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sexta-feira, 25 de março de 2022

FOTO: A Filha do General

Formandos de um curso de oficiais da Força de Defesa de Israel, 1º de agosto de 1957.
A primeira à direita é Yael Dayan, filha do General Moshe Dayan.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 25 de março de 2022.

Yael Dayan nasceu em Nahalal, atual Israel, durante a era do Mandato Britânico da Palestina em 12 de fevereiro de 1939. Ela era filha do famoso general israelense Moshe Dayan e neta do sionista Shmuel Dayan, ambos pais fundadores do Estado de Israel.

Yael está portando um fuzil Mauser durante a cerimônia, armamento típico da Força de Defesa de Israel de 1948 até a padronização com o FAL nos início dos anos 50, relegando o fuzil a funções cerimoniais. Os israelenses conseguiram muitos fuzis Mauser da FN Herstal, o blog tratou desse assunto aqui.

Na Guerra dos Seis Dias (1967), a Tenente Yael Dayan serviu na unidade de comunicação social do estado-maior da divisão de Arik Sharon e escreveu um diário da sua guerra no Sinai contra os egípcios. Ela publicou cinco romances, bem como uma biografia de seu pai chamada My Father, His Daughter (Meu Pai, Sua Filha). Ela escreveu um livro de memórias da Guerra dos Seis Dias chamado Israel Journal: June 1967 (Diário de Israel: junho de 1967), também intitulado como A Soldier's Diary e traduzido no Brasil como "Diário de um Soldado".

Yael Dayan ao lado do seu pai Moshe Dayan nos dias que antecederam a ofensiva do Sinai, 1967.
O General Moshe Dayan era então o Ministro da Defesa.

Embora ela mesma não tenha entrado em combate, pois esta não era a sua função, ela esteve próxima da ação e observou as operações de perto, ao lado dos militares que comandavam as ações. De particular importância foi a tomada da fortaleza de Umm Qatef em Abu Agheila, a noz dura que ancorava o sistema de defesa egípcio. O exército de Nasser então passou à debandada em pânico em direção ao Canal de Suez, uma catástrofe militar para o Cairo. A tão a
lardeada "Força Shazly", que deveria ter atuado como reserva estratégica, deu as costas e fugiu para o Egito africano ao invés de contra-atacar o rompimento em Umm Qatef-Abu Agheila.

Os egípcios tinham 80 tanques T-34 defendendo a fortificação, e tanques Sherman e Centurion espalhados pelo Sinai. Havia também os pesados tanques IS-3, que eram impermeáveis na blindagem frontal. O Egito ainda possuía os então novíssimos T-55, muito mais modernos que os tanques israelenses. Ainda assim, a manobra e violência da ação dos israelenses nocauteou os árabes. O exército egípcio no Sinai esfacelou-se, com grandes números de soldados zanzando pelo deserto e sendo feitos prisioneiros pelos israelenses. Yael descreve a situação em Nakhl, no centro do deserto do Sinai:

"Nakhl é uma região esquecida por Deus, não obstante possuir abundância de água. Vocês precisavam provar a água! É malcheirosa, enjoativamente adocicada e oleosa. Arik e Dov conheciam Nakhl de trás pra frente pois tinham estado lá na última guerra [1956]. Poucas casas, um acampamento militar, uma colina ou duas em volta, e a estrada para o Passo de Mitla e o Canal que ali faz uma esquina em ângulo reto. Na vez passada, tomáramos a localidade em poucos minutos, antes de avançar para Mitla.

[...]

De súbito, fomos informados pelo rádio de que a Fôrça Aérea ia dar-nos apoio. Paramos o jipe na ladeira e galgamos a parte lateral da colina. Pudemos, então, divisar seis tanques Centuriões egípcios na estrada. Pareciam maciços e bem protegidos, em meio aos demais veículos. Seria tolice expormo-nos, em carros de meia esteira ou jipes, aos canhões dos pesados Centuriões.

[...]

A Fôrça Aérea surgiu no céu azul. Quatro Super Mystères voaram baixo, despejando bombas incendiárias sôbre os tanques [egípcios]. Estávamos todos muito nervosos, com exceção de Dov que, com a maior calma, ficou de pé e filmou tôda a cena, com uma câmera Canon 8 mm. 'Como nas manobras', comentou alguém.

Os aviões mergulharam duas ou três vêzes. Esperei que nos reconhecessem. Seus ataques eram por demais precisos para nos arriscarmos a não ser identificados. Achávamo-nos bem próximos aos alvos. No seu quarto círculo, acenaram Shalon para nós, pendendo as asas. Poucos dias depois, encontrei-me com um dos pilotos - Arik, meu colega de classe em Nahalal. 'Eu sabia que um dia nós dois iríamos trabalhar juntos', disse-me. Quando êles se afastaram pelo nordeste, embarcamos no jipe e dirigimo-nos a tôda velocidade para a estrada abaixo. Aproximamo-nos arriscadamente dos tanques que se incendiavam. Munições explodiam em tôdas as direções.

[...]

De repente, escutamos tiroteio atrás de nós. Alguns dos nossos soldados começaram a trocar disparos de armas de fogo portáteis com soldados egípcios escondidos num arbusto a poucas jardas de distância. Devemos ter tido sorte, pois apenas dez minutos antes passáramos por êsses mesmos arbustos, erguendo uma nuvem protetora de poeira à nossa volta. Arik optou por permitir que seguíssemos a infantaria blindada em sua operação de limpeza até Nakhl. Veículos de meia esteira, jipes russos, tanques incendiavam-se e vomitavam fumaça para onde quer que se olhasse. Viam-se canhões e transportes de tropas blindadas atirados em tôdas as direções e posições. Centenas de soldados egípcios avançavam precipitadamente em direção a Nakhl. Posteriormente, revelaram-nos que imaginavam achar-se em área ainda sob seu domínio. Nossos soldados conclamavam-nos a se renderem. Alguns o fizeram. Outros responderam com um disparo ou uma saraivada - ou fugiram. À minha frente, vi um jovem soldado de um dos nossos veículos de meia esteira matar um egípcio, depois correr para trás do carro blindado e vomitar, logo em seguida refazendo-se e indo juntar-se à sua divisão.

Eu agarrava com firmeza uma metralhadora portátil Uzi. Dov estava ao volante, Katz atrás da metralhadora dianteira e Itzik apontava um canhão automático. Nenhum de nós chegou a disparar. Outros se encarregavam disso, e nos limitamos à observação. Cadáveres estiravam-se pelo caminho, e saltávamos do carro para retirar-lhes as armas. Os adversários de tocaia nos arbustos foram mortos. Grupos de soldados inimigos fugiam nas mais diversas direções. Alguns escaparam. No entanto, não pude afastar o pensamento de que isso era mais uma caçada que um combate. Eu não ia atirar. Os homens nos jipes achavam-se armados e, se fôssemos alvejados diretamente, êles responderiam ao tiroteio. Todavia, minha minha arma permanecia carregada e engatilhada. Meus óculos contra o vento de nada valiam e meus olhos doíam. Além da canícula do meio-dia, havia o calor irradiado pelos veículos em chamas, um inferno em miniatura, odioso e medonho.

Chegamos a Nakhl à tardinha. Ali encontramos mais destruição, destruição total, como sòmente sucede um embate de tanques contra tanques. Era o Vale da Morte do Exército egípcio. Cêrca de cento e cinqüenta tanques foram contados no percursos de Temed a Nakhl. Ninguém contou os veículos, a artilharia pesada, os canhões anti-aéreos leves, os tratores pesados que rebocavam os canhões, os caminhões de munições, todos êles em posições insólitas ou formando pilhas, de modo que muitaas vêzes os destroços assumiam semelhança bizarra com peças de escultura moderna."

- Yael Dayan, Diário de um soldado, pg. 131, 132, 133-135, 1967 (trad. 1970).

Post-script: Suspense militar

O título deste artigo é uma homenagem ao filme A Filha do General (The General's Daughter, 1999), um filme de investigação militar onde o investigador Paul Brenner (John Travolta) ao lado de sua parceira Sara Sunhill (Madeleine Stowe) investigam a misteriosa morte da oficial de guerra psicológica Capitã Elisabeth Campbell (Leslie Stefanson), filha do comandante da base: o General Joe Campbell (James Cromwell).

Outros personagens marcantes sendo o Coronel Bob Moore (James Woods), o oficial comandante e mentor da Capitã Elisabeth Campbell, e o Coronel George Fowler (Clarence Williams III), o leal segundo em comando do General Campbell. Além da investigação e da discussão sobre mulheres no exército em uma época onde este era um conceito novo, o filme ainda apresenta a estética esverdeada dos antigos uniformes BDU americanos.

Recomendação do Warfare.


A Filha do General ainda gerou um filme de suspense e investigações militares, Violação de Conduta (Basic, 2003), dessa vez com John Travolta contracenando com a futura rainha Hipólita, Connie Nielsen, como a investigadora Capitão Júlia Osborne e com o titã Samuel L. Jackson interpretando o implacável Sargento Nathan West.

Leitura recomendada:

domingo, 20 de março de 2022

Uzi começou como um menino que brincava com armas

Uzi Gal com a Uzi (esquerda) e a MP40.

Por Nati Gabbay, The Times of Israel, 4 de março de 2018.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 20 de março de 2022.

Enquanto estava preso em uma notória prisão britânica, esse jovem surgiu com o projeto de uma submetralhadora que ganharia popularidade em todo o mundo. Esta é a história inacreditável de Uzi Gal.

O inventor da submetralhadora homônima usada em todo o mundo teve uma paixão por armas de fogo ao longo da vida.

Quando jovem, ele pegou uma pistola para fazer experimentos e, quando preso em uma prisão britânica por contrabando de armas, inventou a submetralhadora que eventualmente armaria o mundo.

Uma menorá de Hanukkah feito de submetralhadoras Uzi antigas.
(
A Coleção Dan Hadani, 1979)

Esta é a história inacreditável de Uzi Gal.

Conheça Gotthard Glas, a criança com um hobby perigoso: armas.

Quando tinha dez anos, Gotthard Glas queimou a mão. Como? Ele decidiu ver uma uma espingarda velha de cano longo para reaproveitá-la como uma arma pessoal. É o que acontece quando a casa da família em que você cresceu em Munique está cheia de pistolas, espadas e outras armas antigas.

Soldado das FDI com sua Uzi.
(
A Coleção Dan Hadani, 1974)

De: “Submetralhadora Uzi: Planos de Aula”, que as FDI distribuiu aos comandantes em 1970.

Quando a criança se tornou adolescente morando no Kibutz Yagur, tendo se mudado em 1936 para a Palestina Obrigatória, sua grande paixão por armas voltou. Ouviu dizer que o professor de geografia da escola distrital possuía uma pequena pistola italiana de pólvora negra. Vendeu seu álbum de selos, comprou a arma e começou a trabalhar em seu sonho: transformá-la em uma máquina de guerra bem oleada.

Infelizmente, um professor da escola o pegou trabalhando na arma e seus planos foram frustrados mais uma vez. Glas não desistiu: aos 15 anos inventou um arco que dispara flechas automaticamente, uma “submetralhadora arco e flecha” se preferir.

Um soldado da IDF reza no Muro das Lamentações enquanto carrega uma Uzi.
(Yaacov Elbaz. A Coleção Dan Hadani na Biblioteca Nacional, 11 de junho de 1969)

Primeiro Ministro Yitzchak Shamir atirando com uma Uzi, 16 de dezembro de 1986.
(Nati Henrik, GPO)

Quando Glas se juntou à força de combate do Palmach do pré-Estado Yishuv, ele encontrou a ocupação perfeita: desenvolvimento de armas e gravação de armas. Assim como em seus dias de escola, ele foi pego mais uma vez – e condenado pelos britânicos a sete anos de prisão. Para sua alegria, foi perdoado depois de pouco mais de dois anos no Presídio de Acre. Adivinha o que ele fez para passar o tempo na cadeia: ele projetou uma submetralhadora.

Em 1949, ainda cadete no curso de formação de oficiais e depois de conhecer intimamente todas as armas que as FDI tinham para oferecer, o jovem, que entretanto se tornara Uziel Glas (e mais tarde seria conhecido pelo nome de Uzi Gal) escolheu escrever uma carta aos seus comandantes:

“Para: O Comandante da Escola de Oficiais, Tenente-Coronel Meir Zorea.

De: Cadete Uziel Glas 120946.

Data: 20 de outubro de 1949″

A longa carta contém uma descrição detalhada de seu sonho da submetralhadora perfeita.

Cinco anos e meio depois, em 27 de abril de 1955, na tradicional Parada do Dia da Independência das FDI, o exército apresentou a nova metralhadora, que tinha o nome Uzi. A propósito, Guthard/Uziel/Uzi Glas/Gal não queria que a submetralhadora levasse seu nome, mas a decisão estava fora de suas mãos.

Ministro da Defesa Itzhak Rabin com soldado das FDI.
(Danny lev, 
A Coleção Dan Hadani, 1989)

De: "Submetralhadora Uzi: Planos de aula", que as FDI distribuiu aos comandantes em 1970.

“Uma arma inovadora para as FDI”.
Artigo publicado no jornal “Zemanim”, 27 de abril de 1955.

Dentro de alguns anos, a Uzi não foi usada exclusivamente pelas FDI. Tornou-se um sucesso fenomenal em todo o mundo.

Todo o Estado de Israel encontrou esse jovem despretensioso quando ele recebeu a Menção do Chefe do Estado-Maior em 1955 e recebeu o “Prêmio de Segurança” de David Ben-Gurion.

Quando perguntado sobre sua invenção, ele simplesmente respondeu: “Cumpri meu dever no exército como um cozinheiro faz e simplesmente como todos os outros”.

A Uzi, a arma preferida de Chuck Norris!

Ao escrever o artigo, fiz uso do volume 17 de “IDF: Encyclopedia of Army and Security” (צה”ל בחילו – אנציקלופדיה לבא וביטחון), e do artigo de Eli Eshed “Sixty Years of the Uzi Submachine Gun”.

Sobre o autor:

Nati Gabbay é Diretora de Conteúdo Digital da Biblioteca Nacional de Israel.

Bibliografia recomendada:

The Uzi Submachine Gun.
Chris McNab.

Leitura recomendada:

GALERIA: A Uzi iraniana, 3 de março de 2020.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

A Sargento Gal Gadot com uma submetralhadora Uzi

Sargento Gal Gadot posando com uma submetralhadora Uzi, a icônica arma israelense.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 25 de fevereiro de 2022.

A estrela israelense Gal Gadot serviu dois anos nas Forças de Defesa de Israel, como instrutora de combate do exército, saindo com o posto de Samal (sargento). Em Israel, o serviço é compulsório para ambos os sexos, com os homens servindo 3 anos e as mulheres dois.

Geralmente, as mulheres servem em funções de secretaria e recursos humanos, chamadas pejorativamente de Jobnicks. Mas Gal, que já era famosa por ter vencido o concurso de Miss Israel em 2004, tornou-se instrutora de combate e atuou assim na preparação física dos soldados.

Disparo automático da Uzi


Gal descreveu seu tempo no exército como parte de ser israelense:

"Você dá dois ou três anos de sua vida a eles e não é sobre você. Você aprende disciplina e respeito."

Aos 18 anos, ela conquistou o título de Miss Israel e representou o país no concurso de beleza Miss Universo no mesmo ano de 2004. Em 2007, Gal  participou de uma sessão de fotos para a revista Maxim intitulada "Mulheres do Exército Israelense", que apresentou modelos de Israel que eram militares das FDI. A foto de Gal apareceu no convite para a festa de lançamento do ensaio, e na capa do jornal New York Post.

Foto do ensaio da Maxim.

A chamada da Maxim dizia "Elas são lindas de morrer e podem desmontar uma Uzi em segundos. As mulheres das Forças de Defesa de Israel são os soldados mais sexy do mundo?" e contou com a entrevista de quatro modelos militares.

Gal
Expertise: Condicionamento físico
"Ensinei ginástica e calistenia", diz esta impecável ex-Miss Israel. "Os soldados me amavam porque eu os fazia ficarem em forma."

Yarden
Expertise: Inteligência Militar
Estacionada no norte de Israel para seu período de dois anos nas FDI, Yarden diz que a prática de tiro ao alvo era sua atividade favorita. “Adorei disparar o M-16”, diz ela. “E eu era boa em acertar os alvos. Mas não atirei com nada desde que deixei o exército.” Ou em alguém, esperamos.

Nivit
Expertise: Inteligência Militar
“Meu trabalho era ultrassecreto”, diz essa nativa de Tel Aviv, que ainda mora com os pais. “Não posso falar sobre isso além de dizer que estudei um pouco de árabe!”

Natalie
Expertise: Telecomunicações navais
Essa loira sedutora se lembra claramente de sua parte favorita de servir seu país: “Conheci meu marido. Seu comandante continuou tentando nos arrumar." Para sua sorte, Natalie seguiu as ordens.

Gal Gadot deixou o exército e começou a trabalhar como atriz, interpretando o papel principal no drama israelense Bubot ("Bonecas") em 2008, como Miriam "Merry" Elkayam; além de ser escolhida para ser a modelo principal da Castro, a maior marca de roupa israelense. Seu caminho para o estrelato começou quando ela foi notada pelo diretor taiwanês Justin Lin para a franquia Velozes e FuriososSegundo Gal, uma das benesses do seu serviço militar foi desbancar a modelo brasileira Gisele Bündchen para o papel da agente Gisele Yashar no filme Velozes e Furiosos 4 (Fast & Furious, 2009):

"Eu acho que a principal razão do diretor Justin Lin realmente ter gostado foi de eu ter servido no exército e ele queria usar meu conhecimento sobre armas."


A carreira de Gal Gadot continuou subindo e ela alcançou fama internacional ao ser escolhida como a Mulher Maravilha em 4 de dezembro de 2013, estrelando no filme de Zack Snyder Batman vs Superman: A Origem da Justiça (Batman v Superman: Dawn of Justice, 2016). Em seguida, ela protagonizou dois filmes próprios como a Mulher Maravilha em 2017 e 2020; com um terceiro filme previsto, ainda sem data, que encerrará sua atuação com o personagem.

Seu último grande sucesso foi como uma contrabandista no filme Alerta Vermelho (Red Notice, 2021), contracenando ao lado de Dwayne "The Rock" Johnson e Ryan Reynolds. Alerta Vermelho tornou-se o filme mais assistido em seu fim de semana de estreia na Netflix, bem como o filme mais assistido em 28 dias após o lançamento na plataforma. Ele também se tornou o 5º título de filme mais assistido em streaming de 2021. Com tamanho sucesso, não é surpresa que já foram fechadas duas sequências.

Sua atuação mais recente foi estrelando como Linnet Ridgeway-Doyle na adaptação de suspense de mistério Morte no Nilo (Death on the Nile, 2022), de Agatha Christie; lançado no Brasil em 10 de fevereiro de 2022.

Trailer de Morte no Nilo

domingo, 26 de dezembro de 2021

Morreu Richard Marcinko, o primeiro oficial comandante da SEAL Team Six


Por Jessica Edwards e Howard Altman, Navy Times, 26 de dezembro de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 26 de dezembro de 2021.

SEAL da Marinha reformado, e o primeiro comandante da SEAL Team Six, Richard “Dick” Marcinko, morreu, de acordo com um post na página do Facebook do Navy Seal Museum (Museu dos SEALs da Marinha).

Ele tinha 81 anos.


Marcinko liderou a equipe SEAL no que se tornou conhecida como a operação SEAL de maior sucesso da Marinha durante a Guerra do Vietnã: o ataque de maio de 1967 a Ilo Ilo Han. Marcinko e seus homens mataram muitos vietcongues e destruíram seis de suas sampanas, de acordo com o Navy SEAL Museum. Marcinko serviu uma segunda vez com a Equipe SEAL Dois durante a Guerra do Vietnã. Seu pelotão auxiliou as Forças Especiais do Exército durante a Ofensiva do Tet.

Ele foi um dos dois representantes da Marinha em uma força-tarefa para ajudar a libertar reféns americanos durante a crise de reféns no Irã em 1979. Após a tragédia, a Marinha incumbiu Marcinko de projetar e desenvolver uma equipe contraterrorista dedicada.


O Chefe de Operações Navais, Almirante Thomas B. Hayward, selecionou Marcinko como o primeiro oficial comandante da unidade. Na época, a Marinha contava com duas equipes SEAL. De acordo com o Navy SEAL Museum, Marcinko chamou a unidade de “SEAL Team Six” (Equipe SEAL Seis) para fazer outras nações acreditarem que havia equipes SEAL adicionais. Ele também escolheu membros das equipes SEAL existentes e das equipes de demolição subaquática. Marcinko liderou o SEAL Team Six por três anos.

Depois de se aposentar da Marinha, Marcinko se tornou CEO da SOS Temps Inc., sua empresa de segurança privada, de acordo com seu perfil de autor na Amazon.

Marcinko foi o autor de The Real Team; The Rogue Warrior’s Strategy for Success: A Commando’s Principles of Winning; e o best-seller de quatro meses do New York Times, Leadership Secrets of the Rogue Warrior: A Commando’s Guide to Success, de acordo com a Amazon.

Ele também criou a Richard Marcinko Inc., uma empresa de treinamento motivacional e construção de equipes; e a Red Cell International, Inc., que realiza avaliações de vulnerabilidade de propriedades de alto valor e alvos de alto risco, de acordo com a Amazon.

“Rogue Warrior, sua autobiografia mais vendida do New York Times, preparou o terreno para seus romances best-sellers Rogue Warrior, oito dos quais foram coautorias com John Weisman,” de acordo com a Amazon.

Richard Marcinko, à esquerda, com Roman Mashovets, um ex-membro das Forças Especiais da Marinha da Ucrânia e atual vice-chefe do Gabinete do Presidente para Segurança Nacional e Defesa, em 23 de novembro de 2019.
(Roman Mashovets)

Entrevista com Dick Marcinko para o SOFREP (9 partes)


Leitura recomendada:

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

PERFIL: General Caillaud, o Soldado do Incomum

Por Laurent Lagneau, Zone Militaire OPEX360, 26 de julho de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 7 de outubro de 2021.

“Soldado do Incomum”, o General Robert Caillaud deu seu nome à 207ª turma da ESM Saint-Cyr.

Quer seja para cadetes oficiais como para cadetes suboficiais, o baptismo de promoção é sempre um momento especial, pois constitui um forte sinal de identidade e pertencimento.

Além disso, a escolha do “patrocinador” é decisiva. E aconteceu que foi passível de cautela, pois em novembro de 2018, quando o Chefe do Estado-Maior do Exército, que era o General Jean-Pierre Bosser, decidiu “rebatizar” a promoção “General Loustanau-Lacau” da Escola Militar Especial (École spéciale militaireESM), por causa das simpatias políticas que manifestou na década de 1930.

Durante o Triunfo 2021 da Academia Militar de Saint-Cyr Coëtquidan, organizado no dia 24 de julho, a 60ª promoção da Escola Militar de Armas Combinadas (École militaire interarmesEMIA) deu-se como padrinho o General Jean-Baptiste Eblé, que se destacou durante as guerras da Revolução e do 1º Império.

Já a 207ª turma da ESM fez uma escolha mais contemporânea, com o General Robert Caillaud. E tendo em vista o registro de serviço deste último, questiona-se por que seu nome não foi escolhido anteriormente...

Saint-cyrien da promoção Charles de Foucauld (1941-42), e quando ele tinha acabado de obter sua "ficelle" como segundo-tenente, Robert Caillaud retornou à sua Auvergne natal e se juntou à Resistência. Assim, dentro de seus maquis, participou das lutas pela Libertação, inclusive da ponte Decize, que culminou com a rendição da coluna do General Botho Elster.

A “Divisão Auvergne” estando integrada no 1º Exército do General de Lattre de Tassigny, o jovem oficial participou nas campanhas da Alsácia e da Alemanha, durante as quais, segundo a Federação das Sociedades de Veteranos da Legião Estrangeira (Fédération des sociétés d’anciens de la Légion étrangèreFSALE) , ele mostrou um "gosto definitivo por soluções originais" que marcariam o resto de sua carreira. Um deles terá sido formar uma seção de reconhecimento em profundidade com Jipes.

A Legião Estrangeira precisamente... Promovido a tenente no final da guerra e contando três citações em sua Croix de Guerre, Robert Caillaud decidiu ingressar em suas fileiras. Depois de um curto período em Sidi Bel Abbès, na Argélia, foi designado para o 2º Regimento Estrangeiro de Infantaria (2e Régiment Étranger d’Infanterie, 2e REI), com o qual desembarcou em Saigon. Durante dois anos, distinguir-se-á pelas qualidades militares mas também pela capacidade de pensar fora da caixa, criando, por exemplo, um pelotão a cavalo. Isso fará com que ele ganhe mais quatro citações e a Legião de Honra, aos 27 anos.

Retornando à Argélia em 1948, o oficial recebeu a missão de formar a 1ª companhia do 2 ° Batalhão Estrangeiro de Paraquedistas (2e Bataillon Étranger de Parachutistes, 2e BEP). Em seguida, ele voltou para a Indochina com sua nova unidade em fevereiro do ano seguinte. Em dezembro de 1949, à frente da 1ª companhia, saltou, à noite e em condições difíceis, sobre a guarnição de Tra Vinh, então cercada por três regimentos Viet-Minh. Ao custo de três mortos entre os legionários, o ataque inimigo será repelido.

Durante esta segunda estadia na Indochina, o Capitão Caillaud foi ferido duas vezes. Em 1954, e depois de ter comandado o 3e BEP, regressou ao Extremo Oriente. Lá, ele se ofereceu para fazer parte da equipe do grupo aerotransportado do Coronel Langlais em Dien Bien Phu. Ao lado do Comandante Marcel Bigeard, ele organizou os contra-ataques. O resto é conhecido: o campo entrincheirado francês acaba caindo. Então começou um longo período de cativeiro nos campos do Viet-Minh. “Sua conduta no cativeiro no Campo nº 1 será exemplar, marcada por seu apoio aos mais fracos e sua recusa em se comprometer com o adversário”, disse Jean-Pierre Simon, seu biógrafo.

Le Général Caillaud: Soldat de l'insolite.
Jean-Pierre Simon.

Depois de libertado, o oficial foi designado para o 2e REP, tendo participado em inúmeras operações na Argélia. Ele ganha três novas citações. Retirado dos eventos de Argel (golpe dos generais em abril de 1961) devido ao seu destacamento para o estado-maior das Tropas Aerotransportadas (Troupes Aéroportées, TAP), foi nomeado oficial de ligação e instrutor paraquedista na Alemanha.

Depois, em maio de 1963, promovido a tenente-coronel, passou a comandante do 2e REP, então instalado em Bou-Sfer, a fim de garantir a segurança da base de Mers-el-Kébir. Começou então a “Revolução Caillaud”, que vai dar a cara que esta unidade tem hoje. “Ele é o principal ator na corrida pela inovação do regimento e pela especialização das seções que permite às companhias cumprirem de imediato as mais diversas missões”, escreve a FSALE.

“Nunca, talvez, Robert Caillaud tenha sentido a que ponto semeou tão abundantemente. Nunca, sem dúvida, ele foi capaz de testar, inventar, criar, exigir e receber tanto desta valiosa tropa, que soube fazer vibrar. Sempre carregou consigo esta pedra que queria cortar e esculpir à medida do que era, pedra angular de toda uma vida, obra magistral que deixamos em vestígios indeléveis”, abunda Jean-Pierre Simon.

Depois de uma (breve) passagem no estado-maior das Forças Aliadas na Europa Central e, em seguida, no Gabinete de Tropas Aerotransportadas e Anfíbias do Departamento Técnico de Armas, o Coronel Caillaud assumiu o comando da Escola de Tropas Aerotransportadas (ETAP) em 1972. Lá, ele passou seu brevê de salto operacional de alta altitude. Ele tinha então 52 anos (o que o tornará o mais velho dos saltadores operacionais). Promovido a general três anos depois, assumiu as rédeas da 1ª Brigada de Paraquedistas (1ere Brigade parachutiste, 1ere BP), antes de encerrar a carreira militar no estado-maior da 11ª Divisão Paraquedista (11e Division Parachutiste, 11e DP) em 1978.

O General Caillaud faleceu em 1995. Foi Grande Oficial da Legião de Honra, titular da Croix de Guerre 1939-1945 com três citações, da Croix de Guerre des T.O.E. com oito citações incluindo três na ordem do exército, a Cruz Militar do Valor com três citações incluindo duas para a ordem do exército.

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Foram inaugurados bustos do Tenente-Coronel Amilakvari para o 13º DBLE e a Academia Militar de Saint-Cyr Coëtquidan

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 5 de outubro de 2021.

Por ocasião do centenário do reconhecimento da Geórgia pela França, foi celebrado no domingo (26/09) uma homenagem a uma das grandes figuras da Legião Estrangeira Francesa: este é o Tenente-Coronel Dimitri Amilakvari (1906-1942).

Companheiro da Libertação, herói da Batalha de Bir-Hakeim, ele morreu em combate durante a Batalha de El-Alamein enquanto servia na 13ª Meia-Brigada da Legião Estrangeira (13e Demi-Brigade de la Légion Étrangère, 13e DBLE); sendo celebrado como um dos grandes heróis da Legião. Nobre fugido da Geórgia diante da invasão soviética de 1921, a família Amilakhvari fugiu para Istambul, onde Dimitri frequentou uma escola britânica local e, mais tarde, em 1922, emigrou para a França.

Em 1924, Dimitri Amilakhvari ingressou na École Spéciale Militaire de Saint-Cyr e foi comissionado como segundo-tenente após sua graduação em 1926. Ao mesmo tempo, foi destacado para a Legião Estrangeira Francesa e promovido a tenente em 1926. Mais tarde serviu no norte da África francesa e participou de todas as operações importantes no sul de Marrocos de 1932 a 1933. De 1934 a 1939, foi chefe da escola militar francesa em Agadir, sendo promovido a capitão em 1937. Após a sua naturalização como francês cidadão, ele se casou com outro membro da nobreza georgiana exilada, a princesa Irina, nascida Dadiani (1904–1944) em agosto de 1927.Com sua esposa, Amilakhvari teve três filhos, filhos Georges e Othar, e filha Thamar Amilakhvar, todos os quais se casaram e tiveram filhos. Durante seu serviço na França, a grafia de seu sobrenome foi modificada, eliminando-se o "h" para "afrancesá-la".

Uniforme de clima europeu da Legião Estrangeira em 1940 e bandeira italiana capturada na Eritréia.

Durante a "Drôle de Guerre", o período de entre a declaração de guerra e a invasão alemã da França, Amilakvari estava servindo em Argel, no norte da África, mas na primavera de 1940 ele se juntou à força expedicionária francesa destinada à campanha norueguesa com a recém-criada 13e DBLE, especializada em guerra de montanha invernal. Ele lutou em Narvik, primeira vitória aliada contra os nazistas, e foi então evacuado para o Reino Unido, onde se juntou às Forças Francesas Livres. Em seguida, participou das campanhas fratricidas contra as forças francesas de Vichy na África Ocidental, em Dakar (no Senegal), e na África Equatorial, no Camarões. Em um registro notável de serviço, seu serviço de guerra em 1940 o levou da África ao Círculo Polar Ártico e de volta, até o Equador, tudo no espaço de alguns meses.

Bandeira do Reino da Itália capturada. 

A jogada seguinte de Amilakvari o levou a meio caminho do continente para a Eritreia, na África Oriental, para se juntar à Campanha da África Oriental contra a Itália fascista no início de 1941, mas no verão ele estava em movimento novamente, para participar de outra campanha contra a França de Vichy, com a 13e DBLE enfrentando a co-irmã da Legião Estrangeira Francesa, o 6e REI, na Síria. Este seria o mais perto que ele chegaria da terra onde nasceu. Amilakvari então assumiu o comando da 13ª Meia-Brigada da Legião Estrangeira em 6 de setembro de 1941.

Bandeira do 6e REI, leal a Vichy, capturada na Síria em 1941.
Dimitri Amilakhvari na Líbia, 1942.
Ele porta a medalha Compagnon de la Libération.

Em 1942, Amilakvari estava de volta ao Norte da África, enfrentando as forças alemãs e italianas na Líbia como parte da Campanha do Norte da África. Durante a épica luta em Bir-Hakeim, ele escreveu em janeiro:

"Nós, estrangeiros, só temos uma maneira de provar à França nossa gratidão: ser morto..." 

Mesmo assim, ele sobreviveu e em junho foi feito Companheiro da Libertação, uma condecoração abaixo apenas para a Légion d'honneur. Em 1942, ele também foi premiado com o Krigskorset med Sverd ou Cruz de Guerra Norueguesa com Espada por seu serviço anterior na Noruega. Esta é a mais alta condecoração militar da Noruega por galanteria e ele foi um dos apenas 66 franceses a receberem esta condecoração durante a Segunda Guerra Mundial.

Em outubro de 1942, os Aliados começaram a ofensiva final no Norte da África com a Segunda Batalha de El-Alamein. Esta batalha levou as forças aliadas através da Líbia e no norte da África francesa, onde Amilakhvari havia iniciado seu serviço operacional. No entanto, Amilakhvari não viveu para completar sua grande odisséia africana, pois foi morto em ação no segundo dia de batalha quando um estilhaço lhe atingiu na cabeça. Uma das suas excentricidades era permanecer em combate com o quepe, nunca usando o capacete, liderando a tropa sempre à frente.

Em maio de 1940, Amilakvari foi condecorado como Cavaleiro da Legião de Honra (Légion d'honneur). Mais tarde, o general Charles De Gaulle nomeou ele e seus legionários o "Orgulho da França" por sua defesa heróica em Bir Hakeim.

Nascido em Bazorkino, seu apelido era Bazorka. Segundo o legionário brasileiro Raul Soares da Silveira, que serviu sob Amilakvari em Bir Hakeim e que também foi ferido em El-Alamein, sua morte foi a mais lamentada após a batalha.

"O Coronel Amilakvari, acreditando num retorno em massa do inimigo e julgando a posição ocupada por suas forças extremamente desfavorável, decidiu recuar para o leste, sob a proteção de um pelotão de carros-de-combate e de uma formação de blindados, cuja ação tinha sido particularmente eficaz.

A retirada deu-se pelo caminho aberto na véspera no campo de minas, desta vez em condições difíceis, sob inteiro e mortífero bombardeio, pleno dia e com as baterias inimigas em posições privilegiadas.

Pouco depois dessa travessia, o Coronel Amilakvari recebeu ferimento mortal. Estenderam-no sobre a cobertura de um carro-de-combate, aguardando a chegada da ambulância, mas não resistiu aos graves ferimentos. Sua morte foi uma perda irreparável e muito sentida por todos os legionários. Era um comandante muito querido e respeitado por todos pela sua dignidade, competência e valentia."

- Raul Soares da Silveira, Tempos de Inquietude e de Sonho, pg. 172.

Quadro do retrato do Ten-Cel Dimitri Amilakvari no Museu da Legião Estrangeira em Aubagne.

A homenagem a Dimitri Amilakvari aconteceu nos jardins da Ordem Nacional da Libertação; foi desvelado um busto do líder do 13e DBLE em bronze, feito pelo artista Guram Nikoladze. O escultor do busto do tenente-coronel Amilakvari também está ligado à França. Seu avô, Jacob Nikoladzé, também escultor, foi um aluno estimado do escultor francês Rodin. Guram Nikoladzé, nascido na Geórgia em 1954, começou a modelar o busto de Dimitri Amilakvari há vários anos. O molde de bronze foi feito na Geórgia.

Três exemplares exclusivos foram produzidos. Serão entregues ao museu da 13e DBLE e ao museu da Academia Militar Saint-Cyr Coëtquidan (escola onde se formou como oficial). Um terceiro exemplar será entregue a uma instituição militar na Geórgia.

O busto foi apresentado na presença do General BURKHARD, o novo CEMA (chefe das FAs francesas).



Bibliografia recomendada:

Tempos de Inquietude e de Sonho.
Raul Soares da Silveira.

terça-feira, 27 de julho de 2021

PERFIL: O filho do general

General de Lattre condecorando o Tenente de Lattre, seu filho, com a Croix de Guerre no dia 11 de maio de 1951, por suas ações na Batalha de Dien Mai, na Indochina. O Tenente de Lattre morreria na Batalha do Rio Day apenas 19 dias depois dessa foto.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 27 de julho de 2021.

Bernard de Lattre de Tassigny (11 de fevereiro de 1928 - 30 de maio de 1951) foi um oficial do exército francês que lutou na Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Indochina, recebendo várias medalhas durante sua carreira militar, incluindo a Médaille Militaire e a Croix de Guerre 1939-45 e dos Teatros Exteriores. Ele foi morto em ação aos 23 anos, lutando perto de Ninh Binh. Na época de sua morte, seu pai, o General Jean de Lattre de Tassigny, era o comandante geral das forças da União Francesa na Indochina.

Ainda com apenas 16 anos, Bernard recebeu permissão especial do General Charles de Gaulle para se juntar ao exército que estava sendo montado para invadir a França e, posteriormente, lutou na libertação do sul da França após a Operação Dragoon e também na Alemanha. Ele foi gravemente ferido em 8 de setembro de 1944, em Autun, retornando mais tarde para lutar novamente na Alemanha. Foi por suas ações nessas campanhas que ele recebeu a sua primeira Croix de Guerra e a Médaille Militaire - o mais jovem a receber essa medalha.

O jovem Cabo Bernard com seu pai, o General d'Armée Jean de Lattre de Tassigny, em 1945.
Bernard usa o distintivo do 2º Regimento de Dragões no peito.

O Pós-Guerra e a Indochina

Bernard entrou na Escola Militar Interarmas em 1º de agosto de 1945 (promoção "Victoire" - Vitória), escolhendo a arma blindada e de cavalaria (arme blindée et cavalerie, ABC). Em 26 de novembro de 1945, ele era um aspirante. Estagiário na Escola de Cavalaria de Saumur, foi nomeado segundo tenente em 26 de novembro de 1946. Depois foi designado para o 4º Regimento de Couraçados, em Mourmelon-le-Grand. Foi promovido a tenente em 26 de novembro de 1947.

Ele deixou a metrópole para a Indochina em 1º de julho de 1949. Chefe de um pelotão blindado do 1º regimento de caçadores, era comandante do posto de Yen My, que controlava quinze vilarejos e uma população de cerca de 20.000 habitantes. Ele foi citado pela ordem da brigada em 21 de abril de 1950.

Em 6 de dezembro de 1950 o seu pai, o General de Lattre, tornou-se Alto Comissário, Comandante-em-Chefe na Indochina e Comandante-em-Chefe da Força Expedicionária Francesa no Extremo Oriente. Bernard de Lattre assumiu o comando de um esquadrão formado em grande parte por voluntários vietnamitas em 1º de março de 1951.

Após os combates em Maï Dien, ele foi citado na ordem do corpo de exército em 11 de maio e recebeu sua segunda Croix de Guerre das mãos do pai em 11 de maio de 1951.


Ele foi morto em ação 19 dias depois, perto de Ninh Binh, durante a Batalha do Rio Day. Ele morrera obedecendo às ordens de seu pai de manter a cidade a todo custo, enfrentando três divisões regulares do Viet Minh; essa batalha travada teimosamente é creditada com a interrupção do avanço do Viet Minh na ofensiva do General Giap no Delta do Rio Vermelho. A ofensiva, que visava tomar Hanói, duraria ainda três semanas até perder força e ser repelida completamente. A citação das ações de Bernard na batalha concluiu:

"Ele caiu heroicamente, dando um exemplo das melhores virtudes militares".

Após a morte de seu filho, o General de Lattre organizou uma missa católica na catedral Saint-Joseph de Hanói, a catedral dos Mártires de Hanói. Dois dias após a batalha, o corpo de Bernard de Lattre foi transladado de volta para a França, acompanhado por seu pai, e o jovem soldado foi enterrado com honras militares. Os túmulos de todos os três de Lattre estão agora localizados lado a lado no cemitério de Mouilleron-en-Pareds, o local de nascimento de Jean de Lattre. A morte de Bernard de Lattre recebeu ampla cobertura da imprensa na época, incluindo artigos nos jornais Le Figaro, Le Monde, The New York Times e na revista Time. Seu funeral foi apresentado na revista Life como "Picture of the Week" (Imagem da Semana).

"Beijo para um filho soldado".
Imagem da Semana da LIFE Magazine.

Bernard Fall, em seu clássico Street Without Joy, faz um ode aos vários soldados - do general ao soldado raso - combatendo na Indochina, lutando e morrendo ao lado de seus camaradas nas selvas sufocantes do Sudeste Asiático.

"Em uma tal guerra sem frentes, ninguém estava seguro e ninguém era poupado. Tenentes morriam pelas centenas, e era calculado que para manter linhas de comunicação principais ao longo do Viet-Nã do Norte custa em média três ou quatro homens por dia para cada centena de quilômetro de estrada. Oficiais superiores morriam também. O General Chanson foi assassinado por um terrorista no Viet-Nã do Sul. O General da Força Aérea Hartman foi derrubado sobre Langson; os Coronéis Blankaert, Edon e Érulin foram mortos por minas enquanto lideravam seus grupos móveis através dos pântanos e arrozais. E a guerra não poupou os filhos dos generais, também. O Tenente Bernard de Lattre de Tassigny foi morto na defesa do ponto rochoso que era a chave para o forte de Ninh-Binh. Ele era o único filho do Marechal de Lattre e a sua morte partiu o coração do homem. O Tenente Leclerc, filho do Marechal Leclerc, morreu em um campo de PG comunista; e o Tenente Gambiez, filho do chefe de estado-maior do General Navarre, foi morto em Dien Bien Phu.

Estes homens, e milhares de outros, da Martinica ao Taiti e de Dunquerque ao Congo, de todas as partes da península indochinesa, e legionários estrangeiros de Kiev na Ucrânia a Rochester, Nova Iorque, compuseram as Forces de l'Union Française - sem dúvida o maior, e último, exército francês a lutar na Ásia."

- Bernard Fall, Street Without Joy, pg. 252.

A Batalha de Ninh Binh

Durante a noite de 28 a 29 de maio de 1951, o General Von Ngyuen Giap lançou sua terceira ofensiva contra o Delta do Rio Vermelho desde o início do ano, iniciando a Batalha do Rio Day, pela posse do delta do rio de mesmo nome que flui a sudoeste de Hanói.

A batalha foi a primeira campanha convencional de Giap, e viu suas forças do Exército Popular do Vietnã (Armée Populaire Vietnamienne, APVN) de Viet Minh atacarem a região dominada pelos católicos do Delta para quebrar sua resistência à infiltração de Viet Minh. Depois de duas derrotas em empreendimentos semelhantes durante março e abril daquele ano, Giap liderou três divisões em um padrão de ataques de guerrilha e dissimulação em Ninh Bình, Nam Dịnh, Phu Ly e Phat Diem começando em 28 de maio, que viu a destruição do Comando François, um comando naval, enquanto atrasavam os regulares Viet Minh.

Comandos navais do Comando François, aniquilado na igreja de Ninh Binh.

As rochas de Ninh-Binh (hoje Cuc Phûong), que se projetam sobre o rio, constituem um bloqueio estratégico. Para o General Giap, é uma questão de destruir a linha de defesa protegendo o delta criada pelo General de Lattre de Tassigny (comandante em chefe da Indochina) e, assim, alcançar o celeiro de arroz que representa a planície fértil do baixo rio Vermelho.

A área é mantida pelo Comando François sob as ordens do Tenente Labbens. As tropas francesas não têm outro refúgio que uma igreja e a formação rochosa com vista para o rio. O ataque de milhares de Bô Doï da Daï Doan (divisão) é particularmente violento e os pitons de Ninh Binh são tomados pelos combatentes Viet Minh. Os soldados resistiram a noite toda até o fim de munição. A unidade foi aniquilada, com relatos de prisioneiros franceses sendo mortos a tiros pelos captores Viet Minh. Entre os reforços está um esquadrão do 1er Chasseur, composto por tropas indochinesas comandadas pelo Tenente Bernard de Lattre de Tassigny.

A situação foi assim descrita por Bernard Fall:

"O ataque inicial Viet-Minh, que começou em 29 de maio, se beneficiou, como quase sempre acontecia, de uma surpresa completa. Ao amanhecer, a maior parte da 308ª Divisão de Infantaria tomou de assalto as posições francesas em e ao redor de Ninh-Binh, penetrando na cidade e prendendo os sobreviventes franceses restantes na igreja. Durante aquela primeira noite caótica da batalha, um batalhão de reforços vietnamitas reunidos às pressas da vizinha Nam-Dinh foi lançado na batalha. Uma de suas companhias, chefiada pelo único filho do comandante-em-chefe francês, o Tenente Bernard de Lattre, foi obrigado a manter a todo custo um forte francês situado em um penhasco com vista para Ninh-Binh. Apesar do intenso bombardeio de morteiros, a companhia de de Lattre resistiu, mas quando amanheceu , o jovem de Lattre e dois de seus mais graduados suboficiais jaziam mortos na falésia. (Antes do fim da guerra da Indochina, mais vinte filhos de marechais e generais franceses morreriam como oficiais; outros vinte e dois morreram na Argélia mais tarde.)"

 - Bernard Fall, Street Without Joy, pg. 45.

Tomado de surpresa, o Comando francês rapidamente reagiu e em 48 horas mobilizou três grupos móveis (grupamentos mecanizados de armas combinadas semelhantes a equipes de combate regimentais), quatro grupos de artilharia, um grupamento blindado e o 7º Batalhão de Paraquedistas Coloniais (7e Bataillon de Parachutistes Coloniaux, 7e BPC), bem como uma dinassaut. O fluxo e refluxo de posições capturadas e retomadas continuaria até que as linhas de suprimento de Giap foram cortadas por volta de 6 de junho. O ponto culminante da batalha ocorreu na noite de 4 para 5 de junho com o posto-chave de Yen Cu Ha mudando de mãos várias vezes. Giap com suas forças, movendo-se em grandes números e durante o dia, eram vulneráveis ao poder de fogo francês e às forças terrestres francesas apoiadas por uma milícia católica local amigável. Com a artilharia, embarcações ribeirinhas e aviões que massacravam as centenas de pequenos juncos e sampanas que constituíam a linha de suprimentos Viet Minh cruzando o rio Day, as unidades do exército Viet Minh foram forçadas a se retirar entre 10 e 18 de junho, deixando 1.000 prisioneiros nas mãos dos franceses e 9.000 baixas para trás.

Os últimos defensores Viêt-Minh no rochedo de Ninh-Binh são capturados pelos tirailleurs do 2e BM/1er RTA.

O corpo do Tenente de Lattre foi recuperado por um golpe-de-mão do Comando 24 "Tigres Negros".

La Noblesse Oblige

O Major Médico Grauwin em seu livro J’étais médecin à Dien Bien Phu (Eu fui médico em Dien Bien Phu) faz um ode aos filhos de oficiais-generais que, ao invés de aceitarem postos confortáveis em unidades administrativas, decidiram que la noblesse oblige (a nobreza tem obrigações) e voluntariam-se para lutar e morrer na defesa do império francês na Ásia.

No sistema francês, o comandante da unidade é chamado pela tropa como "Le Patron", o patrão ou patrono. O culto aos patronos tão enraizado no Exército Brasileiro deriva desse costume por influência direta da Missão Militar Francesa vinda em 1920. Grauwin menciona os comentários de "Ó, o filho do patrão...", quando estes jovens oficiais de "dinastias" militares eram avistados nos quartéis.
 
"O que todos esses tenentes tinham?

Conheço dezenas e dezenas de todas as armas e todas as unidades. Em uma primeira estadia na Indochina é chefe de pelotão, em uma segunda estadia, comandante de companhia, mas a terceira estadia geralmente terminava com um membro a menos ou em um cemitério militar perdido no mato.

Da antiga equipe de tenentes do terceiro estrangeiro, quantos ainda restam até hoje? Onde estão enterrados Benoistel, Hamacek, Guillemin, Palissère, Fontaine?...

Na primavera de 1947, ainda em Nam Dinh; havia três oficiais de cavalaria que mantinham a comida, eu os via todas as noites, eles se chamavam: de Lassus, Mercier e Monroe. Eles foram enterrados todos os três em intervalos de um ano não muito distantes um do outro.

Os filhos dos generais pagam a grande honra de ostentarem um nome glorioso: o Tenente Leclerc, o Tenente de Lattre ou o Tenente Preau...

Por que eles recusam um cargo tranqüilo depois de terem cumprido grandemente seu tempo como chefe de pelotão ou comandante de companhia? O medo que se diz: "Ó, o filho do patrão..." Não! O amor simplesmente, como os camaradas de nomes desconhecidos; o amor de sua profissão de soldado e pelo país."

- Major Médico Grauwin, J’étais médecin à Dien Bien Phu.

J’étais médecin à Dien Bien Phu.
Major Médico Grauwin.

A morte de Bernard de Lattre teve um grande impacto em seu pai e sua mãe. Seu pai, em particular, fora profundamente afetado e ele morreu de câncer menos de oito meses depois. Sua mãe, agora com o direito de se chamar Madame la Maréchale após a promoção póstuma de seu marido, foi descrita em um obituário publicado em 2003 como tendo "se dedicado à memória de seu filho e à história de seu marido e dos exércitos que ele havia comandado".

Em 1952, foi publicado um livro de 308 páginas intitulado Un destin héroïque: Bernard de Lattre (Um destino heróico: Bernard de Lattre). O livro é uma coleção de histórias da vida de Bernard, junto com cartas que ele escreveu. O livro foi escrito e editado pelo professor francês de filosofia Robert Garric. Outra resposta escrita à morte de Bernard de Lattre foi fornecida por sua mãe em sua obra em dois volumes sobre o marido: Jean de Lattre: mon mari (Jean de Lattre: meu marido, Paris, 1972). Nesta obra, Madame de Lattre escreve sobre a reação de seu marido à morte de seu filho, mas também escreve sobre seus próprios sentimentos e o idealismo de uma geração de soldados franceses morrendo tal como seu filho.

Um dos memoriais duradouros a Bernard de Lattre é uma pequena capela ao ar livre na comuna de Wildenstein, no departamento do Haut-Rhin, na Alsácia, no nordeste da França. Hoje conhecida como Capela de São Bernardo, essa estrutura foi inaugurada em 1955. É constituída por um altar e um pequeno abrigo ao lado de uma trilha de caminhada. A construção do local começou em 1954, usando plantas aprovadas por Madame de Lattre. O material de construção usado foi arenito rosa da vizinha Rouffach. O site é dedicado à memória de Bernard de Lattre, de seu pai Jean de Lattre e das forças francesas que lutaram na área em 1944 para libertar a Alsácia dos alemães na Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, a capela ficou em mau estado, mas foi renovada e reinaugurada durante uma missa de 20 de agosto de 2004, dia dedicado a São Bernardo de Claraval. Há um serviço anual realizado lá em homenagem a Bernard de Lattre de Tassigny, com a presença de associações de veteranos, dignitários locais e parentes dos de Lattre.

Também localizado em Wildenstein está o Centre Bernard de Lattre, que inclui um memorial a Jean de Lattre. Este memorial estava originalmente localizado na Argélia, mas foi transferido para Wildenstein em 1962 após a Argélia se tornar independente da França. Uma comemoração adicional do nome de Bernard de Lattre veio quando a turma de 1984-1985 da École Militaire Interarmes, a escola militar em que ele estudou, foi nomeada "Promoção Tenente Bernard de Lattre de Tassigny" em sua homenagem. Um serviço anual também ocorre nos túmulos dos de Lattre em Mouilleron-en-Pareds.

Historiadores e outros autores que escreveram sobre a Primeira Guerra da Indochina comentaram sobre o simbolismo da morte de Bernard de Lattre. Em Soldats perdus: de l'Indochine à l'Algérie, dans la tourmente des guerres (Soldados perdidos: da Indochina à Argélia, 2007), a jornalista e autora francesa Hélène Erlingsen diz que a morte de Bernard de Lattre foi um símbolo "do mundo moderno devastado pela guerra" e que sua vida foi “representativa do nosso tempo”. A morte de Bernard de Lattre foi contextualizada em relação a outras mortes nesta guerra, com Brian Moynahan, na sua obra The French century: an illustrated history of modern France (O século francês: uma história ilustrada da França moderna, 2007), observando que "ao todo 21 filhos de marechais e generais franceses morreram na Indochina", conforme registrado por Bernard Fall em 1961.

Post-script: Suspense militar

O título deste artigo é uma paráfrase do filme A Filha do General (The General's Daughter, 1999), um filme de investigação militar onde o investigador Paul Brenner (John Travolta) ao lado de sua parceira Sara Sunhill (Madeleine Stowe) investigam a misteriosa morte da oficial de guerra psicológica Capitã Elisabeth Campbell (Leslie Stefanson), filha do comandante da base: o General Joe Campbell (James Cromwell).

Outros personagens marcantes sendo o Coronel Bob Moore (James Woods), o oficial comandante e mentor da Capitã Elisabeth Campbell, e o Coronel George Fowler (Clarence Williams III), o leal segundo em comando do General Campbell. Além da investigação e da discussão sobre mulheres no exército em uma época onde este era um conceito novo, o filme ainda apresenta a estética esverdeada dos antigos uniformes BDU americanos.

Recomendação do Warfare.


A Filha do General ainda gerou um filme de suspense e investigações militares, Violação de Conduta (Basic, 2003), dessa vez com John Travolta contracenando com a futura rainha Hipólita, Connie Nielsen, como a investigadora Capitão Júlia Osborne e com o titã Samuel L. Jackson interpretando o implacável Sargento Nathan West.

Bibliografia recomendada:

Street Without Joy:
The French Debacle in Indochina.
Bernard Fall.

Leitura recomendada:












Armas vietnamitas para a Argélia, 14 de dezembro de 2020.