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sexta-feira, 13 de maio de 2022

ENTREVISTA: Svetlana Alexievich, A Guerra não tem rosto de Mulher


Por Svetlana Alexievich, The Paris Review, 25 de julho de 2017.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 12 de maio de 2022.

Svetlana Alexievich, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura, é conhecida por seu tipo singular de colagem de história oral, que a Academia Sueca chamou de “uma história das emoções… uma história da alma”. Agora, seu primeiro livro, The Unwomanly Face of War: An Oral History of Women in World War II , publicado originalmente em 1985, foi traduzido do russo por Richard Pevear e Larissa Volokhonsky, que foram entrevistados para nossa série Writers at Work (Escritores Trabalhando) em 2015. Temos o prazer de apresentar um trecho abaixo.



Uma conversa com uma historiadora

Nós éramos uma carga alegre.

The Paris Review:
— Em que momento da história as mulheres apareceram pela primeira vez no exército?

— Já no século IV a.C. mulheres lutaram nos exércitos gregos de Atenas e Esparta. Mais tarde, eles participaram das campanhas de Alexandre, o Grande. O historiador russo Nikolai Karamzin escreveu sobre nossos ancestrais: “As mulheres eslavas ocasionalmente iam à guerra com seus pais e maridos, não temendo a morte: assim, durante o cerco de Constantinopla em 626, os gregos encontraram muitos corpos femininos entre os eslavos mortos. Uma mãe, criando seus filhos, os preparou para serem guerreiros.”

TPR: — E nos tempos modernos?

— Pela primeira vez na Inglaterra, onde de 1560 a 1650 começaram a equipar hospitais com mulheres soldados.

TPR: — O que aconteceu no século XX?

— O início do século... Na Inglaterra, durante a Primeira Guerra Mundial, as mulheres já estavam sendo levadas para a Royal Air Force. Um Corpo Auxiliar Real também foi formado e a Legião Feminina de Transporte Motorizado, que contava com 100.000 pessoas.

Na Rússia, Alemanha e França, muitas mulheres foram servir em hospitais militares e trens de ambulância.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o mundo foi testemunha de um fenômeno feminino. As mulheres serviram em todos os ramos das forças armadas em muitos países do mundo: 225.000 no exército britânico, 450.000 a 500.000 no americano, 500.000 no alemão…

Cerca de um milhão de mulheres lutaram no exército soviético. Eles dominavam todas as especialidades militares, incluindo as mais “masculinas”. Surgiu até um problema linguístico: até então não havia gênero feminino para as palavras motorista de tanque, infante, metralhador, porque as mulheres nunca haviam feito esse trabalho. As formas femininas nasceram ali, na guerra…

*

Maria Ivanovna Morozova (Ivanushkina)
Cabo, sniper

Esta será uma história simples… A história de uma garota russa comum, das quais havia muitas na época…

O lugar onde ficava minha aldeia natal, Diakovskoe, agora é o Distrito Proletário de Moscou. Quando a guerra começou, eu ainda não tinha dezoito anos. Tranças longas, muito longas, até os joelhos... Ninguém acreditava que a guerra duraria, todos esperavam que ela terminasse a qualquer momento. Expulsaríamos o inimigo. Trabalhei em um kolkhoz, depois terminei a faculdade de contabilidade e comecei a trabalhar. A guerra continuou... Minhas amigas... Diziam-me: “Devemos ir para a [linha de] frente.” Já estava no ar. Todas nós nos inscrevemos e tivemos aulas no escritório de recrutamento local. Talvez algumas tenham feito isso apenas para fazer companhia umas às outras, não sei. Ensinaram-nos a disparar um fuzil de combate, a lançar granadas-de-mão. No começo... confesso, eu tinha medo de segurar um fuzil, era desagradável. Eu não podia imaginar que iria matar alguém, eu só queria ir para a frente. Tínhamos quarenta pessoas em nosso grupo. Quatro meninas da nossa aldeia, então éramos todas amigas; cinco das aldeias vizinhas; em suma, algumas de cada aldeia. Todas elas meninas... Todos os homens já tinham ido para a guerra, os que podiam. Às vezes, um mensageiro vinha no meio da noite, dava duas horas para eles se aprontarem e eles eram levados. Eles podiam até mesmo serem retirados diretamente dos campos. (Silêncio.) Não me lembro agora — se tínhamos bailes; se tivéssemos, as meninas dançavam com as meninas, não havia mais meninos. Nossas aldeias ficaram quietas.


Logo veio um apelo do comitê central do Komsomol para que os jovens fossem defender a Pátria, já que os alemães já estavam perto de Moscou. Hitler tomar Moscou? Não vamos permitir! Eu não era a única… Todas as nossas meninas expressaram o desejo de ir para a frente. Meu pai já estava lutando. Pensávamos que éramos as únicas assim... Especiais... Mas chegamos ao escritório de recrutamento e havia muitas garotas lá. Eu apenas suspirei! Meu coração estava em chamas, tão intensamente. A seleção foi muito rigorosa. Em primeiro lugar, é claro, você tinha que ter uma saúde robusta. Eu tinha medo que eles não me levassem, porque quando criança eu ficava muitas vezes doente, e meu corpo era fraco, como minha mãe costumava dizer. Outras crianças me insultavam por causa disso quando eu era pequena. E então, se não havia outras crianças na casa, exceto a menina que queria ir para a frente, eles também recusavam: uma mãe não deveria ser deixada sozinha. Ah, nossas queridas mães! Suas lágrimas nunca secavam... Elas nos repreendiam, imploravam... Mas em nossa família restaram duas irmãs e dois irmãos — é verdade, eles eram todos muito mais novos do que eu, mas contava de qualquer maneira. Havia mais uma coisa: todo mundo do nosso kolkhoz tinha ido embora, não havia ninguém para trabalhar nos campos, e o presidente não queria nos deixar ir. Em suma, eles nos recusaram. Fomos ao comitê distrital do Komsomol e lá... recusa. Depois fomos como delegação do nosso distrito ao Komsomol regional. Houve grande inspiração em todos nós; nossos corações estavam em chamas. Novamente fomos mandadas para casa. Decidimos, já que estávamos em Moscou, ir ao comitê central do Komsomol, ao topo, ao primeiro secretário. Para levar até o fim... Quem seria nosso porta-voz? Quem era corajosa o suficiente? Pensávamos que com certeza seríamos as únicas ali, mas era impossível sequer mesmo entrar no corredor, quanto mais chegar até ao secretário. Havia jovens de todo o país, muitos dos quais estavam sob ocupação, querendo se vingar da morte de seus entes próximos. De toda a União Soviética. Sim, sim… Resumindo, ficamos até surpresas por um tempo…

À noite, chegamos à secretária, afinal. Eles nos perguntaram: “Então, como você pode ir para a frente se você não sabe atirar?” E dissemos em coro que já havíamos aprendido a atirar… “Onde? … Como? … E você pode aplicar bandagens?” Você sabe, naquele grupo no escritório de recrutamento nosso médico local nos ensinou a aplicar bandagens. Isso os calou, e eles começaram a nos olhar mais seriamente. Bem, tínhamos mais um trunfo nas mãos, que não estávamos sozinhas, éramos quarenta, e todas podíamos atirar e prestar primeiros socorros. Eles nos disseram: “Vão e esperem. Sua pergunta será decidida afirmativamente.” Como ficamos felizes quando partimos! Eu nunca vou esquecer... Sim, sim...

E, literalmente, em alguns dias, recebemos nossos papéis de convocação…

Chegamos ao escritório de recrutamento; entramos por uma porta de uma vez e fomos liberadas por outra. Eu tinha uma trança tão linda, e saí sem ela... Sem minha trança... Eles me deram um corte de cabelo de soldado... Também levaram meu vestido. Eu não tive tempo de enviar o vestido ou a trança para minha mãe... Ela queria muito ter algo meu com ela... Nós fomos imediatamente vestidas com camisas do exército, casquetes, recebemos kits e embarcados em um trem de carga - em palha. Mas palha fresca, ainda cheirando a campo.

Nós éramos uma carga alegre. Pretensiosa. Cheia de piadas. Lembro-me de rir muito.

Onde estávamos indo? Nós não sabíamos. No final, não era tão importante para nós o que seríamos. Desde que fosse na frente. Todo mundo estava lutando — e nós também estaríamos. Chegamos à estação Shchelkovo. Perto havia uma escola de atiradoras de elite femininas. Acontece que fomos enviadas para lá. Para nos tornar atiradoras. Todos nos regozijamos. Isso era algo real. Estaríamos atirando. Começamos a estudar. Estudamos os regulamentos: de serviço de guarnição, de disciplina, de camuflagem em campanha, de proteção química. Todas as meninas trabalharam muito duro. Aprendemos a montar e desmontar um fuzil de franco-atirador com os olhos fechados, a determinar a velocidade do vento, o movimento do alvo, a distância até o alvo, a cavar uma trincheira, a rastejar de bruços – já tínhamos dominado tudo isso. Só para chegar à frente o quanto antes. Na linha de fogo... Sim, sim... No final do curso tirei a nota máxima no exame para serviço de combate e não-combate. A coisa mais difícil, eu me lembro, foi levantar ao som do alarme e estar pronta em cinco minutos. Escolhemos botas um ou dois tamanhos maiores, para não perder tempo com elas. Tínhamos cinco minutos para nos vestir, colocar as botas e fazer fila. Houve momentos em que corríamos para nos alinhar com as botas sobre os pés descalços. Uma garota quase teve seus pés congelados. O sargento notou, repreendeu-a e depois nos ensinou a usar panos para os pés. Ele parou em cima de nós e murmurou: “Como vou fazer de vocês soldados, minhas queridas, e não alvos para Fritz?” Queridas meninas, queridas meninas... Todo mundo nos amava e tinha pena de nós o tempo todo. E nos ressentimos de terem pena. Não éramos soldados como todo mundo?

Bem, então chegamos à frente. Perto de Orsha... A sexagésima segunda Divisão de Infantaria... Lembro-me como hoje, o comandante, Coronel Borodkin, nos viu e ficou bravo: “Eles impingiram garotas em mim. O que é isso, algum tipo de dança de ciranda feminina? ele disse. “Corpo de balé! É uma guerra, não uma dança. Uma guerra terrível...” Mas então ele nos convidou, nos ofereceu um jantar. E nós o ouvimos perguntar ao seu ajudante: “Não temos algo doce para o chá?” Bem, é claro, ficamos ofendidas: o que ele pensa de nós? Viemos para fazer a guerra... E ele nos recebeu não como soldados, mas como menininhas. Na nossa idade, poderíamos ter sido suas filhas. “O que vou fazer com vocês, minhas queridas? Onde eles encontraram vocês?” Foi assim que ele nos tratou, foi assim que ele nos conheceu. E achávamos que já éramos guerreiros experientes... Sim, sim... Na guerra!

No dia seguinte ele nos fez mostrar que sabíamos atirar, como nos camuflar em campanha. Atiramos bem, melhor mesmo do que os atiradores de elite homens, que foram chamados da frente para dois dias de treinamento, e que ficaram muito surpresos por estarmos fazendo o trabalho deles.

Provavelmente foi a primeira vez em suas vidas que viram mulheres franco-atiradoras. Depois do tiro foi camuflagem em campanha... Veio o coronel, deu uma volta olhando a clareira, depois pisou num montículo — não viu nada. Então a “montinho” sob ele implorou: “Ai, camarada coronel, não aguento mais, você é muito pesado.” Como ríamos! Ele não podia acreditar que era possível se camuflar tão bem. “Agora”, disse ele, “retiro minhas palavras sobre as meninas”. Mas mesmo assim ele sofreu... Não conseguiu se acostumar conosco por muito tempo.

Então veio o primeiro dia de nossa “caçada” (assim os snipers chamam). Minha parceira era Masha Kozlova. Nós nos camuflamos e ficamos ali: estou de olho, Masha está segurando seu fuzil. De repente, Masha diz: “Atire, atire! Veja, é um alemão...”

Eu digo a ela: “Eu sou o vigia. Você atira!"

“Enquanto estamos resolvendo isso”, diz ela, “ele vai fugir”.

Mas insisto: “Primeiro temos que traçar o mapa de tiro, observar os marcos: onde fica o galpão, onde a bétula…”

“Você quer começar a brincar com papelada igual na escola? Eu vim para atirar, não para mexer em papelada!”

Vejo que Masha já está com raiva de mim.

"Bem, atire então, por que não?"


Estávamos brigando desse jeito. E enquanto isso, de fato, o oficial alemão dava ordens aos soldados. Uma carroça chegou, e os soldados formaram uma corrente e repassaram algum tipo de carga. O oficial ficou ali, deu ordens e depois desapareceu. Ainda estamos discutindo. Vejo que ele já apareceu duas vezes, e se não atirarmos nele novamente, será o fim. Nós vamos perdê-lo. E quando ele apareceu pela terceira vez, foi apenas momentâneo; agora ele está lá, agora ele se foi - eu decidi atirar. Eu decidi, e de repente um pensamento passou pela minha mente: ele é um ser humano; ele pode ser um inimigo, mas é um ser humano — e minhas mãos começaram a tremer, comecei a tremer toda, fiquei com calafrios. Algum tipo de medo... Esse sentimento às vezes volta para mim em sonhos mesmo agora... Depois dos alvos de compensado, era difícil atirar em uma pessoa viva. Eu o vejo na mira telescópica, eu o vejo muito bem. Como se ele estivesse perto... E algo em mim resiste... Algo não me deixa, não consigo me decidir. Mas me controlei, puxei o gatilho... Ele balançou os braços e caiu. Se ele estava morto ou não, eu não sabia. Mas depois disso estremeci ainda mais, uma espécie de terror tomou conta de mim: matei um homem?! Eu tive que me acostumar até mesmo com esse pensamento. Sim... Resumindo — horrível! Eu nunca esquecerei isso…

Quando voltamos, começamos a contar ao nosso pelotão o que havia acontecido conosco. Eles convocaram uma reunião. Tínhamos uma líder do Komsomol, Klava Ivanova; ela me assegurou: “Eles deveriam ser odiados, não lamentados...” Seu pai havia sido morto pelos fascistas. Começamos a cantar e ela nos implorava: “Não, não, queridas meninas. Vamos primeiro derrotar esses vermes, então vamos cantar.”

E não de imediato... Não conseguimos de imediato. Não é tarefa de uma mulher – odiar e matar. Não para nós... Tivemos que nos persuadir. Para nos convencermos disso…

Unwomanly Face of War:
An Oral History of Women in World War II.
Traduzido do russo por Richard Pevear e Larissa Volokhonsky.

Versão brasileira:

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher.
Traduzido do russo por Cecília Rosas.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

França no Sahel: 70 gendarmes reitores destacados no exterior

Por Pascal Simon, Ouest-France, 28 de março de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 10 de fevereiro de 2022.

Todos são voluntários, provenientes das brigadas departamentais da gendarmaria no Hexágono (França metropolitana). Policiais judiciários, os reitores são enviados aos quatro cantos do mundo, ao lado das forças militares francesas. Uma missão desconhecida.

A missão da Polícia Judiciária Militar é a atividade principal da Gendarmerie prévôtale.
(COMMANDEMENT DE LA GENDARMERIE PRÉVÔTALE)

Registar um acidente rodoviário, estabelecer contatos com as autoridades locais, procurar informações no terreno ou recolher os elementos de um dossiê em caso de infração, crime ou acidente... Tantas missões que um gendarme realiza no dia-a-dia dia. Mas eles o fazem fora da França continental, o mais próximo possível de unidades militares e, às vezes, em zonas de guerra. Eles são os oficiais da Gendarmerie prévôtale (Gendarmaria reitora).

Suas raízes remontam ao édito de 1373 do rei Carlos V, fundador da polícia, a prévôté é hoje prevista pelo código de justiça militar.

Força de polícia judiciária militar, seu uso foi renovado em 2013 com a criação do Comando da Reitoria (Commandement de la gendarmerie prévôtale, CGP) e da Brigada de Pesquisa da Reitoria, unidade especializada de polícia judiciária com jurisdição nacional.

O CGP seleciona e prepara policiais judiciários das unidades departamentais da gendarmaria e voluntários para partir em missão de reitoria. Uma missão que pode durar quatro meses como parte de uma operação externa (opération extérieure, Opex) como aquela da Barkhane, no Mali.

Entrevista

General Frédéric Bonneval, Comandante da Gendarmerie prévôtale.

General Frédéric Bonneval, Comandante da Gendarmerie prévôtale.

Colisão entre dois helicópteros, discussão violenta entre dois soldados... No Mali, esses eventos destacaram o trabalho da Gendarmaria. Qual é a sua missão?

A missão da Polícia Judiciária Militar é a atividade principal da Gendarmerie prévôtale. Seu uso está sob a autoridade do Ministério Público de Paris e exercido sob a responsabilidade do Chefe do Estado Maior das Forças Armadas (CEMA).

A Gendarmerie prévôtale também realiza missões de polícia geral, apoio (escolta, proteção, contencioso, estado civil, participação em operações, etc.) e missões de inteligência em benefício da força militar que ela acompanha no exterior. A Prévôté não é de fato competente em tempos de paz no território nacional.

O seu papel é, portanto, também contribuir, através da sua ação, para a proteção da Força e dos militares e suas famílias.

Quais são os números da Gendarmerie prévôtale hoje e em quais países eles estão engajados?

Sob a orientação e controle do Comando da Gendarmerie prévôtale (CGP), seis destacamentos de reitores "permanentes" são apoiados pelas forças de presença francesa no exterior na Alemanha, Djibuti, Emirados Árabes Unidos, Gabão, Senegal e Costa do Marfim.

Destacamentos de reitores de "circunstâncias" vêm em apoio às operações externas dos exércitos. Atualmente, existem oito destacamentos no Mali, Níger, Chade, República Centro-Africana, Estônia, Jordânia, Líbano e Estados Unidos da América como parte de um exercício franco-americano.

A Gendarmerie prévôtale está desdobrada em todo o mundo, com forças francesas estacionadas no exterior ou projetadas em operações externas.

Assim, para além dos 18 militares do CGP e da Brigada de Investigação de Reitoria (Brigade de recherche prévôtale, BRP) estacionados em Maisons-Alfort, cerca de 70 oficiais e suboficiais da Gendarmaria estão atualmente destacados como reitores no estrangeiro.

A prévôté é suficientemente conhecido para recrutar o número de gendarmes necessários para as missões?

É muito conhecido do ponto de vista histórico, mas o detalhamento de suas missões e sua ação em 2021 é necessariamente menor porque é uma missão muito específica, mesmo que não esteja tão distante.

O boca a boca, no entanto, funciona muito bem nas fileiras. Isso atrai a atenção de potenciais candidatos que têm os meios para indagar com mais precisão.

Um gendarme da prévôté que controla o desembarque de veículos blindados do Exército francês desdobrados nesta primavera de 2021 na Estônia como parte da Operação Lynx.
(COMMANDEMENT DE LA GENDARMERIE PRÉVÔTALE)

Como resultado, o número de voluntários é muito importante. A seleção é, portanto, forte, sabendo que apenas recrutamos OPJs confirmados. Apenas alguns dos soldados da Gendarmaria, principalmente oficiais da Gendarmaria departamental, podem se inscrever.

Temos, portanto, muitos bons candidatos e a dificuldade é sobretudo poder eliminá-los sem que saiam em missão penalizando em demasia a unidade a que pertencem, ainda que no final todos saiam vencedores. Porque esta missão contribui para fortalecer a capacidade “militar” e de resiliência dos nossos quadros.

A intensidade ou mesmo a rusticidade das missões de reitoria pode desacelerar as aplicações?

Não para nossos voluntários que se candidatam a uma missão de reitoria sem saber seu destino. É o CGP que constitui destacamentos compostos por soldados com perfis heterogêneos para serem complementares.

Um gendarme da prévôté, inserido num comboio da força militar francesa Barkhane, no Mali.
(COMMANDEMENT DE LA GENDARMERIE PRÉVÔTALE
)

O oficial de polícia judiciária (officier de police judiciaire, OPJ), portanto, não sabe se irá para o Mali ou para a Estônia quando se candidatar. A rusticidade e as condições de vida e empenho não são, portanto, um obstáculo e todos estão preparados para o contexto atual mais abrasivo, nomeadamente o Mali.

Além disso, você pode estar engajado em um país e ter que ir em missão em um ambiente mais difícil. Portanto, preparamos todos eles para que, se necessário, estejam perfeitamente em seu lugar com os camaradas das forças armadas em situações difíceis.

As mulheres estão se juntando às fileiras da Gendarmerie prévôtale?

Todos os anos, os graduados são voluntários. Para o próximo ciclo de partidas, temos oito mulheres entre pouco menos de 80 OPJs selecionados. Atualmente, o major que comanda a brigada em Gao é uma mulher, o chefe do destacamento em Bangui é uma capitã e uma chefe acaba de chegar com o socorro do Líbano.

Ajudante Nathalie, fotografada há dois anos, durante seu desdobramento na Gendarmerie prévôtale para a Operação Barkhane.

Uma subtenente está designada para Djibuti por três anos em uma brigada "permanente", e a brigada de pesquisa de reitoria também tem duas investigadoras.

As forças armadas e a gendarmaria são feminizadas, de modo que as prévôts naturalmente têm seu lugar nas fileiras dos destacamentos.

Como você vê a evolução da reitoria nos próximos anos?

Há algumas semanas, tive a oportunidade de twittar fotos de nossos "antigões", engajados como reitores durante a Operação Daguet, há 30 anos. Foi uma homenagem, mas também uma oportunidade de relembrar uma operação diferente das que conhecemos hoje. Mas os reitores estavam lá e tomaram seu lugar.

A Gendarmerie prévôtale foi desdobrada no Líbano ao lado de soldados franceses que vieram em socorro após a explosão no porto de Beirute.

As operações evoluem, os contextos evoluem, o quadro legal também evoluiu, mas a reitoria deve ser capaz de acompanhar os exércitos nos seus locais de engajamento, desdobramento ou exercício, por mais diferentes que sejam.

Isso é o que temos feito há séculos e a criação bastante recente do CGP visa melhor atender às necessidades atuais das forças armadas; adaptabilidade sendo uma qualidade cardinal do reitor.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

ENTREVISTA: Mercenários Wagner na Síria

Por John Sparks, Sky News, 10 de agosto de 2016.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 8 de fevereiro de 2022.

Revelado: os "mercenários secretos" da Rússia na Síria.

John Sparks, correspondente em Moscou da Sky News, fala com homens que afirmam que foram treinados e voaram em aviões militares russos para ajudar as tropas leais a Bashar al-Assad.

Se a Rússia é uma nação em guerra, o Kremlin sempre teve o cuidado de enquadrar sua campanha na Síria como uma operação aérea. Além de um número limitado de "instrutores e conselheiros militares", as autoridades russas afirmaram repetidamente que não precisam colocar "botas no chão".

Um dos ex-mercenários que afirma ter sido treinado e enviado para lutar na Síria.

A narrativa russa de conflito de baixo custo foi seriamente desafiada, no entanto, por um grupo de jovens russos que afirmam que o envolvimento de seu país na Síria é muito mais extenso - e mais caro - do que qualquer um no governo do presidente Putin está preparado para admitir. Esses indivíduos disseram à Sky News que foram recrutados por uma empresa militar privada altamente secreta chamada "Wagner" e levados para a Síria a bordo de aviões de transporte militares russos.

Exclusivo: Soldados Secretos da Rússia lutando na Síria

Pelo equivalente a £ 3.000 por mês (R$ 21.421,20), eles dizem que foram jogados em batalhas e tiroteios com facções rebeldes - incluindo o Estado Islâmico. Dois do grupo, Alexander e Dmitry, disseram à Sky News que se sentiam sortudos por estarem vivos.

"É 50-50", disse Alexander (nome fictício). "A maioria das pessoas que vão lá pelo dinheiro acaba morta. Aqueles que lutam por ideais, para lutar contra os americanos, forças especiais americanas, alguma ideologia - eles têm uma chance melhor de sobrevivência."

"Aproximadamente 500 a 600 pessoas morreram lá", afirmou Dmitry. "Ninguém nunca vai descobrir sobre eles... essa é a coisa mais assustadora. Ninguém nunca vai saber."

Mercenários russos supostamente lutaram no leste da Ucrânia.

O primeiro-ministro do país, Dmitry Medvedev, alertou em fevereiro que o envio de tropas terrestres por potências estrangeiras poderia resultar em uma "guerra mundial". Ele parece ter excluído o uso de mercenários russos desse cálculo, no entanto - embora os analistas não estejam surpresos.

O envio de contratados militares é consistente com a visão russa da "guerra híbrida", de acordo com o analista militar Pavel Felgenhauer. Ele disse: "Obviamente (Wagner) existe. Esses tipos de 'voluntários' aparecem em diferentes zonas de guerra, onde o governo russo quer que eles apareçam. Então, primeiro na Crimeia, depois no Donbass, agora na Síria. Mas eles não foram legalizados até agora."

As empresas militares privadas são proibidas pela constituição russa - mas isso não é algo que parece incomodar o homem que dirige a operação.

A única imagem conhecida do líder sombrio do Grupo Wagner, Nikolai Utkin.
(Foto: Fontanka)

Um ex-soldado das forças especiais, ele é conhecido por seus homens como Nikolai Utkin. A única foto conhecida do senhor Utkin foi publicada no início deste ano pelo jornal Fontanka, de São Petersburgo. O jornal o descrevia como um aficionado da estética e ideologia do Terceiro Reich nazista alemão. Seu nome-de-guerra, Wagner, é considerado uma homenagem ao compositor favorito de Hitler.

A empresa recrutou centenas de homens online, publicando anúncios temporários em salas de bate-papo com temas militares em um popular site russo.

Os homens dizem que foram levados da Rússia para a Síria em aviões militares russos.

A Sky News obteve um registro de uma conversa entre um recruta e um agente Wagner. Lê-se:

Recruta: Ouvi dizer que Wagner está procurando caras. Eu estava no exército em ..... divisão.

Wagner: Em que tipo de forma física você está?

Recruta: Eu posso correr 10km. Eu posso fazer 20 barras.

Wagner: Você consegue fazer 3km em 13 minutos?

Recruta: Com certeza! No exército eu fazia 11km em 40 minutos.

Wagner: Você tem algum problema com a lei, dívidas?

Recruta: Eu tenho um problema com dinheiro. Quero comprar um apartamento.

Wagner: Você tem passaporte válido para viajar?

Recruta: Sim, claro.

Wagner: Ok, venha para Molkino. Você tem uma grande chance de ser selecionado.

Molkino é uma pequena vila no sul da Rússia que abriga uma base de forças especiais do Ministério da Defesa. Parte da base foi entregue ao Grupo Wagner para seleção e treinamento de recrutas.

Alexander, que realizou várias missões na Síria, disse estar ciente de homens de todas as habilidades sendo aceitos para treinamento - mesmo aqueles que nunca dispararam uma arma. Ele disse que o treinamento - que geralmente dura de um a dois meses - foi intenso.

Ele acrescentou: "Se a pessoa não foi do exército, ele é treinado desde o nível zero. Eles são ensinados a ser soldados de infantaria - a bucha de canhão usual. Se a pessoa serviu na artilharia, reconhecimento, brigadas de assalto - suas habilidades são polidas... eles ensinam você a dirigir e usar absolutamente todo o equipamento que eles têm."

Dmitry disse que os recrutas receberam um kit "padrão da OTAN" para praticar.

Alguns dos homens com quem a Sky News falou dizem que participaram da batalha por Palmira.

Ambos os homens logo se viram destacados para a principal base russa na costa síria. Alexander disse que ele foi acompanhado por mais de 500 homens.

"Havia 564 soldados comigo e fomos colocados na base", acrescentou. "Tínhamos duas companhias de reconhecimento, uma companhia de defesa anti-aérea, dois grupos de assalto e tropas de infantaria, além de artilharia pesada, tanques e assim por diante."

Dmitry disse que se juntou a 900 outros - mas teve dúvidas na chegada. Ele trabalhou anteriormente como secretário de escritório e tinha pouca experiência militar. "Chegamos à noite no aeroporto", disse ele. "Como se chama? Hmay? Hymeem? Hhmemeen? (Khmeimim). Então fomos colocados em caminhões. Para ser honesto, eu estava com medo. Não tenho uma constituição forte e não era muito bom nos exercícios".

Os combatentes Wagner acusaram seus comandantes de enviá-los em "missões suicidas" destinadas a "suavizar" a oposição antes que as tropas do Exército sírio fossem enviadas. Alexandre relembrou a batalha pela cidade de Palmira, realizada no início deste ano (2016). Ele disse:

"Durante o assalto a Palmira, fomos usados como bucha de canhão. Pode-se dizer isso. O reconhecimento avançou primeiro para que pudessem observar e relatar. Eu conhecia três naquele grupo - dois morreram antes de chegarem à cidade. Da minha companhia de assalto, 18 morreram. Depois de nós, aquelas galinhas covardes do exército de Assad seguiram e terminaram o serviço, mas nós fizemos a maior parte do trabalho."

O número oficial de russos mortos na Síria é de 19. No entanto, os combatentes Wagner disseram à Sky News que acreditavam que centenas de seus colegas de trabalho foram mortos.

Eles acusam as autoridades de encobri-las.

"Quem vai te contar sobre isso? Às vezes os corpos são cremados, mas os jornais dizem 'eles estão desaparecidos'. Às vezes os documentos dizem que o soldado foi morto em Donbass (leste da Ucrânia). Às vezes eles dizem 'acidente de carro' e assim por diante", afirmou Alexandre.

Fotos capturadas por combatentes do Estado Islâmico parecem mostrar mercenários russos na Ucrânia.

Dmitry afirmou que centenas de homens foram deixados na Síria. "Às vezes eles estão enterrados, às vezes não", disse ele. "Às vezes eles apenas cavam um buraco. Depende de como os comandantes se sentem em relação à pessoa".

Ele está de volta a Moscou agora, mas diz que a experiência ainda o persegue. Quando ele assinou com o Grupo Wagner, Dmitry entregou seus documentos de identificação pessoal - uma parte essencial da vida na Rússia. Ao retornar, ele voltou à base de treinamento para recuperar seus documentos, mas foi preso pela polícia. Um oficial lhe disse, inequivocamente, que o Grupo Wagner "não existe".

Dmitry disse à Sky News que há outros 50 homens - sobreviventes do Grupo Wagner - agora andando pelas ruas de Moscou, traumatizados e sem documentos.

"Ninguém me conhece", disse ele. "Eles simplesmente me jogaram fora".

Bibliografia recomendada:

"Wagner Group":
Africa's Chaos is an Economic Boom.

Leitura recomendada:



quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

ENTREVISTA: "A Legião vai muito bem!"

General de Saint-Chamas já como um 4 estrelas.
Na época da entrevista, ele era 2 estrelas.

Por Jean-Dominique Merchet, jornalista do Marianne, 28 de abril de 2012.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 28 de julho de 2012.

Uma entrevista com o general de Saint-Chamas, comandante da Legião Estrangeira, na ocasião das cerimônias do Camerone.

Essa segunda-feira 30 de abril, a Legião Estrangeira celebra o Camerone, sua festa tradicional que comemora o sacrifício de seus homens, em um combate no México em 1863. As cerimônias do Camerone serão, neste ano, uma homenagem particular à Batalha de Bir Hakeim, que completa seu 70º aniversário. Durante a cerimônia, na “maison-mère” de Aubagne, a mão do capitão Danjou será carregada por Hubert Germain, 91 anos, companheiro da Libertação, ex-ministro e veterano da 13ª DBLE – o último oficial da Legião vivo a ter participado deste combate da França Livre.

Durante a cerimônia, o padre Yannick Lallemand, capelão da Legião, será promovido ao posto de Comendador da Legião de Honra. O “Padre” é uma figura dos paras e da Legião. Presente em Beirute por ocasião do atentado contra o Drakkar (1983), ele é atualmente muito ativo em ajudar os feridos. Enfim, o chefe de estado-maior dos exércitos, o almirante Edouard Guillaud será feito “caporal d’honneur” da Legião Estrangeira, uma distinção excepcional.

Na ocasião do Camerone, quisemos rever a Legião atual, com o “Père Légion”, apelido tradicional do general comandante da Legião Estrangeira (COM.LE), Christophe de Saint-Chamas. Este oficial comandou em especial o 1º REC e fez uma estadia de 13 meses no Afeganistão antes de chegar à Aubagne.


Como vai a Legião?

Muito bem! Seu recrutamento é excelente. A Legião atrai e, além, é a França que atrai homens provenientes de 150 países. Nós somos um vetor de influência nacional.

De onde eles vêm?

De todos os lugares. Na última seção de 50 homens que nós tivemos de integrar, havia cerca de trinta nacionalidades. Historicamente, o recrutamento está ligado às crises políticas: havia os russos brancos, os republicanos espanhóis, os alemães pós-guerra, o Leste da Europa após a queda do muro... Hoje, cerca de um quarto do nosso recrutamento se efetua sempre na Europa distante, à Leste. Mas nós temos doravante muitos asiáticos (cerca de 10%). Eles vêm até nós através da China ou da Mongólia. Nossa preocupação é de manter um equilíbrio de modo a que o amálgama possa ocorrer.

A internet se tornou um instrumento essencial: nosso site de recrutamento existe em quinze línguas. Mas nós não recrutamos fora do território metropolitano: é necessário que o candidate venha até nós por seus próprios meios, isso constitui uma primeira prova de sua motivação ao engajamento.

E os franceses?

Os “gauleses” – os franceses – não representam mais que 10% à 15% de nosso recrutamento. O total de francófonos, entre 20 e 25%. É uma situação diferente daquela que nós conhecíamos há vinte ou trinta anos, quando a metade do recrutamento era francófona. Nós não podemos mais praticar a “binomage” para a aprendizagem do francês (um francófono e um não-francófono), mas nós usamos a “quadrinomage”.


Quantos homens vocês recrutam por ano?

Nosso biorritmo é de cerca de 1000. Nós temos conseguido mais no decorrer desses últimos anos – até 1400. Nós estamos abaixo esse ano, cerca de 800. Deve ser dito que nosso efetivo global decresceu, em 600 postos em três anos. Nossos efetivos são, atualmente, de 7334, dos quais 7000 servem à título estrangeiro: esses são todos os legionários e graduados, mesmo que a Legião também conte com alguns graduados do exército, apelidados de “quadros brancos”, para os postos de especialistas.

Qual é a sua taxa de seleção?

Um em cada oito, podemos dizer que temos como escolher. Isso mostra que o nível geral é bem elevado: 13,5/20. Temos que acabar com uma mitologia: nós não recrutamos criminosos que se fariam esquecer ao se engajar na Legião! Certamente, nossos homens são frequentemente feridos na vida, que vêm a nós atrás de um recomeço com a vontade de mudar. O ministro da Defesa confia ao general COM.LE a responsabilidade do pessoal servindo à título estrangeiro.


Havia sempre muitos desertores na Legião. E quanto a 2012?

Vamos primeiros examinar a noção de desertor. Eles são estrangeiros, e eles podem ter vontade de ir pra casa, não é porque será melhor, eles estão com saudades de casa ou por um capricho que vem à cabeça. O que podemos falar com certeza, é a taxa de atrito: ela é de 22% durante os seis primeiros meses e de 10% nos seis meses seguintes. Isso significa que um engajado entre três (32%) nos deixa durante o primeiro ano. Conservar em nossas fileiras os legionários que fizeram a corajosa escolha de se engajar continua a ser um objetivo permanente para nós.

Eles se engajam sempre sob uma identidade falsa?

De novo um mito! Não existe anonimato na Legião. Existem duas situações enquadradas pela lei: “a identidade presumida real” e a “identidade declarada”. 80% dos engajados preferem a primeira solução – eles se engajam sob o próprio nome. Mas devemos ter cuidado: a identidade presumida real não significa necessariamente a identidade real. O engajado pode chegar com documentos que parecem verdadeiros, mas que são falsos. Nós devemos verificar em seus países de origem e isso pode levar vários meses.

O “estatuto estrangeiro” limita seus direitos civis, por exemplo, para a abertura de uma conta bancária. Como funciona?

Na França, para permitir a abertura de uma conta bancária, o banqueiro deve se certificar da identidade do seu cliente. Nesse contexto, a Legião veio a estabelecer uma nova parceria com o Crédit Agricole Alpes-Provence, que permite ao legionário sob identidade declarada possuir uma conta bancária e um cartão de débito.

Houve alguns incidentes infelizes no seio de suas unidades, sobre tratamentos degradantes. O que o senhor faz para evita-los?

Primeiro, devemos ser humildes e não penso que isso não possa acontecer novamente. É um combate permanente sobre o estilo de comando para todas as unidades do exército. Eu faço um esforço particular sobre os jovens tenentes: vocês não devem ser “mitos”? Procuro oficiais capazes de sentirem rapidamente que os legionários que abandonaram tudo têm grandes expectativas de seus superiores – e em particular que eles criem vínculos, respeito recíproco e confiança. Que as coisas fiquem claras: a Legião não está acima da lei! Não existe imunidade própria à Legião que nos permita ignorar leis e regulamentos. E eu não estou lá para encobrir erros de comando.

A Legião protege os legionários do seu próprio passado. Ou mais precisamente contra o passado que eles nos declararam no engajamento. Se o legionário se engaja dizendo que ele é procurado em seu país por um roubo de carro, é uma coisa. Mas se nós ficamos sabendo depois que ele também é procurado pela morte de cinco pessoas em sua cidade, é outra. E nós o entregaremos à Justiça.


Ainda não há mulheres na Legião?

Sim, existem alguns oficiais e graduados femininos – e as coisas vão muito bem. Mas o recrutamento estrangeiro não é aberto às mulheres. A formação básica exige muita intimidade. No primeiro mês, os homens vivem juntos em uma fazenda do 4º Regimento Estrangeiro. Essa pedagogia garante uma amálgama rápida e uma integração de todas as culturas.

A presença de mulheres provocaria tensões e ciúmes entre os legionários em um ambiente muito frágil. E a principal dificuldade virá da diferença de cultura e de abordagem, de um país a outro, com relação à mulher.

Todos os legionários se tornam franceses ao final do seu engajamento?

Eles devem primeiro expressar o interesse e esse não é sempre o caso. Alguns voltam para casa e não desejam permanecer na França. Cada legionário é livre para escolher. Em média, existem de 200 à 250 naturalizações por ano. Se levarmos em conta que 1000 homens se engajam a cada ano e que um terço se vai durante o primeiro ano, isso significa que um legionário em três se tornará francês. Desde 1999, existe uma lei, adotada por unanimidade, que permite aos feridos em operação e que desejam ter acesso total à nacionalidade francesa. Este é o princípio de adquirir a nacionalidade francesa “Par le sang versé” ("Pelo sangue vertido").


- Jean-Dominique Merchet é especialista em questões militares pelo Instituto de Altos Estudos de Defesa Nacional (Institut des Hautes Études de Défense Nationale – IHEDN).

Bibliografia recomendada:

Legião Estrangeira:
Um brasileiro em suas fileiras.
Luís Bouchardet.

Tempos de Inquietude e de Sonho.
Raul Soares da Silveira.

A Legião Estrangeira.
Douglas Boyd.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

ENTREVISTA: O Tenente-Coronel Robert K. Brown da Soldier of Fortune

O Ten-Cel Robert K. Brown.
(Foto de Ben Philippi)


Por John Crump, Ammoland, 24 de abril de 2018.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 12 de janeiro de 2022.

EUA – Em 1975, a revista Soldier of Fortune (Soldado da Fortuna) chegou às prateleiras de revistarias em todos os lugares. Era descaradamente pró-armas e pró-militar numa época onde isso não era moda. O envolvimento direto das forças armadas americanas na Guerra do Vietnã terminou dois anos antes, e Saigon cairia em abril deste ano. Em casa, o grupo terrorista estudantil radical, “The Weather Underground”, ainda estava bombardeando prédios do governo dos EUA.

Ninguém pensou que esse tipo de revista faria sucesso na década de 1970, exceto o fundador da revista, o Tenente-Coronel Robert K. Brown.

O Tenente-Coronel Robert K. Brown com a boina verde das Forças Especiais no Vietnã acompanhado de um amigo, por volta de 1969.

O Tenente-Coronel Brown foi um Boina Verde do Exército, um veterano do Vietnã e um ganhador da Estrela de Bronze. Ele entendia de guerra e sabia publicar, o que lhe dava um conjunto de habilidades único que o serviria bem. Ele combinou esses talentos para criar uma das revistas mais famosas e às vezes infames da história das publicações.

As referências da cultura pop à Soldier of Fortune estão espalhadas por filmes, TV, livros e até vídeo games. Muitas vezes eu me perguntava o que os fundadores da Soldier of Fortune pensavam sobre o impacto duradouro da revista na sociedade. Quando a Ammoland me ofereceu a oportunidade de entrevistar o Tenente-Coronel Brown, eu sabia que tinha que fazer isso.

John: Em primeiro lugar, deixe-me agradecer por seu serviço ao nosso país. Como marido de alguém que serviu nas Forças Armadas, todos que serviram significam muito para mim.

Tenente-Coronel Brown: Mucho obrigado!

John: Você serviu nas Forças Especiais durante o Vietnã. O que fez você querer se juntar aos Boinas Verdes?

Ten-Cel Brown: Eu estava envolvido no apoio a Castro na época e, posteriormente, ajudei os cubanos anti-Castro na tentativa de derrubá-lo. Consequentemente, desenvolvi um interesse e uma apreciação pela guerra não-convencional.

I Am Soldier of Fortune:
Dancing with Devils.
Robert K. Brown e Vann Spencer.

John: Em seu livro, I Am Soldier of Fortune: Dancing with Devils, você falou sobre ser expulso dos Boinas Verdes duas vezes. O que fez você ser expulso e como você voltou para os Boinas Verdes?

Ten-Cel Brown: A primeira vez foi porque o Exército falhou em atualizar minha autorização de segurança... Top Secret... antes de me designar para as Forças Especiais quando me ofereci para ir ao Nam. Quando o Exército descobriu que eu havia retornado às Forças Especiais no Nam devido ao meu puxão de cordas, eles me expulsaram pela segunda vez.

John: Você se tornou um editor em 1970 ao fundar a Paladin Press e então em 1975 você fundou a revista Soldier of Fortune. Como você passou de Boina Verde para editor?

Ten-Cel Brown: Fundei a Panther Publications em 1963 durante a auto-publicação de “150 Questions for a Guerrilla” (“150 Perguntas para um Guerrilheiro”), de autoria do “General” Alberto Bayo, que treinou Castro e seu grupo inicial de revolucionários que então invadiram Cuba em 6 de dezembro 1956. Tornei-me brevetado nas Forças Especiais em 1966 após concluir o Curso de Oficiais das Forças Especiais em Ft. Bragg. Depois de voltar do Nam, juntei-me ao veterano do Vietnam Peder Lund para formar a Paladin Press em 1970. Em 1974, vendi minha participação na Paladin para Lund... e fui para a guerra de mato na Rodésia.

John: Soldier of Fortune teve um enorme impacto na cultura popular. Inúmeros livros, filmes e programas de TV fazem referência a essa revista. Surpreende-o o quão conhecido se tornou?

Ten-Cel Brown: A SoF foi tema de vídeo games dos mais vendidos da Activision, teve uma série de TV que durou 40 episódios, teve uma edição russa por alguns anos, além de publicar 20 romances de aventura com o logotipo da SoF. Quando comecei a SoF, as pessoas da indústria editorial diziam que eu era louco! Se alguém viesse a mim com um projeto semelhante sabendo tão pouco quanto eu sobre publicação, eu diria a mesma coisa.

O Tenente-Coronel Robert K. Brown no Afeganistão, por volta de 1989.

John: Você mora em Boulder, no Colorado. A Câmara Municipal de Boulder acaba de aprovar uma proibição de “armas de assalto”. Tem que passar mais duas vezes antes de se tornar uma ordenança. Você planeja desistir de suas armas semiautomáticas se isso se tornar uma ordenança?

Ten-Cel Brown: Certamente você está brincando!

John: Como você planeja resistir ao empurrão para pegar as armas?

Ten-Cel Brown: Nunca dê ao inimigo uma visão de seus planos.

John: Você mora em Boulder há muito tempo. Como isso mudou desde que você se mudou para lá?

Ten-Cel Brown: Para pior. Muita gente... com uma mentalidade anti-armas “progressista”. Juro que a Câmara Municipal, está no bolso dos promotores à medida que vai construindo, construindo, construindo.


John: A vereadora Jill Adler Grano afirma que a Segunda Emenda não protege fuzis como o AR15. O que você diria a ela se ela fizesse esse comentário para você?

Ten-Cel Brown: A arrogância de JA Grano só é superada por sua ignorância. Ela e o resto da Câmara Municipal, bem como o procurador da cidade, que parece uma doninha corrupta, não conseguiram demonstrar como a proibição de fuzis esportivos modernos e carregadores estendidas impedirá que atiradores ativos ataquem nossas escolas. Tudo o que esses trolls repugnantes e miseráveis estão fazendo é tornar criminosos os cidadãos honestos... acariciando seus egos atrofiados e imaturos tentando enganar o público que eles estão "...fazendo alguma coisa".

John: Você acha que a multidão anti-armas está explorando as tragédias como o tiroteio em Parkland para empurrar o controle de armas, ou você acha que eles se importam com as crianças?

Ten-Cel Brown: Se eles levassem a sério a proteção das crianças, eles colocariam segurança armada nas escolas.

John: Você acha que essas proibições de armas eventualmente vão para todo o país?

Ten-Cel Brown: Não.

John: O que podemos fazer para lutar contra a invasão sobre nossos direitos da Segunda Emenda?

Ten-Cel Brown: Envolva-se no processo político... vote... leve sua família e amigos às seções eleitorais. Junte-se ao NRA!

O Ten-Cel Robert K. Brown em uma recente e bem-sucedida caçada ao ursos.

John: Onde as pessoas podem comprar seu livro?

Ten-Cel Brown: SOFMAG.COM

John: Alguma outra coisa que você gostaria que os leitores da Ammoland soubessem?

Ten-Cel Brown: “Aqueles que transformam suas armas em arados irão arar para aqueles que não o fizerem.” Thomas Jefferson. E, desde que você possa puxar um gatilho, você é relevante.

Embora a Soldier of Fortune tenha encerrado sua edição impressa em 2016, ela ainda pode ser encontrada online no site sofmag.com.

Sobre John Crump

John é instrutor da Associação Nacional de Fuzis (National Rifle Association, NRA) e ativista constitucional. Ele é o ex-CEO da Veritas Firearms, LLC e é o co-apresentador do The Patriot News Podcast, que pode ser encontrado em www.blogtalkradio.com/patriotnews. John escreveu extensivamente sobre o movimento patriota, incluindo 3%’ers, Oath Keepers e Militias. Além do movimento Patriot, John escreveu sobre armas de fogo, entrevistou pessoas de todas as esferas da vida e sobre a Constituição. John mora no norte da Virgínia com sua esposa e filhos e atualmente está trabalhando em um livro sobre a história do movimento patriota e pode ser seguido no Twitter em @crumpyss ou  no site www.crumpy.com.

Entrevista de Robert K. Brown com John Caldara


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