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sexta-feira, 19 de junho de 2020

Djibuti: O que a Europa deve entender sobre a abordagem da China à expansão militar

Uma delegação militar chinesa marcha durante a celebração do desfile do Dia da Independência do Djibuti em 27 de junho de 2017. O desfile marcou o 40º aniversário da independência do Djibuti da França. (Kentucky National Guard Public Affairs Office/Flickr)

Por Yun SunEURACTIV, 2 de outubro de 2018.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 19 de junho de 2020.

[As opiniões expressas pelo autor não são necessariamente aquelas do tradutor ou do Warfare Blog, pertencendo apenas ao seu ator.]

A presença militar da China no Djibuti tem um impacto na paz e estabilidade na região, o que afeta diretamente os interesses dos países europeus na África, escreve Yun Sun.

A China abriu sua primeira base militar no exterior em Djibuti em 2017. Agora, depois de um ano de operação, muitos detalhes vieram à tona para fornecer uma melhor idéia do motivo de Pequim para a base e seus cálculos globais mais amplos previstos na instalação.

A mentalidade da China


Vários países europeus têm bases militares ou tropas baseadas no Djibuti. Os italianos operam uma base lá, enquanto tropas alemãs e espanholas são acomodadas pelos franceses. O que a Europa está descobrindo cada vez mais é a presença de militares chineses próximos dos seus.

Além disso, a presença militar da China na África terá mais impacto na paz e estabilidade, mudando a política local e o equilíbrio de poder, o que afeta diretamente os interesses de certos países europeus. Além disso, a expansão militar estrangeira da China acabará se manifestando na disputa entre a nova ordem mundial que a China defende e a ordem internacional liberal que a Europa tanto preza quanto deseja avançar.

A China sempre subestimou a importância de seu posto avançado, e diminuiu significativamente a capacidade e o objetivo da base. Antes da conclusão da construção, a China a chamou de “instalação de suprimento logístico no exterior”. Esse termo se transformou gradualmente, e agora os chineses a caracterizam como uma "base de suprimentos" - ainda assim, não um posto avançado "militar".

Posto de controle da marinha chinesa no Djibouti.

A mídia chinesa tem se esforçado para detalhar como a base não pode ser concebivelmente comparada às instalações britânicas e americanas, por exemplo, em termos de infraestrutura, equipamentos disponíveis e recursos na base. A razão pela qual Pequim evita intencionalmente o termo "base militar" é desviar a atenção, suspeita e ameaça. Mas, principalmente, atenção, embora sem sucesso. Pois a verdade inegável permanece - chame as coisas por seu devido nome - de que a base foi dominada, desenvolvida e usada pelas forças armadas chinesas.

Por causa de sua ideologia estatal de "não-interferência" em assuntos extra-soberanos e de desalinhamento, a China sempre teve problemas com seu desejo de uma presença militar no exterior. Ela buscou, portanto, a folha de figo da legitimidade dos mandatos do Conselho de Segurança das Nações Unidas para missões de manutenção da paz, as quais vêm com o consentimento do país anfitrião. E no caso do Djibuti, vemos como a China manipula isso para aumentar gradualmente as apostas.

Marinheira chinesa à bordo do Jinggangshan como parte de uma força-tarefa no Golfo de Áden, 2013.
(People's Daily Online/Chen Geng)

Em 2008, a China iniciou missões de escolta naval no Golfo de Áden, após uma série de resoluções do Conselho de Segurança da ONU autorizando os países a realizarem operações de combate à pirataria na área. No período de dez anos a partir de 2008, a China enviou 30 forças-tarefa de escolta naval para a região, a uma taxa constante de três por ano. As missões forneceram motivos para a China alegar que precisava de um centro logístico para fornecer apoio e suprimentos para suas forças na área. Entra, então, o Djibuti, com sua localização geográfica única. Tinha também a virtude de ser popular com outras forças militares estrangeiras que operam na área. (Nota: os chineses fizeram pedidos particulares para visitar seus vizinhos americanos, os quais foram rejeitados pelo Pentágono.)


O problema é que a história da China não se sustenta. A pirataria na costa da Somália caiu acentuadamente entre 2012 e 2017 - precisamente o período em que a China negociou e construiu sua “base de suprimentos” no Djibuti. Em outras palavras, embora a China tenha predicado sua necessidade de um centro logístico para o serviço de missões contra-pirataria autorizadas pela ONU, o desenvolvimento da base aconteceu quando a ameaça de pirataria estava em rápido declínio.

Após a abertura da base, a China vem consolidando seu controle e a capacidade da instalação. Isso está sendo alcançado em paralelo com o generoso financiamento chinês para um novo porto, zona de livre comércio e projetos ferroviários, de transporte de energia e de abastecimento de água. Em maio, as forças armadas chinesas reconheceram que estavam construindo um novo cais na base do Djibuti. O desenvolvimento da infraestrutura apóia a operação da base chinesa e também engaja o governo do Djibuti na órbita chinesa. O Djibuti está assumindo uma dívida pública equivalente a 88% do seu PIB, sendo a China a credora da maior parte. Com tanto débito devido à China, a capacidade do Djibuti de desafiar ou rejeitar as demandas chinesas é significativamente prejudicada.

Embora a China tenha retratado a base como orientada para a logística, suas próprias ações sugerem usos menos benignos. Dois meses após a sua abertura, a China iniciou treinamentos militares e exercícios de combate de fogo real no terreno para, nas palavras do PLA, “explorar o modelo de desdobramento militar no exterior e melhorar a capacidade das tropas chinesas de manobrar de maneira abrangente as armas e conduzir missões militares diversificadas”. Também expandiu o escopo de suas tropas ali estacionadas. Agora, eles devem fornecer "assistência humanitária" e "[contribuir] para a paz e a estabilidade da África".


Obviamente, não existe uma regra no direito internacional contra a China desenvolver bases militares no exterior, assim como não há razão para que a China deva ser julgada diferentemente de outras grandes potências com bases no Djibuti. No entanto, a maneira pela qual a China desenvolveu sua capacidade militar suscita suspeitas. Além disso, a China não pode provar e defender definitivamente sua suposta intenção benevolente. A abordagem da agenda oculta que a China adotou - usando mandatos da ONU e dívidas - para conseguir o que quer no Djibuti é preocupante. A jogada da China simplesmente desafia as regras do jogo.

De fato, a intenção é tudo na diplomacia. E as intenções da China em relação ao Djibuti são apenas o ponto de partida. O Djibuti é o capítulo de abertura para uma maior presença militar chinesa no exterior. Agora que a China reuniu a experiência, aprendeu as lições necessárias e adquiriu conhecimento suficiente, fontes de Pequim dizem que é apenas uma questão de tempo até que mais bases no exterior sejam construídas.


A expansão no exterior é uma ladeira escorregadia, e nunca é difícil para as grandes potências desenvolverem argumentos criativos (ou auto-denominados "legítimos") para obter mais. A Europa lembra muito bem como a Alemanha Imperial exigiu seu "lugar ao sol" no final da década de 1890, abrindo caminho para sua expansão naval. O Japão criou a idéia de uma “Esfera de Co-Prosperidade da Grande Ásia Oriental” para justificar sua ocupação na Segunda Guerra Mundial, a qual foi muito ressentida em toda a Ásia, inclusive na China.

Pequim pode reivindicar excepcionalismo e que suas ações transcendem os cálculos da realpolitik (política real) de outros estados. No entanto, nesse caso, não é diferente dos hegemonistas americanos que gosta tanto de criticar.

Para a Europa, entender a abordagem chinesa, bem como as intenções por trás dela, é mais importante do que o mero fato da base militar chinesa no Djibuti.

Yun Sun é diretor do programa da China e co-diretor do programa da Ásia Oriental no Stimson Center, em Washington, DC. Ela contribuiu com este artigo para o Syndication Bureau, um serviço de organização de artigos de opinião e análise que se concentra exclusivamente no Oriente Médio.

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Luiz Bouchardet e Antônio Pinto Neto.

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