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segunda-feira, 28 de março de 2022

As Pedras Estão Clamando: Uma perspectiva realista sobre a invasão russa na Ucrânia


“E, respondendo Ele, disse-lhes: Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão.” 
Lucas 19:40.

Após um mês de invasão russa na Ucrânia, entre muitas incertezas, ao menos um fato delineia-se de forma clara: a iniciativa de Vladimir Putin foi um enorme equívoco. Ampliou-se sobremaneira o afastamento russo em relação à Comunidade Internacional, com reflexos devastadores na economia de um país já combalido nessa área desde a queda da União Soviética, e as justificativas russas para a invasão foram rechaçadas de maneira acachapante na ONU e outros fóruns. Para piorar a situação, mesmo no plano militar, que seria, ao menos em tese, o mais promissor, os russos enfrentam dificuldades. A Operação Especial, como gostam de denominar, está demorando muito mais que o previsto por todos – incluindo o autor destas linhas –, consumindo recursos humanos e financeiros importantes. A consequente elevação do número de vítimas civis contribui para piorar a já péssima reputação de que goza o Kremlin.

Com tantos revezes nos aspectos político, econômico e militar, a pergunta que não quer calar é: O que levou Vladimir Putin a tomar uma decisão tão radical, com consequências potencialmente ruins para o seu próprio regime? O número de interpretações se avoluma em publicações diuturnas na imprensa. De palpiteiros a analistas de reconhecida competência, todos procuram decifrar o enigma da esfinge putinista, esgrimindo argumentos que vão do político ao psicológico. Poucos, porém, parecem confiar nas ferramentas do Realismo Clássico para a realização dessa tarefa, refletindo o esprit-du-temps no qual vivemos desde a queda do Muro. O realismo é encarado como algo demodê, superado.


Na opinião deste que vos escreve, os preconceitos de nossa época, embora naturais – todas as épocas os têm –, atrapalham o entendimento da questão. Se formos analisar a trajetória de Vladimir Putin, veremos que um traço comum de sua mentalidade é justamente o realismo político, tanto no plano interno quanto externo. O triunfalismo liberal que governa as mentes ocidentais, por essa razão, tem sido causa de muitos dos desacertos entre o Ocidente e a Rússia, como bem pontua John Mearsheimer [1], apesar de eu discordar de algumas de suas conclusões, por exemplo, quanto à absoluta responsabilidade do Ocidente pelo caso em tela. A responsabilidade de fato existe, mas é relativa.

Sim, têm razão os que, como Mearsheimer, afirmam que a Rússia foi sistematicamente alienada da Ordem Internacional pela política externa americana desde o fim da URSS. Legítimas preocupações de segurança do Estado russo foram ignoradas, mesmo em questões que diziam respeito à sua periferia histórica - vale relembrar o episódio em que Clinton comunica a invasão da Sérvia a Yeltsin não antes, e sim depois de a decisão ser unilateralmente tomada pelos EUA [2], ultrajando e humilhando um líder que sempre se mostrou disposto a cooperar com o Ocidente. Mas a Rússia é grande o suficiente para não ser tomada como um ator meramente passivo no tabuleiro internacional de poder: ela toma suas decisões e deve ser responsabilizada por elas. O ressentimento por três décadas de declínio explica muito da atual animosidade russa, porém não é justificativa suficiente para ações como a que se verifica agora na Ucrânia, sobretudo em se tratando de um dos garantes do Memorando de Budapeste, no qual se comprometeu a jamais atentar contra a soberania territorial do vizinho. Acordos a respeito de questões tão sensíveis existem para serem honrados.


As alegações russas, portanto, devem ser encaradas com uma dose saudável de ceticismo. Se a perspectiva de uma Ucrânia incorporada à União Européia é incômoda e a de uma admissão à OTAN inaceitável, nenhuma das duas se concretizou. O simples fato de os ucranianos elegerem um governo encarado como “pró-ocidental” é assunto interno de um país soberano, não devendo ser objeto de ingerência de qualquer natureza, a não ser que, e aqui quero começar minha contribuição com este texto, o objetivo russo não seja apenas reconstruir sua zona de influência no leste europeu, mas iniciar uma nova etapa de expansão imperial.

E por que diabos isso seria sequer desejável para a Rússia? Aos adeptos do liberalismo político isso não faz sentido, pois a era dos impérios é um passado a ser esquecido. No mundo pós-moderno, a interdependência comercial regularia os conflitos internacionais, tornando as guerras obsoletas e os impérios inviáveis. No lugar dos campos de batalha, teríamos a OMC (Organização Mundial do Comércio) e outras ‘Instituições’, bem ao sabor de Francis Fukuyama em O Fim da História. Ocorre que, feliz ou infelizmente, a história não acabou, tampouco as grandes nações deixaram de comportar-se como impérios: os EUA, campeões da nova ordem global, invadiram o Iraque, o Afeganistão e a Síria, além de protagonizarem diversas intervenções nos Bálcãs e no Oriente-Médio. Decerto não estavam nesses lugares para fazer caridade ou comércio, e sim para defender os interesses geopolíticos americanos na base da força. A globalização, tão celebrada e promovida pelas potências ocidentais, tem seus perdedores, podendo ser encarada como uma forma tão moderna quanto insidiosa de imperialismo, baseada na exploração das assimetrias de desenvolvimento regionais.


A Rússia é, com certeza, uma das perdedoras desse arranjo, e a maior entre os países considerados potências geopolíticas. Apesar de um saldo migratório positivo, consequência do influxo de migrantes russófonos das ex-repúblicas soviéticas, o país viu sua população decair em 4 milhões de habitantes de 1991 a 2021 devido ao declínio na natalidade [3], sendo as difíceis condições econômicas, a alta prevalência de vício em drogas e álcool e a desagregação familiar as principais causas. Nos anos 1990, o país vivia uma crise de identidade, tanto em relação a si quanto ao seu lugar no mundo. No plano interno, o governo Putin patrocinou uma verdadeira Renascença Ortodoxa, a fim de revitalizar as tradições erodidas pelas décadas de ateísmo de estado; em matéria de política externa, tratou de reconstruir a imagem de Rússia forte, alcançando relativo sucesso. As indústrias energética, bélica e alimentícia foram privilegiadas, reforçando o caráter pragmático da Administração Putin, que focou na produção de bens essenciais para a sobrevivência dos Estados.

Tais iniciativas, contudo, não foram capazes de evitar a estagnação econômica. Dados da série histórica do Banco Mundial apontam uma média de crescimento muito baixa no período entre 1990 e 2021, ou seja, a economia russa hoje é relativamente menor do que era ao final da URSS. Três décadas perdidas que cobraram seu preço na indústria militar: apesar de manter o status tecnológico de ponta, o orçamento de defesa russo tem, atualmente, tamanho similar ao de potências médias como Reino Unido e França [4]. Nesse ínterim, a China avançou de roldão sobre a Eurásia, tradicional área de influência: Cazaquistão, Quirguistão e Turcomenistão já possuem mais relações econômicas com a China do que com a Rússia, e a situação no Uzbequistão e no Tajiquistão evolui rapidamente no mesmo sentido. Astana aparece como parceiro preferencial dos chineses, destino de investimentos vultuosos no contexto da Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative – BRI)[5]. Se a expansão da OTAN e da União Européia a leste é incômoda para os russos, é lógico pensar que o mesmo se aplica a esses desenvolvimentos no subcontinente eurasiano, área que MacKinder costumava chamar de Pivô Geográfico da História.


E por que Moscou não verbaliza seu desconforto neste caso? Provavelmente por lhe faltar condições. A deterioração das relações com o ocidente fez de Pequim a única alternativa de parceria estratégica, o que não significa que essa relação não tenha suas tensões. A relação comercial Sino-Russa é desfavorável à última: enquanto aquela exporta produtos de valor agregado, esta comercializa majoritariamente matérias-primas. Espremida por dois imperialismos em expansão constante, é natural que a Rússia se sinta ameaçada. Mantidos tais padrões de desenvolvimento demográfico e econômico, não é nenhum exagero afirmar que existe um risco real de vassalização no médio prazo. Talvez seja a esse tipo de ameaça existencial que o Porta-Voz do Kremlin, Dmitry Peskov, se referiu em entrevista recente [6].

Minha tese é que esse impasse, mais do que qualquer condicionamento ideológico, psicológico ou político, leva a Rússia ao ataque. Incapazes de se adaptarem aos novos arranjos de domínio por meio das assimetrias de desenvolvimento e se vendo, eles mesmos, vítimas desses processos, os russos tratam de reconstruir seu Lebensraum (espaço vital) à moda antiga, a pontapés. E o observador atento notará que a tática não foi posta em prática agora, de sopetão, mas cuidadosamente preparada e implementada por meio de aproximações sucessivas. Geórgia (2008), Criméia (2014) e agora toda a Ucrânia - em cada uma das ocasiões o Kremlin testou a reação ocidental e progrediu em escala. Outra característica comum dessas incursões militares é que foram precedidas por momentos de alta nas cotações das principais commodities de exportação, reforçando o caixa com moeda forte, já prevendo sanções econômicas como reação.


Tudo leva a crer que a Rússia perdeu a confiança na capacidade de projetar-se por meios políticos. As tentativas de manutenção de sua esfera de influência geoestratégica foram malogradas, nos casos da CEI (Comunidade de Estados Independentes) e da OTSC (Organização do Tratado de Segurança Coletiva), por sua própria iniciativa: a Geórgia se retirou após a invasão da Abecásia e da Ossétia do Sul e a Ucrânia em 2018, por razões óbvias. Já a Comunidade Econômica Eurasiática, hoje União Econômica Eurasiática (UEE), não decola pela baixa performance econômica de seus membros. Com um tal histórico, fica difícil pensar em reversão do quadro por meios convencionais.

Resta, portanto, a força como último recurso. Se ela, sozinha, será suficiente para tornar a Rússia novamente competitiva na corrida das potências mundiais, eu duvido. Contudo, enquanto ela for capaz de reagir agressivamente a um declínio que parece cada vez mais inexorável, é certo que muitos danos serão causados à estabilidade mundial. E se a hipocrisia desta geração calar as poucas vozes capazes de declarar a verdade sobre a Política de Poder, não haverá problema: as ‘pedras’ da Realpolitik clamarão e far-se-ão ouvir, ainda que por meio de bombas e mísseis.

Éder Fonseca
23 de março de 2022


Notas

quinta-feira, 10 de março de 2022

VDV: A polícia de choque glorificada da Rússia


Por Kamil GaleevTwitter, 10 de março de 2022.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 10 de março de 2022.

Resumo: Os paraquedistas de "elite" são policiais de choque glorificados. Eles foram usados como tropas aerotransportadas apenas na Hungria em 1956 e na Tchecoslováquia em 1968. Na Ucrânia em 2022 eles esperavam desbaratar um motim, mas enfrentaram um exército regular e foram destruídos.

Como vai a guerra na Ucrânia? Hoje eles confirmaram a morte do major-general russo Suhovetsky. Ele é sem surpresa um paraquedista. Então, vamos discutir o papel dos paraquedistas na doutrina militar russa. Isso lançará uma luz sobre o curso desta guerra e por que a Rússia a perdeu.🧵

Major-General Andrei Sukhovetskiy.

Os paraquedistas têm um status mais lendário do que qualquer outra tropa na Rússia. Eles são uma força de elite que compõem a Reserva do Alto Comando Supremo. Eles devem liderar a ofensiva, sendo lançados atrás das linhas inimigas e mantendo o terreno antes que o resto do exército chegue.


Exceto que eles não são usados dessa maneira. Se você olhar para esta foto você vai entender o porquê. É muito fácil atirar em todos eles no ar antes que eles atinjam o chão. É por isso que em praticamente todos os conflitos - Afeganistão, Karabakh, Geórgia, Chechênia - eles foram usados como infantaria regular.

Desde a Segunda Guerra Mundial, houve apenas três casos em que os paraquedistas russos foram lançados sobre o inimigo pelo ar:

  • Hungria, 1956
  • Tchecoslováquia, 1968
  • Ucrânia, 2022

Portanto, os paraquedistas agem como paraquedistas apenas quando não esperam resistência de outro exército regular.


Os paraquedistas não são tão fortes. O poder de fogo de um regimento de paraquedistas de "elite" é muito mais fraco do que o de um regimento de infantaria "não-elite" regular. Eles não podem derrotar um exército. Mas eles não deveriam lutar contra um exército. Eles devem suprimir motins e rebeliões.


Todo o conceito dos paraquedistas russos do VDV faz todo o sentido se considerarmos que eles não são tanto soldados quanto a polícia de choque. Eles não precisam lutar contra outros exércitos regulares, eles precisam reprimir motins e protestos desorganizados.


Como os paraquedistas são as tropas de choque do regime, eles precisam parecer assustadores para assustar qualquer amotinado. Todo o seu status lendário é uma enorme Psyop (operação psicológica). Isso não é segredo, forças muito bem treinadas como as do GRU consideram esses caras fraudadores.



Por esta razão, os paraquedistas absolutamente precisam ser muito altos. A aptidão física não é suficiente, você precisa ser muito grande. Por quê? Porque eles precisam ser assustadores. Porque seu armamento principal é puramente psicológico. As pessoas deveriam ver esses caras grandes e perceber que a resistência não tem sentido.

Daí todo o status "lendário", mitologia e iconografia bem desenvolvidas. Não há outras tropas com simbologia tão desenvolvida tais como os paraquedistas. Considere este exemplo onde Elias, o Profeta, recebe uma boina de paraquedista azul.


Toneladas de músicas, visuais, etc. são dedicados aos paraquedistas, mais do que a qualquer outra tropa. Por quê? Novamente, porque VDV são tropas psyop e são impotentes sem uma mitologia completamente desenvolvida. Assim, o governo investe fortemente na construção dessa mitologia.


2 de agosto é o dia do VDV. Então, todos os anos, ex-paraquedistas (ou quem decidiu usar a camiseta e a boina azul claras) pulam nas fontes públicas.


... assediar civis.


... e a polícia. Pessoas comuns (ou soldados) receberiam longas penas de prisão por espancarem os policiais. Mas não os paraquedistas. Eles são tropas de choque do regime e o regime vai manter seu status de fodão. Eles são tão fodas porque eles têm total apoio do Estado.


É por isso que os paraquedistas de "elite" compõem a Reserva do Alto Comando Supremo. Não é uma reserva para uma grande guerra. Não. É uma reserva para reprimir motins na Rússia ou em países vizinhos. E isso é feito em grande parte através de psyops. Assim, eles trabalham duro para parecerem assustadores.


Quando a Rússia decidiu reprimir a insurreição no Cazaquistão no ano passado, enviou para lá sua glorificada polícia de choque - os paraquedistas. Vê as listras azuis claras em seus coletes? Apenas o VDV as usa.


Sejamos honestos, o Kremlin vê a Ucrânia como uma província rebelde. A própria existência deste país é um motim. E se você precisa reprimir um motim, você manda a polícia de choque. Então Putin enviou paraquedistas e eles foram completamente desbaratados; porque eles não esperavam uma resistência organizada.

Os paraquedistas russos foram usados como paraquedistas apenas durante a repressão da "revolta fascista" na Hungria em 1956 e na Tchecoslováquia em 1968. Por quê? Porque eles sabiam que não iriam enfrentar outro exército regular lá. Para que eles possam desencadear seu psyop sem temer as consequências.


Quando Putin invadiu a Ucrânia, ele pensou que estava reprimindo mais um motim no Leste Europeu. E enviou sua tropa de choque esperando que o exército ucraniano fugisse ou se rendesse. Mas isso não aconteceu. E uma vez que isso não aconteceu, toda a sua operação especial modelada no Redemoinho de 1956 ou o Danúbio de 1968 falhou.

Os paraquedistas deveriam assumir o controle das principais cidades e aglomerações logísticas, para que a ocupação do país pelo exército ocorresse sem problemas. Mas o exército ucraniano abriu fogo e eles falharam. E depois desse fracasso inicial, todo o plano foi quebrado.


O exemplo mais dramático desse fracasso foram os veículos russos presos na lama do início da primavera. Você vê que eles estão tentando colocar troncos de árvores sob suas rodas para desatolá-os. Parece bom, não funciona.


Putin esperava que o exército ucraniano se rendesse. Inesperadamente, não apenas o exército, mas até mesmo civis comuns a quem o governo deu armas começaram a atacar as linhas de suprimentos russas. A Rússia não planejou a guerra e simplesmente avançou com apenas um escalão do exército, então as linhas de suprimentos ficaram desprotegidas.
Como resultado, as colunas que avançaram ficaram sem combustível e simplesmente ficaram atolados nas estradas e nos campos. Essa é a explicação mais plausível para esta coluna russa simplesmente ficar em campo e ser filmada por civis.

A Blitzkrieg de Putin falhou porque não era uma Blitzkrieg. Blitzkrieg é uma operação de guerra contra um inimigo que luta. Mas a Rússia lançou uma operação especial esperando que os ucranianos se rendessem. É por isso que eles enviaram sua polícia de choque glorificada. Claro, eles foram batidos.


Eles enviaram apenas um escalão de tropas por terra. Eles queriam ocupar um país indefeso e não se importaram em cobrir suas linhas de abastecimento. Claro que eles foram cortados e agora milhares de veículos russos estão atolados sem combustível.

O plano de Putin falhou e é por isso que ele começou a escalar a violência. Aqui você vê um dormitório estudantil da universidade de Kharkiv após um bombardeio russo.

Ou bairros residenciais de Kiev.

A única questão é se os ucranianos serão capazes de se manter firmes até o iminente colapso econômico da Rússia. Vai acontecer muito mais cedo do que a maioria espera, vou escrever sobre isso amanhã de uma forma mais detalhada. De qualquer forma, o plano de Putin de uma operação especial falhou.

Ela falhou por dois motivos. Em primeiro lugar, depois de 2014, os ucranianos reconstruíram seu exército e seu Estado para o confronto iminente com a Rússia. Em segundo lugar, quando a Rússia finalmente atacou, os ucranianos não se caíram numa psyop vazia e não ficaram com medo. E se você não tem medo, psyop não funciona. Fim do tópico.🧵

E se a Rússia perder? Uma derrota para Moscou não será uma vitória clara para o Ocidente

Por Liana Fix e Michael Kimmage, Foreign Affairs, 4 de março de 2022.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 9 de março de 2022.

[Esse artigo é uma análise em duas partes. A outra pode ser lida aqui.]

O presidente russo, Vladimir Putin, cometeu um erro estratégico ao invadir a Ucrânia. Ele julgou mal o teor político do país, que não estava esperando para ser libertado pelos soldados russos. Ele julgou mal os Estados Unidos, a União Européia e vários países - incluindo Austrália, Japão, Cingapura e Coréia do Sul - todos os quais eram capazes de ação coletiva antes da guerra e todos agora estão empenhados na derrota da Rússia na Ucrânia. Os Estados Unidos e seus aliados e parceiros estão impondo altos custos a Moscou. Toda guerra é uma batalha pela opinião pública, e a guerra de Putin na Ucrânia – em uma era de imagens da mídia de massa – associou a Rússia a um ataque não provocado a um vizinho pacífico, ao sofrimento humanitário em massa e a múltiplos crimes de guerra. A cada passo, a indignação resultante será um obstáculo para a política externa russa no futuro.

Protestando contra a guerra em Helsinque, Finlândia, março de 2022.

Não menos significativo do que o erro estratégico de Putin foram os erros táticos do exército russo. Tendo em conta os desafios da avaliação nos estágios iniciais de uma guerra, pode-se dizer com certeza que o planejamento e a logística russos foram inadequados e que a falta de informação dada aos soldados e até mesmo aos oficiais nos escalões superiores foi devastadora para o moral. A guerra deveria terminar rapidamente, com um relâmpago que decapitaria o governo ucraniano ou o obrigaria a se render, após o que Moscou imporia neutralidade à Ucrânia ou estabeleceria uma suserania russa sobre o país. Violência mínima pode ter igualado sanções mínimas. Se o governo tivesse caído rapidamente, Putin poderia ter alegado que estava certo o tempo todo: porque a Ucrânia não estava disposta ou capaz de se defender, não era um país real – exatamente como ele havia dito.

Mas Putin será incapaz de vencer esta guerra em seus termos preferidos. De fato, existem várias maneiras pelas quais ele poderia perder. Ele poderia atolar seus militares em uma ocupação dispendiosa e fútil da Ucrânia, dizimando o moral dos soldados da Rússia, consumindo recursos e entregando nada em troca, mas o anel vazio da grandeza russa e um país vizinho reduzido à pobreza e ao caos. Ele poderia criar algum grau de controle sobre partes do leste e sul da Ucrânia e provavelmente Kiev, enquanto lutava contra uma insurgência ucraniana operando a partir do oeste e se engajando em guerrilhas em todo o país – um cenário que seria uma reminiscência da guerra partisan que ocorreu em Ucrânia durante a Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo, ele presidiria a gradual degradação econômica da Rússia, seu crescente isolamento e sua crescente incapacidade de suprir a riqueza de que dependem as grandes potências. E, consequentemente, Putin pode perder o apoio do povo e das elites russas, de quem ele depende para continuar a guerra e manter seu poder, mesmo que a Rússia não seja uma democracia.

Ilustração de um assalto à baioneta na Guerra Russo-Japonesa 1904-05.

Putin parece estar tentando restabelecer alguma forma de imperialismo russo. Mas ao fazer essa aposta extraordinária, ele parece não ter se lembrado dos eventos que desencadearam o fim do império russo. O último czar russo, Nicolau II, perdeu uma guerra contra o Japão em 1905. Mais tarde, ele foi vítima da Revolução Bolchevique, perdendo não apenas sua coroa, mas sua vida. A lição: governantes autocráticos não podem perder guerras e permanecer autocratas.

Nesta guerra, não há vencedores

É improvável que Putin perca a guerra na Ucrânia no campo de batalha. Mas ele pode perder quando a luta terminar e a pergunta se tornar: E agora? As consequências não intencionais e subestimadas desta guerra sem sentido serão difíceis para a Rússia suportar. E a falta de planejamento político para o dia seguinte – comparável aos fracassos de planejamento da invasão do Iraque pelos EUA – fará sua parte para tornar esta guerra invencível.

A Ucrânia não poderá fazer recuar os militares russos em solo ucraniano. As forças armadas russas estão em outra liga daquela da Ucrânia, e a Rússia é, obviamente, uma potência nuclear, enquanto a Ucrânia não é. Até agora, os militares ucranianos lutaram com determinação e habilidade admiráveis, mas o verdadeiro obstáculo aos avanços russos tem sido a própria natureza da guerra. Por meio de bombardeios aéreos e ataques de mísseis, a Rússia poderia nivelar as cidades da Ucrânia, alcançando assim o domínio sobre o espaço de batalha. Poderia tentar um uso em pequena escala de armas nucleares com o mesmo efeito. Caso Putin tome essa decisão, não há nada no sistema russo que possa detê-lo. “Eles fizeram um deserto”, escreveu o historiador romano Tácito sobre as táticas de guerra de Roma, atribuindo as palavras ao líder de guerra britânico Calgacus, “e chamaram isso de paz”. Essa é uma opção para Putin na Ucrânia.

Paraquedistas franceses contendo uma manifestação civil em Argel.

Mesmo assim, ele não seria capaz de simplesmente se afastar do deserto. Putin travou uma guerra por causa de uma zona-tampão controlada pela Rússia entre ele e a ordem de segurança liderada pelos EUA na Europa. Ele não poderia evitar erigir uma estrutura política para atingir seus objetivos e manter algum grau de ordem na Ucrânia. Mas a população ucraniana já demonstrou que não deseja ser ocupada. Resistirá ferozmente – por meio de atos diários de resistência e por meio de uma insurgência na Ucrânia ou contra um regime fantoche do leste da Ucrânia estabelecido pelo exército russo. A analogia da guerra da Argélia de 1954-62 contra a França vem à mente. A França era o poder militar superior. No entanto, os argelinos encontraram maneiras de exaurir o exército francês e minar o apoio em Paris para a guerra.

Ocupar a Ucrânia seria incalculavelmente caro.

Talvez Putin possa montar um governo fantoche com Kiev como capital, uma Ucrânia de Vichy. Talvez ele possa reunir o apoio necessário da polícia secreta para subjugar a população desta colônia russa. A Bielorrússia é um exemplo de país que segue um regime autocrático, repressão policial e o apoio dos militares russos. É um modelo possível para uma Ucrânia oriental governada pela Rússia. Na realidade, porém, é um modelo apenas no papel. Uma Ucrânia russificada pode existir como uma fantasia administrativa em Moscou, e os governos certamente são capazes de agir de acordo com suas fantasias administrativas. Mas nunca poderia funcionar na prática, devido ao tamanho da Ucrânia e à história recente do país.

Em seus discursos sobre a Ucrânia, Putin parece perdido em meados do século XX. Ele está preocupado com o nacionalismo germanófilo ucraniano da década de 1940. Daí suas muitas referências aos nazistas ucranianos e seu objetivo declarado de “desnazificar” a Ucrânia. A Ucrânia tem elementos políticos de extrema-direita. O que Putin não consegue ver ou ignora, no entanto, é o sentimento muito mais popular e muito mais potente de pertencimento nacional que surgiu na Ucrânia desde que reivindicou a independência da União Soviética em 1991. A resposta militar da Rússia à revolução Maidan de 2014 na Ucrânia, que varreu um governo corrupto pró-Rússia, foi um estímulo adicional a esse sentimento de pertencimento nacional. Desde que a invasão russa começou, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky tem sido perfeito em seus apelos ao nacionalismo ucraniano. Uma ocupação russa expandiria o senso de nacionalidade da política ucraniana, em parte criando muitos mártires para a causa – como a ocupação da Polônia pela Rússia imperial fez no século XIX.

Para funcionar, então, a ocupação teria que ser um empreendimento político maciço, ocorrendo em pelo menos metade do território da Ucrânia. Seria incalculavelmente caro. Talvez Putin tenha em mente algo como o Pacto de Varsóvia, através do qual a União Soviética governou muitos estados-nação europeus diferentes. Isso também era caro - mas não tão caro quanto controlar uma zona de rebelião interna, armada até os dentes por seus muitos parceiros estrangeiros e à procura de qualquer vulnerabilidade russa. Tal esforço drenaria o tesouro da Rússia.

O horror desta guerra vai sair pela culatra em Putin.

Enquanto isso, as sanções que os Estados Unidos e os países europeus impuseram à Rússia resultarão em uma separação da Rússia da economia global. O investimento externo cairá. O capital será muito mais difícil de adquirir. As transferências de tecnologia vão secar. Os mercados fecharão para a Rússia, possivelmente incluindo os mercados de gás e petróleo, cuja venda foi crucial para a modernização da economia russa por Putin. O talento comercial e empresarial sairá da Rússia. O efeito a longo prazo dessas transições é previsível. Como argumentou o historiador Paul Kennedy em A Ascensão e Queda das Grandes Potências, esses países têm a tendência de travar as guerras erradas, de assumir encargos financeiros e, assim, privar-se do crescimento econômico — a força vital de uma grande potência. No caso improvável de que a Rússia pudesse subjugar a Ucrânia, ela também poderia se arruinar no processo.

Uma variável chave nas consequências desta guerra é o público russo. A política externa de Putin foi popular no passado. Na Rússia, a anexação da Crimeia foi muito popular. A assertividade geral de Putin não agrada a todos os russos, mas agrada a muitos. Isso também pode continuar sendo o caso nos primeiros meses da guerra de Putin na Ucrânia. As baixas russas serão lamentadas e também criarão um incentivo, como todas as guerras, para tornar as baixas propositais, para prosseguir com a guerra e a propaganda. Uma tentativa global de isolar a Rússia pode sair pela culatra ao isolar o mundo exterior, deixando os russos basearem sua identidade nacional em queixas e ressentimentos.

Mais provável, porém, é que o horror desta guerra se volte contra Putin. Os russos não foram às ruas para protestar contra os bombardeios russos de Aleppo, na Síria, em 2016 e a catástrofe humanitária que as forças russas incitaram no curso da guerra civil daquele país. Mas a Ucrânia tem um significado totalmente diferente para os russos. Existem milhões de famílias russo-ucranianas interligadas. Os dois países compartilham laços culturais, linguísticos e religiosos. Informações sobre o que está acontecendo na Ucrânia chegarão à Rússia através das mídias sociais e outros canais, refutando a propaganda e desacreditando os propagandistas. Este é um dilema ético que Putin não pode resolver apenas pela repressão. A repressão também pode sair pela culatra por si só. Muitas vezes saiu na história russa: basta perguntar aos soviéticos.

Causa perdida

As consequências de uma perda russa na Ucrânia apresentariam à Europa e aos Estados Unidos desafios fundamentais. Assumindo que a Rússia será forçada a se retirar um dia, reconstruir a Ucrânia, com o objetivo político de recebê-la na UE e na OTAN, será uma tarefa de proporções hercúleas. E o Ocidente não deve falhar novamente com a Ucrânia. Alternativamente, uma forma fraca de controle russo sobre a Ucrânia pode significar uma área fraturada e desestabilizada de combates contínuos com estruturas de governança limitadas ou inexistentes a leste da fronteira da OTAN. A catástrofe humanitária seria diferente de tudo que a Europa viu em décadas.

Não menos preocupante é a perspectiva de uma Rússia enfraquecida e humilhada, abrigando impulsos revanchistas semelhantes aos que apodreceram na Alemanha após a Primeira Guerra Mundial. Se Putin mantiver o poder, a Rússia se tornará um Estado pária, uma superpotência rebelde com forças militares convencionais castigadas, mas com seu arsenal nuclear intacto. A culpa e a mancha da guerra na Ucrânia permanecerão com a política russa por décadas; raro é o país que lucra com uma guerra perdida. A futilidade dos custos gastos em uma guerra perdida, o custo humano e o declínio geopolítico definirão o curso da Rússia e da política externa russa por muitos anos, e será muito difícil imaginar uma Rússia liberal emergindo após os horrores desta guerra.

Mesmo que Putin perca o controle sobre a Rússia, é improvável que o país emerja como uma democracia pró-ocidente. Poderia se separar, especialmente no norte do Cáucaso. Ou pode se tornar uma ditadura militar com armas nucleares. Os formuladores de políticas não estariam errados em esperar por uma Rússia melhor e pelo tempo em que uma Rússia pós-Putin pudesse ser genuinamente integrada à Europa; eles devem fazer o que puderem para permitir essa eventualidade, mesmo resistindo à guerra de Putin. Eles seriam tolos, no entanto, de não se prepararem para possibilidades mais sombrias.

A história mostrou que é imensamente difícil construir uma ordem internacional estável com um poder revanchista e humilhado perto de seu centro, especialmente um do tamanho e peso da Rússia. Para fazer isso, o Ocidente teria que adotar uma abordagem de isolamento e contenção contínuos. Manter a Rússia e os Estados Unidos dentro se tornaria a prioridade para a Europa em tal cenário, já que a Europa terá que arcar com o principal ônus de administrar uma Rússia isolada após uma guerra perdida na Ucrânia; Washington, por sua vez, gostaria de finalmente se concentrar na China. A China, por sua vez, poderia tentar fortalecer sua influência sobre uma Rússia enfraquecida – levando exatamente ao tipo de construção de bloco e domínio chinês que o Ocidente queria impedir no início da década de 2020.

Pagar qualquer preço?

Ninguém dentro ou fora da Rússia deve querer que Putin ganhe sua guerra na Ucrânia. É melhor que ele perca. No entanto, uma derrota russa ofereceria poucos motivos para comemoração. Se a Rússia cessasse sua invasão, a violência já infligida à Ucrânia seria um trauma que perduraria por gerações; e a Rússia não cessará sua invasão tão cedo. Os Estados Unidos e a Europa devem se concentrar em explorar os erros de Putin, não apenas fortalecendo a aliança transatlântica e incentivando os europeus a agir em seu desejo há muito articulado de soberania estratégica, mas também transmitindo à China as lições geminadas do fracasso da Rússia: desafiar as normas internacionais , como a soberania dos Estados, vem com custos reais, e o aventureirismo militar enfraquece os países que o praticam.

Se os Estados Unidos e a Europa puderem um dia ajudar a restaurar a soberania ucraniana, e se puderem simultaneamente empurrar a Rússia e a China para um entendimento compartilhado da ordem internacional, o maior erro de Putin se transformará em uma oportunidade para o Ocidente. Mas terá vindo a um preço incrivelmente alto.

quarta-feira, 9 de março de 2022

A transformação na Rússia, por Kamil Galeev


Por Kamil GaleevTwitter, 9 de março de 2022.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 9 de março de 2022.

Vamos discutir o que está acontecendo na Rússia. Simplificando, ela está ficando totalmente fascista. As autoridades lançaram uma campanha de propaganda para ganhar apoio popular para a invasão da Ucrânia e estão conseguindo muito apoio. Você pode ver o "Z" nas roupas desses caras. O que isto significa? 🧵


"Z" é uma letra que os militares russos estão colocando em seus veículos que partem para a Ucrânia. Alguns interpretam o "Z" como "Za pobedy" (pela vitória). Outros - como "Zapad" (Oeste). De qualquer forma, este símbolo inventado há apenas alguns dias tornou-se um símbolo da nova ideologia e identidade nacional russas.


[O símbolo] encontrou muitos adeptos. Muitos russos estão colocando "Z" em seus carros - isso é totalmente voluntário e, que eu saiba, ninguém os está forçando.


Os empresários colocam "Z" - mostrando seu apoio à invasão em seus caminhões. Aqui você vê um serviço funerário endossando totalmente a mensagem Z.


Militares russos fazem letras Z com distintivos de soldados ucranianos mortos.


Aqui você vê crianças doentes terminais do hospital e seus pais fazendo uma formação Z. Sim, os russos estão forçando crianças com doenças terminais que morrem de câncer e suas famílias a declarar seu apoio à invasão russa da Ucrânia. Vê cartas Детский хоспис? Hospital Infantil.


E é claro que tudo isso está sendo feito em nome da Igreja Ortodoxa Russa. Bombardeio de bairros residenciais, bombardeios em tapete, lançamento de mísseis balísticos sobre cidades ucranianas. Tudo em nome da Ortodoxia.


Alguns argumentam que o povo russo não apoia essa invasão e isso é responsabilidade de Putin. Sim, a decisão foi tomada por Putin e foi uma surpresa até para seus ministros. Mas uma vez que foi tomada, encontrou enorme apoio popular. As pessoas estão torcendo, estão orgulhosas e entusiasmadas.


A mídia russa e as contas de mídia social que defendem a invasão geralmente colocam Z em seus nomes ou logotipos. É assim que você pode detectá-los.


Esses canais Z e bots Z no Telegram fazem muito trabalho para a inteligência russa. Por exemplo, através deste bot RSOTM_Z_BOT, pode-se informar aos russos sobre a localização e o movimento das tropas ucranianas. É assim que os russos coletam informações.


Através do Telegram, os russos coletam informações sobre militares ucranianos, sobre as tropas de defesa territorial. Eles serão usados pelo "levante popular" (=colaboradores pró-russos) para matar patriotas ucranianos e suas famílias assim que os russos tomarem sua cidade (eu borrei informações pessoais).


Há todo um ecossistema de canais de inteligência russos, grupos, bots. Alguns coletam dados sobre o movimento das tropas ucranianas, outros - informações pessoais de combatentes ucranianos para matá-los mais tarde. Eu fiz uma "lista Z" muito, muito incompleta aqui (LINK). Existem *muitos* mais.

Pavel Durov (@durov) proprietário do Telegram há muito tempo colabora com a segurança estatal russa. Ao gerenciar o Vkontakte, ele daria informações pessoais da oposição ao FSB. Ele provavelmente está ajudando a Rússia agora. Pressione-o. Ele agora é um cidadão francês + Saint Kitts e Nevis que vive em Dubai.


Putin tomou a decisão de iniciar esta guerra. Mas ele obteve um amplo apoio do povo russo. Ninguém os está forçando a participar dessas demonstrações de apoio, eles poderiam ignorá-las totalmente. Mas eles aplaudem. Eles torcem, porque se sentem bem, se sentem orgulhosos. A Rússia tornou-se grande novamente.

As redes sociais russas também estão aplaudindo. Aqui você vê um vídeo viral: gravação de cidades ucranianas sendo bombardeadas, de ucranianos mortos por bombas russas, combinado com um áudio de sermão da igreja, cantando anátema. A Rússia está lançando uma cruzada ortodoxa e massacrando ucranianos.

Vibe diferente, mesma mensagem. Garotas russas cantando como Deus apoia a Rússia em seu santo esforço de limpar a Ucrânia.


"O Donbass é nosso", por M. Lisovina e N. Kachura


Os russos étnicos no exterior também estão aplaudindo. Aqui você vê russos no Cazaquistão colocando Z em seus carros, enquanto mísseis balísticos russos destroem bairros residenciais ucranianos. Quando confrontados pelos cazaques, eles reclamam da russofobia, é claro.


Enquanto isso, os russos estão no modo completo da Síria na Ucrânia. É assim que a cidade ucraniana de Chernihiv se perde após o ataque de bombardeiros russos. Prédios residenciais queimados com todas as pessoas que moravam lá. Detritos e cadáveres jazem no que costumava ser as ruas da cidade.

Isso não é surpreendente. Aqui você vê um major russo, um piloto de bombardeiro cujo jato foi derrubado e ele foi capturado pelos militares ucranianos.


E aqui você o vê na Síria na companhia de Putin e Bashar al-Assad. Os mesmos militares russos que lutaram na Síria agora lutam na Ucrânia e usam os mesmos métodos de bombardeios em carpete indiscriminados. O que aconteceu em Aleppo está acontecendo em Chernihiv agora.


Felizmente, enquanto os sírios estavam completamente indefesos contra os jatos russos que os bombardeavam, os ucranianos têm alguma defesa antiaérea. Aqui você vê um jato russo caindo e pilotos sendo catapultados para fora dele.

Felizmente, o plano de guerra russo falhou. Esse é um meme russo de meados de fevereiro - programação dos paraquedistas:

  • 08:00 café da manhã
  • 09:00 invasão da Ucrânia
  • 12:00 almoço
  • 13:00 captura de Kiev
  • 18:00 concerto

V. Putin.

Isso é um meme, mas refletiu uma convicção de que os ucranianos não lutariam.


Essa convicção foi compartilhada por todos os tipos de colaboradores russos em todo o Ocidente. A Ucrânia é um país falso, é uma província russa, é claro que seu povo vai parar de fingir e apenas se ajoelhar no momento em que as primeiras tropas russas entrarem em seu país.

"A OTAN está enganada se eles pensam que uma ofensiva russa seria respondida com resistência pela Ucrânia. A maioria dos soldados ucranianos irá abaixar suas armas e se unir aos russos antes de atirar em um irmão. O ocidente jamais entenderá a ligação cultura entre russos e ucranianos."

Putin compartilhou essa crença. É por isso que ele enviou os paraquedistas. Esses caras "lendários" da VDV não são soldados, são policiais de choque glorificados. Valentões, promovidos e apoiados pelo Estado. Toda a sua estratégia é parecerem assustadores e violentos para que as pessoas parem de resistir.


Rússia: Ativista gay é atacado por paraquedistas no seu feriado nacional, o Dia das Forças Aerotransportadas


Surpreendentemente para eles, os ucranianos de fato abriram fogo. Isto foi o que restou das tropas aerotransportadas russas que desembarcaram no aeroporto de Hostomel, perto de Kiev. Todo o plano deles era que os ucranianos fugiriam ou se renderiam. Mas eles lutaram de volta.

E depois que eles reagiram, os russos tiveram que começar a se mobilizar. Aqui você vê um soldado ucraniano com uma camiseta do СОБР (SOBR) tirada de um invasor russo. Muitas vezes é mal interpretada como uma camisa de algum soldado "spetsnaz de elite". Besteira. Os СОБР não são soldados, são policiais.


Os СОБР são a parte da guarda nacional russa destinada a "combater o crime organizado" (e reprimir protestos, é claro). São policiais guerreiros destinados a lutar com adversários desarmados ou mal armados e desorganizados. Eles não deveriam lutar em uma guerra real contra um exército regular.


E por que a Rússia estaria enviando policiais para a Ucrânia? Bem, ela está ficando sem gente. O primeiro escalão da invasão não tinha ideia para onde estava indo e por quê. Muitos pensaram que os ucranianos simplesmente se renderiam e teriam boas férias no exterior. Eles imaginavam a guerra assim:

"Os russos chegaram!
#SimVitória"

Mas uma vez que eles perceberam que haveria resistência e que a guerra se pareceria com isso [soldados e veículos carbonizados], seu entusiasmo começou a diminuir. O que significa que será muito mais difícil encontrar novos voluntários para lutar na Ucrânia. Mas você precisa deles. O que você vai fazer?

Bem, a propaganda russa dá uma resposta. Eles estão gravando vídeos com explicações de que não vão lançar mobilização e convocar pessoas à força. Eles dão muitos argumentos porque eles não precisam disso. O que significa que eles absolutamente vão. Eles já estão se preparando.

Essa é uma ordem de um diretor de escola profissionalizante para adolescentes em Moscou. Ela coleta informações sobre todos os estudantes do sexo masculino, incluindo seu endereço residencial e o nome do comissariado militar (estação de recrutamento) em que estão registrados. Se eles não estiverem registrados para o serviço militar, explique a razão por trás disso.


A Rússia prepara uma mobilização em massa de adolescentes para enviá-los à Ucrânia. Há problemas no entanto. Primeiro, os adolescentes pretendiam evitar o recrutamento mesmo durante a paz. Segundo, não há tantos adolescentes na Rússia. O país está se despovoando rapidamente, especialmente seu coração étnico russo.

Demografia na Rússia.

Então, o que você vai fazer? Primeiro, mobilizar os asiáticos centrais. Muitos imigrantes adquiriram a cidadania russa legalmente ou por meio de esquemas obscuros. Agora as autoridades tentam persuadi-los/pressioná-los a se juntarem ao exército. Eles não conhecem muito a lei russa e podem até não entender seus direitos.


A maioria dos imigrantes da Ásia Central não possui cidadania russa e isso cria um problema legal. Tecnicamente, eles não podem servir no Exército Russo. Então eles estão enganando-os para se juntarem aos exércitos das Repúblicas Populares de Donetsk e Luhansk através da oferta de passaporte russo.

Bandeira da República Popular de Luhansk diante duma estátua de Lênin.

Mas a Rússia tem reservas demográficas. Considere um discurso recente de Putin.

"Sou russo, só tenho Ivans e Marias na minha família. Mas quando ouço falar de heroísmo nesta guerra, quero dizer: sou daguestanês, sou checheno, sou inguche, tártaro, judeu, mordva."

Putin de repente virando lacrador?


Nope. Se você olhar para o mapa demográfico da Rússia, faz todo o sentido. Ele diz 1) Eu sou daguestanês 2) Eu sou checheno 3) Eu sou inguche. Olhe onde eles estão localizados - eu circulei. Esta é uma região com alta fertilidade natural e, portanto, abundância de homens jovens para enviar à guerra.

Crescimento populacional na Rússia,
1999-2000.

Putin mostra um pensamento verdadeiramente empreendedor, mentalidade de startup. Se ele puder encontrar recursos demográficos no Cáucaso, ele os atrairá, tramará, persuadirá a lutar suas guerras e usará qualquer propaganda necessária. Mesmo que vá contra suas reais convicções - o etno-nacionalismo russo.

Parada militar da Brigada Kadyrov.
A bandeira portada é a da República da Chechênia.

A Chechênia tem um lugar especial na ordem de Putin. É um reino vassalo com exército independente. Você vê como as tropas de Kadyrov têm que fazer um juramento pessoal de fidelidade a Kadyrov. No papel, eles poderiam ser alistados no "exército russo", "polícia" etc. Besteira. Esse é o exército pessoal de Kadyrov.


Quando a derrota chechena em uma guerra contra a Rússia ficou clara, muitos ex-rebeldes mudaram para o lado do Putin. Incluindo Kadyrov. Kadyrov rapidamente fez carreira, pacificando a Chechênia e submetendo-a à vontade de Putin por todos os meios necessários.

Cidade chechena destruída.

Kadyrov e seus capangas, como Patriot (à esquerda), lançaram um reinado de terror. Muitos foram mortos por desobediência. Muitos foram mortos aleatoriamente. Patriot viria a uma vila, escolheria caras aleatórios e atiraria neles como terroristas. Apenas para mostrar que ele pode e ganhar prêmios por sua Guerra ao Terror.

Patriot e Kadyrov.

E, no entanto, a verdadeira referência do regime de Kadyrov foi a garrafa. Eles capturaram um autor checheno do canal anti-Kadyrov do Telegram, forçaram-no a sentar em uma garrafa, gravaram e distribuíram nas mídias sociais. Quebrar tabus religiosos e tradicionais visava mostrar o poder de Kadyrov.


Mas era um ponto sem volta. Kadyrov fez muitos inimigos entre outros chechenos. E sua cultura os obriga a se vingar. Mesmo agora, Kadyrov toma muitas precauções. Seus vastos palácios com fossos e paredes são guardados como os de Putin - e ele nunca dorme fora deles.


Isso explica as relações especiais entre Putin e Kadyrov. Considere como ele fala com Kadyrov e com generais russos - Shoygu, etc. Ele não confia totalmente em seus generais, porque eles ainda podem ter uma saída. Kadyrov não podia. Ele está amarrado pelo sangue. Se Putin cair, ele morre lentamente.


A querida amizade entre Putin e Kadyrov já os tornou heróis na China. De fato, nesta guerra, a "opinião pública" chinesa (leia-se, propaganda estatal) inequivocamente tomou o lado russo. O Ocidente agora enfrenta uma aliança sino-russa de fato, você deveria estar delirando para ignorá-la.


A polícia chinesa já está abordando os ucranianos que vivem na China. A China não quer uma "desescalada". Quer escalada e vê a Ucrânia como uma potência inimiga, pertencente ao campo oposto.


Isso é totalmente compreensível. A China está agora lançando a sua enorme campanha belicista. Em 2021, eles produziram o filme chinês mais caro de todos os tempos, A Batalha do Lago Changjin, sobre a batalha da Guerra da Coréia contra os EUA.

A Batalha do Lago Changjin.

Se você assistir a filmes chineses recentes, como O Lobo Guerreiro, verá que a China está preparando sua opinião pública para a guerra com os Estados Unidos. A China pode não dizer isso aos EUA, mas eles estão absolutamente dizendo isso aos seus cidadãos. Você não pode se enganar quanto a isso.

Última luta do filme Lobo Guerreiro 2: O herói chinês enfrenta o vilão americano


Lobo Guerreiro 2.

E, claro, a Rússia estará reorientando sua economia para a China. Venderá seus recursos naturais para a China a preços de dumping (abaixo do preço de produção), comprará tecnologias chinesas a preços altos. Como a China é a única grande potência industrial que concordará em negociar com a Rússia, os chineses usarão totalmente sua vantagem.


Esta aliança não beneficiará a Rússia. Mas permitirá que a China compre recursos russos a preços de dumping. Também forçará os russos a usar tecnologias chinesas e ingressar nos ecossistemas chineses. Como os principais bancos russos já estão mudando para o Union Pay do Visa e Mastercard.


Como resultado, a posição da China no confronto com os EUA, que é inevitável, será muito, muito mais forte. Desde que o regime russo ainda exista. O problema com a integração sino-russa não é que seja impossível, mas que leva tempo. Há muitas coisas neste mundo que levam tempo, não importa o quão urgente você precise delas. Você não pode ter um bebê em um mês, mesmo que engravide nove mulheres. Ainda demora 9 meses. O mesmo ocorre com a integração econômica.

Agora, a maior parte da indústria russa usa máquinas ocidentais, tecnologias ocidentais, produtos de TI ocidentais. Está integrada aos ecossistemas e cadeias produtivas ocidentais. Poderia ela potencialmente se integrar aos chineses? Provavelmente sim. Mas leva tempo, muito tempo. A Rússia tem tempo? A Rússia não está indo bem. Primeiro, seu plano inicial de guerra falhou. Idiotas que publicam mapas impressionantes do avanço russo e afirmam que a Rússia está vencendo esquecem que as guerras não são lançadas para objetivos militares. Elas são lançadas para objetivos políticos. Quais eram os objetivos políticos de Putin? Bem, isso está claro. Derrubada do poder ucraniano existente e tomada do poder político. As forças invasoras russas incluíam toneladas de "politruks" que tiveram que assumir o poder e se tornar a nova administração que preparava a Ucrânia para a iminente anexação à Mãe Pátria.

Esses politruks podem ser russos ou funcionários do governo de Yanukovich, que deixaram a Ucrânia após a derrubada do presidente pró-russo em 2014. Alguns deles eram do governo pró-russo do Donbass. Outros - simplesmente nacionalistas russos. Vamos considerar um deles, Dimitriev. Igor Dimitriev é de Odessa, Ucrânia. Em 2014, os nacionalistas russos tentaram lançar a tomada política sobre grande parte do leste e sul da Ucrânia. No Donbass eles conseguiram por causa da invasão russa. Em Kharkiv, Odessa etc eles foram massacrados ou obrigados a sair. Dimitriev partiu para a Rússia.

Igor Dimitriev.

Na Rússia, ele cooperou com inteligência e segurança estatais, supostamente trabalhando na Síria e em outros teatros. Mas ele estava se preparando para retornar à Ucrânia triunfante, se vingar e assumir o poder. Ele esperou por 8 anos, constantemente escrevendo sobre isso em seu canal Telegram. Em 2022, ele teve uma chance. Ele veio com um vitorioso, como ele pensava, Exército Russo e acreditava sinceramente que os habitantes locais os saudariam como libertadores. Em vez disso, os ucranianos abriram fogo e recusaram qualquer cooperação com os invasores russos. Ele ficou chocado. Outros politruks também ficaram chocados. Apenas duas semanas se passaram desde a invasão russa, e todos esses politruks já voltaram para a Rússia. Por quê? Porque o plano falhou. Ninguém os saudava como libertadores, ninguém os ouvia, os ucranianos os viam como traidores. A suposição da russianidade ucraniana estava errada.

Esse cara é especialmente engraçado, porque ele renomeou seu canal Telegram e agora está limpando-o diligentemente de qualquer conteúdo incriminador. Isso é compreensível, sua situação é especialmente ruim, porque ele é uma pessoa pública. Mas todos esses colaboradores estão agora em choque e descrença. Grande parte da administração russa também está em choque. Os mesmos funcionários que há apenas uma semana alegaram (em conversa privada) que Kiev seria tomada em um ou dois dias, agora buscam silenciosamente a saída. É muito importante entender. Putin não tem uma saída, mas autoridades de médio escalão podem ter.

Eles estão tão perdidos não apenas porque a suposição de que os ucranianos simplesmente abraçariam a Rússia estava errada. Eles estão perdidos porque não esperavam um regime de sanções tão forte e agora a economia russa está enfrentando um colapso iminente.

A Rússia tem produção industrial, mas não tem cadeias tecnológicas independentes. Eles estão intimamente integrados com os mercados ocidentais. As fábricas trabalham em máquinas ocidentais com tecnologias ocidentais, usando TI ocidental, etc. Você não pode simplesmente mudar para a China da noite para o dia.

Os primeiros sinais de colapso já são visíveis. A Avtovaz, a maior fábrica de automóveis russa em Tolyatti, interrompeu a produção por "falta de detalhes eletrônicos". Uma fábrica petroquímica em Nizhnekamsk está em greve porque a hiperinflação destruiu os salários. E a inflação só vai subir.

Sejamos honestos, todos os russos um pouco inteligentes entendem o que virá a seguir. É por isso que a Rússia enfrenta agora a maior fuga de cérebros da era Putin. No geral, quem pode sair, sai. Tbilisi, Yerevan, Baku já estão inundadas por refugiados russos, a Ásia Central também está sendo inundada. Nas redes sociais, eles já perceberam a ironia: os russos agora estão pesquisando no Google as leis de imigração do Cazaquistão, a vida no Quirguistão, como se mudar para o Uzbequistão. Isso soa como o mundo invertido. Um mês atrás, os asiáticos centrais queriam se mudar para a Rússia, agora é o contrário.


No Kremlin eles sabem disso. É por isso que apenas quatro dias atrás Putin diminuiu os impostos sobre TI e, o mais importante, os liberou do alistamento. Putin sabe do que eles têm medo. Mas honestamente isso não vai ajudar. A Rússia enfrenta agora enormes perdas de capital humano, seus melhores engenheiros.


Eu mesmo sei. Muitos do meu círculo social acabaram de se mudar para o Uzbequistão. Por que para o Uzbequistão? Porque esse era o único destino onde você podia voar barato. Veja os preços dos vôos Moscou-Tbilisi. Mais de 1.000 dólares, enquanto normalmente custava 100. Isso é um êxodo.


Meu próximo tópico será sobre a economia russa com foco específico em sua dependência tecnológica e na política de sanções mais eficiente. Por enquanto quero resumir:
  • A Rússia está se tornando totalmente nazista.
  • O regime deve estar quebrado. Se não estiver quebrado, a China terá seu melhor e mais devotado aliado.
  • O regime absolutamente pode ser quebrado, e sanções bem projetadas contribuirão muito para isso. Eles já estão fazendo seu trabalho - fábricas estão parando a produção, trabalhadores deixando seus empregos por causa da inflação. A Rússia já enfrenta um ponto de falha.
  • Muitos oficiais de médio escalão estão muito chocados, com muito medo, muito desapontados (esperavam uma vitória rápida) e procurando desesperadamente pela saída. É aí que o foco tem que ser feito em vez de uma saída para Putin. Muitos deles estão procurando ativamente uma maneira de cooperar.
  • Outro foco deve ser colocado na realocação de emigrantes russos, especialmente emigrantes qualificados em alguns países mais distantes da fronteira russa e que não correm o risco de uma possível invasão. A escassez de engenheiros já é visível, dê uma saída e uma fuga de cérebros disparará como um foguete.
O regime já cruzou o ponto sem retorno. Um retorno ao status quo não é possível nem desejável. Na verdade, a desescalada poderia potencialmente levar à sua evolução, a algo muito mais eficiente e ameaçador. A ameaça existencial desencadeia a evolução institucional.

No entanto, a evolução, seja o aumento da eficiência institucional ou a integração econômica com a China, só pode ser gradual. Requer tempo. Não lhes dê tempo. Aumente a pressão por meio de sanções, fuga de cérebros e negociações com funcionários de nível médio para quebrá-los rapidamente. Fim do tópico.🧵