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domingo, 25 de janeiro de 2026

FOTO: Vz. 52 na Nicarágua Sandinista

Mulheres milicianas desfilando com fuzis vz. 52 no Dia das Milícias em Masaya, em 1984.

Por Filipe do A. Monteiro, Warafre Blog, 25 de janeiro de 2026.

Milicianas sandinistas desfilam armadas com fuzis vz. 52 de origem tchecoslovaca, em Masaya, na NicaráguaMasaya, conhecida como a "Capital do Folklore" da Nicarágua, é uma cidade vibrante e populosa, situada perto de Granada e Manágua. Destaca-se pelo seu artesanato tradicional, cultura indígena e, principalmente, pelo Parque Nacional do Vulcão Masaya, um vulcão ativo com fácil acesso ao mirante do cratera, famoso pela visualização de lava à noite.

Os "nicas", como eram chamados pelos cubanos, desfilam orgulhosos no Dia Nacional das Milícias (Día Nacional de las Milicias), sendo registrados pela fotógrafa nicaraguense Claudia Gordillo Castellón. Após o triunfo da revolução sandinista em 1979, ela começou a documentar a paisagem urbana e rural de seu país. Registrando os costumes e a rotina da população. Como correspondente do jornal sandinista Barricada, de 1982 a 1984, foi designada para a divisão de fotógrafos de guerra e encarregada de documentar a controversa guerra dos Contras, financiada pelos Estados Unidos.  

Claudia Gordillo Castellón.

O fuzil

O vz. 52 é um fuzil semiautomático que foi desenvolvido no imediato pós-guerra na Tchecoslováquia. O seu nome oficial é Fuzil semiautomático Modelo 52 de 7,62mm (7,62mm samonabíjecí puška vzor 52). Este calibre inicial seria forçosamente substituído pelo cartucho de 7,62×39mm soviético, que era o padrão do Pacto de Varsóvia. Os fuzis recalibrados foram redesignados vz. 52/57, sendo idênticos ao vz. 52, exceto que o carregador é menor.

Em 1º de agosto de 1946, o Estado-Maior do Exército Checoslovaco estabeleceu os princípios para o desenvolvimento de armas leves no pós-guerra daquele país, ao divulgar os requisitos para um novo fuzil semiautomático. Esses requisitos incluíam precisão em tiros instintivos a distâncias de até 1000 metros, capacidade do carregador de cinco a dez cartuchos e peso máximo de 4 kg. Além disso, o novo fuzil deveria ser tão eficaz quanto o fuzil Mauser Modelo 24 existente para uso por atiradores de elite e para disparos contra aeronaves voando em baixa altitude.

Como o vz. 52 foi feito pelos métodos convencionais de forjamento e fresagem da época, tem uma coronha de madeira e uma baioneta permanentemente presa, ele é bastante pesado para o cartucho que usa e tem mais de quatro quilos. Isto gera uma relação de compromisso: Embora o peso seja uma desvantagem no transporte, ele torna o vz. 52 preciso e fácil de disparar. O peso extra da baioneta dobrável também torna o fuzil um pouco pesado, mas com um bom efeito na precisão do tiro improvisado.

Todos os vz. 52 foram rapidamente substituídos no serviço tchecoslovaco pelo vz. 58 e a sua principal utilização foi armando milícias comunistas no Terceiro Mundo. O fuzis foram supridos aos aliados soviéticos durante a Guerra Fria e serviram em Granada, Somália, Cuba e Afeganistão. Uma estimativa de 12.000 fuzis vz. 52 foram esvaziados dos estoques de reserva cubanos e doados a Angola como ajuda militar durante a Operação Carlota. Na República Tcheca, apenas alguns fuzis foram mantidos para guarda de honra. Estes receberam acabamento cromado e coronhas de madeira escurecida. Os detalhes metálicos, incluindo a baioneta, são prateados.

Estes fuzis semi-automáticos produzidos em massa foram primeiro fornecidos aos cubanos para armarem a nova milícia socialista e lutaria com eles na invasão da Baía dos Porcos, em 1961. Posteriormente, Cuba os repassou para os nicaragüenses do movimento Sandinista na terceira (e última) revolução socialista bem-sucedida na América.

Crianças-soldados

É notável a presença de crianças-soldados nas fileiras sandinistas. Esta era uma prática comum. O guarda-costas do próprio Fidel Castro, o Tenente-Coronel Juan Reinaldo Sánchez, notou a sua presença no desfile da vitória:

Tivemos uma viagem intensa, rica em emoções. Um dia, subimos até o alto do vulcão Masaya, um dos mais ativos do país. O espetáculo do lago de lava, no fundo da cratera, era prodigioso. No dia seguinte fomos a Granada, às margens do lago Nicarágua, onde nossos anfitriões atraíam tubarões-buldogue (uma rara variedade de tubarão de água doce) atirando grandes baldes de sangue escarlate nessa laguna imensa.

Mas a lembrança mais extraordinária é a do próprio desfile militar, no dia do primeiro aniversário da vitória sandinista, 19 de julho de 1980. Carlos Andrés Pérez, presidente socialdemocrata da Venezuela e amigo de Fidel, estava presente. Bem como Michel Manley e Maurice Bishop, os primeiros-ministros da Jamaica e de Granada. O presidente do governo espanhol Felipe González também viajara até lá. Na tribuna oficial, fiquei, como sempre, muito perto de Fidel. O desfile teve início com tanques e jipes seguidos pelos soldados de infantaria do exército "nica", até que, para espanto geral, surgiu um pelotão de jovens – alguns deles muito jovens – combatentes voluntários. Ao longo de toda a minha carreira, nunca vi nada igual: alguns daqueles muchachos tinham no máximo dez anos de idade; os mais velhos tinham quinze. Ao todo, eram uns sessenta. Os fuzis que carregavam pareciam grandes demais, pesados demais, desproporcionais. A imagem ficou gravada em minha memória. Hoje, 35 anos depois, pensar naquelas crianças-soldados que na época tinham a idade de meus filhos sempre me dá um calafrio. Na tribuna, lembro de ter observado discretamente a reação de Fidel com o canto do olho: tinha o rosto impassível, marmóreo.

 Juan Reinaldo Sánchez, A Vida Secreta de Fidel: As revelações de seu guarda-costas pessoal, pg. 112.

 

Meninos soldados no Dia Nacional das Milícias em 1983.

Milicianos visivelmente jovens descansam durante os festejos em 1983.

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

A história de um mercenário cubano recrutado pela Rússia


Do site 14ymedio, 6 de julho de 2025.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 1º de setembro de 2025.

"Minha vida acabou", diz um mercenário cubano recrutado pela Rússia, que conseguiu escapar da guerra.

Francisco García pagou quase US$ 13.000 a um traficante para levá-lo para a Grécia, onde sobrevive nas ruas.

Havana/Francisco García foi esclarecido de que "retornaria a Cuba em um caixão ou como um herói". O homem de 37 anos entendeu que o atraente anúncio online que um amigo lhe mostrara meses antes, oferecendo 204.000 rublos (US$ 2.594) por mês e um passaporte russo para consertar prédios danificados pelos bombardeios ucranianos, era uma mentira. Ele havia sido recrutado como mercenário. "Minha vida acabou", disse ele ao jornal britânico Daily Mail.

García testemunhou a morte de dezenas de cubanos em combate, "russos que se suicidaram" porque não suportavam a guerra. No entanto, os mercenários "não tinham permissão para demonstrar medo"; não podiam sentir dor ou compaixão. "Pediram que fôssemos como robôs no campo de batalha."

García, que escapou em outubro passado e atualmente sobrevive nas ruas da Grécia, é um dos mais de 20 mil cubanos recrutados pela Rússia desde o início da guerra, em fevereiro de 2022. Um homem que "lutou em uma guerra" que não tem nada a ver com ele. Dados da inteligência ucraniana mostram que há quase 7 mil cubanos atualmente no campo de batalha, com pouco ou nenhum treinamento.

Desde que desembarcou do avião que o levou de Havana ao Aeroporto Internacional de Sheremetyevo, a presença de um cubano em uniforme militar, apoiado por soldados russos que os forçaram a entrar em caminhões do exército, o encheu de medo. "Não nos deram comida nem água. Depois de uma longa viagem, chegamos a uma escola de esportes abandonada, vigiada por policiais armados", contou ao mesmo veículo.

García confirmou o mesmo modus operandi que outros cubanos seguiram. Uma vez em Moscou, receberam contratos em russo e, em meio a gritos e ameaças, foram forçados a se alistar como mercenários.

García foi forçado a carregar armas pesadas, incluindo um fuzil de assalto, um lançador de foguetes portátil e quatro granadas. / La Tijera

Entregaram-lhe um fuzil de assalto. "Foi a primeira vez que segurei uma arma", disse o homem, assombrado pelas palavras do presidente russo Vladimir Putin: "Traidores jamais serão esquecidos". O cubano insiste que não matou ninguém, mas reconhece: "Não sei se feri alguém porque atirei em pânico, mas isso sempre me vem à mente".

Depois de 30 dias ao lado de outros cubanos e pessoas da Ásia e da África, ele foi lançado na linha de frente da guerra sem nenhum aviso porque "a Rússia estava perdendo muitos soldados todos os dias". García foi forçado a portar armamento pesado, entre eles um fuzil de assalto, um lança-foguetes portátil e quatro granadas.

Rapidamente, ele percebeu que a guerra "não era um jogo" e que sua missão, daquele momento em diante, era sobreviver. "Havia 90 cubanos como eu no início, porém mais da metade morreu em combate", disse ele.

Em combate, ele testemunhou a capacidade destrutiva dos drones kamikaze, que "nós, cubanos, nem sabíamos o que eram" e que "causavam muitos danos, muito mais do que o combate corpo a corpo".

Os mercenários, disse García, são abandonados pelos russos quando caem feridos na frente de batalha.

Em certa ocasião, enquanto estava na linha de frente, ele foi atingido por balas, deixando uma cicatriz no seu bíceps direito. "Corri para me proteger, mas me atingiram. Parecia que eu tinha sido atingido por um martelo gigante, mas não senti muita dor por causa da descarga de adrenalina e da pressa de tentar salvar minha vida." García estava em choque, e rapidamente aplicaram um torniquete e injetaram morfina para aliviar a dor.

Depois de um ano na brigada de artilharia russa em Rostov, Donetsk e Soledar, García recebeu uma medalha e um certificado em homenagem ao seu serviço. / La Tijera

O segundo ferimento ocorreu quando "uma bomba atingiu um prédio perto de mim. Ainda consigo ouvir o estrondo. Alguns fragmentos de metal da explosão atingiram meu braço esquerdo e ambas as pernas, e um cheiro tóxico saiu".

Após um ano na brigada de artilharia russa em Rostov, Donetsk e Soledar, o cubano recebeu uma medalha e um certificado em homenagem aos seus serviços. Ele também recebeu dois meses de licença em outubro de 2024. Foi esse o momento que ele aproveitou para escapar. Ele contatou um traficante que, por 1 milhão de rublos (12.715 dólares), garantiu que o levaria "em segurança para a Grécia".

García contava com o dinheiro que recebera por seus serviços, já que não tinha permissão para enviá-lo para a ilha. Sua viagem ocorreu em aeroportos, entre voos por seis países, da Bielorrússia ao Azerbaijão, depois aos Emirados Árabes Unidos e ao Egito, antes de finalmente chegar a Atenas, disse ele ao Daily Mail.

"Passei por tantas dificuldades e ninguém me ajuda. Durmo nas ruas e luto para sobreviver. Gostaria de poder voltar à minha vida simples em Cuba, mas não posso", lamenta.

Nota do Tradutor:

Anverso da Medalha Pela Coragem.

A medalha que o mercenário cubano recebeu é a Medalha "Pela Coragem" (em russo: Медаль «За отвагу»; romanizado: Medal' «Za otvagu»). Esta medalha foi criada na época da União Soviética, em 1938, e recriada pela Federação Russa em 1994. Ela é concedida por coragem demonstrada em combate.

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Milicianas cubanas com submetralhadoras tchecas

Plaza de la Revolución em Havana, Cuba, maio de 1963.
(Alberto Korda)

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 27 de abril de 2022.

Fotos de milicianas cubanas tiradas por Alberto Korda. Elas usam boinas e uniformes azuis claros e escuros, e portam as submetralhadoras tchecas Sa 23, que eram de dotação padrão da nova milícia cubana.

O modelo CZ 25 (Sa 25 ou Sa vz. 48b/samopal vz. 48b - samopal vzor 48 výsadkový, "modelo de submetralhadora paraquedista ano 1948") foi talvez o modelo mais conhecido de uma série de submetralhadoras projetadas pela Tchecoslováquia, introduzidas em 1948. Havia quatro submetralhadoras geralmente muito semelhantes nesta série: as Sa 23, Sa 24, Sa 25 e Sa 26. O projetista principal foi Jaroslav Holeček (15 de setembro de 1923 a 12 de outubro de 1997), engenheiro-chefe da fábrica de armas Česká zbrojovka Uherský Brod.

A Sa 23-26 tinha um ferrolho telescópico e foi a base para o projeto da submetralhadora Uzi israelense. Sua emissão foi ampla na milícia e as metralletas foram uma visão comum durante a Batalha da Praia Girón na Baía dos Porcos, em 1961.

"La Miliciana",
foto de Alberto Korda da cubana Idolka Sánchez, 1962
.

Samopal 25 de perfil.

Milicianas cuidando da aparência, 1962.

Capa do manual dos milicianos cubanos
após o recebimento dos fuzis Kalashnikov.

Alberto Korda

Alberto Díaz Gutiérrez, mais conhecido como Alberto Korda ou simplesmente Korda (14 de setembro de 1928 – 25 de maio de 2001), foi um fotógrafo cubano, lembrado por sua famosa imagem Guerrillero Heroico do revolucionário marxista argentino Che Guevara. A imagem tornou-se um símbolo da esquerda socialismo mundialmente e é famosa por estampar camisetas.

Guerrillero Heroico.
O famoso retrato de Che Guevara tirado por Alberto Korda em 1960.

Bibliografia recomendada:

The Bay of Pigs:
Cuba 1961.
Alejandro de Quesada e Stephen Walsh.

Leitura recomendada:


FOTO: Mulheres cubanas em Angola29 de março de 2022.

FOTO: Vespa cubana, 13 de janeiro de 2022.

FOTO: Guardando o Campo de Batalha8 de setembro de 2021.

sábado, 23 de abril de 2022

Museu da Baía dos Porcos: Playa Girón, Cuba


Por Rob KrottSmall Arms Review, 19 de junho de 2015.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 23 de abril de 2022.

“Não, não, los mercenarios eram Yanquis... não cubanos!” Esta foi apenas uma das pequenas propagandas que ouvi na minha primeira visita a Cuba. Comigo (e compartilhando minha incredulidade com tais declarações) estava meu velho amigo Jerry Lee, um paraquedista e reservista da polícia militar. “The Guner”, como é conhecido, trabalha na indústria automobilística e atua como DJ de rádio rock n’ roll. Um usinador talentoso, ele construiu legalmente sua própria metralhadora Browning 1919 e pode ser contado para solucionar qualquer problema mecânico de armas de Classe III.

Morte aos imperialistas Yanquis!

Prisioneiros da Brigada 2506 guardados por fidelistas cubanos.
O homem à direita tem um FN FAL.

Depois de ler nossa história, incluindo o exemplar de Jerry do livro The Bay of Pigs: the Leaders’ Story of Brigade 2506, de Haynes Johnson, queríamos ver o local do desembarque em primeira mão. Deslizando ao motorista e ao guia turístico US$ 10 cada, ficamos felizes em deixar os outros turistas para trás. Enquanto nadavam na Playa Larga, que fica na cabeceira da Bahia de Cochinos, a Baía dos Porcos, demos um mergulho na história da Guerra Fria. Ficava a vinte minutos de carro da Bahia de Cochinos, conhecida pela maioria dos cubanos como Playa Girón, em homenagem a Gilbert Giron, um pirata francês que desembarcou lá no século XVII. Contornamos o Parque Nacional de la Cienega de Zapata (Zapata Marshlands Park), uma região selvagem praticamente intocada que abriga 80% da fauna de Cuba, incluindo um grande número de crocodilos. Playa Larga fica na cabeceira da Baía dos Porcos. Foi aqui que uma força de exilados cubanos apoiada pela CIA, a Brigada 2506, invadiu Cuba em 17 de abril de 1961. Negado apoio aéreo suficiente pelo presidente Kennedy, a invasão falhou. A maioria dos homens da Brigada 2506 foram mortos ou capturados. Muitos foram posteriormente executados. Alguns tentaram atravessar os pântanos de água salgada infestados de crocodilos da Cienega de Zapata e morreram. Após a invasão, uma tentativa subsequente dos soviéticos de instalar mísseis balísticos de médio alcance com capacidade nuclear em Cuba provocou a Crise dos Mísseis Cubanos de 1962.

O governo construiu um museu, o Museo de Girón, para comemorar a vitória cubana sobre os imperialistas americanos e seus “mercenários” cubanos. Os exilados cubanos da Brigada 2506 são identificados nas exposições do museu como pertencentes à “Organizacion de la Brigada de Asalto 2506 (mercenaria)”. Ao longo da estrada a caminho de Playa Girón há um outdoor de propaganda comemorando a invasão da Baía dos Porcos. “Playa Girón, primera gran derrota del imperialismo en America Latina” (Praia Girón, a primeira grande derrota do imperialismo na América Latina). Uma inserção mostra uma cena famosa de Castro pulando de sua peça de assalto autopropulsada soviética - um motivo popular na área. Estacionado em frente ao museu está um avião de combate britânico Sea Fury usado pela força aérea de Castro para atacar a força de invasão de exilados cubanos na praia durante a Baía dos Porcos. Eles também deram o inferno aos B-26 destinados a apoiar a invasão.

Fidel Castro comandando a batalha do seu SU-100.

Fidel Castro descendo de um T-34/85 dutante a batalha.

Passando pelos Sea Furry e uma bandeira cubana tremulando na brisa, compramos um ingresso e entramos. Visitamos o museu junto com um grupo de estudantes cubanos usando lenços vermelhos dos Jovens Pioneiros do Partido Comunista. Mais de um puxou a manga de um colega de escola e sussurrou “Yanquis” ou “Imperialistas”. Aqui, longe das armadilhas turísticas da praia de Varadero e Vedado (Havana), os cubanos levam muito a sério sua história política.

Fotografias dos soldados cubanos (na verdade, milicianos locais) mortos nos combates dominaram as exposições, ocupando uma parede inteira. As vitrines estavam cheias de muitos de seus pertences pessoais; uniformes, armas de porte, boinas e insígnias. Armas capturadas na invasão e usadas pelas forças cubanas, juntamente com vários itens de equipamento de campanha, encheram o resto do museu. Então, como aficionados por armas portáteis que colecionam uniformes e militaria, estávamos no céu. Jerry teve o prazer de confirmar em uma exibição que os cubanos da Brigada 2506 usavam uniformes de camuflagem de 13 botões de estrelas do USMC da década de 1950, enquanto eu cobiçava uma autêntica insígnia 2506 (uma bandeira cubana sobreposta a uma cruz branca) com aba. Estudando as fotos de milicianos recebendo armas ainda cobertas de graxa de embalagem, Jerry e eu determinamos que as Milicias, Nacionales Revolucionarias estavam armadas com uma miscelânea de fuzis M-1 Garand Beretta, Springfield 1903, Krag 1896 (o #31640 está em exibição no museu), os primeiros fuzis FN FAL 7,62mm e até uma pistola automática Remington .45. Os pilares eram fuzis tchecos Modelo 52 7,62mm, submetralhadoras soviéticas PPSh-41 e submetralhadoras tchecas Modelo 23 de 9mm - todos "comprados" às pressas pelo governo de Castro do Pacto de Varsóvia e emitidos às pressas para os milicianos, em sua maioria não treinados, da milícia cubana. Embora não fosse a melhor escolha de armas leves de combate disponíveis na época, elas eram adequadas para uso por camponeses analfabetos. O PPSh-41 é um projeto simples e ainda mais simples de operar, enquanto o Modelo 52 e o modelo 23 são projeto excelentes. A submetralhadora Modelo 23 compartilha muitos recursos únicos de projeto com a Uzi. Com sua seqüência de montagem/desmontagem extremamente simples, poderia ser entregue a milicianos não treinados com apenas um breve período de orientação e instrução. Uma submetralhadora de 9mm também não requer muito em termos de treinamento de pontaria!

Insígnia da Brigada Asalto 2506.

Semelhante ao MKb42(W) alemão, o modelo 52 tcheco (7,62mm tcheco) - os tchecos copiaram o sistema de gás exclusivo do MKb42 projetado por Walther - é semiautomático e, portanto, não é um verdadeiro fuzil de assalto. No entanto, com seu carregador de cofre destacável de 10 tiros e calibre pesado, era um páreo para os soldados da Brigada 2506 equipados com carabinas M-1 de calibre .30 e M1 Garands M-1 de 8 tiros.

É claro que também havia uma série de carabinas M-2, fuzis M-1 e pistolas automáticas Colt .45, cortesia do Exército dos EUA através do arsenal de Fulgencio Batista em uso pelos milicianos cubanos. As pistolas Colt 1911 .45 ACP foram usadas extensivamente em ambos os lados da revolução cubana e foram muito admiradas e cobiçadas. Castro é conhecido por ter carregado uma .45 durante a revolução (junto com um fuzil de caça Modelo 70 Winchester) e supostamente tinha a mesma peça com ele na Baía dos Porcos. Uma foto tirada por Lester Cole em Havana alguns dias após a derrubada triunfante do regime de Batista por Castro mostra Castro usando uma M1911 .45. As pistolas robustas e confiáveis continuaram a ser usadas por muitos soldados cubanos até que a distribuição generalizada de armas soviéticas começou. Vários dos M1911 que eu vi em coleções de museus cubanos ostentavam punhos personalizados e eram bem conservados - não é um trabalho fácil nos trópicos.

Milicianos com uma miscelânea de armamentos celebrando a vitória.

Milicianos e regulares posando com um barco capturado dos brigadistas.

Mas, os exilados invasores estavam armados com mais do que carabinas e pistolas. Como a tarefa da Brigada era garantir uma cabeça de praia e avançar para o interior, eventualmente dirigindo para Havana (como isso foi previsto, dadas as estradas ruins e a distância até a costa norte ainda me intriga), os pelotões de petrechos pesados estavam todos equipados. Armas pesadas capturadas na invasão e agora em exibição incluíam um morteiro M-30 4,2 “Four Deuce”, um canhão sem recuo de 75mm para trabalho antitanque e uma metralhadora Browning calibre .30. Uma pesada arma automática usada pela milícia cubana, uma metralhadora tcheca modelo 37 (ZB53) de 7,92 mm - precursora da metralhadora de tanque Besa de fabricação britânica - me causou problemas com uma das matronas do museu quando destravei a alça do cano de troca rápida/mecanismo de trancamento do cano. “Just czeching”, eu disse a ela.

Não é à toa que o Modelo 37 foi usado pelas forças de Castro na praia da Baía dos Porcos, pois o Modelo 37 foi fabricado em grande número expressamente para exportação. O ZB-37, também conhecido como Modelo 53 (ZB-53), tem uma cadência de tiro lenta (500 rpm) ou mais rápida (700 rpm), dependendo do seletor. Com uma alimentação à direita de 100 ou 200 tiros em correias metálicas, esta metralhadora pesada de 7,92mm provou ser um cavalo de batalha confiável em teatros de combate em todo o mundo. Também em exibição estava uma arma antiaérea de quatro canos (que acredito ser um ZSU-23-4 de modelo inicial) - teria sido um verdadeiro terror no papel de apoio terrestre se fosse usado para varrer a praia. Também pode ter contribuído para a derrubada dos B-26 perdidos durante a invasão, embora isso seja apenas especulação. Os zeladores do museu foram muito prestativos e surpresos ao ver a quantidade de tempo e atenção que demos às exposições. Eu não acho que eles tenham muitos veteranos militares americanos aqui.

Canhão anti-aéreo das FAR na Baía dos Porcos.

No caminho de volta para Varadero, paramos na Austrália, uma cidade batizada com o nome da empresa-mãe de sua usina de açúcar. Saltamos da minivan e começamos a procurar o antigo posto de comando de Castro durante a Baía dos Porcos. Sabíamos que era aqui na Austrália pelos livros de história e porque havia um outdoor ao lado da estrada anunciando isso. “Aqui esta comandancia de las FAR” (FAR: Fuerzas Armadas Revolucionarias - Forças Armadas Revolucionárias). Encontrar o prédio real usado como posto de comando de Fidel exigiu um pouco de perambulação, embora estivesse a apenas um quarteirão da placa. Todos, exceto nosso guia turístico, sabiam onde tinha estado. Lá encontramos uma pequena coleção de fuzis antigos, incluindo dois Winchesters e um Remington Rolling Block. Ambos provavelmente foram usados na Guerra Hispano-Americana.

Gostei muito da minha primeira visita a Playa Giron. Além de visitar o museu e caminhar pela praia, havia uma emoção inerente só de estar lá - no país que é o último, mais próximo e desafiador inimigo da Guerra Fria dos Estados Unidos da América.


Rob fez 3 visitas subsequentes ao Museu Playa Giron. Para leitura adicional sobre a Baía dos Porcos, consulte: The Bay of Pigs; the Leaders Story of Brigade 2506, Haynes Johnson, et al W.W. Norton Co. 1964, 1ª edição.

Este artigo apareceu pela primeira vez na revista Small Arms Review V3N7 (abril de 2000) e foi publicado online em 19 de junho de 2015.

Fotos do Museu

Outdoor de propaganda na Baía dos Porcos: "Playa Girón, a primeira grande derrota do imperialismo na América Latina". A inserção no "O" mostra uma famosa cena de Castro pulando da torre de um T-34/85.

O autor Rob Krott sentado em um antigo bunker e olhando para Playa Largo ao sul da Baía dos Porcos.

Material capturado dos brigadistas, incluindo uma submetralhadora M3 Grease Gun, um camuflado e uma insígnia.

Fuzil FAL com guarda-mão e coronha de madeira e submetralhadora SA 23 tcheca.

Cartão Postal de Cuba: "METRALLETAS", Ciudad Libertad 1960, La Habana, Cuba.

Browning .30 recuperada após o fracasso da invasão.

Exilados cubanos camuflados da Brigada 2506 são levados ao cativeiro ou à execução. Observe os fuzis FN FAL brandidos pelos milicianos.

As armas pesadas dominam o centro do salão do museu.

Pintura a óleo retratando a famosa cena de Castro pulando de um tanque T-34/85. Esta pintura está pendurada no Museu da Revolução em Havana.

terça-feira, 29 de março de 2022

FOTO: Mulheres cubanas em Angola

Tenente Milagros Katrina Soto (centro) e outras integrantes do Regimento Feminino de Artilharia Anti-Aérea do exército cubano em Angola.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 29 de março de 2022.

As Forças Armadas Revolucionárias cubanas (Fuerzas Armadas Revolucionarias, FAR) foram moldadas seguindo o sistema soviético, com a criação de formações em estilo soviético. Uma das bases ideológicas do socialismo era o engajamento das mulheres na revolução. As publicações socialistas sempre pavonearam a participação feminina como uma bandeira, a própria Revolução Russa iniciou com uma greve de operárias. Os vietnamitas sempre enfatizaram o serviço das mulheres no esforço de guerra, gerando uma disputa com os franceses no campo da propaganda; o General Giap dedica um capítulo inteiro para o engajamento feminino em seu livro sobre a guerra subversiva, e faz o mesmo o francês Bernard Fall no seu relato da Guerra da Indochina. O mesmo ocorreu na Argélia, apesar das liberdades e narrativas pró-feministas recuarem após a guerra de volta aos padrões muçulmanos. Nada mais natural que as mulheres cubanas tomassem parte na cruzada internacionalista em Angola.

Durante a Guerra Fria, Havana se dedicou a "exportador a revolução", atuando da América do Sul ao Vietnã. Esta função expedicionária era chamada de "internacionalização", ou seja, a internacionalização da revolução socialista global. Nos anos 1980, o desdobramento cubano em Angola atingiu um pico de 50 mil militares e 8 mil civis auxiliando o governo comunista angolano do MPLA (ao lado dos conselheiros soviéticos); intervenção chamada Operação Carlota.

Na década de 80, os cubanos mantiveram missões militares na Argélia, Gana, Guiné-Bissau (ex-Guiné Portuguesa), Somália, Líbia, Tanzânia, Zâmbia, Síria e Afeganistão; além de contingentes militares consideráveis em Angola, conforme já citado, Congo (500 soldados), Etiópia (4 mil soldados, 1978-1984), Moçambique (600 soldados), Iêmen do Sul (500 soldados) e Nicarágua (500 soldados e 3 mil funcionários civis). Os cubanos também enviaram militares para a Síria em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, e uma equipe de 30 oficiais e engenheiros, munidos de 10 escavadeiras para fortificar a linha Ho Chi Minh no Vietnã e Camboja nos anos 1970. Conselheiros cubanos também ordenaram a tomada de Kolwezi pelos guerrilheiros Tigres em 1978. 

Organização das FAR

As FAR eram consideráveis, sendo a maior força latino-americana depois do Brasil. Isso se deveu à doutrina soviética de forças militares em massa divididas em funções de defesa, expedicionária e de controle interno; essa militarização maciça era alienígena à cultura cubana pré-revolução, e específica do novo sistema. Em 1990, o Exército cubano era assim composto:
  • 3 divisões blindadas,
  • 3 divisões mecanizadas,
  • 13 divisões de infantaria.
Exército Ocidental formava um corpo nas províncias de Pinar del Rio e Havana, o Exército Central formava um outro corpo em Matanzas e Las Villas e o Exército Oriental formava dois corpos em Camagüey e Oriente; a Isla de la Juventud (ex-Isla de Pinos) contava com uma divisão de infantaria.

Cada corpo continha 3 divisões, cada uma com três regimentos (2x batalhões), regimento de artilharia, batalhão de reconhecimento e unidades de serviço. Cada quartel-general do exército possuía uma divisão blindada e uma divisão mecanizada.

Divisão Blindada
  • 3 regimentos de tanques,
  • 1 regimento mecanizado,
  • 1 regimento de artilharia.
Divisão Mecanizada
  • 3 regimentos mecanizados (2x batalhões),
  • 1 regimento de tanques (3x batalhões),
  • 1 regimento de artilharia,
  • 1 regimento de reconhecimento mecanizado.
O exército ainda possuía robusta defesa anti-aérea com 26 regimentos AAe e brigadas de mísseis terra-ar, 8 regimentos de infantaria independentes, uma Brigada de Forças Especiais (2x batalhões) e uma Brigada Paraquedista. A Marinha tinha 12 mil homens, com um batalhão de fuzileiros navais com uniformes pretos copiados dos soviéticos; uma Força Aérea de 18.500 homens; tropas de segurança interna (estilo KGB) com 17 mil homens; 3.500 guardas de fronteira; e, em reserva, 1.200.000 homens e mulheres na Milícia Revolucionária, 100 mil na Juventude Trabalhista e 50 mil na Defesa Civil.

"O longo período de serviço militar (3 anos); forças armadas bem treinadas e eficientes; extensa experiência de combate na África e na Ásia; e uma força de reserva vigorosa, fazem de Cuba a maior potência militar do Caribe depois dos Estados Unidos."
- Caballero Jurado & Nigel Thomas, Central American Wars 1959-89, 1990, pg. 7.

Bibliografia recomendada:

Bush Wars: Africa 1960-2010.

Batalha Histórica de Quifangondo.

Operación Carlota: Pasajes de una epopeya.

Leitura recomendada:

FOTO: Vespa cubana, 13 de janeiro de 2022.

FOTO: Guardando o Campo de Batalha, 8 de setembro de 2021.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

FOTO: Vespa cubana

Integrante das Vespas Negras participa de ensaio para o desfile comemorativo dos 50 anos da vitória de Cuba na Invasão da Baía dos Porcos, Havana, 2011.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 13 de janeiro de 2022.

A militar das Vespas Negras (Avispas Negras), unidade de forças especiais do exército cubano, durante o ensaio para o desfile comemorativo dos 50 anos da vitória de Cuba na Invasão da Baía dos Porcos, em Havana, 2011. Ela está armada com o fuzil AKMSB 7,62x39mm dotado de uma mira de ponto vermelho VILMA (Visor Lumínico para Matar Agresores) e um silenciador.

A mira VILMA é de origem cubana e também está em uso na Venezuela, fornecida aos fuzileiros navais da FANB.

A boina vermelha tem a insígnia das Vespas Negras. Essa força especial das Forças Armadas Revolucionárias Cubanas (FAR) foi criada oficialmente no final da década de 1980. As Vespas Negras trabalham em subgrupos constituídos por 5 membros, que podem ser homens ou mulheres.

A vestimenta oficial consistia em um macacão camuflado, com boina vermelha, o qual a partir de 2011 passou a ser a boina verde-musgo, ficando a boina vermelha apenas para as Tropas de Prevenção (Polícia Militar) e o escudo de vespa preta com ferrão pronto para atacar, em uma insígnia de ombro. No caso de membros profissionais, um indicativo de "Profissional" é adicionado à insígnia.


Suas bases principais estão no antigo presídio militar "El Pitirre", localizado no Km 8 da Rodovia Nacional, e na unidade "Praia de Baracoa", próximo à área do porto de El Mariel, atual província de Havana, e com unidades menores em "El Bosque de la Habana", fica o Departamento de Tropas Especiais do MINFAR e o "Clube El Reloj", este último próximo ao aeroporto Rancho Boyeros. Seu principal campo de treinamento se chama "El Cacho", na província de Pinar del Río, também chamada de "Academia Baraguá".

Seu treinamento é altamente rigoroso. Após a formatura, soldados e oficiais profissionais desta força realizam exercícios na Ciénaga de Zapata, ao sul da província de Matanzas, próximo à Baía dos Porcos, ou nos pântanos ao sul da Ilha de Pines, imensos pântanos localizados tanto a oeste de Cuba, sob estritas condições de sobrevivência. Ser aprovado nesses exercícios significa graduar-se.

As "Vespas Negras" receberam treinamento de vietnamitas, norte-coreanos, chineses, bem como VDV e Spetsnaz russos. Eles aprenderam a se comunicar e se mover silenciosamente por túneis estreitos. Essas tropas também são especialistas em técnicas de mascaramento, uso de ambientes de selva para montar armadilhas e várias artes marciais.

Existiam unidades de missões especiais anteriores que atuavam como parte do Ministério das Forças Armadas Revolucionárias (MINFAR), denominadas "Tigres" e "Leões" em Angola em 1977, quando o MINFAR decidiu ter forças especiais próprias. Antes disso contando com as tropas especiais do Ministério do Interior (MININT) na Batalha de Quifangondo, no norte de Angola, no final de 1975.

Leitura recomendada:

domingo, 12 de dezembro de 2021

FOTO: Soldados angolanos, soviéticos e cubanos em Cuito Cuanavale

Soldados angolanos, soviéticos e cubanos posam para uma fotografia perto de Cuito Cuanavale, em abril de 1988.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 12 de dezembro de 2021.

Ocorrida entre 14 de agosto de 1987 e 23 de março de 1988, a Batalha de Cuito Cuanavale foi a maior batalha ocorrida na África desde a Segunda Guerra Mundial.

A função dos conselheiros soviéticos era treinar e aconselhar as forças comunistas do MPLA, do treinamento básico, utilização dos equipamentos até o planejamento das operações. Eles estão vestindo o padrão de camuflagem cubano, usado pelos 50 mil cubanos em Angola e pelos soldados angolanos.

Bibliografia recomendada:

Bush Wars 1960-2010.

Leitura recomendada: