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quinta-feira, 17 de março de 2022

A Importância do Nível Estratégico: a Alemanha na Segunda Guerra Mundial


Por Lorris Beverelli, The Strategy Bridge, 7 de abril de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 17 de março de 2022.

Introdução

É amplamente aceito que existem três níveis de guerra. Do geral ao local, são os níveis estratégico, operacional e tático. Estratégia, definida de forma simples, é o alinhamento de meios e formas para atingir um fim político. Estratégia é obter sucesso na guerra por meio de uma teoria de vitória claramente definida. Cada nível de guerra é essencial para obter esse sucesso e todos são igualmente importantes.

A Alemanha na Segunda Guerra Mundial ilustra por que o nível estratégico é essencial. Este artigo detalhará alguns dos erros estratégicos que a Alemanha cometeu durante o conflito para ilustrar como a falta de uma boa estratégia contribuiu decisivamente para a ruína do Terceiro Reich.

Ideologia e estratégia, ou ideologia acima da estratégia

A ideologia pode impactar fortemente a estratégia. Embora a ideologia não seja necessariamente prejudicial à estratégia em si mesma, ela pode levar a decisões e situações perigosas. De fato, a ideologia deve ser equilibrada com avaliações objetivas e racionais sobre a própria situação e forças, juntamente com as do adversário – estratégica, operacional e taticamente – para não prejudicar a arte estratégica. O Terceiro Reich não conseguiu alcançar esse equilíbrio.

Indiscutivelmente, a principal falha da estratégia alemã na Segunda Guerra Mundial foi que ela se baseou fortemente na ideologia e negligenciou elementos objetivos que poderiam ter ajudado a avaliar melhor a situação geral. De fato, a ideologia atormentava a estratégia na medida em que os alemães buscavam atingir objetivos extremamente difíceis e que o processo decisório era fortemente afetado por ela.

Abert Speer e Adolph Hitler.
(Ullstein Bild/Getty)

O pensamento estratégico alemão nesse conflito, encarnado principalmente por Adolf Hitler, levou a uma estratégia de apocalipse na qual a Alemanha era guiada pelo nazismo e travada em uma luta mortal com seus inimigos – em particular a União Soviética. A guerra não era mais uma ferramenta política tradicional; como retransmite Michael Geyer: “A guerra nacional-socialista estabeleceu e manteve a ordem em uma expansão ilimitada da violência... A estratégia não era mais instrumental, mas era ideológica em sua direção e oportunista em seus métodos.”[1]

Por causa de sua ideologia, a Alemanha travou o que Geyer chamou de guerra apocalíptica. Seus objetivos eram extremos e não o produto de qualquer tipo de análise objetiva.[2] Em vez disso, a estratégia da Alemanha resultou parcialmente de uma ideologia que favorece uma visão do mundo influenciada pela competição racial.[3] A estratégia para atingir tais objetivos tendia a basear-se mais na inspiração do que no cálculo geopolítico.[4] De fato, as conquistas do Terceiro Reich foram em parte baseadas em uma construção, chamada “necessidade histórica de luta por território e recursos entre diferentes raças e culturas”.

As políticas de Hitler, consequentemente, não foram guiadas por nenhum tipo de método sólido ou princípio de estratégia.[6] Em vez disso, eles foram afligidos pelo “racialismo auto-iludido”. A Barbarossa – a invasão da União Soviética em 22 de junho de 1941 – foi parcialmente o produto de considerações estratégicas clássicas, mas de acordo com Richard Overy “sua lógica [estava] em última análise, na luta eterna entre civilização e barbárie, cultura e primitivismo, [então] expressas respectivamente pelo nacional-socialismo e pelo bolchevismo.”[9]

General Heinz Guderian, um dos mais proeminentes praticantes da “Blitzkrieg”, em Bouillon, Bélgica, durante as ofensivas alemãs na Europa Ocidental em 12 de maio de 1940.
(Das Bundesarchiv/Wikimedia)

O período que melhor ilustra como a ideologia nazista perverteu sua estratégia pode ser 1944-1945. Embora a derrota alemã fosse provavelmente previsível em 1944 e quase certa em 1945, o Terceiro Reich “se apegou ao seu conceito original de guerra apocalíptica”.[10] Em vez de se render para preservar o povo alemão, Hitler preferiu continuar lutando. Essa decisão fez ainda menos sentido estratégico, pois já em janeiro de 1942 ele havia declarado que se o povo alemão não pudesse vencer a guerra, então ela deveria desaparecer.[11] Em 19 de março de 1945, ainda obstinadamente recusando-se a admitir a derrota, ele emitiu sua “Ordem Nero” para destruir qualquer coisa que pudesse ser usada pelo inimigo.[12] De acordo com Albert Speer, Hitler então não se importava mais com o futuro do povo alemão; eles perderam e mostraram sua inferioridade ao inimigo.[13]

Isso mostra que o Reich não pensava como um governo tradicional preocupado principalmente com a preservação ou sobrevivência de seu país ou regime. Muito pelo contrário, Hitler considerou que a derrota alemã seria redentora e purificadora.[14]

Deixar de escolher o caminho certo para atender aos fins procurados

Destruir as forças armadas inimigas não garante a vitória

Outro problema de dogmatismo é como as forças armadas alemãs buscaram predominantemente destruir seus inimigos no campo de batalha, mas a liderança alemã foi incapaz de transformar vitórias táticas e destreza operacional em sucesso estratégico. Já em 1937-1938, o Chefe do Estado-Maior General Ludwig Beck repetidamente criticou os oficiais mais jovens por simplesmente maximizarem o uso de armas, e reclamou de sua aparente falta de integração das operações dentro de uma estratégia maior.[15]

General Ludwig Beck.
(German Federal Archives/Wikimedia)

De fato, o modo de guerra alemão na Segunda Guerra Mundial era semelhante ao usado no conflito anterior, que incluía o conceito de Gesamtschlacht (batalha total ou completa). Herdado de Alfred von Schlieffen antes de 1914, o Gesamtschlacht procurou combinar vários campos de batalha e engajamentos em uma operação integral para criar uma batalha final e decisiva.[16] Os alemães consideravam a guerra como uma sequência estratégica única de aniquilação (Vernichtungsstrategie, estratégia de aniquilação) compreendendo três fases: mobilização, desdobramento e Gesamtschlacht.[17] Este processo visava criar um envelopamento do inimigo antes de destruí-lo ou fazê-lo render-se, e fazê-lo para cada inimigo da Alemanha até que a vitória fosse alcançada.[18]

Consequentemente, a manobra estratégica dependia de resultados táticos. Portanto, se a Alemanha não obtivesse a vitória pela mera destruição do poder militar do inimigo, a única opção estratégica seria então ficar na defensiva, porque os alemães não podiam ou não conceberiam nada diferente.[19]

Naturalmente, a Alemanha ainda poderia obter sucessos estratégicos, na Europa em 1939, 1940 e 1941, antes da invasão da União Soviética, por exemplo. Mas esses sucessos foram possíveis em parte porque os alemães não só foram capazes de usar seu método preferido - destruir grandes partes das forças armadas inimigas - mas também porque tinham a capacidade de ocupar países inteiros. No entanto, quando esses dois elementos eram difíceis de realizar, o modo de guerra alemão tinha dificuldades em transformar sucessos táticos em efeito estratégico.

As lutas contra o Reino Unido e os Estados Unidos, mas principalmente contra a União Soviética, demonstram isso. De fato, Blitzkrieg e Gesamtschlacht não eram boas maneiras de derrotar inimigos que gozavam de vantagens geográficas impedindo a ocupação total – nestes casos, uma ilha, o Oceano Atlântico e imensa profundidade estratégica – e que tinham a vontade de continuar lutando apesar das derrotas iniciais e até esmagadoras.[20]

A falha em reconhecer que essa estrutura não era necessariamente apropriada contra o Reino Unido, os Estados Unidos e a União Soviética foi um erro estratégico. Os estrategistas alemães não conseguiram conceber uma maneira de derrotar seus inimigos a não ser derrotando grandes partes de suas forças armadas e ocupando todo o país se eles se recusassem a se render. Os alemães falharam em reconhecer que o mero acúmulo de sucessos táticos e destreza operacional não necessariamente se traduziria em efeito estratégico.[21]

A doutrina deve ser adaptada ao ambiente

O segundo elemento desse erro estratégico é que o Reich usou suas forças armadas da mesma maneira, independentemente do ambiente em que lutou. Em certo sentido, a Alemanha cometeu o mesmo erro de Napoleão: confiou em uma doutrina e meios que funcionavam melhor em teatros muito menores, com bons recursos logísticos, boas redes rodoviárias e clima temperado. A mera mudança de escala entre os teatros europeus ocidentais e orientais teve um impacto significativo na condução das operações e deveria ter afetado o planejamento estratégico alemão antes do início da Barbarossa.[22]

Tropas alemãs lutando na “rasputitsa” russa, março de 1942.
(Das Bundesarchiv/Wikimedia)

De fato, a vastidão da União Soviética por si só significava que as formas operacionais alemãs não podiam necessariamente ser adaptadas. Em 1939 e 1940, havia aproximadamente 400 quilômetros da fronteira alemã até Varsóvia e 300 quilômetros da fronteira alemã até Paris. Em 1941, havia cerca de 1.000 quilômetros da fronteira polonesa controlada pelos alemães até Moscou; a distância mais que dobrou ou triplicou, em comparação com as campanhas polonesas e francesas.

Inadequações operacionais, erros estratégicos

Embora esses elementos denotem erros que se manifestaram no nível operacional da guerra, eles revelam um grave erro estratégico subjacente. A Alemanha não conseguiu perceber que sua doutrina operacional não estava necessariamente adaptada para atingir seus objetivos estratégicos e não conseguiu adaptá-la ao contexto. Nesse sentido, o caminho não foi adaptado ao fim, e a estratégia consiste em encontrar os meios e formas adequados para cumprir os fins.

Não aprender com a história

Uma falha estratégica de longa data é a incapacidade de aprender com os erros do passado. No final, a Alemanha cometeu erros semelhantes aos que cometeu na França em 1918, acreditando que o mero acúmulo de vitórias táticas garantiria o sucesso estratégico.[23] Tal pensamento realmente funcionou no início da guerra, quando os inimigos da Alemanha não tinham a iniciativa, seu território era pequeno o suficiente para ser totalmente ocupado, eles ainda não haviam mobilizado totalmente sua indústria e quando as táticas alemãs eram esmagadoramente melhores que as deles.

A Segunda Guerra Mundial na Europa.
(Wikimedia)

O segundo grande fracasso diz respeito às coalizões. A Alemanha perdeu a Primeira Guerra Mundial, em parte, porque enfrentou uma aliança forte, bem coordenada e eficaz, apoiada por maiores recursos agregados e uma base industrial mais eficiente com maior mão-de-obra.[24] O Terceiro Reich perdeu a Segunda Guerra Mundial, em grande parte, porque se recusou a reconhecer exatamente o mesmo. De fato, em vez de ficar em guerra apenas com o Reino Unido e tentar manter o status quo ou acabar com ele antes de prosseguir com sua expansão, a Alemanha, em apenas seis meses, declarou guerra a dois Estados, ambos com indústrias poderosas, populações maiores e uma razão plausível para alinhar em causa comum. Apesar dessas considerações estratégicas, a União Soviética tinha uma imensa profundidade estratégica enquanto os Estados Unidos tinham o Oceano Atlântico, colocando ambos efetivamente fora do alcance alemão sob o princípio do Gesamtschlacht.

A falta de boas estratégias industriais e econômicas

Os principais líderes da aliança contra as potências do Eixo na Conferência de Teerã, 28 de novembro de 1943. Da esquerda para a direita: Joseph Stalin, Franklin D. Roosevelt, Winston Churchill.
(U.S. Signal Corps/Wikimedia)

Finalmente, outro erro estratégico diz respeito à indústria e economia alemãs. A Alemanha não conseguiu criar estratégias industriais e econômicas eficazes para apoiar suas ambições militares. Esse erro encontra parcialmente sua origem na estrutura política construída por Hitler. Seu poder repousava em equilíbrios complexos e alianças políticas frágeis entre dignitários nazistas, líderes militares e círculos empresariais.[25] Dessa forma, Hitler conseguiu consolidar seu poder, mas ao preço de um atrito considerável.[26] Consequentemente, os dignitários alemães estavam trabalhando independentemente uns dos outros sem ter uma visão geral da situação geral, que só Hitler tinha.[27] Portanto, o setor civil estava fragmentado, o que dificultou a mobilização e coordenação da indústria.[28]

Tal fragmentação foi ilustrada pelo fato de que vários líderes nazistas estavam administrando impérios industriais.[29] Por exemplo, Heinrich Himmler, o chefe da Schutzstaffel (SS), criou sua própria economia SS e se opôs a um processo centralizado de tomada de decisão econômica e industrial.[30] Por causa de tais tensões e do fato de que o Estado nazista impedia a existência de qualquer tipo de contra-poder, os esforços daqueles que tentaram organizar melhor o esforço de guerra alemão, como Albert Speer, foram impedidos.[31] Essa fragmentação piorou o distúrbio e as ineficiências pré-existentes.[32]

O Ministro de Armamentos e Produção de Guerra Albert Speer (à direita, usando uma braçadeira nazista) e o Marechal de Campo e Inspetor Geral do Ar Erhard Milch (no meio) observam a demonstração de um novo tipo de munição, outubro de 1943.
(Das Bundesarchiv/Wikimedia)

Outros problemas também existiam. Por exemplo, os esforços de pesquisa e desenvolvimento tecnológico foram desorganizados e não foram priorizados com base na necessidade ou natureza do projeto.[33] Isso se deveu em parte à doutrina militar alemã, que buscava batalhas decisivas e planejava alcançar a vitória combinando habilidade tática e desempenho de armas. Consequentemente, os alemães tendiam a procurar desempenho absoluto em armas, em vez de um desempenho que fosse bom o suficiente para a tarefa que deveriam realizar.[34] Tal método, combinado com a falta de mão-de-obra qualificada, longos períodos de produção e, em particular, falta de matérias-primas, revelou-se ineficaz e contraproducente.[35]

Consequentemente, a Alemanha não foi capaz de conceber estratégias industriais e econômicas adequadas. Isso teve um impacto necessário e negativo na condução da guerra, especialmente porque os inimigos do Reich possuíam economias relativamente mais eficientes e indústrias mobilizadas.[36]

Na guerra, uma boa estratégia é uma necessidade constante

A Alemanha na Segunda Guerra Mundial ensina que uma boa estratégia é essencial para vencer guerras. O Reich ignorou vários princípios de estratégia que levaram à sua ruína. Tais princípios são simples e talvez até óbvios, mas esquecê-los ou ignorá-los como a Alemanha fez pode ter consequências desastrosas.

A Alemanha ignorou o fato de que a política e a estratégia quase sempre devem ser “um pouco flexíveis e adaptáveis às mudanças nas circunstâncias do contexto”. Como Colin S. Gray afirma, “políticas e estratégias suficientemente boas devem sempre ser ‘trabalho em andamento’, pelo menos em algum grau modesto.”[37] De fato, a Alemanha não conseguiu se adaptar, principalmente quando enfrentou a União Soviética. Ignorou o princípio Clausewitziano de que a guerra é, por essência, dialética; o inimigo tem uma palavra a dizer sobre o assunto, e enquanto eles se recusam a admitir a derrota, mesmo que pareça inevitável, é improvável que as vitórias táticas se traduzam por si só em sucesso estratégico.[38] Por causa de sua estratégia ideológica e apocalíptica, o Terceiro Reich recusou-se a reconsiderar seus objetivos estratégicos e os meios utilizados para atingir os fins almejados. Isso ficou evidente em relação à União Soviética, quando a Alemanha deveria ter percebido que sua arte operacional não seria capaz de atingir seus fins estratégicos. Nesse sentido, a estratégia alemã era inflexível.

Às vezes, a Alemanha também escolheu o caminho errado para alcançar os fins desejados. De fato, a estratégia requer prestar “a máxima atenção... à viabilidade material das operações escolhidas”.[39] O Terceiro Reich frequentemente falhou em fazê-lo. Além disso, a Alemanha não sabia como se adaptar para alcançar vitórias estratégicas se sua principal forma de fazê-lo – destruir o poder militar inimigo via aniquilação – se mostrasse inadequada ou impossível. Além disso, a excelência tática e a destreza operacional devem ser direcionadas por meio de uma estratégia realista. O que importa em última análise são as consequências políticas das batalhas forjadas pela arte operacional, em vez de seu resultado material e tático imediato.[40]

Soldados da FEB posando com prisioneiros alemães.
(Fundo Agência Nacional/Wikimedia)

Este estudo de caso mostra que a estratégia também deve observar a história e aprender com ela. Como mostrado, o Terceiro Reich falhou em fazê-lo. Além disso, este caso ilustra que a estratégia não é apenas estratégia militar. Deve incluir várias outras ferramentas – economia e diplomacia no mínimo – para maximizar as chances de alcançar o(s) objetivo(s) político(s) desejado(s). Além disso, essas ferramentas se reforçam mutuamente. A Alemanha sobre-privilegiou a estratégia militar e negligenciou as estratégias industrial e econômica.

A Alemanha na Segunda Guerra Mundial mostra que uma estratégia orientadora com uma teoria clara de vitória emoldurada por objetivos políticos realistas é uma necessidade constante e inegociável na guerra. Independentemente do caráter da guerra, a estratégia sempre será essencial para alcançar o resultado desejado. Hoje em dia, a falta de uma boa estratégia pode refletir a imagem das democracias ocidentais que falham em alcançar objetivos significativos em conflitos não-convencionais no exterior. No entanto, não se deve esquecer que isso também se aplica a conflitos convencionais entre Estados que operam exércitos inteiros, incluindo guerras totais. A estratégia de contagem de corpos falhou no Vietnã, mas também falhou na frente oriental alemã na Segunda Guerra Mundial.

Conclusão

O Terceiro Reich era excelente em táticas e provavelmente, do ponto de vista operacional, era pelo menos adequado em geral. Afinal, a Alemanha obteve vitórias impressionantes na Polônia, Dinamarca, Noruega, Bélgica, Holanda, Luxemburgo, França, Iugoslávia e Grécia. Nesses casos, a arte operacional alemã conseguiu alcançar efeitos estratégicos. Os ambientes e contextos locais foram bons para sua preferência pela aniquilação.

No entanto, quando a principal via operacional não era adequada para atender aos seus fins estratégicos – ou seja, quando os contextos geográficos e industriais não permitiam a destruição ou ocupação total e seus inimigos resolvidos e capazes de continuar lutando apesar das derrotas iniciais – a Alemanha atolou e foi incapaz de inovar. Reconhecendo os pontos fortes e fracos de sua própria preferência estratégica, a escolha por variantes de certas formas de arte operacional pertence ao domínio estratégico. A estratégia alemã deveria ter levado isso em consideração e perceber que, quando o contexto local estivesse certo, a Blitzkrieg poderia valer a pena; mas se não fosse, alcançar objetivos estratégicos poderia ser muito mais difícil com a adesão obstinada aos mesmos.

Ao olhar para os diferentes níveis de guerra alemães, o que mais condenou a Alemanha foi sua estratégia inspirada na ideologia, apocalíptica e irrealista. A estratégia falha do Terceiro Reich o levou a declarar guerra tanto à União Soviética quanto aos Estados Unidos; deixar de reconhecer que suas formas operacionais não foram necessariamente adequadas para atingir seus fins estratégicos; teimosamente se recusa a capitular quando a derrota era mais provável; e prefere a destruição total à derrota limitada.

Lorris Beverelli é um cidadão francês que possui um Master of Arts em Estudos de Segurança com concentração em Operações Militares pela Universidade de Georgetown.

Notas

[1] Michael Geyer, “German Strategy in the Age of Machine Warfare, 1914-1945,” in Makers of Modern Strategy: from Machiavelli to the Nuclear Age, ed. Peter Paret (Princeton: Princeton University Press, 1986), 583-84.

[2] Ibid., 573.

[3] Ibid., 582.

[4] Ibid., 583.

[5] Richard Overy, The Origins of the Second World War, Fourth edition, Abingdon, New York: Routledge, 2017, 40.

[6] Geyer, “German Strategy in the Age of Machine Warfare, 1914-1945,” 583.

[7] Overy, The Origins, 94.

[8]  Geyer, “German Strategy in the Age of Machine Warfare, 1914-1945,” 575.

[9] Overy, The Origins, 41, 88; Peter Longerich, Hitler, trans. Tilman Chazal, Caroline Lee, Caroline Lelong e Valentine Morizot, trans. ed. Raymond Clarinard, Éditions Héloïse d’Ormesson, 2017, 701, 721 (traduzido em inglês sob o título Hitler: A Biography e publicado pela Oxford University Press em 2019).

[10] Geyer, “German Strategy in the Age of Machine Warfare, 1914-1945,” 574.

[11] Andrew Roberts, Leadership in War: Essential Lessons from Those Who Made History, New York: Viking, 2019, 89.

[12] Longerich, Hitler, 750; Claude Quétel, La Seconde Guerre mondiale, Paris: Perrin, 2015, 237.

[13] Longerich, Hitler, 750.

[14] Richard Overy, Why the Allies Won, New York: W.W. Norton & Company, 1996, 315; Longerich, Hitler, 945-46.

[15] Geyer, “German Strategy in the Age of Machine Warfare, 1914-1945,” 571, 572.

[16] Benoist Bihan, “L’Allemagne a perdu la guerre à cause d’Hitler,” in Les mythes de la Seconde Guerre mondiale, ed. Jean Lopez e Olivier Wieviorka (Paris: Perrin, 2015), 385; Geyer, “German Strategy in the Age of Machine Warfare, 1914-1945,” 532.

[17] Bihan, “L’Allemagne,” 385. Para saber mais sobre tais conceitos, veja, por exemplo, Michael Geyer, “German Strategy in the Age of Machine Warfare, 1914-1945,” in Makers of Modern Strategy: from Machiavelli to the Nuclear Age, ed. Peter Paret (Princeton: Princeton University Press, 1986); Terence Zuber, Inventing the Schlieffen Plan: German War Planning 1871-1914, Oxford: Oxford University Press, 2002. 

[18] Ibid.

[19] Ibid., 386.

[20]  Observe que o termo “blitzkrieg” é usado aqui para fins de simplicidade e clareza. Esta palavra é mais um termo construído para designar a maneira geral como os alemães estavam atacando na Segunda Guerra Mundial, em vez de uma doutrina oficial bem definida. Por exemplo, ver Karl-Heinz Frieser, trans. ed. John T. Greenwood, The Blitzkrieg Legend: The 1940 Campaign in the West, Annapolis: Naval Institute Press, 2005.

[21] Geyer, “German Strategy in the Age of Machine Warfare, 1914-1945,” 591.

[22] Martin Motte, Georges-Henri Soutou, Jérôme de Lespinois e Olivier Zajec, La mesure de la force : Traité de stratégie de l’École de guerre, Paris: Éditions Tallandier, 2018, 256-57.

[23] Geyer, “German Strategy,” 591.

24] Ver por exemplo, William Philpott, War of Attrition: Fighting the First World War, New York: The Overlook Press, 2014; Michel Goya, Les vainqueurs : Comment la France a gagné la Grande Guerre, Paris: Éditions Tallandier, 2018.

[25] Bihan, “L’Allemagne,” 381. Para uma ilustração de tais relacionamentos, veja Jean Lopez (editor), Nicolas Aubin, Vincent Bernard, Nicolas Guillerat, Infographie de la Seconde Guerre mondiale, Paris: Perrin, 2018, 44 (traduzido em inglês sob o título World War II Infographics e publicado pela Thames & Hudson em 2019).

[26] Jean Lopez (editor), Nicolas Aubin, Vincent Bernard, Nicolas Guillerat, Infographie de la Seconde Guerre mondiale, Paris: Perrin, 2018, 44.

[27] Ibid.

[28] Bihan, “L’Allemagne,” 381.

[29] Benoist Bihan compara esta estrutura a fidelidades medievais, daí a palavra “lords” aqui.

[30] Quétel, La Seconde Guerre mondiale, 237.

[31] Ibid.; Bihan, “L’Allemagne,” 384.

[32] Bihan, “L’Allemagne,” 382.

[33] Ibid.

[34] Ibid., 383.

[35] Ibid., 384.

[36] Ibid., 382.

[37] Colin S. Gray, Strategy and Politics, New York: Routledge, 2016, 64.

[38] Motte, Soutou, de Lespinois e Zajec, La mesure, 74.

[39] Gray, Strategy and Politics, 65.

[40] Ibid., 70.

domingo, 13 de março de 2022

Por que a governança do setor de segurança é importante em estados frágeis

Os militares americanos organizam uma manifestação na Escola de Blindados iraquiana depois que os soldados iraquianos concluíram um curso de treinamento de tanques de 21 dias, em Besmaya, Iraque, 18 de outubro de 2011.
(Andrea Bruce/The New York Times)

Por Nathaniel Allen e Rachel Kleinfeld, United States Institute of Peace, 11 de junho de 2019.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 13 de março de 2022.

A promoção de uma maior confiança entre as forças de segurança e os cidadãos deve ser um dos principais objetivos da assistência à segurança.

Após a queda do regime de Saddam Hussein, os Estados Unidos passaram mais de uma década tentando transformar o Exército Nacional Iraquiano em uma força de combate moderna. O exército iraquiano recebeu cerca de US$ 25 bilhões em assistência de segurança, incluindo armas sofisticadas, treinamento em tudo, desde combate a dispositivos explosivos improvisados (IED) até segurança de fronteira, e a oportunidade de acompanhar os militares americanos em operações contra grupos insurgentes. No entanto, esse investimento astronômico não foi suficiente para impedir que o Exército iraquiano fugisse de Mossul, enquanto os combatentes do Estado Islâmico avançavam sobre a cidade em junho de 2014, apesar de superar os insurgentes em mais de 30 para um.

O motivo dessa falha? Em uma palavra: governança. No Iraque, os esforços americanos de assistência à segurança se concentraram principalmente na construção de capacidade tática e não abordaram as profundas divisões sectárias e uma cultura de corrupção e clientelismo que esvaziaram as forças armadas iraquianas. Infelizmente, o Iraque não é um exemplo isolado. Do Afeganistão ao Mali e à Somália, os esforços liderados ou apoiados pelos EUA para trabalhar por, com e por meio de militares parceiros em Estados frágeis falham regularmente em melhorar de forma sustentável a capacidade militar, promover a estabilidade ou reduzir as ameaças de extremistas.

Há um consenso crescente de que, para que a assistência à segurança seja eficaz em contextos frágeis, ela deve levar em conta os mesmos tipos de desafios de governança do setor de segurança que atormentam as forças armadas iraquianas. Conforme estabelecido no relatório da Força-Tarefa sobre Extremismo em Estados Frágeis, equipamentos e treinamento sofisticados podem ser necessários, mas isso não resultará em uma força militar mais forte ou em um aumento sustentado da capacidade de contraterrorismo na ausência de reformas para conter o clientelismo, reduzir a corrupção, melhorar as avaliações de ameaças, mitigar o risco de deserção e melhorar a governança no setor de segurança.

Recomendações e Desafios de Implementação

A Força-Tarefa ofereceu quatro recomendações que reformulariam radicalmente a forma como os Estados Unidos se engajam na cooperação do setor de segurança e na assistência aos Estados frágeis (ver Apêndice 6 do relatório da Força-Tarefa). Estes incluíram:
  • A adoção de uma abordagem compacta para toda a assistência do setor de segurança;
  • Uma política de “assistência graduada” que vincularia aumentos na assistência a melhorias na governança do setor de segurança;
  • A criação de uma dotação de reforma do setor de segurança para apoiar os esforços de reforma liderados por parceiros; e
  • Uma expansão dos esforços existentes para melhorar a transparência e a eficácia da cooperação e assistência em segurança.

Soldados iraquianos do 2º Batalhão Mecanizado, 2ª Brigada de Tanques, 9ª Divisão do Exército Iraquiano posam em frente ao carro de combate T-72, 16 de fevereiro de 2006.
Eles acabaram de completar o exercício de pontaria, a fase final de um curso de dois meses que certificou os soldados no tanque russo.

Essas recomendações podem mitigar o risco significativo de que a assistência de segurança não consiga melhorar as condições de segurança ou exacerbar o extremismo. A implementação, no entanto, enfrenta vários obstáculos. Sem autoridade mais consolidada e supervisão mais centralizada dentro do governo dos EUA para cooperação e assistência em segurança, é difícil imaginar um sistema de avaliações, pactos e avaliações funcionando bem. Além disso, provavelmente haverá exceções nos casos em que melhorar a governança do setor de segurança em Estados frágeis ou combater o extremismo enfrenta compromissos com outros objetivos. A tentativa de equilibrar esses trade-offs pode entrar em conflito com aqueles que desejam medidas mais drásticas contra os Estados mais repressivos do mundo.

Talvez o mais importante, a percepção da pesquisa acadêmica, bem como as lições aprendidas com a experiência de organizações como a Millennium Challenge Corporation (MCC), sugerem fortemente que a assistência não é uma ferramenta potente o suficiente para impactar significativamente a forma como nossos parceiros avaliam seus interesses. Os EUA não farão muito progresso com governos que consideram repressão, corrupção ou políticas de recrutamento não-meritocráticas no setor de segurança essenciais para manter o poder.

Em vez disso, os Estados Unidos devem adotar uma visão de longo prazo, que aceite que a mudança nas políticas dos EUA e dos países parceiros será iterativa e incremental.

Esforço Mínimo: Projetos de demonstração e esforços de reforma

À medida que os EUA buscam se firmar em uma ordem global em rápida mudança, a cooperação e a assistência em segurança estão recebendo maior escrutínio dos formuladores de políticas. Uma estratégia para aumentar sua eficácia seria adotar uma abordagem graduada, baseada em parcerias compactas e baseadas em liderança em um país ou países piloto para permitir aprendizado e adaptação iterativos que poderiam ser aplicados a reformas mais abrangentes. Embaixadas, em vez de autoridades de Washington, poderiam ser lideradas na negociação de acordos de assistência à segurança e na aplicação de condicionalidades. Com base nas lições aprendidas das Parcerias para a Paz da OTAN e da MCC, esses pactos devem incluir, no mínimo:
  • Um acordo conjunto entre os EUA e o país parceiro sobre o que deve ser financiado;
  • Financiamento previsível e de longo prazo;
  • A inclusão de civis e da sociedade civil nas negociações e supervisão; e
  • Avaliação rigorosa que responsabiliza os EUA e seus parceiros pelos resultados.

Se aprovado pelo Congresso, os países selecionados como resultado dos Global Fragility Acts (GFA) podem fornecer candidatos ideais. A legislação da GFA aplicaria a estrutura preventiva mais ampla às parcerias diplomáticas e de desenvolvimento do governo dos EUA recomendadas pela Força-Tarefa a vários estados frágeis, tornando-os candidatos atraentes para também pilotar a abordagem da assistência ao setor de segurança.

Uma unidade tática CTS conduz uma missão na cidade velha de Mossul em 2020.

Outras oportunidades podem existir para promulgar as recomendações da Força-Tarefa em futuras Leis de Autorização de Defesa Nacional (NDAA). O NDAA do ano fiscal 2017-2019 consolidou as autoridades e fez avaliação, monitoramento e avaliação e componentes obrigatórios de fortalecimento institucional de toda a cooperação de segurança gerenciada pelo Departamento de Defesa. Essas reformas cruciais precisam de apoio contínuo tanto do Congresso quanto do Poder Executivo para garantir que sejam institucionalizadas de forma significativa.

Reformas semelhantes da assistência à segurança gerenciada pelo Departamento de Estado podem estar no horizonte e, além de espelhar as reformas do Departamento de Defesa, podem oferecer oportunidades para implementar uma abordagem gradual da assistência à segurança.

Uma parte crucial das recomendações da Força-Tarefa é a criação de um índice de governança do setor de segurança. Um índice poderia ajudar a definir critérios de elegibilidade potenciais para pactos, medir o progresso e ser usado para impor uma política de assistência graduada. O índice deve informar, mas não determinar, decisões que também devem se basear em informações qualitativas, contextuais e politicamente sensíveis. Muitas das informações necessárias para desenvolver um índice já existem: o que é necessário são os recursos para construir e atualizar regularmente o índice e pesquisas adicionais para determinar os requisitos de dados exatos necessários para cada um dos usos potenciais do índice. Idealmente, o índice seria gerenciado de forma independente, em vez de patrocinado diretamente pelo governo dos EUA.

A fronteira de pesquisa e política

Existem vários aspectos da cooperação de segurança dos EUA e assistência a estados frágeis que o relatório da Força-Tarefa não abordou. Uma é a necessidade de compartilhar o fardo internacional com os aliados dos EUA para melhorar a governança do setor de segurança em estados frágeis. Ao mesmo tempo em que busca reformar a forma como administra a cooperação de segurança em Estados frágeis, os Estados Unidos podem e devem exigir mais de seus aliados.

Forças de Milícias Populares (PMF) com tanques russos e americanos.

Além disso, os setores de segurança em estados frágeis, em última análise, devem ser responsabilizados perante seu povo, e não apenas os Estados Unidos. Os legisladores civis e os atores da sociedade civil devem ser incluídos como partes nos pactos de assistência à segurança entre doadores e Estados frágeis, bem como na avaliação, monitoramento e estruturas de avaliação de toda a assistência ao setor de segurança. As interações pessoais entre as forças de segurança e os cidadãos estão entre os determinantes mais cruciais do recrutamento em organizações extremistas. Portanto, promover uma maior cooperação e confiança entre as forças de segurança e os cidadãos que deveriam proteger deve ser um dos principais objetivos da assistência à segurança.

Finalmente, a cooperação e assistência de segurança dos EUA são tendenciosas para trabalhar com forças armadas parceiras. Grupos de polícia, inteligência, milícias e defesa comunitária são os pontos de contato mais frequentes entre o governo e os cidadãos em estados frágeis, mas os Estados Unidos não possuem recursos dedicados ou experiência para trabalhar sistematicamente com esses grupos. Os Estados Unidos devem considerar como desenvolver tais capacidades, mas devem fazê-lo com cautela e devida diligência. Quaisquer novas abordagens devem se concentrar em melhorar a confiança entre as forças de segurança civis e os cidadãos, não reproduzindo a abordagem orientada pela tática que, infelizmente, é muito característica das intervenções dos EUA no setor de segurança.

Sem uma melhor governança do setor de segurança, os Estados frágeis terão dificuldades para melhorar a eficácia de suas forças de segurança e moderar o extremismo. As forças de segurança que exploram e abusam dos cidadãos violam o que talvez seja a primeira e mais sagrada obrigação que um Estado tem para com seu povo. É por isso que os Estados Unidos devem colocar melhorias de longo prazo na governança do setor de segurança – e não sucesso tático de curto prazo no campo de batalha – no centro de sua abordagem em relação à cooperação e assistência em segurança em Estados frágeis.

O Dr. Nathaniel Allen é consultor de políticas do U.S. Institute of Peace. A Dra. Rachel Kleinfeld é membro sênior do Programa de Democracia, Conflito e Governança do Carnegie Endowment for International Peace.

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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2022

As forças russas em quatro dias de guerra na Ucrânia, por Michael Kofman


Por Michael Kofman, Twitter, 28 de fevereiro de 2022.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 28 de fevereiro de 2022.

Longa discussão sobre como eu acho que as primeiras 96 horas se passaram, impressões ainda muito precoces/incompletas. A operação russa inicial foi baseada em suposições terríveis sobre a capacidade e vontade de lutar da Ucrânia e um conceito impraticável de operações. Moscou calculou mal.

A operação russa estava focada em chegar rapidamente a Kiev, forçando uma rendição e empurrando um pequeno número de unidades para a frente rapidamente de uma maneira que evitasse grandes confrontos com as forças da República da Ucrânia. Eles estão contornando as grandes cidades, indo para os principais cruzamentos rodoviários/cidades menores, etc. Por que Moscou escolheu esse curso de ação? Algumas teorias: eles não levaram a sério a Ucrânia e suas forças militares. Eles queriam evitar atrito e devastação por causa das consequências para os objetivos políticos na Ucrânia, os custos das baixas, e eles querem esconder os custos do público.


Também é possível que os planejadores militares russos quisessem genuinamente evitar infligir altos níveis de destruição, dado o quão impopular essa guerra seria em casa. A maioria dos soldados russos são jovens e têm pouco interesse em lutar contra os ucranianos como adversários. O que vi até agora sugere que as tropas russas não sabiam que receberiam ordens para invadir e parecem relutantes em prosseguir com essa guerra. Eles não veem os ucranianos como adversários e as forças armadas não os prepararam para esta campanha. Fora os chechenos, o moral parece baixo.

Este é um conceito impraticável de operações. Parece que eles tentaram ganhar de forma rápida e barata por meio de "thunder runs" ("cavalgadas de trovões", nome dado ao avanço blindado americano para Bagdá em 2003), na esperança de evitar as piores sanções e indignação ocidental. Eles acabaram no pior dos mundos, colocando mais recursos em uma estratégia fracassada.

No entanto, isso é apenas alguns dias na guerra. A Ucrânia se saiu muito bem, mas nenhum analista (exceto talvez em Moscou) esperava que a Rússia derrotasse o maior país da Europa em 4 dias, especialmente devido à capacidade militar da República da Ucrânia.


Sobre o esforço caótico - as unidades russas não estão realmente lutando como BTGs (Battlegroups / Grupos de Batalha). Eles estão dirigindo pelas estradas em pequenos destacamentos, empurrando as unidades de reconhecimento e VDV (paraquedistas) para a frente. Tanques muitas vezes sozinhos e vice-versa. Fogos e facilitadores não são usados de forma decisiva e muitas vezes não são usados.

Fora do noroeste de Kiev, temos muitos destacamentos menores, tanques, VBCI, muitas vezes unidades de reconhecimento ou VDV pressionando estradas e cidades. Pequenas formações regularmente superando a logística, sem apoio, ou deixando apoio e artilharia serem emboscados atrás deles. Além de um grande número de unidades espalhadas em pequenos destacamentos e postos de controle, também temos a situação inversa. Longos trens de veículos russos presos em seus próprios engarrafamentos, entrando pela fronteira. As defesas aéreas não os cobriam, mas ficavam na estrada com eles. À medida que companhias e pelotões correm para conquistar pontos, a logística não consegue acompanhar e não está sendo efetivamente coberta pelo suporte. A maioria das lutas que vi são pequenas escaramuças, especialmente nos arredores das grandes cidades. Estas podem ser intensas, mas não grandes batalhas.

O fracasso russo é motivado pelo fato de que eles estão tentando conduzir uma invasão em grande escala sem a operação militar que isso exigiria, pensando que podem evitar a maior parte dos combates. Isso levou não apenas ao emprego de força impraticável, mas à falta de emprego.


A verdade é que grande parte das forças armadas russas ainda não entraram nesta guerra, com muitas das capacidades ainda não utilizadas. Não diminuindo o ótimo desempenho e resiliência da Ucrânia, mas vejo muitos julgamentos e conclusões iniciais que precisam de moderação.

Nos primeiros 4 dias, a aviação tática russa, com exceção de alguns Su-25, ficou em grande parte à margem. Assim como a maioria dos helicópteros de combate. Eles têm centenas de ambos desdobrados na área. A força aérea da Rússia está desaparecida em ação e em grande parte não-utilizada.

Os militares russos procuraram usar mísseis balísticos/cruzeiros para destruir/suprimir a defesa aérea ucraniana e atingir bases aéreas. No entanto, eles não estão voando CAPs (Close Air Support / Apoio Aéreo Aproximado), ou contra-ar ofensivo, e só hoje eu avistei o primeiro bombardeiro Su-34 realizando ataques. Exceto por bombardeios pesados em torno de Kharkiv, o uso de fogos foi limitado em comparação com a forma como os militares russos normalmente operam. Infelizmente, acho que isso vai mudar. As forças armadas russas são um exército de artilharia em primeiro lugar, e ela usou uma fração de seus fogos disponíveis nesta guerra até agora. A maior parte das forças armadas russas ainda não entrou na luta. Fora de Kharkiv, a maior parte do 1º Exército Blindado de Guardas e do 20º Exército estão apenas sentados lá. Eles empurraram alguns BTGs a uma distância considerável além de Sumy, mas acho que muitas forças da Rússia ainda estão à margem.

Outro ponto, as perdas russas são significativas, e eles tiveram várias tropas capturadas, mas estão avançando em alguns eixos. Em geral, os ucranianos estão postando evidências de seus sucessos de combate, mas o oposto é menos verdadeiro, distorcendo o quadro geral.

Daí meu próximo pensamento. Em um esforço desesperado para manter a guerra escondida do público russo, enquadrando isso como uma operação no Donbass, Moscou cedeu completamente o ambiente de informação para a Ucrânia, que galvanizou o moral e o apoio por trás de Kiev. Outro erro de cálculo.


Não vou comentar sobre a série de alegações oficiais feitas nesta guerra até agora, exceto que acho que Kiev está fazendo um ótimo trabalho moldando percepções e o ambiente de informação. Dito isto, as pessoas devem abordar as reivindicações oficiais de forma crítica em tempos de guerra.

Olhando para o esforço militar, acho que as forças russas estão errando alguns conceitos básicos, mas também estamos aprendendo coisas que provavelmente não são verdadeiras sobre as forças armadas russas. Eles não estão realmente lutando do jeito que treinam e se organizam para uma grande guerra convencional. As suposições têm vibrações de Grozny em 1994, enquanto algumas das operações me lembram os erros clássicos de organização militar. Enviar brigadas de assalto aéreo ou infantaria naval desde o início para "fazer suas coisas", mesmo que seja desnecessário, arriscado ou impraticável.


O que vem depois? A liderança política da Rússia ainda não está admitindo o fracasso de seu plano, tentando tomar Kiev rapidamente. Mas estamos vendo-os aumentar o uso de fogos, ataques e poder aéreo. Infelizmente, espero que o pior ainda esteja por vir, e esta guerra pode ficar muito mais feia.

Eu ia acrescentar que vi e li outros tópicos explicativos sobre o fracasso militar russo. Eu discordo de algumas dessas explicações, elas geralmente não vêm de especialistas nas forças militares da Rússia, e 4 dias de guerra pode ser um pouco cedo para declarações conclusivas.

Além disso, olhando para o dia 5, vendo grandes ajustes. As forças armadas russas estão suspendendo corridas de trovão sem suporte, reabastecendo e reorganizando. As forças armadas da Ucrânia tiveram um desempenho muito bom, mas acho que veremos uma abordagem russa diferente de agora em diante.

Por que a Rússia vai perder esta guerra?

Um fragmento de um tanque russo destruído é visto na beira da estrada nos arredores de Kharkiv em 26 de fevereiro de 2022, após a invasão russa da Ucrânia.

Por Kamil Galeev, Twitter, 27 de fevereiro de 2022.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 28 de fevereiro de 2022.

Muito do discurso "realista" é sobre aceitar a vitória de Putin, porque ela é garantida. Mas como sabemos que ela é?

Mapa do avanço russo na Ucrânia.

Argumentarei que os analistas:
  1. Superestimam o exército russo
  2. Subestimam o ucraniano
  3. Entendem mal a estratégia e os objetivos políticos russos🧵

Considere um artigo oportuno sobre o exército russo da Bismarck Analysis. Ele é bom e informativo. Está correto em seu caráter terrestre e centrado na artilharia. Também é correto que o Ministro da Defesa Serdyukov aumentou muito a eficiência do exército em 2007-2012. Mas o artigo ainda é enganoso.

"A Rússia Moderna pode travar e vencer guerras terrestres."

Sim, o ministro Serdyukov realmente reformou o exército. Ele aumentou sua eficiência, lutou com produtores de armamento corruptos e compadres, melhorando os suprimentos do exército. Como resultado, ele se tornou extremamente impopular, fez muitos inimigos poderosos e foi expulso em 2012, perdendo seu poder e status.

Serdyukov e Putin.

Seu sucessor, Shoygu, sabia melhor do que fazer isso. Agora quem é Shoygu? Shoygu é o único ministro russo que trabalhou ininterruptamente no governo desde 1991, desde o início da Federação Russa. Ele trabalhou para todos os presidentes, todos os primeiros-ministros e evitou todos os expurgos.

General-de-Exército Sergey Kuzhugetovich Shoygu, nascido em 21 de maio de 1955.

O que isto significa? Significa que ele é um empreendedor político astuto, ótimo em política da corte, publicidade e imagem. Você sobrevive a cada administração maximizando sua sobrevivência política. E para maximizar você precisa minimizar a animosidade. Então você nunca se opõe a grupos de interesse poderosos.


Serdyukov lutou contra grupos de interesse e foi destruído. Shoygu era mais esperto do que isso. Ele lançou uma campanha de relações públicas apresentando-se como o "salvador" do legado de Serdyukov. O que quer que seu antecessor tenha feito, foi desmantelado. A mídia aplaudiu, as pessoas aplaudiram, os grupos de interesse aplaudiram.

"Resultados do Ano / Política.
O general ainda não é seu exército."

Esse é um problema muito, muito típico. A maximização da eficiência requer implacabilidade ao lidar com elites e grupos de interesse estabelecidos. Enquanto isso, maximizar a política da corte requer ponderar sobre eles e não fazer inimigos. Serdyukov estava maximizando a eficiência, Shoygu - a política da corte.


Houve outra questão. Shoygu é étnico Tuvan. Em um país como a Rússia, o membro minoritário dificilmente pode se tornar o líder supremo. As pessoas não o percebem como russo étnico (veja seu palácio), o que significa que ele não é perigoso para o líder e você pode lhe delegar o exército com segurança.

Palácio do General Shoygu com arquitetura asiática.

Shoygy não apenas expurgou os nomeados de Serdyukov, ponderou para o antigo estabelecimento militar, parou de discutir com os fornecedores do exército sobre o custo e a qualidade do equipamento. Ele também ponderou sobre várias mentiras sobre a grande estratégia russa. Vamos considerar o problema exército vs marinha.

Navios da marinha russa.

O exército versus marinha tem sido um dilema tradicional das potências europeias há séculos. Como regra, você não poderia apoiar tanto um exército de primeira classe quanto uma marinha de primeira classe, você tinha que escolher. Algumas potências ignoraram isso até o seu fim - como a França dos séculos XVII e XVIII. Outros foram mais racionais, como a Prússia.

Desembarque anfíbio britânico.

Nós meio que esquecemos, mas o principado de Brandemburgo do século XVII, centrado em Berlim, tentou jogar como uma "potência marítima global". Eles construíram uma marinha, estabeleceram colônias no Caribe e na África (vermelho). Super caro, super arrogante, super estúpido. Consumiu toneladas de recursos em vão.

Mapa com as colônias de Brandemburgo em vermelho.

No século XVIII eles reconsideraram. Eles venderam suas colônias, desmantelaram a marinha e começaram a maximizar em terra. Eles perceberam corretamente que, se suprimirem sua arrogância e minimizarem a marinha (para zero), eles podem maximizar em terra e construir o exército de primeira classe. O qual então unificaria a Alemanha.

Crescimento de Brandemburgo-Prússia, 1600-1795.

Portanto, a maximização em terra requer minimizar a ambição naval. A Rússia minimiza sua ambição naval? Não. Ela se sente obrigada a manter o máximo possível do legado naval soviético. Mantenha os navios antigos à tona, construa novos, mantenha e expanda a infraestrutura para a marinha oceânica.

O porta-aviões russo Almirante Kuznetsov.

Aqui está outro dilema. As frotas regionais podem ser efetivamente usadas em guerras terrestres. Por exemplo, a Rússia declarou "manobras da marinha" e depois atacou a Ucrânia pelo mar. Isso é barato e eficaz. Mas manter uma frota regional não parece sexy. É o máximo de eficiência, não o máximo de relações públicas.

Ação naval russa pelo Google Earth.

E a Rússia está maximizando as relações públicas. Putin declarou que a proporção de novos navios deve chegar a 70% até 2027. Velhos navios soviéticos estão se tornando obsoletos, a Rússia está construindo novos. MAS. Os principais estaleiros soviéticos estão localizados na Ucrânia. Então agora a Rússia expande a infraestrutura dos estaleiros para atingir esse objetivo.

"A Rússia precisa de uma marinha poderosa e equilibrada, disse o presidente russo Vladimir Putin no fórum Exército-2021. Segundo o chefe de Estado, até 2027 a participação dos navios modernos deve chegar a 70%. O jornal "Gazeta.RU" apurou quais navios estão sendo construídos para a Marinha e quais reabastecerão sua composição em 2022."

O legado naval soviético é uma maldição das forças armadas russas. A URSS podia pagar frotas oceânicas com grupo de ataque de porta-aviões. A Rússia não pode. Mas abandonar as ambições soviéticas exigiria suprimir sua própria arrogância (impossível). Então eles se esforçam para mantê-la. Logo: eles não podem e não vão maximizar em terra.

O porta-aviões Almirante Kuznetsov no mar.

Como isso se reflete nesta guerra? Primeiro, a força invasora russa é pequena. Tem MUITA artilharia, é claro. Mas não é numerosa o suficiente para vencer. Analistas pró-Rússia comparam seu avanço com a Operação Barbarossa. Mas, ao contrário da Wehrmacht em 1941, os invasores russos têm apenas UM ESCALÃO DE TROPAS!

Ataques russos e localização de tropas em 26 de fevereiro de 2022.

Como é organizada uma Blitzkrieg? Por escalões. O primeiro escalão está avançando o mais rápido possível. Isso significa que muitos defensores serão deixados na sua retaguarda. Mas então vem o segundo escalão, depois o terceiro, etc. Eles acabam com os defensores, ocupam território e controlam as linhas de abastecimento.

Panzers alemães.

Se a Rússia lançasse uma Blitzkrieg ao estilo da Barbarossa, isso aconteceria agora - primeiro, segundo e terceiro escalões. Mas o segundo escalão não veio. Nunca existiu. Por quê? Primeiro, a Rússia não está maximizando em terra e, portanto, não tem tantos recursos e infraestrutura para a guerra terrestre.

Em segundo lugar, lançar vários escalões exigiria uma longa e árdua preparação. Você precisa mobilizá-los, movê-los para as fronteiras, aquartelá-los, mantê-los e abastecê-los. Não é tão fácil. É um trabalho árduo que deveria ter sido feito com bastante antecedência para travar uma Blitzkrieg. E não tinha sido feito.

Por que a Rússia não preparou uma Blitzkrieg adequada? E agora chegamos pela terceira e principal razão. A Blitzkrieg é uma estratégia de guerra. A Blitzkrieg é como você quebra e suprime o inimigo que está realmente lutando. A Rússia não a planejou porque não planejou uma guerra. Planejou uma Operação Especial.

"Putin anunciou o início de uma operação militar na Ucrânia".

Claro, em parte, isso é apenas discurso moderno. Após a Segunda Guerra Mundial, o entendimento tradicional da soberania como o direito legal dos governantes soberanos de travar uma guerra ofensiva morreu. Como resultado, os estados modernos nunca admitem que estão travando guerras. Eles estão fazendo "pacificações", "contraterrorismo", etc.

Considere como todos os Departamentos e Ministérios da Guerra ao redor do mundo foram renomeados para "Defesa" no final da década de 1940. Todo mundo está defendendo, ninguém está atacando. Por que a luta acontece então? Bem, por causa de criminosos - "bandidos", "terroristas", "jihadistas" ou como agora na Ucrânia, "nazistas".

O mundo moderno aboliu a distinção entre o inimigo e o criminoso, uma ideia-chave do Direito Romano. As potências fazem guerras, mas para isso precisam criminalizar e desumanizar seus inimigos. Daí todo o discurso "terrorista". De certa forma, Putin está seguindo o fluxo.

Mas em um nível mais profundo, Putin está absolutamente correto. Sua declaração de "operação especial" na Ucrânia é sincera, porque ele não esperava a guerra. Ele não sabe fazer guerras. Por toda a sua vida ele tem organizado e lançado operações especiais.

Primeiro, como oficial da KGB. Depois, como conselheiro municipal para assuntos externos de São Petersburgo (= venda ilegal de coisas de armazéns soviéticos para o Ocidente). Na década de 1990, ele trabalhou de perto com o mundo do crime e fez isso com sucesso. Aqui você o vê com um ladrão associado, vovô Hassan.


Aliás, é assim que o amigo de Putin, vovô Hassan, está comemorando com seu círculo próximo. Dá uma ideia dos parceiros de negócios e associados de Putin.


Putin trabalhou com empresários violentos acostumados a matar. Mas ele sempre teve a vantagem. Os governos federal e regional eram muito mais fortes do que esses chefes criminosos que eram muito substituíveis. Todos eles tinham dezenas de capangas que queriam tomar seu lugar.

Putin empreendeu operações especiais quando tinha uma posição muito mais forte do que esses criminosos. E ele se acostumou com isso. Mais tarde, Yeltsin o escolheu como sucessor e, nessa capacidade, Putin lançou várias operações especiais para consolidar o poder. Novamente com total apoio dos superiores.

Destroços dos ataques à bomba de apartamentos em Moscou e Volgodonsk em 1999.

Sim, Putin jogou duro mesmo antes de se tornar presidente. Mas era fácil bancar o durão quando ele era apoiado pelo então presidente e por todo o aparato do Kremlin. Poder enorme, sem risco e sem responsabilidade.

Putin apertando a mão do presidente Boris Yeltsin.

Mais tarde, ele iniciou conflitos cada vez que teve que aumentar sua popularidade e imagem de durão: Chechênia, Geórgia e Síria. Mas nenhum desses era uma guerra. Todo conflito era uma operação especial travada:
  1. para objetivos políticos
  2. contra uma força pequena que não tinha a menor chance de vencer contra a Rússia
Putin lutou apenas contra países pequenos. Chechênia - 1 milhão de pessoas, Geórgia - 4. A Síria tinha mais, mas ele lutou contra rebeldes, sem treinamento ou armamentos adequados. Também o discurso "contra-terrorista" permitiu que os russos simplesmente destruíssem cidades inteiras sem consequências.

Civis georgianos em 2008.

Cidade síria em ruínas.

Prédios calcinados e destruídos.

Toda vez que Putin precisava confirmar seu status de alfa, ele devastava algum pequeno país com uma operação especial. Elas não exigiam preparação adequada porque não representavam nenhum risco existencial para a Rússia ou para ele. Tipo, que porra eles vão fazer? Sem risco = sem necessidade de se preocupar.

Putin decidiu repetir esse pequeno truque novamente. Portanto, não houve aquele exército numeroso de invasão, apenas um escalão de avanço, etc. Mas a Ucrânia é muito maior - tem 44 milhões de pessoas. O que Putin estava pensando? Aparentemente, ele esperava zero resistência do exército ucraniano.

Putin anuncia a "operação militar especial" na Ucrânia.

Putin tinha uma boa razão para acreditar nisso. De fato, em 2014, os regulares russos ("ихтамнеты" = "não há nenhum deles lá") destruíram facilmente as forças ucranianas em Debaltsevo e Ilovaysk. Ele viu que o exército ucraniano é fraco e ele pode facilmente desbaratá-los simplesmente enviando regulares russos.

Estrategicamente falando, Putin estragou tudo. Ele derrotou a Ucrânia, infligiu dor e humilhação. Qualquer um com um QI acima da temperatura ambiente sabia que a guerra não acabou e os russos atacariam novamente. Mas - Putin não finalizou a Ucrânia naquela época. Ele pensou que sempre teria uma chance.



O que aconteceu a seguir era bastante previsível. Infligir uma derrota dolorosa, mas não crítica, ao seu inimigo é arriscado. Sim, eles meio que se tornaram mais fracos. Mas o equilíbrio de poder dentro deles mudou. A política da corte que maximiza os grupos de interesse perderam e os novatos que maximizam a eficiência tiveram uma chance.


Fórmula da evolução institucional = susto + não acabe com eles. Napoleão esmagou os prussianos em Jena-Auerstedt, não os eliminou. A Prússia evoluiu. O Comodoro Perry assustou os japoneses em 1853, mas os EUA entraram em espiral na Guerra Civil e os deixaram em paz. O Japão evoluiu.

Alegoria japonesa sobre a chegada da frota americana do Comodoro Matthew Perry em 1853.
O navio é mostrado como um monstro negro.

Nada motiva tanto quanto uma ameaça existencial. Primeiro, os ucranianos admitiram a verdade:

"Serei franco. Hoje não temos exército. Agora podemos montar um grupo de no máximo 5 mil soldados capazes [de 125 no papel]."
- Informou o ministro da Defesa em 2014.

Em 2014, o equipamento ucraniano era horrível. Quase 100% dos veículos e munições eram estoques soviéticos de mais de 25 anos. Além disso, a maioria acabara de expirar. Como os veículos existiam no papel, mas nunca foram verificados ou usados desde 1991, seus radiadores e acumuladores estavam todos podres e irreparáveis.

O coronel do FSB que liderou a insurgência pró-Rússia em 2014 admitiu que isso também criou problemas para ele. Ele queria reabastecer dos armazéns militares ucranianos, mas esse material simplesmente não funcionava. Por exemplo, eles tomaram 28 mísseis antitanque e dispararam todos eles durante a batalha de Nikolaevka. Nenhum funcionou.

A julgar pelas entrevistas com insurgentes que ficaram desapontados ao descobrir que foguetes, bombas e granadas retiradas de armazéns ucranianos eram 99% disfuncionais (claro, eles tinham mais de 25 anos), não é surpreendente que a Ucrânia tenha perdido para a Rússia em 2014. É surpreendente que eles pudessem sequer lutar em absoluto.

Coronel Igor Vsevolodovich Girkin, do FSB, codinome Igor Ivanovich Strelkov, que liderou a invasão do Donbass em 2014.

Girkin/Strelkov com seus homens em cerimônia cristã ortodoxa.

Mesmo as antigas máquinas de rádio soviéticas não funcionavam. Os soldados ucranianos tiveram que se comunicar com SMS e, como a rede era muitas vezes horrível, eles tiveram que jogar seus telefones celulares no ar na esperança de que ele pegasse o sinal de rádio a poucos metros do solo.

É assim que o exército ucraniano parecia naquela época. Não é à toa que foi imediatamente esmagado por regulares russos em Debaltsevo e Ilovaysk, e Putin teve todos os motivos para acreditar que a resistência seria quebrada no momento em que ele lançasse seu exército regular em massa.

Muita coisa mudou. Primeiro, a Ucrânia teve seis rascunhos. Os homens foram convocados e enviados para o Donbass. Em seguida, a maioria desmobilizou e voltou à vida civil. Esse contingente do Donbass era de cerca de 60 mil soldados e rotacionava constantemente. Então agora a Ucrânia tem mais de 400.000 veteranos da guerra do Donbass. Muitos deles estiveram em combate. Assim, a Ucrânia tem um grande número de veteranos com experiência de combate. Provavelmente mais do que a Rússia. Sim, a Rússia tem lutado na Síria. Nunca publicou o tamanho de sua força, mas estima-se que seja de 2 a 3 mil. A maioria dos soldados russos nunca viu guerra.

Além disso, o combate que eles viram é diferente. Soldados russos estão acostumados a lutar apenas quando têm total superioridade. Na Síria, eles simplesmente arrasariam até o chão cidades com bombardeiros. Enquanto isso, os soldados ucranianos lutaram apenas contra inimigos muito mais fortes e bem equipados.

Em termos de equipamento, esta guerra tomou o exército ucraniano parcialmente reabastecido. Ele desenvolveu muitos armamentos inovadores próprios, mas quase nenhum deles foi produzido em larga escala. Na maioria dos casos, os soldados têm apenas alguns protótipos de novos armamentos produzidos na Ucrânia.

A Ucrânia encomendou 48 drones turcos Bayraktar TB2. Isso não é ruim - mais que o dobro do que o Azerbaijão tinha no Karabakh. Mas apenas 12 deles chegaram às tropas até agora. A Ucrânia também está desenvolvendo um novo e mais forte drone Bayraktar Akinci junto com os turcos, mas é tarde demais para esta guerra.

Drone Bayraktar TB2 ucraniano.

No entanto, os ucranianos receberam um número (não publicado) de Javelins produzidos nos Estados Unidos e M141 Bunker Defeat Munition, e LAW MBT produzidos na Suécia e na Grã-Bretanha. Juntamente com o armamento antitanque produzido pela Ucrânia, como "Stugna-P", RK-3 "Corsair" e "Barrier", ajuda a combater os tanques russos.

Soldado ucraniano com um míssil RK-3 Corsair.

As tropas ucranianas não haviam recebido muitos tanques novos quando Putin atacou. Mas eles adquiriram novos veículos blindados, como o Cossack-2 de produção nacional com módulos de combate Aselsan produzidos na Turquia e vários veículos blindados americanos, humvees, etc.


Finalmente, a Ucrânia criou um novo tipo de tropas - as tropas de defesa territorial, cujo número é estimado em 60.000. É uma cópia do tipo das tropas polacas. São civis que recebem treinamento militar e podem ser mobilizados em um dia para lutar apenas em sua própria cidade e região.

Por quê? Bem, isso é bastante óbvio. Se a Rússia fizesse uma Blitzkrieg adequada com vários escalões de ataque, a Ucrânia perderia de qualquer maneira. Mas a Rússia não fez. E os ucranianos apostaram que não fariam. Primeiro - é caro e difícil para um regime de segurança de Estado o qual não está maximizando em terra.

Soldados ucranianos.

Segundo, Putin esperava que o exército ucraniano fugisse ou se rendesse no primeiro dia. Como a maioria dos observadores estrangeiros esperava. Agora, é claro, eles estão mudando a narrativa, mas se você olhar para as postagens deles alguns dias atrás, eles não acreditavam que os ucranianos fariam qualquer resistência real.

Então Putin atacou com apenas um escalão. As tropas avançaram deixando muitos regulares e convocados ucranianos não-destruídos para trás. Em uma Blitzkrieg adequada, um segundo e um terceiro escalões teriam chegado para finalizar os defensores ucranianos. Mas eles não o fizeram. Esses escalões adicionais não existiam.


O que imediatamente criou o problema de abastecimento e reabastecimento. O primeiro escalão avançou. Ele precisa de um suprimento de munição, combustível e bem, de pessoas. Mas esses comboios de suprimentos estão sendo atacados pelos regulares e pelas tropas de defesa territorial deixadas para trás; sendo atacados por esses poucos drones Bayraktars que a Ucrânia conseguiu.

E supostamente pela milícia para quem o governo acabou de distribuir armas. Essas pessoas seriam incapazes de enfrentar as colunas russas, mas podem atacar comboios. Considere que a Ucrânia tem muitos veteranos com experiência de combate entre civis.

Strelkov, que liderou a insurgência pró-Rússia em 2014, confirma essa versão em seu telegrama. As colunas de suprimentos estão sendo destruídas porque não há um segundo escalão.

Postagem do Coronel Girkin/Strelkov.

Putin está aparentemente preocupado. No vídeo de 25 de fevereiro, ele pediu aos militares ucranianos que fizessem um golpe de estado. Ele não precisaria disso se seu plano funcionasse em primeiro lugar.

"'Tome o poder em suas mãos'.
Putin dirigiu-se aos militares ucranianos."

O que isto significa? O plano de Putin não funcionou. Porque ele não planejou a guerra. Ele nunca lutou em uma guerra e não tem ideia de como combatê-las. Ele sempre fez Operações Especiais e esta também é uma Operação Especial. Eles deveriam ter fugido ou se entregado, mas continuam lutando.

A derrota nesta operação infligirá enormes consequências para Putin e seu regime. É improvável que sobrevivam a esta derrota. Enquanto isso, é improvável que Putin ganhe pelos mesmos métodos.

Não é que o moral russo esteja baixo, mas sim que depende de quão difícil é a guerra. A maioria das tropas russas ficaria entusiasmada ou não se importaria com umas pequenas férias no exterior com diversão e aventuras. Lutar uma guerra dura e longa com possibilidade real de morte é outra história.

O moral das tropas russas é amplamente superestimado. De acordo com estudos sociológicos, a principal motivação para se alistar é geralmente conseguir um apartamento. Geralmente são jovens de origem desprivilegiada, sem perspectivas reais de vida. Essa é uma chance de obter uma habitação do Estado. Agora, se você estiver morto, não poderá obter uma habitação. Talvez aqueles que já estão na Ucrânia tenham pouca escolha, mas o próprio fato de que a resistência continua, a guerra é sangrenta e as baixas são reais desmotivaria enormemente aqueles que estão em casa. Não espere entusiasmo do lado russo "para ir lá".

O que Putin pode fazer?

  1. Começar a destruir a infraestrutura (concluído)
  2. Bloquear cidades (concluído)
  3. Simplesmente nivelar cidades com bombardeiros e artilharia como na Chechênia ou na Síria (pode ser)

Os dois primeiros infligiriam uma catástrofe humanitária e, como ele espera, quebrariam a vontade.

A terceira é mais problemática. Ao contrário da Chechênia ou da Síria, onde você poderia facilmente justificar o genocídio aberto com "combater os jihadistas", o que é um jogo justo na "guerra ao terror", aqui seria mais difícil e, na verdade, poderia atrair a resposta da OTAN. Ainda assim, não posso excluir isso.

Portanto, meu prognóstico é: se a luta continuar e a vitória não for alcançada, a capacidade e a vontade de lutar da Rússia desaparecerão rapidamente. Putin não tem escolha, mas muitos de seus subordinados têm.

Mesmo no caso da Rússia não perder tecnicamente e alguma fonte de armistício/acordo for alcançada, a Ucrânia já ganhou. Por quê? Muitos descrevem esse conflito como cinético. Besteira. Os conflitos ou interações humanas não são cinéticos. Eles são mitológicos e governados por mitos.

Soldado russo queimando dinheiro soviético, completamente sem valor, na Chechênia, 1995.

O dinheiro é um mito. Ele existe apenas porque acreditamos que sim. O poder é um mito. Nação é um mito. As instituições são puramente mitológicas. Considere a história do incêndio de Moscou em 1572. Ivan, o Terrível, dividiu seu país em Zemschina (terra) e Oprichnina (desmontada).

A Oprichnina estava sob seu domínio pessoal. Os Oprichniks - suas forças - lançaram campanhas de terror contra a Zemschina. Eles massacraram casas nobres inteiras, massacraram cidades, mataram um grande número de plebeus sem resistência. Por quê? Eles eram fortes e corajosos? Não, por causa do mito.

O povo russo existia dentro de um mito da monarquia ortodoxa. Claro que haveria indivíduos que iriam contra o czar ortodoxo. Mas era impossível organizar uma resistência contra ele. Assim, a resistência seria individual e facilmente esmagada pelas forças Oprichnik organizadas.

Os Oprichniks se tornaram muito corajosos e durões, porque a mitologia do povo russo proibiu 99% deles de resistir a essas forças de segurança. Então, com o tempo, eles decidiram que são muito bons. Em 1572, quando o Khan da Crimeia atacou Moscou, as forças Oprichnik foram enfrentá-lo. Cineticamente falando, eles tinham uma superioridade esmagadora. Armas, canhões, armaduras ou armamentos muito mais pesados. Sua defesa e poder de fogo eram muito mais fortes. Mas eles foram desbaratados em um único dia simplesmente por flechas. Porque eram acostumados a lutar contra pessoas cujo mito proibia resistir a eles.

Dentro da mitologia moscovita, os Oprichniks eram semideuses invencíveis e intocáveis, como mãos do czar ortodoxo, que é meio que um Deus vivo. Mas ao enfrentar o inimigo estrangeiro eles deixaram este espaço mitológico e entraram em um novo espaço onde são apenas pessoas e podem levar flecha na caraEles não estavam acostumados a levar flechas na cara. A própria percepção de que eles não são semideuses, mas mortais, os chocou. Eles fugiram largando suas armaduras, armas e canhões. Moscou foi incendiada apesar de ter total superioridade "cinética" e tecnológica.

Então, o poder é mitológico. A segurança estatal russa são deuses dentro de seu próprio espaço mitológico, onde representam o Estado divino. Mas o que eles descobriram é que os ucranianos deixaram esse espaço mitológico. Assim, a segurança estatal russa não tem poder lá. Eles são apenas mortais.

E, finalmente, o próprio fato da resistência contra um inimigo tão superior fortalece muito a mitologia ucraniana. É uma enorme construção de mitos que estamos testemunhando. O próprio fenômeno da guerra é inconcebível sem levar em conta a dimensão mitológica.

Considere Veneza. Quando Napoleão chegou, eles se renderam sem um tiro. Muito inteligente, salvou vidas, salvou a cidade. Acabou de matar o mito de Veneza. As pessoas viviam, mas a República morria. O mito nunca foi restaurado e é improvável que seja restaurado novamente.

Os teóricos da guerra da época passada o entendiam. Clausewitz apontou que é importante não apenas se você perdeu a independência, mas como você a perdeu. Se você se submeteu sem lutar, você salvou vidas - mas você matou seus mitos. Você será digerido pelo conquistador, mas se você perdeu após a luta brutal e sangrenta, seu mito está vivo. A memória da última batalha viverá através dos tempos. Ela moldará o espaço mitológico em que seus descendentes vivem e eles tentarão restaurar a independência na primeira oportunidade. Fim do tópico.