segunda-feira, 27 de abril de 2020

Sobre os méritos do M4 e EF88 (e mais) | PARTE 1


Por Solomon Birch, The Cove, 13 de julho de 2019.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 27 de abril de 2020.

Esses artigos começaram originalmente como um trabalho acadêmico destinado ao Australian Army Journal que documentava, com alguns detalhes, o desenvolvimento dos fuzis F88, M4 e aqueles parecidos com o M4 a partir de 1988 em diante. Seu objetivo era comparar os fuzis e a história detalhada, mas, apesar de interessante se você é do tipo de pessoa que gosta de assistir Ian McCollum do Forgottenweapons.com, ele foi realmente lançado para o público errado.


Ian "Gun Jesus" McCollum é um ícone do mundo das armas na internet.

O objetivo desta série de cinco artigos é fornecer um recurso sucinto e acessível aos membros do Exército Australiano que se envolvem em conversas sobre os méritos relativos do EF88 e M4, a fim de melhorar a qualidade da discussão sobre armas portáteis. O método deste artigo é descrever o contexto do desenvolvimento do projeto de ambos os fuzis, dissipar os equívocos comuns na área e tentar entender o fenômeno social da preferência de algum soldado pelo M4 FOW ao invés do F88 FOW. Ao fazer isso, vários documentos foram desclassificados ou agrupados e disponibilizados ao público para ajudar a melhorar a base factual da discussão sobre o tópico. Em resumo, todas as armas em discussão são muito boas e têm uma variedade de pontos fortes e fracos sutis que tendem a ser exagerados na discussão geral.



Ao pesquisar e escrever esses artigos, o autor chegou à conclusão de que o EF88 é um fuzil substancialmente melhor que o M4A1 na maioria dos casos de uso comum para um fuzil de serviço, porque geralmente é mais preciso, mais confiável, mais letal e mais fácil de manter, mas que o M4A1 é melhor em alguns casos de uso de nicho, porque é mais leve, mais ergonômico, lida melhor na maioria das vezes e é mais comumente usado em todo o mundo, resultando em um melhor mercado de reposição de peças para ele.

Solomon Birch é um oficial de logística que atualmente está destacado no CIOG e está em processo de transferência para as reservas. O autor gostaria de agradecer a Chris Masters, Darren Christopher, Mark Richards, Ten-Cel. Mathew Brookes, Ten-Cel. Cameron Fraser e Major Yong Yi, bem como ao grande número de indivíduos anônimos por sua assistência na coleta de informações para esses artigos. Finalmente, se alguém souber a localização de um F88-S sobrevivente, ele poderia por favor chamar a atenção da Unidade de História do Exército Australiano, pois atualmente não há exemplares.

Esta série de artigos está sendo publicada em cinco partes:

Hoje: Artigo 1 | Contexto e História Antiga - O M16 e o Steyr AUG.

Ter, 16 de julho: Artigo 2 | A História do Meio - O M4A1 e o F88SA1/2.

Qua, 17 de julho: Artigo 3 | A História Tardia: Os subprodutos do EF88 e M4.

Qui, 18 de julho: Artigo 4 | O Fator Humano Parte 1: A razão pela qual esses artigos existem: Por que há um grupo de soldados regulares que gostam do M4 e odeiam o F88.

Sexta-feira, 19 de julho: Artigo 5 | O Fator Humano Parte 2: As Forças Especiais lançam uma longa sombra.

Artigo 1 - Contexto e história antiga


M16 experimental no Vietnã.

O M16 e o Steyr AUG

O M16 foi baseado no Armalite Rifle Model 15 (Fuzil Armalite Modelo 15, AR15). O AR15 foi baseado no AR10, projetado de 1953 a 1955. O AR15 foi projetado de 1957 a 1959 e foi adotado pela primeira vez no serviço militar americano em 1963. Tinha 39,5 polegadas (1m) de comprimento, um cano de 20 polegadas (50,8cm) e pesava 3,1kg descarregado. Destacou-se pelo uso de materiais da “era espacial” (principalmente alumínio, mas um pouco de plástico) e pela introdução de um cartucho de calibre intermediário, o M193 de 5,56x45mm, que alcançou letalidade aceitável devido à sua velocidade muito alta [i]. Ele cicla seu ferrolho enviando gás transportado do cano através de um tubo até o conjunto do ferrolho o qual o gás empurra diretamente (às vezes isso é chamado de "sistema de impingimento direto"). Houve sérios problemas com sua confiabilidade no início de sua vida útil no Vietnã, principalmente porque o tipo de propelente usado para a munição diferia daquele para o qual o fuzil foi projetado. No entanto, os problemas de confiabilidade foram amplamente resolvidos com alterações no projeto e peças aprimoradas [ii].


Comparação dos mecanismos.

O M16 e o M16A1 foram introduzidos pela primeira vez nas forças armadas americanas em 1963. Em 1983, o M16A2 foi introduzido com um novo cano que permitia o uso de munições mais pesadas e perfurantes e, finalmente, em 1996, foram introduzidos o M16A3 e o M16A4 com trilhos MIL-STD 1913 “Picatinny”, para que a óptica padronizada possa ser montada no sistema. Cada iteração também teve várias outras alterações menos pronunciadas que não são mencionadas. Cada versão subsequente pesava mais do que seus antecessores, mas todos mantinham o cano de 20 polegadas (50,8cm) e tinham o mesmo comprimento total.

O Steyr AUG começou a ser projetado por volta de 1973 e foi adotado pelas forças armadas austríacas em 1977. Tinha 31,1 polegadas (79cm) de comprimento, um cano de 20 polegadas (50,8cm) e pesava 3,6 kg descarregado. Ele possuía vários recursos dignos de nota, mas é conhecido principalmente por colocar as partes operacionais da arma atrás do gatilho (tornando-a um “bullpup”), incluindo muito plástico no projeto e uma mira óptica integral, quase todos inéditos para um fuzil de serviço na época. Ele alterna sua ação enviando gás transportado do cano para um pistão que percorre uma curta distância e atinge uma haste que se projeta do conjunto do ferrolho, pressionando-o para ciclar a ação (chamado de “sistema de pistão a gás de curso curto”). Foi submetido a várias pequenas modificações quando outras forças armadas o adotaram, por exemplo, a inclusão do bloqueio de tiro único para as aquisição do Exército Irlandês.

A partir de 1982, o Exército Australiano quis substituir seus Fuzis Auto-Carregáveis L1A1 (Self-Loading Rifle, SLR, o FAL imperial) por algo mais novo e calibrados em 5.56x45mm [iii]. Ele conduziu um Programa de Substituição de Armas Portáteis (Small Arms Replacement ProgramSARP), onde os testes finais em 1985 foram entre o Steyr AUG e o M16A2. O Steyr AUG venceu conclusivamente o M16A2 em quase todas as áreas [iv]. O M16 sofreu mais incidentes de tiro, suas peças quebraram com mais frequência, seus canos não atendiam às expectativas de vida útil do cano, eram muito menos precisos, muito mais difíceis de manter e foram reprovados na maioria dos testes de condições adversas. O Relatório de Avaliação da SARP (Volume Um) (Volume Dois) (Volume Três) contém o seguinte Comentário Geral da Equipe de Julgamento: “Sem exceção, incluindo os soldados atiradores, todos preferiram o Steyr em termos de tiro, desempenho, limpeza, manutenção e manuseio”, e a seguinte conclusão “A partir dos resultados da Avaliação de Engenharia, a EDE não hesita em afirmar que o Steyr é a arma significativamente melhor dentre os competidores [de armas individuais], em termos de satisfação dos aspectos de engenharia [dos requisitos do Exército], e é considerado adequado para introdução em serviço sem modificações." Ainda existem rumores de que o AUG foi selecionado porque a Colt não licenciaria a produção do M16A2 na Austrália - se isso for verdade [v], não parece ser a principal razão pela qual o AUG foi selecionado e a Colt licenciou a fabricação em outros países no período (por exemplo, Diemaco Canadá). Em 1988, a Força de Defesa Australiana adotou o Steyr AUG como o F88.


O F88 e as armas que ele substituiu.

Assim como o M16 no início do serviço americano, o F88 encontrou alguns problemas iniciais que foram corrigidos por melhorias nos métodos de controle de qualidade e produção em Lithgow. Quando o projeto foi introduzido, certos elementos do projeto foram alterados, por exemplo, uma alteração nos materiais e no desenho da mola de operação principal e, enquanto as alterações individuais pareciam estar dentro da tolerância, ocorreram alguns empilhamentos da tolerância que reduziram a confiabilidade do projeto da arma para níveis abaixo daqueles vistos nos testes [vi]. Em todos os casos, os problemas foram resolvidos com modificações nas peças e melhor controle de qualidade. No entanto, danos iniciais à reputação já haviam sido infligidos à arma em algumas partes do Exército (particularmente nas forças especiais, que haviam recebido alguns dos primeiros lotes do F88). Esse dano à reputação foi exacerbado pelo uso da arma em situações que estavam fora dos requisitos do usuário estipulados pelo Exército e para os quais a arma nunca foi projetada e nunca testada, por exemplo, para inserção por submarino e nas operações de desembarque em praias nas quais a arma de fogo sofreria travamento hidrostática (uma limitação comum a quase todas as armas de fogo automáticas, até certo ponto, quando disparadas com água nas peças móveis, e notadamente o porquê da arma preferida por muitos operadores especiais para esses casos é um revólver de ação dupla) [vii][viii]. Falando com os primeiros usuários do F88 no Exército, parece que ele foi substancialmente preferido em relação ao L1A1 SLR e M16 que ele substituiu devido ao seu peso leve, comprimento curto, melhor confiabilidade e características de manuseio mais fáceis, mas houve algumas dúvidas iniciais devido ao desenho e materiais não convencionais combinados com os problemas iniciais de controle de qualidade.

Notas finais:

[i] United States Continental Army Command, “Study of the Military Characteristics for a Rifle of High Velocity and Small Caliber [sic]” ATDEV-3 474/6, datado em 21 de março de 1957 (NÃO-CLASSIFICADO).

[ii] Weapon Systems Analysis Directorate, Office of the Chief of Staff [US] Army, “Report of the M16 Rifle Review Panel” datado em 1º de Junho de 1968, desclassificado em 09 de abril de 1984 (NÃO-CLASSIFICADO), D25-D30.

[iii] Australian Army Engineering Development Establishment, “The Engineering Evaluation on the Individual Weapons for the Small Arms Replacement Project” datado em agosto de 1985, desclassificado em 25 de junho de 2019 por SO1 Lethality Soldier Combat Systems Program, Army Headquarters (NÃO-CLASSIFICADO), Vol 1, p17.

[iv] Australian Army Engineering Development Establishment, “The Engineering Evaluation on the Individual Weapons for the Small Arms Replacement Project” datado em agosto de 1985 desclassificado em 25 de junho de 2019 SO1 Lethality Soldier Combat Systems Program, Army Headquarters (NÃO-CLASSIFICADO), Anexo A ao Vol 1.

[v] Não foi possível encontrar fontes primárias e secundárias que confirmem esse boato, no entanto, várias fontes de segunda-mão disseram que foram informadas diretamente por personalidades relacionadas ao projeto de que este era o caso.

[vi] Entrevista com o Engenheiro-Chefe de Armas Portáteis (Chief Engineer Small Arms, CASG) e Capitão Birch, 06 de março de 2019.

[vii] Entrevista com o Engenheiro-Chefe de Armas Portáteis (Chief Engineer Small Arms, CASG) e Capitão Birch, 27 de fevereiro de 2019.

[viii] Entrevista com Solomon Birch e Chris Masters datada em 13 de fevereiro de 2019.

Original: https://cove.army.gov.au/article/the-merits-m4-and-ef88-and-more-part-1

Solomon Birch é um oficial do RACT (Royal Australian Corps of Transport, Real Corpo de Transporte Australiano) atualmente postado na Ala de Transporte Rodoviário da Escola de Transporte do Exército (Road Transport Wing, Army School of Transport). As postagens anteriores incluem o 1 Sig Regt, 1 CSSB e 1 CER.

Bibliografia recomendada:



Leitura recomendada:

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