quarta-feira, 29 de abril de 2020

Sobre os méritos do M4 e EF88 (e mais) | PARTE 4


Por Solomon Birch, The Cove, 15 de julho de 2019.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 29 de abril de 2020.

Artigo 4 | O Fator Humano Parte 1: A razão pela qual esses artigos existem: Por que há um grupo de soldados regulares que gostam do M4 e odeiam o F88.

Para melhor ou pior, há uma minoria substancial e vocal de soldados e oficiais do Exército Regular Australiano que defendem veementemente que o AUG é uma plataforma horrível que deveria ser substituída como nosso fuzil de serviço por algo como o M4A1, pra ontem. Esse é um fenômeno social complexo e inclui alguns indivíduos que demonstram um entendimento muito fraco dos pontos fortes e fracos das várias armas e fornecem justificativas inválidas ou indiscerníveis para sua visão, assim como alguns que têm um entendimento muito bom e que tendem a legitimamente valorizar muito certas características de uma arma as quais o M4 possui. Esta seção tentará explicar a existência do fenômeno e validar a afirmação no prefácio de que, na maioria dos casos de uso relevantes para o Exército Australiano, os projetos derivados do M4 não são particularmente melhores que o EF88.

Razões totalmente válidas; o M4 é realmente leve, personalizável e maneja muito bem. No momento em que a atração pelo M4 começou, o Exército Australiano regular estava envolvido em contra-insurgência predominantemente de baixa intensidade no Afeganistão e todas as partes do sistema de armas que empregavam eram quase idênticas às forças e forças especiais dos EUA - uma mira Trijicon TA31, munição clone do SS109 e a opção de montar um lança-granadas M203 - exceto o próprio fuzil, que pesava quase o dobro de alguns fuzis baseados no M4 (o M4 no serviço australiano pesa apenas 2,7kg descarregado e sem acessórios). Os soldados nesse período foram sobrecarregados criticamente [i], e o alto peso do fuzil agravou esse problema: o F88SA2 carregado pesa quase exatamente o mesmo que o SLR de 7,62x51mm de potência total que o F88 substituiu, e ainda mais com acessórios. O fuzil também não era mais preciso na prática do que os AR15 de ponta que estavam começando a proliferar no uso militar e civil. Embora o AUG tenha sido significativamente mais preciso que o M16A2 durante o SARP, os novos projetos do AR15 adotaram canos flutuantes que tornavam esses sistemas um pouco mais precisos do que o F88 em teoria, mas esses fuzis tinham opções para a instalação de gatilhos melhores, coronhas ajustáveis, bipés e empunhaduras frontais ajustáveis que os tornaram muito mais fáceis de manusear e precisos na prática. [ii] No Afeganistão, os alcances e as características dos engajamentos tendem a ser tão curtos que um M4 de cano curto seria adequado, ou tão longo que até um cano de corpo inteiro F88 era inadequado, com poucos engajamentos incomumente nas distâncias intermediárias para as quais os fuzis de assalto são destinados [iii]. Os soldados portando um F88 também seriam expostos apenas ao aumento dos incidentes de tiro (inerentes a todas as armas portáteis) em condições adversas, empoeiradas e arenosas para esse fuzil e não estariam necessariamente cientes dos incidentes de tiro (mais sérios e mais frequentes) do mesmo tipo em armas baseadas no M4. Parece-me certo que essas razões completamente legítimas constituíam grande parte do capital cultural que constituiu a base da preferência (em andamento) em alguns círculos pelo M4 em oposição ao F88 FOW.


Um F88SA1 totalmente equipado com um peso maior que o fuzil de batalha "SLR" L1A1 que substituiu. Um M4 com os mesmos acessórios teria pelo menos um quilograma a menos.

Razões totalmente inválidas: furphies* absolutas. Tendo reconhecido as razões legítimas, deve-se salientar que o pessoal militar pode ser incrivelmente hábil em formular razões para reclamar, se não houver nenhuma razão aparente válida para eles. Escavando no banco de dados do Center for Army Lessons (Centro de Lições do Exército) produz uma fantástica disseminação de fontes primárias de soldados e oficiais em operações, ou recentemente retornadas de operações, no período que levantam uma variedade de críticas ao F88 em comparação ao M4 que não têm base na realidade. Os soldados alegaram que o M4A1 é variadamente: mais poderoso [iv] (o oposto é verdadeiro), mais preciso [v] (o oposto é verdadeiro), mais confiável [vi] (o oposto é verdadeiro) e um quarto do preço de um F88 [vii]. O último é um palpite compreensível baseado na Wikipedia, alguns preços de clones M4 que não sejam milspec (especificação militar) e algumas conversões ruins de moeda, mas que são principalmente incorreto. Na realidade, poderíamos comprar algo mais próximo de 21 fuzis M4A1 MILSPEC pelo preço de 20 fuzis F88 de uma determinada variante (mas também teríamos que gastar muitas dezenas de milhões de dólares em reciclagem e substituição de carregadores, ferramentas e peças de reparo, fazendo uma aquisição do M4 quase certamente mais cara no geral) [viii]. Furphies e rumores como esses permanecem em grande parte incontestados e se espalharam amplamente por todo a diggernet**, aparecendo em memes do Facebook, comentários e discussões comuns regularmente.

*Nota do Tradutor: Uma furphy é uma gíria australiana para uma história errônea ou improvável que é considerada factual. As furphies são supostamente "ouvidas" de fontes respeitáveis, às vezes de segunda-mão ou de terceira-mão, e amplamente aceitas até refutadas.

**NT: Junção de Digger, o apelido dos soldados australianos e neo-zelandeses (ANZAC), e internet.


Um operador americano no Afeganistão com um FN SCAR-L (ou SCAR16). O SCAR foi projetado pela FN a pedido das Forças Especiais dos EUA para substituir o M4. Ele superou o M4 em vários testes e uma versão de 7,62mm permanece em serviço nos EUA.

A grama é sempre mais verde. Durante o mesmo período em que muitos soldados e oficiais australianos começaram a clamar para trocar seus fuzis baseados no AUG por fuzis baseados no AR15, muitos soldados e oficiais americanos começaram a clamar para substituir seus fuzis baseados no AR15 por um fuzil que usava o mecanismo de operação do AUG. Isso fornece uma demonstração clara do fato de que há pelo menos um elemento da grama sempre sendo mais verde em jogo aqui. Para aqueles que não estão familiarizados com a essência dos argumentos contra o M4 no estabelecimento militar e de armas dos EUA ou com a ferocidade com a qual são apresentados, encorajo você a ler uma apresentação de 2008 feita pelo muito respeitado ex-paraquedista e ancião da indústria de armas de fogo e funcionário da H&K Jim Schatz.

O artigo final analisa o argumento mais frequentemente apresentado em favor do M4, que perversamente não tem quase nada a ver com os fuzis: Forças Especiais.

Notas finais:

[i] R Orr, R Pope, V Johnston, J Coyle, “Load carriage and its force impact” Australian Defence Force Journal, Edição 185, datada em 01 de janeiro de 2011.

[ii] Por exemplo, o USSOCOM MK12 Special Purpose Rifle, o qual atinge uma precisão consistente de 0,5 MOA com munição MK262, veja notas em Metodologias de Medição de Precisão Apresentadas por Chuck Marsh - NSWC Crane, sem data.

[iii] Thomas Ehrhart, “Increasing Small Arms Lethality in Afghanistan Taking Back the Infantry Half-Kilometer” School of Advanced Military Studies, United States Army Command and General Staff College, 2009, 3-4.

[iv] Army Observation OBS000010825, datada em 23 de junho de 2009 (NÃO-CLASSIFICADO).


[v] Army Observation OBS000027629, datada em 28 de agosto de 2012, desclassificada em 09 de maio de 2019 pela SO1 Lessons, Army Knowledge Group (RESTRITO).

[vi] Army Observation OBS 000001455, datada em 01 de agosto de 2007 (NÃO-CLASSIFICADO).

[vii] Army Observation OBS0000002563, datada em 13 de março de 2007 (NÃO-CLASSIFICADO).

[viii] CASG “Cost Comparison of the M4 Carbine versus the EF88”, datada em 20 de outubro de 2016 (NÃO-CLASSIFICADO).

Original: https://cove.army.gov.au/article/the-merits-m4-and-ef88-and-more-part-4

Solomon Birch é um oficial do RACT (Royal Australian Corps of Transport, Real Corpo de Transporte Australiano) atualmente postado na Ala de Transporte Rodoviário da Escola de Transporte do Exército (Road Transport Wing, Army School of Transport). As postagens anteriores incluem o 1 Sig Regt, 1 CSSB e 1 CER.

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