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quinta-feira, 12 de maio de 2022

O Exército Federal Austríaco

Por Filipe do A. MonteiroWarfare Blog, 12 de maio de 2022.

O Bundersheer, o novo Exército Federal da Áustria, estava armado com material americano, soviético e alemão; seus homens vestem o novo camuflado austríaco Kampfanzug 1957. O capacete é o M1 americano e a arma de apoio ao grupo de combate (GC) é a venerável metralhadora MG42. O T-34/85 foi deixado pela Força de Ocupação soviética, uma força de 150 mil homens que deixou a Áustria em 1955.

Composto de exército (Landstreitkräfte), aeronáutica (Luftstreitkräfte) e, atualmente, das forças especiais (Spezialeinsatzkräfte), o Exército Federal foi criado em 7 de setembro de 1955 para solucionar a questão alemã no ambiente de bipolaridade da Guerra Fria. Apesar de padronizar seu material com fornecedores ocidentais, a função do Bundersheer era manter a neutralidade da Áustria.

Homens do recriado Bundesheer da Áustria durante um exercício de demonstração de combate (Gefechtsvorführung) em Bruck an der Leitha, 1958.

Apenas um ano depois de sua fundação, durante a crise húngara de 1956, o novo exército federal teve que provar seu valor e foi mobilizado para a fronteira de modo a garantir sua inviolabilidade; garantindo assim a neutralidade e, com isso, a independência da Áustria.

Soldados austríacos usando uniformes austríacos misturados com capacetes e armamentos americanos patrulham a fronteira com a Hungria, 1956.

Leitura recomendada:



VÍDEO: Alemanha Ano Zero, 19 de maio de 2020.



terça-feira, 10 de maio de 2022

FOTO: Soldado soviético da Guarda de Fronteira da KGB

Soldado soviético V. Krapalov, 1981.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 10 de maio de 2022.

Retrato do guarda de fronteira soviético V. Kapralov, enquanto ele participa da recepção no Comitê Central do Komsomol e do departamento político das tropas da KGB em homenagem ao Dia da Guarda de Fronteira, 1981.

Todos os países soviéticos necessitavam de uma guarda de fronteira, e sua principal função era impedir que cidadãos dos países comunistas fugissem para o ocidente capitalista.

Marcha da Guarda de Fronteira Soviética


Leitura recomendada:

quinta-feira, 5 de maio de 2022

DOCUMENTÁRIO: A história do Exército Vermelho soviético


Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 5 de maio de 2022.

Documentário em duas partes sobre a história do Exército Vermelho soviético pelo canal alemão Deutsche Welle ("Onda Alemã"), de suas origens brutais na Guerra Civil Russa ao caldeirão da Grande Guerra Patriótica. Criado em 1918, com o nome de Exército Vermelho dos Operários e Camponeses (RKKA), o Exército Vermelho soviético lutaria contra os brancos contra-revolucionários e esmagaria as revoltas camponesas de forma brutal - especialmente a de Tambov. O momento de catarse deste exército do socialismo internacionalista foi a invasão alemã, com o enfrentamento titânico das forças da Wehrmacht e do Exército Vermelho Soviético.

Inicialmente despreparado, milhares de soldados soviéticos foram mortos e capturados, com muitos se unindo aos alemães por apostarem em uma vitória dos nazistas. Com forte apoio ocidental e uma incrível quantidade de sangue soviético, o Exército Vermelho sairia por cima da disputa.

A segunda parte lida com o retorno dos veteranos que, deixando de serem heróis, passaram a ser tratados com suspeita; rebaixados a cidadãos de segunda-classe. Foi apenas com Khrushchov, 11 anos depois, que os veteranos e o exército foram reabilitados. A profissionalização do Exército Soviético para travar a Guerra Fria o afastou do velho exército dos operários e camponeses, tornando-o mais sofisticado e engajado na nova disputa nuclear com os Estados Unidos. Outro campo de batalha foi a exploração especial. O lançamento da cachorra Laika em órbita levou os EUA a criarem a NASA. A disputa levou à conquista do espaço por Yuri Gagarin, um dos momentos de apoteose do Exército Vermelho e da ideologia socialista. No entanto, a sua principal função continuou como sendo de repressão, como gendarmaria do Pacto de Varsóvia. As intervenções na Polônia, Hungria e Tchecoslováquia sendo os maiores exemplos.

Em meio a isso, a miséria da vida no Exército Vermelho, com os soldados sendo abusados e até mesmo estuprados, atingiu o ponto de ebulição na tragédia da guerra no Afeganistão, marcando o ponto mais baixo da experiência do exército do internacionalismo socialista. Uma tentativa de repressão contra os próprios russos em Moscou levou à perda de poder do partido comunista diante da resistência liderada por Boris Yeltsin. O Exército Soviético deixou de existir com o colapso e dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1991.



Descrição da Primeira Parte:

Em 1918, Leon Trotsky fundou o Exército Vermelho. Em pouco tempo, o exército seria usado não apenas contra o mundo exterior, mas também contra o povo soviético. Preocupado com o grande poder do exército, Stalin iniciou expurgos em 1937 e 1938.

Em 1918, a Rússia soviética estava travando uma guerra total – contra inimigos estrangeiros e seu próprio povo. Logo, o Exército Vermelho, fundado por Trotsky, teve que abandonar seus nobres ideais de igualdade e democracia. Quando o racionamento de alimentos foi ordenado durante a guerra civil, a população rural se revoltou contra o incipiente Estado comunista. Para acabar com a revolta camponesa em Tambov, o ex-oficial czarista Mikhail Tukhachevsky usou gás venenoso contra os aldeões por ordem de Lenin em 1920.

General Mikhail Tukhachevsky com a Budyunovka,
"O Napoleão Vermelho".

 Selo soviética com Mikhail Tukhachevsky, 1963.

O Exército Vermelho emergiu mais forte e confiante como resultado de sua vitória na guerra civil contra os "brancos" e a Rússia czarista. No entanto, Stalin, que chegou ao poder após a morte de Lenin em 1924, temia a crescente influência do exército, bem como a popularidade do comandante marechal Mikhail Nikolayevich Tukhachevsky. Ele o executou em 12 de junho de 1937 e ordenou expurgos. Aqueles anos, 1937 e 1938, ficaram na história como a época do "Grande Terror".

Quando a Wehrmacht alemã invadiu a Rússia, o Exército Vermelho era apenas uma sombra de seu antigo eu. Além de Tukhachevsky, outros três marechais, 13 generais e cerca de 5.000 oficiais foram executados como parte dos expurgos de Stalin. Quase metade da liderança do Exército Vermelho estava morta, assassinada por seu próprio líder.

Prisioneiros soviéticos capturados pelos alemães, 1941.

Para combater o ataque alemão, Stalin ordenou a mobilização geral. Em novembro de 1941, os alemães estavam às portas de Moscou. O General Zhukov conseguiu forçá-los a recuar no último momento. O Exército Vermelho recebeu ajuda do movimento partisan [guerrilheiro], que cresceu como resultado do genocídio dos judeus [pelos nazistas], e conseguiu enfraquecer o moral de combate alemão por meio de ataques direcionados.

Infantaria soviética em combate perto de Tula, durante a Batalha de Moscou, em novembro de 1941.

Soldados alemães marchando em direção a Moscou, 1941.

Em Stalingrado, Zhukov foi capaz de desgastar o inimigo. Graças à coalizão anti-Hitler que a URSS formou com os EUA e a Grã-Bretanha, o Exército Vermelho conseguiu lançar uma contra-ofensiva. Em sua marcha triunfal para Berlim, o Exército Vermelho descobriu os campos de concentração e extermínio, os quais acenderam o desejo de vingança dos soldados. [Durante a marcha sobre a Alemanha] seguiram-se saques e estupros generalizados. Os principais homens de Stalin, os generais Zhukov e Konev, capturaram a capital alemã. A Alemanha nazista se rendeu em 8 de maio de 1945, e o documento de rendição foi assinado em Karlshorst na noite de 9 de maio de 1945.

Pintura do hasteamento da bandeira soviética sobre o Reichstag.

Hasteamento da bandeira sobre o Reichstag, por Yevgeny Khaldei, 2 de maio de 1945.

Descrição da Segunda Parte:

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a glória do Exército Vermelho diminuiu. Então, com o desenrolar da Guerra Fria, Khrushchev poliu a reputação do exército mais uma vez. Mas, a partir de então, o exército passou a ter uma função puramente repressiva.

Após a Segunda Guerra Mundial, as atividades do Exército Vermelho foram direcionadas principalmente contra levantes populares na esfera de influência da URSS. Estes foram brutalmente reprimidos. Hoje, o Exército Vermelho é principalmente um símbolo de aspirações nacionalistas nostálgicas.

Manifestantes tchecos em cima de tanques soviéticos, 21 de agosto de 1968.

Tanques soviéticos em Praga, 1968.

Após a vitória sobre o fascismo no verão de 1945, nove milhões de soldados soviéticos voltaram para casa. Mas os prisioneiros de guerra que sobreviveram aos campos alemães eram frequentemente acusados de traição quando finalmente chegavam à sua pátria e enviados para gulags. Outros foram forçados a mendigar, pois suas pensões de guerra foram cortadas, ou se viram banidos das grandes cidades. Stalin decidiu pôr fim aos dias gloriosos do Exército Vermelho, após a vitória contra a Alemanha de Hitler. Quando a Guerra Fria começou, a única função do Exército Vermelho era manter a ordem e a segurança públicas.

Mas após a morte de Stalin em 1953, as cartas foram re-embaralhadas. O novo homem forte Nikita Khrushchov havia se livrado de seu rival, o chefe do Ministério do Interior Lavrenti Beria, com a ajuda do Exército Vermelho. Depois de tomar o poder, Khrushchov iniciou um programa de desestalinização. Ele nomeou o marechal Georgi Zhukov, que havia caído em desgraça com Stalin, como ministro da Defesa. Khrushchov então reorganizou e modernizou o Exército Vermelho. Ele restaurou seu prestígio e reintroduziu uma pensão para o serviço de guerra.

Cosmonauta Yuri Alekseyevich Gagarin,
o primeiro homem no espaço em 12 de abril de 1961.
Oficial da força aérea do Exército Vermelho.

Soldados do Exército Vermelho em combate no Afeganistão.
A coluna blindada foi emboscada por guerrilheiros mujahideen.

Com o apoio dos tanques soviéticos, o Exército Vermelho foi fundamental para esmagar sangrentamente as revoltas na Polônia e Budapeste em 1956 e em Praga em 1968. E eles desempenharam um papel nas batalhas da Guerra Fria em curso com o Ocidente.

Na década de 1970, as condições de vida dos soldados do Exército Vermelho se deterioraram drasticamente. Muitos recrutas tentaram evitar o serviço militar. Mas muitas vezes não havia como escapar da missão de pesadelo no Afeganistão. O Exército Vermelho estava cada vez mais enfraquecido e desmoralizado à medida que crescia a antipatia pelo sistema soviético. Em 1989, dez anos após o início do conflito no Afeganistão, o presidente Mikhail Gorbachov ordenou que o Exército Vermelho se retirasse daquele país e trouxesse seus soldados para casa. Essa derrota desempenhou um papel na desintegração da URSS, que ocorreu após a renúncia de Gorbachov em 25 de dezembro de 1991.

Bibliografia recomendada:

The Soviet Union at War: 1941-1945.
David R. Stone.

Meninos de Zinco.
Svetlana Aleksiévitch.

Leitura recomendada:

quarta-feira, 27 de abril de 2022

Milicianas cubanas com submetralhadoras tchecas

Plaza de la Revolución em Havana, Cuba, maio de 1963.
(Alberto Korda)

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 27 de abril de 2022.

Fotos de milicianas cubanas tiradas por Alberto Korda. Elas usam boinas e uniformes azuis claros e escuros, e portam as submetralhadoras tchecas Sa 23, que eram de dotação padrão da nova milícia cubana.

O modelo CZ 25 (corretamente, Sa 25 ou Sa vz. 48b/samopal vz. 48b - samopal vzor 48 výsadkový, "modelo de submetralhadora ano 1948 para") foi talvez o modelo mais conhecido de uma série de submetralhadoras projetadas pela Tchecoslováquia, introduzidas em 1948 Havia quatro submetralhadoras geralmente muito semelhantes nesta série: as Sa 23, Sa 24, Sa 25 e Sa 26. O projetista principal foi Jaroslav Holeček (15 de setembro de 1923 a 12 de outubro de 1997), engenheiro-chefe da fábrica de armas Česká zbrojovka Uherský Brod.

A Sa 23-26 tinha um ferrolho telescópico e foi a base para o projeto da submetralhadora Uzi israelense. Sua emissão foi ampla na milícia e as metralletas foram uma visão comum durante a Batalha da Praia Girón na Baía dos Porcos, em 1961.

"La Miliciana",
foto de Alberto Korda da cubana Idolka Sánchez, 1962
.

Samopal 25 de perfil.

Milicianas cuidando da aparência, 1962.

Capa do manual dos milicianos cubanos
após o recebimento dos fuzis Kalashnikov.

Alberto Korda

Alberto Díaz Gutiérrez, mais conhecido como Alberto Korda ou simplesmente Korda (14 de setembro de 1928 – 25 de maio de 2001), foi um fotógrafo cubano, lembrado por sua famosa imagem Guerrillero Heroico do revolucionário marxista argentino Che Guevara. A imagem tornou-se um símbolo da esquerda socialismo mundialmente e é famosa por estampar camisetas.

Guerrillero Heroico.
O famoso retrato de Che Guevara tirado por Alberto Korda em 1960.

Bibliografia recomendada:

The Bay of Pigs:
Cuba 1961.
Alejandro de Quesada e Stephen Walsh.

Leitura recomendada:


FOTO: Mulheres cubanas em Angola29 de março de 2022.

FOTO: Vespa cubana, 13 de janeiro de 2022.

FOTO: Guardando o Campo de Batalha8 de setembro de 2021.

sábado, 23 de abril de 2022

Museu da Baía dos Porcos: Playa Girón, Cuba


Por Rob KrottSmall Arms Review, 19 de junho de 2015.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 23 de abril de 2022.

“Não, não, los mercenarios eram Yanquis... não cubanos!” Esta foi apenas uma das pequenas propagandas que ouvi na minha primeira visita a Cuba. Comigo (e compartilhando minha incredulidade com tais declarações) estava meu velho amigo Jerry Lee, um paraquedista e reservista da polícia militar. “The Guner”, como é conhecido, trabalha na indústria automobilística e atua como DJ de rádio rock n’ roll. Um usinador talentoso, ele construiu legalmente sua própria metralhadora Browning 1919 e pode ser contado para solucionar qualquer problema mecânico de armas de Classe III.

Morte aos imperialistas Yanquis!

Prisioneiros da Brigada 2506 guardados por fidelistas cubanos.
O homem à direita tem um FN FAL.

Depois de ler nossa história, incluindo o exemplar de Jerry do livro The Bay of Pigs: the Leaders’ Story of Brigade 2506, de Haynes Johnson, queríamos ver o local do desembarque em primeira mão. Deslizando ao motorista e ao guia turístico US$ 10 cada, ficamos felizes em deixar os outros turistas para trás. Enquanto nadavam na Playa Larga, que fica na cabeceira da Bahia de Cochinos, a Baía dos Porcos, demos um mergulho na história da Guerra Fria. Ficava a vinte minutos de carro da Bahia de Cochinos, conhecida pela maioria dos cubanos como Playa Girón, em homenagem a Gilbert Giron, um pirata francês que desembarcou lá no século XVII. Contornamos o Parque Nacional de la Cienega de Zapata (Zapata Marshlands Park), uma região selvagem praticamente intocada que abriga 80% da fauna de Cuba, incluindo um grande número de crocodilos. Playa Larga fica na cabeceira da Baía dos Porcos. Foi aqui que uma força de exilados cubanos apoiada pela CIA, a Brigada 2506, invadiu Cuba em 17 de abril de 1961. Negado apoio aéreo suficiente pelo presidente Kennedy, a invasão falhou. A maioria dos homens da Brigada 2506 foram mortos ou capturados. Muitos foram posteriormente executados. Alguns tentaram atravessar os pântanos de água salgada infestados de crocodilos da Cienega de Zapata e morreram. Após a invasão, uma tentativa subsequente dos soviéticos de instalar mísseis balísticos de médio alcance com capacidade nuclear em Cuba provocou a Crise dos Mísseis Cubanos de 1962.

O governo construiu um museu, o Museo de Girón, para comemorar a vitória cubana sobre os imperialistas americanos e seus “mercenários” cubanos. Os exilados cubanos da Brigada 2506 são identificados nas exposições do museu como pertencentes à “Organizacion de la Brigada de Asalto 2506 (mercenaria)”. Ao longo da estrada a caminho de Playa Girón há um outdoor de propaganda comemorando a invasão da Baía dos Porcos. “Playa Girón, primera gran derrota del imperialismo en America Latina” (Praia Girón, a primeira grande derrota do imperialismo na América Latina). Uma inserção mostra uma cena famosa de Castro pulando de sua peça de assalto autopropulsada soviética - um motivo popular na área. Estacionado em frente ao museu está um avião de combate britânico Sea Fury usado pela força aérea de Castro para atacar a força de invasão de exilados cubanos na praia durante a Baía dos Porcos. Eles também deram o inferno aos B-26 destinados a apoiar a invasão.

Fidel Castro comandando a batalha do seu SU-100.

Fidel Castro descendo de um T-34/85 dutante a batalha.

Passando pelos Sea Furry e uma bandeira cubana tremulando na brisa, compramos um ingresso e entramos. Visitamos o museu junto com um grupo de estudantes cubanos usando lenços vermelhos dos Jovens Pioneiros do Partido Comunista. Mais de um puxou a manga de um colega de escola e sussurrou “Yanquis” ou “Imperialistas”. Aqui, longe das armadilhas turísticas da praia de Varadero e Vedado (Havana), os cubanos levam muito a sério sua história política.

Fotografias dos soldados cubanos (na verdade, milicianos locais) mortos nos combates dominaram as exposições, ocupando uma parede inteira. As vitrines estavam cheias de muitos de seus pertences pessoais; uniformes, armas de porte, boinas e insígnias. Armas capturadas na invasão e usadas pelas forças cubanas, juntamente com vários itens de equipamento de campanha, encheram o resto do museu. Então, como aficionados por armas portáteis que colecionam uniformes e militaria, estávamos no céu. Jerry teve o prazer de confirmar em uma exibição que os cubanos da Brigada 2506 usavam uniformes de camuflagem de 13 botões de estrelas do USMC da década de 1950, enquanto eu cobiçava uma autêntica insígnia 2506 (uma bandeira cubana sobreposta a uma cruz branca) com aba. Estudando as fotos de milicianos recebendo armas ainda cobertas de graxa de embalagem, Jerry e eu determinamos que as Milicias, Nacionales Revolucionarias estavam armadas com uma miscelânea de fuzis M-1 Garand Beretta, Springfield 1903, Krag 1896 (o #31640 está em exibição no museu), os primeiros fuzis FN FAL 7,62mm e até uma pistola automática Remington .45. Os pilares eram fuzis tchecos Modelo 52 7,62mm, submetralhadoras soviéticas PPSh-41 e submetralhadoras tchecas Modelo 23 de 9mm - todos "comprados" às pressas pelo governo de Castro do Pacto de Varsóvia e emitidos às pressas para os milicianos, em sua maioria não treinados, da milícia cubana. Embora não fosse a melhor escolha de armas leves de combate disponíveis na época, elas eram adequadas para uso por camponeses analfabetos. O PPSh-41 é um projeto simples e ainda mais simples de operar, enquanto o Modelo 52 e o modelo 23 são projeto excelentes. A submetralhadora Modelo 23 compartilha muitos recursos únicos de projeto com a Uzi. Com sua seqüência de montagem/desmontagem extremamente simples, poderia ser entregue a milicianos não treinados com apenas um breve período de orientação e instrução. Uma submetralhadora de 9mm também não requer muito em termos de treinamento de pontaria!

Insígnia da Brigada Asalto 2506.

Semelhante ao MKb42(W) alemão, o modelo 52 tcheco (7,62mm tcheco) - os tchecos copiaram o sistema de gás exclusivo do MKb42 projetado por Walther - é semiautomático e, portanto, não é um verdadeiro fuzil de assalto. No entanto, com seu carregador de cofre destacável de 10 tiros e calibre pesado, era um páreo para os soldados da Brigada 2506 equipados com carabinas M-1 de calibre .30 e M1 Garands M-1 de 8 tiros.

É claro que também havia uma série de carabinas M-2, fuzis M-1 e pistolas automáticas Colt .45, cortesia do Exército dos EUA através do arsenal de Fulgencio Batista em uso pelos milicianos cubanos. As pistolas Colt 1911 .45 ACP foram usadas extensivamente em ambos os lados da revolução cubana e foram muito admiradas e cobiçadas. Castro é conhecido por ter carregado uma .45 durante a revolução (junto com um fuzil de caça Modelo 70 Winchester) e supostamente tinha a mesma peça com ele na Baía dos Porcos. Uma foto tirada por Lester Cole em Havana alguns dias após a derrubada triunfante do regime de Batista por Castro mostra Castro usando uma M1911 .45. As pistolas robustas e confiáveis continuaram a ser usadas por muitos soldados cubanos até que a distribuição generalizada de armas soviéticas começou. Vários dos M1911 que eu vi em coleções de museus cubanos ostentavam punhos personalizados e eram bem conservados - não é um trabalho fácil nos trópicos.

Milicianos com uma miscelânea de armamentos celebrando a vitória.

Milicianos e regulares posando com um barco capturado dos brigadistas.

Mas, os exilados invasores estavam armados com mais do que carabinas e pistolas. Como a tarefa da Brigada era garantir uma cabeça de praia e avançar para o interior, eventualmente dirigindo para Havana (como isso foi previsto, dadas as estradas ruins e a distância até a costa norte ainda me intriga), os pelotões de petrechos pesados estavam todos equipados. Armas pesadas capturadas na invasão e agora em exibição incluíam um morteiro M-30 4,2 “Four Deuce”, um canhão sem recuo de 75mm para trabalho antitanque e uma metralhadora Browning calibre .30. Uma pesada arma automática usada pela milícia cubana, uma metralhadora tcheca modelo 37 (ZB53) de 7,92 mm - precursora da metralhadora de tanque Besa de fabricação britânica - me causou problemas com uma das matronas do museu quando destravei a alça do cano de troca rápida/mecanismo de trancamento do cano. “Just czeching”, eu disse a ela.

Não é à toa que o Modelo 37 foi usado pelas forças de Castro na praia da Baía dos Porcos, pois o Modelo 37 foi fabricado em grande número expressamente para exportação. O ZB-37, também conhecido como Modelo 53 (ZB-53), tem uma cadência de tiro lenta (500 rpm) ou mais rápida (700 rpm), dependendo do seletor. Com uma alimentação à direita de 100 ou 200 tiros em correias metálicas, esta metralhadora pesada de 7,92mm provou ser um cavalo de batalha confiável em teatros de combate em todo o mundo. Também em exibição estava uma arma antiaérea de quatro canos (que acredito ser um ZSU-23-4 de modelo inicial) - teria sido um verdadeiro terror no papel de apoio terrestre se fosse usado para varrer a praia. Também pode ter contribuído para a derrubada dos B-26 perdidos durante a invasão, embora isso seja apenas especulação. Os zeladores do museu foram muito prestativos e surpresos ao ver a quantidade de tempo e atenção que demos às exposições. Eu não acho que eles tenham muitos veteranos militares americanos aqui.

Canhão anti-aéreo das FAR na Baía dos Porcos.

No caminho de volta para Varadero, paramos na Austrália, uma cidade batizada com o nome da empresa-mãe de sua usina de açúcar. Saltamos da minivan e começamos a procurar o antigo posto de comando de Castro durante a Baía dos Porcos. Sabíamos que era aqui na Austrália pelos livros de história e porque havia um outdoor ao lado da estrada anunciando isso. “Aqui esta comandancia de las FAR” (FAR: Fuerzas Armadas Revolucionarias - Forças Armadas Revolucionárias). Encontrar o prédio real usado como posto de comando de Fidel exigiu um pouco de perambulação, embora estivesse a apenas um quarteirão da placa. Todos, exceto nosso guia turístico, sabiam onde tinha estado. Lá encontramos uma pequena coleção de fuzis antigos, incluindo dois Winchesters e um Remington Rolling Block. Ambos provavelmente foram usados na Guerra Hispano-Americana.

Gostei muito da minha primeira visita a Playa Giron. Além de visitar o museu e caminhar pela praia, havia uma emoção inerente só de estar lá - no país que é o último, mais próximo e desafiador inimigo da Guerra Fria dos Estados Unidos da América.


Rob fez 3 visitas subsequentes ao Museu Playa Giron. Para leitura adicional sobre a Baía dos Porcos, consulte: The Bay of Pigs; the Leaders Story of Brigade 2506, Haynes Johnson, et al W.W. Norton Co. 1964, 1ª edição.

Este artigo apareceu pela primeira vez na revista Small Arms Review V3N7 (abril de 2000) e foi publicado online em 19 de junho de 2015.

Fotos do Museu

Outdoor de propaganda na Baía dos Porcos: "Playa Girón, a primeira grande derrota do imperialismo na América Latina". A inserção no "O" mostra uma famosa cena de Castro pulando da torre de um T-34/85.

O autor Rob Krott sentado em um antigo bunker e olhando para Playa Largo ao sul da Baía dos Porcos.

Material capturado dos brigadistas, incluindo uma submetralhadora M3 Grease Gun, um camuflado e uma insígnia.

Fuzil FAL com guarda-mão e coronha de madeira e submetralhadora SA 23 tcheca.

Cartão Postal de Cuba: "METRALLETAS", Ciudad Libertad 1960, La Habana, Cuba.

Browning .30 recuperada após o fracasso da invasão.

Exilados cubanos camuflados da Brigada 2506 são levados ao cativeiro ou à execução. Observe os fuzis FN FAL brandidos pelos milicianos.

As armas pesadas dominam o centro do salão do museu.

Pintura a óleo retratando a famosa cena de Castro pulando de um tanque T-34/85. Esta pintura está pendurada no Museu da Revolução em Havana.

domingo, 20 de março de 2022

A Doutrina Putin

O presidente russo, Vladimir Putin, em uma cerimônia diplomática em Moscou, em dezembro de 2021.
(Sputnik Photo Agency / Reuters)

Por Angela Stent, Foreign Affairs, 27 de janeiro de 2022.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 20 de março de 2022.

Uma jogada na Ucrânia sempre foi parte do plano.

[Este artigo foi escrito antes da invasão de 24 de fevereiro]

A atual crise entre a Rússia e a Ucrânia é um acerto de contas que está sendo elaborado há 30 anos. É muito mais do que a Ucrânia e sua possível adesão à OTAN. É sobre o futuro da ordem europeia criada após o colapso da União Soviética. Durante a década de 1990, os Estados Unidos e seus aliados projetaram uma arquitetura de segurança euro-atlântica na qual a Rússia não tinha nenhum compromisso ou participação clara, e desde que o presidente russo Vladimir Putin chegou ao poder, a Rússia vem desafiando esse sistema. Putin reclamou rotineiramente que a ordem global ignora as preocupações de segurança da Rússia e exigiu que o Ocidente reconheça o direito de Moscou a uma esfera de interesses privilegiados no espaço pós-soviético. Ele organizou incursões em Estados vizinhos, como a Geórgia, que saíram da órbita da Rússia para impedir que se reorientassem totalmente.

Putin agora levou essa abordagem um passo adiante. Ele está ameaçando uma invasão muito mais abrangente da Ucrânia do que a anexação da Crimeia e a intervenção no Donbas que a Rússia realizou em 2014, uma invasão que prejudicaria a ordem atual e potencialmente reafirmaria a preeminência da Rússia no que ele insiste ser seu “legítimo” lugar no continente europeu e nos assuntos mundiais. Ele vê isso como um bom momento para agir. Em sua opinião, os Estados Unidos são fracos, divididos e menos capazes de buscar uma política externa coerente. Suas décadas no cargo o tornaram mais cínico sobre o poder de permanência dos Estados Unidos. Putin está agora lidando com seu quinto presidente dos EUA e passou a ver Washington como um interlocutor não confiável. O novo governo alemão ainda está encontrando seus pés políticos, a Europa como um todo está focada em seus desafios domésticos e o mercado de energia apertado dá à Rússia mais influência sobre o continente. O Kremlin acredita que pode contar com o apoio de Pequim, assim como a China apoiou a Rússia depois que o Ocidente tentou isolá-la em 2014.

Putin ainda pode decidir não invadir. Mas, quer ele faça ou não, o comportamento do presidente russo está sendo impulsionado por um conjunto interligado de princípios de política externa que sugerem que Moscou será disruptivo nos próximos anos. Chame isso de “doutrina Putin”. O elemento central dessa doutrina é fazer com que o Ocidente trate a Rússia como se fosse a União Soviética, uma potência a ser respeitada e temida, com direitos especiais em sua vizinhança e voz em todos os assuntos internacionais sérios. A doutrina sustenta que apenas alguns Estados devem ter esse tipo de autoridade, juntamente com soberania completa, e que outros devem se curvar aos seus desejos. Implica defender regimes autoritários em vigor e minar democracias. E a doutrina está ligada ao objetivo abrangente de Putin: reverter as consequências do colapso soviético, dividir a aliança transatlântica e renegociar o assentamento geográfico que encerrou a Guerra Fria.

Explosão do passado

A Rússia, de acordo com Putin, tem direito absoluto a um assento à mesa em todas as principais decisões internacionais. O Ocidente deve reconhecer que a Rússia pertence ao conselho de administração global. Depois do que Putin retrata como a humilhação da década de 1990, quando uma Rússia muito enfraquecida foi forçada a aderir a uma agenda definida pelos Estados Unidos e seus aliados europeus, ele alcançou amplamente esse objetivo. Embora Moscou tenha sido expulsa do G-8 após a anexação da Crimeia, seu veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas e seu papel como superpotência energética, nuclear e geográfica garantem que o resto do mundo leve em consideração suas opiniões. A Rússia reconstruiu com sucesso suas forças armadas após a guerra de 2008 com a Geórgia, e agora é a potência militar regional proeminente, com a capacidade de projetar poder globalmente. A capacidade de Moscou de ameaçar seus vizinhos permite forçar o Ocidente à mesa de negociações, como ficou tão evidente nas últimas semanas.


No que diz respeito a Putin, o uso da força é perfeitamente apropriado se a Rússia acredita que sua segurança está ameaçada: os interesses da Rússia são tão legítimos quanto os do Ocidente, e Putin afirma que os Estados Unidos e a Europa os desconsideraram. Na maior parte, os Estados Unidos e a Europa rejeitaram a narrativa de queixa do Kremlin, que se concentra principalmente na dissolução da União Soviética e especialmente na separação da Ucrânia da Rússia. Quando Putin descreveu o colapso soviético como uma “grande catástrofe geopolítica do século XX”, ele lamentava o fato de 25 milhões de russos se encontrarem fora da Rússia e criticava particularmente o fato de 12 milhões de russos se encontrarem no novo Estado ucraniano. Como ele escreveu em um tratado de 5.000 palavras publicado no verão passado e intitulado “Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos”, em 1991, “as pessoas se viram no exterior da noite para o dia, levadas, desta vez, de sua pátria histórica”. Seu ensaio foi recentemente distribuído às tropas russas.

Em um ensaio no ano passado, Putin escreveu que a Ucrânia estava sendo transformada em “um trampolim contra a Rússia”.

Essa narrativa de perda para o Ocidente está ligada a uma obsessão particular de Putin: a ideia de que a OTAN, não contente em apenas admitir ou ajudar Estados pós-soviéticos, pode ameaçar a própria Rússia. O Kremlin insiste que essa preocupação se baseia em preocupações reais. Afinal, a Rússia foi repetidamente invadida pelo Ocidente. No século XX, foi invadida por forças aliadas anti-bolcheviques, incluindo algumas dos Estados Unidos, durante sua guerra civil de 1917 a 1922. A Alemanha invadiu duas vezes, levando à perda de 26 milhões de cidadãos soviéticos na Segunda Guerra Mundial. Putin vinculou explicitamente essa história às preocupações atuais da Rússia sobre a infraestrutura da OTAN que se aproxima das fronteiras da Rússia e as demandas resultantes de Moscou por garantias de segurança.

Hoje, no entanto, a Rússia é uma superpotência nuclear brandindo novos mísseis hipersônicos. Nenhum país – muito menos seus vizinhos menores e mais fracos – tem qualquer intenção de invadir a Rússia. De fato, os vizinhos do país a oeste têm uma narrativa diferente e enfatizam sua vulnerabilidade ao longo dos séculos à invasão da Rússia. Os Estados Unidos também nunca atacariam, embora Putin os tenha acusado de tentar “cortar um pedaço suculento de nossa torta”. No entanto, a auto-percepção histórica da vulnerabilidade da Rússia repercute na população do país. A mídia controlada pelo governo está repleta de alegações de que a Ucrânia poderia ser uma plataforma de lançamento para a agressão da OTAN. De fato, em seu ensaio no ano passado, Putin escreveu que a Ucrânia estava sendo transformada em “um trampolim contra a Rússia”.

Putin também acredita que a Rússia tem direito absoluto a uma esfera de interesses privilegiados no espaço pós-soviético. Isso significa que seus antigos vizinhos soviéticos não devem aderir a nenhuma aliança considerada hostil a Moscou, particularmente a OTAN ou a União Européia. Putin deixou essa exigência clara nos dois tratados propostos pelo Kremlin em 17 de dezembro, que exigem que a Ucrânia e outros países pós-soviéticos – bem como a Suécia e a Finlândia – se comprometam com a neutralidade permanente e evitem a adesão à OTAN. A OTAN também teria que recuar para sua postura militar de 1997, antes de sua primeira ampliação, removendo todas as tropas e equipamentos da Europa Central e Oriental. (Isso reduziria a presença militar da OTAN ao que era quando a União Soviética se desintegrou.) A Rússia também teria poder de veto sobre as escolhas de política externa de seus vizinhos não pertencentes à OTAN. Isso garantiria que os governos pró-Rússia estivessem no poder nos países que fazem fronteira com a Rússia – incluindo, principalmente, a Ucrânia.

Dividir e conquistar

Até agora, nenhum governo ocidental estava preparado para aceitar essas exigências extraordinárias. Os Estados Unidos e a Europa adotam amplamente a premissa de que as nações são livres para determinar seus sistemas domésticos e suas afiliações de política externa. De 1945 a 1989, a União Soviética negou a autodeterminação à Europa Central e Oriental e exerceu controle sobre as políticas doméstica e externa dos membros do Pacto de Varsóvia por meio de partidos comunistas locais, a polícia secreta e o Exército Vermelho. Quando um país se afastou demais do modelo soviético — Hungria em 1956 e Tchecoslováquia em 1968 — seus líderes foram depostos à força. O Pacto de Varsóvia foi uma aliança que teve um histórico único: invadiu apenas seus próprios membros.

Cidadãos alemães-orientais atirando pedras num tanque soviético durante a intervenção de 1953.

A interpretação moderna da soberania do Kremlin tem paralelos notáveis com a da União Soviética. Sustenta, parafraseando George Orwell, que alguns Estados são mais soberanos do que outros. Putin disse que apenas algumas grandes potências – Rússia, China, Índia e Estados Unidos – desfrutam de soberania absoluta, livres para escolher quais alianças aderir ou rejeitar. Países menores, como Ucrânia ou Geórgia, não são totalmente soberanos e devem respeitar as restrições da Rússia, assim como a América Central e a América do Sul, segundo Putin, devem atender seu grande vizinho do norte. A Rússia também não busca aliados no sentido ocidental da palavra, mas busca parcerias instrumentais e transacionais mutuamente benéficas com países, como a China, que não restringem a liberdade da Rússia de agir ou julgar sua política interna.

Tais parcerias autoritárias são um elemento da Doutrina Putin. O presidente apresenta a Rússia como defensora do status quo, defensora dos valores conservadores e um ator internacional que respeita os líderes estabelecidos, especialmente os autocratas. Como os eventos recentes na Bielorrússia e no Cazaquistão mostraram, a Rússia é o poder principal para apoiar governantes autoritários em apuros. Defendeu autocratas tanto em sua vizinhança quanto em muito além – inclusive em Cuba, Líbia, Síria e Venezuela. O Ocidente, de acordo com o Kremlin, apoia o caos e a mudança de regime, como aconteceu durante a guerra do Iraque em 2003 e a Primavera Árabe em 2011.

O Pacto de Varsóvia foi uma aliança que teve um histórico único: invadiu apenas seus próprios membros.

Mas em sua própria “esfera de interesses privilegiados”, a Rússia pode atuar como uma potência revisionista quando considera seus interesses ameaçados ou quando quer avançar em seus interesses, como demonstraram a anexação da Crimeia e as invasões da Geórgia e da Ucrânia. A tentativa da Rússia de ser reconhecida como líder e apoiadora de regimes de homens fortes tem sido cada vez mais bem-sucedida nos últimos anos, à medida que grupos mercenários apoiados pelo Kremlin agiram em nome da Rússia em muitas partes do mundo, como é o caso da Ucrânia.

A interferência revisionista de Moscou também não se limita ao que considera seu domínio privilegiado. Putin acredita que os interesses da Rússia são mais bem atendidos por uma aliança transatlântica fraturada. Assim, ele apoiou grupos antiamericanos e eurocéticos na Europa; apoiou movimentos populistas de esquerda e direita em ambos os lados do Atlântico; envolvidos em interferência eleitoral; e geralmente trabalhou para exacerbar a discórdia nas sociedades ocidentais. Um de seus principais objetivos é fazer com que os Estados Unidos se retirem da Europa. O presidente dos EUA, Donald Trump, desdenhou da aliança da OTAN e desdenhou alguns dos principais aliados europeus dos Estados Unidos – principalmente a então chanceler alemã Angela Merkel – e falou abertamente em retirar os Estados Unidos da organização. O governo do presidente dos EUA, Joe Biden, buscou assiduamente reparar a aliança e, de fato, a crise fabricada de Putin sobre a Ucrânia reforçou a unidade da aliança. Mas há dúvidas suficientes na Europa sobre a durabilidade do compromisso dos EUA após 2024 para que a Rússia tenha encontrado algum sucesso reforçando o ceticismo, principalmente por meio das mídias sociais.

Autoridades militares venezuelanas e russas.

O enfraquecimento da aliança transatlântica poderia abrir o caminho para Putin realizar seu objetivo final: abandonar a ordem internacional liberal e baseada em regras do pós-Guerra Fria promovida pela Europa, Japão e Estados Unidos em favor de uma ordem mais acessível à Rússia. Para Moscou, esse novo sistema pode se assemelhar ao concerto de poderes do século XIX. Também poderia se transformar em uma nova encarnação do sistema de Yalta, onde a Rússia, os Estados Unidos e agora a China dividem o mundo em esferas de influência tripolares. A crescente aproximação de Moscou com Pequim de fato reforçou o apelo da Rússia por uma ordem pós-Ocidente. Tanto a Rússia quanto a China exigem um novo sistema no qual exerçam mais influência em um mundo multipolar.

Os sistemas dos séculos XIX e XX reconheciam certas regras do jogo. Afinal, durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética respeitavam principalmente as esferas de influência um do outro. As duas crises mais perigosas daquela época – o ultimato de Berlim em 1958 do primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev e a crise dos mísseis cubanos em 1962 – foram desarmadas antes do início do conflito militar. Mas se o presente é alguma indicação, parece que a “ordem” pós-Ocidente de Putin seria um mundo hobbesiano desordenado com poucas regras do jogo. Em busca de seu novo sistema, o modus operandi de Putin é manter o Ocidente desequilibrado, adivinhando suas verdadeiras intenções e depois surpreendendo quando ele age.

O recomeço russo

Dado o objetivo final de Putin, e dada sua crença de que agora é a hora de forçar o Ocidente a responder aos seus ultimatos, a Rússia pode ser dissuadida de lançar outra incursão militar na Ucrânia? Ninguém sabe o que Putin decidirá em última análise. Mas sua convicção de que o Ocidente ignorou o que ele considera os interesses legítimos da Rússia por três décadas continua a impulsionar suas ações. Ele está determinado a reafirmar o direito da Rússia de limitar as escolhas soberanas de seus vizinhos e ex-aliados do Pacto de Varsóvia e forçar o Ocidente a aceitar esses limites – seja pela diplomacia ou pela força militar.

Isso não significa que o Ocidente é impotente. Os Estados Unidos devem continuar a buscar diplomacia com a Rússia e buscar criar um modus vivendi que seja aceitável para ambos os lados sem comprometer a soberania de seus aliados e parceiros. Ao mesmo tempo, deve continuar coordenando com os europeus para responder e impor custos à Rússia. Mas está claro que, mesmo que a Europa evite a guerra, não há como voltar à situação anterior à Rússia começar a reunir suas tropas em março de 2021. O resultado final desta crise poderia ser a terceira reorganização da segurança euro-atlântica desde o final da década de 1940. A primeira veio com a consolidação do sistema de Yalta em dois blocos rivais na Europa após a Segunda Guerra Mundial. A segunda surgiu de 1989 a 1991, com o colapso do bloco comunista e depois da própria União Soviética, seguido pelo impulso subsequente do Ocidente para criar uma Europa “inteira e livre”. Putin agora desafia diretamente essa ordem com seus movimentos contra a Ucrânia.

Enquanto os Estados Unidos e seus aliados aguardam o próximo passo da Rússia e tentam deter uma invasão com diplomacia e a ameaça de pesadas sanções, eles precisam entender os motivos de Putin e o que eles anunciam. A crise atual é, em última análise, sobre a Rússia redesenhando o mapa pós-Guerra Fria e buscando reafirmar sua influência sobre metade da Europa, com base na afirmação de que está garantindo sua própria segurança. Pode ser possível evitar um conflito militar desta vez. Mas enquanto Putin permanecer no poder, sua doutrina também permanecerá.

Angela Stent é membro sênior não residente da Brookings Institution e ex-oficial de inteligência nacional dos EUA para a Rússia e a Eurásia. Ela é a autora do livro Putin's World: Russia Against the West and With the Rest.