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domingo, 1 de agosto de 2021

GALERIA: Treinamento de reservistas do 3e RMAT com o FAMAS


Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 1º de agosto de 2021.

Cena de combate em localidade dos reservistas do 3º Regimento de Material Bélico (3e régiment du Matériel, 3e RMAT) de Muret, com fuzis FAMAS F1 e munição de festim, no dia 27 de julho de 2021. O exercício de combate urbano ocorrera depois de 10 dias de treinamento, certificando os militares na  companhia de intervenção e de reserva do regimento (compagnie d’intervention et de réserve).

O 3e RMAT é o único regimento orientado para o paraquedismo na arma de Material Bélico do Exército Francês, e é uma das 10 formações ainda ativas no Comando de Manutenção da Força (Commandement de la maintenance des forces, COMMF)O regimento foi criado em Compiègne em 1961, estabelecido em 1º de julho de 1985 em Beauvais, depois dissolvido em 31 de julho de 1993 e recriado em Muret em 1º de julho de 1999. Herdeiro do estabelecimento de material bélico de Muret do qual recuperou o infraestrutura, ele também é herdeiro do 14º Regimento de Paraquedistas de Comando e Apoio (14e Régiment parachutiste de commandement et de soutien), do qual absorve duas companhias paraquedistas de manutenção móvel.



Desde o verão de 2010, o regimento já acolheu dois destacamentos: um localizado em Vayres perto de Bordéus, com sua especialização em manutenção eletrônica, o outro localizado em Montauban especializado na manutenção de equipamentos de largagem e paraquedismo. Seu lema é "Savoir-faire" ("Saber fazer"). Sua missão é a aquisição, reparo e gestão de materiais, e seu efetivos é de 1.200 militares.

A parte central está estacionada desde a sua recriação em 1º de julho de 1999 no quartel Commandant-Montalègre em Muret. Desde 1º de agosto de 2012, após o repatriamento das várias seções destacadas (Tarbes, Brive e Pau) e a criação do (Serviço Interarmas de Munições Service interarmées des munitions, SIMu), o regimento tem apenas dois destacamentos dentro do quartel Commandant-Corvée em Vayres e do quartel Capitaine-Vergnes em Montauban.


Bibliografia recomendada:

Le FAMAS et son histoire.
Jean Huon.

Introdução à Logística:
Fundamentos, práticas e integração.
Marco Aurélio Dias.

Leitura recomendada:




sábado, 27 de março de 2021

Os combates de rua na Batalha de Saigon

Paraquedistas sul-vietnamitas cercaram os rebeldes Binh Xuyen em frente à Escola Petrus Ky, na rua Cong Hoa, durante a Batalha de Saigon, em 28 de abril de 1955.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 27 de março de 2021.

A Batalha de Saigon (Operação Rung Sat) foi uma confrontação urbana de um mês entre o Exército Nacional Vietnamita e o exército privado do sindicato do crime organizado Binh Xuyen ocorrida de 28 a 30 de abril de 1955, no período em que o governo central de Saigon estava consolidando-se como um Estado. A batalha começou ao meio-dia de 28 de abril de 1955 e o ANV esmagou amplamente o Binh Xuyen em uma semana. Os combates se concentraram principalmente no distrito comercial chinês de Cholon, no centro da cidade. A área densamente povoada viu cerca de 500-1000 mortes e até 20.000 civis desabrigados no fogo cruzado. Os combates de limpeza fora de Saigon continuaram até maio.

O Binh Xuyen era uma organização criminosa que controlava atividades ilegais em Saigon, especialmente no distrito comercial chinês de Cho Lon, que cresceu o bastante para formar forças paramilitares e controlar regiões no Vietnã, seguindo a tradição regional de exércitos particulares. Os combates entre o Binh Xuyen e o Exército Nacional Vietnamita (Armée Nationale Vietnamien, ANV) se iniciaram em 28 de abril de 1955, após uma campanha de atentados à bomba por conta do ultimado do primeiro-ministro Ngo Dinh Diem para que o Exército Binh Xuyen fosse absorvido pelo ANV e ficasse sob a autoridade do Estado vietnamita. A batalha terminou em maio de 1955 com a vitória total do ANV e a completa destruição da organização criminosa.

Origem

Os grupos Binh Xuyen surgiram pela primeira vez no início dos anos 1920 como uma coalizão vagamente organizada de gangues e trabalhadores contratados com cerca de duzentos a trezentos homens. A história inicial de Binh Xuyen consistia em ciclos de sequestro, pirataria, perseguição e, ocasionalmente, prisão. Nos 1920-40, o Binh Xuyen sofreu pesada infiltração de comunistas através dos trabalhadores sindicalizados e participaram do grande levante comunista de 1940, e da guerra contra os franceses em 1945 ao lado do Viet Minh. Rapidamente derrotados, o Binh Xuyen se fragmentou e, para sobreviver como organização, seu líder Bay Vien se aliou ao serviço secreto francês (Deuxième Bureau) depois de escapar de uma tentativa de assassinato, protegido por duas companhias de capangas leais. Em junho de 1948, Bay Vien tornou-se coronel encarregado das Forças Auxiliares Binh Xuyen, reportando-se temporariamente a Tran Van Huru, vice-primeiro-ministro do governo provisório do Vietnã e governador de Nam Phan.

As autoridades francesas no Vietnã do Sul deram a Vien o controle total de Saigon-Cholon (Sài Gòn – Chợ Lớn), sob a condição de que ele destruísse a infraestrutura comunista da cidade. O conhecimento de Bay Vien sobre o Viet Minh e seu desejo de destruir as tropas de seu adversário Nguyen Binh em Saigon possibilitaram que ele destruísse as forças comunistas em muito pouco tempo. O governo colonial francês recompensou o sucesso do Binh Xuyen permitindo que Bay Vien monopolizasse a indústria de caminhões na Cochinchina (sul do Vietnã) e permitindo que o chefão operasse como um senhor da guerra. Bay Vien foi promovido a Général de division (General-de-Divisão, três estrelas).

Em 1949, o Imperador Bao Dai tornou-se o Chefe de Estado do recém-formado Estado do Vietnã. Para resolver o problema de ter que espalhar muito o Exército Nacional Vietnamita na guerra contra o Viet Minh, ele decretou todas as forças militares não-comunistas do país como exércitos independentes dentro do exército convencional. Bay Vien recebeu o posto de Major General do Exército Nacional Vietnamita após a operação para limpar a Rota Colonial 15 e suas tropas se tornaram o Exército Binh Xuyen (QDQG Bình Xuyên), que era um exército autofinanciado com receitas de bordéis e cassinos administrados legalmente; Bay Vien tomou à força o controle dos cassinos de grupos do crime organizado macaense.

O General Vien fez acordos com Bao Dai, garantindo-lhe o controle de seus próprios assuntos em troca de seu apoio nominal ao regime, assim como fizera com o governo colonial francês. Em março de 1955, o grupo juntou-se ao Cao Dai e Hoa Hao na formação de uma "Frente Unida das Forças Nacionais". Nesse período, o Exército Binh Xuyen tinha cinco batalhões de infantaria regulares e dois batalhões de tropas de choque de segurança pública (Công an xung phong). Essa força privada era poderosa demais e o novo primeiro-ministro do recém-independente Vietnã, Ngo Dinh Diem emitiu um ultimato para que eles se rendessem e ficassem sob o controle do Estado.

Na meia-noite de 29 a 30 de março, explosões abalaram Saigon enquanto o Binh Xuyen respondia à remoção de seu chefe de polícia por Diem. 200 tropas do Binh Xuyen atacaram a sede do ANV. Os confrontos foram inconclusivos, com o ANV sofrendo seis mortos para os 10 de seus oponentes, mas ao nascer do sol, os corpos de civis espalhavam-se pelas as calçadas.

A batalha

Paraquedistas do ANV em durante os combates, com fumaça ao fundo. O soldado à retaguarda carrega um FM Châtellerault 24/29 francês.

A batalha final entre o ANV de Diệm e o Binh Xuyen começou no dia 28 de abril ao meio-dia. Após a troca inicial de tiros de armas portáteis e morteiros, o ANV recorreu à artilharia mais pesada de seu arsenal. Isso coincidiu com os crescentes pedidos de dentro do governo Eisenhower para se livrar de Diem porque Eisenhower acreditava que ele não seria capaz de subjugar o Binh Xuyen e unificar o país. Ao anoitecer, uma grande parte do centro da cidade foi engolfada pelo combate de casa em casa. Na manhã de 29 de abril, o conflito jogou milhares de civis para fora de suas casas. Um quilômetro quadrado da cidade, em torno do densamente povoado distrito chinês de Cholon, onde o Binh Xuyen tinha uma fortaleza, tornou-se uma zona de fogo livre. Artilharia e morteiros arrasaram os bairros pobres da cidade, matando quinhentos civis e deixando 20 mil desabrigados.

Os observadores descreveram que o combate de ambos os lados carecia de estratégia e dependia de táticas de desgaste de força bruta. Uma das poucas manobras consideradas táticas foi uma tentativa do ANV de cortar os reforços de Bình Xuyen demolindo a ponte que cruza o canal Saigon-Cholon. Isso foi respondido com o Binh Xuyen lançou pontes flutuantes sobre o canal. Parecia que o conflito seria determinado pelo lado que fosse capaz de absorver o maior número de perdas. Aproximadamente 300 combatentes foram mortos no primeiro dia de combate.


Na manhã de 29 de abril, em Washington, John Foster Dulles, o Secretário de Estado dos EUA ligou para J. Lawton Collins para suspender as medidas destinadas a substituir Diem. Eisenhower determinou que eles deveriam ser colocados em espera enquanto se aguardava o resultado da operação do ANV. Collins e Dulles entraram em confronto na reunião do Conselho de Segurança Nacional (National Security Council, NSC), com Collins pedindo veementemente a remoção de Diem. Collins continuou a argumentar que a tentativa de destruir os Binh Xuyen pela força produziria uma guerra civil. O NSC endossou a posição de Dulles.

Após 48 horas de combate, o ANV começou a ganhar vantagem. Le Grand Monde, anteriormente o maior estabelecimento de jogos de Bay Vien e servindo temporariamente como cidadela do Binh Xuyen, foi tomado de assalto pelos paraquedistas de Diem após uma luta que causou pesadas perdas para ambos os lados. O ANV então tomou de assalto uma das fortalezas mais pesadamente fortificadas do Binh Xuyen, a Escola de Ensino Médio Petrus Ký, na rua Cong Hoa (na era francesa, era a rua Nancy, hoje Nguyen Van Cu) em Cholon. Quando Collins voltou ao Vietnã do Sul, em 2 de maio, a batalha estava quase vencida. As forças Binh Xuyen foram derrotadas e em retirada e seus postos de comando foram destruídos. O quartel-general de Bay Vien estava sendo bombardeado e seus tigres, pítons e crocodilos lá dentro foram mortos por ataques de morteiros e bombardeios.

Ngo Dinh Diem saiu vitorioso da operação: Bay Vien fugiu para Paris para viver sua vida com os lucros de seus empreendimentos criminosos, e o ANV perseguiu os remanescentes do Binh Xuyen no delta do Mekong, perto da fronteira com o Camboja. Em Saigon, multidões exultantes se reuniram em frente à residência de Diem gritando "Đả đảo Bảo Đại!" (que significa "Abaixo Bao Dại!").


Bibliografia recomendada:

The Twenty-Five Year Century:
A South Vietnamese General remembers the Indochina War to the Fall of Saigon.
General Lam Quang Thi.

Leitura recomendada:

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Cinco lições das guerras de Israel em Gaza

Por Raphael S. Cohen, War on the Rocks, 3 de agosto de 2017.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 10 de fevereiro de 2021.

“Queremos quebrar seus ossos sem colocá-los no hospital.”

– Um analista de defesa israelense, Tel Aviv, Israel, 22 de maio de 2016.

Israel enfrenta um dilema estratégico único ao longo de sua fronteira ocidental. Desde que o grupo militante islâmico Hamas assumiu Gaza em 2007, o Hamas e Israel têm se envolvido em uma violência contínua na mesma moeda nesta estreita faixa de terra ao longo do Mar Mediterrâneo. Essa violência de baixa intensidade se transformou em uma guerra total três vezes: Operações Chumbo Fundido (2009), Pilar de Defesa, (2012) e Borda Protetora (2014). No entanto, por mais que Israel desdenhe o Hamas, Israel não pode simplesmente se livrar dele, porque não quer governar Gaza e porque teme o que pode acontecer a seguir. O desafio estratégico passa a ser como deter a violência do Hamas, mas mantê-los firmemente no controle da Faixa, ou, nas palavras do analista citado acima, "quebrar seus ossos, mas não mandá-los para o hospital".

Os desafios de Israel em Gaza são compostos por dois fatores adicionais. Embora Israel, os Estados Unidos e outros considerem o Hamas uma organização terrorista, ele governa Gaza como um pseudo-Estado - tornando o Hamas um ator híbrido clássico com capacidades além daquelas de muitos outros grupos terroristas. Além disso, Gaza é também uma das áreas mais densamente povoadas do mundo, forçando as Forças de Defesa de Israel (IDF) a operarem contra um adversário que está inserido em uma população civil.

As operações da IDF em Gaza fornecem um exemplo dos desafios que as forças armadas avançadas enfrentam ao confrontar adversários determinados, adaptáveis e híbridos em terreno urbano denso. Em particular, o último confronto - a Operação Borda Protetora de 51 dias de duração - ensina cinco lições básicas que se aplicam bem além de Gaza.

Lição 1: O poder aéreo enfrenta sérias limitações em terreno urbano denso

No início da década de 2010, Israel foi vítima do que Eliot Cohen certa vez chamou de "a mística do poder aéreo". Aproveitando as lições das experiências americanas na Tempestade no Deserto em 1994, Cohen argumentou que o poder aéreo de precisão parece fornecer uma panaceia estratégica - oferecendo aos formuladores de políticas a capacidade de realizar fins estratégicos sem pagar o custo em sangue e tesouro:

O poder aéreo é uma forma extraordinariamente sedutora de força militar, em parte porque, como o namoro moderno, parece oferecer gratificação sem compromisso.

Mas Cohen disse que isso era uma ilusão. Na realidade, disse ele, os efeitos do poder aéreo são limitados e os ataques aéreos não podem obscurecer a "confusão e brutalidade inerentes" das guerras.

Israel teve que reaprender essa lição em Gaza. Para muitos estrategistas israelenses, a Operação Pilar de Defesa estabeleceu essa mística quando oito dias de ataques aéreos pareciam interromper o lançamento de foguetes do Hamas. Essa conclusão se mostrou errada. Embora o poder aéreo visasse com êxito os líderes seniores do Hamas e locais de abastecimento, não foi esse o motivo pelo qual a operação foi tão curta, nem foi a causa da frágil calma que se seguiu. Em última análise, o cessar-fogo teve mais a ver com o sucesso da diplomacia, especificamente os esforços do Egito de Mohamed Morsi. Consequentemente, quando as condições políticas mudaram, cerca de dois anos depois, outra guerra de Gaza estourou.

Em 2014, a Operação Borda Protetora destruiu a ilusão da onipotência do poder aéreo. Durante a primeira fase da campanha, que durou aproximadamente de 8 a 16 de julho, a Força Aérea Israelense tentou repetir seu manual da Operação Pilar de Defesa e conduziu cerca de 1.700 ataques. Ainda assim, o poder aéreo sozinho não conseguiu acabar com a ameaça de foguetes de Gaza. Também falhou em conter efetivamente a nova tática do Hamas - túneis escavados em cidades vizinhas de Israel - uma vez que os próprios túneis eram subterrâneos e suas aberturas muitas vezes não eram detectadas por aeronaves. Em última análise, o poder aéreo falhou em encerrar o conflito e as IDF aprenderam da maneira mais difícil que alguns alvos precisavam ser destruídos no solo.

Lição 2: Operações terrestres em áreas urbanas nunca são sem sangue

Na maior parte, as IDF mantiveram sua ofensiva limitada, mas ainda assim não conseguiu evitar destruição. A batalha de Shuja’iya talvez seja a melhor demonstração desse truísmo. Shuja’iya era um bairro densamente povoado da Cidade de Gaza e uma fortaleza do Hamas. Após três dias de lançamento de panfletos alertando os civis sobre uma operação iminente, as IDF lançaram uma operação na noite de 19 de julho para destruir seis operações em túneis transfronteiriços. Depois que um veículo blindado quebrou, militantes do Hamas emboscaram o veículo, matando seus sete ocupantes. As tentativas israelenses de chegar ao veículo encontraram forte resistência, as baixas aumentaram e a situação se desintegrou. O comandante da brigada que liderava a operação estava ferido e precisava ser evacuado. As IDF responderam com um uso massivo de poder de fogo - disparando pelo menos 600 tiros de artilharia e lançando pelo menos 100 bombas de uma tonelada - para neutralizar os combatentes do Hamas. No final, a batalha ceifou a vida de pelo menos 13 soldados das IDF e 65 combatentes palestinos e civis e deixou centenas de feridos. O nível de violência pegou até mesmo alguns observadores veteranos desprevenidos. Após a batalha, o Secretário de Estado John Kerry - ele próprio um veterano da Guerra do Vietnã e não estranho ao combate - comentou, incrédulo: "É uma bela de uma operação de precisão".

Infelizmente, as experiências das IDF em Gaza não são únicas. Os Estados Unidos aprenderam lições semelhantes em Mogadíscio, na Somália, em 1993 ou mais recentemente, na Batalha de Fallujah em 2004 e na Batalha de Sadr City em 2008, no Iraque. Apesar de todas as vantagens tecnológicas em inteligência e armamento de precisão disponíveis para as forças armadas ocidentais modernas, quando as forças terrestres convencionais encontram resistência determinada em terreno urbano, o resultado nunca é uma operação limpa e sem derramamento de sangue.

Lição 3: Forças armadas ocidentais não conseguem escapar da "Lawfare"

Em parte porque as operações terrestres são assuntos inerentemente sangrentos, é quase inevitável que a luta se estenda do campo de batalha ao tribunal. O ex-juiz-adjunto do advogado-geral da Força Aérea dos Estados Unidos, Charles Dunlap, denominou esse fenômeno de "lawfare" ("guerra da lei"), descrevendo-o como "a estratégia de usar - ou abusar - da lei como substituto dos meios militares tradicionais para atingir um objetivo operacional". E durante as guerras de Israel em Gaza, as FDI estavam perfeitamente cientes desta dimensão da luta.

Os esforços das IDF para combater a lawfare evoluíram durante suas guerras em Gaza. Enviando advogados para atuar como consultores jurídicos em níveis inferiores de comando e os integrando melhor ao processo de seleção de alvos. Estabeleceu medidas, administradas de forma centralizada pela liderança sênior, para definir níveis “aceitáveis” de tolerância ao risco para danos colaterais. As IDF até fizeram experiências com a realização proativa de conduzir “lawfare” para justificar preventivamente o porquê de qualquer operação estar dentro dos limites legais. E, no entanto, como os próprios oficiais das IDF admitem, as IDF ainda podem não ter vencido a batalha judicial de lawfare. Na verdade, Israel ainda está sob intenso escrutínio de organizações não-governamentais e das Nações Unidas após a Operação Borda Protetora em 2014, assim como durante suas guerras anteriores em Gaza.

Embora por uma variedade de razões Israel domine os holofotes jurídicos internacionais, todos as forças armadas ocidentais ainda lutam para encontrar uma resposta aos desafios da lawfare. Embora os Estados Unidos sejam comparativamente mais imunes à "guerra da lei" do que Israel - na verdade, a embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Nikki Haley, recentemente acusou o Conselho de Direitos Humanos da ONU de um "viés anti-Israel crônico" - os Estados Unidos também enfrentam situações semelhantes críticas sobre os maus usos e abusos da força, seja no Afeganistão, Iraque, Síria ou em outro lugar.

Lição 4: A luta urbana não pode ser evitada

Se o poder aéreo for ineficaz e as operações terrestres forem sangrentas e que provavelmente acabarão em tribunal, podem as forças armadas simplesmente neutralizarem a ameaça que emana das áreas urbanas e evitar completamente a luta urbana? Até certo ponto, Israel tentou essa abordagem. O desenvolvimento do sistema de defesa antimísseis Iron Dome (Cúpula de Ferro) permitiu-lhe proteger grande parte de sua população dos ataques de foguetes do Hamas e aliviou a pressão sobre os legisladores israelenses para ordenar operações militares mais agressivas. Dito isso, essa abordagem foi apenas até certo ponto. Os ataques de foguetes do Hamas - mesmo que em grande parte neutralizados pela Cúpula de Ferro - ainda forçaram os israelenses a correr para abrigos e interromperam a vida diária. Além disso, a Cúpula de Ferro nada fez para proteger seus cidadãos de outras ameaças do Hamas, como ataques de túneis. No final, enquanto não houver um acordo de paz entre o Hamas e Israel, as IDF precisarão lutar em Gaza, queira ou não.

Os Estados Unidos chegaram a uma conclusão semelhante. Como observou o Chefe do Estado-Maior do Exército dos EUA, General Mark Milley, no ano passado:

"No futuro, posso dizer com muito alto grau de confiança, o Exército americano provavelmente estará lutando em áreas urbanas. Precisamos recrutar, organizar, treinar e equipar a força para operações em áreas urbanas, áreas urbanas altamente densas, e isso é uma construção diferente. Não estamos organizados assim agora."

Embora o Exército dos EUA não queira lutar nas cidades, é lá que a esmagadora maioria das pessoas viverá no futuro e, portanto, gostemos ou não, é lá que - na estimativa de Milley - as guerras do futuro estarão.

A Lição Elusiva: Transformando o sucesso em uma vitória duradoura

Depois de uma década operando contra Gaza, as IDF aprenderam muitas lições sobre a guerra urbana contra adversários híbridos, mas pelo menos uma permanece indefinida - como transformar o sucesso operacional em uma vitória duradoura. Na verdade, as guerras limitadas de Israel compraram períodos de relativa calma, mas não uma solução durável, e a violência ainda continua hoje.

Com as operações no Iraque, Afeganistão e Líbia ainda frescas na memória estratégica coletiva americana, os desafios da mudança de regime são bem conhecidos hoje. Às vezes esquecidas, entretanto, são as dificuldades inerentes de travar guerras limitadas. Felizmente, os Estados Unidos hoje não enfrentam um equivalente a Gaza ao longo de suas fronteiras. E, no entanto, em um mundo cheio de atores odiosos em que a mudança de regime pode não ser uma opção viável, os Estados Unidos também enfrentam o desafio de descobrir como quebrar ossos sem mandar pessoas para o hospital, por assim dizer.

Um ex-oficial da ativa do Exército dos EUA, Raphael S. Cohen é um cientista político na organização sem fins lucrativos e apartidária RAND Corporation. Ele é o autor principal de From Cast Lead to Protective Edge: Lessons from Israel’s Wars in Gaza (Da Operação Chumbo Fundido para a Borda Protetora: Lições das Guerras de Israel em Gaza).

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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

FOTO: Bulldog em Saigon

Tanque M41 Walker Bulldog sul-vietnamita participando da limpeza de forças vietcongues nas ruas de Cholon, bairro de Saigon, durante a Ofensiva do Tet, 5 de junho de 1968.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 18 de dezembro de 2020.

As forças armadas da República do Vietnã (conhecidas como ARVN) foram um elemento fundamental na derrota do ataque inesperado comunista que se aproveitou do feriado do Tet, que geralmente era uma trégua. A reação rápida do ARVN impediu que os vietcongues e o exército popular vietnamita (APV) tomassem a rádio de Saigon, a base aérea de Tan Son Nhut e garantou o fracasso do objetivo principal de Hanói: a pulverização do Estado sul-vietnamita.

O esperado levante popular contra a "opressão" do regime de Saigon não se materializou, e a população apoiou o ARVN durante a campanha do Tet. A ofensiva comunista iniciou em janeiro e passou por três fases até finalmente perde o ímpeto em setembro de 1968. Contra-ataques aliados continuariam até a metade de 1969.

Apesar do fracasso militar, a ofensiva demonstrou a ineficácia da estratégia americana, além das graves omissões e fabricações nos relatório militares americanos sobre o impacto das ações aliadas na máquina militar comunista. A surpresa não apenas humilhou a liderança militar americana, mas gerou pânico em Washington, com autoridades decidindo pela imediata retirada do Vietnã. Esta ocorreria apenas em 1973, com a redução abrupta da ajuda ao Vietnã do Sul - na prática, um verdadeiro abandono.

Rangers ARVN  movendo-se através de ruas destruídas na parte oeste de Cholon, Saigon, 10 de maio de 1968. (Coronel Hoang Ngoc Lung/ The General Offensives of 1968-69)

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Armas vietnamitas para a Argélia, 14 de dezembro de 2020.

sábado, 27 de junho de 2020

Analisando o Ataque Urbano: idéias da doutrina soviética como um 'modelo de lista de verificação'

Soldados soviéticos assaltando uma casa em Stalingrado. (RIA Novosti)

Por Charles Knight, Centro de Pesquisa do Exército Australiano, 4 de março de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 26 de junho de 2020.

As dificuldades agudas das operações urbanas, sintetizadas pela luta em Stalingrado, ocorreram em Mosul, Raqqa e Marawi, mostrando que o requisito fundamental para uma limpeza lenta, sistemática e deliberada, edifício-por-edifício, não é mais fácil 70 anos depois. De fato, a mudança está na outra direção - agora as coisas são mais difíceis. As complicações duradouras impostas pelas estruturas físicas são agora agravadas pela presença de populações e fatores informacionais, tornando a luta urbana moderna verdadeiramente complexa e resistente à compreensão e análise.

Esses novos desafios são articulados dentro da construção de guerra acelerada do Chefe do Exército, os quais um Exército em Movimento procura superar aproveitando a nova tecnologia e o novo pensamento. As tecnologias emergentes oferecem grandes promessas, mas são apenas um começo e exigem novos conceitos adequados para explorar seu potencial. O ponto de partida é que tecnólogos e soldados tenham uma compreensão clara e comum dos problemas.


Embora os fatores humanos e informacionais abrangentes devam ser abordados, suas complexidades inerentes tornam mais eficaz começar com os problemas táticos subjacentes. Como os métodos para limpar uma área urbana mudaram pouco ao longo dos anos, somos capazes de usar com confiança modelos táticos das ações e efeitos que foram comprovados no passado. Eles oferecem entendimento e fornecem informações sobre onde novos métodos podem ser especialmente úteis.

A Doutrina Soviética - o que podemos aprender com ela

A doutrina idiossincrática de operações urbanas da União Soviética, que evoluiu nos últimos estágios da Segunda Guerra Mundial e foi refinada durante a Guerra Fria, oferece um detalhamento de tarefas passo-a-passo particularmente útil para operações ofensivas urbanas.

A doutrina soviética era prescritiva e baseada em normas. Os soldados eram treinados em um conjunto de habilidades muito estreitas - uma arma, uma função. Os grupos táticos eram ensinados sobre o que fazer, quando, onde e como. A posição de um codinome em uma formação não mudou, nem o número de granadas de artilharia disparados contra um tipo específico de alvo. Essa abordagem visou tanto a força de trabalho com pouca escolaridade quanto o impacto cognitivo das operações de combate contínuo. Enquanto outros exércitos desenvolveram táticas semelhantes e genericamente urbanas, sob orientação fraca, a doutrina soviética especificou o que era necessário em detalhes. Crucialmente, eles identificaram tarefas essenciais a serem executadas em um assalto urbano e atribuíram cada tarefa a um elemento rotulado descritivamente. As ações de cada elemento, descendo até mesmo a contra o que eles disparariam e em quais estágios de um plano, foram prescritas. Com efeito, isso forneceu uma "lista de verificação" ou receita em que o comandante tinha o escopo de variar o tamanho e o número dos grupos e tarefas chave. Contra-intuitivamente, essa prescrição também incluiu o uso de agrupamentos cuja tarefa era de natureza focada na manobra.

Conceitos soviéticos focados na manobra

Quando os soviéticos varreram o oeste em 1944, eles tentaram evitar combates nas áreas urbanas porque o terreno reduzia suas vantagens em número e poder de fogo. Uma inovação foi o destacamento avançado - uma força totalmente mecanizada que rompia as linhas e corria adiante para impedir que os alemães se retirassem para as cidades. Caso contrário, cidades e pequenas vilas eram liquidadas por:
  1. desvio,
  2. sítio ou
  3. destruição com níveis maciços de artilharia e poder de fogo aéreo.
Quando cidades maiores precisavam ser capturadas, o método era cercar e isolar, e depois empurrar para dentro em vários eixos para dividir a cidade em segmentos com um regimento (brigada no sistema soviético) em cada rua. O que diferia da prática de guerra aberta baseada em massa era o emprego de quatro elementos para propósitos especiais: os destacamentos avançados mencionados acima, bem como grupos de assalto, destacamentos de assalto e grupos de tomada.

"Grupos de assalto" e os maiores "destacamentos de assalto" eram grupos de armas combinadas equipados com armamento pesado, engenheiros e, às vezes, peças de artilharia individuais ou veículos blindados - com comandantes a quem era dada uma tal liberdade de ação sem precedentes em guerra aberta. Seu papel crucial era desequilibrar, enganar e atrapalhar a defesa, manobrando os eixos principais para envelopar, isolar e - sempre que possível - eliminar pontos fortes do inimigo ou centros de resistência maiores.

Soldados soviéticos progredindo através de destroços. (Bundesarchiv)

Um efeito focado na manobra também era realizado por grupos de tomada "independentes". Estes eram soldados de infantaria e engenheiros desmontados, que se infiltravam à frente do avanço, evitavam resistência e então tomavam edifícios desocupados, mas defensáveis, nas profundezas das posições alemãs. A partir daí, eles poderiam interditar o reabastecimento pelo fogo, isolar psicologicamente defensores e interromper os contra-ataques.

Agrupamentos urbanos soviéticos e suas tarefas: um guia passo-a-passo para a limpeza

A lista abaixo descreve o papel de cada um dos diferentes agrupamentos de combate urbano, bem como breves notas amplificadoras. Leia juntos os itens que explicam o ataque urbano soviético, mas a lista também pode ser usada como uma ferramenta analítica e de desenvolvimento para explorar abordagens alternativas para abordar cada uma das funções identificadas.

Destacamentos avançados e forças desant

Objetivo: Negar o terreno bem à frente das forças principais, a fim de interromper a preparação do inimigo para a defesa urbana.

Durante a Guerra Fria, os soviéticos refinaram seu conceito de destacamento avançado da Segunda Guerra Mundial, enfatizando o uso de equipamentos de engenharia e lança-minas mecânicos para criar obstáculos rápidos e posições defensivas nos arredores das áreas urbanas. À medida que sua capacidade de carga estratégica crescia, essa manobra disruptiva era cada vez mais concebida como um desant - o termo soviético para um "golpe de mão" paraquedista ou anfíbio.

Grupo de tomada

Objetivo: Infiltrar-se no terreno urbano antes do corpo principal, evitando defensores e tomar terrenos-chave desocupados para prejudicar a integridade defensiva do inimigo.

Assim como os destacamentos avançados, um conceito preventivo também foi aplicado no nível tático, usando engenheiros e infantaria desmontados com armas de apoio portáteis.

Destacamento de assalto

Objetivo: Garantir múltiplos objetivos urbanos (quadras/edifícios), a fim de permitir o avanço da força principal.

Um destacamento de assalto era tipicamente baseado em um batalhão de fuzileiros motorizados acompanhado por sua companhia de tanques rotineiramente designada e, além disso, lhe era designada uma companhia de engenheiros e canhões autopropulsadas. O destacamento formava um grupo de apoio de fogo, entre três e seis grupos de assalto e uma reserva.

Grupo de apoio de fogo

Objetivo: Neutralizar os defensores dentro e além do objetivo e abrir brechas em estruturas, a fim de que os elementos de assalto possam alcançar objetivos sem impedimentos e ter uma vantagem de poder de combate durante a limpeza.

O disparo direto efetivo no próximo prédio-objetivo para um elemento que ataca de um lado da rua geralmente só é possível internamente partindo do outro lado da rua ou dos flancos. Por outro lado, a ameaça para elementos atacantes vinda dos edifícios nos flancos que têm visada sobre o próximo objetivo geralmente só pode ser combatida externamente vinda de perto dos elementos de ataque. O grupo de apoio era dividido em pelo menos três subgrupos.

Subgrupos de apoio de fogo

Propósito 1: Aplicar fogo direto para dentro e sobre os edifícios-objetivo, a fim de fornecer várias brechas de entrada nas paredes e o "fogo de acompanhamento" antes e durante o assalto.

Propósito 2: Aplicar fogo direto externo sobre e para dentro dos edifícios, vigiando o caminho e a edifício-objetivo, a fim de proteger qualquer assalto final exposto.

Propósito 3: Aplicar alto-explosivos diretos e fogos indiretos além do objetivo, a fim de isolar a batalha imediata.

Os subgrupos de tiro direto eram baseados em tanques ou canhões auto-propulsados com infantaria e engenheiros para fornecer proteção aproximada e para limpar corredores para posições de tiro; no caso mais simples, um subgrupo seria desdobrado em ambos os lados da rua e outros subgrupos, incluindo morteiros, seriam desdobrados um pouco mais para trás.

Grupo de assalto

Propósito: Tomar e manter, ou destruir (demolir), edifícios-objetivo nomeados.

A base de um grupo de assalto variava entre uma companhia e um pelotão de infantaria, reforçado por até um pelotão de engenheiros e - nessas unidades, quando disponíveis - metralhadoras pesadas e lança-granadas automáticos. O grupo de assalto sempre consistia em um subgrupo de assalto e tanto um subgrupo de consolidação quanto um subgrupo de "cobertura e manutenção do terreno" (veja abaixo) e outros grupos, conforme necessário.

Subgrupo de assalto/ataque

Propósito: Para entrar no edifício-objetivo, localizar e destruir os defensores e assegurar pelo menos o terreno vital (piso inferior e adega, escada principal e piso superior) para tornar a defesa insustentável.

Seguindo de perto um intenso bombardeio de alto-explosivo, este grupo entraria no edifício-objetivo com o apoio de fogo "de acompanhamento" avançando nos andares superiores. Liderado pelo comandante da subunidade, um elemento protegeria a escada e o piso superior e outro o piso inferior e a adega.

Subgrupo de consolidação

Propósito: Seguir o subgrupo de assalto e limpar sistematicamente as partes internas de um edifício, a fim de protegê-lo de contra-ataques.

O subgrupo de consolidação seguia o assalto, movia-se para o comandante e depois - sob sua direção - limpava o restante do edifício.

Subgrupo de "cobertura e manutenção do terreno"

Propósito 1: Providenciar fogo direto para fora e para dentro, a fim de apoiar o assalto.

Propósito 2: Providenciar fogo direto sobre os caminhos para edifícios a serem tomados, a fim de derrotar contra-ataques.

Grupos de assalto podiam formar um subgrupo de "cobertura e manutenção do terreno" que carregava armas mais pesadas e seguia os subgrupos de assalto. Eles disparavam sobre as cabeças do grupo de assalto quando se aproximavam do edifício-objetivo e, ao mesmo tempo, externamente em direção aos edifícios com observação.

Subgrupo(s) de demolição com fumaça/lança-chamas

Propósito 1: Operar geradores de fumaça a fim de ocultar a aproximação ao edifício-objetivo das vistas do inimigo dentro e sobre as posições de observação.

Propósito 2: Destruir edifícios nomeados queimando-os.

O uso de geradores de fumaça e lança-chamas era de responsabilidade das tropas de guerra química as quais eram destacadas para operações urbanas, e a ênfase foi colocada nas chamas para demolir edifícios, queimando-os.

Subgrupo de limpeza de obstáculos

Propósito: Abrir caminhos livres para e dentro de edifícios-objetivo, a fim de garantir que os grupos de assalto não sejam atrasados.

O papel vital de pequenas equipes de engenheiros enfatizava duas técnicas: a remoção furtiva de minas que precede os ataques noturnos e o uso de torpedos Bangalore - tanto acionados manualmente como por blindados nas aproximações para e dentro dos edifícios.

Soldados soviéticos em combate urbano. (RIA Novosti)

Conclusão

A doutrina urbana soviética não é apenas de interesse histórico. Pode ser considerado o produto de um experimento prolongado de laboratório de batalha realizado entre Stalingrado em 1942 e Berlim em 1945. Evoluiu à medida que diferentes formações de várias maneiras aplicavam ou não táticas específicas e diferentes, com os benefícios medidos em perdas relativas entre centenas de milhares de vidas dos soldados. Além de explicar as funções dos elementos dentro do ataque urbano, seu grande valor é como um modelo claro dos efeitos requeridos; que pode ser usado para examinar sistematicamente como as novas tecnologias podem produzir efeitos comparáveis mais rapidamente, mais baratos e - acima de tudo - com menor risco.

O Dr. Charles Knight, PhD, serviu no Exército Britânico, na RAF e em várias forças estrangeiras e é professor de Terrorismo, Conflito Assimétrico e Operações Urbanas na Universidade Charles Sturt. Ele desenvolveu treinamento no Reino Unido em doutrina urbana soviética, capacidade de reconhecimento subterrâneo e procedimentos de emprego de armas anti-carro guiadas em ambientes urbanos. Ele passou uma década no desenvolvimento de Operações Especiais, comandou o 2/17 Royal New South Wales Regiment (2/17 RNSWR), serviu no 1º Regimento Comando (1st Commando Regiment, 1 Cdo Regt) e desenvolveu a doutrina urbana do Exército Australiano.

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quinta-feira, 14 de maio de 2020

O tanque britânico Streetfighter II tem visão de raios X e tem tudo a ver com a luta urbana


Por Joseph Trevithick, The Driver, 21 de janeiro de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 14 de maio de 2020.

O Exército britânico modificou um Challenger 2 para ser ideal para combater as guerras do amanhã em megacidades.

O Exército Britânico mostrou recentemente um novo conceito para um tanque de batalha principal Challenger 2 otimizado para operações urbanas, apelidado de Streetfighter II. O veículo possui um sistema de visão distribuída IronVision fabricado por Israel, que permite que a tripulação veja em todas as direções, mesmo enquanto estiverem para dentro com todas as escotilhas fechadas, e uma maquete de um lançador do míssil anti-tanque Brimstone, cada vez mais popular, no topo da torre.


Elementos do Royal Tank Regiment (Regimento Real de Tanques, RTR) avaliaram o tanque Streetfighter II durante os exercícios em Copehill Down no início de janeiro de 2020. Copehill Down é uma das instalações da ampla área de treinamento do Ministério da Defesa do Reino Unido na planície de Salisbury e foi criado para simular o que as forças britânicas se referem como Combate em Áreas Edificadas, ou FIBUA (Fighting In Built Up Areas). Nos Estados Unidos, isso é mais conhecido como Operações Militares em Terreno Urbano, ou MOUT (Military Operations in Urban Terrain). O Exército Britânico iniciou o projeto Streetfighter em dezembro de 2018.

"Um dos principais objetivos do Streetfighter é identificar as lacunas de capacidade entre nós e os inimigos em potencial e, em seguida, recomendar soluções técnicas para as áreas de possível superação tática", disse um membro do Royal Tank Regiment, identificado apenas como Capitão Quant, disse em um vídeo de apresentação oficial sobre os testes, visto abaixo. "Estes estão em áreas como letalidade, capacidade de sobrevivência, [e] consciência situacional".


O tanque Streetfighter II, que carrega um esquema de camuflagem em bloco marrom-branco-azulado-cinza-azulado que lembra os veículos blindados do Exército Britânico estacionados em Berlim no final da Guerra Fria, baseia-se no protótipo original que o Exército Britânico criou para o programa quando este começou há pouco mais de um ano. A adição mais significativa é a inclusão do sistema IronVision, que a companhia de defesa israelense Elbit lançou pela primeira vez em 2018. A empresa diz que trabalha com o Exército Britânico para integrar o IronVision no veículo Streetfighter II desde janeiro de 2019, de acordo com a Jane's 360.

O IronVision consiste em uma série de câmeras eletro-ópticas e infravermelhas posicionadas em torno do chassis de um veículo blindado, que depois são fornecidos em uma tela especializada montada no capacete. O sistema então "costura" essa informação fornecida, dando ao indivíduo que usa o capacete a capacidade de "ver" através do chassis do tanque em qualquer direção, dia ou noite. Isso é semelhante em muitos aspectos ao AN/AAQ-37 Sistema de Abertura Distribuída (Distributed Aperture SystemDAS) no F-35 Joint Strike Fighter.


A consciência situacional adicional que isso oferece à tripulação, além de permitir que eles permaneçam protegidos dentro do tanque com todas as escotilhas "abotoadas", é valiosa, em geral, mas principalmente em ambientes urbanos. Áreas densas e edificadas, onde é cada vez mais provável a ocorrência de conflitos, oferecem amplas posições para as forças hostis se esconderem, fazerem ataques rápidos nos pontos cegos dos veículos que passam, mesmo aqueles apoiados com infantaria desembarcada, e depois se escondendo rapidamente.

As miras ópticas associadas ao canhão principal de um tanque ou aos sistemas de sensores complementares menos abrangentes só podem olhar em determinadas direções ao mesmo tempo e, geralmente, com um campo de visão muito estreito. A tripulação em escotilhas abertas ou outro pessoal que estiver no veículo pode ajudar a verificar ameaças, mas eles também estão expostos a ameaças, incluindo snipers. O conceito original do Streetfighter tinha uma câmera de 360 graus montada no torre, mas isso ainda oferecia campos de visão fixos e não permitia ao operador o mesmo tipo de liberdade natural e normal de simplesmente "olhar" ao redor que o IronVision fornece. A versão aprimorada do tanque conceitual ainda apresenta um sistema de câmera pendurado no cano que oferece um meio adicional de espiar pelos cantos, algo que as forças armadas dinamarquesas teriam empregado pela primeira vez operacionalmente no Afeganistão em seus tanques Leopard 2 fabricados na Alemanha, conforme observado no vídeo abaixo.


O veículo Streetfighter original também tinha um sistema externo de tipo tablet montado na parte traseira na qual a infantaria que trabalhava com o tanque poderia usar para examinar seus sensores para ter uma melhor noção do campo de batalha, mas não está claro se esse sistema pode bombear a informação para o IronVision. Outro membro do Regimento Real de Tanques, identificado simplesmente como Cabo Towers, destacou a capacidade aprimorada, em geral, para que as tropas se comuniquem com aqueles que estão dentro do tanque e vejam o que vêem no vídeo oficial. O Streetfighter II supostamente possui um conjunto de comunicações atualizado, que provavelmente inclui recursos de compartilhamento de dados também.

O tanque Streetfighter original já demonstrava equipes tripuladas e não-tripuladas com um pequeno veículo terrestre não-tripulado, o qual oferece outra opção para explorar à frente e investigar possíveis locais de emboscada ou outros perigos. Isso poderia até ajudar a investigar o interior dos prédios antes dos comandantes enviarem tropas desembarcadas.

A outra grande adição à configuração do Streetfighter II é uma maquete de um lançador de mísseis anti-tanque Brimstone no topo da torre. Quando o Exército Britânico coloca o tanque em exibição estática, ele coloca um míssil inerte no lançador, que parece capaz de acomodar potencialmente pelo menos duas dessas armas. Um produto do consórcio europeu de mísseis da MBDA, o Brimstone é uma arma multi-modo com sistemas de orientação por radar de ondas milimétricas e laser, que permite enfrentar ameaças a longas distâncias dia ou noite e com mau tempo ou em campos de batalha cheios de fumaça, poeira e outros obscurantes.

Brimstone já está em serviço com a Royal Air Force (Real Força Aérea, RAF) e fará parte das opções de armamento para os próximos helicópteros de ataque AH-64E Apache do Exército Britânico. A MBDA (Matra BAe Dynamics Aérospatiale) promove cada vez mais a arma, cada vez mais popular em todo o mundo, como uma opção para aplicações lançadas da superfície, inclusive em veículos terrestres e barcos.A capacidade do míssil de chegar a uma área-alvo geral usando navegação inercial e, em seguida, detectar e engajar alvos de forma autônoma daria ao Streetfighter II uma maneira de enfrentar ameaças que a tripulação do tanque talvez não consiga atacar com seu canhão principal de 120mm ou metralhadoras calibre .50 e 7,62mm. Ele também simplesmente oferece ao tanque uma opção de ataque independente.


Curiosamente ausente nas adições do Streetfighter para o Challenger 2, não existe qualquer tipo de sistema de proteção ativa, que está se tornando cada vez mais predominante em todo o mundo. Esses sistemas, que vêm de várias formas, geralmente são capazes de derrotar foguetes anti-tanque e mísseis guiados  de infantaria. Essas armas se tornaram uma característica crescente em muitos conflitos recentes com atores não-estatais, bem como com forças armadas de estados-nações, cada vez mais armados com tipos avançados.

Um sistema de proteção ativa para hard-kill ou soft-kill*, ou uma combinação de ambos, parece ser uma escolha óbvia a ser adicionada ao tanque Streetfighter II. Os tipos hard-kill usam sensores ligados a alguma forma de um conjunto explosivo, lançador de projéteis ou talvez até eventualmente uma arma de energia direcionada, como um laser, para detectar e derrubar fisicamente foguetes ou mísseis. Os sistemas soft-kill usam bloqueadores eletrônicos de guerra ou armas de energia direcionada para confundir, desativar ou até danificar sistemas de orientação ou outros componentes críticos para neutralizar a ameaça.

*Nota do Tradutor: Algo como abate-duro e abate-brando. O hard-kill geralmente se refere às medidas tomadas no último momento, pouco antes de uma ogiva/míssil atingir seu alvo; em geral afeta fisicamente a ogiva/míssil por meio de ações de explosão e/ou fragmentação. As medidas de soft-kill são aplicadas quando se espera que um sistema de armas baseado em sensor possa ser interferido com sucesso. O sensor de ameaça pode ser artificial, por exemplo, um detector de infravermelho de estado sólido ou o sistema sensorial humano (olho e/ou ouvido).

Ele também não possui estações de armas operadas remotamente para metralhadoras ou outras armas em cima da torre, outro recurso que é cada vez mais comum em veículos blindados em todo o mundo. Esses sistemas oferecem à tripulação de veículos meios adicionais para realmente combater as ameaças que detectam enquanto permanecem pressionados.

É possível que o peso possa ser um fator. Os modelos mais recentes do Challenger 2 já têm quase 83 toneladas quando equipados com kits de blindagem para melhorar sua sobrevivência geral. O Streetfighter II carece notavelmente dessa proteção adicional, mas possui uma lâmina de escavadeira para eliminar obstáculos, que as tropas também usaram como maca móvel improvisada para evacuar o pessoal ferido nos recentes testes em Copehill Down.

Outro tanque de teste Challenger 2 do Exército Britânico, conhecido como Megatron, equipado com vários sistemas de blindagem de apliques, uma cobertura de camuflagem macia que também reduz sua assinatura de infravermelho, uma estação remota de armas e outros recursos que podem ser encontrados em variantes modernizadas no futuro.

O peso do Challenger 2 já foi um fator importante no desenvolvimento das atualizações a serem incluídas no Programa de Extensão de Vida do Challenger 2, ou CLEP (Challenger 2 Life Extension Program), que visa ajudar a manter os tanques em serviço até pelo menos 2035. Isso também impactou sua mobilidade geral. Em 2016, o Exército Britânico contratou separadamente a BAE Systems no Reino Unido e Krauss Maffei Wegmann na Alemanha para trabalhar em conjunto no desenvolvimento de uma novo lançador-de-pontes blindado que pudesse suportar o peso das mais recentes variantes blindadas.

"Espero que esse conceito se torne realidade", disse o Cabo Towers do Royal Tank Regiment. "Isso facilita muito a nossa vida no terreno".

O Streetfighter II é certamente um conceito interessante e as áreas urbanas devem se tornar um campo de batalha mais comum para qualquer exército moderno. Será interessante ver como ele evolui e quais recursos adicionais, como sistemas de proteção ativos, podem ser adicionados com o passar do tempo e o Exército Britânico se aproxima de possíveis exemplos operacionais desses tanques modificados.

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