quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Os amantes cruéis da humanidade

Uma viúva em luto chorando sobre um saco plástico contendo os restos mortais do marido, em fevereiro de 1968. Ele foi morto durante o massacre de Hue, quando as forças viet congs ocuparam a cidade durante a Ofensiva do Tet; ele encontrado em uma vala comum nos arredores da cidade. (Larry Burrows/ LIFE Magazine)

Por Paul Johnson, Wall Street Journal, 5 de janeiro de 1987.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 28 de setembro de 2018.

[Nota: Datas entre colchetes não estão no original.]

Nos últimos 200 anos, a influência dos intelectuais cresceu de forma constante. Ele sempre esteve lá, é claro, pois em suas encarnações anteriores, como sacerdotes, escribas e adivinhos, os intelectuais reivindicaram guiar a sociedade desde o começo. Desde o tempo de Voltaire [1694–1778] e Rousseau [1712–78], o intelectual secular preencheu a posição deixada pelo declínio do clérigo, e está se mostrando mais arrogante, permanente e acima de tudo mais perigoso que sua versão clerical.

Foi Percy Bysshe Shelley quem, em seu tratado de 1821 “Em Defesa da Poesia”, articulou pela primeira vez o que eu poderia chamar de Direito Divino dos Intelectuais. “Poetas”, escreveu ele, “são os legisladores não reconhecidos do mundo”. Essa alegação é agora tomada como garantida pelo grande corpo amorfo que se vê como “os intelectuais” ou “a intelligentsia”. A influência prática dos intelectuais se expandiu enormemente desde então. Como Lionel Trilling [1905–75] coloca, “o intelecto se associou ao poder como talvez nunca antes na história, e agora é reconhecido como um tipo de poder”.


Eu acredito que a porção reflexiva da humanidade é dividida em dois grupos: aqueles que estão interessados nas pessoas e se preocupam com elas; e aqueles que estão interessados em ideias. O primeiro grupo forma os pragmatistas e tende a fazer os melhores estadistas. O segundo são os intelectuais; e se o seu apego às ideias é apaixonado, e não apenas apaixonado, mas programático, é quase certo que abusem de qualquer poder que adquiram. Pois, em vez de permitir que suas ideias de governo emerjam das pessoas, moldadas pela observação de como as pessoas realmente se comportam e o que realmente desejam, os intelectuais invertem o processo, deduzindo suas ideias primeiro do princípio e tentando impô-las a homens e mulheres vivos.

Quase todos os intelectuais professam amar a humanidade e trabalhar por sua melhoria e felicidade. Mas é a ideia de humanidade que eles amam, em vez dos indivíduos que a compõem. Eles amam a humanidade-em-geral, ao invés de homens e mulheres em particular. Amando a humanidade como uma ideia, eles podem então produzir soluções como ideias. Aí reside o perigo, pois quando as pessoas entram em conflito com a solução-como-ideia, elas são primeiro ignoradas ou descartadas como não-representativas; e então, quando as pessoas continuam a obstruir a ideia, elas são tratadas com crescente hostilidade e categorizadas como inimigas da humanidade-em-geral. Assim, o caminho é aberto para o que W.H. Auden [1907–1973], um típico intelectual cabeça-dura de seus dias, chamou com aprovação de “o assassinato necessário”. “A liquidação de inimigos de classe”, para usar a expressão leninista, e “a solução final”, como dizem os nazistas, são o ponto terminal do processo intelectual.

José "Pepe Caliente" Rodriguez, ex-cabo do exército de Fulgêncio Batista, recebe os últimos ritos do padre Domingo Lorenzo no castelo de San Severino, em Matanzas, 17 de janeiro de 1959.

A insensibilidade às necessidades e opiniões de outras pessoas é, de fato, uma característica daqueles apaixonadamente preocupados com ideias. Pois seu principal foco de atenção é, naturalmente, a evolução dessas ideias em suas próprias cabeças; eles se tornam, no sentido pleno, egocêntricos. A indiferença ou hostilidade do intelectual não se dirige apenas àqueles que não se encaixam em seus esquemas para a humanidade-em-geral, mas também àqueles em seu próprio círculo que, por uma razão ou outra, se recusam a desempenhar seus papéis atribuídos na sua vida.

O Explorador Hábil

Quanto mais estudo as vidas dos principais intelectuais, mais percebo a devastação de um flagelo comum e debilitante, que chamo de crueldade das ideias. A ascensão do novo intelectual secular produziu alguns espécimes notáveis.

Shelley (1792–1822) foi o protótipo, no que diz respeito aos países anglo-saxões, do moderno intelectual progressista ocidental. Ele cunhou a noção do direito dos intelectuais de influenciar eventos públicos. O poeta, e por extensão a classe intelectual como um todo, era o verdadeiro legislador, porque tinha uma pureza em sua devoção a idéias, não aberta aos homens do mundo, o barro comum: Ele era desinteressado. Mas Shelley exibiu, em sua própria vida, o que pode ser visto como uma falha característica dos intelectuais progressistas: a incapacidade de igualar sua benevolência geral a seu comportamento particular. Seu tratamento em relação a praticamente todo ser humano sobre o qual ele era capaz de exercer algum poder emocional ou físico era, pelos padrões do barro comum que ele desprezava, atroz. Qualquer mariposa que chegasse perto de sua feroz chama era chamuscada. Sua primeira esposa, Harriet, e sua amante, Fay Godwin, cometeram suicídio quando ele as abandonou. Em suas cartas, ele denunciou suas ações por lhe causar aflição e inconveniência. Parece que ele estava prestes a abandonar sua segunda esposa, Mary (a autora de “Frankenstein”), quando sua morte por afogamento acabou com seu poder de machucar. Seus filhos com Harriet foram feitos guardas da corte. Ele os apagou completamente de sua mente, e eles nunca receberam uma única palavra de seu pai. Outra filha, uma bastarda, morreu em um hospital em Nápoles, onde ele a abandonou.

Shelley foi particularmente hábil em explorar mulheres e criados. Ele arruinou a vida de uma professora, Elizabeth Hitchener, seduzindo-a tanto para a sua cama quanto para seus esquemas políticos, meteu-a em problemas com a polícia, pegou emprestado 100 libras de suas economias (que nunca foram pagas) e depois a abandonou, denunciando a sua visão estreita e egoísmo. Ele deixou um rastro de outras vítimas, a maioria proprietárias humildes e comerciantes. Ele sempre teve criados, mas poucos foram pagos.

As depredações de Shelley nunca abalaram sua soberba confiança no que ele chamou de “minha integridade testada e inalterável”. Críticas, não obstante bem documentadas, tornavam-no frio: “Eu rapidamente recuperei a indiferença”, escreveu ele, “que a opinião de qualquer coisa ou de qualquer pessoa que não seja a nossa consciência merece.” Explicando a um amigo por que ele estava abandonando sua esposa e fugindo com outra mulher, ele escreveu: “Estou profundamente convencido de que, assim habilitado, [eu] me tornarei um amigo mais constante, um amante mais útil da humanidade, um defensor mais ardente da verdade e da virtude.”

Karl Marx.

Karl Marx (1818–1883) foi outro exemplo de um homem que se convenceu de que era seu dever colocar ideias na frente das pessoas. Daí a sua implacável e muitas vezes irrefletida crueldade para com aqueles que o rodeavam tornou-se uma espécie de longínquo presságio da crueldade em massa que as suas ideias promoveriam quando finalmente se tornassem o modelo da política estatal soviética. Seu pai, que tinha medo dele, detectou a falha fatal: “Em seu coração”, ele escreveu a seu filho, “o egoísmo é predominante". Marx era particularmente odioso com sua mãe, que o repreendeu por sua imprevidência financeira e tentativas incessantes de cobrar dinheiro. Que pena, ela observou, que ele não tentou adquirir capital em vez de escrever sobre ele.

Havia uma enorme lacuna entre as ideias igualitárias de Marx e o modo como ele realmente se comportava. De uma forma ou de outra ele herdou somas consideráveis de dinheiro. Ele nunca teve menos de dois criados. Ele tinha horror ao que chamou de “uma configuração puramente proletária”. Ele fez sua esposa mandar cartões de visitas em que ela foi descrita como “née Baronesse Westphalen”. Ele não deixou suas três filhas se formarem em nenhuma profissão ou aprenderem qualquer coisa, exceto tocar piano. Ele manteve as aparências, empenhando a prata e até mesmo os vestidos de sua esposa. Ele seduziu a criada de sua esposa, com quem teve um filho, e então obrigou Friedrich Engels a assumir a paternidade. A filha de Marx, Eleanor, uma vez soltou um cri de coeur [grito do coração] em uma carta: “Não é maravilhoso, quando você chega a olhar as coisas diretamente no rosto, quão raramente parecemos praticar todas as coisas boas que pregamos — para os outros?” Mais tarde ela cometeu suicídio.

Marx, Engels e as filhas de Marx.

Toda a vida de Marx foi um exercício de exploração emocional ou financeira — de sua esposa, de suas filhas, de seus amigos. Estudar a vida de Marx nos leva a pensar que as raízes da infelicidade humana, e especialmente a miséria causada pela exploração, não estão na exploração por categorias ou classes — mas na exploração de um-para-um por indivíduos egoístas. Tampouco essa indiferença para com os outros é uma mera falha humana em um grande homem público. É central para o trabalho de Marx. Ele não estava realmente interessado em seres humanos reais, como eles se sentiam ou o que eles queriam. Ele nunca conheceu um membro do proletariado, exceto do outro lado da tribuna do orador em uma reunião pública. Ele nunca fez uma visita a uma fábrica de verdade, rejeitando as ofertas de Engels para organizar uma. Ele nunca procurou encontrar ou interrogar um capitalista, com a exceção solitária de um tio na Holanda. Da primeira à última, sua fonte de informações eram livros, especialmente os livros de relatórios governamentais.

Um bom homem, mas…

Vladimir Ilyich Ulianov "Lênin".

Não é por acaso, penso eu, que Lenin [1870–1924] nunca pôs os pés em uma fábrica até se tornar o ditador soviético, e nunca, até onde sabemos, teve qualquer contato real com os trabalhadores cujas vidas ele reivindicou o direito de transformar. Ele, também, era um socialista de biblioteca. Stalin tampouco procurou o operário ou o camponês para descobrir o que ele realmente queria; ele também era um grande devorador de colunas estatísticas. Que massa de fatos esses monstros ingeriram antes de irem devorar carne humana! Pode-se dizer que o caminho para o Gulag é pavimentado com teses de doutorado não-escritas.

Muitos, é claro, lamentaram a maneira como o marxismo reflete a indiferença de seu fundador em relação às pessoas como seres humanos vivos e emocionais. Se apenas, diz-se, Marx fosse capaz de ler Sigmund Freud! Mas se examinarmos a vida de Freud, encontramos a mesma dicotomia: uma lacuna intransponível entre teoria e prática, entre ideias e pessoas. Agora Freud (1856–1939), ao contrário de Shelley e Marx, era em muitos aspectos um homem bom — até mesmo um homem heróico.

Minorias étnicas sendo executadas pela NKVD em um Gulag na Sibéria. (Desenho de Danzig Baldaev/ Drawings from the Gulag)

Mas este, também, foi outro caso de um homem que nunca permitiu que suas ideias penetrassem em seus relacionamentos pessoais ou melhorassem suas relações com as pessoas. Ao contrário de Marx, ele não olhou para os livros de relatórios; ele olhou em sua própria mente, e lá encontrou infinitas razões para a justiça. Freud foi o macho patriarcal dominante durante toda a sua vida. Sua esposa era pouco mais que sua criada, até mesmo espalhava a pasta de dente em sua escova de dentes, como um valete à moda antiga. Ele nunca discutiu seu trabalho ou teorias com ela, e nunca a encorajou a aplicar seu trabalho na criação de seus filhos. Nem ele mesmo o fez. Ele enviou seus filhos ao médico da família para aprender os fatos da vida. Sua grande família girava inteiramente em torno de suas próprias necessidades e hábitos. Quando um visitante levantou uma questão freudiana, a esposa de Freud respondeu enfaticamente: “Não discutimos nada disso aqui”.

Houve uma distensão de exploração, tanto em sua vida familiar e ainda mais em seu tratamento dado aos seus seguidores . Homens como Adler [1870–1937] e Jung [1875–1961] foram acusados de “traição” e repudiados como “hereges”. Pior, ele escreveu sobre sua “insanidade moral”. Ele não podia acreditar que alguém que uma vez esteve sob sua influência e depois se afastou poderia ser totalmente são. Ele achava que heresiarcas como Jung precisavam, na realidade, de tratamento psiquiátrico.

Fotografia mostrando prisioneiros de um campo de trabalho forçado soviético - Gulag - construindo o Canal do Mar Báltico, em 1933.
Milhares morreram no processo, de fome e problemas de saúde.

Intelectuais progressistas modernos são igualmente frustrados por aqueles que não compartilham suas ideias. Eu tenho lido um livro de Robert L. Heilbroner chamado “A Natureza e a Lógica do Capitalismo”. Não há evidência de que o autor, mais do que Marx, realmente saiba alguma coisa sobre os capitalistas ou o que os motiva. Heilbroner simplesmente assume que o capitalismo é principalmente sobre o exercício do poder sobre as pessoas. Isso parece-me um completo absurdo. Inclino-me para a crença contrária do Dr. Samuel Johnson [1709–84] quando ele observou: “Senhor, um homem raramente é tão inocentemente empregado como quando está recebendo dinheiro”. A opinião de Johnson foi compartilhada por John Maynard Keynes [1883–1946]. “É melhor”, escreveu ele, “que um homem deva tiranizar sobre sua conta bancária do que sobre outros seres humanos”.

Johnson e Keynes estavam entre os muitos intelectuais que não sucumbiram ao desejo de intimidar os outros, um desejo que também pode afetar os intelectuais sobre o que a maioria chamaria de direita. Por exemplo, Ayn Rand [1905–82], a romancista-filósofa que defendeu a dignidade do homem e o direito do indivíduo de ser livre do controle por outros, humilhou e dominou muitos que vieram a conhecê-la em particular.

Mas há boas razões pelas quais a maioria dos intelectuais compartilha um terreno comum com os socialistas. Keynes chega ao cerne da questão, pois a avareza é muito menos perigosa do que a vontade do poder, especialmente o poder sobre as pessoas. Não é a formulação de ideias, por mais mal orientada que seja, mas o desejo de impô-las aos outros que é o pecado mortal do intelectual. É por isso que eles se inclinam pelo temperamento de tal forma para a esquerda. Pois o capitalismo simplesmente ocorre, se ninguém fizer nada para detê-lo. É o socialismo que deve ser construído e, como regra, imposto à força, proporcionando assim um papel muito maior para os intelectuais em sua gênese.

Sepulturas em massa no ossuário de Choeung Ek, no Camboja.

O intelectual progressista hospeda habitualmente as visões de Walter Mitty de exercer poder. Freud, por exemplo, costumava descrever-se como um pretenso conquistador (era a palavra que usava), empunhando a caneta em vez da espada e mudando a história através de exércitos de seguidores em vez de soldados. Precisamente, talvez, porque levam vidas sedentárias, os intelectuais têm uma curiosa paixão pela violência, pelo menos no abstrato.

Aplausos das poltronas

Cemitério do Gulag de Vorkuta.

No século XX, baseando-se nas fundações do século XIX, o apetite pela violência na busca e realização de ideias tornou-se o pecado original do intelectual. Considere, por exemplo, a repetida expressão de admiração dos intelectuais por homens de ação implacáveis e sua longa sucessão de heróis violentos: Stalin, Mao Tsé-tung, Castro, Ho Chi Minh. Intelectuais ocasionalmente questionam a quantidade de abates, o grande número de “assassinatos necessários”; eles quase sempre aceitaram o princípio de que as utopias socialistas devem, se necessário, ser erguidas em bases violentas. Lembro-me bem de meu antigo editor, Kingsley Martin, escrever no New Statesman, por meio de uma gentil reprimenda a Mao Tsé-tung, que acabara de massacrar três milhões de pessoas: “Era realmente necessário que o presidente matasse tantos?” Isso provocou uma carta de seu velho amigo liberal Leonard Woolf. O Sr. Martin poderia gentilmente informar os leitores, ele questionou, “o número máximo de mortes que ele consideraria apropriado?

Enquanto os homens de violência da poltrona no Ocidente aplaudiam e toleravam, intelectuais de outros lugares participavam e muitas vezes dirigiam os grandes massacres dos tempos modernos. Muitos ajudaram a criar a Cheka, a progenitora da atual KGB. Os intelectuais eram proeminentes em todos os estágios dos eventos que levaram ao holocausto nazista. Os acontecimentos no Camboja na década de 1970, em que entre um quinto e um terço da nação morreram de fome ou foram assassinados, foram inteiramente obra de um grupo de intelectuais, que na maior parte eram alunos e admiradores de Jean- Paul Sartre [1905–1980] — “Filhos de Sartre”, como eu os chamo.

Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre (auto-proclamado "humanista") assistem à cerimônia do 6º aniversário da Fundação da China Comunista em Pequim, em 1º de outubro de 1955, na praça Tiananmen (Praça da Paz Celestial).

Onde quer que os homens e os regimes busquem impor ideias às pessoas, onde quer que o processo desumano da engenharia social seja colocado em ação — cavando carne e sangue ao redor como se fosse solo ou concreto — lá você encontrará intelectuais em abundância. Intimidar as pessoas é a atividade característica de todas as formas de socialismo, seja o socialismo soviético, ou o nacional-socialismo alemão, ou, por exemplo, a forma peculiar do socialismo étnico, conhecido como apartheid, que encontramos na África do Sul; esse conjunto sinistro de ideias, vale notar, era totalmente invenção de intelectuais reunidos no departamento de psicologia social da Universidade de Stellenbosch. Outras ideologias totalitárias africanas são igualmente trabalho de intelectuais locais, geralmente sociólogos.

Então, uma das lições do nosso século é: cuidado com os intelectuais. Não apenas devem ser mantidos longe das alavancas do poder, mas também devem ser objetos de suspeita peculiar quando procuram oferecer conselhos coletivos. Cuidado com comissões, conferências, ligas de intelectuais! Pois os intelectuais, longe de serem pessoas altamente individualistas e não-conformistas, são de fato ultra-conformistas dentro dos círculos formados por aqueles cuja aprovação eles buscam e valorizam. É isso que os torna, em massa, tão perigosos, porque lhes permite criar climas culturais, que muitas vezes geram cursos de ação irracionais, violentos e trágicos.

Lembre-se sempre que as pessoas devem sempre vir antes das ideias e não o contrário.


O Sr. Johnson é autor do livro “Uma História dos Judeus” (Harper & Row). Este texto é baseado em uma palestra realizada no Instituto de Estudos Contemporâneos.

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O ARH Tigre: Cumprindo sua promessa



Por Belén Morant, Rotor Magazine Nº 116, 30 de agosto de 2019.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 5 de agosto de 2020.

Quando se trata de disponibilidade, recursos operacionais e confiabilidade, o Tigre australiano deu um passo decisivo adiante.

No ano passado, o helicóptero registrou 65% de disponibilidade e 90% de peças de reposição. Mas, o mais importante de tudo, alimentou o otimismo de um cliente com total fé nas capacidades operacionais e na confiabilidade do seu helicóptero de combate.


Em 2001, o Exército Australiano encomendou 22 helicópteros ARH, com a primeira entrega sendo feita em dezembro de 2004. O Tigre australiano era um animal um pouco diferente dos seus irmãos europeus, no entanto, devido à sua maior capacidade de armamento e à complexidade resultante, resposta ao desejo da Austrália de uma plataforma capaz de disparar tanto mísseis quanto canhões.

Um ponto de inflexão

"O ARH Tigre é uma máquina extraordinária, que supera qualquer coisa em sua classe", diz Andrew Mathewson, diretor administrativo da Airbus Australia Pacific. “Mas, nos primeiros anos, a complexidade do sistema e do processo de suprimento fez dele uma aeronave difícil de manter. O Tigre não conseguiu mostrar tudo do que era capaz e, como seria de esperar, havia muito descontentamento no Exército, com alguns pedindo que ele fosse substituído por outro helicóptero".

Desde 2014, com o acordo de um novo contrato baseado em desempenho, dedicamos todos os nossos esforços, tanto na Austrália quanto na Europa, para simplificar o desempenho da cadeia de suprimentos, melhorar o projeto, a confiabilidade e otimizar nossa interação com o Grupo de Aquisição e Sustentação de Capacidades (Capability Acquisition and Sustainment GroupCASG) e cliente final no exército. Acima de tudo, no entanto, demos o passo crucial de concentrar toda a nossa atenção e energia no usuário final, em vez de perder tempo e esforço em compromissos contratuais que realmente não oferecem capacidade ao cliente.


Um exemplo dessa nova colaboração é a maneira pela qual a manutenção operacional e a manutenção mais profunda são realizadas. Graças ao estreito relacionamento que os especialistas da Airbus, que conhecem o produto de dentro para fora, agora desfrutam com as equipes de manutenção do cliente, que têm um comando perfeito das necessidades operacionais, o processo de manutenção é otimizado, trazendo o melhor de ambas as equipes.

Uma nova era

As melhorias feitas na disponibilidade da frota e nas capacidades da aeronave foram rapidamente demonstradas em exercícios militares. O mais recente sucesso notável do Tigre veio com o desdobramento de quatro ARH Tigres a bordo do HMAS Canberra, o que contribui para o objetivo da Força de Defesa Australiana de estabelecer uma Força-Tarefa Anfíbia com a segurança aprimorada fornecida pelo Tigre.


"Em abril passado, a Airbus recebeu uma extensão do contrato de suporte vitalício do Tigre até 2025 pelo Departamento de Defesa da Austrália", diz Andrew, olhando resolutamente para o futuro. "É uma demonstração de fé por parte do cliente e nos informa que estamos no caminho certo. Nosso próximo grande desafio agora é provar que somos capazes de manter o Tiger atualizado e operacional até 2040, abordando problemas de obsolescência. O Tigre ainda tem muito a oferecer. É a opção mais eficaz e eficiente para o governo, e vamos provar isso para eles."

ARH Tigre: A perspectiva de um piloto



"Todo mundo sabe que o Tigre teve uma introdução difícil em serviço, mas o mais importante é que a mensagem que as pessoas perdem é que, nos últimos dois a três anos, realmente dobramos a esquina com o ARH. O ARH está pronto hoje; hoje os pilotos são treinados para voarem e apoiarem nossas tropas em operação. E podemos fazer isso de dia, de noite, em todas as condições climáticas, com bastante eficiência."

- Major Matt Subbs, instrutor sênior da Ala ARH da Escola de Aviação do Exército Australiano.

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DOCUMENTÁRIO: Guerreiros Da Selva, CIGS (13 episódios)



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França interrompe ratificação de tratado de extradição com Hong Kong após lei de segurança


Uma visão noturna de Hong Kong. (Anthony Wallace, AFP)

Do jornal France24, 3 de agosto de 2020.
Tradução Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 5 de agosto de 2020.

A França disse na segunda-feira que estava interrompendo a ratificação de um tratado de extradição com Hong Kong, depois que Pequim introduziu uma nova e controversa lei de segurança na ex-colônia britânica.

"À luz dos últimos desenvolvimentos, a França não prosseguirá com a ratificação do acordo de extradição assinado em 4 de maio de 2017 entre a França e a Região Administrativa Especial de Hong Kong", afirmou o Ministério das Relações Exteriores da França em comunicado.

O ministério criticou amargamente a nova lei de segurança, dizendo que questionava o princípio de "'um país, dois sistemas'... e as liberdades fundamentais que dela resultam".

"Esta lei também afeta diretamente nossos cidadãos e nossos negócios", acrescentou.

Duas mulheres etnicamente uigures olham através de uma cerca de segurança no Grande Bazar enquanto soldados chineses assistem em Urumqi, na região oeste da China, em 9 de julho de 2009. (Peter Parks, AFP)

A introdução da lei de segurança levantou novas tensões entre a China e o Ocidente, compondo as tensões existentes sobre o tratamento da minoria uigur e o comportamento da gigante de telecomunicações Huawei.

No mês passado, a Grã-Bretanha suspendeu seu tratado de extradição com Hong Kong "imediata e indefinidamente" em resposta à nova lei, enquanto a Alemanha suspendeu seu tratado de extradição com Hong Kong devido à decisão de adiar as eleições locais por um ano.

O Canadá, a Austrália e a Nova Zelândia também já suspenderam seus tratados de extradição com Hong Kong após a introdução da nova lei de segurança.

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terça-feira, 4 de agosto de 2020

Helicópteros de ataque australianos resgatam náufragos em uma ilha deserta no Pacífico


Por Jamie (The Drive)The Warzone, 3 de agosto de 2020.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 4 de agosto de 2020.

Com um SOS feito na areia, o navio de assalto HMAS Canberra agiu com seus helicópteros Tigre para salvar marinheiros isolados.

O ARH Tigre da Airbus Helicopters pode não ter recebido muito amor do exército australiano ultimamente, mas o helicóptero de ataque foi uma visão muito bem-vinda no fim de semana para um grupo de marinheiros que ficaram isolados em uma pequena ilha da Micronésia por quase três dias. Em uma cena digna de Hollywood, uma mensagem SOS soletrada na praia foi avistada por tripulações australianas e americanas, antes que um helicóptero voando de um navio de guerra australiano prestasse em socorro.

Quatro ARH Tigres e um único helicóptero de transporte MRH90 Taipan da Airbus Helicopters estavam a bordo do navio anfíbio HMAS Canberra da Marinha Real Australiana (Royal Australian NavyRAN) e entraram em ação para ajudar a encontrar os três marinheiros.

Depois de partirem no seu barco de 23 pés em 30 de julho de 2020, os marinheiros saíram do curso e ficaram sem combustível. Eles foram encontrados desaparecidos em 1º de agosto e foram localizados no dia seguinte na Ilha Pikelot, a quase 320 quilômetros de seu ponto de partida em Pulawat, na Micronésia. O destino planejado deles era os atóis de Pulap, uma jornada de 23 milhas náuticas.

Os três náufragos na praia, junto com o barco e o SOS.

Indo para a área de busca, o Canberra se uniu a aeronaves dos EUA para localizar os marinheiros. Um ARH Tigre embarcado do 1º Regimento de Aviação do Exército Australiano entregou comida e água diretamente à praia, antes de realizar exames de saúde nos náufragos.

O Canberra recentemente atuou na região como parte do Grupo-Tarefas 635.3, que realiza um Desdobramento de Presença Regional, sobre o qual você pode ler mais neste relatório anterior do Zona de Guerra. Quando o navio de assalto foi chamado para ajudar na busca e salvamento, ele estava realmente voltando para a Austrália, enquanto outros navios do grupo-tarefa se preparavam para participar do Exercício Orla do Pacífico (Exercise Rim of the Pacific, RIMPAC), próximo ao Havaí.


"A companhia do navio respondeu à chamada e preparou o navio rapidamente para apoiar a busca e salvamento", disse o capitão Terry Morrison, comandante do Canberra. “Em particular, nosso helicóptero MRH90 embarcado no esquadrão nº 808 e os quatro helicópteros de reconhecimento armado do 1º Regimento de Aviação foram fundamentais na busca matinal que ajudou a localizar os homens e a entregar suprimentos e confirmar seu bem-estar”.

"Estou orgulhoso da resposta e profissionalismo de todos a bordo, pois cumprimos nossa obrigação de contribuir para a segurança da vida no mar, onde quer que estejamos no mundo", continuou ele.

Os marinheiros deveriam ser apanhados por um navio de patrulha da Micronésia, o FSS Independence, um barco de patrulha do Pacífico entregue e apoiado pelo governo australiano.

Tigre pousando no HMAS Canberra durante o show aéreo Biennial IMDEX em Cingapura, 16 de maio de 2019.

Enquanto o ARH Tigre e o MRH90 desempenharam seu papel nesse resgate dramático, é justo dizer que os dois tipos tiveram fortunas mistas no serviço australiano. A Austrália encomendou 47 MRH90 Taipan MRH para substituir os helicópteros Black Army Hawk e RAN Sea King Mk 50A/B do Exército Australiano. O exército e a marinha mantêm os MRH90 como uma base comum, mas seis aeronaves são atribuídas ao esquadrão nº 808 da RAN, com sede em Nowra, Nova Gales do Sul. Problemas técnicos e de confiabilidade viram o Taipan ser adicionado à lista de "Projetos de preocupação" do governo australiano.

A Austrália escolheu o Tigre para cumprir seu requisito de helicóptero de reconhecimento armado em 2001, adquirindo 22 exemplares. Enquanto os dois primeiros foram entregues em dezembro de 2004, a capacidade operacional final (final operational capabilityFOC) foi alcançada apenas em abril de 2016. O Tigre australiano participou de uma missão no exterior pela primeira vez no ano passado, quando quatro exemplares foram levados de avião para Subang, na Malásia, em um C-17A da Força Aérea Real Australiana, antes de embarcar em exercícios de treinamento a bordo do Canberra.

Tigres do exército australiano a bordo do HMAS Canberra.

No ano passado, o Departamento de Defesa Australiano emitiu um pedido de informações (request for information, RFI) para uma substituição do ARH Tigre no âmbito do programa Land 4503. Isso exige capacidade operacional inicial (initial operational capability, IOC) em 2026 com 12 estruturas aéreas e capacidade operacional total dois anos depois com 29 helicópteros. Os principais candidatos para o Land 4503 são o Bell AH-1Z Viper, o Boeing AH-64E Apache e os Airbus Helicopters Tigre Mk III aprimorados.

Enquanto isso, provavelmente veremos o ARH Tigre continuar operando a partir dos navios de assalto da classe Canberra em seu papel de ataque tradicional - além de outras missões, quando necessário. Os Tigres australianos também pousaram no porta-aviões USS Ronald Reagan durante exercícios recentes, sobre os quais você pode ler mais aqui.


O último episódio na Micronésia não foi a primeira vez que helicópteros de ataque apoiaram operações de resgate de maneiras não-tradicionais. Em junho deste ano, surgiu o vídeo de um Tigre do Exército Francês que foi usado para evacuar dois soldados gravemente feridos quando o helicóptero Gazelle foi abatido por insurgentes em 14 de junho do ano passado, perto da fronteira entre Mali e Níger.

Embora o Tigre tenha falhado em se tornar uma história de sucesso nas forças armadas australianas, sem dúvida se tornou o favorito de três marinheiros em particular, cujas emoções só podem ser imaginadas quando os helicópteros de ataque apareceram à vista.

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FOTO: Carro de Combate T-34/85 cubano modificado com um canhão D-30


T-34/85 cubano com um canhão D-30 de 120mm montada em uma torre seccionada.

Os cubanos são a força latino-americana com mais experiência de combate com blindados, primeiro na Batalha da Praia Girón na Crise da Baía dos Porcos (1961) e depois tendo tomado parte nas guerras de Angola e contra a África do Sul, apoiando o governo comunista do MPLA. Os cubanos mantiveram um efetivo de 50 mil homens e atuaram principalmente com material pesado, especialmente artilharia e carros de combate, além de aeronaves tomando parte e comandando a Batalha de Cuito-Cuanavale (1987-88); a maior batalha na África desde a Segunda Guerra Mundial e comandada pelo próprio Fidel Castro, por telefone, de Havana.

Tripulação cubana na Batalha de Cuito Cuanavale, em 1988; a maior batalha de tanques na África após a Segunda Guerra Mundial.

Tenente Milagros Katrina Soto (centro) e outras integrantes do Regimento Feminino de Artilharia Anti-Aérea do exército cubano em Angola.


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sábado, 1 de agosto de 2020

FOTO: All American no Egito


Policial militar da 82ª "All American" no Egito, 1981.

Policial militar (military police, MP) da 82ª Divisão Paraquedista "All American" em guarda do lado de fora de um bunker de munição perto do Cairo, durante o exercício conjunto internacional "Bright Star '82", no Egito em 1º de novembro de 1981.

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Busca por 8 fuzileiros desaparecidos se estende depois que blindado anfíbio afundou


Por Julie WatsonAssociated Press, 1º de agosto de 2020.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 1º de agosto de 2020.

SAN DIEGO (AP) - Helicópteros e barcos que vão de infláveis a um destróier da Marinha foram enviados para uma busca no sábado atrás de oito pessoas desaparecidas depois que sua embarcação de desembarque dos fuzileiros navais afundou abaixo de centenas de metros de água na costa sul da Califórnia.

O ex-prefeito de San Clemente, Wayne Eggleston, abaixa a bandeira dos EUA para meio-mastro no Park Sempre Fi em San Clemente, Califórnia, em 31 de julho de 2020. Autoridades dizem que um veículo militar de ataque marítimo com 15 fuzileiros navais e um marinheiro afundou na costa de Sul da Califórnia, deixando um dos fuzileiros navais morto e oito desaparecidos. (Paul Bersebach / Registro do Condado de Orange via AP)

"Literalmente, todos os bens que temos disponíveis" estavam em busca dos sete fuzileiros navais e do enfermeiro da Marinha, disse na sexa-feira o Tenente-General Joseph Osterman, comandante da 1ª Força Expedicionária de Fuzileiros Navais.

Eles estavam a bordo de um veículo de assalto anfíbio que estava voltando para um navio da Marinha na noite de quinta-feira, após um exercício de treinamento de rotina, quando começou a pegar água a cerca de 800 metros da Ilha de San Clemente, de propriedade da Marinha, ao largo de San Diego.

Outros veículos de assalto responderam rapidamente, mas não conseguiram impedir que o veículo de 26 toneladas parecido com um tanque afundasse rapidamente, disse Osterman.


"A suposição é que foi completamente ao fundo" várias centenas de metros abaixo, disse Osterman. Isso era muito profundo para os mergulhadores chegarem e a Marinha e a Guarda Costeira estavam discutindo maneiras de alcançar o veículo afundado para ter uma visão dentro dele, disse Osterman.

Oito fuzileiros foram resgatados da água, mas um morreu mais tarde e dois permaneceram em condições estáveis em um hospital, disseram as autoridades.

Todos os fuzileiros navais foram anexados à 15ª Unidade Expedicionária de Fuzileiros Navais, com sede em Camp Pendleton, nas proximidades. Eles tinham entre 19 e 30 anos e todos usavam equipamentos de combate, incluindo coletes à prova de balas e coletes de flutuação, disse Osterman.

O veículo, conhecido como AAV, mas apelidado de "amtrac", para "trator anfíbio" é usado para levar fuzileiros navais e seus equipamentos dos navios da Marinha para terra.

Assault Amphibious Vehicle (AAV).
Conhecido como Carro Lagarta Anfíbio (CLAnf) no Brasil.

A embarcação afundada, uma das 13 envolvidas no exercício, foi projetada para ser naturalmente flutuante e tinha três escotilhas à prova d'água e duas grandes escotilhas de tropa, disse Osterman.

Os veículos são usados desde 1972 e são continuamente reformados. Oficiais do Corpo de Fuzileiros Navais disseram sexta-feira que não sabiam a idade ou outros detalhes daquele que afundou.

O comandante do Corpo de Fuzileiros Navais, General David Berger, suspendeu as operações por via aquática de mais de 800 veículos de assalto anfíbio em toda a Força até que a causa do acidente seja determinada. Ele disse que a decisão era devido a "muita cautela".

O acidente marca a terceira vez nos últimos anos que os fuzileiros navais de Camp Pendleton foram feridos ou morreram em veículos de assalto anfíbio durante exercícios de treinamento.

Fuzileiros navais da Bravo Company, Battalion Landing Team 1/4, 15th Marine Expeditionary Unit, operam veículos de assalto anfíbios AAV-P7/A1 partindo do navio de desembarque-doca anfíbio USS Somerset (LPD 25) durante o treinamento em 27 de julho de 2020, visando aumentar a interoperabilidade da Marinha e do Corpo de Fuzileiros Navais no Pacífico oriental. (Staff Sergeant Kassie McDole/15ª Unidade Expedicionária da Marinha)

Em 2017, 14 fuzileiros navais e um marinheiro foram hospitalizados depois que seu veículo atingiu uma linha de gás natural, causando um incêndio que engoliu a embarcação de desembarque em Camp Pendleton.

Em 2011, um fuzileiro naval morreu quando um veículo de assalto anfíbio em um exercício de treinamento afundou na costa do campo.

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sexta-feira, 31 de julho de 2020

O Batalhão Francês da ONU na Coréia


Extrato do livro "Guerra da Coréia: Nem vencedores, nem vencidos":

O batalhão de infantaria francês (primeiro combate no início de janeiro de 1951) era composto por combatentes profissionais e comandado por um general muito condecorado, que fora seriamente ferido na Primeira Guerra Mundial e que aceitou ser rebaixado a tenente-coronel para assumir o comando da tropa na Coréia. Por motivo desconhecido [para salvaguardar sua família na França sob ocupação nazista enquanto comandava a 13e DBLE pela França Livre], adotou o nom de guerre "Ralph Monclar" no lugar do seu nome verdadeiro - General de Corps d'Armée Magrin Vernerrey. Os franceses, como o General Ridgway e os turcos, acreditavam na eficiência da baioneta. (A própria palavra bayonette deriva da cidade francesa de Bayonne.) Eles também desenvolveram suas próprias e terríveis táticas de "aço frio": cavavam duas linhas paralelas de trincheiras e deixavam que os comunistas ocupassem a primeira delas; depois, antes que o inimigo consolidasse suas posições, os combatentes franceses saltavam inopinadamente da segunda e executavam um ataque de surpresa, espetando os chineses com suas pontiagudas baionetas. Se os chineses progrediam ao som de enervantes buzinas e clarins, os franceses, da mesma forma, assaltavam as posições inimigas acionando manualmente estridentes sirenes. Não foi surpresa que essa força, descrita por confusos observadores americanos como "argelinos meio loucos", recebessem três Menções Americanas Presidenciais para Unidade por seus atos de bravura na Cota 543, em Chipyong-ni e em Hongchon, e foi o General MacArthur em pessoa quem entregou as duas primeiras distinções. O feito mais notável, pelo qual, estranhamente, o batalhão não recebeu menção presidencial, foi a atuação na tomada da crista Heartbreak - mais uma vez, mediante carga de baioneta. Os franceses eram também peritos no emprego do apoio de blindados, em particular porque o oficial de ligação francês na unidade à qual o batalhão estava adido, o 23º Regimento de Infantaria americano, era especialista em carros de combate, e também porque o comandante da companhia de carros daquele regimento, por acaso, falava francês fluentemente! Não foi surpreendente que os franceses se considerassem quase parte integrante total do 23º, que muito se envaidecia em ter em sua organização aqueles ferozes combatentes, embora manifestassem algumas reservas quanto à atitude deles em relação à cadeia de comando.



As baixas francesas durante a guerra foram as proporcionalmente mais elevadas entre os contingentes do UNC, salvo os americanos e sul-coreanos: 262 mortos, 1.008 feridos, 9 desaparecidos em ação e 10 prisioneiros de guerra. Por outro lado, a situação dos prisioneiros de guerra franceses nos cativeiros comunistas tornou-se bem mais confortável do que a dos outros prisioneiros da ONU porque os chineses, inteligentemente, os designaram como cozinheiros dos campos! O "sistema de rodízio" francês sinalizou também a natureza daquela unidade. Os homens eram todos considerados profissionais. Por que deveriam eles sair da Coréia enquanto lá grassava uma guerra? Um soldado francês não deixava a Coréia a menos que ficasse hors de combat. Embora as comparações sejam, em geral, detestáveis, pode-se argumentar que os franceses proporcionaram a melhor unidade para o UNC na Coréia.

- Stanley Sandler, A Guerra da Coréia, Capítulo 9: A Primeira Guerra das Nações Unidas, pg. 216-217.


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