Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Opinião. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Operações especiais não são um substituto para a estratégia


Por Stewart Parker e Ari Cicurel, Breaking Defense, 19 de março de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 17 de setembro de 2021.

Usadas demais e sobrecarregadas na "guerra global contra o terror" desde o 11 de setembro, as Forças de Operações Especiais precisam que Biden lhes dê uma pausa para que possam se concentrar na Rússia, China e na "zona cinzenta".

De filmes a livros que contam tudo, a América adora seus operadores especiais. Mas um ritmo esmagador de operações e uma definição cada vez maior do que constitui uma “operação especial” esticou muito as Forças de Operações Especiais (Special Operations Forces, SOF), tornando mais importante do que nunca definir de forma restrita as missões SOF. A Orientação Provisória de Segurança Nacional do Presidente Joe Biden é um passo importante para redirecionar a política militar do contra-terrorismo no Oriente Médio para a competição estratégica contra a China.

Mas a emissão da orientação provisória em si não resolve os problemas das SOF. É possível para Biden criar uma pegada militar mais inteligente e sustentável no exterior, mas o sucesso estratégico requer a adaptação do modelo americano para contra-terrorismo e contra-insurgência enquanto muda a forma como utiliza as SOF.

A estratégia de Biden para o Oriente Médio busca "dimensionar nossa presença militar ao nível necessário para interromper redes terroristas internacionais, deter a agressão iraniana e proteger outros interesses vitais dos EUA" para que a América possa redirecionar recursos militares para ameaças cada vez mais perigosas como a China.

Após o choque histórico dos ataques de 11 de setembro, o contra-terrorismo e a contra-insurgência no Oriente Médio se tornaram os principais desafios para os planejadores de defesa americanos. Diante de terroristas ou insurgentes que rapidamente atacavam civis e depois se escondiam entre eles, os líderes dos Estados Unidos se apaixonaram por raides de operações especiais e ataques de drones.

Operador especial (CCT/USAF) à cavalo na invasão do Afeganistão, outubro de 2001.

Os EUA já tentaram se afastar da "guerra global contra o terrorismo" antes, começando com o "pivô para a Ásia" do presidente Obama, que nunca se materializou. Em seguida, veio a Estratégia de Defesa Nacional de 2018 da administração Trump e o Anexo de Guerra Irregular de 2020 que priorizou o Indo-Pacífico. Agora, a mudança estratégica de Biden indica que a primazia do contra-terrorismo e da contra-insurgência na segurança nacional americana está acabando.

No entanto, a retirada das tropas não encerrará os conflitos regionais nem eliminará a exposição dos Estados Unidos ao terrorismo. As demandas pelos recursos exclusivos fornecidos pelas SOF não vão diminuir, mesmo com a redução de sua presença no Oriente Médio.

No futuro, será um desafio para o Comando de Operações Especiais dos EUA (U.S. Special Operations CommandUSSOCOM) equilibrar as operações de contra-terrorismo e contra-insurgência em curso, enquanto também se prepara para envolver a China e a Rússia na "zona cinzenta" legal e estrategicamente obscura entre guerra e paz.

Durante grande parte das últimas duas décadas, os operadores especiais funcionaram como uma força não-convencional apoiada por forças convencionais, com as SOF frequentemente no papel principal. O combate contra forças semelhantes provavelmente inverteria esse relacionamento, exigindo que as SOF cumprissem missões de apoio à força combinada mais ampla, aliados e parceiros.

Contra-terrorismo e Contra-insurgência Sustentáveis

As Forças Especiais dos EUA (Boinas Verdes) atacam um objetivo em um evento de treinamento.

Mesmo que as forças americans se retirem do Afeganistão ou de todo o Oriente Médio, os terroristas não irão embora. O presidente Biden, portanto, pretende manter algum foco no contra-terrorismo e na contra-insurgência, mesmo enquanto reduz o engajamento militar em conflitos relacionados. A adoção de um modelo menos focado no combate cinético (poder de fogo) e mais focado no que é acessível e sustentável a longo prazo reduzirá o papel dos militares e contribuirá para melhores resultados de segurança. A Estratégia Nacional de Contraterrorismo de 2018, que exige "todos os instrumentos disponíveis do poder dos Estados Unidos para combater o terrorismo", é um ponto de partida para o plano sustentável do novo governo. Os raides das SOF e ataques aéreos podem atrair atenção descomunal, mas também têm um registro imperfeito de transparência. Para melhor abordar as preocupantes descobertas da comissão do 11 de setembro, os EUA devem continuar a desenvolver seu potente portfólio de capacidades não-militares.

A análise do Centro Nacional de Diplomacia e Contra-terrorismo deve moldar os programas de contra-terrorismo e contra-insurgência, com a aplicação da lei civil e agências de inteligência muitas vezes assumindo a liderança. Os formuladores de políticas devem definir claramente suas prioridades, limitando os esforços apenas contra os grupos terroristas que mais ameaçam a América, seus interesses e seus parceiros. Uma estratégia de recursos sustentáveis requer colaboração proativa, atribui funções claras a departamentos e agências para evitar redundância ineficiente e estimula parceiros e aliados a se apropriarem das missões globais de contra-terrorismo. Mais importante ainda, um modelo de contra-terrorismo com recursos sustentáveis libera cada vez mais Forças de Operações Especiais para se reorientarem contra os atores estatais e seus representantes (proxies).

Adaptando as Forças de Operações Especiais

Operadores especiais russos (Spetsnaz), conhecidos como "Homenzinhos Verdes", na Ucrânia em março de 2014.

O combate efetivo à China, Rússia e outros Estados malignos exige que os formuladores de políticas adaptem o papel das SOF. Embora o contra-terrorismo e a contra-insurgência com foco restrito continuem sendo um esforço duradouro, as SOF não se concentraram historicamente nessas missões. Os Rangers de Roger dominaram as táticas de raides de estilo indígena na Guerra Revolucionária - o que os teóricos hoje chamariam de um conflito "híbrido" envolvendo guerrilheiros e forças regulares, incluindo o Exército Continental de Washington e seus aliados franceses. O presidente Kennedy autorizou os Boinas Verdes a responderem às insurgências apoiadas pelos soviéticos, e uma das principais funções das SOF na Guerra Fria era preparar movimentos de resistência em nações aliadas em risco de serem ocupadas por Moscou. Foram os fracassos conjuntos na tentativa de resgate de reféns iranianos em 1980 e o sucesso superficial na invasão de Granada em 1983 que impulsionaram a criação do USSOCOM - não o terrorismo.

Somente depois do 11 de setembro as SOF foram totalmente absorvidas por raides de “ação direta” contra terroristas e insurgentes, à medida que o USSOCOM se tornou o comando apoiado na guerra global contra o terror, em vez de um elemento de apoio em uma campanha basicamente convencional. As Forças Armadas são mais hábeis dentro da caixa de operações convencionais, mas as atividades centrais das SOF serão indispensáveis para campanhas futuras bem-sucedidas em todo o espectro do conflito. No mês passado, os legisladores reconheceram isso criando um novo subcomitê para supervisionar as SOF.

Operadores Delta e Ranger no momento do choque entre o Bluebeard 3 e o Republic 4 durante a fracassada Operação Eagle Claw, em 1980.
(Ilustração de Jim Laurier e Johnny Shumate/Osprey Publishing)

A redução das atividades de CT melhorará a capacidade das SOF de competirem abaixo do nível de conflito armado, responderem a crises, recuperarem americanos sequestrados e criarem prontidão para a guerra em um ambiente operacional altamente contestado e desordenado.

Para se preparar para a competição estratégica, os Estados Unidos precisam adaptar suas missões de contraterrorismo e contra-insurgência. As SOF serão vitais nas operações contra a China e a Rússia, embora permaneçam cruciais contra as ameaças duradouras no Oriente Médio. Sem rodeios, não há guerra que os militares americanos possam vencer sem Forças de Operações Especiais eficazes.

O Tenente-Coronel Stewart “PR” Parker é um participante do Programa de Líderes Militares dos EUA de 2020 do Instituto Judaico para a Segurança Nacional (Jewish Institute for National Security of America, JINSA) e atualmente está designado para o Comando de Operações Especiais da Força Aérea. Ari Cicurel é um analista de política sênior no Gemunder Center for Defense and Strategy da JINSA.

Bibliografia recomendada:

Special Operations Forces in Afghanistan.
Leigh Neville e Ramiro Bujeiro.

Special Operations Forces in Iraq.
Leigh Neville e Richard Hook.

Leitura recomendada:


As lições de Mogadíscio, 7 de outubro de 2018.


segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Grupo Wagner: mercenários russos ainda chafurdando na África


Por Steve Balestrieri, SOFREP, 19 de abril de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 13 de setembro 2021.

O Grupo Wagner da Rússia está passando por momentos cada vez mais difíceis na África. Cerca de um ano atrás, Moscou estava se gabando de chegar primeiro que o Ocidente e a China na obtenção de contratos militares privados, subestimando as ofertas de vários países ocidentais ao divulgar seu "Modelo Sírio" de sucesso. Como resultado, eles acabaram conseguindo mais de 20 contratos militares privados na África. Mas toda essa euforia está secando.

Entraram no Moçambique cheios de confiança: Em agosto de 2019, o presidente moçambicano Filipe Nyusi encontrou-se com o presidente Putin e chegou a um acordo para que os russos apoiassem os militares moçambicanos. Este acordo deu à Rússia numerosas concessões do rico gás no país.

Insígnia não-oficial de caveira do Grupo Wagner.

O Grupo Wagner foi desdobrado logo depois, em outubro de 2019, com 200 contratados. Aterrou no Aeroporto de Nacala, em Moçambique, para ajudar na luta em curso do governo contra o Estado Islâmico na região norte da região rica em gás natural de Cabo Delgado.

O Grupo Wagner é uma companhia militar privada de propriedade de Yevgeny Prigozhin, um oligarca russo com laços muito próximos ao presidente Vladimir Putin. Ele é conhecido como o "chef de Putin", pois também possui uma vasta empresa de restaurantes. Com o objetivo de Putin de expandir a influência da Rússia na África, as forças proxy (de procuração) do Grupo Wagner estão operando no Sudão, na República Centro-Africana e em Moçambique. Eles também têm uma grande presença na Líbia e na Síria.

O Grupo Wagner é essencialmente um braço da política estatal russa: eles nunca foram empregados em nenhum lugar sem a aprovação do Kremlin. E embora não sejam oficialmente reconhecidos como tal, eles são, na verdade, forças terceirizadas do governo de Putin. “Não faço distinção entre os soldados russos e o Grupo Wagner - a maneira como eles cooperam”, disse Jasmine Opperman, especialista sul-africana em terrorismo, ao Voice of America em uma entrevista.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, chega a Durban, na África do Sul, em uma viagem oficial em 2013.

Como escrevemos no outono passado na SOFREP, embora existam várias empresas de proteção africanas - com uma vasta experiência nesta área do continente - disponíveis para aluguel, o governo moçambicano optou, no entanto, pelo Grupo Wagner, devido à sua óbvia influência política e à seu preço muito mais barato do que o de outras empresas. Enquanto uma empresa da África com 50-60 soldados qualificados com vasta experiência na área custaria ao governo entre US$ 15.000 e US$ 25.000 por mês para cada mercenário, o Grupo Wagner enviou 200 mercenários por entre US$ 1.800 e US$ 4.700 por mês cada.

Mas a velha advertência: “Você recebe o que paga” é uma descrição adequada do que aconteceu até agora na região.

Os superconfiantes contractors russos, apoiados por helicópteros Hind e transportados por helicópteros Mi-17 Hip, avançaram para o interior ao longo da fronteira entre Moçambique e Tanzânia. As forças aéreas e terrestres deveriam operar em estreita cooperação com o exército moçambicano (Forças Armadas de Defesa de Moçambique, FADM). No entanto, o ISIS não hesitou. Conforme relatado pelo Southern Times após a chegada dos russos, o ISIS rapidamente reforçou suas unidades em Moçambique, trazendo “voluntários” de outros países da África Oriental, especialmente da Somália. Isso logo levou a uma série intensificada de ataques da guerrilha.

Opperman chamou a situação de “tempestade perfeita” e disse sobre os esforços do Grupo Wagner na região: “Os russos não entendem a cultura local, não confiam nos soldados e têm que lutar em condições horríveis contra um inimigo que está ganhando mais e mais impulso. Eles estão totalmente fora do seu elemento.” Eles não estão acostumados a operarem em um ambiente de selva e sabem (ou se importam) pouco sobre os costumes e tradições locais.

Assim, os russos estão caindo no mesmo problema que tiveram durante a era soviética: tensões entre eles e as forças das nações anfitriãs. Os mercenários russos acusaram os soldados moçambicanos de não terem disciplina, enquanto as tropas da nação anfitriã sentem que estão sendo intimidadas pelos russos. E não existe um "Robin Sage" [personagem fictício americano] para os russos aprenderem como ganhar a confiança da força de uma nação anfitriã.

E agora, depois de sofrerem uma série de derrotas e mais de uma dúzia de mortes, o Grupo Wagner recuou suas tropas de volta para sua base principal em Nacala, cerca de 250 milhas ao sul.

Mercenários Wagner na República Centro-Africana, janeiro de 2021.

Eles enfrentam o mesmo problema na República Centro-Africana (RCA). Existem centenas de mercenários do Grupo Wagner operando na RCA, incorporados a uma infinidade de forças diferentes, mas eles estão perdendo todo o relacionamento com os locais devido ao tratamento brutal que dispensam a eles.

O Norte da África também não é mais gentil com eles.

Os russos têm cerca de 1.000 mercenários Wagner na Líbia. Eles sofreram 35 mortos em setembro, quando os turcos os atingiram com um drone, pois não tinham como se defender de ataques aéreos - a exemplo do que aconteceu com as tropas Wagner na Síria quando atacaram uma base dos EUA. Em janeiro, Putin e o presidente turco Erdogan chegaram a um acordo e, em seguida, surgiram relatórios de que as tropas russas Wagner foram retiradas da linha de frente em Trípoli.

A Líbia está em constante guerra civil desde a remoção do ditador Muammar al-Gadhafi, liderada pelos EUA, em 2011. Os Estados Unidos, a ONU e a maior parte da comunidade internacional reconhecem o Governo de Acordo Nacional (GNA), com sede na capital líbia Trípoli, como o governo legítimo. Mas a metade oriental do país é liderada por Khalifa Hafter, que é apoiado pela Rússia, Egito e Emirados Árabes Unidos (EAU). Hafter e suas tropas estão tentando capturar Trípoli.

As coisas não estão indo bem para os russos ou o Grupo Wagner na África. E quando você está mostrando uma fraqueza percebida, especialmente neste mundo de contratos militares privados, outros tentarão usar isso a seu favor.

Entra Erik Prince.

Prince, o fundador da empresa de segurança privada Blackwater, tem procurado nos últimos meses fornecer serviços militares o Grupo Wagner em pelo menos dois pontos de acesso africanos, de acordo com relatórios do The Intercept.

Prince supostamente se encontrou no início deste ano com um funcionário do Grupo Wagner e se ofereceu para apoiar as operações do Grupo Wagner na Líbia e em Moçambique. O advogado de Prince negou que ele tenha se encontrado com alguém do Grupo Wagner.

Erik Prince, fundador da Blackwater.

De acordo com o mesmo relatório, Prince também procura fornecer uma força para aumentar as operações do Grupo Wagner no Moçambique. Prince enviou uma proposta à empresa russa oferecendo-se para fornecer forças terrestres e vigilância baseada na aviação, algo que lhes falta no momento. No entanto, o Grupo Wagner/Rússia rejeitou sua proposta.

Os russos não querem admitir que precisam de ajuda, nem aceitá-la de um americano com laços tão estreitos com a Casa Branca de Trump - Prince é irmão da secretária de Educação Betsy DeVos.

Diga o que quiser sobre Prince, mas ele nunca se esquivou de fazer propostas não-solicitadas para suas ideias. Foi assim que ele acabou conhecendo o presidente Trump. Enquanto, neste caso, os russos/Wagner rapidamente rejeitaram sua proposta, isso não muda o fato de que outros podem ver que a "parada da vitória" russa, para obter contratos mercenários na África, foi um pouco prematura.

Eles estão tendo uma vida difícil no continente e, embora continuem a jogar dinheiro e mercenários na briga, estão nadando em águas desconhecidas e isso é visível.

Steve Balestrieri atuou como graduado, sargento e Warrant Officer (sem equivalente no Brasil) das forças especiais antes que ferimentos forçassem sua reforma precoce.

Bibliografia recomendada:

The "Wagner Group":
Africa's Chaos in an Economic Boom.
Intel Africa.

Bush Wars:
Africa 1960-2010.

Leitura recomendada:








domingo, 12 de setembro de 2021

COMENTÁRIO: O Exército de Madeira Compensada

Por Elliot Ackerman, The Atlantic, 17 de agosto de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 12 de setembro de 2021.

Uma década depois que as forças americanas chegaram ao Afeganistão, o quartel-general da Força-Tarefa de Operações Especiais Combinadas ainda era feito de madeira compensada, assim como a maioria dos outros edifícios que abrigavam as tropas americanas. Os recursos existiam para construir de concreto, mas por que faríamos isso? Em qualquer ponto da nossa odisséia de 20 anos no Afeganistão, estávamos sempre - em nossas mentes, pelo menos - apenas um ou dois anos fora de uma diminuição de tropas seguida por uma eventual retirada total. Claro, os afegãos perceberam isso. Em um posto avançado remoto perto da fronteira iraniana onde servi, o contratado afegão que trabalhava ao lado da minha equipe de operações especiais sempre zombava toda vez que uma aeronave trazia paletes de madeira compensada para nossos projetos de construção. “Guerras”, dizia ele, “não se ganham com madeira compensada”.

Muitos alegaram que a desintegração das forças de segurança afegãs prova que eram um exército de papel. Isso não é muito preciso. Eles provaram ser um exército de madeira compensada. A diferença entre os dois explica como um exército que antes era capaz de lutar contra o Talibã se dissolveu em questão de dias.

Em 8 de julho, em uma coletiva de imprensa na Casa Branca, quando Joe Biden foi questionado se uma tomada pelo Talibã no Afeganistão era inevitável, ele respondeu: “Não, não é. Porque as tropas afegãs têm 300.000 soldados bem equipados - tão bem equipados quanto qualquer exército do mundo - e uma força aérea contra algo em torno de 75.000 talibãs. Não é inevitável.” Durante anos, as forças de segurança afegãs travaram sua própria guerra civil contra o Talibã, sofrendo baixas e mantendo-se firme. Um exército de papel, que possui pouca ou nenhuma capacidade de luta, nunca poderia ter feito tanto. Seu desempenho permitiu que o número de tropas americanas e internacionais diminuísse de quase 150.000 há uma década para 2.500 este ano, sem a implosão total do país.

E ainda assim as forças foram e sempre foram um exército de madeira compensada, com a capacidade de cumprir a missão, mas com problemas fundamentais de recrutamento, administração e liderança. Os militares afegãos eram, por definição, uma força recrutada nacionalmente, o que significa que, normalmente, os soldados afegãos não lutavam em suas províncias nativas. Por causa da história de senhoria da guerra do Afeganistão, a decisão de criar um exército recrutado nacionalmente (em oposição a um recrutado regionalmente) foi tomada no início, com a ideia de que um exército afegão com fortes afiliações regionais e tribais ameaçaria sua própria existência.

Essa decisão também teve suas desvantagens. As estruturas tribais e familiares que formam a espinha dorsal da responsabilidade na sociedade afegã não foram transferidas para os militares. Isso criou desafios disciplinares consistentes dentro das fileiras. Também provou ser um problema ao travar uma contra-insurgência. Um soldado afegão etnicamente tadjique de Mazar-i-Sharif com a missão de lutar na província fortemente pashtun de Helmand se veria ali tão estrangeiro quanto qualquer americano. Nunca conseguimos integrar lealdades tribais e regionais em um exército nacional. Se tivéssemos feito isso, as forças de segurança afegãs teriam sido construídas sobre uma base muito mais sólida.

As duas outras áreas onde as forças de segurança afegãs se mostraram endemicamente fracas - administração e liderança - estão intimamente ligadas. Servi como conselheiro de várias unidades afegãs e vi como a negligência em sua administração - listas de tropas imprecisas e estoques de equipamentos incompletos, por exemplo - alimentou a corrupção endêmica. Com muita frequência, como americanos, comparamos a corrupção no Afeganistão com o fracasso moral da parte dos afegãos, embora raramente questionemos nossa própria cumplicidade na criação de condições que fomentassem a corrupção. Mais tragicamente, nossa mensagem consistente de que estávamos saindo do Afeganistão encorajou os afegãos em posições de poder a abraçarem a corrupção - especificamente, o desvio de recursos para ganho pessoal - como o único meio claro e seguro de sobrevivência. A corrupção tornou-se um plano de contingência financeira, a escolha que qualquer afegão razoável faria para garantir um futuro seguro para seus filhos. Quando, a cada ano, os americanos prometiam que o ano seguinte traria uma retirada americana e eventual abandono ao Talibã, que escolha você faria?

A deterioração das forças de segurança afegãs não ocorreu no campo de batalha tanto quanto ocorreu nas salas de negociação, nas quais os principais líderes tribais - como Ismail Khan em Herat - ou se renderam sem lutar ou fizeram acordos com o Talibã enquanto eles avançavam antes que qualquer batalha substancial por essas cidades pudesse ocorrer. O exército afegão estava lá - bem treinado, bem equipado - mas sem liderança política, pelo menos não mais.

No Afeganistão, existe um ditado: “Os americanos têm os relógios, mas o Talibã tem o tempo”. Desde a decisão do presidente George W. Bush de desviar as tropas do Afeganistão para o Iraque como parte da invasão de 2003, os Estados Unidos sempre tiveram um pé fora da porta. Nunca convencemos nossos aliados - ou adversários - de que possuíamos os relógios e o tempo. Ironicamente, isso nos levou a passar mais tempo no Afeganistão do que passaríamos se tivéssemos uma postura diferente. Se não tivéssemos insistido em construir em madeira compensada.

O anúncio do presidente Biden de uma retirada americana completa do Afeganistão no início deste ano desencadeou uma crise de moral entre os afegãos que resultou em suas forças de segurança desistirem sem lutar. Eles podem ter possuído superioridade numérica e material, mas sua crença em si mesmos desapareceu quando partimos.

O que estamos vendo agora no Afeganistão é o acúmulo de centenas de decisões erradas ao longo de duas décadas. No entanto, o que não consigo tirar da minha cabeça hoje é que escolhemos madeira compensada.

Bibliografia recomendada:

Guerra Irregular:
Terrorismo, guerrilha e movimentos de resistência ao longo da história.
Alessandro Visacro.

Leitura recomendada:




domingo, 5 de setembro de 2021

COMENTÁRIO: O mito da decisão na guerra


Por Michael ShurkinLinkedin, 29 de julho de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 5 de setembro de 2021.

Um ponto que ouço com frequência em debates sobre a Barkhane é o argumento de que a missão é um fracasso porque a França não alcançou uma vitória decisiva. O desejo de uma vitória decisiva é então contrastado com a terrível "guerra sem fim". Parece que as únicas intervenções militares que valem a pena são aquelas que, de maneira plausível, podem levar às primeiras. Quanto mais rápido, melhor. Este último, entretanto, é sinônimo de fracasso. Uma vez que um conflito se arrasta por mais tempo do que, bem, algum período de tempo arbitrário que se imagina ser apropriado, é melhor haver evidências claras de que a decisão está ao virar da esquina... caso contrário, o padrão do conflito é “para sempre” e deve ser abandonado. Está perdido.

A busca pela decisão reflete uma compreensão estritamente clausewitziana da guerra que se aplica a alguns conflitos, mas não a outros. Em muitas guerras, a decisão é alcançada destruindo as forças do inimigo, tomando uma posição que coloque o inimigo em xeque-mate ou, de outra forma, desmoralizando o oponente a ponto de fazê-lo desistir. Esta é a guerra que Frederick, Napoleão, Grant e Foch compreenderam. No entanto, existem outros tipos de conflitos, assimétricos ou limitados, em que tais objetivos são irrelevantes. Destruir os exércitos inimigos pode ser implausível ou irrelevante (sempre há alguém disposto a pegar um fuzil); não há posições-chave cuja posse condenaria um lado ou outro; e destruir a vontade do inimigo, se possível, exigiria um longo jogo. Ou talvez uma nação simplesmente decida que alocar os tipos de recursos que podem resultar em uma decisão rápida não é de seu interesse. O objetivo, realmente, é administrar uma crise que não atingiu um nível de importância que justificasse a mobilização nacional.

Mas aqui está o ponto-chave: guerras longas, lentas e insatisfatórias não são guerras ruins porque são longas, lentas e insatisfatórias. A falta de decisão não significa que não valham a pena. Seu valor deve ser determinado por meio de um cálculo totalmente diferente que considere custos e benefícios. É do interesse de alguém continuar ou ir embora? Onde está o maior risco? Qual é o custo de oportunidade? Às vezes, a resposta pode ser desistir. Mas não sempre. Talvez algumas crises só possam ser tratadas como uma doença crônica, em vez de curadas. Talvez até “guerras eternas” sejam a opção menos ruim. Essa determinação teria de ser feita em uma base caso-a-caso.

Bibliografia recomendada:

Guerra Irregular:
Terrorismo, guerrilha e movimentos de resistência ao longo da história.
Alessandro Visacro.

Leitura recomendada:




França/Alemanha e Hobbes/Kant, ou o que a decisão do tribunal da UE nos diz sobre o desafio de forjar uma defesa europeia

Brigada Franco-Alemã com fuzis FAMAS, 2018.

Por Michael Shurkin, Linkedin, 28 de julho de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 5 de setembro de 2021.

A decisão deste mês do Tribunal de Justiça Europeu de que uma lei trabalhista da UE que limita o horário de trabalho dos soldados aponta para um desafio fundamental para o projeto de construção de uma verdadeira política e capacidade de defesa europeias. A maioria, senão todos os membros da UE, aderem ostensivamente à visão de construir uma defesa europeia, mas entre eles existem profundas diferenças no que diz respeito à cultura e à cultura estratégica. Ou seja, eles têm visões significativamente diferentes de como os militares devem trabalhar e como e em que condições devem ser usados.

De um lado está a França, a qual, e isso pode surpreender os americanos ao lerem, é provavelmente o mais marcial dos Estados-membros da UE. A França teria prazer em construir uma força europeia e uma política de defesa europeia à sua própria imagem, o que significa não apenas construir uma força funcional, mas usá-la. A França também colocaria avidamente a Europa no negócio da guerra expedicionária. Diante disso, a Operação Takuba é mais do que apenas uma estratégia de saída para a França: é uma forma de moldar a cultura e a política militares europeias, arrastando uma coalizão europeia de voluntários para uma guerra expedicionária que a França julga necessária e, também, empregando-a na uma forma consistente com a cultura estratégica francesa.


Embora seja difícil dizer qual país ocupa a outra extremidade do espectro, o país que mais importa é a Alemanha, que, segundo todos os relatos, erradicou seu espírito marcial. Fascinantemente, os oficiais franceses descrevem com desdém o Bundeswehr como "sindicalista". De fato, o Bundeswehr tem um sindicato que, por exemplo, reclamou em 2016 sobre as condições de vida no Mali.

O tipo de história que ouvi de vários oficiais franceses que serviram com alemães é mais ou menos assim: “Nós aparecemos e começamos a trabalhar imediatamente, apesar da falta de chuveiros e de nossas barracas rústicas. Os alemães se recusaram a ceder até que tivessem instalações adequadas com ar-condicionado”. Isso é justo? Não sei, mas os comentários apontam para uma divisão cultural, que a decisão do Tribunal da UE amplifica. Afinal, o próprio projeto da UE visa perpetuar a paz ao longo das linhas kantianas, um esforço que a Alemanha do pós-guerra levou a sério. Outros estados europeus, sem dúvida, estão em algum ponto entre a a Alemanha e a abordagem relativamente hobbesiana da França do hard power (poder duro). A questão então é saber se é possível construir uma verdadeira defesa europeia na ausência de consenso.

Immanuel Kant (esquerda) e Thomas Hobbes.

Bibliografia recomendada:

Introdução à Estratégia.
André Beaufre.

L'emergence d'une Europe de la défense:
Difficultés et perspectives.
Dejana Vukcevic.

Leitura recomendada:

General Burkhard: "Nossos líderes devem lembrar que não se ganha guerras difíceis contando seu tempo", 10 de maio de 2021.



Carlos Magno: Depois do Afeganistão, a Europa se pergunta se a França estava certa sobre a América


Da The Economist, 4 de setembro de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 5 de setembro de 2021.

O ritual anual do Dia da Bastilha é um momento para os franceses colocarem bandeirinhas, beberem champanhe e celebrarem os mitos da fundação da república. Em 14 de julho deste ano, porém, quando o embaixador francês  em Cabul, David Martinon, gravou uma mensagem aos concidadãos, a gravidade esmagou a festa. “Mes chers compatriotes”, ele começou, “a situação no Afeganistão é extremamente preocupante”. A embaixada francesa, disse ele, concluiu a evacuação de funcionários afegãos. Os franceses foram instruídos a partirem em um vôo especial três dias depois. Depois disso, dada a “evolução previsível” dos eventos no Afeganistão, ele declarou - um mês inteiro antes da queda de Cabul - que a França não poderia mais garantir-lhes uma saída segura.

Quando os franceses começaram a retirar funcionários afegãos e suas famílias em maio, até amigos os acusaram de derrotismo e de apressar o colapso do regime. O esforço de evacuação em agosto (de 2.834 pessoas, em 42 vôos) foi imperfeito e deixou alguns afegãos vulneráveis para trás. Enquanto os aliados lutavam para tirar seus funcionários afegãos de Cabul, os franceses se viram tão dependentes quanto qualquer outro da segurança americana. No entanto, tem havido uma satisfação silenciosa em Paris. Seus planos mostraram “uma previsão impressionante”, diz Lord Ricketts, um ex-embaixador britânico na França.

Se os franceses agiram cedo, fazendo sua própria avaliação da inteligência compartilhada, isso se deveu em parte a uma pegada menor no solo. A França lutou no Afeganistão ao lado de aliados da OTAN em 2001. “Somos todos americanos”, publicou a primeira página do Le Monde após o 11 de setembro. Em seguida, retirou todas as tropas até 2014, em parte para se concentrar em seu próprio esforço de contra-insurgência no Sahel. No entanto, a decisão em Cabul também foi mais fácil de tomar porque os franceses têm menos escrúpulos em fazer suas próprias coisas, mesmo quando isso irrita os Estados Unidos. Enquanto os europeus pensam nas implicações perturbadoras do fiasco afegão e no que ele diz sobre a dependência de uma América unilateral, o clima na Grã-Bretanha e na Alemanha é de choque e mágoa. Para os franceses, que tiraram da crise de Suez em 1956 a lição de que nunca poderiam confiar totalmente nos Estados Unidos, uma conclusão reforçada sob as presidências de Obama e Trump, o Afeganistão serviu para confirmar o que há muito suspeitavam.

Reembarque de um tanque M47 Patton francês do 8º Regimento de Dragões no Porto Said, no Egito, em 21 de dezembro de 1956.

Não é segredo que nem todos os europeus compartilham da opinião da França. Quando Emmanuel Macron subiu ao palco de painéis de madeira no anfiteatro da Sorbonne logo após sua eleição em 2017 e implorou por "soberania europeia" e uma "capacidade de agir autonomamente" em questões de segurança caso a Europa precisasse, sua voz era solitária. Na Alemanha e em pontos a leste, o apelo de Macron foi visto com irritação: mais uma incômoda tentativa gaullista de minar a OTAN e suplantar a América como fiador da segurança europeia.

As mentes mudaram um pouco desde então, pois Macron procurou tranquilizar os amigos de que sua ideia não é substituir, mas complementar a aliança transatlântica. Mesmo assim, no ano passado, Annegret Kramp-Karrenbauer, Ministra da Defesa da Alemanha, escreveu sem rodeios que "as ilusões de autonomia estratégica europeia devem acabar." Enquanto isso, na Grã-Bretanha, as ligações de Macron foram desconsideradas como irrelevantes para uma nação-ilha recentemente livre para forjar seu próprio papel global. A união da soberania europeia sobre a Defesa era algo que o Brexit foi projetado para evitar.

Paraquedistas da 82ª Divisão Aerotransportada "All American" provendo a segurança do aeroporto de Cabul.

O desastre no Afeganistão mudou a retórica. Tom Tugendhat, um parlamentar conservador que serviu no Afeganistão, exortou a Grã-Bretanha “a se certificar de que não dependemos de um único aliado”, nomeando a França e a Alemanha como parceiros em potencial. Ben Wallace, Secretário de Defesa da Grã-Bretanha, sugeriu que suas forças armadas deveriam estar prontas para "aderir a coalizões diferentes e não depender de uma única nação". Ele não precisou dizer qual. “Todos nós fomos humilhados da mesma forma pelos americanos”, disse um diplomata britânico, que aponta para um interesse comum em garantir que isso não aconteça novamente. Para a Alemanha tímida em relação à conflitos, o Afeganistão foi uma experiência formativa. A decepção foi dolorosa. Armin Laschet, o candidato conservador à chancelaria da Alemanha, descreveu a retirada como “o maior desastre que a OTAN já experimentou desde a sua fundação”.

Em suma, a Europa parece perceber que terá de fazer mais por si mesma. Quer os céticos entendam ou não, isso é exatamente o que o Monsieur Macron tem dito, e dirá novamente em um discurso antes da presidência rotativa da França no Conselho da UE em 2022. Ninguém, mas ninguém, vai dizer isso em voz alta. Mas o reconhecimento implícito é que, zut alors, o Monsieur Macron estava certo.

Aux armes, Européens

Sniper francês da Força Barkhane no Sahel malinense.

Duas grandes questões para os europeus decorrem desse pensamento desconcertante, no entanto, e nenhuma resposta fácil existe para nenhuma delas. Em primeiro lugar, o que a Europa realmente quer dizer com “soberania europeia” ou “autonomia estratégica”? A maioria dos países promete gastar mais em defesa, embora a Alemanha (ao contrário da Grã-Bretanha e da França) ainda falhe em cumprir a referência da OTAN de 2% do PIB. Além disso, há pouca clareza e ainda menos acordo, até porque o Brexit não deixou a Grã-Bretanha com vontade de trabalhar institucionalmente com a UE.

Devem os europeus aspirar apenas a uma gestão limitada de um conflito regional, como o Sahel ou o Iraque? Ou esperam enfrentar a defesa coletiva de seu continente? Os realistas defendem o primeiro, e apenas até certo ponto. Os entusiastas sugerem o último. No entanto, mesmo no Sahel, a França ainda precisa dos americanos para inteligência e logística. Em segundo lugar, a Europa está realmente preparada para fazer o que for preciso para sobreviver por conta própria? A evidência não é convincente. A Europa é melhor na criação de siglas do que na construção de capacidades. “Se não podemos nem cuidar do aeroporto de Cabul, existe uma grande lacuna entre nossa análise e nossa capacidade de ação”, diz Claudia Major, do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança.

O esforço implícito seria enorme. “Não tenho certeza se os europeus estão psicologicamente preparados para enfrentar o desafio”, escreveu Gérard Araud, um ex-embaixador francês na América, para o Conselho do Atlântico. O Monsieur Macron, como seu embaixador em Cabul, pode ter feito a escolha certa. Mas os europeus estão prontos para dar atenção a isso?

Bibliografia recomendada:

L'emergence d'une Europe de la défense:
Difficultés et perspectives.
Dejana Vukcevic.

Leitura recomendada:






FOTO: Fuzis SKS capturados, 1º de janeiro de 2021.


quarta-feira, 1 de setembro de 2021

COMENTÁRIO: A morte confirmada da indústria de armas francesa


Comentário do Grupo VaubanLa Tribune, 31 de agosto de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 1º de setembro de 2021.

O Grupo Vauban reúne cerca de vinte especialistas em questões de defesa.

Já há um ano, a tribuna do Grupo Vauban, intitulada a "morte programada da indústria armamentista francesa", desencadeou uma polêmica muito francesa: "estéril e puramente ideológica, no contexto de uma agradável caça às bruxas", segundo o Grupo Vauban. “E, no entanto, um ano depois, quem se atreve, com sinceridade e honestidade, a considerar infundadas nossas críticas, especialmente à Europa e à Alemanha, pois os acontecimentos nos provaram que estamos certos?”, Questionam os cerca de vinte especialistas em defesa.

“Obviamente culpada de corrupção, inevitavelmente auxiliar de ditadores e outros genocidas, inevitavelmente danosa a qualquer sociedade, a indústria de armamentos não deve mais ser financiada, nem para P&D nem para produção e a fortiori para exportação” (Grupo Vauban).

Primeiro, a Europa. Burocrática como de costume, Bruxelas teve o cuidado particular de acumular, em meio à crise sanitária, projetos que, juntos, desfazem, em um belo ímpeto esquizofrênico, os sistemas de defesa dos países membros: em primeiro lugar, essa pantalunata - ai de mim! sério - do tempo de trabalho dos militares. Por um acórdão no início de julho, o Tribunal de Justiça Europeu pura e simplesmente derrubou as forças armadas europeias: ao separar as atividades "normais" dos militares às quais o direito do trabalho europeu deve ser aplicável e as atividades excecionais (operações), como a Comissão e a Alemanha já havia endossado em outro lugar, que ela quebra a singularidade do regime militar cuja nobreza da profissão (e não a singularidade, uma palavra estranha que menospreza a vocação) é servir em todo tempo e em todas as circunstâncias seu país.

O Tribunal, ao inviabilizar assim o trabalho da gendarmaria, dos bombeiros, do serviço médico das forças armadas, etc., tem êxito onde a URSS não teve êxito: derrubar todo o sistema de defesa das nações europeias sem disparar um tiro.

Os fabricantes de armamento na mira


Depois do horário de trabalho, outro golpe violento de Bruxelas - o chamado projeto “Corporate Sustainability Reporting Directive” (Diretriz de Relatórios de Sustentabilidade Corporativa) - ameaça o braço armado das forças: a indústria de armamentos, sem a qual um aparato de defesa não pode sonhar com independência e eficiência. A transparência que se aplicava à área financeira e depois comercial (Lei Sapin-II) das empresas, passa a abordar as áreas do ambiente, questões sociais e de governança: é assim depois de ter submetido o comércio e a governança das empresas ao seu tirânico opaco e definitivo apelo mas nunca desinteressado, os mesmos atores (ONGs, advogados, fundos éticos, agências de classificação, etc.) agora desejam destruir o próprio cerne de sua existência: o financiamento de atividades industriais e comerciais de defesa.

Necessariamente culpada de corrupção, necessariamente auxiliar de ditadores e outros genocidas, necessariamente danosa a qualquer sociedade, a indústria armamentista não deve mais ser financiada, nem para P&D, nem para produção e, a fortiori, para exportação. Bancos, seguradoras, bolsas de valores: todas essas instituições financeiras agora tremem diante da ONG; pouco importa que seu financiamento seja opaco, que suas campanhas sejam orquestradas apenas nos países onde são toleradas e não nos países que mais precisam delas (China, Coréia do Sul, Turquia, Rússia, Bielo-Rússia, Ucrânia, Sérvia e Israel) e que suas análises e informações são falsas e infundadas quase SISTEMÁTICAMENTE, apenas a imagem conta.

Preferimos a turbina eólica às aeronaves de combate. Nenhum banqueiro, nenhuma seguradora, nenhuma pessoa encarregada dos fundos vai querer se comprometer com os traficantes de armas de que todos querem a pele. Este movimento, já em curso há anos, é agora legitimado pela Comissão com esta proposta de diretiva. Tal como acontece com o tempo de trabalho, a Europa ataca assim uma instituição cuja vocação não é a guerra, mas a paz. Os militares e os fabricantes de armas são os instrumentos desse ditado romano, pilar das nações civilizadas: si vis pacem, para bellum.

Tal realidade, tanto histórica como social, não é decentemente negável, que as autoridades europeias, portanto, realmente têm em mente, torpedeando assim em rápida sucessão os fundamentos humanos e financeiros de um sistema de defesa que “ao mesmo tempo" pretendem construir (bússola estratégica, Fundo de Defesa, DG Defesa, etc.)? “Como alguém pode ser europeu”, perguntava-se um Montesquieu moderno, debruçado sobre o nada inspirador caldeirão bruxelês?

Cooperação e exportação: sob o controle de Berlim


Então, a Alemanha, que sem dúvida será o GRANDE assunto nos próximos anos. É claro que as análises desenvolvidas há um ano foram todas verificadas, como as de Bainville que citamos; o divórcio estratégico fundamental entre Paris e Berlim? Salientou, em particular a dissuasão nuclear e o papel da NATO, dois obstáculos fundamentais que irão sempre destruir as esperanças ingénuas dos dirigentes franceses que SEMPRE não compreenderam que nunca se juntarão à Alemanha nestas duas posições.

Cooperação em armamentos? Também aí uma doutrina atlantista e pacifista só pode produzir desilusões, cuja melhor ilustração continua a ser a bofetada alemã que Paris recebeu sem vacilar no avião da patrulha marítima. É menos aqui a substância do que o método alemão que deveria ter chocado Paris, uma vez que, pela segunda vez (e não a última), Berlim não tirou as luvas para infligir isso a seus interlocutores franceses. Já tinha havido, recorde-se, o debate sobre a autonomia estratégica europeia, em que o Ministro da Defesa, embora desacreditado pela incompetência na própria Alemanha, levara o partido a criticar publicamente e por três vezes o Presidente francês com apoio vergonhoso mas apoio real da Chanceler... As dificuldades inerentes aos outros programas - aviões e tanques de combate - mostram bastante que a Alemanha não concebe a cooperação, mas apenas o domínio humano e tecnológico dos grupos europeus. Abandonada porque desprezada, a indústria francesa de armamentos terrestres vive no horário alemão todos os dias.

A exportação de armamento? Com o peso fundamental porque central que os Verdes estão em processo de ganhar na futura coalizão (seja liderada pela CDU ou pelo SPD), exportando armas para a Alemanha, então para o franco-alemão serão os piores. Esta oposição dos Verdes, dos Socialistas e da extrema-esquerda a qualquer exportação de armas não só convenceu a Alemanha, mas seduziu Bruxelas, o que é igualmente pior. O relatório da senhora deputada Neumann (setembro de 2020) já o anunciava: a exportação de armas deixará de ser autorizada a não ser no interior da União Europeia ou da OTAN e, mais uma vez, será preferida a cooperação sob controle estreito da Comissão Europeia. Basta dizer que a indústria armamentista francesa está condenada para a grande alegria de outros países.

Paris resignada


E a França? Apesar das decepções europeias e alemãs, o governo mantém o curso, ou seja, aceita sem pestanejar o curso das coisas como estão planejadas em Bruxelas e Berlim; nenhuma crítica é permitida; nenhuma ordem de resistência ao Tribunal de Justiça; nenhuma isenção pela defesa sob a diretriz da ESG; sem questionar os próprios termos de cooperação com a Alemanha.

Tudo se passa como se a realidade já não tivesse sustentação e, sobretudo, como se a Sra. Goulard, ainda efêmera Ministra da Defesa, tivesse feito triunfar definitivamente a sua doutrina ao anunciar profeticamente no dia 8 de junho de 2017: “Se quisermos fazer a Europe de la Défense (Europa da Defesa), haverá reestruturações para operar, escolhas de compatibilidade e, em última instância, escolhas que poderiam passar inicialmente a acabar em favor de consórcios nos quais os franceses nem sempre são líderes”.

Tudo foi dito há quatro anos: os partidários ferrenhos da Europa da Defesa, tal como está a ser construída perante os nossos olhos, apenas podem apoiar ou manter o silêncio. Mas, e esse é o interesse do período atual, nem tudo se esgota: um sobressalto é possível, e é nisso que se concentrarão nossas próximas tribunas.

Bibliografia recomendada:

L'emergence d'une Europe de la défense:
Difficultés et perspectives.
Dejana Vukcevic.

Leitura recomendada: