segunda-feira, 30 de maio de 2022

ÍNDICE DE AERONAVES MILITARES - WARFARE Blog



GRUMMAN F-14 TOMCAT. Uma lenda do combate aéreo.

FICHA TÉCNICA DE DESEMPENHO (F-14D)
Velocidade de cruzeiro: mach 0,72 (889 km/h).
Velocidade máxima: mach 2,2 (2320 km/h).
Razão de subida: 13740m/min.
Potência: 0,90.
Carga de asa: 129,03 lb/ft².
Fator de carga: 6,5 Gs.
Taxa de giro Instantâneo: 18,7º/s  a mach 0,5(Instantâneo).
Razão de rolamento: 180 º/s (com as asas abertas) (estimado).
Teto de Serviço: 21000 m.
Alcance: 2573km.
Alcance do radar: Hughes AN/ APG-71 com 188 km (RCS 5m2).
Empuxo: 2X General Electric F-110 GE-400 12150 kgf
DIMENSÕES.
Comprimento: 19,10 m
Envergadura: 19,54 m.
Altura: 4,88 m.
Peso: 19776 Kg (vazio).
Combustível Interno: 7348 Kg.
ARMAMENTO
Ar Ar: AIM 9L/M Sidewinder, AIM 7F/M Sparrow, Míssil AIM-54 Phenix.
Ar Terra: GBU-31/32 JDAM, Bombas guiadas a laser GBU-10,12, 16 e 24 Paveway. Bombas de queda livre MK-82, 83 e 84 e bomba de fragmentação MK-20 Rockeye.
Interno: Canhão M61A2 Vulcan 20mm com 676 munições.

DESCRIÇÃO
Por Carlos Junior
No universo dos aviões de combate, muitos caças marcaram suas épocas devido a seu sucesso em combate ou por causa de suas capacidades diferenciadas. Porém, a condição de ser considerado uma lenda é algo para pouquíssimas aeronaves. O caça Grumman F-14 Tomcat pode ser considerado como um caça imortal na história da aviação de combate devido a suas capacidades extraordinárias e que o colocaram como sendo o primeiro avião de combate a poder ser classificado como “super caça”. 
A origem do F-14 teve lugar no ano de 1966 quando a Marinha dos Estados Unidos (US Navy) precisou de um sucessor do seu clássico caça F-4 Phanton II. Uma versão navalisada do gigante F-111 chegou a ser proposto e até fez alguns voos, mas seu desempenho foi muito ruim desagradando o pessoal da marinha que avaliava a aeronave. Além disso, a marinha dos Estados Unidos pediu que o novo caça fosse capaz de operar dentro do conceito de defesa da frota, usando um sistema de radar e armamentos capazes atacar alvos a longas distancias, um conceito que já estava em estudos antes da década de 60. Lançou-se, aqui, o programa VFX (caça naval experimental) em que concorreram a Grumman, McDonnell Douglas, General Dynamics, North American e a LTV. Em 1969 a Grumman foi declarada vencedora com seu projeto G-303B e a partir disso, o projeto foi rebatizado de YF-14.
O protótipo YF-14 fez seu primeiro voo em dezembro de 1970. Sua introdução em serviço se deu 4 anos depois, em setembro de 1974.
O F-14A foi apelidado de Tomcat e esta versão, a primeira de produção, entrou em serviço em setembro de 1974 a bordo do super porta-aviões USS Enterprise, primeiro porta aviões movido a energia nuclear dos Estados Unidos.  O F-14 tem algumas características que marcam sua personalidade. A mais importante, sem sombra de duvidas, é a sua asa de geometria variável. Isso significa que o enflechamento de suas asas muda de acordo com o regime de voo possibilitando máximo desempenho de voo em todas as velocidades. Embora o enflechamento das asas possa ser controlado manualmente, pelo piloto, normalmente é o sistema de controle automático a partir de um computador de controle de voo que movimenta as asas para garantir a melhor condição de resposta das superfícies de controle. O F-14 não é um caça para combates aéreo de curta distancia, pois ele não é tão ágil como os modelos contemporâneos dele como o F-15 e o F-16. Sua estrutura suporta cargas de 7,5 Gs, (podendo superar isso, segundo o manual, porém com comprometimento da célula) e sua taxa de giro instantânea é de 20º/seg a velocidade de mach 0,6. Em velocidades maiores esse desempenho cai muito.

SENTIDOS AGUÇADOS
Evitar um combate de curta distancia, para o F-14, não era uma tarefa tão difícil, pois seu maior talento, sem duvidas, era seu sistema de combate de longa distancia composto pelo potente radar Hughes AN/AWG-9 capaz de detectar um caça inimigo a 210 km, e um alvo maior, como um bombardeiro inimigo, a 330 km. Este radar rastreava 24 alvos simultaneamente e podia atacar com mísseis de guiagem ativa Hughes AIM-54 Phoenix até 6 alvos simultaneamente. A uma distancia de 97 km. Se for usado um modo pulse Doppler single target, com alvo único, o alcance é muito maior. Além do radar, o F-14 foi o único caça norte americano de sua época a ser equipado com um sistema de detecção passiva IRST AN/ALR-23, porém, devido a sua ineficiência, acabou sendo substituído por um sensor de TV Northrop AN/ AAX1 TCS (Television Câmera System), muito mais efetivo, sendo capaz de detectar e identificar um caça como um F-16 a 15 milhas (27,7 km).
O painel do piloto do F-14 mostra a quantidade enorme de trabalho que a dependência de mostradores analógicos, comum naquela época, apresentavam. 
O oficial de operação de sistemas de armas (WSO), posicionado logo atrás do piloto no F-14, era o responsável pela detecção, identificação e preparação das armas da aeronave, além de apoio à navegação.
O F-14A possui sistema de identificação amigo/ inimigo IFF AN/APX-72, extremamente necessário para se evitar lançar armas a longa distancia contra um aliado. O sistema de guerra eletrônica do F-14 possui um jammer (interferidor) AN/ALQ-126 usados para embaralhar o retorno radar do inimigo. Outro elemento deste sistema é o receptor de alerta radar RWR AN/APR-45 que avisa o piloto quando um radar hostil travou no F-14. Por ultimo, um lançador de iscas chaff (contra mísseis guiados a radar) e de Flares (contra mísseis guiados a calor IR), A N/ALE-29/39 está instalado na parte inferior da fuselagem. O F-14 usa um sistema de intercambio de dados JTIDS compatível com os sistemas de data link da força aérea e exercito dos Estados Unidos. Este sistema permite ao F-14 receber e transmitir dados de posicionamento dos alvos e das forças aliadas em tempo real aumentando a consciência situacional do piloto.
A antena plana, do velho, porém poderoso radar Hughes AWG-9 cujo alcance podia superar 300 km e que viabilizava o uso do míssil ar ar  de longo alcance AIM-54 Phoenix.
O F-14 teve a integração de um casulo de reconhecimento conhecido como TARPS (Tactical Air Reconnaissance Pod System) com uma câmera KS-87B e uma câmera KA-99, do tipo panorâmica, além de um sensor AN/ AAD-5 IR para coletar informações visuais e térmicas do alvo.

UM CAÇA ESPECIALIZADO
O Tomcat, inicialmente, em sua versão “A”, foi concebido como um caça especializado de interceptação, com foco em proteger o grupo de batalha naval norte americano de bombardeiros soviéticos com armamento antinavio. Por isso, seu armamento era direcionado para combate aéreo. Assim, o míssil de curto alcance foi o velho conhecido AIM-9L/ M Sidewinder, guiados por infravermelho e com alcance de 18 km. Este míssil podia ser lançado contra o alvo de frente, graças a sensibilidade de seu sensor que permitia usar o calor da fuselagem do avião pela fricção de ar em alta velocidade como referencia do alvo.
O míssil de médio alcance do F-14 A foi o AIM-7F/ M Sparrow, guiado por radar semi-ativo e capaz de destruir um caça inimigo a 50 km. Porém este míssil se mostrou pouco confiável com um percentual de acerto abaixo dos 40%.
Mas a grande estrela do armamento do Tomcat foi o míssil de longo alcance AIM-54 Phoenix. O único avião de combate do mundo capaz de lançar ele era o F-14 e sua capacidade, já demonstrada, era de destruir um avião inimigo a incríveis 212 km. O Phoenix usava um radar ativo que era acionado na fase terminal do ataque, e sua chance de acerto era de 88%, muito superior ao do AIM-7 Sparrow. Este super míssil operando integrado com os dados do radar de controle de fogo AWG-9 do F-14, permitia atacar 6 alvos simultaneamente. Pode-se dizer, que para aquela época, a combinação F-14/ míssil Phoenix tornava a defesa aérea de um porta aviões americano, intransponível. Por isso, ele foi considerado o melhor interceptador de sua época.
O poderoso míssil de longo alcance AIM-54 Phoenix foi a maior barreira para que um ataque aéreo contra um porta aviões americano e suas escoltas pudesse ser bem sucedido. Nessa foto um F-14D aparece armado com a carga completa para 6 unidades que podiam ser lançados em rápida sucessão contra 6 alvos simultaneamente. na época, era uma façanha não igualada por nenhuma outra aeronave.
Para combate a curta distancia, além dos seus mísseis AIM-9 Sidewinder, o F-14 contava, ainda, com um canhão interno M-61A1 Vulcan com 6 canos rotativos em calibre 20 mm capaz de uma cadência de tiro de até 6000 tiros por minuto. O tambor de munição do F-14 comportava 676 munições.
Embora o F-14 não tenha sido projetado para ser um "dog fighter", ou seja, um combatente de curto alcance, seu desempenho, quando bem pilotado, dava trabalho para adversários mais ágeis. Estruturalmente, o F-14 podia suportar 7,5 Gs sem problemas. Mas em caso de necessidade, esse numero poderia ser superado, porém, necessitando de uma revisão estrutural posteriormente. 
O F-14 foi projetado para operar o sistema AWG-9 de controle de tiro e os mísseis de longo alcance Phoenix. A ideia principal foi de impossibilitar bombardeiros soviéticos de se aproximar da esquadra a ponto de poderem lançar seus mísseis antinavio. Para isso, a manobrabilidade não era um elemento prioritário. Mesmo assim, bem pilotado, o F-14 poderia conseguir vitorias em combate contra caças.

UM MOTOR PROBLEMÁTICO
O "calcanhar de Aquiles" do F-14, sem a menor duvida, foi seu motor Pratt & Whitney TF-30 P-412 e o P414 instalado no F-14A Tomcat. Este motor não podia ser acelerado de forma abrupta, pois corria o risco de haver uma pane no motor conhecida como estol do compressor que, quando ocorria, fazia o motor perder sua eficiência. Cerca de 30% das quedas de F-14 Foram atribuídas a falhas nesse motor. Além disso, outro ponto negativo sobre o motor TF-30 é que ele produzia um empuxo considerado baixo para o peso do F-14. Com pós-combustão, o TF-30 produzia 9400 kg de potencia, mas mesmo assim precisava ser acelerado com cuidado para evitar problemas. Para resolver este sério problema a empresa General Electric ofereceu o motor F-101 usado no poderoso bombardeiro B-1 e instalaram em um protótipo. O resultado dos testes mostrou uma significativa melhora no desempenho e na confiabilidade do Tomcat de forma que a marinha norte americana resolveu adotar este motor. Os caças que receberam este novo motor foram chamados de F-14B e muitos F-14A foram modificados para receberem este motor. Nisso o motor foi renomeado de F-110 GE-400. Este excelente motor tem um empuxo de 12150 kg de potencia e permitia que o F-14 decolasse do porta-aviões sem o uso do pós-combustor gerando uma economia de combustível.
Além dos novos motores, o F-14B teve substituído seu sistema de guerra eletrônica original pelo novo AN/ ALR-67.
Os motores originais do F-14 era o Pratt & Whitney TF-30. Muitos problemas ocorreram com esse motor devido a falta de confiabilidade. 

O SUPER TOMCAT
A ultima versão do Tomcat foi o F-14D, apelidado de Super Tomcat e entrou em serviço no final de 1990. Este modelo usa o motor F-110 GE 400 e o sistema de guerra eletrônica do F-14B, porém o radar original foi substituído por um bem mais moderno, o AN/ APG-71 com alcance de 189 km contra um alvo do tamanho de um caça, e 333 km contra um alvo do tamanho de um bombardeiro. Além disso, o F-14D recebeu o novo sistema IRST ao lado do seu sensor AN/ AAX1 TCS. Outra novidade foi que no F-14D, devido ao seu novo barramento de dados MIL STD 1553B, pode-se integrar armas ar terra a partir de 1992. As principais versões da bomba Paveway (GBU-10, 12, 16 e 24), guiadas a laser, as bombas guiadas por GPS GBU-31 e GBU-32 JDAM, bombas de fragmentação MK-20 e as bombas de uso geral MK-82, MK-83 e MK-84 foram integradas ao F-14 que usou esse seu novo talento na guerra da Iugoslávia com muito sucesso. Além do armamento, um casulo LANTIRN para detecção e designação de alvos para as bombas guiadas a laser também foi integrado ao F-14D. O painel de controle também foi modernizado com a instalação de dois displays multifunção que diminuíram a carga de trabalho do piloto. Uma curiosidade interessante é que esta versão do F-14 é quase uma tonelada mais pesada que o F-14A, e essa diferença, fez com que o modelo tivesse uma pequena redução em seu desempenho.
Os F-14D foi a versão mais avançada que voou pela marinha dos Estados Unidos.

GOSTO DE SANGUE
Nas mãos dos pilotos norte americanos, o F-14 teve dois tensos momentos de combate real. O primeiro ocorreu em 19 de agosto de 1981 no Golfo de Sidra, onde dois F-14A baseados no porta-aviões USS Nimitz enfrentaram dois Sukhoi Su-22 Fitter da Força Aérea Líbia onde, segundo a versão norte americana, um dos Fitters disparou um míssil AA-2 Atoll contra os Tomcats, errando e dando início a um combate aéreo que culminou com a destruição dos dois Fitters por mísseis AIM-9L Sidewinders. Outro interessante incidente envolvendo os Tomcats norte americanos e a força aérea da Líbia ocorreu e 4 de janeiro de 1989, quando dois MIG-23 Floggers deram combate a dois F-14 e foram abatidos por mísseis Sparrow. O Iran, o único usuário que ainda usa os F-14 adquiridos em 1974, teve alguns combates com seus Tomcats durante a guerra Iran Iraque, porém os dados são pouco claros, de forma que se sabe 3 F-14 foram derrubados em combates de curta distancia contra caças MIG-21 e Mirage III iraquianos enquanto que alguns Mirages  F-1 e alguns MIG-21 também foram abatidos pelo Tomcat.
O F-14 vai deixar muita saudade. Embora não seja correto um editor expressar sua opinião sobre os assuntos que escreve, eu vou quebrar o protocolo e dizer que o F-14, sem sombra de duvidas, é um dos melhores caças de todos os tempos. Em sua época, seria uma tarefa absurdamente complicada para um atacante superar o anel de defesa imposto por esquadrões de F-14 armados com mísseis AIM-54 Phoenix e apoiados por aeronaves E-2C Hawkeye.
O Iran, usa caças F-14, profundamente modificados com ajuda russa, que já descaracterizaram suas capacidades, uma vez que o aopio dos Estados Unidos ao Iran se encerrou com a queda do xá Reza Pahlevi vitimado por uma revolução islâmica que tornou o país hostil ao ocidente e inimigo dos Estados Unidos. 
Mas para matar a saudade deste super caça, sempre resta as belíssimas imagens do filme Top Gun, Ases Indomáveis de 1986 onde o personagem Maverick encarnado pelo ator Tom Cruise, encantam os entusiastas de aviação militar. Mais recentemente, o F-14 também aparece em alguns momentos na sequencia do filme dos anos 80, lançados em maio de 2022 Top Gun Maverick, sendo, no entanto, que o avião principal desse novo filme é F/A-18E Super Hornet.
O F-14 foi usado de forma bastante importante durante a primeira guerra do Golfo Persico, quando as forças armadas do Iraque foram expulsas do Kuwait, após ter invadido esse país.


 
 





                     

As origens da guerra subversiva, pelo General Alain Gaigneron de Marolles

GCMA na Indochina.
(Crédito: DR)

Pelo General Alain G. de Marolles, Theatrum Bellum, 1º de fevereiro de 2022.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 30 de maio de 2022.

Centre Français de Recherche sur le Renseignement (CF2R),
entrevista em 1999 por Fabienne Mercier e Eric Denécé.

Especialista em ação político-militar e guerra subversiva, o General de Marolles (1927-2000) serviu toda a sua carreira em unidades especiais (comandos do Vietnã do Norte, 11º Regimento de Paraquedistas de Choque), tanto na Indochina quanto na Argélia, e no Serviço de Documentação e Contra-Espionagem (SDECE), do qual foi chefe do Serviço de Ação (1974-1979), e depois diretor de inteligência (1979-1981).

Entrevista originalmente publicada na revista Renseignement et opérations spéciales, nº 1, março de 1999, CF2R/L’Harmattan.

FM: General, qual foi, na sua opinião, o impacto das armas nucleares nas modalidades do confronto Leste-Oeste?

Não foi Yalta que manteve a Europa dividida em duas, apesar das crises e altos e baixos políticos, mas a ameaça atômica, que apareceu em Hiroshima. Foi somente após a vitória do mundo livre e do comunismo sobre o nazismo que o perigo das armas nucleares apareceu. Apesar de não ser mais utilizado, assumiu, com a teoria da dissuasão, um caráter mais político e diplomático do que militar. O conceito de dissuasão permitiu, de fato, conduzir tensões ou crises de acordo com as novas regras da “paz atômica”. A filosofia da guerra, conforme descrita por Clausewitz, não fazia mais sentido entre potências com armas atômicas.

Surgiu assim o fenômeno da “santuarização”. Tornou os territórios nacionais das potências atômicas, santuários e suas aproximações ar-terra e ar-marítimas em glacis invioláveis. Com isso, confirmou-se a estabilidade no hemisfério norte, que pôde assim acelerar seu desenvolvimento sob o abrigo desse novo tabu. Um certo relaxamento nasceu dessa situação, até mesmo um certo entendimento e cooperação entre sistemas sociais e políticos opostos, capitalismo e comunismo.

As lutas ideológicas e políticas entre esses dois blocos, que permaneceram antagônicas, continuaram, se não amplificadas. O mundo encontrava-se num estado de “não-guerra” que não era a paz, mas a continuação de um confronto noutro terreno, o da conquista das mentes. As armas nucleares não favoreceram a paz universal: transformaram a natureza dos conflitos e transferiram os locais de seu desenvolvimento.

FM: Como a estratégia soviética se adaptou a esse novo contexto durante a Guerra Fria?

Forças especiais soviéticas em Angola, 1985.

O extraordinário sucesso da recuperação econômica no mundo ocidental após a guerra não permitiu que a União Soviética lançasse movimentos revolucionários nos países do mundo livre. Na Europa, a ação revolucionária sob influência ou direção comunista foi um fracasso, porque se baseou nas possibilidades de desenvolvimento de crises econômicas e conflitos internos nos países industrializados. Paradoxalmente, o fracasso do sistema socialista dentro do bloco comunista da Europa Oriental levou o Kremlin ao revisionismo. Como resultado, Moscou adotou a política de coexistência pacífica com as democracias ocidentais, ao mesmo tempo em que elaborava uma estratégia para contornar e enfraquecer o Ocidente. Assim, os soviéticos empreenderam um movimento de virada na direção dos países do Terceiro Mundo.

O impulso revolucionário provocado pela descolonização gerou uma corrente ideológica e política de dimensão internacional. Os erros das metrópoles muitas vezes orientaram os movimentos de independência para a luta armada e não para soluções negociadas e esses erros foram explorados pelo mundo comunista. Abriu-se então um conflito entre o Oriente e o Ocidente no Hemisfério Sul. Mas, enquanto o marxismo-leninismo previa o nascimento de situações revolucionárias nas áreas urbanas e operárias, foi paradoxalmente nos países subdesenvolvidos, essencialmente rurais e camponeses, que eles apareceram, imediatamente explorados por Moscou.

Em suma, a estratégia soviética – uma estratégia indireta – foi construída em torno da manutenção da “paz atômica” no Hemisfério Norte e do desenvolvimento da ação revolucionária no Hemisfério Sul. Foi adaptado ao desenvolvimento do impulso insurrecional devido à descolonização, abrindo assim um vasto teatro de operações para guerras limitadas, mas gradualmente estendidas a todo o hemisfério sul. A URSS perseguiu seus objetivos combinando a dissuasão e a arma da revolução internacional, a paz atômica e a guerra revolucionária, constituindo os dois pilares fundamentais de sua estratégia global.

FM: Nesse período, quais eram os modus operandi preferidos dos soviéticos?

Todas as formas possíveis de ação foram empregadas, da agitação indireta à luta armada. Porque a ação revolucionária se desenvolve segundo dois processos distintos, que podem ser combinados, sucessivos ou alternados: ação política e ação armada.

A subversão política vai da luta não violenta à agitação. Pretende condicionar as massas a temas previamente escolhidos, através da propaganda e da ação psicológica, para desenvolver as diferentes motivações de resistência e luta contra os poderes estabelecidos. Nessa atmosfera favorável, o aparato de agitação cria perturbações paralisando o oponente por meio de ações apropriadas (greves, sabotagens, manifestações etc.). Resta apenas ao aparelho oficial do partido revolucionário reivindicar o poder legalmente, se não legitimamente. Esse processo, iniciado por estrategistas soviéticos e pelo próprio Lenin durante a Revolução de Outubro, foi geralmente imaginado em áreas industrializadas e urbanas.

Desfile da vitória do Exército de Libertação do Povo Chinês com blindados capturados do KMT, 1949.

A ação armada busca, por sua vez, a contradição tática e estratégica que o adversário não poderá resolver e que, cada vez mais, ultrapassará o limiar de suas possibilidades. Supõe-se que se concentrar suas forças, perde terreno e se dispersar, perde poder. A ameaça revolucionária armada obriga o adversário a assegurar a proteção das cidades a nível local e das áreas urbanas a nível nacional, obrigando-o assim a estabelecer uma grelha política, administrativa e militar, dentro da qual se criam intervalos onde não se pode manter o controle permanente, tanto a nível regional como ao longo de todo o território do país. A ação armada é geralmente localizada em regiões rurais e subdesenvolvidas. Foi desenvolvido notavelmente por Mao Tsé-Tung, durante a Guerra de Libertação da China, e levou à sua vitória em 1949. Foi esta mesma estratégia que permitiu ao General Giap superar o Corpo Expedicionário Francês durante a Primeira Guerra da Indochina.

A guerra subversiva, cujo objetivo era revolucionário, serviu aos objetivos do Kremlin e se beneficiou do apoio externo psicológico, político, diplomático e até material das potências comunistas e seus satélites progressistas. O apoio assim concedido tornou a rebelião dependente do comunismo internacional. O objetivo perseguido era forçar o inimigo a negociar ou capitular sob a crescente influência da opinião pública e de governos estrangeiros. Foi assim que a França, que havia vencido a parte militar na Argélia, teve que desistir da luta por pressão internacional. Foi em parte o mesmo para os americanos no Vietnã, que foram forçados a abandonar os sul-vietnamitas à sua sorte, sob a influência do resto do mundo e de sua própria população.

FM: Nesse contexto, qual era o papel da inteligência e das operações especiais?


Nesse contexto, os serviços secretos soviéticos foram chamados a desempenhar um papel essencial, tanto em termos de inteligência quanto de ação. Porque para atingir o objetivo de paralisar o adversário sem destruí-lo, por meio da conquista ideológica, eles tinham a tarefa de analisar as situações para determinar aquelas que melhor se prestavam à guerra insurrecional. Coube-lhes, então, treinar, instruir e assessorar no nível político-militar – sem intervir diretamente – os quadros que liderariam a ação, prestando assessoria estratégica e logística.

O nascimento e o desenvolvimento da ação revolucionária dos serviços especiais correspondem cada vez à existência de fatores locais e internacionais favoráveis, que constituem um conjunto de condições necessárias e suficientes:
  • No local, um forte e generalizado sentimento de oposição, senão resistência aos poderes estabelecidos;
  • A existência de um núcleo ativo dirigido e organizado de acordo com os padrões da ação clandestina e capaz de realizar a ação na forma escolhida;
  • Um enfraquecimento do poder estabelecido, após retrocessos que podem ser considerados como presságios de sua queda;
  • Obtenção de sucessos iniciais e a impossibilidade de o adversário poder respondê-los de forma eficaz;
  • Uma situação internacional favorável que permita desenvolver apoios externos que vão desde o apoio moral e diplomático ao apoio material;
  • A existência de um país vizinho capaz de servir de base externa de apoio e “refúgio” em caso de insurreição armada.
Se aceitarmos que a guerra revolucionária é sobretudo a luta dos fracos contra os fortes, dos pobres contra os ricos, da geração em ascensão contra a geração existente, é óbvio que só pode triunfar na medida em que os serviços especiais consigam adaptar a ação a esta realidade fundamental. Para isso, dez princípios básicos devem ser colocados em prática:
  • O uso do engano e todas as formas de ação não convencional sem limitação ou regra;
  • Uma luta predominantemente ideológica, cujas ações visam um objetivo psicológico e político, cujo objetivo é a conquista das mentes e da população e não a do terreno;
  • O estabelecimento de organizações de militantes e simpatizantes engajando as massas em torno de uma causa popular, capazes de conduzir uma luta psicológica, política e militar contra as forças públicas cuja eficácia se limita à manutenção da ordem física;
  • O isolamento dos poderes estabelecidos por meio de ações subversivas tendentes a desenvolver sentimentos de insegurança e culpa no nível de responsáveis intermediários;
  • Uma luta longa e latente, feita de operações descontínuas, de intensidade e formas variáveis, visando desgastar o adversário evitando a destruição de suas próprias forças antes da fase final;
  • Uma ação adaptada às circunstâncias e que vai da luta indireta não violenta à luta armada e direta, adotando todas as formas intermediárias exigidas pelas situações particulares;
  • A organização de inteligência e ligação para estar informado sobre tudo e todos em tempo hábil, para agir com segurança e estar protegido em todos os momentos;
  • Uma intendência que se submeta às regras da logística clandestina que a precede em vez de segui-la, como é normal nas forças convencionais;
  • A implementação de materiais e métodos rústicos cuja eficácia não possa ser contrariada por meios convencionais ou de destruição maciça;
  • A organização de apoio externo e uma zona de refúgio de um país vizinho em caso de desenvolvimento da organização armada.

FM: Quais paradas são possíveis de se oporem à ação revolucionária?

A guerra revolucionária é uma guerra popular, resultado de um ato civil e voluntário, que deve ser baseado no consentimento das massas. É necessário para o sucesso do empreendimento que as motivações que levaram as populações à luta sejam identificadas com o seu reflexo conservacionista. A partir de então, o adversário só pode destruir os rebeldes, mas nunca as causas da rebelião, não tendo suas ações o efeito de extinguir a insurreição, mas, ao contrário, de desenvolvê-la.

A ação mais sábia consiste em minimizar os fatores favoráveis ​​ao nascimento e desenvolvimento desse tipo de ação. É então necessário atacar resolutamente as causas da rebelião, evitando provocar as populações, senão os próprios rebeldes. Quando já é tarde para que esta política seja levada a cabo com sucesso, é indispensável pôr em prática todos os meios susceptíveis de impedir que a rebelião desenvolva um "núcleo ativo" capaz de desencadear a sua ação e de obter êxitos iniciais contra os quais as "forças da ordem" não poderão responder de imediato com eficácia. Caso essas duas condições não possam ser satisfeitas, trata-se de provocar, por meio de uma ação diplomática adequada, a “não interferência” internacional e a “não intervenção” dos países vizinhos. De fato, no caso em que a insurgência se beneficia de apoio externo, o limite da resposta é frequentemente ultrapassado e o fracasso parece inevitável.

FM: Diante dessas ações soviéticas, qual foi a resposta dos Estados Unidos para circunscrever a extensão da subversão no Terceiro Mundo?


A força da ideologia liberal e democrática dos Estados Unidos, o apoio das forças anticomunistas no mundo, a superioridade tecnológica e uma estratégia baseada na dissuasão nuclear formaram as bases da política planetária de Washington diante da ameaça soviética.

Ao contrário dos serviços especiais soviéticos, os serviços americanos tiveram apenas um papel de parada, no âmbito da resposta global idealizada por Washington e que consistiu em conter o impulso soviético até o fracasso do modelo econômico socialista ser significativo o suficiente para desafiar o poder ofensivo de Moscou. Os Estados Unidos queriam manter o estado de não-guerra restaurando o equilíbrio entre as forças nucleares e decidiram se opor a qualquer extensão da subversão. Os americanos também queriam cortar a URSS de fontes estrangeiras de tecnologia, como mostraram com o caso do gasoduto siberiano.

A estratégia da guerra contra-revolucionária levou os Estados Unidos a fortalecer as capacidades de resistência dos países supostamente alvos da subversão. Eles forneceram ajuda econômica e militar. No Oriente Médio, eles optaram por apoiar a Arábia Saudita, os Emirados do Golfo e Israel. Na África, eles estavam ajudando o Egito e o Marrocos. Na América Latina, eles apoiaram sistematicamente todos os governos anticomunistas, qualquer que fosse sua natureza. Na Ásia, eles prestaram assistência a Estados tão diferentes quanto Paquistão, Tailândia, Taiwan e Coreia do Sul.

Para manter os regimes que lhes eram favoráveis, os Estados Unidos empreenderam uma ação econômica cuja consequência, senão o objetivo, foi criar sociedades de tipo ocidental próximas às suas, especialmente nas capitais e grandes cidades que constituíam centros urbanos que constituíam zonas urbanas cada vez mais populosas, em detrimento das regiões agrárias. Essa política deu origem a elites cada vez mais americanizadas. Estes naturalmente exerciam o poder econômico e político mantendo-se na órbita dos Estados Unidos e o exército era necessário para defender a existência de seus regimes. A formação de quadros militares, o intercâmbio técnico e o fornecimento de equipamentos tornaram essas forças dependentes dos Estados Unidos e as mantiveram sob sua influência. É claro que esses exércitos constituíam o instrumento privilegiado de combate à ameaça revolucionária.

FM: Os episódios de enfrentamento dessas estratégias permitem estabelecer uma periodização da Guerra Fria?

Tropas do Viet Minh fincam sua bandeira sobre o quartel-general francês capturado em Dien Bien Phu (imagem do filmógrafo soviético Roman Karmen).

Na verdade, existem três períodos. Este conflito começou na Indochina durante a tentativa de reconquista da antiga colônia pelos franceses. Esta primeira fase terminou com a derrota de Dien Bien Phu, que se tornou um fracasso do mundo livre e uma vitória do mundo comunista. Essa situação era ainda mais significativa, e seu alcance ainda maior, pois os comunistas haviam acabado de tomar a China em 1949 e haviam mantido os americanos sob controle na Coréia. Seu sucesso na Ásia assumiu, portanto, a dimensão de uma vitória na escala de um continente.

Em 1955, a conferência de Bandung permitirá concretizar o nascimento de um Terceiro Mundo resultante do desaparecimento dos impérios francês e inglês. Os erros das potências coloniais contribuíram para opor o movimento “não-alinhado” contra eles e dar-lhe uma orientação desfavorável ao mundo livre como um todo. Essa situação deu ao Kremlin a oportunidade de aproveitar essa alavanca notável. Essa escolha permitiu que os soviéticos aparecessem como apoiadores das lutas dos pobres contra os ricos. Moscou também se posicionou com as jovens elites intelectuais e políticas rejeitando a tutela das gerações existentes que se acomodaram ao colonialismo. Além disso, os soviéticos aproveitaram habilmente a nova situação para beneficiar-se de um preconceito favorável na consciência universal atingida pela legitimidade dos combates travados e pelo caráter irreversível do movimento pela emancipação dos povos de cor. Por outro lado, o mundo livre encontrava-se no “lado errado”, que foi usado e desenvolvido psicológica e politicamente para lhe dar uma “má consciência”. A evolução desta situação perturbou fundamentalmente os dados políticos e diplomáticos do problema, bem como a situação mundial, provocando uma grande viragem nas relações internacionais. Então, gradualmente, a força neutralista desapareceu atrás do Leste-Oeste cara a cara. Este período é caracterizado pela segunda vez pelo fracasso do mundo livre, com a expedição de Suez, a proclamação da independência da Argélia e o desenvolvimento de conflitos entre Israel e os países árabes. Acima de tudo, terminará com a grande derrota dos americanos. A retirada do Vietnã em 1973, após um combate massivo, e depois a queda de Saigon em 1975, após uma guerra de dez anos, provaram ser derrotas ainda maiores do que a dos franceses em 1954. Este desastre, chegando ao mesmo tempo que o escândalo de Watergate, marcou a retirada americana das relações internacionais, o recuo estratégico de Washington e o desejo de não mais bancar o "policial mundial".

Comandos navais franceses no Porto Said, no Egito, posando com um retrato do presidente Gamal Abdel Nasser, 1956.

A terceira fase deste confronto entre Oriente e Ocidente coincidiu substancialmente com a adesão de Leonid Brezhnev. Começou em 1975 com o fim da Segunda Guerra da Indochina. A URSS considerou que a estrada estava agora aberta para intervenções mais diretas, até então estritamente proibidas. Aproveitando ao máximo essa situação, aproveitando-se da dissuasão nuclear, Moscou tirou um pouco a máscara, conduzindo descaradamente uma guerra de movimento no Terceiro Mundo. Aproveitando os acontecimentos em Portugal em 1975, os soviéticos intervieram em Angola e Moçambique para apoderar-se dos despojos coloniais de Lisboa. Desta vez, não hesitaram em engajar uma força expedicionária cubana para forçar o destino com mais segurança e tornar a nova situação irreversível. A instalação de uma potência favorável em Luanda e Maputo permitiu-lhes simultaneamente assegurar uma base alargada na direção da África Central e Austral, bem como do Atlântico Sul e do Oceano Índico. Assim como lhes oferecia a oportunidade de exercer controle sobre matérias-primas estratégicas essenciais para o desenvolvimento da indústria ocidental. A infiltração no Zaire e a desestabilização deste país, a pedra angular essencial da África Central, tornaram-se possíveis; mas fracassou graças às ações da França em 1977 e 1978. O engajamento militar dos soviéticos na Etiópia em 1977 deu-lhes a possibilidade de soprar um peão dos ocidentais e se estabelecer em uma zona estratégica de primordial importância em contato com o Oceano Índico e o Mar Vermelho. O estabelecimento de uma base no sul do Iêmen foi outro trunfo para tirar os aliados árabes do Ocidente pela retaguarda e ameaçar suas comunicações com as fontes de energia localizadas na região. A URSS procurou assim claramente contornar a Europa através da África. Finalmente Moscou, que não conseguiu conquistar o Afeganistão através da guerra revolucionária, apesar da organização de três sucessivos golpes de estado (1973, 1978, 1979) - que não despertaram nenhuma reação do Ocidente - decidiu montar uma operação militar para tomar o país. E multiplicaram-se os exemplos de uma estratégia soviética cada vez mais direta.

No entanto, os sucessos alcançados por essas intervenções têm sido gradualmente limitados. O relativo abandono da estratégia indireta trouxe gradualmente à luz uma nova situação que se assemelha a uma espécie de impasse. A entrada dos soviéticos na África a partir de 1975 chamou a atenção, mas, na realidade, Moscou não alcançou os resultados esperados. Porque apesar de um erro de avaliação por parte dos Estados Unidos da estratégia soviética na África, o Ocidente conseguiu reverter a situação a seu favor. Com a era Brejnev, após a vitória do Vietnã, Moscou viu o processo do qual ele era o instigador se voltar contra ele. Na década de 1970, os ocidentais alcançaram o domínio estratégico – e não mais apenas tático – das técnicas revolucionárias soviéticas em Angola, no Chifre Oriental da África e no Afeganistão.

ED: Durante os conflitos em que esteve envolvida nesse período, como a França se organizou para lidar com o fenômeno da guerra revolucionária?

Durante a Guerra da Indochina, o Exército Francês utilizou unidades especiais ao lado de suas forças convencionais, a fim de poder montar operações não-clássicas com mais facilidade. Por outro lado, a ação clandestina estava quase ausente. O Alto Comando na Indochina organizou as suas próprias forças especiais recorrendo à experiência de quadros de unidades deste tipo existentes na França continental, nomeadamente o 11º de Choque. Este último, herdeiro do ramo operacional do BCRA, era então o braço armado dos serviços especiais e dependia para o emprego do Serviço de Ação (Service Action).

Comandos navais franceses e vietnamitas na costa norte de Anam, na Indochina, 1953.

As forças especiais da Indochina incluíam dois ramos distintos:
  • O GCMA (grupo de comandos aerotransportados mistos) cuja missão é supervisionar os maquis, constituído na maior parte por populações minoritárias que operam na zona do Vietminh.
  • Os comandos, especialmente os do Vietnã do Norte, cuja missão era inteligência para os chamados comandos de "intervalo", e ataques profundos em zonas inimigas para os comandos de choque e os comandos de desembarque.
O GCMA alcançou resultados de importância estratégica ao imobilizar grandes forças do Vietminh. Estimou-se no final da guerra que esses maquis ainda neutralizavam uma a duas divisões vietnamitas, enquanto ele só tinha um quadro de algumas dezenas de oficiais e suboficiais. Ao mesmo tempo, os comandos de choque e os comandos de desembarque conseguiram criar insegurança nas áreas controladas pela organização político-militar do adversário, obtendo também resultados táticos e psicológicos significativos.

Durante a guerra da Argélia, um grupo de marcha da 11ª Meia-Brigada de Paraquedistas de Choque foi colocado à disposição do Comandante-em-Chefe e o Serviço de Ação foi engajado na luta contra a logística externa da FLN. A recuperação, pelo 11º de Choque, de 4.000 combatentes de origem messalista (MNA), dentro de uma rebelião de 24.000 homens armados, foi o melhor exemplo de uma operação político-militar realizada por forças especiais. A infraestrutura de uma organização político-militar de 30.000 simpatizantes em torno desses 4.000 combatentes que controlam 80.000 km² no centro da Argélia, cortando o aparato da FLN em dois, contribuiu para polarizar a maior parte das forças regulares da FLN, liberando as forças de intervenção francesas e colocando-as em posição de liderar a luta para fechar as fronteiras da Tunísia e do Marrocos. Este resultado indireto de importância estratégica no nível militar poderia, sem dúvida, ter sido explorado politicamente se esse episódio tivesse ocorrido em outro momento que não o final da Quarta República. A revista "Historia", em edição do início do ano, fez uma interessante análise dessa operação que geralmente é pouco comentada. Ao mesmo tempo, o Serviço de Ação, ao permitir a captura e destruição de um grande arsenal - o dobro do recuperado pelo exército no terreno - obteve um resultado crucial.

No entanto, devido às consequências dos eventos ligados ao fim da guerra da Argélia (golpe dos generais, OEA), o 11º BPC foi dissolvido em 1963 e o Serviço de Ação foi gradualmente suspenso, mantendo apenas as atividades de instrução.

Insígnia do Régiment Parachutiste de Choc (11e RPC).

A década de 1970 viu a ressurreição da "Ação" não-convencional francesa, que então atingiu seu verdadeiro auge. Com efeito, a década de 1970 foi um período particularmente favorável à continuação da guerra por outros meios, no quadro da confrontação bipolar Leste-Oeste através de intermediários. O Serviço de Ação se tornará então o meio capaz de estender a ação política, psicológica, diplomática e militar para além dos limites impostos a outros aparatos governamentais convencionais. Será organizado de acordo com uma nova doutrina adaptada a esta situação e incluirá:
  • uma central do Serviço de Ação, com pessoal e direção, capaz de projetar e conduzir operações complexas nas diversas áreas acima elencadas;
  • um aparelho clandestino capaz de realizar ações invisíveis graças às suas infraestruturas secretas, que nunca existiram antes;
  • uma força especial conjunta (unidades paraquedistas, recursos aéreos e marítimos) cuja missão é realizar ações de comandos não-clássicas e operações político-militares indiretas.
Judiciosamente usada pelos governos da época, em benefício de serviços especiais para ação invisível, bem como para exércitos para operações militares, o Serviço de Ação desempenhou um papel predominante no confronto Leste-Oeste na África e no Oriente Médio, muitas vezes contribuindo decisivamente para os fracassos da União Soviética em um momento em que os Estados Unidos foram neutralizados pela derrota do Vietnã, Watergate e o fracasso em libertar reféns americanos no Irã.

ED: Uma certa confusão parece existir em termos de doutrina de guerra especial e ação clandestina. General, você que comandou o Serviço de Ação e suas unidades especializadas, como caracterizaria essas diferentes áreas e suas diferenças? Como estão organizados nos diferentes países que os utilizam?


A Ação em questão aqui é uma ação não-convencional, ou seja, um modo de intervenção que nada tem a ver com o quadro clássico. É, de fato, a extensão da ação política, diplomática, psicológica ou militar para além das fronteiras e dos modos usuais de ação. É o campo de ação do invisível e do indireto através da ação dos intermediários. A ação não-convencional consiste em duas partes:
  • A ação invisível, domínio do aparelho clandestino;
  • A ação especial, paramilitar ou político-militar, domínio das forças especiais.
O aparelho clandestino atua sozinho ou em benefício das forças especiais, a montante ou a jusante, para a preparação e extensão das operações. As forças especiais só podem ser eficazes se contarem com o apoio desse indispensável aparato clandestino. Cada um dos dois componentes da Ação - aparato clandestino e forças especiais - deve ter seus próprios meios de inteligência, segurança e contra-inteligência. A especificidade da ação especial e, portanto, de contar com apoio clandestino ou político-militar, o que as forças militares convencionais não fazem.

As ações especiais podem ser de dois tipos:
  • Direta: intervenção no apoio e na relação com os serviços especiais (ex. Entebbe e Kolwezi);
  • Indireta: são, então, conduzidas em conjunto com as forças político-militares indígenas, de acordo com regras específicas de intervenção.
Com efeito, a assistência a um movimento amigo, que consiste em aconselhamento, instrução e logística, nunca dá lugar à supervisão (acompanhamento de combate). Todos os países seguem esta regra. Se um destacamento operacional com um volume de trinta a quarenta especialistas, for capaz de suportar um movimento de cerca de 3.000 a 4.000 partisans efetivos, numa população de um milhão de habitantes, ele nunca sairá da sua retaguarda, isto é, do país vizinho o teatro de operações que serve de santuário para ele aconselhar, instruir e organizar a logística do movimento que está apoiando. Neste tipo de missão, as fronteiras nunca são atravessadas pelos homens das forças especiais. A única situação em que uma missão de fiscalização de combate pode ser confiada a uma força especial é a intervenção em benefício de um Estado soberano que visa uma insurreição, ou seja, quando se trata de uma contraguerrilha.

Legionários com um oficial nigerino no Forte de Madama, no Níger.

A natureza de suas missões exige que os homens das forças especiais tenham uma verdadeira cultura política. Na medida em que tenham que trabalhar com civis e militares, devem ter um forte senso político e um bom conhecimento de línguas e culturas estrangeiras, além de geopolítica. Além disso, as forças especiais devem obrigatoriamente ser compostas por quadros (oficiais e suboficiais), pois uma vez em campo, os homens operam em pequenas equipes e devem demonstrar grande capacidade de iniciativa. Eles devem, portanto, ter um potencial intelectual e mental adaptado à sua missão, porque os eventos nunca evoluem no terreno como se imaginava. É preciso saber reagir, decidir e se adaptar.

Em termos de organização do Serviço de Ação no sentido que a entendemos aqui, há duas possibilidades, cada uma com vantagens e desvantagens:
  • A primeira corresponde à concepção que prevaleceu ao longo da década de 1970 na França e ainda parece prevalecer na Grã-Bretanha e em Israel. Oferece uma organização onde a complementaridade entre o aparelho clandestino e as forças especiais é assegurada organicamente por uma central do Serviço de Ação. Esta escolha tem a vantagem de garantir a consistência global e evitar a multiplicação de recursos. Por outro lado, esta solução tem a desvantagem de criar uma rivalidade entre o aparelho não convencional e as forças regulares, alguns até parecem ver nela uma falta de transparência perigosa para a democracia;
  • A segunda é a que vigora nos Estados Unidos e que foi adotada há alguns anos na França. Confia o aparelho clandestino aos serviços especiais e as forças especiais aos exércitos. Essa fórmula tem a vantagem de oferecer mais transparência, mas essa separação de tarefas traz desvantagens na prática. Com efeito, os exércitos e os serviços secretos, incumbidos cada um de uma parte das tarefas horizontalmente integradas, tendem a reconstituir para seu uso um sistema completo, naturalmente menos eficaz. Os fracassos dos americanos durante o desembarque na Baía dos Porcos ou a tentativa de libertar os reféns no Irã podem ser parcialmente explicados por esse defeito estrutural.
General Alain Gaigneron de Marolles

Bibliografia recomendada:

A história secreta das
FORÇAS ESPECIAIS.
Éric Denécé.

Vídeo recomendada:

Yuri Bezmenov - Teoria da Subversão

sábado, 28 de maio de 2022

Os Estados Unidos e o Grupo Wagner


Por Joaquin Sapien e Joshua Kaplan, ProPublica, 27 de maio de 2022.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 28 de maio de 2022.

Como os EUA lutaram para impedir o crescimento de um sombrio exército privado russo.

Por quase uma década, as autoridades dos EUA observaram com alarme uma rede sombria de mercenários russos conectados ao Kremlin causar estragos na África, Oriente Médio e, mais recentemente, na Ucrânia.

Vários deles agora dizem que gostariam que o governo dos EUA tivesse feito mais.

O presidente Vladimir Putin tem confiado cada vez mais no Grupo Wagner como um exército privado e irresponsável que permite à Rússia perseguir seus objetivos de política externa a baixo custo e sem a reação política que pode advir de uma intervenção militar estrangeira, disseram autoridades dos EUA e especialistas em segurança nacional.

Mercenários Wagner na Síria.

Nos últimos anos, os governos do Oriente Médio e da África contrataram os combatentes para esmagar insurgências, proteger os recursos naturais e fornecer segurança – cometendo graves abusos dos direitos humanos no processo, de acordo com autoridades dos EUA e órgãos de vigilância internacionais.

Na Síria, os combatentes Wagner foram filmados alegremente espancando um desertor do exército sírio com uma marreta antes de cortar sua cabeça. Na República Centro-Africana, os investigadores das Nações Unidas receberam relatos de que os mercenários estupraram, torturaram e assassinaram civis. Na Líbia, o Grupo Wagner supostamente aprisionou casas civis com explosivos presos a assentos sanitários e ursinhos de pelúcia. No mês passado, oficiais de inteligência alemães ligaram mercenários Wagner a assassinatos indiscriminados na Ucrânia.

Os EUA demoraram a responder ao perigo e agora se encontram lutando para restringir o uso de mercenários em todo o mundo, de acordo com entrevistas com mais de 15 atuais e ex-funcionários diplomáticos, militares e de inteligência. Sanções unilaterais pouco fizeram para deter o grupo. A diplomacia tropeçou.

“Não havia uma política unificada ou sistemática americana em relação ao grupo”, disse Tibor Nagy, que serviu no Departamento de Estado por quase três décadas, mais recentemente como secretário de Estado adjunto para assuntos africanos até 2021.

Tibor Nagy.

O Kremlin nega oficialmente qualquer conexão com as atividades de mercenários russos no exterior, e muito sobre a estrutura e liderança do Grupo Wagner permanece obscuro. Mas especialistas dizem que os altos funcionários do Grupo Wagner participaram de reuniões entre líderes estrangeiros e altos funcionários russos. Eles também dizem que a força aérea russa transportou combatentes Wagner para lançar as missões internacionais do grupo.

O Grupo Wagner se espalhou pelo mundo, particularmente na África, porque apresenta um pacote atraente para líderes de nações em apuros, disseram especialistas. Oferece reprimir o terrorismo e as ameaças rebeldes com repressões militares brutais, ao mesmo tempo em que angaria apoio público para seus clientes governamentais por meio de campanhas de desinformação.

Autoridades dos EUA disseram que se sentiram mal equipadas para tentar reduzir as incursões dos mercenários, em parte porque a diplomacia americana na África foi gradualmente despojada de recursos nas últimas três décadas. Alguns também disseram que os EUA demoraram a avaliar a gravidade da ameaça do Grupo Wagner antes de se tornar uma arma formidável no arsenal do Kremlin.

Na África, os esforços americanos para persuadir os governos a não trabalharem com o Grupo Wagner geralmente são tardios e ineficazes, disseram as autoridades. Diplomatas americanos ficaram surpresos quando o Grupo Wagner chega a um país vacilante, deixando-os lutando para combater a influência do grupo com ferramentas e incentivos limitados.

Insígnia não-oficial de caveira do Grupo Wagner.

Durante a Guerra Fria, a política americana de conter a disseminação do comunismo soviético levou a um investimento substancial em cortejar líderes africanos, oferecendo ajuda ao desenvolvimento, programas de intercâmbio universitário e até concertos. Mas quando o Muro de Berlim caiu, também caiu o interesse do governo dos EUA no continente africano, disseram os funcionários à ProPublica. O pessoal da embaixada encolheu; programas murcharam.

“O soft power dos Estados Unidos é imbatível, mas precisa ser desdobrado”, disse Nagy à ProPublica. “A aljava está vazia.”

Nagy e outros atuais e ex-funcionários de alto escalão do Departamento de Estado disseram que as embaixadas na África tendem a empregar poucos funcionários da diplomacia pública, com funcionários básicos que precisam conciliar tudo, desde questões de visto de rotina até ameaças terroristas.

“Isso não deixa muito tempo para uma equipe fraca desenvolver a experiência ou os relacionamentos necessários para ter ou buscar uma estratégia de engajamento robusta”, disse um alto funcionário do Departamento de Estado sobre os esforços para afastar autoridades estrangeiras do Grupo Wagner. “A capacidade de um oficial diplomático bastante júnior de construir um relacionamento com o membro do Gabinete que tomará a decisão – isso não é realista na maioria dos casos.”

O Departamento de Estado se recusou a comentar. O Pentágono e o Kremlin não responderam a perguntas para esta história.

O esforço mais visível dos EUA para manter o Grupo Wagner fora de um país específico ocorreu no Mali, onde os mercenários chegaram em dezembro passado para combater os jihadistas em fúria no norte. O presidente do Mali, Assimi Goïta, havia chegado recentemente ao poder no mais recente de uma série de golpes que levaram a sanções internacionais.

Mercenários Wagner na República Centro-Africana, janeiro de 2021.

Antes do desembarque do Grupo Wagner, o General Stephen Townsend, chefe do Comando Africano das Forças Armadas dos EUA, viajou para o Mali para se encontrar com Goïta. “Expliquei que achava uma má ideia convidar o Grupo Wagner”, disse Townsend ao Congresso em março. “O Grupo Wagner não obedece a nenhuma regra. Eles não seguirão a direção do governo.”

Mas as súplicas de Townsend e outras autoridades americanas não tiveram sucesso. Ex-diplomatas dizem que o esforço foi parte de um padrão preocupante em que autoridades americanas saltam de pára-quedas em situações complexas equipadas com pouco mais do que pontos de discussão. O Comando da África se recusou a comentar.

Os americanos estavam dizendo aos malianos para não trabalharem com o Grupo Wagner, mas não ofereciam alternativas significativas, disse J. Peter Pham, que serviu como o primeiro enviado especial dos EUA à região do Sahel até o ano passado e mantém contato próximo com malianos e outras autoridades africanas.

“Ou você tem programas concretos de assistência ou tem relacionamentos pessoais e capital diplomático construídos ao longo dos anos aos quais pode recorrer”, disse Pham. “Muitas autoridades americanas, muitas vezes de nível médio, são frequentemente despachados sem nenhum dos dois.”

Monumento do Grupo Wagner na capital Bangui, na República Centro-Africana. Ele foi inaugurado em novembro de 2021 e influenciada pelo filme "Turista".

Em março, o jornal francês Le Monde noticiou que mercenários Wagner participaram da tortura de civis, inclusive por eletrocussão, enquanto trabalhavam com soldados malianos. No mês passado, a Human Rights Watch divulgou um relatório detalhado acusando os combatentes russos de participarem de um massacre de cerca de 300 civis durante uma operação militar. A matança começou em um mercado de gado lotado em 27 de março e continuou por vários dias. Em um comunicado, o porta-voz do Departamento de Estado, Ned Price, disse: “Estamos preocupados que muitos relatórios sugiram que os perpetradores eram forças irresponsáveis do Grupo Wagner, apoiado pelo Kremlin”.

O governo do Mali disse que os russos estão ajudando seus militares como instrutores formais e que seu exército matou 203 “terroristas” e prendeu mais 51 durante a operação. A Embaixada do Mali nos EUA não respondeu aos pedidos de comentários.

O Grupo Wagner atraiu a atenção do público pela primeira vez em 2014, durante a invasão russa do leste da Ucrânia. Seus mercenários lutaram ao lado das forças da federação russa, atacando as forças ucranianas na ainda contestada região do Donbas.

Gary Motsek, então vice-secretário assistente de defesa dos EUA, ficou alarmado com o surgimento do que parecia ser uma nova geração de mercenário russo.

Durante anos, o Pentágono estava ciente dos contratados militares russos desrespeitando a lei internacional, disse Motsek em entrevista à ProPublica. Mas os contratados foram principalmente destinados a guardar navios petroleiros e outros ativos russos. Agora o Grupo Wagner estava em combate, como um exército privado.

“Olhando para o crescimento do Grupo Wagner, foi claramente uma oportunidade perdida” de aproximadamente 2008 a 2010, disse Motsek. “Devíamos ter feito disso uma prioridade.”

Na época, Motsek liderou um escritório do Pentágono que ajudou a criar padrões internacionais para contratados militares privados. Ele disse que o escritório se concentrou em conformidade voluntária e empresas ativas nas zonas de guerra americanas. Quando os russos optaram por não aderir aos padrões, ele não estava ciente de qualquer esforço para controlá-los.

“Provavelmente foi minha culpa, mais do que qualquer outra pessoa, porque eu era o único trabalhando nisso quase diariamente”, disse Motsek ao ProPublica. “Nós nunca dissemos: ‘Vamos controlar esses caras’. Eu não tinha mandato para fazer isso. E acho que não tive a visão.”

Autoridades americanas dizem que o Grupo Wagner opera por meio de uma rede de empresas de fachada controladas pelo oligarca russo Yevgeny Prigozhin, um magnata da indústria de alimentos com laços estreitos com Putin, sardonicamente chamado de “Chef de Putin”. Prigozhin negou veementemente seu envolvimento no grupo, supostamente batizado em homenagem ao compositor alemão – um favorito de um dos supostos comandantes dos mercenários. Os esforços para chegar a Prigozhin não foram bem sucedidos.

Os EUA sancionaram Prigozhin em 2016 e o Grupo Wagner em 2017 em resposta ao seu papel no conflito ucraniano. Prigozhin foi posteriormente indiciado por seu suposto envolvimento em se intrometer nas eleições presidenciais americanas de 2016 por meio da fazenda de trolls conhecida como Internet Research Agency.

Yevgeny Prigozhin.

Especialistas dizem que o Grupo Wagner parece ser pago com recursos naturais como petróleo, ouro e diamantes nos países onde estão lutando. O Kremlin os usou como uma alternativa barata às forças armadas russas.

“A Rússia abriu operações militares em dois continentes, pela primeira vez desde a década de 1980”, disse Sean McFate, professor da Universidade de Defesa Nacional. “A ponta da lança é o Grupo Wagner.”

Em 2015, a Rússia enviou seus militares para lutar na guerra civil síria em nome do ditador Bashar al-Assad. Foi a primeira intervenção armada do Kremlin fora dos antigos territórios soviéticos desde o fim da Guerra Fria. Logo, forças da Federação Russa e combatentes Wagner e outros grupos mercenários ajudaram a inclinar a guerra a favor de Assad.

Em 7 de fevereiro de 2018, mercenários Wagner e soldados sírios realizaram um ataque a um posto avançado das forças especiais dos EUA perto da cidade de Khasham, atacando a posição americana com obuses de artilharia enquanto os russos e sírios avançavam. Os americanos responderam com ataques aéreos em uma batalha de quatro horas, matando cerca de 200 combatentes. Nenhum americano morreu.

Joseph Votel, um general aposentado de quatro estrelas, era então o chefe do Comando Central dos EUA. Em uma entrevista, ele disse à ProPublica que acredita que o ataque foi motivado financeiramente e que o Grupo Wagner buscou o controle de um campo de petróleo perto de uma operação contraterrorista liderada pelos EUA.

Mas Votel disse que os comandantes americanos consideram a luta como um incidente isolado, e não um desenvolvimento significativo nas relações azedadas entre as duas nações.

“Eu particularmente não me debrucei sobre isso”, disse Votel. “Não fui pressionado. O que aconteceu, aconteceu.”

Joseph Siegle, diretor de pesquisa do Centro de Estudos Estratégicos da África, disse que os sucessos militares russos no conflito sírio representaram um “ponto de inflexão para a Rússia”.

“Eles viram a rapidez com que poderiam ganhar influência em uma região onde tinham relativamente pouca influência”, disse Siegle.

Mercenários Wagner na Síria.

Em 2019, o Grupo Wagner começou a lutar na guerra civil líbia, apoiando uma campanha do senhor da guerra Khalifa Haftar para derrubar o governo internacionalmente reconhecido do país. Haftar parecia estar vacilando, mas, juntos, o Grupo Wagner e os combatentes rebeldes lançaram uma nova ofensiva que trouxe suas forças combinadas para os arredores de Trípoli.

Nos níveis mais altos das agências de política externa americanas, os alarmes começaram a soar.

"Estávamos vendo isso mudar o curso da guerra", disse David Schenker, então secretário de Estado assistente para assuntos do Oriente Próximo, em entrevista à ProPublica. “Esta era a cabeça de praia. O Grupo Wagner foi o grupo de desembarque.” A tentativa de Haftar de retomar Trípoli acabou parando depois que a Turquia interveio do lado oposto. Mas se Haftar tivesse conseguido, Schenker se preocupava, a Rússia poderia ter sido recompensada com “uma base no flanco sul da OTAN”.

Schenker disse acreditar que a contramedida potencial mais imediata é pressionar a União Europeia a impor sanções ao Grupo Wagner e reprimir suas finanças. Mas ele disse que muitos de seus colegas no governo dos EUA e na Europa não consideram isso realista.

“Eu realmente pressionei muito por uma designação da UE. O complicado é que a Rússia rotineiramente vai e assassina dissidentes em países estrangeiros”, disse ele. “As pessoas não estavam interessadas em irritar Putin. Putin para esses caras é como Voldemort.”

A U.E. não impôs sanções ao Grupo Wagner até dezembro de 2021.

Em resposta a perguntas para esta história, a porta-voz da U.E. Nabila Massrali disse que a União Europeia sancionou agressivamente a Rússia em resposta à invasão da Ucrânia e sancionou o Grupo Wagner “para tomar medidas tangíveis contra aqueles que ameaçam a paz e a segurança internacionais e violam o direito internacional”, observando que todas as sanções exigem unanimidade entre os países membros.

Força-Tarefa Rusich.

À medida que o conflito ucraniano se arrasta e o Kremlin se torna cada vez mais isolado da economia global, especialistas dizem que o Grupo Wagner provavelmente desempenhará um papel cada vez mais importante na política externa russa. A expansão do Grupo Wagner pode ajudar a Rússia a evitar o impacto das sanções, atrair governos para apoiá-lo na Assembleia Geral da ONU e garantir posições estratégicas em sua luta contra a aliança da OTAN.

Economicamente, a Rússia empalidece em comparação com superpotências como China e Estados Unidos. Mas no grupo Wagner, disseram autoridades, a Rússia encontrou uma ferramenta de política externa barata e inovadora que os Estados Unidos ainda não encontraram uma maneira de abordar. Os governos clientes parecem absorver a maior parte do custo.

“Os russos não têm um talão de cheques em branco”, disse Nagy, ex-diplomata dos EUA para a África. “Eles estão jogando uma mão bastante fraca extremamente bem mesmo.”

A ProPublica continuará a relatar o grupo Wagner e a luta de poder entre os EUA e a Rússia à medida que se desenrola em todo o mundo. Estamos especialmente interessados nas relações entre empresas ocidentais e mercenários russos.