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domingo, 16 de janeiro de 2022

Entre a autonomia estratégica e o poder limitado: o paradoxo francês


Por Lorris Beverelli, The Strategy Bridge, 25 de junho de 2019.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 15 de janeiro de 2022.

O governo francês muitas vezes gosta de enfatizar um conceito chamado “autonomia estratégica”. De fato, por mais de duas décadas, a França procurou e reivindicou ser uma potência internacional autônoma no mundo pós-Guerra Fria.[1] A grande dependência da energia nuclear como principal fonte de energia é uma ilustração dessa política: a França busca ser autossuficiente e não depender de recursos estrangeiros para abastecer o país. Essa afirmação de autonomia também é vista no âmbito militar. Dois dos principais documentos de política de defesa do governo francês, a Revisão Estratégica de Defesa e Segurança Nacional de 2017 e a atual Lei de Planejamento Militar (abrangendo o período 2019-2025), enfatizam a importância da autonomia estratégica.[2] No entanto, há um grande problema: o instrumento militar francês já não permite que o Estado seja completamente autônomo. Este artigo irá expor as principais deficiências da política de defesa francesa e seu instrumento militar de poder antes de oferecer algumas recomendações.

TRÊS QUESTÕES PRINCIPAIS


Orçamento de Defesa

O fim da Guerra Fria é o principal impulsionador dessa mudança no foco militar francês. Em 1997, o governo francês mudou o modelo de suas forças armadas do recrutamento obrigatório para um tipo exclusivamente voluntário, expedicionário.[3] Antes desta data, as Forças Armadas francesas tinham um componente maior encarregado da defesa da França continental, enquanto um componente menor, do tipo expedicionário, estava encarregado de realizar missões no exterior.[4] Após esta data, a França decidiu desenvolver uma força mais compacta porém melhor equipada, em que todas as unidades tenham capacidade para intervir no exterior.[5] A lógica era compensar a mudança de quantidade com qualidade, tanto no treinamento quanto no equipamento.[6] No entanto, na ausência de uma ameaça direta, e mesmo antes do fim da Guerra Fria, o governo reduziu gradualmente seu orçamento de defesa: entre 1982 e 2015, ele foi cortado quase pela metade.[7] Recentemente, o governo francês aumentou o orçamento de defesa para lidar melhor com as novas (e renovadas) ameaças regionais e globais. Com a implementação da última Lei de Planejamento Militar, os gastos com defesa devem atingir 2% do produto interno bruto (PIB) francês até 2025.[8]

Um soldado caminha entre veículos blindados franceses no Campo Militar de Mourmelon, no nordeste da França. (AFP)

Por causa dos repetidos cortes orçamentários, as forças restantes não receberam mais dinheiro e meios para realizar suas tarefas. Essa falta de recursos é problemática, pois os cortes orçamentários podem se traduzir em riscos estratégicos, operacionais e táticos. Por exemplo, a falta de recursos pode afetar a manutenção de equipamentos, e apenas cerca de metade dos sistemas de armas franceses não-desdobrados em operações estavam funcionais em 2015. Consequentemente, a qualidade do treinamento experimentado pelos militares franceses é necessariamente reduzida, o que pode afetar sua eficiência, segurança e moral.[9] Além disso, quando uma operação é planejada, os planejadores franceses devem restringir os meios que desejam usar com base em uma lógica orçamentária estrita.[10] Como resultado, os oficiais destacados são deixados para operar com recursos limitados.[11] Outra consequência é que os soldados franceses tendem a confiar mais no combate corpo-a-corpo para destruir o inimigo, em parte porque essas táticas são mais baratas do que confiar no poder de fogo.[12] As opções táticas são, portanto, raramente baseadas nas necessidades no terreno; em vez disso, elas são derivadas de restrições materiais.[13]

Números de tropas


As Forças Armadas francesas agora têm relativamente poucas tropas. Por exemplo, o exército francês passou de cerca de 350.000 soldados em 1984 para 200.000 em 1998.[14] Em 2017, tinha cerca de 114.500 soldados, embora tenha havido um ligeiro aumento de 2.000 soldados em relação a 2016.[15] Especificamente, a força de combate operacional do Exército é composta por apenas 77.000 soldados e, como outro exemplo, deve possuir apenas 225 tanques pesados até 2025.[16]

Esse número relativamente baixo de tropas e material constitui uma deficiência óbvia para um Estado com ambições globais, território e interesses para proteger na Europa, África, Oriente Médio e Ásia-Oceania.[17] Números baixos, combinados com cortes orçamentários duradouros, resultaram nas Forças Armadas francesas tornando-se uma força projetada para vencer guerras curtas e obter sucesso tático.[18] A França não tem o pessoal necessário para ser um ator decisivo em um grande conflito convencional, uma contradição direta com o sacrossanto princípio francês de autonomia estratégica. Em uma coalizão, a França provavelmente teria apenas efeito e influência estratégica limitados.[19] A França confia demais na dissuasão nuclear para garantir sua segurança e proteger seus interesses para enfrentar ameaças convencionais. Embora o poder nuclear seja absolutamente um elemento-chave de qualquer política de defesa para os Estados que podem pagar por ele, os conflitos ainda são muito mais propensos a envolver o envio de forças regulares do que depender exclusivamente de armas nucleares, se é que o fazem.

Foto aérea do Forte Madama, no Níger, em novembro de 2014.
(Thomas Goisque/Wikimedia)

A experiência recente deveria ter ensinado melhor a França: ela tem um alto nível de engajamento militar, com três grandes operações em andamento (Sentinelle em solo francês, Barkhane no Sahel e Chammal no Iraque e na Síria). 
Em 2016, esse envolvimento intenso e contínuo provou ser problemático, pois a França encerrou sua operação não-prioritária Sangaris na República Centro-Africana, porque a pressão sobre as Forças Armadas francesas era muito desgastante para sustentar.[20] Além disso, especialistas militares franceses apontaram regularmente que o nível de engajamento da França constitui uma enorme pressão sobre a força. Consequentemente, a falta de recursos e pessoal por parte dos franceses resultou em um impacto direto e estratégico em sua postura operacional recente.

Limitações estruturais do modelo militar francês


Outro problema, este de natureza estrutural, é o próprio modelo militar francês. O modelo atual – uma pequena força expedicionária profissional que pode ter que depender pelo menos parcialmente de parcerias com outros Estados – pode ser relevante para operações de ponte nas quais forças militares são usadas para estabilizar uma situação até que outras forças, tipicamente de uma organização internacional como as Nações Unidas, sejam capazes de assumir.[21] A própria Resenha Estratégica enfatiza a importância da cooperação e das parcerias.[22] Este modelo tem três limitações principais. Primeiro, é sempre difícil transformar o sucesso tático em efeito estratégico. Em segundo lugar, as forças internacionais não são necessariamente eficientes.[23] Terceiro, e mais importante, tal modelo não apóia o conceito francês de autonomia estratégica.

De fato, o modelo atual é excessivamente dependente de parcerias e fatores políticos não necessariamente nas mãos do governo francês. Tal conceito pode ser adequado para operações policiais onde os objetivos políticos são meramente deter um grupo armado não-estatal – como foi o caso da Serval – ou executar operações de baixa intensidade. No entanto, é improvável que este modelo consiga uma vitória decisiva contra uma força convencional. Por exemplo, a França confiou em uma organização regional africana, o G5 Sahel, para assumir o controle da área. No entanto, o G5 Sahel tem sido incapaz de realizar operações no terreno sozinho, e levou três anos para que uma força conjunta africana fosse criada.[24] Consequentemente, a França está presa no Sahel há quase cinco anos. A Operação Barkhane ainda pode mostrar algum sucesso, mas mesmo que alcance sucesso total, é inerentemente projetada para durar muito tempo e não tem uma estratégia de saída clara e direta além de delegar a missão a uma organização regional. Consequentemente, a estratégia de saída francesa depende de fatores políticos e materiais que a França não controla.

Além disso, tal estratégia pode ser impedida por outras questões, como a eficácia militar da força que está assumindo, ou os meios materiais, notadamente o financiamento, que essa organização possui. Tal estratégia de saída pode, no final, acabar sendo apenas uma estratégia e apenas um adiamento para encontrar uma solução real e duradoura para a situação.

Soldados franceses e malianos em 2016.
(Wikimedia)

RECOMENDAÇÕES DE POLÍTICA

Se o governo francês pretende tornar-se estrategicamente autônomo novamente, deve implementar um conjunto de medidas relativamente simples, mas necessárias.

Números

Primeiro, o governo francês deve aumentar o número de militares, principalmente em seu exército. Esse aumento é essencial para atingir o objetivo acalentado de autonomia estratégica, aliviar a pressão atual sobre as forças armadas, preparar-se para enfrentar ameaças convencionais e reforçar a dissuasão convencional.[25] É ainda mais importante porque as forças adversárias potenciais não só têm uma vantagem em quantidade, mas também cada vez mais uma vantagem qualitativa.[26] Consequentemente, a França não pode contar com treinamento e equipamentos superiores, e com a flexibilidade e criatividade de seus líderes militares, para compensar a falta de números.[27] Conflitos recentes demonstraram que os números e o poder de fogo ainda são relevantes.[28] Além disso, compensar números baixos pela tecnologia tem limitações.

De fato, trocar números por tecnologia é um conceito errôneo, que pode ser relevante no nível tático, mas não necessariamente nas esferas operacional e estratégica. A massa crítica continua importante. A enorme expansão dos espaços de combate modernos, que podem se estender por todo o planeta, conferem uma importância particular aos números. De fato, para cobrir eficientemente todos os espaços de engajamento e fazê-lo em tempo hábil, é essencial ter um número suficiente de soldados e material disponível.[29] Para um Estado como a França, com ambições globais e uma exigência teórica potencial de desdobrar forças simultaneamente em diferentes continentes, os números não devem ser um luxo. Os números devem ser um requisito.

Reserva

Reservistas do 3e RMAT em exercício de combate urbano.

Atualmente, as forças de reserva francesas não podem reforçar decisivamente o núcleo do Exército. De fato, conforme projetado atualmente, eles são construídos para reforçar unidades permanentes com indivíduos ou pequenos grupos. As reservas não podem ser usadas para formar brigadas inteiras ou mesmo batalhões equipados com material pesado, sendo os estoques atuais insuficientes para equipar totalmente todas as unidades ativas.[30] Reviver a reserva e devolver-lhe as verdadeiras capacidades deve ser uma das principais prioridades da liderança de defesa francesa. Essas medidas aliviariam a pressão sobre as forças armadas e constituiriam um verdadeiro mecanismo de reforço para apoiar as tropas desdobradas no exterior ou em território nacional. A França precisa agir de forma decisiva em relação à sua reserva para reforçar efetivamente suas capacidades de defesa, enfrentar ameaças estratégicas e responder a surpresas estratégicas.

Repensando o modelo militar francês

O atual modelo militar francês simplesmente não corresponde ao objetivo de autonomia estratégica ou ao alto nível de engajamento, tanto na teoria quanto na prática, das Forças Armadas francesas. Para garantir autonomia, maximizar a defesa do território francês e sua vizinhança e cumprir um alto nível de engajamento, a França poderia retornar ao seu modelo tradicional. Uma única força maior poderia ser dedicada à defesa do território francês e seus arredores imediatos contra ameaças convencionais, principalmente na Europa, com uma segunda força expedicionária, muito menor, especializada na defesa dos interesses e territórios franceses no exterior por meio de operações limitadas. Tal modelo desapareceu em grande parte por causa do fim da Guerra Fria. No entanto, um desafio real seria reproduzir tal modelo sem re-decretar o alistamento obrigatório, o que é muito provavelmente irreal tanto do ponto de vista político quanto fiscal. De qualquer forma, com o ressurgimento das ameaças convencionais, o restabelecimento do modelo militar tradicional francês, com soluções adaptadas para evitar o alistamento de conscrição, deve ser, no mínimo, considerado pela liderança política e pela nação francesa como um todo.

Alternativamente, um novo modelo poderia ser estabelecido. Por exemplo, a França poderia manter seu pequeno núcleo de tropas profissionais para realizar as principais tarefas de combate e constituir a ponta de lança da força em caso de conflito convencional e intervenções no exterior, enquanto uma reserva maior poderia realizar tarefas secundárias e ocupar terreno. Outra solução potencial poderia ser a adição gradual, mas frequente, de mais pessoal às forças armadas por meio de campanhas agressivas de recrutamento. Até o final de 2016, a França havia adicionado 11.000 soldados à força de combate operacional do Exército.[31] O governo francês poderia tentar aumentar o número das forças armadas com acréscimos semelhantes e mais frequentes. Também poderia permitir que as Forças Armadas francesas ganhassem mais poder de combate sem sobrecarregar excessivamente a infraestrutura militar atual e permitir que os militares absorvessem gradualmente os novos recrutas.

Orçamento de Defesa

Legionários da 2ª companhia do 3e REI (3º Regimento Estrangeiro de Infantaria) com o míssil AAe Mistral durante o lançamento do foguete Ariane 5 em Kourou, na Guiana Francesa, em 17 de novembro de 2016.

Embora a França tenha feito um esforço recente para interromper os cortes orçamentários e aumentar seus gastos com defesa, deve continuar aumentando o orçamento de defesa no futuro e garantir que atinja e mantenha pelo menos 2% do PIB. Além disso, se a OTAN considera que os Estados membros não fortemente envolvidos no exterior e que não possuem armas nucleares devem gastar 2% de seu PIB em defesa, parece razoável que a França precise gastar mais, considerando suas ambições globais e seu arsenal.[32]

CONCLUSÃO


Se a França realmente deseja permanecer um ator global, uma potência militar credível e estrategicamente autônoma, ela precisa empreender esforços consideráveis para melhorar a condição atual de suas forças armadas. A França fez progressos nesse sentido, mas ainda precisa fazer mais. Aumentar a massa das forças armadas e do orçamento de defesa, e repensar o papel da reserva e o modelo militar atual, são os elementos em que o governo francês deve se concentrar. Naturalmente, o Estado francês também pode ter que se concentrar em elementos econômicos e industriais ao mesmo tempo, pois o poder militar viável e sustentável necessariamente vem com uma economia e indústria fortes.

Se, por outro lado, a França finalmente chegar a um acordo com seu status de potência internacional média, melhorias limitadas podem ser suficientes. No entanto, nesse caso, a França teria que aceitar o fato de que, no caso de um grande conflito convencional, ela provavelmente teria um impacto estratégico limitado, que ela tem autonomia estratégica limitada e que ela não é mais uma potência internacional forte.

Sobre o autor:

Lorris Beverelli é um cidadão francês que possui um Master of Arts em Estudos de Segurança com uma concentração em Operações Militares pela Universidade de Georgetown. As opiniões expressas neste artigo são exclusivas do autor e não representam a política ou posições do governo francês ou das forças armadas.

Notas:
  1. Frédéric Mauro, “Strategic Autonomy under the Spotlight: The New Holy Grail of European Defence”, 2018/1, 4, PDF.
  2. República Francesa, “Defence and National Security Strategic Review”, 2017, §1.2., PDF; “LOI n° 2018-607 du 13 juillet 2018 relative à la programmation militaire pour les années 2019 à 2025 et portant diverses dispositions intéressant la défense (1)", Legifrance, acessado em 10 de junho de 2019, Artigo 65, §1.2.1., https://www.legifrance.gouv.fr/affichTexte.do?cidTexte=JORFTEXT000037192797&dateTexte=20190610.
  3. Rémy Hémez, “The French Army at a Crossroads”, Parâmetros 47, nº 1 (Primavera de 2017): 103.
  4. Michael Shurkin, “France’s War in Mali: Lessons for an Expeditionary Army”, RAND Corporation, 2014, 40, PDF.
  5. Ibid.
  6. Joseph Henrotin, “La défense française durant le prochain quinquennat: Quels défis?”, DSI, nº 128 (março-abril de 2017), 31.
  7. General Vincent Desportes, La dernière bataille de France: Lettre aux Français qui croient encore être défendus (Paris: Editions Gallimard, 2015), 1. Les lois de déprogrammation militaire ou le mensonge français – La baisse inexorable des moyens financiers, Kobo.
  8. “LOI n° 2018-607”, Artigo 2.
  9. Desportes, La dernière bataille, 1. Les lois de déprogrammation militaire ou le mensonge français – Des paradoxes qui mettent en danger nos soldats.
  10. Ibid.
  11. Shurkin, “France’s War”, 42.
  12. Ibid.
  13. Desportes, La dernière bataille, 1. Les lois de déprogrammation militaire ou le mensonge français – Des paradoxes qui mettent en danger nos soldats.
  14. Ibid., 1. Les lois de déprogrammation militaire ou le mensonge français.
  15. Ministério da Defesa francês, “Números-chave da Defesa de 2018”, 2018, 16, PDF.
  16. CES Lionel Guy, CDT Alexandre Montagna, “Un nouveau modèle pour l’Armée de Terre”, TIM, nº 276 (julho-agosto de 2016), 3.
  17. República Francesa, “Strategic Review”, §§166, 167, 168.
  18. Desportes, La dernière bataille, 1. Les lois de déprogrammation militaire ou le mensonge français – Des paradoxes qui mettent en danger nos soldats.
  19. Ibid., 9. A un pas du gouffre : plus de guerres, moins de moyens ? – Quelles conséquences stratégiques?
  20. Hémez, “The French Army”, 110.
  21. Ibid.
  22. República Francesa, “Strategic Review”, §5.2.
  23. Hémez, “The French Army”, 110.
  24. Centro Africano para Estudos Estratégicos, “A Review of Major Regional Security Efforts in the Sahel”, 4 de março de 2019, https://africacenter.org/spotlight/review-regional-security-efforts-sahel/.
  25. Hémez, “The French Army", 111.
  26. Henrotin, “La défense française”, 31.
  27. Rémy Hémez, Aline Leboeuf, “Retours sur Sangaris: Entre stabilisation et protection des civils”, Focus stratégique, nº 67 (abril de 2016), 30, PDF.
  28. Henrotin, “La défense française”, 34.
  29. Benoist Bihan, “Masse critique”, La plume et le sabre, 31 de março de 2013, http://www.laplumelesabre.com/2013/03/31/masse-critique/.
  30. Michel Goya, “La «descente en masse»”, DSI, nº 131 (setembro-outubro de 2017), 62.
  31. Hémez, “The French Army", 104.
  32. General Vincent Desportes, “Un désastre militaire”, Conflits, nº 13 (abril-maio-junho de 2017), 49.

      terça-feira, 11 de janeiro de 2022

      A Balada de Abu Hajaar

      "Qual o seu problema, Abu Hajaar?"

      Por Stijn Mitzer e Joost Oliemans, Oryx, 28 de abril de 2016.

      Tradução Filipe do A. Monteiro, 11 de janeiro de 2022.

      Um vídeo obtido por Jake Hanrahan e enviado pela VICE News em 27 de abril de 2016 mostra imagens espetaculares feitas pela câmera frontal de um combatente do Estado Islâmico enquanto ele e seus companheiros lutam para chegar às posições Peshmerga perto de Naweran, sob fogo inimigo pesado. O ataque, ocorrido ao norte de Mossul, mostra claramente o pânico e o caos que ocorrem no campo de batalha, uma imagem completamente diferente daquela apresentada nos vídeos de propaganda publicados pelo departamento de mídia do Estado Islâmico, que mostra quase exclusivamente pessoas bem treinadas e combatentes motivados do Estado Islâmico derrotando seus oponentes sem nenhum medo ou preocupação com sua própria segurança.

      Reportagem


      A filmagem oferece um raro vislumbre dos ataques que as forças Peshmerga vêm enfrentando desde a queda de Mossul para o EI, mas agora da perspectiva do Estado Islâmico. No entanto, este vídeo não oferece toda a história e, como esse ataque foi extremamente bem documentado tanto pelo Estado Islâmico quanto pelos Peshmerga, tentaremos analisar as filmagens e imagens divulgadas por ambas as partes e pintar uma imagem mais clara desse ataque. conduzido pelo Estado Islâmico.

      Embora a VICE News tenha sido informada erroneamente de que a filmagem foi feita em março de 2016, a ofensiva descrita na verdade ocorreu vários meses antes, em 16 de dezembro de 2015 para ser mais preciso. Mas antes de entrar em detalhes sobre a batalha em si, é importante entender o histórico de ofensivas semelhantes do Estado Islâmico envolvendo o uso de veículos blindados de combate (armoured fighting vehiclesAFV) que ocorrem em torno de Mossul. Sendo a maior cidade capturada pelo Estado Islâmico, Mossul serviu como capital de Ninawa Wilayat (sede do governo de Nínive).

      "Bom trabalho, mas você também nos torrou."

      Quando foi tomada pelo Estado Islâmico, Mossul estava superlotada de armas e veículos destinados ao uso do Exército e da Polícia iraquianos, que deixaram a maior parte de seus equipamentos para trás antes de fugirem da cidade. Enquanto grandes partes desse enorme arsenal foram rapidamente distribuídas pelas várias frentes nas quais o Estado Islâmico estava lutando, incluindo a Síria, alguns dos AFV que ficaram para trás formariam mais tarde o núcleo das primeiras formações blindadas do Estado Islâmico. Antes do estabelecimento dessas formações, o uso de AFV pelo Estado Islâmico no Iraque era desorganizado, e os tanques capturados eram frequentemente destruídos em vez de operados simplesmente porque não eram considerados úteis nos ataques relâmpagos realizados pelo Estado Islâmico no Iraque. Por exemplo, embora o Estado Islâmico capturasse vários tanques M1 Abrams dos EUA intactos, todos eles foram deliberadamente demolidos em vez de usados.

      Enquanto essas formações blindadas estavam sendo montadas, muitos dos veículos capturados foram enviados para oficinas em Mossul para conversão em plataformas de armas adaptadas às necessidades do Estado Islâmico. Vários desses veículos já haviam sido avistados antes da ofensiva, incluindo duas engenhocas baseadas no veículo blindado de recuperação BTS-5B (ARV), um veículo inútil para o Estado Islâmico. Os veículos usados nos ataques de dezembro às posições Peshmerga provavelmente vieram das mesmas oficinas, e sua blindagem DIY certamente tem o mesmo tom de improvisação visto nos AFV anteriores do Estado Islâmico.


      Embora os detalhes permaneçam obscuros, acredita-se que pelo menos três formações blindadas tenham sido montadas em Mossul, compreendendo a "Brigada Blindada Al-Farouq", que pode ser dividida em 1º, 2º, 3º e possivelmente mais batalhões, o "Batalhão Escudo", que tem a maioria de seus veículos pintados de preto, e o "Batalhão Tempestade". Além desses três, uma quarta formação chamada "Batalhão Suicida" também opera uma série de veículos com blindagem adicionada como dispositivos explosivos improvisados veiculados (vehicle-borne improvised explosive devicesVBIED). Mas, ao contrário dos ataques regulares dos VBIED tão frequentemente usados pelo Estado Islâmico, o "Batalhão Suicida" geralmente acompanha qualquer uma das três formações blindadas quando são enviadas para o campo de batalha. Os VBIED do "Batalhão Suicida" devem abrir caminho para as seguintes formações blindadas e podem ser vistos como a versão de apoio aéreo do Estado Islâmico. Durante este ataque, tanto o "Batalhão de Assalto" quanto o "Batalhão Suicida" participaram.

      Cada batalhão tem seu próprio selo. Por exemplo, o selo visto abaixo é usado pela 3ª Brigada Blindada al-Farouq. Lê-se: ولاية نينوى - الجند (?) لواء الفاروق المدرع الثالث - "Wilayat Ninawa - Soldados (?) - Brigada Blindada al-Farouq - 3ª"A segunda parte da Shahada: محمد رسول الله - "Maomé é o profeta de Alá" é vista à direita. Isso às vezes pode ser visto em veículos operados pelo Estado Islâmico e acredita-se que seja aplicado apenas para fins decorativos. Embora o selo seja geralmente aplicado em veículos na forma de um adesivo, às vezes é simplesmente pintado em veículos, como neste M1114 blindado (anteriormente) operado pelo "Batalhão de Assalto".


      Embora o Estado Islâmico tenha provado ser mais do que capaz de lidar com blindados na Síria, seu uso de veículos blindados de combate no Iraque deixa muito a desejar. No centro dessa falha em colocar adequadamente os AFV em campo estão as formações blindadas baseadas em Mossul, que aparentemente se sentem tão confortáveis sabendo que cada perda pode simplesmente ser substituída por apenas outro veículo originalmente capturado em Mossul quando a cidade foi invadida, que continua enviando seus AFV contra posições Peshmerga bem fortificadas com pouco efeito. O primeiro exemplo registrado de um ataque em grande escala ocorreu em janeiro de 2015 perto de Shekhan, quando vários AFV M1114, Badger ILAV, um M1117 ASV e DIY assumiram uma posição fortificada Peshmerga antes de serem destruídos. Essa perda não impediu o Estado Islâmico de tentar novamente, pois continuaria a enviar formações blindadas para a linha de frente, resultando no mesmo resultado todas as vezes. Como o Peshmerga mantém o terreno elevado e teve quase dois anos para fortalecer suas posições, é improvável que até mesmo ataques bem coordenados tenham sucesso aqui, especialmente depois que o Peshmerga recebeu mísseis guiados anti-carro (anti-tank guided missiles, ATGM) MILAN entregues pela Alemanha.

      Isso nos leva ao ataque retratado no vídeo divulgado pela VICE News, um da série que acabou resultando em grandes perdas para o Estado Islâmico (que sozinho teria incluído a morte de setenta combatentes) e literalmente nenhum ganho obtido. [1] Embora a ofensiva tenha resultado em fracasso, o Estado Islâmico publicou as fotos tiradas antes e durante a ofensiva. Ironicamente, essas imagens foram carregadas apenas depois que o canal de TV Kurdistan24 já havia mostrado as consequências da ofensiva fracassada, incluindo os restos ainda em chamas dos veículos do Estado Islâmico envolvidos. O relatório fotográfico divulgado pelo Estado Islâmico um dia depois mostraria exatamente esses mesmos veículos ainda em bom estado, poucas horas antes do ataque. Pondo de lado o momento ruim, a reportagem fotográfica nos dá uma ótima visão do desenvolvimento do ataque e até revela alguns dos nomes dos combatentes envolvidos.

      [1] ''Curdos iraquianos repelem grande ofensiva do ISIS'' link.

      A filmagem divulgada pela VICE News começa às 0:46, quando o cinegrafista (Abu Ridhwan) grava as palavras finais de um homem-bomba do "Batalhão Suicida" antes de tentar explodir seu veículo. Ele está acompanhado por dois combatentes mais jovens, que não foram vistos durante o ataque e provavelmente não participaram. Embora a presença de uma câmera insinue que este vídeo seria divulgado pelo departamento de mídia da Wilayat Ninawa se o ataque tivesse sido bem-sucedido, a presença de duas crianças ao lado do homem-bomba deixou uma impressão bastante estranha e provavelmente não teria feito o corte final.


      A próxima cena, a partir dos 1:11, mostra o homem-bomba em seu VBIED antes de acelerar para seu alvo. Em uma bizarra despedida de seus camaradas que não se costuma ver na propaganda do Estado Islâmico, ele diz suas últimas palavras a Abu Ridhwan e manda lembranças para sua mãe. Escondido sob a lona plástica está a carga de explosivos. Seu veículo blindado recebeu a série "502", que é uma prática comum com os VBIED do "Batalhão Suicida".

      "Não fiquem tristes por mim."

      "Envie meus cumprimentos à minha boa mãe."

      Acredita-se que o "Batalhão Suicida" utilizou um total de quatro VBIED durante esta ofensiva, outros dois dos quais podem ser vistos abaixo. A monstruosidade à esquerda está claramente marcada como um veículo do "Batalhão Suicida", carregando a série "1000". Este caminhão é muito bem blindado, com painéis grossos instalados na parte frontal e lateral do veículo para proteger suas rodas. Sua carga mortal, também coberta por uma lona plástica, pode ser vista na parte traseira do veículo, que foi "camuflada" pela adição de vários galhos de árvores. O VBIED pintado de preto à direita recebeu blindagem de ripas na frente do veículo, além de blindagem revestida em outros lugares. Quatro faróis foram montados um tanto desajeitadamente na primeira fila da armadura de ripas. De fato, apesar de atacar em plena luz do dia, quase todos os veículos podem ser vistos com faróis, provavelmente porque o movimento para a zona operacional acontece à noite. Uma escavadeira blindada pode ser vista atrás dos dois VBIED, que também apareceriam no ataque.


      Em seguida, aos 1:31, é a partida do M1114 blindado de Abu Ridhwan, que foi convertido para manter uma cabine blindada sobre seu corpo original. Esta cabine é grande o suficiente para acomodar três ocupantes, suas armas e munições e uma metralhadora montada em pino. Dois desses veículos convertidos participariam do ataque. Embora o outro veículo possua uma metralhadora pesada chinesa W85 de 12,7mm, o veículo de Abu Ridhwan não está equipado com uma metralhadora pesada, e tem que se virar com uma MG3 alemã de 7,62mm, operada por Abu Hajaar, vista à direita na imagem abaixo. O M1114 de Abu Ridhwan é tripulado por um total de cinco pessoas, incluindo: Khattab (motorista), Abu Hajaar (atirador da MG3), Abu Abdullah (atirador do RPG), Abu Ridhwan (comandante, recarregador e atirador RPK "al-Quds" de 7,62 mm) e Walid (atirador do AKM) ocupando o banco da frente.

      Como um painel blindado bloqueia nossa visão dos bancos dianteiros, os rostos de Khattab e Walid não são vistos ao longo do vídeo. Dos três combatentes do Estado Islâmico que ocupam a cabine blindada, apenas Abu Ridhwan parece ter algum tipo de experiência de combate. O desempenho de Abu Hajaar e Abu Abdullah é bastante inexpressivo e, em certo sentido, quase cômico.

      - Reze por nós.
      - Que Deus (Alá) te aceite.

      A nova cabine do M1114 foi bem protegida por sua blindagem de ripas e revestimento de metal adicional combinado com a blindagem original do veículo. Para permitir que a tripulação de cabine de três pessoas se sente durante a viagem para o campo de batalha, a cabine foi coberta com espuma e cintos de segurança foram instalados.



      O outro M1114 quase idêntico ao de Abu Ridhwan, mas armado com uma W85 chinesa de 12,7mm. Este veículo não está armado com blindagem de ripa, no entanto, e depende de sua armadura original e do revestimento de metal adicional um tanto peculiar. Um painel de acesso foi esculpido no revestimento de metal na frente do veículo, cuja finalidade é desconhecida.


      Às 1:43, a câmera GoPro de Abu Ridhwan registra alguns dos foguetes não-guiados que seriam disparados antes do ataque. A quantidade impressionante de 45 foguetes não-guiados de projeto nativo modelado após o onipresente foguete chinês de 107mm (embora com precisão e poder de destruição menos impressionantes) suplementado por pelo menos um único morteiro de 120mm seria usado para atingir posições Peshmerga.

      "Deus é grande, Deus é grande, Deus é grande."


      Os 1:52 começam com a marcha do Batalhão de Assalto para a zona de combate. É provável que todos os quatro VBIED já tenham chegado a seus alvos a essa altura, dos quais pelo menos dois foram destruídos antes de atingirem seus alvos. O veículo de Abu Ridhwan está circulado na segunda imagem abaixo.

      "Cuidado para não atirar em nossos irmãos [outros combatentes do Estado Islâmico]."


      Além dos dois M1114 convertidos, o "Batalhão de Assalto" usou vários outros veículos convertidos nesta batalha, incluindo outro M1114, um US M1117 ASV, um escavadeira blindado equipado com uma cúpula de metralhadora pesada, um gigante blindado com uma cabine blindada e uma cúpula de metralhadora pesada e várias técnicas com várias quantidades de blindagem DIY equipadas com uma variedade de armas diferentes.




      O batalhão inicialmente começa a receber fogo às 2:00, quando um tiro de RPG ricocheteia no chão na frente do outro M1114 blindado. Apenas alguns segundos depois, Abu Ridhwan, de forma otimista, começa a enfrentar os Peshmerga entrincheirados com sua metralhadora leve al-Quds de 7,62mm de longe. 
      Depois de esvaziar seu primeiro carregador (e tem dificuldade para encontrar um novo), Abu Hajaar começa a atacar o inimigo com sua MG3 de 7,62 mm. É aí que começam a surgir os primeiros problemas para a tripulação. Como os RPGs são projetados para serem operados com a mão direita, Abu Abdullah está do lado direito da cabine blindada, com Abu Hajaar à esquerda e Abu Ridhwan na parte de trás. Embora a MG3 de Abu Hajaar esvazia seus estojos de munição até o fundo, Abu Abdullah reclama de ter sido atingido por essas cápsulas quentes voando pela cabine. Ele tenta avisar Abu Hajaar desse efeito, que só pode ser interrompido se ele parar de disparar a MG3 ou o virar de lado, após o qual ele não pode mais mirar.

      "Onde está o meu carregador?"

      "Não, não, Abu Hajaar."

      À medida que o veículo está se aproximando das posições Peshermerga, Abu Ridhwan e Abu Hajaar começam a se posicionar no lado esquerdo. A MG3 de Abu Hajaar está apoiada em um fino pedaço de metal da frente da cabine, que devido ao bloqueio do bipé desdobrado dá pouco suporte à MG3. Sem surpresa, dado o mau suporte da arma e o mau manuseio de Abu Hajaar, sua MG3 cai do parapeito e começa a disparar no revestimento logo abaixo, fazendo com que as balas voem pela cabine. Abu Ridhwan e Abu Abdullah então começam a gritar "Abu Hajaar" novamente, que continua atirando enquanto isso.


      "Incline-se."

      É também quando recebemos o primeiro vislumbre do RPG-7 de Abu Abdullah, para o qual ele usou granadas anti-carro PG-7V de 85mm e granadas de fragmentação OG-7V de 40mm para uso contra pessoal. De fato, todos os ocupantes estão extremamente bem armados e equipados, carregando vários carregadores e recargas cada um. Além disso, muitos alimentos e água são armazenados no veículo.


      A próxima sequência aos 2:30 mostra o gigante blindado e o outro M1114 blindado que quase foi atingido apenas um minuto antes. Um atirador de RPG fica na cabine blindada do caminhão para mirar seu próximo tiro.


      É também quando Abu Abdullah acaba de disparar seu primeiro OG-7V e pede uma recarga, mas esquece de mencionar se ele quer um AP ou uma munição de fragmentação em seguida e então começa a olhar para as posições inimigas novamente. Abu Ridhwan pega aleatoriamente uma munição e a entrega a Abu Abdullah, que não percebe que uma munição está sendo entregue a ele, levando a mais frustração de Abu Ridhwan.

      "Um foguete, um foguete."

      "Os foguetes para [atirar contra] pessoas ou veículos blindados?"

      "Tome, Abu Abdullah."

      Abu Abdullah então comete o erro crucial de pedir a Abu Hajaar para cobri-lo enquanto recarrega, o que sem surpresa leva a outro fluxo de cápsulas quentes atingindo Abu Abdullah, que então explode de raiva com Abu Hajaar por não prestar atenção.

      "Cubra-me, Abu Hajaar."

      "Abu Hajaar!"

      "Cuidado!"

      "Os estojos das balas estão nos atingindo!"

      Sentindo o perigo iminente de Abu Abdullah disparando uma granada de RPG, Abu Ridhwan o avisa para tomar cuidado, seguido por uma instrução para mudar sua posição para não permitir que a contra-explosão voe para o pequeno compartimento. Embora ele mude de posição, o ajuste não é suficiente e a contra-explosão subsequente danifica a câmera de Abu Ridhwan.

      "Tome cuidado, Abu Abdullah."

      "Segure firme."


      "Bom trabalho, mas você também nos torrou."

      A próxima sequência mostra um dos outros M1114 blindados tendo sido atingido, desativado e incendiado, Abu Hajaar continua atirando em direção às posições inimigas e consegue atirar na cabine pela segunda vez.


      "Qual é o seu problema, Abu Hajaar?"

      Um Zavasta M70 especialmente modificado é então usado para disparar granadas de fuzil em direção às posições Peshermerga à medida que a tripulação se aproxima de sua posição entrincheirada. As duas primeiras granadas de fuzil são consideradas muito apertadas por Abu Abdullah, resultado de seu desenho grosseiro de bricolagem, e enquanto a terceira se encaixa mais facilmente, o fusível lento não acende. No final, Abu Ridhwan tenta acendê-lo novamente, mas parece duvidoso que a granada de fuzil tenha funcionado corretamente.


      "Em nome de Deus."

      No tema do dia 16 de dezembro claramente não sendo o dia de Abu Hajaar, ele quase é atingido pela granada de fuzil de Abu Ridhwan quando ele a dispara em direção aos Peshmerga.

      "O que você está fazendo, Abu Hajaar?"


      Abu Ridhwan e Abu Abdullah têm dificuldade em concordar sobre qual munição de RPG usar, com Abu Abdullah insistindo que precisa de uma munição de fragmentação. Abu Ridhwan então lhe dá uma munição AC, que ele tenta lançar com a tampa de segurança ainda colocada. Enquanto isso, o veículo parou de dirigir (possivelmente porque Khattab, o motorista, foi baleado), tornando-se um alvo fácil para as forças Peshmerga.

      "Abu Ridhwan, eu preciso de um foguete para [atirar contra] pessoas."

      "Retire a tampa de segurança do foguete."

      De fato, antes de ter a chance de disparar seu RPG, o veículo é atingido por (presumivelmente) um outro RPG, e se o motorista ainda estava vivo até este ponto, momentos depois ele certamente não está. Ao escapar do veículo pela retaguarda, uma quarta pessoa pode ser vista deitada no chão, provavelmente Walid, que estava sentado ao lado de Khattab. Abu Ridhwan continua atirando nos Peshmerga com sua metralhadora leve al-Quds, escondendo-se atrás do agora desativado M1114.


      "Me dê meu saco, onde está meu saco?"

      "Khattab [o motorista] morreu."


      Segue-se uma retirada desorganizada. Enquanto Abu Abdullah e Abu Hajaar atravessam os campos abertos rolando de lado pela terra para manterem um perfil baixo, Abu Ridhwan corre e é baleado depois de parar por um momento. Os quatro combatentes restantes tentam devolver o fogo por um tempo, e Abu Abdullah é visto correndo de volta para o M1114 enquanto atirava aleatoriamente em um último esforço suicida para fazer algo da situação. Abu Ridhwan e Abu Hajaar continuam recuando (desta vez adotando a rolagem lateral empregada por seus companheiros combatentes), mas são mortos mesmo assim.

      "Fui atingido."


      A filmagem feita pelo Kurdistan24 mostra as consequências do ataque, incluindo grande parte dos blindados destruídos depois de terem sido rebocados para mais perto das posições Peshmerga por uma escavadeira blindada. O primeiro é um dos VBIED, que foi desativado antes de poder detonar sua carga mortal.


      Mais interessante, porém, é o veículo estacionado atrás deste VBIED, já que este M1114 blindado era de fato o veículo de Abu Hajaar.





      Também visto novamente é a escavadeira blindado, que aparentemente ficou presa na vala que teria impedido os veículos do Estado Islâmico de chegarem às posições Peshmerga em primeiro lugar. A cabine blindada da escavadeira parece ter sido atingida, após o que o veículo ficou inoperante ou simplesmente abandonado por seus operadores.



      Embora não tenha sido visto durante o ataque em si, os restos de um Veículo Blindado de Segurança (Armoured Security VehicleASV) M1117 americano também podem ser vistos. Este veículo, armado com um único lança-granadas Mk.19 de 40mm e metralhadora pesada M2 Browning de 12,7mm, foi completamente destruído pelo fogo Peshmerga ou talvez por um ataque aéreo, rasgando a couraça e deixando pouco mais que uma carcaça para trás. Os restos de outro veículo não-identificado podem ser vistos pouco depois.




      Outro gigante baseado num caminhão usado durante o ataque (visível no vídeo da VICE aos 2:31) pode ser visto abaixo, carregando o número de série "201" e o selo do "Batalhão de Assalto". Observe as escadas montadas na lateral do veículo, provavelmente lá para escalar as trincheiras ou escalar posições Peshmerga fortificadas.





      No final, o ataque pinta uma imagem clara do resultado que qualquer ofensiva mal planejada contra um adversário entrincheirado alcançará. Nenhuma quantidade de monstruosidades DIY ou VBIED compensará essa desvantagem estratégica, e o tropeço e a cambalhota dos inexperientes combatentes do Estado Islâmico antes de sua morte inevitável deve ser um sinal claro de que essas táticas pouco farão.