terça-feira, 28 de julho de 2020

GALERIA: O Steyr AUG e os fuzis bullpup na Índia

Testes do Steyr AUG pelo exército indiano no final dos anos 80.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 27 de julho de 2020.

Na década de 1980, o Exército indiano queria substituir os fuzis SLR (FAL imperial) mais antigos que utilizava há duas décadas. Também queria trocar o calibre 7,62x51mm OTAN para um fuzil de calibre 5,56x45mm. Em 1985, após os testes, o Steyr AUG e o HK G41 foram pré-selecionados. Ambos eram armas foram consideradas excelentes em suas respectivas classes e ambos os fabricantes ofereceram transferência de tecnologia e produção de licenças. No entanto, ambos tinham algumas vantagens e desvantagens.

Algumas vantagens do AUG eram que possuía canos intercambiáveis para fuzil, carabina e fuzil-metralhador e reduziam a logística e simplificavam o treinamento das tropas. No entanto, não foi considerado um fuzil de batalha de infantaria ideal por causa do seu tamanho compacto, julgado muito curto para o combate com baionetas. O G41 tinha todas as características para ser um fuzil de batalha, mas não oferecia nada de novo além do calibre 5,56mm. Também não oferecia os mesmos componentes intercambiáveis.



O AUG impressionou os generais por conta da sua mira telescópica, desenho bullpup e carregador transparente; mas, foi considerado muito caro para a adoção geral e o programa foi abandonado em favor de um fuzil de fabricação indiana (que mais tarde seria conhecido como INSAS). O Exército Indiano é muito grande, o segundo maior do mundo, e a infantaria é a sua principal arma, o que torna a adoção de fuzis um processo caro e difícil.


Shri Kiren Rijiju, atual ministro do Interior, com o Steyr AUG A1 9mm na Academia da Polícia Nacional, Hyderabad no 3º dia da Conferência Geral Anual dos Diretores-Gerais de Polícia da Índia (All India Annual Director Generals of Police Police Conference).


Policial da CRPF com um Steyr AUG.
Imagens como essa são incomuns e a CRPF diz estar satisfeita com o Tavor X95.

Alguns fuzis AUG foram introduzidos em número limitado, servindo  Os Steyr AUG foram introduzidos no regimento para-comando (1 Para SF) do Exército Indiano, além de serem usados pelo Grupo Especial (Special Group, SG), unidades da Reserva Central da Polícia Nacional (Central Reserve Police Force,CRPF) além de outras, mas apenas em número limitado. Em essência, foi o primeiro fuzil bullpup de todas as forças indianas. Mesmo agora, muitos soldados indianos podem ser vistos com o Steyr AUG durante exercícios conjuntos com o Exército Real de Omã, o qual também utiliza este fuzil.


Soldados indianos e omanis armados com o Steyr AUG durante um exercício.

Soldados indiano e omani com fuzis Steyr AUG.

Soldados indianos com o Steyr AUG durante exercícios com o Exército Real de Omã.

No entanto, os generais ficaram tão impressionados com essa arma futurista que o INSAS foi obrigado a ter carregadores transparentes. A ergonomia bullpup também impressionou os indianos, que adquiriram fuzis Tavor TAR-21 e X95 israelenses em quantidades relevantes.


Para-comandos indianos com fuzis Tavor TAR-21.

O lança-granadas GTAR-21 em evidência.

O Grupo Especial de Proteção (Special Protection Group, SPG), encarregado da segurança do primeiro-ministro indiano e dos seus familiares imediatos, adotou o também bullpup FN F2000.


Homens do SPG com o FN F2000.

A crise dos fuzis


Soldado indiano mirando com o fuzil INSAS.

A adoção do INSAS foi uma decisão problemática. O Conselho de Fábricas de Munição (Ordnance Factory Board, OFB), um monopólio da indústria indiana sob o DRDO (Defence Research and Development Organisation, Organização de Pesquisa e Desenvolvimento de Defesa),  vem produzindo armas leves de baixa qualidade há décadas; e mesmo se mostrando incapaz de suprir a demanda de munição. Isto forçou o ministério da defesa indiano a realizar compras de emergência de fuzis e munições de fabricante estrangeiros, onerando sobremaneira o orçamento da defesa. 

Segundo o livro Military Industry and Regional Defense Policy: India, Iraq and Israel, de Timothy D. Hoyt (2006):

"No início dos anos 80, o DRDO assumiu o compromisso de desenvolver uma nova série de armas portáteis de 5,56mm para as forças armadas indianas chamada INSAS. Tanto a Heckler & Koch da Alemanha quanto a Steyr da Áustria se ofereceram para suprir as necessidades imediatas da Índia e transferir tecnologia no valor de US$ 4,5 milhões gratuitamente. Essas ofertas foram recusadas e o DRDO passou a década seguinte, e aproximadamente 2 bilhões (cerca de US$ 100 milhões em 1990), reinventando uma família de armas portáteis baseada fortemente nas tecnologias Steyr e H&K. Enquanto isso, a Índia importou fuzis AK-47 de antigos países do Pacto de Varsóvia para atender aos requisitos. O INSAS finalmente entrou em serviço no final dos anos 90."

Após a conclusão dos testes, o INSAS (Indian Small Arms SystemSistema de Armas Portáteis da Índia) foi adotado oficialmente em 1990. No entanto, para eliminar progressivamente os obsoletos fuzis Lee-Enfield de ação de ferrolho ainda em uso o mais rápido possível, a Índia teve que adquirir 100.000 fuzis AKM de 7,62x39mm da Rússia, Hungria, Romênia e Israel em 1990–92. 


Exercício Conjunto Shakti 2019. Os indianos estão armados com o fuzil Pistol Mitralieră model 1990 (PM md. 90), o AKM romeno. Os franceses portam o FAMAS F1 e o indiano da direita uma Brügger & Thomet MP9 (B&T MP90).

Em 1997, o fuzil e o FM entraram em produção em massa. Em 1998, os primeiros fuzis INSAS foram exibidos no desfile do dia da república, em 26 de janeiro. A introdução do fuzil foi adiada devido à falta de munição 5,56x45mm. Grandes quantidades do mesmo foram compradas das Indústrias Militares de Israel em caráter de emergência. A indústria indiana se mostrou incapaz de suprir a demanda, e o próprio comandante do exército reclamou publicamente que a Índia não tem munição suficiente para 4 dias de guerra.

O INSAS é baseado principalmente no AKM, mas incorpora recursos de outros rifles, possuindo muita influência do FAL, AUG e do Galil. O batismo de fogo do INSAS foi a Guerra de Kargil, de 1999, e os resultados foram desanimadores. Os fuzis foram usados nas altas elevações do Himalaia e houve reclamações de engripamento, carregadores rachando devido ao frio e o fuzil entrando no modo automático quando colocado no modo de rajadas de três tiros. Havia também um problema de pulverização de óleo no olho do operador. Também foram relatados alguns feridos durante treinamentos de tiro. Em 2001, a variante 1B1 foi introduzida para resolver problemas relacionados à confiabilidade do fuzil apontados na Guerra de Kargil, mas esta abriu outros problemas, tais como carregadores quebrados.


Paramilitares indianas empunhando o INSAS na fronteira com o Nepal.

Queixas semelhantes também foram recebidas do Exército Nepalês. Em agosto de 2005, depois que 43 soldados foram mortos em um confronto com guerrilheiros maoístas, um porta-voz do Exército Nepalês chamou o fuzil de "abaixo do padrão" e disse que operação de contra-insurgência nepalesa teria sido mais eficiente com armas melhores.

Em novembro de 2014, o CRPF solicitou a retirada do INSAS como seu fuzil padrão devido a problemas de confiabilidade. O diretor-geral da CRPF, Dilip Trivedi, disse que o INSAS emperrava com mais frequência em comparação com o AK-47 e o X-95. Em abril de 2015, o governo indiano substituiu alguns fuzis INSAS do CRPF por fuzis AK-47. No início de 2017, foi anunciado que os fuzis INSAS seriam retirados de serviço e substituídos por fuzis no cartucho 7,62x51mm OTAN. Em março de 2019, a mídia especializada informou que as forças armadas indianas deveriam substituir o INSAS pelos fuzis AK-203 projetados na Rússia, fabricados na Índia sob uma joint venture.


Um soldado indiano observa um M4A1 do Exército Americano no Exercício Yudh Abhyas, 2019.

Depois de constantes vacilações, os indianos fizeram uma compra de 72,400 mil fuzis SIG-716 Patrol G2 fabricados nos Estados Unidos, com uma segunda encomenda de 72 mil a ser feita. O governo indiano é conhecido pelo seu diletantismo sobre compras de armamentos e a insistência na fabricações nativa na Índia, com um número de empresas irritadas se afastando ou abandonando inteiramente concursos de armamentos indianos.


Soldados indianos armados com os fuzis SIG-716 em exercício conjunto com os franceses; estes armados de bullpup FAMAS F1. Um indiano à esquerda porta uma MP9.

Em 2018, a empresa americana Colt e a italiana Beretta saíram no meio do concurso das novas carabinas do Exército Indiano. Outros fabricantes de armas de destaque, como o belga FN Herstal e o alemão Heckler & Koch, nem se deram ao trabalho de participar do concurso, devido principalmente à maneira notoriamente extravagante, ad hoc e imprevisível pela qual o Ministério da Defesa indiano até agora adquiriu armas de fogo para o Exército. O exército então selecionou a oferta da Caracal International LLC em caráter de "fornecimento rápido". Baseada nos Emirados Árabes Unidos, a Caracal vai produzir 93.895 carabinas CAR 816, uma versão do HK416, chamada de Caracal Sultan ou simplesmente Sultan (Sultão).

Conclusão


F90 da Thales.

Este não foi o fim dos bullpups no Exército Indiano. Na convenção Defexpo 2018, a MKU garantiu direitos de licença aos indianos para fabricarem o F90. Em abril de 2019, a variante F90CQB foi planejada para, em conjunto com o Kalyani Group, ser submetida aos requisitos do Exército Indiano para uma carabina em 5,56 mm OTAN.

No final de 2002, a Índia assinou um contrato de 880 milhões de rúpias indianas (US$ 38 milhões em 2019) com as Indústrias Militares de Israel (IMI) por 3.070 fuzis Tavor TAR-21 fabricados em Israel para serem supridos ao pessoal das forças especiais indianas, onde sua ergonomia, confiabilidade no calor e na areia pode dar-lhes uma vantagem em combates aproximados e quando empregados dentro de veículos. Em 2005, a IMI havia fornecido de 350 a 400 TAR-21 para a Força de Fronteira Especial (Special Frontier ForceSFF) do norte da Índia. Estes foram posteriormente declarados como "operacionalmente insatisfatórios". As alterações necessárias foram feitas e os testes em Israel durante 2006 foram bem, liberando a remessa contratada para entrega. 


Para-comandos indianos em treinamento conjunto com os Boinas Verdes americanos do 2º Batalhão, 1º Grupo de Forças Especiais (Paraquedista) em Camp Rilea, Oregon.

"Jawans" do Regimento de Fuzileiros Rashtriya armados com o TAR-21.

Houve uma tentativa de criar uma versão indiana do Tavor sob licença conhecida como Zittara, que não foi adotada e foi feita com alguns protótipos da OFB. Os novos Tavor X95s têm uma coronha de peça única modificada e novas miras, além dos lança-granadas MKEK T-40 de 40mm, fabricados na Turquia. 5.500 foram introduzidos recentemente e mais fuzis estão sendo encomendados. Uma remessa de mais de 500 fuzis de assalto Tavor e outros 30 fuzis sniper Galil no valor de mais de 150 milhões de rúpias indianas (US$ 2,1 milhões) e 20 milhões de rúpidas indianas (US$ 280.000), respectivamente, foi entregue ao MARCOS (Comandos Fuzileiros Navais) em dezembro de 2010. Em 2016, a IMI anunciou que estava estabelecendo uma joint venture 49:51 com o Punj Lloyd, para fabricar componentes de fuzis na Índia.


Comandos do SPG com fuzis bullpup FN F2000TR com miras holográficas EOTech-552 e pistolas FN Five-Seven.


Soldado indiano com um Steyr AUG em manobras com os omanis.

Em suma, o combatente indiano demonstrou apreço pela ergonomia e tamanho diminuto do sistema bullpup, e não parece desejar se desfazer de armamentos nesta configuração. No entanto, a indústria governamental e indecisão das suas lideranças vêm desapontando o guerreiro na ponta de lança e a idéia de uma produção nativa destes e outros armamentos permanece distante.


Indianos e omanis no exercício Al-Nagah 2019.

Foto de formatura no exercício Al-Nagah 2019.

Bibliografia recomendada:



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