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segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

PERFIL: Sua Majestade Rei Abdullah II da Jordânia, "O Rei Guerreiro"

"Sua Majestade Rei Abdullah II da Jordânia despacha paraquedistas de um C-130 Hércules durante seu comando das Forças Especiais da Jordânia."
(Pintura de Stuart Brown)

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 3 de janeiro de 2020.

O atual rei Abdullah II entrou na Academia Militar Real de Sandhurst, no Reino Unido, em 1980 e foi comissionado como segundo tenente na primavera de 1981. Ele serviu como Comandante de Esquadrão de Reconhecimento no 13/18 Royal Hussars Regiment do Exército Britânico no Reino Unido e na Alemanha Ocidental.

De 1985 a 1993, serviu principalmente no Corpo Blindado (3ª Divisão) em todas as nomeações de comando no pelotão, companhia e como segundo em comando do batalhão, até finalmente comandar o Segundo Batalhão Blindado, 40ª Brigada Blindada, com o posto de tenente-coronel de janeiro de 1992 a janeiro de 1993. Durante esse período, ele participou de vários cursos militares nos EUA e no Reino Unido, incluindo a Escola de Estado-Maior de Camberley (Staff College Camberley, no Reino Unido em 1990-1991; além de outros cursos civis e militares.


O rei cumprimenta soldados durante uma visita.

Ele também tem vários vínculos com as Forças Especiais e um ano como instrutor de táticas no Esquadrão Anti-Carro de Helicópteros Cobra do Exército Jordaniano. O início de 1993 o viu como vice-comandante das Forças Especiais da Jordânia até assumir o comando completo em novembro de 1993. 

Em 1994, Abdullah assumiu o comando das Forças Especiais da Jordânia e outras unidades de elite como General-de-Brigada. Ele comandou essas forças até outubro de 1996, quando recebeu instruções para reorganizar essa e outras unidades de elite seguindo o Comando de Operações Especiais (Special Operations CommandSOCOM) americano; nascendo assim o Comando Conjunto de Operações Especiais jordaniano.

Princesa Salma bint Abdullah recebendo de seu pai as asas de piloto, janeiro de 2020.
Ela é a primeira mulher piloto da Jordânia.

Ainda em 1996, o General Abdullah participou de um curso de administração de recursos de defesa na Escola Naval de Pós-Graduação (Naval Postgraduate School, NPS) americana e comandou uma caçada das forças especiais de elite na busca de terroristas que haviam matado 8 pessoas em 1998. A operação terminou em sucesso, com seu nome cantado nas ruas de Amã, a capital da Jordânia.

Em 1998, como Comandante dessa força, Abdullah foi promovido ao posto de Major-General e continuou nesse comando até a morte de seu pai, Sua Majestade o Rei Hussein, em fevereiro de 1999.

Demonstração de retomada pelas forças especiais jordanianas, "boinas vermelhas".

As forças especiais jordanianas, consideradas as melhores no mundo árabe, levam seu nome: Grupo de Operações Especiais Rei Abdullah II

Em 2018, as forças especiais jordanianas foram reorganizadas pela terceira vez (eram o Grupo de Forças Especiais em 2017-2018).
  • Diretório de Forças Especiais e Intervenção Rápida, comando e controle.
  • Grupo de Operações Especiais Rei Abdullah II, unidades especiais e contra-terrorismo.
  • Brigada de Intervenção Rápida e Alta Prontidão*, unidades de intervenção e aviação.
  • Escola de Operações Especiais Príncipe Hashim, coordena o treinamento da força.

Forças Especiais jordanianas.

*Nota: O seu nome completo é Brigada de Intervenção Rápida e Alta Prontidão Mohammed bin Zayed al-Nahyan.

Devido à sua formação militar, Abdullah acredita em um exército poderoso e seguiu uma política de "qualidade sobre quantidade". Durante o primeiro ano de seu reinado, ele estabeleceu o Departamento de Projeto e Desenvolvimento Rei Abdullah (King Abdullah II Design and Development BureauKADDB), cujo objetivo é "fornecer uma capacidade local para o fornecimento de serviços científicos e técnicos às Forças Armadas da Jordânia". A empresa fabrica uma grande variedade de produtos militares, apresentados na Bienal Internacional das Forças de Operações Especiais (Special Operations Forces Exhibition and ConferenceSOFEX), sendo o patrocinador da SOFEX. Abdullah modernizou o exército, levando a Jordânia a adquirir armamento avançado e aumentar e aprimorar sua frota de caças F-16. 

Ocasionalmente, o rei treina com o exército jordaniano em exercícios militares de munição real:


Fogo e movimento em dupla do Rei Abdullah segundo com seu filho, o príncipe herdeiro Hussein bin Abdullah:


KASOTC e a Annual Warrior Competition

Outro dos grandes feitos do Rei Abdullah II foi a criação do Centro de Treinamento de Operações Especiais Redi Abdullah II (King Abdullah II Special Operations Training Center, KASOTC), operacional em 19 de maio de 2009.

"Onde o treinamento avançado encontra a tecnologia avançada", lema do KASOTC.

KASOTC sedia uma competição internacional anual de forças especiais: a Competição Anual de Guerreiros (Annual Warrior Competition). A Warrior é uma competição anual orientada para o combate, baseada na capacidade física, trabalho em equipe, comunicação e precisão individual. Na sua última edição, em 2019, a Warrior contou com 46 equipes de 26 países, com a vitória da equipe 1 de Brunei, seguida pelos jordanianos, e a equipe 2 de Brunei em terceiro lugar.

Comandos do Rejimen Pasukan Khas de Brunei indicando ao fotógrafo Bob Morrison a sua bandeira, 2018.
(Joint Forces.com)

Operação Mártir Muath

Em abril de 2014, o Estado Islâmico do Iraque e o Levante (EI), um afiliado da Al-Qaeda que surgiu no início de 2014 quando expulsou as forças do governo iraquiano das principais cidades, publicou um vídeo online que ameaçava invadir o reino da Jordânia e matar Abdullah (a quem eles viam como inimigo do Islã). "Eu tenho uma mensagem para o tirano da Jordânia: estamos chegando a você com cintos de morte e explosivos", disse um combatente do EI ao destruir um passaporte jordaniano. Em agosto de 2014, milhares de cristãos iraquianos fugiram do EI e buscaram abrigo em igrejas jordanianas.

O Rei Abdullah II chamou a atenção da mídia ocidental por conta de uma tragédia ocorrida em 2015. No final de dezembro de 2014, um avião de caça F-16 da Jordânia caiu perto de Raqqa, na Síria, durante uma missão. Em troca do piloto, o EI exigiu a libertação de Sajida Al-Rishawi, um homem-bomba cujo cinto não detonou nos atentados de 2005 em Amã, que mataram 60 pessoas e feriram 115 em três hotéis na capital jordaniana.

Um vídeo foi publicado online em 3 de fevereiro de 2015, mostrando o piloto jordaniano Muath Al-Kasasbeh, vestindo um macacão laranja, sendo queimado até a morte em uma jaula. 

O assassinato de Al-Kasasbeh provocou indignação no país, enquanto o rei estava ausente em uma visita de estado aos Estados Unidos. Antes de retornar à Jordânia, Abdullah rapidamente ratificou as sentenças de morte proferidas anteriormente a dois jihadistas iraquianos presos, Sajida Al-Rishawi e Ziad Al-Karbouly, que foram executados antes do amanhecer do dia seguinte. Na mesma noite, Abdullah foi recebido em Amã, por multidões o aplaudindo que se alinhavam ao longo da estrada do aeroporto para expressar seu apoio.

Foto divulgada pela Jordânia do Rei Abdullah como mestre-de-salto quando da Operação Mártir Muath, fevereiro de 2015.

Como comandante-em-chefe, Abdullah lançou a Operação Mártir Muath, uma série de ataques aéreos contra alvos do EI durante a semana seguinte visando esconderijos de armas, campos de treinamento e instalações de extração de petróleo. Participando ativamente das operações, a sua retaliação foi elogiada na Internet, onde ele foi apelidado de "O Rei Guerreiro".

Post-Scriptum: Um amante da ficção científica

Em uma nota mais leve, o Rei Abdullah II é um grande fã da série Jornada nas Estrelas, e pediu a chance de aparecer como um extra em um dos episódios da série Voyager (com uniforme verde e preto). Uma aparição relâmpago, mas que mostra como "é bom ser o rei".

quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

FOTO: Fuzis dourados na Tailândia

Guardas Reais tailandeses durante a coração do Rei Rama X, armados com fuzis bullpup Tavor TAR-21 banhados em ouro, 4 de maio de 2019.

Por uma longa tradição, os guardas reais são armados com armas douradas. O Depósito de Munições do Exército Real Tailandês desmontou completamente as armas, até o nível de peças individuais, e as cromou com ouro - uma a uma. 

O novo rei Maha Vajiralongkorn assumiu o título de Rama X;

Leitura recomendada:

domingo, 19 de janeiro de 2020

PERFIL: Khalid Bin Sultan Bin Abdulaziz Al Saud, príncipe Khalid bin Sultan, Arábia Saudita

Tenente-General Khalid Bin Sultan Bin Abdulaziz Al Saud, comandante das Forças Conjuntas na Arábia Saudita, discute as condições para um cessar-fogo com os generais iraquianos durante a Operação Tempestade do Deserto, em 1991. Atrás do General Khaled está o General H. Norman Schwarzkopf, comandante-em-chefe do Comando Central dos Estados Unidos.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 19 de janeiro de 2020.

Khalid bin Sultan foi cadete na Academia Militar de Sandhurst, na Inglaterra, de 1967 a 1968, "cumprindo assim um sonho de adolescente". Ele
 se voluntariou para servir nas forças especiais mas foi colocado no comando de um pelotão de artilharia na província de Tabuk, com a perspectiva de ser destacado na função de compras e aquisições militares, para onde foi remanejado tempos depois. Essa posição de importância é conhecida pelos "favorecimentos" com relação às compras de material militar. 

Pensando na defesa antiaérea saudita, o príncipe Khalid criou as Forças de Defesa Aérea independente do Exército em 1981; sendo o seu primeiro comandante. A Força conta atualmente com cerca de 16 mil homens.

Ele também é formado na Escola de Comando e Estado-Maior do Fort Leavenworth (Command and General Staff College, CGSC), e na Escola de Guerra Aérea (Air War College, AWC), ambas nos Estados Unidos.


Emblema das Forças de Defesa Aérea sauditas.

Na década de 1980, o príncipe Khalid bin Sultan, então comandante da Força de Defesa Aérea, foi à China comprar mísseis DF-3 (Dong Feng 3, Vento Oriental 3), o primeiro míssil guiado saudita, criando assim a Força de Mísseis Estratégicos - hoje com 2.500 homens. Por seu papel na criação da Força de Mísseis Estratégicos, Khalid bin Sultan recebeu o apelido de "O Pai dos Mísseis da Arábia Saudita".

Quando o Iraque invadiu o Kuwait, em 1990, o príncipe Khalid foi nomeado comandante das forças conjuntas árabes da Coalização, sua posição mais conhecida, e destacado com uma responsabilidade fictícia equivalente àquela do General Schwarzkopf. Esta sinecura foi narrada pelo General Khalid escreveu um livro em 1995 sobre a sua atuação na Guerra do Golfo, Desert Warrior: A Personal View of the Gulf War by the Joint Forces Commander (Guerreiro do Deserto: A visão pessoal da Guerra do Golfo pelo Comandante das Forças Conjuntas); o primeiro livro escrito por um membro da família real saudita.


Desert Warrior é um relato interessante do universo saudita. Logo de cara percebemos que a visão do príncipe Khalid sobre o que é um "Guerreiro" é bem diferente da visão ocidental: ele se vangloria da sua ilusória importância na Coalizão, de vestir um uniforme militar e viajar dentro de uma Mercedes com ar condicionado, como um playboy, sendo acompanhado por uma equipe de filmagem para auto-promoção enquanto suas tropas suavam em trincheiras no deserto. O Príncipe também fala orgulhosamente sobre a importância de ter nascido na família Saud e dos méritos do nepotismo saudita na escolha de membros da família real para posições importantes independente do mérito profissional. Khalid jamais visitou as linhas de frente, pois ele era "importante demais para se arriscar". 

Ele também tenta pintar uma paridade de importância decisória com Schwarzkopf, com quem teve uma relação tempestuosa, e qualifica a contribuição saudita como "massiva". Em uma das muitas gritarias entre ele e "Storming Norman", o general americano gritou "Devo tratá-lo como general ou como príncipe?", "Ambos!" respondeu Khalid no mesmo tom. Orgulhoso e egocêntrico, o príncipe-general evitou todo tipo de demonstração de subordinação aos americanos, assegurando, por exemplo, que ele sempre tivesse o mesmo número de guarda-costas que Schwarzkopf.

Avibras ASTROS-II SS-30 do Exército Saudito em demonstração durante a Operação Escudo no Deserto, 1990.

Khaled tem muito a dizer sobre a natureza da coalizão contra Saddam Hussein e as peculiaridades de vários contingentes (por exemplo, a atitude de superioridade das tropas francesas) e reclama que o acordo de paz era fraco, sem um documento formal de rendição "que [...] poderia ter ajudado a remover Saddam". A narrativa de um garoto mimado de humor sardônico dá uma visão inédita sobre o universo real saudita. 

Após a guerra, Khalid foi promovido a Marechal-de-Campo pelo Rei Fahd, seu tio, e foi para a reserva em 1991 - dedicando-se a negócios pessoais. Apenas quatro anos depois, o Rei Fahd sofreu um derrame, deixando seu meio-irmão Adbullah como o governante de fato; com sua idade avançada (70 anos) a questão da sucessão real em uma monarquia de 5 mil príncipes afetou a eterna briga por trás das cortinas na corte saudita. De um lado, Abdullah comandando a prestigiosa Guarda Nacional, cuja missão é defender a Casa Real como uma guarda pretoriana e recrutada majoritariamente nas leais tribos beduínas. Do outro, Sultan bin Abdulaziz, Ministro da Defesa, comandando o exército, majoritariamente composto por homens de origem urbana. Sultan reconvocou Khalid, seu filho, para a função de Vice-Ministro da Defesa, em janeiro de 2001, de modo a garantir que as forças armadas permanecessem do lado da família do príncipe Sultan.

Khalid bin Sultan é filho do ex-Ministro da Defesa saudita príncipe Sultan bin Abdulaziz Al Saud, ambos da família real saudita.

Em 2007, os sauditas compraram o míssil de alcance médio Dong-Feng 21 (DF-21) secretamente da China vermelha. O DF-21 foi projetado para carregar armas nucleares, sendo impreciso como arma convencional (o que tornou os DF-3 sauditas inúteis contra os Scuds iraquianos em 1991). Em abril de 2013, Khalid visitou a China novamente e encontrou com o Presidente Xi Jinping e o Ministro da Defesa Chang Wanquan. A aquisição dos mísseis DF-21 só veio a público em janeiro de 2014, por meio de uma matéria da Newsweek dizendo que a CIA aprovou a compra contanto que os mísseis fossem modificados para não serem capazes de carregar cargas nucleares. Em setembro de 2014, Riad anunciou a compra de mísseis balísticos DF-21A chineses (chamados CSS-5 pela OTAN) para a defesa de Meca e Medina contra o Irã.

Em novembro de 2009, Khalid bin Sultan liderou uma intervenção militar saudita no Iêmen, depois que uma patrulha de fronteira saudita foi emboscada por rebeldes houthis, do lado saudita da fronteira, em 3 de novembro, com a morte de 1 soldado e ferindo outros 11 - com um segundo soldado morrendo depois. Os sauditas responderam com ataques aéreos ao território iemenita e mobilização de tropas na fronteira.

Em 8 de novembro, a Arábia Saudita confirmou que havia entrado na briga, alegando ter "recuperado o controle" da montanha Jabal al-Dukhan dos rebeldes. Por volta dessa época, comandos jordanianos, que haviam chegado aos campos sauditas alguns dias antes, apoiaram as forças sauditas nos esforços para tomar a montanha Al-Dukhan; com baixas em ambos os lados. A Arábia Saudita formou uma coalizão árabe e ocupou o Iêmen com quase 200 mil homens, além de um forte contingente dos Emirados Árabes Unidos a partir de 2015.

Tropas sauditas no Iêmen, 2016.

A campanha foi conduzida de forma desajeitada, trazendo fortes críticas a Khalid. O Rei Abdullah não ficou nada satisfeito com a sua liderança, quando as tropas sauditas se mostraram incapazes de rapidamente desalojarem os rebeldes houthis iemenitas de território saudita ocupado por eles no final de 2009. O Rei Abdullah expressou especificamente suas preocupações com a longa duração do conflito, grande número de baixas e incompetência saudita. 

Khalid era cotado para a sucessão de seu pai, falecido em 2011, como Ministro da Defesa. Mas dada sua ineficiência na operação no Iêmen, uma nova viagem à China com mais compras militares vultosas, e a decisão de firmar um acordo multi-bilionário de 84 Boeing F-15 que a Arábia Saudita comprou em 2010, fizeram com que Khalid fosse apontado como Vice-Ministro da Defesa em novembro de 2011. Seu mandato durou até 20 de abril de 2013, quando foi substituído por Fahd bin Abdullah, outro membro da família real. Tradicionalmente, a decisão de dispensa segue "com base em seu pedido", mas a ordem real emitida dispensando Khalid bin Sultan do cargo não incluía esta frase.

Bibliografia recomendada: