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quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

ENTREVISTA: "A Legião vai muito bem!"

General de Saint-Chamas já como um 4 estrelas.
Na época da entrevista, ele era 2 estrelas.

Por Jean-Dominique Merchet, jornalista do Marianne, 28 de abril de 2012.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 28 de julho de 2012.

Uma entrevista com o general de Saint-Chamas, comandante da Legião Estrangeira, na ocasião das cerimônias do Camerone.

Essa segunda-feira 30 de abril, a Legião Estrangeira celebra o Camerone, sua festa tradicional que comemora o sacrifício de seus homens, em um combate no México em 1863. As cerimônias do Camerone serão, neste ano, uma homenagem particular à Batalha de Bir Hakeim, que completa seu 70º aniversário. Durante a cerimônia, na “maison-mère” de Aubagne, a mão do capitão Danjou será carregada por Hubert Germain, 91 anos, companheiro da Libertação, ex-ministro e veterano da 13ª DBLE – o último oficial da Legião vivo a ter participado deste combate da França Livre.

Durante a cerimônia, o padre Yannick Lallemand, capelão da Legião, será promovido ao posto de Comendador da Legião de Honra. O “Padre” é uma figura dos paras e da Legião. Presente em Beirute por ocasião do atentado contra o Drakkar (1983), ele é atualmente muito ativo em ajudar os feridos. Enfim, o chefe de estado-maior dos exércitos, o almirante Edouard Guillaud será feito “caporal d’honneur” da Legião Estrangeira, uma distinção excepcional.

Na ocasião do Camerone, quisemos rever a Legião atual, com o “Père Légion”, apelido tradicional do general comandante da Legião Estrangeira (COM.LE), Christophe de Saint-Chamas. Este oficial comandou em especial o 1º REC e fez uma estadia de 13 meses no Afeganistão antes de chegar à Aubagne.


Como vai a Legião?

Muito bem! Seu recrutamento é excelente. A Legião atrai e, além, é a França que atrai homens provenientes de 150 países. Nós somos um vetor de influência nacional.

De onde eles vêm?

De todos os lugares. Na última seção de 50 homens que nós tivemos de integrar, havia cerca de trinta nacionalidades. Historicamente, o recrutamento está ligado às crises políticas: havia os russos brancos, os republicanos espanhóis, os alemães pós-guerra, o Leste da Europa após a queda do muro... Hoje, cerca de um quarto do nosso recrutamento se efetua sempre na Europa distante, à Leste. Mas nós temos doravante muitos asiáticos (cerca de 10%). Eles vêm até nós através da China ou da Mongólia. Nossa preocupação é de manter um equilíbrio de modo a que o amálgama possa ocorrer.

A internet se tornou um instrumento essencial: nosso site de recrutamento existe em quinze línguas. Mas nós não recrutamos fora do território metropolitano: é necessário que o candidate venha até nós por seus próprios meios, isso constitui uma primeira prova de sua motivação ao engajamento.

E os franceses?

Os “gauleses” – os franceses – não representam mais que 10% à 15% de nosso recrutamento. O total de francófonos, entre 20 e 25%. É uma situação diferente daquela que nós conhecíamos há vinte ou trinta anos, quando a metade do recrutamento era francófona. Nós não podemos mais praticar a “binomage” para a aprendizagem do francês (um francófono e um não-francófono), mas nós usamos a “quadrinomage”.


Quantos homens vocês recrutam por ano?

Nosso biorritmo é de cerca de 1000. Nós temos conseguido mais no decorrer desses últimos anos – até 1400. Nós estamos abaixo esse ano, cerca de 800. Deve ser dito que nosso efetivo global decresceu, em 600 postos em três anos. Nossos efetivos são, atualmente, de 7334, dos quais 7000 servem à título estrangeiro: esses são todos os legionários e graduados, mesmo que a Legião também conte com alguns graduados do exército, apelidados de “quadros brancos”, para os postos de especialistas.

Qual é a sua taxa de seleção?

Um em cada oito, podemos dizer que temos como escolher. Isso mostra que o nível geral é bem elevado: 13,5/20. Temos que acabar com uma mitologia: nós não recrutamos criminosos que se fariam esquecer ao se engajar na Legião! Certamente, nossos homens são frequentemente feridos na vida, que vêm a nós atrás de um recomeço com a vontade de mudar. O ministro da Defesa confia ao general COM.LE a responsabilidade do pessoal servindo à título estrangeiro.


Havia sempre muitos desertores na Legião. E quanto a 2012?

Vamos primeiros examinar a noção de desertor. Eles são estrangeiros, e eles podem ter vontade de ir pra casa, não é porque será melhor, eles estão com saudades de casa ou por um capricho que vem à cabeça. O que podemos falar com certeza, é a taxa de atrito: ela é de 22% durante os seis primeiros meses e de 10% nos seis meses seguintes. Isso significa que um engajado entre três (32%) nos deixa durante o primeiro ano. Conservar em nossas fileiras os legionários que fizeram a corajosa escolha de se engajar continua a ser um objetivo permanente para nós.

Eles se engajam sempre sob uma identidade falsa?

De novo um mito! Não existe anonimato na Legião. Existem duas situações enquadradas pela lei: “a identidade presumida real” e a “identidade declarada”. 80% dos engajados preferem a primeira solução – eles se engajam sob o próprio nome. Mas devemos ter cuidado: a identidade presumida real não significa necessariamente a identidade real. O engajado pode chegar com documentos que parecem verdadeiros, mas que são falsos. Nós devemos verificar em seus países de origem e isso pode levar vários meses.

O “estatuto estrangeiro” limita seus direitos civis, por exemplo, para a abertura de uma conta bancária. Como funciona?

Na França, para permitir a abertura de uma conta bancária, o banqueiro deve se certificar da identidade do seu cliente. Nesse contexto, a Legião veio a estabelecer uma nova parceria com o Crédit Agricole Alpes-Provence, que permite ao legionário sob identidade declarada possuir uma conta bancária e um cartão de débito.

Houve alguns incidentes infelizes no seio de suas unidades, sobre tratamentos degradantes. O que o senhor faz para evita-los?

Primeiro, devemos ser humildes e não penso que isso não possa acontecer novamente. É um combate permanente sobre o estilo de comando para todas as unidades do exército. Eu faço um esforço particular sobre os jovens tenentes: vocês não devem ser “mitos”? Procuro oficiais capazes de sentirem rapidamente que os legionários que abandonaram tudo têm grandes expectativas de seus superiores – e em particular que eles criem vínculos, respeito recíproco e confiança. Que as coisas fiquem claras: a Legião não está acima da lei! Não existe imunidade própria à Legião que nos permita ignorar leis e regulamentos. E eu não estou lá para encobrir erros de comando.

A Legião protege os legionários do seu próprio passado. Ou mais precisamente contra o passado que eles nos declararam no engajamento. Se o legionário se engaja dizendo que ele é procurado em seu país por um roubo de carro, é uma coisa. Mas se nós ficamos sabendo depois que ele também é procurado pela morte de cinco pessoas em sua cidade, é outra. E nós o entregaremos à Justiça.


Ainda não há mulheres na Legião?

Sim, existem alguns oficiais e graduados femininos – e as coisas vão muito bem. Mas o recrutamento estrangeiro não é aberto às mulheres. A formação básica exige muita intimidade. No primeiro mês, os homens vivem juntos em uma fazenda do 4º Regimento Estrangeiro. Essa pedagogia garante uma amálgama rápida e uma integração de todas as culturas.

A presença de mulheres provocaria tensões e ciúmes entre os legionários em um ambiente muito frágil. E a principal dificuldade virá da diferença de cultura e de abordagem, de um país a outro, com relação à mulher.

Todos os legionários se tornam franceses ao final do seu engajamento?

Eles devem primeiro expressar o interesse e esse não é sempre o caso. Alguns voltam para casa e não desejam permanecer na França. Cada legionário é livre para escolher. Em média, existem de 200 à 250 naturalizações por ano. Se levarmos em conta que 1000 homens se engajam a cada ano e que um terço se vai durante o primeiro ano, isso significa que um legionário em três se tornará francês. Desde 1999, existe uma lei, adotada por unanimidade, que permite aos feridos em operação e que desejam ter acesso total à nacionalidade francesa. Este é o princípio de adquirir a nacionalidade francesa “Par le sang versé” ("Pelo sangue vertido").


- Jean-Dominique Merchet é especialista em questões militares pelo Instituto de Altos Estudos de Defesa Nacional (Institut des Hautes Études de Défense Nationale – IHEDN).

Bibliografia recomendada:

Legião Estrangeira:
Um brasileiro em suas fileiras.
Luís Bouchardet.

Tempos de Inquietude e de Sonho.
Raul Soares da Silveira.

A Legião Estrangeira.
Douglas Boyd.

terça-feira, 18 de janeiro de 2022

FOTO: Char B1 bis "Indochine"

Soldados alemães posando ao lado dum tanque francês Char B1 bis nocauteado, número 205 “Indochina”, na França em junho de 1940.
O soldado alemão de uniforme preto tem a boina das tropas panzer, usada por pouco tempo.
(Colorização por Julius Jääskeläinen)

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 18 de janeiro de 2022.

O Char B1 era um veículo especializado, originalmente concebido como um canhão autopropulsada com um obus de 75mm no chassis; mais tarde, um canhão de 47mm em uma torre foi adicionado, para permitir que ele funcionasse também como um Char de Bataille para acompanhar a infantaria e destruir ninhos de metralhadora e pontos fortes. A partir do início dos anos vinte, seu desenvolvimento e produção foram repetidamente adiados, resultando em um veículo que era tecnologicamente complexo e caro, e já obsoleto quando a produção em massa real de uma versão derivada, o Char B1 "bis", começou no final dos anos 1930. 

Embora uma segunda versão blindada, o Char B1 "ter", tenha sido desenvolvida, apenas dois protótipos foram construídos.

Entre os tanques armados e blindados mais poderosos de sua época, o Char B1 bis foi muito eficaz em confrontos diretos com blindados alemães em 1940 durante a Batalha da França, mas a baixa velocidade e o alto consumo de combustível o tornaram mal adaptado à guerra de movimento então sendo travada. Após a derrota da França, os Char B1 bis capturados seriam usados pela Alemanha, com alguns reconstruídos como lança-chamas, Munitionspanzer ou artilharia mecanizada.

Leitura recomendada:

FOTO: Legionários das Companhias Saarianas

Legionários da 1ère Compagnie Saharienne Portée de la Légion étrangère (CSPL) na Argélia, 1956.
(Colorizada)

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 18 de janeiro de 2022.

As Companhias Saarianas Motorizadas da Legião Estrangeira (1ère Compagnie Saharienne Portée de la Légion étrangère, CSPL) eram formações de patrulha de longa distância no deserto da infantaria motorizada que foram ativadas na década de 1920 e expandidas na década de 1950; foram formadas quatro destas companhias. Vestidos em uniformes tradicionais à la Beau Geste, sua função era guardar pontos estratégicos nas estradas transcontinentais do Saara, como os oásis estratégicos e os poços de petróleo. Essas unidades lutaram durante toda a Guerra da Argélia.

Eles moviam-se para o norte do Saara durante o verão e tomavam parte em operações combinadas como tropa motorizada convencional e como infantaria helitransportada. Por causa das enormes distâncias que as CSPL cobriam, esses legionários tendiam a mover-se de base em base através de toda a extensão do norte do Saara.

A Legião também teve um grupamento comandado pelo Tenente-Coronel François Binoche, o Groupement des compagnies portées de Légion étrangère du Maroc (GCPLEM, mas também GCPLM).

Original em preto e branco.

Os legionários estão armados com material bem obsoleto para o período, que eram adequados para a função de patrulha motorizada, com a tropa armada com fuzis Berthier e o graduado à esquerda com uma submetralhadora Sten. Eles vestem o tradicional uniforme de desfile da Companhia Saariana, que consistia de camisa branca de manga curta, calça seroual branca e bandoleiras de couro em forma de V Modelo Saara 1935. Um manto e sandálias complementam o uniforme.

A 1er CSPL, originária do Marrocos, era aquartelada em Ain-Sefra em 1954, movendo-se para o Forte Flatters em 1955. A 2e CSPL estava em Laghouat e a 3e CSPL no Forte Leclerc (Sebha) no Fezzan. Em janeiro de 1956, a 4e CSPL foi criada da antiga 24e Compagnie Portée do 1er RE (Regimento Estrangeiro). Em janeiro de 1961, a 1er CSPL tornou-se o 1er Escadron SPLE, afiliado com a cavalaria ao invés da infantaria.

A unidade foi dissolvida em 31 de março de 1963, e os homens transferidos para o 2e REI; tornando-se Escadron, 2e REI. Depois renomeado 5ª Companhia Motorizada (5e CP), 2e REI.

Guarda-bandeira da 1er CSPL na entrada do Forte Flatters, em uma capa da revista Képi Blanc de 1959. A guarda usa sabres de cavalaria em vez de fuzis.

domingo, 16 de janeiro de 2022

Entre a autonomia estratégica e o poder limitado: o paradoxo francês


Por Lorris Beverelli, The Strategy Bridge, 25 de junho de 2019.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 15 de janeiro de 2022.

O governo francês muitas vezes gosta de enfatizar um conceito chamado “autonomia estratégica”. De fato, por mais de duas décadas, a França procurou e reivindicou ser uma potência internacional autônoma no mundo pós-Guerra Fria.[1] A grande dependência da energia nuclear como principal fonte de energia é uma ilustração dessa política: a França busca ser autossuficiente e não depender de recursos estrangeiros para abastecer o país. Essa afirmação de autonomia também é vista no âmbito militar. Dois dos principais documentos de política de defesa do governo francês, a Revisão Estratégica de Defesa e Segurança Nacional de 2017 e a atual Lei de Planejamento Militar (abrangendo o período 2019-2025), enfatizam a importância da autonomia estratégica.[2] No entanto, há um grande problema: o instrumento militar francês já não permite que o Estado seja completamente autônomo. Este artigo irá expor as principais deficiências da política de defesa francesa e seu instrumento militar de poder antes de oferecer algumas recomendações.

TRÊS QUESTÕES PRINCIPAIS


Orçamento de Defesa

O fim da Guerra Fria é o principal impulsionador dessa mudança no foco militar francês. Em 1997, o governo francês mudou o modelo de suas forças armadas do recrutamento obrigatório para um tipo exclusivamente voluntário, expedicionário.[3] Antes desta data, as Forças Armadas francesas tinham um componente maior encarregado da defesa da França continental, enquanto um componente menor, do tipo expedicionário, estava encarregado de realizar missões no exterior.[4] Após esta data, a França decidiu desenvolver uma força mais compacta porém melhor equipada, em que todas as unidades tenham capacidade para intervir no exterior.[5] A lógica era compensar a mudança de quantidade com qualidade, tanto no treinamento quanto no equipamento.[6] No entanto, na ausência de uma ameaça direta, e mesmo antes do fim da Guerra Fria, o governo reduziu gradualmente seu orçamento de defesa: entre 1982 e 2015, ele foi cortado quase pela metade.[7] Recentemente, o governo francês aumentou o orçamento de defesa para lidar melhor com as novas (e renovadas) ameaças regionais e globais. Com a implementação da última Lei de Planejamento Militar, os gastos com defesa devem atingir 2% do produto interno bruto (PIB) francês até 2025.[8]

Um soldado caminha entre veículos blindados franceses no Campo Militar de Mourmelon, no nordeste da França. (AFP)

Por causa dos repetidos cortes orçamentários, as forças restantes não receberam mais dinheiro e meios para realizar suas tarefas. Essa falta de recursos é problemática, pois os cortes orçamentários podem se traduzir em riscos estratégicos, operacionais e táticos. Por exemplo, a falta de recursos pode afetar a manutenção de equipamentos, e apenas cerca de metade dos sistemas de armas franceses não-desdobrados em operações estavam funcionais em 2015. Consequentemente, a qualidade do treinamento experimentado pelos militares franceses é necessariamente reduzida, o que pode afetar sua eficiência, segurança e moral.[9] Além disso, quando uma operação é planejada, os planejadores franceses devem restringir os meios que desejam usar com base em uma lógica orçamentária estrita.[10] Como resultado, os oficiais destacados são deixados para operar com recursos limitados.[11] Outra consequência é que os soldados franceses tendem a confiar mais no combate corpo-a-corpo para destruir o inimigo, em parte porque essas táticas são mais baratas do que confiar no poder de fogo.[12] As opções táticas são, portanto, raramente baseadas nas necessidades no terreno; em vez disso, elas são derivadas de restrições materiais.[13]

Números de tropas


As Forças Armadas francesas agora têm relativamente poucas tropas. Por exemplo, o exército francês passou de cerca de 350.000 soldados em 1984 para 200.000 em 1998.[14] Em 2017, tinha cerca de 114.500 soldados, embora tenha havido um ligeiro aumento de 2.000 soldados em relação a 2016.[15] Especificamente, a força de combate operacional do Exército é composta por apenas 77.000 soldados e, como outro exemplo, deve possuir apenas 225 tanques pesados até 2025.[16]

Esse número relativamente baixo de tropas e material constitui uma deficiência óbvia para um Estado com ambições globais, território e interesses para proteger na Europa, África, Oriente Médio e Ásia-Oceania.[17] Números baixos, combinados com cortes orçamentários duradouros, resultaram nas Forças Armadas francesas tornando-se uma força projetada para vencer guerras curtas e obter sucesso tático.[18] A França não tem o pessoal necessário para ser um ator decisivo em um grande conflito convencional, uma contradição direta com o sacrossanto princípio francês de autonomia estratégica. Em uma coalizão, a França provavelmente teria apenas efeito e influência estratégica limitados.[19] A França confia demais na dissuasão nuclear para garantir sua segurança e proteger seus interesses para enfrentar ameaças convencionais. Embora o poder nuclear seja absolutamente um elemento-chave de qualquer política de defesa para os Estados que podem pagar por ele, os conflitos ainda são muito mais propensos a envolver o envio de forças regulares do que depender exclusivamente de armas nucleares, se é que o fazem.

Foto aérea do Forte Madama, no Níger, em novembro de 2014.
(Thomas Goisque/Wikimedia)

A experiência recente deveria ter ensinado melhor a França: ela tem um alto nível de engajamento militar, com três grandes operações em andamento (Sentinelle em solo francês, Barkhane no Sahel e Chammal no Iraque e na Síria). 
Em 2016, esse envolvimento intenso e contínuo provou ser problemático, pois a França encerrou sua operação não-prioritária Sangaris na República Centro-Africana, porque a pressão sobre as Forças Armadas francesas era muito desgastante para sustentar.[20] Além disso, especialistas militares franceses apontaram regularmente que o nível de engajamento da França constitui uma enorme pressão sobre a força. Consequentemente, a falta de recursos e pessoal por parte dos franceses resultou em um impacto direto e estratégico em sua postura operacional recente.

Limitações estruturais do modelo militar francês


Outro problema, este de natureza estrutural, é o próprio modelo militar francês. O modelo atual – uma pequena força expedicionária profissional que pode ter que depender pelo menos parcialmente de parcerias com outros Estados – pode ser relevante para operações de ponte nas quais forças militares são usadas para estabilizar uma situação até que outras forças, tipicamente de uma organização internacional como as Nações Unidas, sejam capazes de assumir.[21] A própria Resenha Estratégica enfatiza a importância da cooperação e das parcerias.[22] Este modelo tem três limitações principais. Primeiro, é sempre difícil transformar o sucesso tático em efeito estratégico. Em segundo lugar, as forças internacionais não são necessariamente eficientes.[23] Terceiro, e mais importante, tal modelo não apóia o conceito francês de autonomia estratégica.

De fato, o modelo atual é excessivamente dependente de parcerias e fatores políticos não necessariamente nas mãos do governo francês. Tal conceito pode ser adequado para operações policiais onde os objetivos políticos são meramente deter um grupo armado não-estatal – como foi o caso da Serval – ou executar operações de baixa intensidade. No entanto, é improvável que este modelo consiga uma vitória decisiva contra uma força convencional. Por exemplo, a França confiou em uma organização regional africana, o G5 Sahel, para assumir o controle da área. No entanto, o G5 Sahel tem sido incapaz de realizar operações no terreno sozinho, e levou três anos para que uma força conjunta africana fosse criada.[24] Consequentemente, a França está presa no Sahel há quase cinco anos. A Operação Barkhane ainda pode mostrar algum sucesso, mas mesmo que alcance sucesso total, é inerentemente projetada para durar muito tempo e não tem uma estratégia de saída clara e direta além de delegar a missão a uma organização regional. Consequentemente, a estratégia de saída francesa depende de fatores políticos e materiais que a França não controla.

Além disso, tal estratégia pode ser impedida por outras questões, como a eficácia militar da força que está assumindo, ou os meios materiais, notadamente o financiamento, que essa organização possui. Tal estratégia de saída pode, no final, acabar sendo apenas uma estratégia e apenas um adiamento para encontrar uma solução real e duradoura para a situação.

Soldados franceses e malianos em 2016.
(Wikimedia)

RECOMENDAÇÕES DE POLÍTICA

Se o governo francês pretende tornar-se estrategicamente autônomo novamente, deve implementar um conjunto de medidas relativamente simples, mas necessárias.

Números

Primeiro, o governo francês deve aumentar o número de militares, principalmente em seu exército. Esse aumento é essencial para atingir o objetivo acalentado de autonomia estratégica, aliviar a pressão atual sobre as forças armadas, preparar-se para enfrentar ameaças convencionais e reforçar a dissuasão convencional.[25] É ainda mais importante porque as forças adversárias potenciais não só têm uma vantagem em quantidade, mas também cada vez mais uma vantagem qualitativa.[26] Consequentemente, a França não pode contar com treinamento e equipamentos superiores, e com a flexibilidade e criatividade de seus líderes militares, para compensar a falta de números.[27] Conflitos recentes demonstraram que os números e o poder de fogo ainda são relevantes.[28] Além disso, compensar números baixos pela tecnologia tem limitações.

De fato, trocar números por tecnologia é um conceito errôneo, que pode ser relevante no nível tático, mas não necessariamente nas esferas operacional e estratégica. A massa crítica continua importante. A enorme expansão dos espaços de combate modernos, que podem se estender por todo o planeta, conferem uma importância particular aos números. De fato, para cobrir eficientemente todos os espaços de engajamento e fazê-lo em tempo hábil, é essencial ter um número suficiente de soldados e material disponível.[29] Para um Estado como a França, com ambições globais e uma exigência teórica potencial de desdobrar forças simultaneamente em diferentes continentes, os números não devem ser um luxo. Os números devem ser um requisito.

Reserva

Reservistas do 3e RMAT em exercício de combate urbano.

Atualmente, as forças de reserva francesas não podem reforçar decisivamente o núcleo do Exército. De fato, conforme projetado atualmente, eles são construídos para reforçar unidades permanentes com indivíduos ou pequenos grupos. As reservas não podem ser usadas para formar brigadas inteiras ou mesmo batalhões equipados com material pesado, sendo os estoques atuais insuficientes para equipar totalmente todas as unidades ativas.[30] Reviver a reserva e devolver-lhe as verdadeiras capacidades deve ser uma das principais prioridades da liderança de defesa francesa. Essas medidas aliviariam a pressão sobre as forças armadas e constituiriam um verdadeiro mecanismo de reforço para apoiar as tropas desdobradas no exterior ou em território nacional. A França precisa agir de forma decisiva em relação à sua reserva para reforçar efetivamente suas capacidades de defesa, enfrentar ameaças estratégicas e responder a surpresas estratégicas.

Repensando o modelo militar francês

O atual modelo militar francês simplesmente não corresponde ao objetivo de autonomia estratégica ou ao alto nível de engajamento, tanto na teoria quanto na prática, das Forças Armadas francesas. Para garantir autonomia, maximizar a defesa do território francês e sua vizinhança e cumprir um alto nível de engajamento, a França poderia retornar ao seu modelo tradicional. Uma única força maior poderia ser dedicada à defesa do território francês e seus arredores imediatos contra ameaças convencionais, principalmente na Europa, com uma segunda força expedicionária, muito menor, especializada na defesa dos interesses e territórios franceses no exterior por meio de operações limitadas. Tal modelo desapareceu em grande parte por causa do fim da Guerra Fria. No entanto, um desafio real seria reproduzir tal modelo sem re-decretar o alistamento obrigatório, o que é muito provavelmente irreal tanto do ponto de vista político quanto fiscal. De qualquer forma, com o ressurgimento das ameaças convencionais, o restabelecimento do modelo militar tradicional francês, com soluções adaptadas para evitar o alistamento de conscrição, deve ser, no mínimo, considerado pela liderança política e pela nação francesa como um todo.

Alternativamente, um novo modelo poderia ser estabelecido. Por exemplo, a França poderia manter seu pequeno núcleo de tropas profissionais para realizar as principais tarefas de combate e constituir a ponta de lança da força em caso de conflito convencional e intervenções no exterior, enquanto uma reserva maior poderia realizar tarefas secundárias e ocupar terreno. Outra solução potencial poderia ser a adição gradual, mas frequente, de mais pessoal às forças armadas por meio de campanhas agressivas de recrutamento. Até o final de 2016, a França havia adicionado 11.000 soldados à força de combate operacional do Exército.[31] O governo francês poderia tentar aumentar o número das forças armadas com acréscimos semelhantes e mais frequentes. Também poderia permitir que as Forças Armadas francesas ganhassem mais poder de combate sem sobrecarregar excessivamente a infraestrutura militar atual e permitir que os militares absorvessem gradualmente os novos recrutas.

Orçamento de Defesa

Legionários da 2ª companhia do 3e REI (3º Regimento Estrangeiro de Infantaria) com o míssil AAe Mistral durante o lançamento do foguete Ariane 5 em Kourou, na Guiana Francesa, em 17 de novembro de 2016.

Embora a França tenha feito um esforço recente para interromper os cortes orçamentários e aumentar seus gastos com defesa, deve continuar aumentando o orçamento de defesa no futuro e garantir que atinja e mantenha pelo menos 2% do PIB. Além disso, se a OTAN considera que os Estados membros não fortemente envolvidos no exterior e que não possuem armas nucleares devem gastar 2% de seu PIB em defesa, parece razoável que a França precise gastar mais, considerando suas ambições globais e seu arsenal.[32]

CONCLUSÃO


Se a França realmente deseja permanecer um ator global, uma potência militar credível e estrategicamente autônoma, ela precisa empreender esforços consideráveis para melhorar a condição atual de suas forças armadas. A França fez progressos nesse sentido, mas ainda precisa fazer mais. Aumentar a massa das forças armadas e do orçamento de defesa, e repensar o papel da reserva e o modelo militar atual, são os elementos em que o governo francês deve se concentrar. Naturalmente, o Estado francês também pode ter que se concentrar em elementos econômicos e industriais ao mesmo tempo, pois o poder militar viável e sustentável necessariamente vem com uma economia e indústria fortes.

Se, por outro lado, a França finalmente chegar a um acordo com seu status de potência internacional média, melhorias limitadas podem ser suficientes. No entanto, nesse caso, a França teria que aceitar o fato de que, no caso de um grande conflito convencional, ela provavelmente teria um impacto estratégico limitado, que ela tem autonomia estratégica limitada e que ela não é mais uma potência internacional forte.

Sobre o autor:

Lorris Beverelli é um cidadão francês que possui um Master of Arts em Estudos de Segurança com uma concentração em Operações Militares pela Universidade de Georgetown. As opiniões expressas neste artigo são exclusivas do autor e não representam a política ou posições do governo francês ou das forças armadas.

Notas:
  1. Frédéric Mauro, “Strategic Autonomy under the Spotlight: The New Holy Grail of European Defence”, 2018/1, 4, PDF.
  2. República Francesa, “Defence and National Security Strategic Review”, 2017, §1.2., PDF; “LOI n° 2018-607 du 13 juillet 2018 relative à la programmation militaire pour les années 2019 à 2025 et portant diverses dispositions intéressant la défense (1)", Legifrance, acessado em 10 de junho de 2019, Artigo 65, §1.2.1., https://www.legifrance.gouv.fr/affichTexte.do?cidTexte=JORFTEXT000037192797&dateTexte=20190610.
  3. Rémy Hémez, “The French Army at a Crossroads”, Parâmetros 47, nº 1 (Primavera de 2017): 103.
  4. Michael Shurkin, “France’s War in Mali: Lessons for an Expeditionary Army”, RAND Corporation, 2014, 40, PDF.
  5. Ibid.
  6. Joseph Henrotin, “La défense française durant le prochain quinquennat: Quels défis?”, DSI, nº 128 (março-abril de 2017), 31.
  7. General Vincent Desportes, La dernière bataille de France: Lettre aux Français qui croient encore être défendus (Paris: Editions Gallimard, 2015), 1. Les lois de déprogrammation militaire ou le mensonge français – La baisse inexorable des moyens financiers, Kobo.
  8. “LOI n° 2018-607”, Artigo 2.
  9. Desportes, La dernière bataille, 1. Les lois de déprogrammation militaire ou le mensonge français – Des paradoxes qui mettent en danger nos soldats.
  10. Ibid.
  11. Shurkin, “France’s War”, 42.
  12. Ibid.
  13. Desportes, La dernière bataille, 1. Les lois de déprogrammation militaire ou le mensonge français – Des paradoxes qui mettent en danger nos soldats.
  14. Ibid., 1. Les lois de déprogrammation militaire ou le mensonge français.
  15. Ministério da Defesa francês, “Números-chave da Defesa de 2018”, 2018, 16, PDF.
  16. CES Lionel Guy, CDT Alexandre Montagna, “Un nouveau modèle pour l’Armée de Terre”, TIM, nº 276 (julho-agosto de 2016), 3.
  17. República Francesa, “Strategic Review”, §§166, 167, 168.
  18. Desportes, La dernière bataille, 1. Les lois de déprogrammation militaire ou le mensonge français – Des paradoxes qui mettent en danger nos soldats.
  19. Ibid., 9. A un pas du gouffre : plus de guerres, moins de moyens ? – Quelles conséquences stratégiques?
  20. Hémez, “The French Army”, 110.
  21. Ibid.
  22. República Francesa, “Strategic Review”, §5.2.
  23. Hémez, “The French Army”, 110.
  24. Centro Africano para Estudos Estratégicos, “A Review of Major Regional Security Efforts in the Sahel”, 4 de março de 2019, https://africacenter.org/spotlight/review-regional-security-efforts-sahel/.
  25. Hémez, “The French Army", 111.
  26. Henrotin, “La défense française”, 31.
  27. Rémy Hémez, Aline Leboeuf, “Retours sur Sangaris: Entre stabilisation et protection des civils”, Focus stratégique, nº 67 (abril de 2016), 30, PDF.
  28. Henrotin, “La défense française”, 34.
  29. Benoist Bihan, “Masse critique”, La plume et le sabre, 31 de março de 2013, http://www.laplumelesabre.com/2013/03/31/masse-critique/.
  30. Michel Goya, “La «descente en masse»”, DSI, nº 131 (setembro-outubro de 2017), 62.
  31. Hémez, “The French Army", 104.
  32. General Vincent Desportes, “Un désastre militaire”, Conflits, nº 13 (abril-maio-junho de 2017), 49.

      terça-feira, 11 de janeiro de 2022

      COMENTÁRIO: Sobre o sentimento anti-francês no Sahel


      Por Rahmane Idrissa, La Gazette Perpendiculaire, 22 de novembro de 2021.

      Tradução Filipe do A. Monteiro, 11 de janeiro de 2022.

      Chego a Niamey em uma atmosfera de fúria anti-francesa pan-saheliana que inundou as redes sociais graças aos bloqueios impostos ao avanço de um comboio militar francês pelas massas burquinenses animadas por encontrar um alvo odiado, mas inofensivo à sua indignação contra a situação de opressão violenta (por parte de grupos armados jihadistas) a que está sujeita grande parte do seu país. Há uma opinião generalizada entre a população de que os militares franceses só chegam às zonas de guerra para distribuir armas aos jihadistas.

      Essa ideia é convincente porque não se baseia em fatos, mas em sentimentos, e os sentimentos, infelizmente, não são contrariados por evidências factuais. Trata-se, neste caso, de uma mitificação da maldade diabólica da França que trabalha a imaginação saheliana em todos os níveis, desde os intelectuais e outros personagens cultos até o camponês sentado em sua cabana, mas que, graças ao seu smartphone, recebe diariamente discursos alucinados sobre esse tema, propagado em um loop por indivíduos que encontraram uma vocação fácil no French bashing.

      Como o jornalista Antoine Glaser me disse em uma entrevista recente em Paris, os jihadistas já venceram. Referia-se ao fato de que a insegurança, ainda maior para o Ocidente do que para os locais, levou à sua saída da região, nomeadamente ao nível dos laços humanos tecidos, à margem do grande Estado e das máquinas multilaterais, por pequenas ONGs, por pessoas generosas ou pessoas apaixonadas pela África, destinos aparentemente excêntricos dedicados a trabalhar obscuramente em uma campanha esquecido.


      Mas a outra vitória dos jihadistas é certamente o fortalecimento e a histerização do sentimento anti-francês, um fenômeno antigo que não é sem justificativa, é claro, mas que, ao lado de aspectos de reação saudável, também revela patologias morais e intelectuais que, a longo prazo, são perigosos para o próprio Sahel.

      Há alguns pontos importantes para entender aqui.

      Sempre houve um forte sentimento anti-francês no Sahel e na África francófona em geral, decorrente naturalmente da dominação colonial. Nas últimas décadas, esse sentimento elevou-se para o ódio entre alguns, mas foi, na maioria, contrabalançado por uma espécie de francofilia morna advinda da influência cultural francesa impregnada pela escolarização ou simplesmente pelos "elos históricos" forjados pela colonização. Todos os nascidos antes de 1990 nos países do Sahel já ouviram falar, ou puderam evocar, a França com esta frase que sempre me surpreendeu um pouco: A pátria mãe.

      O sentimento anti-francês da época não se explica apenas pelo passado colonial, mas pelo fato da França, ao contrário da Grã-Bretanha, ter estabelecido em 1958, sob a égide do General de Gaulle, uma política neocolonial na África subsaariana, uma política que é um subproduto da política de grandeza preconizada pelo general e praticamente inscrita no DNA da 5ª República.


      Essa política neocolonial tinha muitas facetas, nem todas tão terríveis quanto imaginavam seus críticos - especialmente os africanos. No entanto, ela estava sufocando, seja pelo bem que queria fazer (por exemplo, financiar a vida cultural, apoiar a educação por meio de assistência técnica e bolsas de cooperação e outras obrigações benevolentes) ou pela defesa egoísta de certos interesses estratégicos ou táticos.

      Acima de tudo, pressionou a França a rotinizar as intervenções militares em seu “quintal” africano. Desde 1964, quando a França restabeleceu à força Léon Mba em Libreville até a Operação Barkhane, calcula-se que a França interveio na África uma vez a cada quinze meses, sem contar as intervenções clandestinas e outros golpes de trabalho implementados com a ajuda de mercenários ou em conluio com regimes deploráveis ​​(o famoso eixo Rabat-Abidjan-Pretória).

      Essas operações faziam parte do quadro neocolonial conhecido como Françafrique, pois visavam proteger os interesses estratégicos (incluindo o prestígio) da França, muitas vezes contra projetos políticos que mereciam apoio e não oposição. Isso, de qualquer forma, construiu uma imagem de uma hiperpotência diabólica da França que alimenta dois instintos entre os africanos: ou uma espécie de submissão sem energia a que se pensa não poder resistir (que, consequentemente, alimenta o desprezo divertido e a condescendência colonial do lado francês), ou uma hostilidade odiosa que vai para o outro extremo.

      Mas a política de grandeza da França, bem como o neocolonialismo ligado a ela, há muito deixaram de ser viáveis ​​- e a Operação Barkhane é o primeiro ato de sua morte, embora os africanos e, em todo caso, a opinião pública saheliana, absolutamente não percebam isso.

      A política de grandeza da França na África obedeceu a dois imperativos aparentemente contraditórios: participar do esforço americano da Guerra Fria e da contenção do comunismo (o que ficou especialmente evidente durante os anos 1960-70), e garantir a autonomia da França vis-à-vis os Estados Unidos, por exemplo, controlando o voto africano francófono nas Nações Unidas e, de forma mais geral, preservando uma capacidade de ação independente da supervisão americana sobre "o mundo livre". Estes são os princípios do Gaullismo, que estão na origem da 5ª República.

      Mas tudo isso entrou em crise nas décadas de 1980 e 1990. Durante a década de 1980, os problemas econômicos da França levaram-na gradualmente a reduzir o alcance da sua política externa e, em particular, sua política africana. Por exemplo, a cooperação bilateral, aliás conduzida sem entusiasmo precisamente onde a necessidade era maior - os países do Sahel, para os quais os franceses nutriram um profundo pessimismo econômico desde os tempos coloniais - deu lugar ao "multilateral", isto é, a supervisão das instituições financeiras internacionais quando a crise da dívida atingiu os países francófonos na década de 1980, a França se viu incapaz de fornecer a assistência esperada nos termos implícitos do pacto neocolonial.


      No início dos anos 1990, o fim da Guerra Fria também pôs fim a uma das funções do poder francês na África, a de policial do mundo livre. Os Estados Unidos foram capazes de pressionar pela democratização e pela promoção dos direitos humanos, e a França teve que seguir o exemplo, como mostra o famoso discurso de La Baule. Mas na África francófona, como em outros lugares, a conjunção entre a democratização no nível político e o ajuste estrutural político no nível econômico foi explosiva para dizer o mínimo. Com efeito, isso significava que as demandas e pressões populares sobre o Estado se multiplicavam com o surgimento de uma sociedade civil multifacetada ao mesmo tempo em que o campo de ação do Estado se estreitava drasticamente. Economicamente, nem a França nem outros países ocidentais apoiaram a democratização, por exemplo, por meio de planos de investimento em desenvolvimento ou cancelamento da dívida.

      Pelo contrário: a recessão devido à crise fiscal que levou a uma sobrevalorização do franco CFA, a França cedeu em 1993 à pressão do FMI para uma desvalorização draconiana da moeda CFA, apesar do impacto social e psicopolítico duma tal decisão. A desvalorização ocorreu em 1994, ano que acabou sendo o annus horribilis do poder francês na África. De fato, foi também durante este ano que Ruanda explodiu nas mãos de uma França que se fazia de aprendiz de feiticeiro com sentimentos de ódio sócio-étnico de extrema revolta. O relatório sobre a política de François Mitterrand encomendado por Macron fala sobre este tema de uma "derrota do pensamento" e de um "colapso intelectual", sublinhando até que ponto um Estado - ou em todo o caso o seu componente central, o Palácio do Eliseu - que acreditava ele sabia tão bem que o continente negro havia se desviado para o erro fatal e a falta trágica.

      Essa derrota foi a da política neocolonial e, subjacente a ela, da política de grandeza. François Mitterrand foi um político que serviu como ministro numa época em que a França ainda tinha colônias na África, e sua intervenção em Ruanda, que começou como uma promoção da democracia - seguindo o slogan americano - adotou uma linha mais sombria depois que ele se convenceu de que as potências anglo-saxônicas estavam tentando infligir um golpe de Fashoda na França em Ruanda. Enquanto o fim da Guerra Fria havia tornado impertinente para o lado anticomunista da política neocolonial, Ruanda pôs fim ao outro lado, a defesa da autonomia face os americanos.


      Depois de 1994, a política neocolonial na África não se justificava, exceto pelo fato de que o que foi posto em prática perdurará pelo simples fato do conatus (da vontade de perseverar no próprio ser) até que tenha sido deliberadamente desmontado.

      Tal medida é possível, embora as estruturas da 5ª República, em particular a autonomia do Palácio do Eliseu no campo da política externa, pareçam opor-se a ela. Afinal, olhando mais de perto, essa autonomia eliseana é um costume e não uma regra constitucional. As intervenções francesas na África pós-1994 já não faziam parte de uma estratégia neocolonial coerente e estruturada. Elas vieram do conatus. Este foi particularmente o caso no Chade e especialmente na Costa do Marfim, em todas as ocasiões em que o peso dos atores africanos (Déby, Ouattara) prevaleceu, através de relações pessoais com os principais chefes decisores do aparelho governamental francês, dentro duma visão política ou meios de ação que a França não mais dispunha.

      A Serval e Barkhane são diferentes. Estas duas operações escapam ao conatus neocolonial porque fazem parte das novas prioridades do Estado francês, a construção europeia (em particular o conceito de defesa europeia) e a luta contra o jihadismo que tem perpetrado numerosos assassinatos em massa em solo francês e europeu.

      Ao contrário das intervenções neocoloniais, a Serval e Barkhane não foram projetados para derrotar um oponente da França, ou apoiar um amigo da França, ou mesmo preservar interesses estratégicos ameaçados por potências hostis (como China e Rússia). Trata-se de pôr fim a uma violenta militância salafista enquistada no Sahel-Sahara desde o fim da guerra civil argelina e que foi mobilizada a favor do colapso do regime de Kadafi no norte do Mali, ameaçando desestabilizar todo o território da África Ocidental a longo prazo.

      Essas operações sublinham tanto os novos limites da atuação francesa na África - que agora precisa do apoio das potências anglo-saxônicas, outrora consideradas meio-rivais -, quanto as novidades características da época. Por exemplo, ao contrário do que aconteceu mais uma vez no caso das intervenções de estilo neocolonial, a França hoje precisa de Estados africanos fortes e exércitos africanos que não são assim, foi o que aconteceu principalmente no Sahel, com exércitos de opereta. Isso decorre de uma convergência de interesses sem precedentes, na frente de segurança, entre a Europa e o Sahel, e especialmente entre a França e suas ex-colônias.

      Como resultado, a ascensão do sentimento anti-francês que se transforma em obsessão odiosa na região é uma daquelas tragédias de erros que resultam de uma história terrível e um passado ruim. Como, até 2013, a França nunca interveio militarmente em África, exceto numa perspectiva neocolonial, é lógico considerar que esta enésima intervenção está na mesma linha. Tanto mais que, ao evoluir para uma nova fase de suas relações com a África, a França ainda preserva alguns dos instintos desenvolvidos pelo gaulismo e sua política de grandeza.


      Macron, que certa vez disse à revista Le Point que estava assumindo "a grandeza", mantém o estilo frágil e peremptório que deriva daquela era antiga - e que, além disso, os então chefes de Estado em exercício se abstiveram cuidadosamente de adotar. Seus apelos aos Estados do Sahel para fortalecer seus exércitos e controle territorial, embora estejam na direção certa do bom senso, são feitos em tom de dor de acusação e impaciência e criam um processo de empilhamento sobre todo o tempo desperdiçado pela cooperação multilateral em estados debilitantes (em nome dos princípios neoliberais) e reduzir suas capacidades de governo (substituídas por ONGs), um empreendimento que a França teve o cuidado de não denunciar quando atingiu o poder total na década de 1990. No entanto: enquanto os africanos sofreram com uma espécie de resignação impotente às intervenções neocoloniais francesas do passado, eles finalmente se levantam com a petulância de uma matilha no primeiro momento em que, finalmente, uma intervenção francesa é realmente do seu interesse.

      Este ponto em particular refere-se, a meu ver, a um constante e crescente distanciamento cultural entre a França e a África francófona que me parece bastante positivo, bem como a uma espécie de fome nacionalista do lado africano que me parece ser o menos preocupante.

      Da independência até o final da década de 1980, havia uma forte proximidade cultural entre a França e os francófonos da África, em parte graças à ação cultural do Estado francês, em parte pela simplicidade dos tempos, onde a França era de certa forma o canal obrigatório dos francófonos para uma cultura cosmopolita. Eu conheci bem esse período, cujo período final coincidiu com minha infância e adolescência. Como indicado anteriormente, o sentimento anti-francês já era muito forte naquela época entre aqueles que se definiam como intelectuais engajados, e lembro-me de ter ficado muitas vezes impressionado com seu caráter ideológico, o fato de parecer esgotado na declamação e lamento, sem preocupação realista - isto é, sem considerar a política neocolonial da França como um problema a ser resolvido em nível prático, não como uma espécie de batalha épica e interminável entre o bem e o mal.

      Como resultado, fiquei tão desanimado com o neocolonialismo francês quanto com a galofobia de muitos de meus camaradas e seus tutores intelectuais, embora não soubesse exatamente na época por que isso me incomodava.

      Não entendi então que ela era apenas um sintoma de outra coisa, e que essa outra coisa era, de fato, pouco simpática.

      O mundo começou a mudar na década de 1990. Não só a ação cultural da França, como d'outros países ocidentais, começou a declinar no contexto de entrincheiramentos neoliberais, mas esse novo regime econômico empurrou para a globalização, que começou a oferecer alternativas francófonas à França para acessar uma cultura cosmopolita - e primeiro os Estados Unidos e o Canadá, antes de buscar por outros horizontes. A filha de um amigo meu sonha apenas com Dubai; uma jovem de sua idade em 1995 sonhava com Nova York; em 1980, com Paris.


      Os francófonos de 1980, mesmo anti-franceses, entendiam subjetivamente o que estava acontecendo na França; este não é o caso dos de 2021. Por si só, uma certa distância cultural entre a França e os francófonos, ou melhor, uma ausência de intimidade cultural entre os dois é bastante saudável do meu ponto de vista. Tendo em vista as relações de poder de estilo neocolonial que existiam entre a França e seu antigo império africano, havia algo de incestuoso nessa intimidade cultural - embora, de minha parte, eu apreciasse um certo aspecto da influência cultural francesa, seu conteúdo liberal, a substância racionalista, cética e humanista de sua mensagem geral que tinha, pelo menos para mim, cores muito atraentes contrastando com o tufo conservador e retrógrado das culturas africanas circundantes.

      Mas precisamente, finalmente me ocorreu que o sentimento anti-francês não se limitava ao anti-neocolonialismo. Também tem a ver com nacionalismo ou, como dizem ultimamente, identidade nacional, algo que costumo ver tão facilmente capaz de cair em formas tóxicas de estupidez, como vemos em outros lugares da extrema-direita francesa. Isso é difícil de ver à primeira vista. O anti-colonialismo é, em princípio, uma coisa boa, e há uma tendência a aprovar qualquer coisa que o alimente - e, além disso, o nacionalismo dos fracos não parece muito perigoso, pelo menos do lado de fora.

      Além de alguns franceses afro-amantes (afrófilos), não acho que os franceses estejam tão chocados com as manifestações de ódio e ressentimento que os atingem no Sahel. A maioria a vê de longe ou a aceita como um efeito normal do ressentimento do colonizado. Mas você não pode aceitar o mesmo se for um africano não-nacionalista, como eu. O nacionalismo é um moralismo humanamente perverso que tem, como disse certa vez André Gide, "ódio amplo e amor estreito". Ele surge como um bem absoluto e, portanto, precisa de um mal absoluto para se definir adequadamente. Para Zemmour, o Islã é esse mal absoluto que permite que a França se defina; para os anti-franceses - que parecem ser a maioria no Sahel de hoje - é a França. Uma das primeiras consequências de tal moralismo unificador é a total e definitiva impossibilidade de deliberar e discutir racionalmente, com base factual e pesando os prós e os contras.

      Recentemente dei uma aula em Niamey, para a qual criei um exercício de debate. Dividi a turma em vários grupos e fiz uma lista das causas que são comumente atribuídas aos conflitos no Sahel, incluindo a ideia hoje tão difundida na opinião pública saheliana de que agiria fora de um esquema francês. Cada grupo teve que se reunir por cerca de vinte minutos, desenvolver um argumento e apresentá-lo à classe respondendo às críticas e perguntas de seus colegas. Expliquei enfaticamente aos alunos que eles deveriam evitar respostas consensuais e que o grupo que mais me surpreendesse com um argumento bem elaborado ganharia um bônus. Foi para incentivá-los a "pensar fora da caixa", como se diz em inglês. Este foi geralmente um esforço desperdiçado, mas acima de tudo para o grupo que teve que lidar com a "causa" da maquinação francesa. Seguindo a retórica anti-francesa mais aceita, esse grupo argumentou que a guerra do Sahel havia sido conscientemente provocada pela França para explorar "nossos imensos recursos naturais". Isso não me surpreendeu, é claro, mas o que realmente me surpreendeu foi que os outros alunos criticaram esse grupo não por ter dito todas as coisas ruins que pensavam sobre a França, mas por não terem acusado o suficiente!

      Vi que estava na presença de um dogma, isto é, do não-pensamento que se apresenta sob a forma de um pensamento, uma espécie de castração do reflexo. Fiquei triste com isso pela França, mas especialmente por nós - porque essas pessoas, e todos aqueles que nutrem sua inclinação dogmática, deveriam ser as elites do Sahel, e essas são elites que, obviamente, em uma questão de urgência vital para o seu povo, não pensam. De alguma forma, a culpa é da França: ela é o diabo que corresponde a todos os nossos problemas e, portanto, dispensa pensar e deliberar.

      Outro exemplo: há pouco mais de um ano, eu estava em Ouagadougou com uma professora de direito que eu estava pensando em convidar para uma conferência. Ela me perguntou o que estava acontecendo no Níger. Na época, havia uma espécie de pequeno movimento insurrecional na região de Diffa que denunciou a ditadura do PNDS e atacou especificamente Bazoum Mohamed, então um dos analistas do PNDS, mas sobretudo originário da área. Tentei explicar do que se tratava, mas ela me cortou: “Isso é organizado pela França!" Um pouco pasmo, eu disse a ela, que não, que a França era muito alinhada do regime do PNDS e não tinha motivos para desestabilizá-lo, que na minha opinião tinha a ver com o fato de Bazoum, que era particularmente visado... Ela não me deixou desenrolar minha explicação chata, muito menos excitante para ela do que o diabolismo francês. Eu não podia acreditar: esta senhora não era nigerina, não tinha ouvido falar deste evento antes de eu a informar, mas ela estava convencida, cinco minutos depois de ouvi-lo, que ela o entendia melhor do que eu. A crença é mais forte que o conhecimento.

      Lembro-me que o que me frustrou, nos anos da minha primeira justa com os anti-franceses, há muito tempo, era que eu queria discutir com eles soluções práticas para se opor ao neocolonialismo, e eles queriam partir numa cruzada. Insisti prosaicamente nas realidades, e na importância de conhecer as realidades, incluindo as causas endógenas das nossas fraquezas e incapacidades, por exemplo a corrupção, a falta de sentido e preocupação com o Estado, a ausência de visão estratégica, obsessões étnicas onde obsessões são necessárias. Mas a resposta, sempre, era que enquanto a França não fosse derrotada, não se poderia lidar com essas questões - o que eu perguntei, questão de realidade, como se pretendia derrotar a França com todo o seu poder e todas as nossas fraquezas que, ao que parece, não eram prioridade. Nunca houve uma resposta para isso.

      (Claro que essas questões são abordadas de forma preocupada e responsável por muitos intelectuais do Sahel, mas nunca realmente de forma a ter o impacto no público que a linha de opinião aqui discutida tem. Não há, na região, intelectuais públicos ou de uma arena pública específica onde esses pontos de vista podem ter um significado quase compensatório).

      Ainda hoje, a mesma história. Dada a onda de sentimento anti-francês que agora atinge um vigor popular que não teve, ou que teve antes, todos aqueles que querem existir na praça pública e não querem se envolver com os rigores do pensamento, prova e contraditório, junte-se ao movimento e una-se com unanimidade. Eles uivam com os lobos. O populista não é aquele que lidera o povo, mas aquele que o segue para melhor explorá-lo - e as consequências!


      Os Estados do Sahel, que já são instáveis como​​ padrão, estão em processo de desestabilização diante do desafio de massacres e destruição (principalmente de escolas) pelos jihadistas. Em tal situação, aqueles que rejeitam o caminho seguido pelo poder, por exemplo a aliança com a França, não devem se contentar em denunciar esse caminho e exigir a renúncia dos que estão no poder: Eles têm que explicar o que fariam uma vez no comando, que caminho pretendem seguir e como pretendem resolver o problema quando a França for expulsa de campo. Mas a partir disso, nada é ouvido.

      As bombásticas conferências urbi et orbi proferidas urbi et orbi por políticos da oposição, "ulemás", acadêmicos até então escondidos em suas torres de marfim, e zelosamente transmitidas pelo WhatsApp, todas e sempre se relacionam com a eterna maldade da França, nunca em soluções práticas ou apresentações estratégicas. E por um bom motivo. Nenhum desses declamadores estudou a situação, perguntou a quem o fez ou quis saber mais. É verdade que certas realidades acabam por prevalecer. Em Burkina, onde a população está delirando com sua galofobia galopante, vozes devem ter se levantado contra a verdadeira razão das decepções do país que não é a França, mas o abandono do exército pelo poder do Estado - já no tempo de Blaise Compaoré, centrado nos generais leais e no Regimento de Segurança Presidencial (Régiment de la Sécurité Présidentielle)e agora no tempo de Roch Marc Christian Kaboré, muito assustado com os riscos dum putsch para reformar vigorosamente a máquina militar, como Macron havia dito em uma conversa "on record" com Antoine Glaser e Pascal Airault.

      Falei de nacionalismo - mas trata-se dum nacionalismo negativo, nacionalismo puramente de oposição e simbólico. A oposição à França, símbolo da opressão colonial, presta-se perfeitamente ao que é; em última análise não mais que uma petição de princípios, sem consequências práticas – embora a arma do ódio assim empregada possa sempre levar a consequências violentas. É esta arma que, no Níger, levou aos ataques de igrejas, com mortes, na sequência dos motins anti-Charlie (que foram também motins anti-franceses) de Niamey e Zinder. E ouvimos os declamadores burquinenses alegando ataques de dacarianos contra "interesses franceses", neste caso algumas lojas Auchan e Carrefour, como meio de sua "libertação". Dada a demonização dos cristãos e dos franceses que levaram a esses atos de violência, não posso deixar de pensar no anti-semitismo, na visão dos judeus que os anti-semitas têm como fonte de todas as misérias do mundo, na crença de que eles controlariam tudo e seu oposto em nome de interesses enormes e ocultos, e aos ataques às lojas judaicas e aos pogroms que resultaram.

      É claro que os franceses, ao contrário dos judeus, podem se defender - mas isso não impede que, nesta questão específica (mas que não é a única), os sahelianos estejam flertando com uma catástrofe moral.

      Como a França em Ruanda no passado, os sahelianos estão experimentando uma derrota do pensamento e um colapso intelectual.