sexta-feira, 11 de junho de 2021

COMENTÁRIO: Desengajar-se de um atoleiro


Pelo Ten.-Cel. Michel Goya, La Voie de l'Épée, 9 de junho de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 10 de junho de 2021.

“Faz-se a guerra quando se quer, termina-a quando se pode."
Nicolas Machiavelli.

Lançada em dezembro de 2013, a operação francesa Sangaris tinha como objetivo apoiar as forças interafricanas para acabar com a "falência total da ordem pública, a ausência do Estado de Direito e as tensões inter-religiosas" no país. Anunciada há seis meses, a operação não saiu conforme o planejado. Não houve nenhum efeito espantoso ao avistar os soldados franceses, nem um influxo maciço de nações europeias e africanas que se ofereceram para participar na missão, e as forças envolvidas foram notoriamente insuficientes. O problema é que as forças francesas também estiveram engajadas no Sahel e logo seriam lançadas em duas outras "operações cujo fim não vemos"no Levante em setembro de 2014 e nas ruas da França com a Operação Sentinela. É fácil para o executivo na França engajar as forças armadas, mas muitas vezes é muito mais difícil para ele pôr fim a esses mesmos compromissos.


Como no Xadrez ou no Go, o fim das campanhas militares tem uma lógica própria diferente de “aberturas”, sempre mais fáceis de apreender, e “ambientes de campo” onde o emaranhamento das ações dialéticas está no seu máximo e o desfecho ainda incerto. Uma das diferenças entre as operações externas e o Xadrez ou Go, porém, reside no fato de serem realizadas no mínimo três com um poder interveniente associado a um poder local, geralmente um Estado, enfrentando também pelo menos um inimigo local. Do ponto de vista do poder interveniente, este fim da campanha só é realmente problemático quando já não está claro qual pode ser o resultado ou quando aquele que surge não é favorável.

A dificuldade de questionar


Esse ponto de inflexão nem sempre é muito fácil de entender, especialmente em operações complexas entre populações. Indicadores numéricos podem ser usados, mas podem ser enganosos por si próprios. Na primavera de 2004, no Iraque, os ataques às tropas americanas diminuíram consideravelmente em comparação com o outono de 2003. Concluiu-se que a situação estava melhorando. Na realidade, essa diminuição correspondeu tanto a uma ação mais clandestina dos rebeldes quanto aos riscos menores assumidos pelas forças americanas algumas semanas antes do socorro. Nos relatórios apresentados, a situação era boa, na realidade ela estava piorando. Em abril de 2004, a resistência de Fallujah, a revolta xiita mahdista, o colapso das novas forças de segurança iraquianas e a revelação dos abusos na prisão de Abu Ghraib foram surpresas muito desagradáveis. Se esses indicadores são úteis, eles devem ser escolhidos entre si e acima de tudo apoiarem as avaliações de pessoas que conhecem o ambiente perfeitamente, esperando que eles não sejam distorcidos pelo desejo de dizer o que se quer ouvir.

No entanto, apesar de um bom feedback, aceitar as coisas ainda pode levar algum tempo. A Força Multinacional de Segurança de Beirute (Force multinationale de sécurité de BeyrouthFMSB), que reunia três contingentes europeus e um contingente americano, foi enviada à capital libanesa em setembro de 1982 com a missão de apoiar as Forças Armadas Libanesas (FAL) na segurança da cidade. No verão de 1983, os ataques da milícia xiita Amal e depois do Partido Socialista Progressivo contra as FAL revelaram a contradição entre querer apoiar uma força armada engajada no combate, mas se recusar a entrar no combate também. Apesar de sua neutralidade declarada, a FMSB foi então objeto de vários ataques e 15 soldados franceses foram mortos de junho a outubro de 1983. A constatação de tal crise operacional deveria logicamente ter levado a uma revisão das condições de execução da missão e uma escolha de ruptura, seja no sentido de uma transformação radical dos meios e métodos, seja no sentido do abandono. No entanto, na maioria das vezes é a continuação da operação sem grandes mudanças que é decidida.


Estamos continuando na mesma direção, antes de mais nada, simplesmente porque poucos tomadores de decisão, de oficiais de campo ao presidente-executivo, raramente se questionam. Mudar radicalmente é admitir que erramos. É ainda mais complicado porque estamos atuando em coalizão e a prévia mobilização da opinião pública tem sido forte. É difícil anunciar que vamos desistir de lutar com inimigos que apresentamos como maus e que prometemos destruir. A duração das guerras entre as populações muitas vezes supera a dos turnos operacionais e dos mandatos eleitorais, por isso é sempre tentador quando se percebem dificuldades de deixar o cuidado da ruptura para os sucessores. Muitas adaptações são feitas, mas geralmente são mais destinadas a reduzir os riscos, mantendo tropas em bases, por exemplo, ou convocando forças aéreas, o que reduz ainda mais a capacidade de influenciar os eventos.

Durar e esperar


Ao minimizar o risco e a exposição à mídia, pode ser possível durar muito tempo sem nenhum efeito, mas também com poucas perdas. Na melhor das hipóteses, o contexto político local pode mudar drasticamente ou uma missão das Nações Unidas pode estar disposta a assumir o fardo. É então possível recuar na honra ou, na falta disso, permanecer no segundo escalão. No pior dos casos, a situação piora. Persistir sem mudar radicalmente é esperar o desastre. No início de outubro de 1983, o presidente Mitterrand declarou novamente às Nações Unidas que "a França não tem inimigos no Líbano". Poucos dias depois, em 23 de outubro, dois ataques suicidas mataram 58 soldados franceses e 241 americanos.

Assim, fica difícil admitir diante da opinião pública que as coisas estão indo na direção certa e o incentivo para mudar de postura torna-se muito forte. Paradoxalmente, esta nova pressão exerce-se sim também aí, pelo menos inicialmente, no sentido de uma continuação em nome do princípio dos custos irrecuperáveis ​​que incita à continuação de uma atividade, mesmo negativa, porque já se pagou para poder realizar esta mesma atividade. Em termos militares, isso significa considerar que os soldados caídos não devem ter morrido à toa. A isso costuma-se adicionar, como também após um ataque terrorista, o desejo de vingança. A menos que você esteja satisfeito com operações aéreas seguras (e às vezes sem alvos), isso equivale a derrubar soldados sem ressuscitar aqueles que já estão mortos. A história mantém o nome do ajudante-chefe Franck Bouzet, o último soldado a cair em ação no Afeganistão em 7 de julho de 2012, quando as forças francesas estavam se retirando. Na verdade, ele foi apenas o mais recente em uma série de mortes que se tornaram desnecessárias quando o escalão político entendeu que a continuação da operação não daria resultados políticos e que nenhuma mudança radical seria necessária.

Adjudant-chef Franck Bouzet.

Quando a retirada realmente começa, os "mortos para nada" não são mais os do passado, mas os do futuro. Ocorre então uma espécie de fuga, entre aliados de uma coalizão e até mesmo dentro do país, à pressão política interna. A data do fim da missão francesa em Kapisa-Surobi passou assim de 2014 para 2012 de acordo com a licitação dos candidatos presidenciais.

Saída com sucesso


Mudar as coisas drasticamente pode significar mudar sua postura e, de repente, engajar muito mais recursos. Na melhor das hipóteses, podemos esperar sucesso e, na pior, negociar em melhores condições. É isso que tenta o general de Gaulle com o "Plano Challe" na Argélia em 1959 ou o presidente Nixon no Vietnã em 1972, apoiando maciçamente o exército sul-vietnamita contra a ofensiva do norte e lançando uma grande operação de bombardeio de Hanói. Se o primeiro caso não dá os resultados políticos esperados (e ainda mantém a cruel ilusão de "ter vencido militarmente"), o segundo permite de fato negociar uma retirada "em honra". O único caso moderno de uma "explosão" bem-sucedida é aquela realizada no Iraque em 2007, com o reforço significativo de 30.000 soldados e a generalização das melhores práticas de contra-insurgência. Acima de tudo, esse engajamento acelerou a transformação do cenário político local ao acompanhar a mudança de aliança dos guerrilheiros sunitas. O equilíbrio de poder foi então suficiente para derrotar os grupos jihadistas e, em seguida, o exército do Mahdi de Moqtada al-Sadr. Isso facilitou a retirada das forças americanas em 2010 do que se tivesse acontecido em 2007, conforme planejado.

Sem poder injetar novas forças, é possível, desde que ainda haja algum espaço de manobra, considerar "onde isso termina?". O envolvimento francês no Chade de 1969 a 1972 pode ser visto como um modelo a esse respeito. A partir de 1971, entendemos que a continuação da Operação Bisonte (Bison) no norte do país não conseguirá destruir a Frente de Libertação Nacional (Front de libération nationaleFrolinat), ou a um custo muito significativo. Estamos, portanto, contentes por termos pacificado o sul do país, reorganizado a administração e as Forças Armadas do Chade (Forces armées tchadiennesFAT). De acordo com o governo local, o presidente Pompidou declara a missão cumprida e marca simbolicamente o fim com uma viagem oficial ao local. As forças francesas são retiradas, com exceção de um pequeno batalhão que permanece por três anos apoiando as FAT. Na realidade, o conflito não acabou, mas as coisas estão estáveis ​​o suficiente para introduzir um "período de decência" que garantirá que uma nova deterioração da situação não possa ser atribuída ao abandono dos franceses.


Na verdade, as forças francesas intervieram novamente seis anos depois com a Operação Tacaud. O contexto político é porém muito mais instável e os sucessos táticos não permitem estabilizar a situação como em 1972. Ao cabo de dois anos, a operação é abandonada, fato excepcional, pelo executivo que a iniciou, facilitada é verdade pela baixa exposição midiática. O mesmo se aplica à Operação Noroît (Vento Noroeste), lançada em Ruanda em 1990 para ajudar as forças armadas ruandesas a lutar contra o grupo Frente Patriótica Ruandesa (Front patriotique rwandaisRPF). A discrição total (a operação ainda não está classificada na lista oficial de operações estrangeiras) permite que seja facilmente desmontada em 1993, após a assinatura dos acordos de Arusha.

Agora é difícil, inclusive para a França, lançar uma operação discreta. Este é um incentivo na melhor das hipóteses para enfrentar coisas de forma realista como o presidente Hollande lançando a Operação Serval no Mali em 2013 ou o presidente Bush quando ele anuncia que 2007 será "sangrento e violento". Mas isso pode encorajar, ao contrário, o recurso à hipérbole, como os discursos do chanceler Laurent Fabius, ou, ao contrário, à busca da invisibilidade total com o uso de forças especiais ou clandestinas. A narrativa inicial é importante porque envolve o futuro, mas a narrativa final também o é. Embora seja raro ser capaz de reivindicar a vitória, como depois da Guerra do Golfo em 1991, pode ser possível demonstrar que a missão, apesar de tudo, foi cumprida.

O sucesso de uma operação reside na transformação favorável de um contexto político local. Isso exige, desde o início, uma correspondência entre o realismo dos objetivos, a adequação dos recursos e a relevância dos métodos. Um exame retrospectivo de todas as operações "travadas" por cinquenta anos tende a mostrar que essa combinação foi possível com uma boa análise inicial da situação. Caso contrário, o déficit analítico deve ser compensado com coragem política, narrativa realista e aceitação de uma mudança radical de estratégia. O mesmo exame tende a provar que é ainda mais raro do que as boas análises iniciais.

Publicado na revista Défense et sécurité internationale (Defesa e Segurança Internacional, DSI) nº 130, julho-agosto de 2017.

Michel Goya, tenente-coronel e editor do Centro de Doutrina de Emprego de Forças (Exército), é responsável por fornecer feedback das operações francesas e estrangeiras na região da Ásia/Oriente Médio. Ele é o autor de La Chair et l'Acier (Paris, Tallandier, 2004), que se concentra no processo de evolução tática do exército francês durante a Primeira Guerra Mundial. Este livro foi traduzido como A Invenção da Guerra Moderna pela Bibliex. Goya também foi o autor do livro Sous le Feu: La mort comme hypothèse de travail (traduzido no Brasil como Sob Fogo: A morte como hipótese de trabalho).

Bibliografia recomendada:

Introdução à Estratégia.

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quinta-feira, 10 de junho de 2021

ENTREVISTA: A formação do Exército Nacional, com Frank D. McCann


Por Rodrigo GalloRevista Leituras da História, 16 de julho de 2014.

Historiador norte-americano defende que o papel das Forças Armadas brasileiras foi fundamental para a queda da Monarquia e a ascensão da República.

Hoje, o Exército brasileiro é pequeno, mas muito profissionalizado e respeitado em todo o mundo. Porém, para chegar neste nível de desenvolvimento militar, foram gastos anos de trabalho e preparação, que tiveram início antes mesmo da Proclamação da República. Essa foi uma das conclusões do historiador norte-americano Frank McCann, autor do livro Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro 1889-1937 (Cia. das Letras), que detalha minuciosamente um período de quase 40 anos da história bélica do País.

Segundo McCann, professor da University of New Hampshire (Estados Unidos), as Forças Armadas brasileiras tiveram uma participação essencial durante a transição do período monárquico para o republicano, pois, afinal, nenhuma organização civil teria condições de exigir o fim da coroa no Brasil exceto o próprio Exército. O povo, por exemplo, não era suficientemente forte e organizado para causar uma grande mudança na estrutura social. Além disso, muitos presidentes e ministros da época foram encontrados na carreira militar e continuaram influenciando os rumos do País por muito tempo.

Contudo, essa transformação no sistema político nacional não ocorreu de forma rápida e tranqüila. Foi um processo longo e gradativo, durante o qual houve revoltas em algumas partes do Brasil.

Logo no início das reformas políticas brasileiras, houve atritos entre o Estado e o poder eclesiástico no que diz respeito aos registros civis. Mas as brigas não ocorreram apenas no campo civil. Houve conflitos até mesmo entre o Exército e a Marinha. Segundo McCann, eram disputas de interesses, cujo pano de fundo envolvia sempre a profissionalização técnica e militar das Forças Armadas.

As revoltas, contudo, não podem ser vistas apenas de forma negativa. A Guerra de Canudos, por exemplo, contribuiu muito para o desenvolvimento da estrutura militar brasileira. O historiador norte- americano explica que o conflito foi importante para determinar mudanças fundamentais na estrutura do Exército, pois serviu para mostrar ao governo a real necessidade de investir na qualificação e profissionalização dos oficiais.

"O combate em Canudos entre as tropas legaes e os fanaticos de Antonio Conselheiro. Morte gloriosa do bravo capitão Salomão defendendo uma peça de artilharia." Legenda original do desenho de Angelo Agostini na revista Don Quixote, nº 82, 1897.

Mesmo hoje, tanto tempo depois da queda da Monarquia no Brasil, o Exército ainda segue parte das tradições daquela época, como canções de guerra e até mesmo a estrutura física de escolas e quartéis utilizados: prova de que certas características militares estão inseridas com bastante intensidade dentro da organização a ponto de resistiram por tanto tempo.

McCann ainda faz questão de ressaltar à Leituras da História que há uma diferença básica e crucial entre o Exército pós-republicano e o atual: agora, o projeto idealizado originalmente pelos chamados ‘jovens turcos’, de desvincular a organização da política e estruturá-la de forma adequada, foi definitivamente colocada em funcionamento. Esses oficiais, aliás, introduziram no País novos conceitos de estratégia militar, que haviam sido aprendidos durante o período de treinamento no exterior. De volta ao Brasil, eles fundaram a importante revista A Defesa Nacional, em que publicavam traduções de artigos bélicos alemães para difundir detalhes técnicos, de treinamento e relativos à indústria bélica.

A seguir, confira a entrevista concedida com exclusividade pelo historiador norte-americano à Leituras da História.


Leituras da História - Na transição da Monarquia para a República, qual foi o papel das Forças Armadas brasileiras? E, no mesmo período, quais eram as diferenças ideológicas entre Exército e Marinha?

Frank McCann - Uma resposta simples é que o papel das Forças Armadas foi fundamental na transição do período monárquico para o republicano. Na época, nenhum grupo civil tinha poder suficiente para abolir a coroa. É incerto até hoje se os golpistas estavam somente contra o ministério ou contra todo o sistema monárquico. Eu acho que, no princípio, o marechal Deodoro da Fonseca estava apenas procurando justiça para os oficiais punidos, mas durante as tensões do dia 15 de novembro ele mudou de objetivo e optou pela troca de todo o sistema. Até agora, acho que as explicações que temos não são satisfatórias. Porém, até alguém descobrir um documento dando justificativas mais claras, a história que temos é esta. É difícil analisar as diferenças entre o Exército e a Marinha. Ambos eram atrasados em termos de equipamento militar e treinamento. Acho que as duas instituições estavam frustradas porque não poderiam defender o Brasil no caso de ataque. Não sei se os marujos tinham os mesmos ideais sobre a Pátria, como entidade superior ao tipo de governo ou não, mas seria lógico pensar assim.

"Impossível governar com este Congresso. É mister que ele DESAPAREÇA PARA A FELICIDADE DO BRASIL."
Discurso do Marechal Deodoro durante a tentativa de fechar o Congresso Nacional.

"Proclamação da República", 1893, óleo sobre tela de Benedito Calixto (1853 - 1927). Acervo da Pinacoteca Municipal de São Paulo.

Nota da redação: A Proclamação da República ocorreu em 15 de novembro de 1889, liderada pelo marechal Deodoro da Fonseca, que assumiu provisoriamente o cargo de presidente. A primeira constituição brasileira, no entanto, só foi promulgada apenas em 1891.

LH - Quando e em que condições deu-se o desenvolvimento e a profissionalização do Exército brasileiro? E no que essa profissionalização acarretou para o desenvolvimento do País?

McCann - Essa é uma pergunta chave para o assunto. Vários capítulos do meu livro tratam desses problemas. Em parte, toda a crise com o Império estava ligada à profissionalização do Exército, mas isso foi diretamente ligado à grande falta de desenvolvimento nacional. Países pobres não tinham Exércitos fortes e altamente desenvolvidos. É bem possível que muitos militares não compreendiam o quanto o Brasil era pobre. O dinheiro do Império tinha valor forte nos mercados internacionais e as exportações eram altas. Então, eles poderiam ter pensado que o problema foi a atitude dos líderes civis que não gostavam de gastar a moeda em assuntos militares. Os oficiais sabiam muito claramente que o Exército deles era atrasado em relação aos da Europa. Eles sabiam que seria necessário aumentar o treinamento, mas de quem e com o quê?

A criação da revista A Defesa Nacional, pintura de Álvaro Martins.

LH - E o que faltava para conseguir realizar este treinamento?

McCann - Faltavam equipamentos modernos e faltavam recrutas com educação básica. Além disso, faltava apoio governamental. O desinteresse da elite pela educação produziu uma crise permanente em torno da missão do Exército de defender o País. A chamada crise militar do Império foi quase a mesma crise dos chamados ‘jovens turcos’, entre 1913 e 1918. Basicamente, pode-se não ter um grau alto de desenvolvimento profissional das Forças Armadas em uma sociedade desenvolvida. É preciso de educação, indústria, além de manter desenvolvimento científico. Para a profissionalização, era necessário desenvolvimento econômico e social.

Toda crise do Império estava ligada à profissionalização do Exército.

LH - Como ocorreu a transição do serviço militar opcional para o obrigatório no Brasil? No que isso implicou para o Exército?

McCann - Essa é uma parte importante da história militar do Brasil. Em 1874, o governo imperial criou a lei do serviço militar obrigatório, mas nunca foi possível colocá-la em prática. Ficou claro que, para ter um Exército moderno, era preciso ter soldados treinados e prontos para o combate, se fosse preciso. Gostaram dos modelos alemão e francês de ‘soldado-cidadão’, mas a idéia não combinava com a realidade brasileira daquela época. No século novo, com o quente desejo de modernizar o Brasil, a idéia ganhou mais forças. A Argentina implementou o serviço obrigatório e demonstrava condições de mobilizar-se rapidamente. Depois da crise do Acre, alguma coisa precisava ser feita. Em 1906, a primeiro turma de oficiais brasileiros foi mandada para servir com o Exército imperial alemão. Então, para ter um Exército moderno e funcional, era preciso de soldados de um tipo novo: não mais recrutados à força (o Exército era, na verdade, uma parte chave do sistema penal), mas de cidadãos vindo aos quartéis para cumprir um dever cívico.

Oficiais e soldados do Exército (esquerda) e dos Voluntários da Pátria (direita), 1865-68.

LH - Essa lei do serviço militar obrigatório entrou em vigor logo?

McCann - Em 1908, o Congresso aprovou a nova lei, mas a oposição cortou tão drasticamente o orçamento do Exército que o pequeno efetivo autorizado era preenchido por voluntários. Os oficiais que serviram com o Exército alemão estavam voltando com novas experiências (as três turmas tiveram um total de 32 oficiais que fundaram, em 1913, a importante revista militar A Defesa Nacional). Com as duas crises do Contestado e a Primeira Guerra Mundial (chamada na época simplesmente ‘A Grande Guerra’), os dirigentes políticos que pensavam que guerra era coisa do passado mudaram o ponto da vista. Houve muito debate público e, em 1916, a lei que havia sido criada em 1908 finalmente entrou em operação. Mas o que foi criado não era exatamente um serviço universal, mas um sorteio dos alistados. Alguns dos sorteados apresentaram objeções processuais, constitucionais e religiosas, e pediram dispensa. A coisa não produziu o Exército dos sonhos dos reformadores, mas foi uma etapa importante.

Para ter um exército moderno, era preciso ter soldados treinados e prontos para o combate.

LH - E houve mais mudanças depois do início da vigência da lei?

McCann - Desde então, o Exército precisou mudar quase tudo. Nas palavras do próprio ministro José de Caetano Faria, num discurso escrito por Estevão Leitão de Carvalho: ‘Precisamos concentrar todas as nossas energias nos trabalhos profissionais. Abandonemos de vez as ambições políticas e as ocupações colaterais e consagremos nossa atividade com decisão e patriotismo, a obra do Exército.’ Com isso, podemos entender que o Exército estava baseado num plano de 1915, reestruturado. Novos quartéis foram necessários, que começaram a surgir com Hermes da Fonseca na década de 1920. Para tratar com o novo tipo de soldado, não poderiam mais abusar deles. A disciplina mudou. Os quartéis mudaram e os uniformes também. O Exército, como tudo, passou a prestar mais atenção na educação, saúde, etc. Para o sistema funcionar, os oficiais teriam de tornar-se instrutores e educadores. Alguns oficiais receavam atrair as classes inferiores para um papel nacional ativo: o serviço militar obrigatório universal poderia enfraquecer o poder da oligarquia sobre as massas, e o alistamento não se aplicava aos trabalhadores rurais. No fim da década de 1910, a tarefa que os reformistas do Exército impuseram-se era nada menos que ‘a obra sublime de constituição de um povo digno deste maravilhoso Brasil’. Queriam ver uma mudança fundamental no comportamento social, particularmente das elites.

A Defesa Nacional, nº 322, 10 de março de 1941.

LH - Sabemos que houve uma ruptura entre o Estado civil e a sociedade clerical logo no início da República, por conta da briga pelos direitos de registros civis. Como o Exército comportou-se durante essa disputa?

McCann - Esse detalhe me escapou. Logicamente, dentro da liderança deveria ter existido um forte sentimento negativo contra a Igreja, porque imediatamente o corpo de capelães (mais ou menos 50) foi abolido. Eu tenho dúvidas sobre a ligação dessa ação e o positivismo. Mas note bem que a situação não durou muito tempo.

LH - Por que, em sua opinião, houve uma presença tão forte do Exército no cenário político brasileiro? A prova disso é que os primeiros presidentes eram militares, assim como os políticos de alto-escalão. Qual o motivo para essa atuação tão marcante do Exército no Estado brasileiro?

McCann - Na época, o Brasil tinha quatro tipos de homens cultos: padres, advogados, médicos e oficiais militares. Os militares pensaram que somente eles estavam apoiando totalmente a Pátria. Eles perderam a fé nos políticos convencionais. Deve-se lembrar que nos anos de 1890 não houve eleições com um eleitorado amplo. Também existia o problema de disciplina militar. Se o presidente fosse militar, ele poderia controlar melhor o que acontecia nas unidades. Logicamente, foi uma maneira ruim de cultivar a democracia. Mas esse não era o jogo da época.

Os militares pensavam que somente eles estavam apoiando totalmente a pátria.

Soldados do Exército brasileiro nos destroços do quartel do Batalhão Naval, dezembro de 1910.

LH - Em certos momentos, como no início da República (no governo de Hermes da Fonseca), houve atritos entre Exército e Marinha, por conta da revolta dos marinheiros. Por que esse conflito ocorreu e em que circunstâncias? O que justifica essa diferença ideológica entre Marinha e Exército no País?

McCann - Precisamos de mais estudos sobre a história da Marinha brasileira. Acho que a revolta da Armada em 1893 teve algum fator importante no conflito entre Exército e Marinha. Era mais uma questão de ciúme pessoal, mas em 1910 a causa teve mais relação com a disciplina severa e a frustração dos marujos. Acho que não houve questões ideológicas envolvidas nesse conflito além das atitudes dos homens, das elites brancas, talvez cheias de medo, controlando marujos pobres, mal-educados e negros. Imagine uma revolta no vapor de guerra mais moderna do mundo na época!

"Nós, marinheiros(...) NÃO PODENDO MAIS SUPORTAR A ESCRAVIDÃO NA MARINHA BRASILEIRA, a falta de proteção que a Pátria nos dá, e até então não nos chegou, rompemos o negro véu, que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo."
Trecho inicial do ultimato dado pelos rebeldes da Revolta da Chibata ao Presidente Hermes da Fonseca.

LH - Durante a República Velha houve algumas insurgências na sociedade brasileira, como o tenentismo e a Guerra de Canudos. Quais eram as características das tropas que atuaram nestes conflitos? Fala-se que eram formadas por moradores locais, pois não havia um corpo fixo do Exército nestas regiões. Isso é correto? E o mais importante: por que esses conflitos ocorreram?

McCann - Canudos foi uma guerra completamente desnecessária. Os fatores para justificar isso são muitos, como a política estadual: Canudos era a segunda cidade da Bahia, em termos de população. Estava atraindo tanta gente que os senhores de terra sentiram-se ameaçados pela falta de trabalhadores. Os militares ficaram zangados após perderem as primeiras batalhas. O medo de uma possível restauração monárquica tomou conta da imprensa brasileira da época, que converteu Canudos num ninho monarquista. Havia muita bobagem de todos os lados. Outra vez, repito que o nível nacional de educação era muito baixo. Um pouco de paciência e muito conversa poderiam ter resolvido o caso sem conflitos armados. Mas vale lembrar que, na mesma época, nos Estados Unidos, índios e trabalhadores em greve foram mortos por causa da ignorância e do medo irracional. Claro que os guerreiros de Canudos eram simples sertanejos.

7º Batalhão de Infantaria nas trincheiras na Guerra de Canudos, 1897.

LH - As unidades vieram de um único local ou de vários Estados?

McCann - As unidades do Exército vinham de todo Brasil: da polícia militar de Manaus e Belém e de regimentos do Rio Grande do Sul. Mas a verdade é que a maioria das tropas foi formada por gente simples, algumas pessoas forçadas a entrar nas fileiras. O tenentismo é uma coisa completamente diferente, ligado mais ao desejo de profissionalização. O objetivo deles era convencer a geração acima deles de mudar a maneira de pensar, de ver o papel do Exército na sociedade. Mas vale lembrar que nessa parte da década de 1920, o Ministro de Guerra, Fernando Setembrino de Carvalho, fechou a Biblioteca do Exército porque ele preferia soldados com mentes vazias.

Nota da redação: A Guerra de Canudos é considerada um movimento sócio-religioso, que ocorreu entre 1893 e 1897, na região de Canudos, na Bahia. A insurreição foi liderada por Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro. O movimento, na época, foi taxado como monarquista e, por isso, houve repressão militar na região. No total, quatro expedições foram enviadas ao território baiano para combater os insurgentes, que culminou na morte de Conselheiro. Os conflitos foram testemunhados pelo escritor Euclides da Cunha, que na ocasião era repórter do jornal O Estado de São Paulo e, posteriormente, escreveu a obra ‘Os Sertões’, no qual narra a guerra.

"Em verdade vos digo, quando as nações brigam com as nações, o Brasil com o Brasil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prússia com a Prússia, das ondas do mar D. SEBASTIÃO SAIRÁ COM TODO O SEU EXÉRCITO."
Antônio Conselheiro.

Uniformes dos oficiais e soldados de infantaria do Exército em Canudos, 1897.
(Gustavo Barroso / Uniformes do Exército Brasileiro)

O Ministro da Guerra fechou a Biblioteca do Exército porque ele preferia soldados com mentes vazias.

LH - No capítulo 2 de Soldados da Pátria, o senhor cita que, após Canudos, o Exército ficou em ruínas. Por que isso ocorreu e como o Exército se reergueu?

McCann - O Exército mandou a Canudos cerca de 12 mil homens, quase a metade da força efetiva total. Houve registros de uns cinco mil mortos e feridos. Vários oficiais bem preparados morreram. Acho que, no fim, todo mundo entendeu que foi um desastre desnecessário. Ninguém fez pesquisas tratando dos efeitos psicológicos nos veteranos, mas sabemos que é bem provável que muitos dos sobreviventes sofreram por diversos anos depois. Na época, o Exército estava só no início da criação de um Estado-Maior baseado no sistema alemão. Por causa de Canudos, esse projeto levou muito mais tempo para ser implementado. Somente no governo de Hermes foi possível retomar ao caminho perdido. O momento chave foi quando Rio Branco convenceu Hermes a mandar para a Alemanha, em três grupos, os 36 oficiais mais tarde chamados os ‘jovens turcos’. Quase tudo que aconteceu depois foi ligado à experiência desses militares.

LH - O senhor comentou sobre os ‘jovens turcos’. Com que objetivo eles foram enviados à Alemanha?

McCann - Depois do desastre de Canudos, o Exército começou a tentar várias possibilidades de reforma. O Estado- Maior foi criado em 1899. A revolta da Escola Militar da Praia Vermelho, em 1904, causou seu fechamento e uma nova escola teve de ser aberta em Porto Alegre, a Escola de Guerra. Para preparar instrutores para os novos cursos projetados, o Ministério mandou seis oficiais de baixa patente servirem nos regimentos do Exército imperial alemão, por dois anos. Eles foram, mas não houve reforma porque faltou dinheiro. Em 1908, Rio Branco conseguiu um convite do governo alemão para os generais Hermes e Luís Mendes de Morais assistirem a manobras do Exército alemão. Hermes negociou com Berlim o envio de uma missão militar para supervisionar a reorganização do Exército. Então, a razão para a viagem dos oficiais brasileiros à Alemanha mudou um pouco. Agora, a idéia era ter um grupo de oficiais que poderiam assistir a missão. Em 1909, um segundo grupo de seis oficiais embarcou.


Neste intervalo, a Krupp (empresa bélica alemã) consolidou sua posição como fornecedora de artilharia, cedendo armas para os Fortes Copacabana e Leme. Em 1910, o terceiro grupo de 24 oficiais embarcou pra Alemanha. A missão alemã seria composta por um grupo de vinte a trinta oficiais sob comando do general Friedrich Colmar von der Goltz, conhecido escritor militar e reorganizador do Exército turco. A missão não deu certo principalmente porque os franceses, que já estavam treinando as forças estaduais de São Paulo desde 1906, montaram uma grande campanha de propaganda negativa. Os esforços dos militares franceses para influenciar a elite brasileira em favor de sua causa podem ser vistos nos relatórios do Estado-Maior francês. Era política francesa convencer a elite brasileira, como fora feito com o marechal Hermes, sobre a profunda convicção de que o Exército francês ainda era o Exército modelo.

LH - E essa idéia dos franceses foi aceita no Brasil?

McCann - Vários jornais brasileiros apoiariam os franceses. Os franceses e seus aliados brasileiros, como o senador mato-grossense Antonio Azeredo, impediram a missão alemã, mas não tiveram forças para impor uma missão francesa. Hermes prometera ao imperador alemão a assinatura de contratos com o Exército e a Marinha. Além dos franceses e paulistas, também os americanos e ingleses mostraram-se contrariados. A questão dividiu a oficialidade e o governo. Alguns altos oficiais opunham-se a qualquer missão estrangeira. Tamanha era a pressão sobre Hermes que lhe custava menos se opor à posição pró-alemã de seu ministro do exterior, Rio Branco, e recusar-se a honrar o compromisso assumido com Berlim do que mandar mais oficiais para juntarem-se aos que estavam completando seu treinamento na Alemanha. O governo teria pagado à Alemanha uma vultosa indenização para desfazer os acordos. A questão da missão militar estrangeira ficaria engavetada até o fim da Primeira Grande Guerra. Mas os oficiais com a experiência na Alemanha foram os que deram ao Exército um impulso reformista.

Era política francesa convencer a elite brasileira de que o Exército francês ainda era o modelo.

LH - Por que esses militares passaram a ser chamados de ‘jovens turcos’?

McCann - Foram chamados ‘jovens turcos’ porque, depois da revolução reformadora na Turquia, esta frase tornou-se comum no mundo inteiro e aplicada aos que queriam reformas.

Generalfeldmarschall Wilhelm Leopold Colmar Freiherr von der Goltz, 1917.

Nota da redação: após retornarem para o Brasil em 1913, os ‘jovens turcos’ fundaram a revista A Defesa Nacional, onde publicaram inúmeras traduções de textos militares alemães, difundindo detalhes técnicos, de treinamento e informações sobre a indústria bélica da Alemanha. Essas idéias de reforma tinham como base os pedidos de Benjamin Constant, que sofria influências claras do movimento positivista.

LH - Fala-se muito que havia castigos físicos como punição no Exército. Como essa cultura de punição começou?

McCann: A punição com castigos físicos fez parte de Exércitos de todo o mundo no século XIX. Aqui, não foi diferente, mas teve um agravante forte. Havia também o fator da escravidão e os efeitos que aquele sistema produzia na sociedade. Durante a República Velha, a maioria dos soldados eram negros e mestiços. Punição física era um método muito mais fácil do que educação.

"GETÚLIO [VARGAS] foi um sargento na fronteira do Mato Grosso, então ele SABIA DE PRIMEIRA MÃO SOBRE A VIDA DOS SOLDADOS."
Frank McCann.

LH - A hierarquia do Exército estava fragmentada na Revolução de 30. Por que o senhor acha que havia tanta diferença de pensamento entre o alto escalão e o restante dos militares?

McCann: Não foi todo o alto escalão, mas alguns, como Tasso Fragoso, foram campeões de reforma. Mas os outros foram acostumados com a vida militar; eles não viam razão de aprender novas táticas, usar novas armas, enfim tornar-se mais profissionais.

Uniformes dos regimentos de cavalaria e da Companhia de Carros de Assalto, 1922.
(Gustavo Barroso / Uniformes do Exército Brasileiro)

LH - Quais são as diferenças mais perceptíveis entre o Exército brasileiro no início da República e o do período de Getúlio Vargas?

McCann: É difícil ver os dois como o mesmo Exército. No primeiro caso, os governos não queriam ouvir problemas e sim deixá-los nos quartéis. No período Vargas, ele estava envolvido com tudo e tudo mundo. Ele prestava atenção às listas dos capitães que estavam prontos para serem promovidos ou não. Toda semana ele se reunia com o ministro da guerra, e correspondeu-se com muitos militares colhendo data, pontos de vista e sugestões. As reformas militares da década de 1930 tinham muita relação com a ação dele. Interessante que a experiência militar de Getúlio foi de um sargento na fronteira de Mato Grosso, então ele sabia em primeira mão sobre a vida dos soldados, mas sua vida ensinou-lhe como lidar com coronéis e generais.

LH - Nos quase 40 anos compreendidos em seu livro, é possível verificar elementos comuns ao Exército em todo este período?

Frank McCann: Sim, de uma forma geral, os Exércitos são entidades muito tradicionais. Ainda as unidades de hoje cantam canções da arma, do regimento, etc... Em muitas escolas e unidades pelo Brasil afora são usados edifícios construídos na época de Hermes. Para um soldado, isso dá a sensação de viver no passado. Até durante os chamados anos ‘militares’ eles sempre insistiram que eles foram trabalhando para um Brasil melhor. Eu não concordo com a maneira que eles fizeram isso, mas acho que eles foram sinceros na crença deles. Outra coisa; acho que os ‘jovens turcos’ ficariam felizes se eles pudessem ver os oficiais de hoje. O sonho que eles celebraram com a revista A Defesa Nacional é hoje uma realidade. O Exército de hoje ainda é pequeno, mas é muito profissional, solidamente fora da política e respeitado pelos outros exércitos do mundo.

Os “jovens turcos”, que lutaram pela profissionalização do exército, veriam seu sonho realizado na força de hoje.

Frank D. McCann, autor dos livros Soldados da Pátria e Aliança Brasil-Estados Unidos 1937-1945 e brasilianista militar famoso. Ele foi condecorado com o título de Comendador da Ordem do Rio Branco (1987) e com a Medalha do Pacificador (1995). McCann faleceu no dia 2 de abril de 2021. Ele foi chamado de "um grande americano e um grande amigo do Brasil".

Bibliografia recomendada:

Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro 1889-1937.

Leitura recomendada:



PERFIL: General Hans Kundt, conselheiro militar alemão na Bolívia24 de outubro de 2020.

FOTO: Raul Langlois, conselheiro militar no Paraguai5 de maio de 2020.

COMENTÁRIO: Pseudopotência, 1º de julho de 2020.


terça-feira, 8 de junho de 2021

FOTO: Batedores cubanos em Angola

Militares cubanos de uma unidade de reconhecimento perto de Menongue, no sul de Angola, em dezembro de 1987.
O fuzil do homem-ponto tem um silenciador.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 8 de junho de 2021.

As Forças Armadas Revolucionárias cubanas (Fuerzas Armadas Revolucionarias, FAR) foram moldadas seguindo o sistema soviético, com a criação de formações em estilo soviético. Estes batedores cubanos são moldados no razvedka soviético, dado o foco russo soviético na informação, dissimulação e paranóia, e com o objetivo de manter seus adversários em situação de desequilíbrio.

Os cubanos revolucionários tornaram-se um dos mais prolíficos "exportadores da revolução" na Guerra Fria, com desdobramentos da América do Sul ao Vietnã. Esta função expedicionária era chamada de "internacionalização", ou seja, a internacionalização da revolução socialista global. Nos anos 1980, o desdobramento cubano em Angola atingiu um pico de 50 mil militares e 8 mil civis auxiliando o governo comunista angolano do MPLA (ao lado dos conselheiros soviéticos); intervenção chamada Operação Carlota.

Na década de 80, os cubanos mantiveram missões militares na Argélia, Gana, Guiné-Bissau (ex-Guiné Portuguesa), Somália, Líbia, Tanzânia, Zâmbia, Síria e Afeganistão; além de contingentes militares consideráveis em Angola, conforme já citado, Congo (500 soldados), Etiópia (4 mil soldados, 1978-1984), Moçambique (600 soldados), Iêmen do Sul (500 soldados) e Nicarágua (500 soldados e 3 mil funcionários civis). Os cubanos também enviaram militares para a Síria em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, e uma equipe de 30 oficiais e engenheiros, munidos de 10 escavadeiras para fortificar a linha Ho Chi Minh no Vietnã e Camboja nos anos 1970. Conselheiros cubanos também ordenaram a tomada de Kolwezi pelos guerrilheiros Tigres em 1978.


Segundo o líder guerrilheiro brasileiro da ALN, Carlos Eugênio da Paz (codinome Clemente), o próprio General Arnaldo Ochoa, futuro comandante do "Exército Ocidental" em Havana, ofereceu em 1973 o contingente de 100 soldados cubanos que entrariam no país pela Amazônia e criariam um foco inicial de guerrilha na selva, internacionalizando o conflito que na época já existia sendo feito por brasileiros - a Guerrilha do Araguaia - mas nesse momento já em fase de aniquilamento. Essa oferta foi rejeitada por serem hispânicos e não brasileiros, o que colocaria em dúvida a real liderança da campanha.

O General Ochoa

O General Arnaldo Ochoa (centro) em Angola.

O General Ochoa foi um veterano da guerrilha Movimento 26 de Julho e da Batalha da Baía dos Porcos em 1961. Em 1965, Ochoa entrou no Partido Comunista Cubano, depois estudou na escola militar de Matanzas, em Cuba, e em seguida na Academia Militar de Frunze, na União Soviética. Em 1966, Ochoa desembarcou em Falcón, na Venezuela, com 15 guerrilheiros cubanos apoiando comunistas venezuelanos; a campanha sendo esmagada de forma sangrenta pelo governo de Caracas. Em 1967-68, Ochoa treinou rebeldes congoleses.

Em 1975, Ochoa foi enviado para Angola para lutar contra o FNLA em Luanda, onde recebeu o reconhecimento dos comandantes soviéticos e cubanos. Em 1977 foi nomeado comandante das Forças Expedicionárias Cubanas na Etiópia no Ogaden, sob o general soviético Vasiliy Ivanovich Petrov. Seus sucessos durante a Guerra do Ogaden impressionaram os comandantes soviéticos em campanha.

Em 1980, Ochoa era amplamente considerado um grande internacionalista e recebeu o título de "Herói da Revolução" de Fidel Castro em 1984.

Operación Carlota: Pasajes de una epopeya.

Sendo o comandante das forças cubanas em Angola, e depois de ser derrotado na Batalha de Cuito Cuanavale, Ochoa foi acusado de corrupção e traição junto de outros oficiais. As acusações, condenações e sentenças de morte foram extremamente desagradáveis para grande parte da população cubana, especialmente no caso de Arnaldo Ochoa que era considerado pela maioria da população como um dos mais respeitados generais das forças armadas cubanas. Na madrugada de 13 de julho de 1989, Ochoa foi executado por um pelotão de fuzilamento na base militar "Tropas Especiales" em Baracoa, no oeste de Havana. Ele foi enterrado em uma sepultura sem marcação no Cemitério de Havana.

Uma das razões da execução foi a popularidade de Ochoa, que era o mais alto general cubano logo abaixo de Raúl Castro, então ministro da Defesa, e do próprio Fidel Castro.

Organização das FAR

As FAR também eram consideráveis, sendo a maior força latino-americana depois do Brasil. Isso se deveu à doutrina soviética de forças militares em massa divididas em funções de defesa, expedicionária e de controle interno; essa militarização maciça era alienígena à cultura cubana pré-revolução, e específica do novo sistema. Em 1990, o Exército cubano era assim composto:
  • 3 divisões blindadas,
  • 3 divisões mecanizadas,
  • 13 divisões de infantaria.
Exército Ocidental formava um corpo nas províncias de Pinar del Rio e Havana, o Exército Central formava um outro corpo em Matanzas e Las Villas e o Exército Oriental formava dois corpos em Camagüey e Oriente; a Isla de la Juventud (ex-Isla de Pinos) contava com uma divisão de infantaria.

Cada corpo continha 3 divisões, cada uma com três regimentos (2x batalhões), regimento de artilharia, batalhão de reconhecimento e unidades de serviço. Cada quartel-general do exército possuía uma divisão blindada e uma divisão mecanizada.

Divisão Blindada
  • 3 regimentos de tanques,
  • 1 regimento mecanizado,
  • 1 regimento de artilharia.
Divisão Mecanizada
  • 3 regimentos mecanizados (2x batalhões),
  • 1 regimento de tanques (3x batalhões),
  • 1 regimento de artilharia,
  • 1 regimento de reconhecimento mecanizado.
O exército ainda possuía robusta defesa anti-aérea com 26 regimentos AAe e brigadas de mísseis terra-ar, 8 regimentos de infantaria independentes, uma Brigada de Forças Especiais (2x batalhões) e uma Brigada Paraquedista. A Marinha tinha 12 mil homens, com um batalhão de fuzileiros navais com uniformes pretos copiados dos soviéticos; uma Força Aérea de 18.500 homens; tropas de segurança interna (estilo KGB) com 17 mil homens; 3.500 guardas de fronteira; e, em reserva, 1.200.000 homens e mulheres na Milícia Revolucionária, 100 mil na Juventude Trabalhista e 50 mil na Defesa Civil.

"O longo período de serviço militar (3 anos); forças armadas bem treinadas e eficientes; extensa experiência de combate na África e na Ásia; e uma força de reserva vigorosa, fazem de Cuba a maior potência militar do Caribe depois dos Estados Unidos."
- Caballero Jurado & Nigel Thomas, Central American Wars 1959-89, 1990, pg. 7.

Bibliografia recomendada:

Bush Wars: Africa 1960-2010.

Batalha Histórica de Quifangondo.

Leitura recomendada:

Poderia haver uma reinicialização da Guerra Fria na América Latina?4 de janeiro de 2020.

LIVRO: Batalha Histórica de Quifangondo, de Serguei Kolomnin30 de setembro de 2020.

FOTO: Carro de Combate T-34/85 cubano modificado com um canhão D-304 de agosto de 2020.

FOTO: Conselheiro militar soviético em Cuito Cuanavale
12 de janeiro de 2021

domingo, 6 de junho de 2021

GALERIA: Operação de limpeza em Bui Chu pelo 1º batalhão do 2e REI

Progressão de soldados do 1º batalhão do 2e REI em um arrozal inundado em Bui Chu, 10 de outubro de 1953.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 6 de junho de 2021.

Operação de "limpeza" (eliminação do adversário em determinada região) ocorrida em Bui Chu em 10 de outubro de 1953; participou o I/2e REI (1º batalhão do 2º Regimento Estrangeiro de Infantaria). A operação foi fotografada para o ECPAD por Ferrari Pierre.

O I/2e REI desembarcou na Indochina em fevereiro de 1946, participando da pacificação de Annam, a área central da Indochina. Enviado ao Tonquim em dezembro de 1946, participou do socorro a Huai Duang - formando o núcleo da coluna de socorro vinda de Haiphong para Hanói. Após quatro dias de dura resistência, os franceses entraram em Huai Duang no natal. Após batalhas menores, a rota terrestre de Haiphong e Hanói foi estabelecida em 7 de janeiro de 1947.

Soldados do 1º Batalhão do 2e REI cruzam uma ponte durante a operação de limpeza em Bui Chu.

Um comandante e um capitão do 1º batalhão da 2ª REI estudam um mapa durante a operação em Bui-Chu.

O batalhão serviu no Tonquim até 1954, quando foi enviado para Dien Bien Phu, onde seria aniquilado. À partir de março de 1954, Dien Bien Phu contava com uma guarnição de 11 mil homens, incluindo 12 batalhões de combate: três argelinos, um marroquino, dois indígenas, um de paraquedistas franceses; da Legião havia o I/2e REI, o III/3e REI, I e II do 13e DBLE, e o 1er BEP.

Retrato de um veterano do 1º Batalhão do 2e REI durante a operação de limpeza em Bui Chu.

Um fuzileiro-metralhador FM 24/29 do 1º batalhão de 2 REI durante a operação em Bui-Chu.

Um camponês oferece uma bebida a um legionário do 1º batalhão da 2ª REI durante a operação em Bui-Chu.

Bibliografia recomendada:

French Foreign Legion: Infantry and Cavalry since 1945.

Leitura recomendada: