espalhou pela população amigável e o exército.

Lições Gerais

Militares do 6e BPC durante a incursão de Lang Son.
Da esquerda para a direita: Sergent-Chef Balliste, Sergent Gosse e o Adjudant Prigent (todos os três morreram mais tarde em Dien Bien Phu), e o cabo Cazeneuve, que seria um dos poucos sobreviventes da 12ª Companhia.

As duas incursões aerotransportadas brevemente descritas foram cumpridas em um teatro de operações de um tipo particular. É, portanto, difícil de tirar delas lições gerais válidas para todos os tipos de guerra. Entretanto, alguns pontos são dignos de ênfase e poderiam ser aplicados em outros teatros.

Primeiro, inteligência é extremamente importante e deve ser centralizada no mais alto nível de comando para que possa ser adaptada a situação, sempre em mudança. Devido a uma pesquisa minuciosa combinada com um questionamento de milhares de refugiados, a agência de inteligência em Hanói obtivera sucesso em desenhar uma imagem exata, precisa e detalhada das zonas de lançamento e suas proximidades, e da localização e força das unidades inimigas. Os oficiais de inteligência têm uma tremenda responsabilidade em operações desse tipo.

Segundo, se a informação é correta, é relativamente fácil operar nas áreas de retaguarda do inimigo. É muito difícil para o alto comando inimigo ter uma apreciação clara da situação, particularmente se os incursores aerotransportados não permanecerem no mesmo lugar, mas se moverem imediatamente. O problema mais difícil é aquele de retornar ao território amigo. Em algumas circunstâncias, e em zonas difíceis, é possível dividir a força aerotransportada em pequenos grupos para ou permanecer em território inimigo, ou para retornar a território amigo.

Paraquedistas do 8e GCP cobrindo uma esquina com um fusil-mitrailleur 24/29 durante a incursão de Lang Son.

Terceiro, todos os objetivos são adequados para um ataque aéreo, sejam eles militares, políticos ou econômicos. A sabotagem de uma usina de pesquisa industrial pode ser tão importante para a vitória final quanto a eliminação de um governo "quisling" (colaboracionista).

Quarto, deve-se ter em mente que as variadas possibilidades de ataques aéreos só podem ser realizadas quando os meios necessários – isto é, unidades aerotransportadas treinadas e aviões em qualidade e número necessários – estiverem disponíveis. O Alto Comando Francês no Vietnã sempre teve consciência da vantagem de usar paraquedistas. Em dezembro de 1950 eram 6.000; em 1951 cerca de 11.000; e em 1954 mais de uma dúzia de batalhões escolhidos, metade deles no exército vietnamita, estavam disponíveis com unidades de apoio aéreo de artilharia, engenheiros, sinais e corpo médico. A maior escassez foi em aeronaves. Esta é uma lição a ser lembrada: não basta ter muitas unidades aerotransportadas bem treinadas quando o número correspondente em aviões não está garantido. Quinto, a incursão aerotransportada envolve um risco calculado. No entanto, se realizada com imaginação e ousadia, os benefícios superam em muito o risco envolvido.

Conclusão

Uma incursão aerotransportada tem muitas vantagens no caso de uma guerra localizada e particularmente no início de um conflito. O exército que é provido de tropas aerotransportadas treinadas e aviões de assalto e transportadores de tropas suficientes possui grande flexibilidade. Uma operação aerotransportada ou um grande número de incursões aerotransportadas podem muito bem permitir a realização de objetivos vitais que de outra forma exigiriam grandes forças terrestres e extensas operações. Para atingir o máximo em cooperação, os parceiros em futuras alianças devem estar preparados para trabalhar e planejar juntos agora. Um esforço comum de organização, de desenvolvimento técnico e de compreensão doutrinária seria de grande benefício. Os paraquedistas franceses, com muitas ações galantes em seu nome, estão prontos e imbuídos do lema: Quem ousa, vence!

- x -

"Novos recursos de poder de fogo e mobilidade, além de novos e aprimorados meios de controle, permitem ampla flexibilidade na seleção do plano de manobra. As táticas devem ser projetadas para localizar o inimigo, determinar sua configuração, lançar fogos apropriados em alvos adquiridos e explorar as situações resultantes com forças altamente móveis. Em um nível estratégico, as forças devem ser organizadas e equipadas para que possam ser entregues por transporte aéreo ou de superfície a qualquer área do mundo para engajamento em situações atômicas ou não-atômicas em qualquer tipo razoável de terreno. Deve ser fornecido transporte aéreo e de superfície adequados. O tempo de intervenção inicial, particularmente em guerras limitadas, pode ser tão importante quanto o tempo necessário para cercar uma força considerável."

- General-de-Brigada T. F. Bogart.

Bibliografia recomendada:

Histoire des Parachutistes Français:
La guerre para de 1939 à 1979,
Henri Le Mire.

Leitura recomendada:

O primeiro salto da América do Sul13 de janeiro de 2020.

ARTE MILITAR: Cenas da Guerra da Indochina por Filip Štorch, 2 de maio de 2021.

GALERIA: Escola de paraquedismo indochinesa17 de março de 2022.

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segunda-feira, 19 de setembro de 2022

FOTO: Soldados chineses pró-japoneses

Soldados chineses de um dos vários exércitos fantoches do Mikado, anos 1940.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 19 de setembro de 2022.

Soldados chineses pró-japoneses, dois deles armados com submetralhadoras SIG M1920 "Brevet Bergmann" (MP18 fabricados na Suíça), em um local e data sem precisão nos anos 1940. Eles são equipados em um estilo principalmente japonês, com um deles à esquerda usando um capacete alemão M35 que era do Exército Nacionalista Kuomintang (KMT) do Generalíssimo Chiang Kai-shek.

As divisões "alemãs" do Generalíssimo, aconselhadas pela missão militar alemã do General Hans von Seeckt, foram aniquiladas pelos japoneses em Xangai em 1937, com os sobreviventes e homens recrutados pós-fato sendo incorporados pelo Mikado japonês, o que poderia localizar essas tropas em Nanquim; portanto, sendo soldados do Governo Provisório/Reformado de Wang Jingwei.

Original em preto e branco.

A China possuía muitos exércitos, sendo dominada por senhores da guerra sem fidelidade definida. Os vários exércitos pró-japoneses são aglutinados sob o termo "Exército Chinês Colaboracionista", referindo-se às forças militares dos governos fantoches fundados pelo Japão Imperial na China continental durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa e a Segunda Guerra Mundial. Eles incluem os exércitos dos Governos Nacionais Provisórios (1937-1940), Reformados (1938-1940) e Reorganizados da República da China (1940-1945), que absorveram os dois primeiros regimes.

Essas forças eram comumente conhecidas como tropas fantoches, mas receberam nomes diferentes durante sua história, dependendo da unidade e lealdade específicas, como Exército Nacional de Construção da Paz (Hépíng jiànguó jūn和平建国军). No total, estimou-se que todas as forças chinesas colaboracionistas pró-japonesas combinadas tinham uma força de cerca de 683.000; no entanto, o valor real dessas tropas era mínimo e jamais contaram com a confiança japonesa e sempre lutaram sob estrita supervisão de seus mestres do Mikado.

Uma curiosidade foi os governos fantoches declararem o monopólio da luta anti-comunista para esvaziar o apelo do KMT, que era a principal resistência anti-japonesa. No entanto, a China era um país sempre em um estado de fome perpétua, com a a grande maioria dos soldados "fantoches" servia apenas para arroz no seu prato, e não se importava com as razões de estar em uniforme.

Wang Jingwei com oficiais do exército de Nanquim.

Bibliografia recomendada:

Rays of the Rising Sun:
Armed forces of Japan's Asian allies 1931-1945,
Volume 1: China e Manchukuo,
Philip S. Jowett.

Leitura recomendada:



A Venezuela envia mensagens contraditórias aos insurgentes colombianos


Do site Insight Crime, 30 de março de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 19 de setembro de 2022.

Uma série recente de operações militares venezuelanas no estado de Apure expôs mais uma vez a complexa relação entre o governo venezuelano e os grupos insurgentes da Colômbia acampados nas regiões fronteiriças do país – e mais confrontos armados devem ser esperados.

O último conflito começou na madrugada de 21 de março, quando membros da Força Armada Nacional Bolivariana (Fuerza Armada Nacional Bolivariana – FANB) realizaram uma operação militar contra militantes colombianos no município de José Antonio Páez, região fronteiriça de Apure.


De acordo com um comunicado oficial do Ministério da Defesa venezuelano, a operação Escudo Bolivariano 2021 teria resultado na captura de 32 membros de um grupo armado irregular, na destruição de 6 campos, na apreensão de importantes materiais de guerra e na morte de um dos líderes do grupo, conhecidos como “Nando”.

Segundo o departamento de defesa, que disse que o país teria "tolerância zero" para essas estruturas criminosas na Venezuela, dois soldados também morreram nos confrontos.

Embora o exército venezuelano não tenha identificado o grupo armado irregular envolvido, a mídia regional e os moradores locais disseram que os combates na região estão relacionados à perseguição do Estado a ex-membros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia – FARC ), o grupo guerrilheiro que se desmobilizou em 2016 após a assinatura de um acordo de paz.

Líderes da Décima Frente em Apure durante uma transmissão televisiva lançada em 4 de setembro de 2019.

Os ex-combatentes das FARC na região pertencem à 10ª Frente, liderada por Jorge Eliécer Jiménez, conhecido como “Jerónimo” ou “Arturo”, que coordena diversas operações criminosas na fronteira entre Apure e o departamento colombiano de Arauca.

Após a operação militar, os combatentes da 10ª Frente não hesitaram em retaliar. Na noite de 23 de março, um grupo deles lançou explosivos na sede do Serviço Nacional Integrado de Administração Aduaneira e Tributária da Venezuela (SENIAT), no setor La Victoria do estado de Apure. O ataque foi acompanhado por mensagens gravadas e panfletos da facção dissidente anunciando futuros ataques.

Análise do Insight Crime

Narco-guerrilheiro das FARC capturado pelo Exército Venezuelano.

Esta não é a primeira vez que o exército venezuelano dispara contra guerrilheiros colombianos e outros criminosos no país. Vários confrontos armados entre eles refletem uma relação marcada por ganhos e perdas criminais, ressaltando que os confrontos armados provavelmente continuarão.

O Exército de Libertação Nacional (Ejército de Liberación Nacional – ELN), o antigo grupo rebelde colombiano, e os dissidentes das FARC entraram em conflito armado com as forças armadas da Venezuela.

Por exemplo, a prisão em novembro de 2018 do comandante do ELN, Luis Felipe Ortega Bernal, conhecido como “Garganta”, resultou na morte de quatro membros da Guarda Nacional Bolivariana (Guardia Nacional Bolivariana – GNB). De acordo com investigadores locais que conversaram com a InSight Crime, o confronto no município de Puerto Ayacucho, no estado do Amazonas, foi produto de um desacordo econômico entre os dois lados.

Dois anos depois, em dezembro de 2020, Garganta recuperou sua liberdade e continuou coordenando operações ilegais.

Os militares da Venezuela também foram atrás dos ex-FARC antes do recente confronto. Em setembro de 2020, unidades militares atacaram três acampamentos pertencentes à 10ª Frente nos setores Três Esquinas, Mata de Bambú e Las Palmitas de José Antonio Páez. Apesar desses ataques, a presença da facção não foi alterada.

Uniformes e braçadeiras das FARC capturados pelos venezuelanos.

Da mesma forma, a FANB foi mobilizada no final de janeiro como parte da Operação JIWI 2021 para expulsar as estruturas dissidentes das FARC presentes em Apure e Amazonas. Segundo a jornalista local Sebastiana Barráez, os confrontos estavam relacionados a interesses particulares do ELN e de outra estrutura dissidente das FARC, a Segunda Marquetalia, que administra negócios ilícitos nessas regiões.

As relações entre os vários grupos insurgentes colombianos e o governo venezuelano tornaram-se cada vez mais complexas. Embora o governo insista que não tolerará esses grupos em solo venezuelano, a presença de militantes colombianos acampados na Venezuela, bem como de empresas ligadas a eles, contradiz essa afirmação.

Em algumas regiões estratégicas da Venezuela, o ELN e os ex-FARC criaram consórcios criminosos com o Estado venezuelano em torno do controle da mineração ilegal e do tráfico transnacional de drogas.

Milicianos Bolivarianos em ação de presença anti-guerrilheira em Apure, 13 de fevereiro de 2022.
Os milicianos estão armados com fuzis FAL.

Além disso, os vários grupos insurgentes e criminosos na região fronteiriça venezuelana também entraram em conflito. A Segunda Marquetalia e o ELN, por exemplo, entraram em confronto com células ex-FARC da 10ª Frente, razão pela qual compartilham o interesse em expulsar essa facção dissidente da área de fronteira.

No momento, a única coisa concreta que essas operações militares conseguiram foi uma crise humanitária. Segundo dados do Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da Colômbia (OCHA), mais de 4.741 pessoas foram deslocadas pelas balas e bombas que choveram sobre Apure.

Bibliografia recomendada:

GUERRA IRREGULAR:
Terrorismo, guerrilha e movimentos de resistência ao longo da história,
Alessandro Visaco.

Leitura recomendada: