quinta-feira, 19 de setembro de 2019

CONSIDERAÇÕES SOBRE O CALIBRE 5,56 MM: As tropas americanas estão sob risco?



Por Seth R. Nadel, Guns Magazine, 2003.
Tradução Filipe do A. Monteiro, Setembro de 2019.

...as tropas querem uma munição que derrube o inimigo com um único tiro... a munição padrão atual de 5,56mm... está se mostrando lamentavelmente inadequada como uma paradora de homens...

Essas palavras, em um relatório desclassificado das tropas envolvidas na Operação Anaconda, provocaram uma reavaliação há muito esperada do cartucho de 5,56x45 mm - a munição de serviços dos EUA nos últimos 30 anos. Por várias razões, ressurgiram as mesmas questões e preocupações originalmente levantadas durante a era do Vietnã sobre o poder de parada de nossa munição atual. O livro Black Hawk Down (Falcão Negro em Perigo, 1999) contém várias referências ao fracasso da munição 5,56 mm em "derrubar" o inimigo no chão. Pesquisas adicionais revelam referências semelhantes do Panamá e Granada. Comparativamente, pouco uso foi feito de armas portáteis durante as operações da Tempestade no Deserto, e, portanto, existem poucos relatórios desse tipo em domínio público. Mas as operações atuais no Afeganistão estão produzindo uma nova lista dos mesmos velhos problemas.
Nossas tropas estão acertando tiros, em muitos casos, múltiplos tiros no centro da massa do tronco, mas os bandidos não estão caindo. Em uma situação de combate, poucas coisas são certas, mas a incapacidade de deter um adversário determinado com um tiro bem centrado quase certamente causará baixas americanas. Perdemos tropas no Afeganistão devido a esse fracasso? Ninguém ainda vai dizer.


INÍCIO CONTROVERSO
Os primeiros relatórios sobre a eficácia em combate do cartucho 5,56 mm surgiram de experiências no Vietnã no início dos anos 60. Pequenas quantidades do novo XM15 foram enviadas ao Vietnã para dotação dos conselheiros americanos. A resistência à adoção de uma munição de serviço de calibre .22 foi difícil de sustentar diante desses relatos iniciais. Edward C. Ezell, em seu livro The Great Rifle Controversy (A Grande Controvérsia do Fuzil, 1984, sem tradução e tratando do M-16), registra um relatório pós-ação:
“Em 16 de junho de 1962, um pelotão da 340 Companhia Ranger [sul-vietnamita]... entrou em contato com três vietcongues armados na selva densamente arborizada. A uma distância de aproximadamente 15 metros, um Ranger disparou um AR-15 em fogo automático, atingindo um vietcongue com três tiros na primeira rajada. Um tiro na cabeça a arrancou completamente. Outro no braço direito também o arrancou completamente. Um tiro o atingiu no lado direito, causando um buraco de cerca de cinco polegadas de diâmetro... pode-se presumir que qualquer um dos três ferimentos teria causado a morte.”
A experiência de combate subsequente descobriu que os M16 mais recentes - quando funcionavam - não causavam os grandes ferimentos traumáticas como nas versões iniciais. Isso causou uma perda de confiança na arma que foi exacerbada por problemas funcionais iniciais. Assim, quando as tropas tinham fuzis que funcionavam, a munição nem sempre parava o inimigo. Pesquisas descobriram o porquê.
O exato primeiro lote de XM15 enviado ao Vietnã para teste usou canos com um passo do raiamento de 1:14 polegadas. Posteriormente, a taxa do passo do raiamento foi alterada para 1:12 polegadas. Dois fatores motivaram essa mudança. O primeiro foram os estudos balísticos que mostraram que o passo do raiamento de 1:14 polegadas levou a uma estabilidade extremamente ruim das balas sob condições árticas. O outro fator motivador era muito mais poderoso e menos fundamentado no uso realista do fuzil em combate.

Acima: Soldado norte americano no campo de batalha da guerra do Vietnã com com sua "nova" arma. O M-16 dos lotes originais apresentou diversas falhas de confiabilidade, assim como sua munição.

MOTIVAÇÃO ERRADA?
Os instrutores de tiro ao alvo do exército e atiradores competitivos, freqüentemente as mesmas pessoas, sabiam que o novo fuzil era impreciso a longas distâncias porque as balas eram marginalmente estabilizadas pela lenta taxa do passo do raiamento de 1:14 polegadas. Eles se esforçaram para obter uma taxa mais rápida do passo do raiamento para melhorar a precisão.
Continuamos a cair na armadilha de permitir que atiradores de competição, cursos de tiro projetados no século XIX, tenham um impacto considerável em nossas armas e munições projetadas para o século XXI. A mudança para um passo de 1:12 polegadas tornou as balas de 55 grãos mais estáveis, mas também reduziu a letalidade da munição. Embora a taxa original do passo do raiamento tivesse permitido que a bala se tornasse instável e tombasse com o impacto, os novos canos super-estabilizaram a munição, de modo que as feridas mais pareciam punhaladas com um picador de gelo.
Deve-se admitir que "as histórias sobre a falha em parar" nem sempre podem ser tomadas pelo valor nominal sem a verificação pós-ação. Ao contrário do fuzil M-14 usado antes, todos os M-16 tinham capacidade para disparos totalmente automáticos. Freqüentemente, muitas histórias repetidas de tropas que despejavam um carregador inteiro em fogo automático no peito de um inimigo que se aproximava, frequentemente significavam que apenas alguns tiros marginais realmente atingiram o alvo. Independentemente, ocorreram incidentes suficientes de falha de parada documentados para deixar dúvidas sobre a eficácia do cartucho de 5,56 mm.

NOVAS DIREÇÕES
A era pós-Vietnã trouxe novas mudanças para o M-16. Nossos aliados da OTAN, tendo evitado o sudeste da Ásia, continuavam justificadamente temendo uma invasão soviética. A inteligência revelou que as forças do Pacto de Varsóvia estavam começando a adotar coletes à prova de balas. Ao buscar a padronização da OTAN do 5,56x45 mm, uma objeção era a falta percebida de capacidade de perfurante.
A munição belga SS-109 foi desenvolvida para combater essa fraqueza. Nos testes da OTAN concluídos em 1979, a munição SS-109 foi escolhida por responder à necessidade de penetração de blindagem, perfurando o capacete de aço americano a 500 metros. Mas o projétil de 62 grãos, mais longo e pesado, exigia uma taxa do passo do raiamento ainda mais rápida para se estabilizar.
Além da padronização da OTAN, outra justificativa para a adoção de um equivalente americano do SS-109 foi a necessidade de desenvolver e padronizar uma nova arma de apoio do grupo de combate. Experimentos com fuzis M-16 de cano pesado haviam provado a necessidade de uma arma muito mais robusta e alimentada por cinta de munição.
Para cumprir a função de apoio de GC, a nova metralhadora precisaria da capacidade de disparar munição perfurante, bem como uma nova munição traçante que possuísse um alcance de "esgotamento" mais longo do que a capacidade de 450 metros da munição traçante M196 de 55 grãos.
Os dados foram lançados para a adoção americana dessas novas cargas do cartucho 5,56 mm. Os equivalentes americanos do SS-109 desenvolvido na Europa, e munição traçante L-110  correspondente foram classificadas como do tipo M-855 e M-856, munições comuns M-855 podem ser identificadas por uma ponta de projétil envernizada em verde, e a M-856 por uma ponta envernizada em laranja.

ENTRA O M-16A2
Para simplificar a logística, a nova munição foi publicada. Isso exigiu mais uma mudança na taxa do passo do raiamento do M-16 para 1:7 polegadas. Agora temos uma munição muito estável e precisa que pode perfurar coletes à prova de balas. No entanto, a bala tem uma tendência lamentável a permanecer estável, mesmo depois de atingir um adversário, resultando em um pequeno canal de ferimento.

Acima: O M-16A2.
A pesquisa, facilitada pelo Dr. Martin Fackler, veterano do Laboratório de Ferimentos Balísticos do Exército, esclareceu os ferimentos das munições militares. Independentemente do calibre, os ferimentos funcionam da mesma maneira. Geralmente, todas as balas de fuzil encamisadas em metal danificam o corpo girando (chamado guinada) em seu longo eixo enquanto se movem pelo corpo.
O diâmetro, o peso, a velocidade e o giro induzido pelo raiamento no cano todos afetam (a que profundidade do tecido) quando a guinada começa. Descobriu-se que o 7,62x39mm guinava somente após penetração profunda, geralmente produzindo um orifício de calibre .30 ligeiramente curvado. A munição 7,62x51mm OTAN de 147 grãos, e a munição comum M193 5,56x45 de 55 grãos, ambas tombam, e depositam pequenas partículas ao longo do caminho da bala.
As mesmas munições de fabricantes diferentes se comportam de maneira diferente, principalmente o projétil sueco 7,62 mm OTAN. Essa munição tende a fragmentar-se mais violentamente, despedaçando-se em muitos fragmentos, o que causa um caminho de destruição muito mais amplo.
Infelizmente, a munição M855 5,56 mm super-estabilizada não tomba prontamente, e pode fazê-lo somente depois de sair do corpo, criando um orifício de entrada e saída calibre .22. A menos que esse orifício esteja em material quase sólido, como o baço ou o fígado, ou atinja o coração ou o sistema nervoso central, ele causa pouco dano.
É por isso que o antigo programa "SPIW" (Special Purpose Individual Weapon/ Arma Individual de Propósito Especial) abandonou a flechette (‘flecheta’, pequena flecha) como projétil. Esses projéteis de diâmetro muito pequeno, parecidos com dardos, eram tão estáveis que atravessavam os alvos, como descobrimos com a dotação limitada de cartuchos de espingarda flechette testados no Vietnã.

ABORDAGEM ALTERNATIVA
Em 1974, os soviéticos adotaram uma munição de serviço de pequeno diâmetro, o cartucho de 5,45x39 mm. Os engenheiros soviéticos evitaram a potencial perda de capacidade de ferimento deixando um espaço de ar no nariz do projétil 5,45 mm. No impacto, o núcleo de chumbo avança, altera o centro de gravidade e induz rapidamente à guinada. Portanto, eles têm uma munição que é estável em voo, mas instável após o impacto.
A eficácia do projeto é evidenciada pela experiência dos mujahideen afegãos, que durante o conflito com as forças soviéticas no início dos anos 80 apelidaram a munição 5,45 mm de "O Ferrão Venenoso.” Não introduzimos essa munição por motivos "humanitários."

Acima: Alguns propõem armar pelo menos alguns membros do GC com os fuzis M-14 dos estoques existentes, como esse M-14 DMR.


Acima: A arma belga de apoio do GC Minimi, adotada pelos EUA como M-249. A decisão de adotar uma arma de apoio de GC em 5,56 mm escreveu em pedra a adoção do cartucho SS-109 mais pesado de 62 grãos.


Acima: O AK74M 5,45x39 mm soviético viu serviço no Afeganistão a partir de 1979. O fuzil era admirado pelas tropas e respeitado pelos mujahideen.

EFICÁCIA SITUACIONAL
Outros fatores externos influenciam o "poder de parada" da atual munição de serviço americana. Na era pós-Vietnã, esperávamos enfrentar um exército da Europa Oriental. Essas forças opostas deveriam ser pessoas "civilizadas" como nossas próprias tropas. No entanto, o atual adversário é quase um animal completamente diferente do soldado americano.
Nossos inimigos na Somália e no Afeganistão são pessoas duras, acostumadas a trabalho físico duro. Eles não considerariam ficar sentado em frente a uma tela de computador como um trabalho. Quando eles viajam do ponto A ao ponto B, eles andam - geralmente descalços. Eles têm pouco para comer, não esperam atendimento médico e estão acostumados a sofrer. Assim, um ferimento que derruba as tropas ocidentais, pedindo medevac*, faz com que esses lutadores duros enfiem um pano sujo e continuem a luta. Eles também são fanáticos, lutando, e dispostos a morrer, por sua causa.
*Nota do Tradutor: Evacuação médica por aeronave.
O velho cálculo de batalha de que era melhor ferir um soldado do que matá-lo não é mais verdadeiro. Os exércitos precisam remover os feridos da batalha e tratar seus ferimentos. Isso remove tropas adicionais da batalha. Exércitos bem organizados têm uma cauda logística de médicos, padioleiros, helicópteros, cirurgiões, hospitais e todo o resto. Os terroristas não. Eles nem são exércitos nesse sentido.
Os feridos são deixados por conta própria, e considerados mártires se morrerem. Muitos buscam esse martírio, e então lutam até serem mortos. Exércitos mais organizados têm tropas que se rendem. Mesmo os nazistas, com sua disciplina de ferro, não podiam impedir que tropas e até exércitos inteiros se rendessem. Mas para um verdadeiro crente, lutando contra o que vê como uma santa cruzada, a causa nunca é perdida.
O ambiente em que lutamos também afeta a capacidade de ferir. No clima quente e úmido do Vietnã, onde o M-16 foi colocado em campo pela primeira vez, estava quente e o mínimo de vestimentas era a norma. Enquanto esse artigo é escrito, estamos nos aproximando do inverno nas montanhas altas do Afeganistão, o que tem dois efeitos, nenhum deles benéfico para deter um adversário com tiros únicos.
No tempo frio, todos se juntam. Eles podem não usar coletes à prova de balas, mas várias camadas de roupas pesadas e de baixa tecnologia que podem diminuir a velocidade e, em alguns casos, até parar balas. Particularmente nas distâncias mais longas, uma bala de 5,56 mm pode não ter velocidade suficiente para atravessar o corpo sob a roupa ou infligir um ferimento grave.

Acima: Da esquerda pra direita: 5,45x39 mm soviética, SS-109/M-855, projéteis SS-109 e M-193, M-193 comum.

O QUE DEVE SER FEITO?
Documentamos os motivos pelos quais a atual combinação de fuzil / cartucho dos EUA não possui a mesma alta capacidade de ferimento do primeiro XM-15 adotado. Então, o que deve ser feito sobre isso?
As possíveis soluções para esse problema assumem diferentes formas. Alguns defendem o retorno à munição 7,62x51 mm OTAN, que agora está disponível nos fuzis da série AR-10. Uma versão ampliada do M-16 (na verdade, o projeto original estava em 7,62 mm*). Todo o treinamento anterior seria transferido diretamente até o manuseio da arma. Outros querem um retorno ao M-14 de 7,62 mm, um fuzil de batalha em tamanho tradicional, muitos milhares dos quais permanecem em estoque. De fato, existem rumores de certas unidades de Operações Especiais seguindo um ou ambos os caminhos.
*Nota do Tradutor: Trata-se do AR-10.
Outro caminho seria adotar munição diferente, usando algum método que os russos fazem para induzir a guinada rapidamente, desestabilizando o impacto. Uma terceira opção seria adotar uma nova munição, mais leve e com menos recuo que a 7,62 OTAN, mas com um projétil de diâmetro maior e melhor balística de ferimento que a 5,56 mm. Uma variante de 6 mm da munição 5,56x45 mm existente foi investigada.
Haverá grande relutância em buscar qualquer uma dessas opções. Independentemente disso, nossos combatentes exigem - não, eles merecem - as melhores armas individuais possíveis. Parece que a atual munição padrão de serviço está aquém do esperado e, como resultado, nossas tropas estão em perigo. Agora é a hora de reexaminar esse problema e garantir que o nosso pessoal tenha a melhor munição e equipamento possíveis, se quisermos enviá-los para o perigo.




2 comentários:

  1. O calibre 6,86x46mm sempre me pareceu uma alternativa mais eficiente para o uso pelo soldado, isso se não houver o retorno do sempre eficiente 7,62x51 - que talvez nunca devesse ter saído...

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  2. Quem diria que os russos firam mais espertos que os americanos. Gostaria de ter uma arma em 5.45x39

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