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domingo, 25 de janeiro de 2026

FOTO: Vz. 52 na Nicarágua Sandinista

Mulheres milicianas desfilando com fuzis vz. 52 no Dia das Milícias em Masaya, em 1984.

Por Filipe do A. Monteiro, Warafre Blog, 25 de janeiro de 2026.

Milicianas sandinistas desfilam armadas com fuzis vz. 52 de origem tchecoslovaca, em Masaya, na NicaráguaMasaya, conhecida como a "Capital do Folklore" da Nicarágua, é uma cidade vibrante e populosa, situada perto de Granada e Manágua. Destaca-se pelo seu artesanato tradicional, cultura indígena e, principalmente, pelo Parque Nacional do Vulcão Masaya, um vulcão ativo com fácil acesso ao mirante do cratera, famoso pela visualização de lava à noite.

Os "nicas", como eram chamados pelos cubanos, desfilam orgulhosos no Dia Nacional das Milícias (Día Nacional de las Milicias), sendo registrados pela fotógrafa nicaraguense Claudia Gordillo Castellón. Após o triunfo da revolução sandinista em 1979, ela começou a documentar a paisagem urbana e rural de seu país. Registrando os costumes e a rotina da população. Como correspondente do jornal sandinista Barricada, de 1982 a 1984, foi designada para a divisão de fotógrafos de guerra e encarregada de documentar a controversa guerra dos Contras, financiada pelos Estados Unidos.  

Claudia Gordillo Castellón.

O fuzil

O vz. 52 é um fuzil semiautomático que foi desenvolvido no imediato pós-guerra na Tchecoslováquia. O seu nome oficial é Fuzil semiautomático Modelo 52 de 7,62mm (7,62mm samonabíjecí puška vzor 52). Este calibre inicial seria forçosamente substituído pelo cartucho de 7,62×39mm soviético, que era o padrão do Pacto de Varsóvia. Os fuzis recalibrados foram redesignados vz. 52/57, sendo idênticos ao vz. 52, exceto que o carregador é menor.

Em 1º de agosto de 1946, o Estado-Maior do Exército Checoslovaco estabeleceu os princípios para o desenvolvimento de armas leves no pós-guerra daquele país, ao divulgar os requisitos para um novo fuzil semiautomático. Esses requisitos incluíam precisão em tiros instintivos a distâncias de até 1000 metros, capacidade do carregador de cinco a dez cartuchos e peso máximo de 4 kg. Além disso, o novo fuzil deveria ser tão eficaz quanto o fuzil Mauser Modelo 24 existente para uso por atiradores de elite e para disparos contra aeronaves voando em baixa altitude.

Como o vz. 52 foi feito pelos métodos convencionais de forjamento e fresagem da época, tem uma coronha de madeira e uma baioneta permanentemente presa, ele é bastante pesado para o cartucho que usa e tem mais de quatro quilos. Isto gera uma relação de compromisso: Embora o peso seja uma desvantagem no transporte, ele torna o vz. 52 preciso e fácil de disparar. O peso extra da baioneta dobrável também torna o fuzil um pouco pesado, mas com um bom efeito na precisão do tiro improvisado.

Todos os vz. 52 foram rapidamente substituídos no serviço tchecoslovaco pelo vz. 58 e a sua principal utilização foi armando milícias comunistas no Terceiro Mundo. O fuzis foram supridos aos aliados soviéticos durante a Guerra Fria e serviram em Granada, Somália, Cuba e Afeganistão. Uma estimativa de 12.000 fuzis vz. 52 foram esvaziados dos estoques de reserva cubanos e doados a Angola como ajuda militar durante a Operação Carlota. Na República Tcheca, apenas alguns fuzis foram mantidos para guarda de honra. Estes receberam acabamento cromado e coronhas de madeira escurecida. Os detalhes metálicos, incluindo a baioneta, são prateados.

Estes fuzis semi-automáticos produzidos em massa foram primeiro fornecidos aos cubanos para armarem a nova milícia socialista e lutaria com eles na invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Posteriormente, Cuba os repassou para os nicaragüenses do movimento Sandinista na terceira (e última) revolução socialista bem-sucedida na América.

Crianças-soldados

É notável a presença de crianças-soldados nas fileiras sandinistas. Esta era uma prática comum. O guarda-costas do próprio Fidel Castro, o Tenente-Coronel Juan Reinaldo Sánchez, notou a sua presença no desfile da vitória:

Tivemos uma viagem intensa, rica em emoções. Um dia, subimos até o alto do vulcão Masaya, um dos mais ativos do país. O espetáculo do lago de lava, no fundo da cratera, era prodigioso. No dia seguinte fomos a Granada, às margens do lago Nicarágua, onde nossos anfitriões atraíam tubarões-buldogue (uma rara variedade de tubarão de água doce) atirando grandes baldes de sangue escarlate nessa laguna imensa.

Mas a lembrança mais extraordinária é a do próprio desfile militar, no dia do primeiro aniversário da vitória sandinista, 19 de julho de 1980. Carlos Andrés Pérez, presidente socialdemocrata da Venezuela e amigo de Fidel, estava presente. Bem como Michel Manley e Maurice Bishop, os primeiros-ministros da Jamaica e de Granada. O presidente do governo espanhol Felipe González também viajara até lá. Na tribuna oficial, fiquei, como sempre, muito perto de Fidel. O desfile teve início com tanques e jipes seguidos pelos soldados de infantaria do exército "nica", até que, para espanto geral, surgiu um pelotão de jovens – alguns deles muito jovens – combatentes voluntários. Ao longo de toda a minha carreira, nunca vi nada igual: alguns daqueles muchachos tinham no máximo dez anos de idade; os mais velhos tinham quinze. Ao todo, eram uns sessenta. Os fuzis que carregavam pareciam grandes demais, pesados demais, desproporcionais. A imagem ficou gravada em minha memória. Hoje, 35 anos depois, pensar naquelas crianças-soldados que na época tinham a idade de meus filhos sempre me dá um calafrio. Na tribuna, lembro de ter observado discretamente a reação de Fidel com o canto do olho: tinha o rosto impassível, marmóreo.

 Juan Reinaldo Sánchez, A Vida Secreta de Fidel: As revelações de seu guarda-costas pessoal, pg. 112.

 

Meninos soldados no Dia Nacional das Milícias em 1983.

Milicianos visivelmente jovens descansam durante os festejos em 1983.