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quinta-feira, 5 de maio de 2022

As ruínas da cidade síria de Homs

Destruição: Esta vista aérea mostra a destruição no bairro de al-Khalidiyah, em Homs, que viu alguns dos combates mais pesados enquanto as forças do governo tentam expulsar os rebeldes.

Nota do Warfare: As atuais cenas horripilantes de destruição vistas nas cidades ucranianas são um lembrete ao confortável ocidente dos resultados destrutivos do combate de alto poder de fogo. O mesmo padrão de destruição ocorrido na Ucrânia foi realizado primeiro na Síria, conforme a doutrina russa de poder de fogo massivo.

As guerras modernas serão travadas em cidades, onde as pessoas vivem e trabalham, e a recente invasão russa à Ucrânia relembrou o público de que este tipo de ocorrência é possível até mesmo na sofisticada Europa. A geração atual do Ocidente está há 3 gerações separada de uma guerra "próxima de casa", desde que os alemães se renderam em 8 de maio de 1945. Guerras de repente tornaram-se ocorrências estranhas, provenientes apenas de sociedades incivilizadas e atrasadas, que carecem da sofisticação da internet e do voto democrático.


Por Matt Blake, Daily Mail, 29 de julho de 2013.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 5 de maio de 2022.

Terra arrasada: imagens aéreas horripilantes mostram a escala total da destruição da cidade síria de Homs.

Forças sírias dizem ter capturado o distrito de Khaldiyeh, em Homs, um reduto rebelde desde o início da guerra, mas o Observatório Sírio para os Direitos Humanos diz que ainda há combates dispersos nas áreas do sul do bairro. A TV síria transmitiu imagens de tropas perambulando por ruas desertas e agitando bandeiras em frente a prédios marcados por bombas.

Destruído: Os sons de tráfego intenso, mercados movimentados e crianças brincando nas ruas foram substituídos pelo rugido de jatos de combate, bombas explodindo e tiros.

Casa após casa, quarteirão após quarteirão, é uma cena da mais terrível devastação. Nenhum edifício escapou do ataque de incontáveis morteiros, bombas e balas na selvagem guerra civil da Síria. Os únicos sinais de vida em Homs são ervas daninhas fora de controle. A terceira maior cidade da Síria – e lar de 650.000 pessoas antes de dezenas de milhares fugirem ou serem mortas – agora parece ter sido lançada de volta à Idade da Pedra.

A imagem mostra o distrito estratégico de Khalidiya, na cidade, que as tropas leais ao presidente Bashar al-Assad acabaram de retomar após semanas de combates ferozes com os rebeldes. A contra-ofensiva, que também viu o governo obter ganhos em torno da capital Damasco, foi apoiada por guerrilheiros libaneses do Hezbollah. Pelo menos 100.000 pessoas foram mortas no conflito sírio, que começou com protestos pacíficos contra o governo de Assad em março de 2011. Quase dois milhões de refugiados fugiram.

Cascas de casas: A Mesquita Khaled bin Walid está marcada e marcada por estilhaços cuspidos na cidade pelas explosões diárias que atingem a cidade. Além da mesquita, as conchas de prédios e casas dão à cidade a aparência de um deserto pós-apocalíptico.

Trágico: A outrora gloriosa Mesquita Khalid Ibn al-Walid, no fortemente disputado bairro norte de Khaldiyeh, Homs, está em ruínas após ser atingida por bombas durante o longo bombardeio da cidade.

Machucada e batida: Do lado de fora, a Mesquita Khalid Ibn al-Walid não parece muito melhor.

Tropas do governo lançaram uma ofensiva abrangente para retomar áreas controladas por rebeldes de Homs, a terceira maior cidade da Síria, há um mês. Mesmo que pequenos bolsões de resistência permaneçam, a queda de Khaldiyeh para as tropas do regime parecia uma conclusão inevitável, e sua captura seria o segundo grande revés para os rebeldes na Síria central em poucos meses.

No início de junho, as forças do regime capturaram a cidade estratégica de Qusair, na província de Homs, perto da fronteira com o Líbano. As tropas também capturaram a cidade de Talkalakh, outra cidade fronteiriça da província. A província de Homs é a maior da Síria e vai da fronteira libanesa no oeste até a fronteira com o Iraque e a Jordânia no leste. A cidade de Homs tem valor estratégico porque serve como uma encruzilhada: a estrada principal de Damasco ao norte, bem como a região costeira, que é um reduto da seita alauíta do presidente Bashar Assad, passa por Homs. Khaldiyeh tinha uma população de cerca de 80.000 habitantes, mas apenas cerca de 2.000 permanecem lá hoje, pois os moradores fugiram da violência, dizem ativistas. Os fortes combates nos últimos dois anos causaram grandes danos, com alguns edifícios reduzidos a escombros.


Em uma reportagem na segunda-feira, a TV estatal síria disse que "o exército sírio restaurou a segurança e a estabilidade em todo o bairro de Khaldiyeh em Homs". Um repórter de TV sírio incorporado com tropas na área deu uma reportagem ao vivo em frente a prédios danificados. Ele entrevistou um oficial do exército que disse que as tropas travaram uma dura batalha contra os rebeldes que mineravam prédios e lutavam em túneis subterrâneos. "A partir desta manhã, nossas forças armadas em cooperação com as Forças de Defesa Nacional (paramilitares pró-governo) assumiram o controle de Khaldiyeh e agora estão limpando o bairro", disse o oficial, cercado por cerca de uma dúzia de soldados e agentes de segurança à paisana.

"O destino dos terroristas estará sob nossos pés", disse ele, afirmando que todos os Homs serão em breve "limpos" de rebeldes. O Observatório disse que as tropas são apoiadas por membros do grupo libanês Hezbollah. O Hezbollah, que não reconheceu se seus membros estão lutando em Khaldiyeh, desempenhou um papel importante em uma batalha no mês passado em Qusair, nos arredores de Homs, e perdeu dezenas de homens lá.

Cidade fantasma: Muitas das estradas em Homs estão completamente vazias, dando a esta cidade outrora grande a aparência de uma cidade fantasma, habitada apenas por milhares de almas que morreram aqui.

Comovente: Uma cadeira vazia entre as conchas dos edifícios é um lembrete assustador da vida que costumava encher as ruas de Homs. Eles agora estão vazios e desolados.

Sem trégua: jovens sírios inspecionam o local da explosão de um carro-bomba em uma rotatória nos arredores de Homs.

O diretor do Observatório, Rami Abdul-Rahman, disse que as tropas do governo capturaram a maior parte do bairro, além de alguns combates em suas áreas ao sul. Outro ativista da oposição, que falou sob condição de anonimato devido à sensibilidade do assunto, disse que a batalha em Khaldiyeh "está quase no fim". Ele reconheceu que as tropas estão quase no controle total da área.

Na cidade de Aleppo, no norte, várias facções rebeldes, incluindo a Jabhat al-Nusra, ou Frente Nusra, ligada à Al Qaeda, atacaram postos do exército em dois bairros em uma ofensiva intitulada "amputação de infiéis", disse o Observatório. Ele disse que os rebeldes capturaram vários prédios nos bairros de Dahret Abed Rabbo e Lairamoun, e que oito soldados do governo foram mortos.

Fogo e fumaça: Fumaça e chamas elevam-se no bairro Khalidiyah de Homs após um ataque das forças sírias.
Ainda lutando: soldados sírios disparam suas armas enquanto os combates continuam a ocorrer em bolsões da cidade.

Rodando pelos escombros:
Um tanque do governo patrulha o bairro sob uma mortalha de fumaça.

Os rebeldes estiveram na ofensiva na província de Aleppo e capturaram na semana passada a cidade estratégica de Khan el-Assal. Ativistas e a mídia estatal disseram que dezenas de soldados foram mortos ali após sua captura. O Conselho Nacional Sírio, apoiado pelo Ocidente, condenou os assassinatos.

Na região sul de Quneitra, à beira das Colinas de Golã ocupadas por Israel, tropas do governo capturaram a cidade de Mashara na noite de domingo após intensos combates, disse o Observatório.

Vitória? Soldados sírios posam para uma foto segurando a bandeira síria no bairro de al-Khalidiya, que eles afirmam ter garantido.

domingo, 20 de março de 2022

FOTO: Vickers destruído na China

Um Vickers Mark E Tipo B chinês destruído em Suzhou, perto de Xangai, em maio de 1938.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 20 de março de 2022.

Esse Vickers destruído e abandonado é mais um dos muitos tanques usados pelos nacionalistas chineses durante a invasão japonesa iniciada em 1937. Outros veículos incluíram os Panzer I alemães, T-26 soviéticos, o velho Renault FT-17 francês, os tankettes CV-35 italianos e até mesmo carros anfíbios Vickers Carden Loyd.

Em 1935, o governo chinês comprou 20 tanques de torre única Vickers Mark E Tipo B, de um modelo padrão. No ano seguinte foram comprados mais 4, equipados com rádios Marconi G2A em nicho de torre (ao contrário do que se costuma repetir em publicações, não eram tanques Mark F, nem sequer tinham cascos Mark F, o que fica evidente nas fotos).

Vickers Mark E capturado pelos japoneses em Xangai, 22 de agosto de 1937.
A torre apresenta furos e antena de rádio.

Os tanques chineses Mark E foram distribuídos entre o 1º Batalhão Blindado em Xangai (3 tanques, com 29 tanques anfíbios VCL Modelo 1931) e o 2º Batalhão Blindado em Xangai (17 tanques Mk.E junto com 16 de outros modelos).  No total, essas unidades tinham 30 tanques cada – os outros 40 veículos eram quase certamente os outros tipos vendidos pela Vickers. Ambos os batalhões foram intensamente utilizados na luta contra os japonesas em Xangai, entre 13 de setembro e 9 de novembro de 1937. No entanto, os tanques foram empregados em combates urbanos e as tripulações chinesas eram mal-treinados, o que os levou a sofrer grandes perdas - cerca de metade dos tanques foram perdidos no total. Mesmo com as ruas às vezes estreitas de Xangai, todos os tanques Vickers vendidos para a China eram bastante pequenos e não teriam problemas em trafegar por Xangai. No entanto, ao empregar seus tanques, os chineses deixaram de isolar as ruas adjacentes, o que significava que os japoneses poderiam flanqueá-los e destruí-los.

Evidências fotográficas indicam que os veículos foram destruídos por canhões anti-carro ou tanques japoneses, que poderiam perfurar diretamente a torre do Mark E Tipo B. Com apenas 25,4mm de blindagem rebitada, não é surpresa que eles tenham sido colocados fora de ação com tanta frequência. Peter Harmsen, no livro Shanghai 1937: Stalingrad on the Yangtze, relata um incidente em 20 de agosto de 1937, na frente de Yangshupu. O General Zhang Zhizhong estava inspecionando um número desconhecido de tanques e conversou com um jovem oficial tanquista. O oficial reclamou que o fogo inimigo era muito feroz e que a infantaria não conseguia acompanhar os tanques. Logo após essa discussão, os tanques iniciaram um ataque, mas todos foram destruídos por projéteis disparados principalmente pelos navios japoneses ancorados no rio Huangpu.

Soldados japoneses posando com um Vickers Mark E capturado em Xangai, 1937.

Depois que a força blindada chinesa foi na maior parte destruída nas batalhas de Xangai e Nanquim, novos tanques, carros blindados e caminhões da União Soviética e da Itália tornaram possível criar a única divisão mecanizada do exército, a 200ª Divisão "Divisão de Ferro", aconselhada e organizada pelos soviéticos.

Os tanques Vickers Mark E restantes foram reunidos em um batalhão e incluídos na 200ª Divisão mecanizada, formada em 1938, a qual consistia em um regimento de tanques e um regimento de infantaria motorizado, e equipado com o tanque leve soviético T-26. Esta Divisão sofreu pesadas perdas em uma contra-ofensiva em Nanquim e na passagem de Kunlun em 1940, perdendo a maior parte do seu equipamento. O destino detalhado dos tanques Vickers Mk.E não é conhecido.

Cartão postal japonês mostrando um Vickers Mark E Tipo B capturado em Xangai.

Bibliografia recomendada:

China's Wars: Rousing the Dragon 1894-1949,
Philip Jowett.

Leitura recomendada:

terça-feira, 1 de março de 2022

O Misterioso Caso da Força Aérea Russa Desaparecida

Por Justin Bronk, Rusi, 28 de fevereiro de 2022.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 28 de fevereiro de 2022.

No quinto dia da invasão russa da Ucrânia, uma das muitas perguntas não respondidas é por que a Rússia lançou uma campanha militar a um custo enorme com objetivos maximalistas e depois se recusou a usar a grande maioria de suas aeronaves de combate de asa fixa.

A invasão russa da Ucrânia começou como esperado nas primeiras horas de 24 de fevereiro: uma grande salva de mísseis balísticos e de cruzeiro destruiu os principais radares terrestres de alerta precoce em toda a Ucrânia. O resultado foi efetivamente cegar a Força Aérea Ucraniana (Ukrainian Air ForceUkrAF) e, em alguns casos, também dificultar os movimentos das aeronaves, criando crateras nas pistas decolagem e pistas de taxiamento em suas principais bases aéreas. Os ataques também atingiram várias baterias de mísseis terra-ar (surface-to-air missileSAM) S-300P de longo alcance ucranianos, que tinham mobilidade limitada devido à falta de peças sobressalentes a longo prazo. Esses ataques iniciais seguiram o padrão visto em muitas intervenções lideradas pelos EUA desde o fim da Guerra Fria. O próximo passo lógico e amplamente antecipado, como visto em quase todos os conflitos militares desde 1938, teria sido que as Forças Aeroespaciais Russas (Воздушно-космические силы / Vozdushno-kosmicheskiye silyVKS) montassem operações de ataque em larga escala para destruir a UkrAF. Com sua cadeia de alerta precoce cega e algumas pistas com crateras, a UkrAF ficou vulnerável a ataques de aeronaves de ataque como o Su-34 com munições guiadas, ou mesmo caças multifunção Su-30 com munições predominantemente não guiadas. Se presentes em números significativos, a escolta de caças Su-35 e Su-30 teria sobrecarregado os caças ucranianos, mesmo que conseguissem decolar para surtidas realizadas em altitudes muito baixas com consciência situacional limitada. Isso não aconteceu.

Em vez disso, os cerca de 300 aviões de combate modernos que a VKS posicionou dentro do alcance fácil das principais zonas de contato no norte, leste e sul da Ucrânia parecem ter permanecido no solo durante os primeiros quatro dias de combate. Isso permitiu que a UkrAF continuasse voando defensivas contra-aéreas (defensive counter-airDCA) de baixa altitude e missões de ataque ao solo, e estas parecem ter tido alguns sucessos na interceptação de helicópteros de ataque russos. O fato de que as tropas e civis ucranianos foram capazes de ver (e rapidamente mitificar) seus próprios pilotos continuando a voar sobre as grandes cidades também foi um importante fator de elevação do moral que ajudou a solidificar o extraordinário espírito de resistência unificada demonstrado em todo o país. A falta de caças russos de asa fixa e surtidas de aeronaves de ataque também permitiu que operadores de SAM e tropas ucranianas com MANPADS, como o míssil Stinger, fabricado nos EUA, engajassem helicópteros e transportes russos com risco significativamente menor de retaliação imediata. Isso, por sua vez, contribuiu para a significativa falta de sucesso e pesadas perdas sofridas durante as operações de assalto aeromóvel russas.

Além disso, a quase total falta de varreduras antiaéreas ofensivas russas (offensive counter-airOCA) foi associada a uma coordenação muito ruim entre os movimentos das forças terrestres russas e seus próprios sistemas de defesa aérea de médio e curto alcance. Várias colunas russas foram enviadas para além do alcance de sua própria cobertura de defesa aérea e, em outros casos, as baterias de SAM foram pegas inativas em engarrafamentos militares sem fazer nenhum esforço aparente para fornecer consciência situacional e defesa contra ativos aéreos ucranianos. Isso permitiu que os VANTs armados Bayraktar TB-2 ucranianos sobreviventes operassem com considerável eficácia em algumas áreas, causando perdas significativas nas colunas de veículos russos.

Possíveis explicações

"Infelizmente, a forma indiscriminada de ataque aéreo que era prática padrão para as operações das forças aéreas Russa e Síria em Aleppo e Homs provavelmente será empregada pela VKS sobre a Ucrânia nos próximos dias."

Existem vários fatores que podem estar contribuindo para a falta de capacidade russa de alcançar e explorar a superioridade aérea, apesar de suas enormes vantagens em número de aeronaves, capacidade de equipamentos e habilitadores como o AWACS em comparação com a UkrAF. A primeira é a quantidade limitada de munições guiadas de precisão (precision-guided munitionsPGMs) lançadas pelo ar disponíveis para a maioria das unidades de caça da VKS. Durante as operações de combate sobre a Síria, apenas a frota de Su-34 fez uso regular de PGMs, e mesmo essas aeronaves de ataque especializadas recorreram regularmente a bombas não-guiadas e ataques com foguetes. Isso não apenas indica uma familiaridade muito limitada com os PGMs entre a maioria das tripulações de caça russas, mas também reforça a teoria amplamente aceita de que o estoque de PGMs russos é muito limitado. Anos de operações de combate na Síria terão esgotado ainda mais esse estoque, e podem significar que a maior parte dos 300 aviões de combate de asa fixa da VKS reunidos em torno da Ucrânia têm apenas bombas e foguetes não-guiados para serem usados em missões de ataque ao solo. Isso, combinado com a falta de pods de mira para detectar e identificar alvos no campo de batalha a uma distância segura, significa que a capacidade dos pilotos de asa fixa da VKS de fornecer apoio aéreo aproximado para suas forças é limitada. Como resultado, a liderança da VKS pode estar relutante em comprometer a maior parte de seu poder de ataque potencial contra as tropas ucranianas antes que a aprovação política seja concedida para empregar munições não-guiadas para bombardear áreas urbanas controladas pela Ucrânia. Essa forma indiscriminada de ataque aéreo era prática padrão para operações da forças aéreas Russa e Síria em Aleppo e Homs e, infelizmente, provavelmente será empregada pela VKS sobre a Ucrânia nos próximos dias.

A falta de PGMs, no entanto, não é uma explicação suficiente para a falta geral de atividade de asa fixa da VKS. Os aviônicos relativamente modernos na maioria de suas plataformas de ataque significam que mesmo bombas e foguetes não-guiados ainda deveriam ter sido suficientes para infligir grandes danos a aeronaves ucranianas em suas bases aéreas. A VKS também tem cerca de 80 caças Su-35S modernos e capazes de superioridade aérea e 110 caças multifunção Su-30SM(2), que podem realizar varreduras OCA e DCA. A incapacidade de estabelecer superioridade aérea, portanto, não pode ser puramente explicada pela falta de PGMs adequados.

Outra explicação potencial é que a VKS não está confiante em sua capacidade de desconflitar com segurança surtidas em larga escala com a atividade de SAMs terrestres russos operados pelas Forças Terrestres. Incidentes de fogo amigo por unidades SAM terrestres têm sido um problema para as forças aéreas ocidentais e russas em vários conflitos desde 1990. Executando zonas de engajamento conjunto nas quais aeronaves de combate e sistemas SAM podem engajar forças inimigas simultaneamente em um ambiente complexo sem incidentes de tiro é difícil; requer estreita cooperação entre serviços, excelentes comunicações e treinamento regular para dominar. Até agora, as forças russas mostraram uma coordenação extremamente pobre em todos os aspectos, desde tarefas logísticas básicas até a coordenação de ataques aéreos com atividades de forças terrestres e organização de cobertura de defesa aérea para colunas em movimento. Neste contexto, pode ser que tenha sido tomada a decisão de deixar a tarefa de negar à UkrAF a capacidade de operar para os sistemas SAM baseados em terra, com o entendimento explícito de que isso seria feito em vez de operações aéreas da VKS em grande escala. No entanto, mais uma vez, isso não é uma explicação suficiente em si, uma vez que, devido aos recursos limitados de caças e SAM disponíveis para as forças ucranianas nesta fase, a VKS ainda poderia ter realizado missões em larga escala contra alvos-chave em horários pré-estabelecidos, durante os quais SAMs russos poderiam ser instruídos a cessar o fogo.

"A liderança da VKS pode hesitar em se comprometer com operações de combate em larga escala que mostrariam a lacuna entre as percepções externas e a realidade de suas capacidades."

Um último fator a ser considerado é o número relativamente baixo de horas de vôo que os pilotos da VKS recebem a cada ano em relação à maioria de seus colegas ocidentais. Embora seja difícil encontrar números precisos em cada unidade, declarações oficiais russas periódicas sugerem uma média de 100 a 120 horas por ano na VKS como um todo. As horas de vôo das unidades de caça provavelmente serão menores do que as de unidades de transporte ou helicóptero, então o número real é provavelmente um pouco menos de 100 horas de vôo por ano, acesso a simuladores modernos de alta fidelidade para treinamento adicional e melhor ergonomia do cockpit e interfaces de armas do que seus colegas russos. Portanto, pode ser que, apesar de um impressionante programa de modernização que viu a aquisição de cerca de 350 novas aeronaves de combate modernas na última década, os pilotos da VKS tenham dificuldades para empregar efetivamente muitas das capacidades teóricas de suas aeronaves no ambiente aéreo complexo e contestado da Ucrânia. Se for esse o caso, a liderança da VKS pode hesitar em se comprometer com operações de combate em larga escala que mostrariam a lacuna entre as percepções externas e a realidade de suas capacidades.

No entanto, é importante lembrar que estamos apenas a cinco dias do que poderia facilmente se transformar em uma campanha prolongada. O fato de que houve apenas alguns avistamentos confirmados de surtidas de asa fixa russas sobre a Ucrânia não deve obscurecer o fato de que as frotas de caças da VKS continuam sendo uma força potencialmente altamente destrutiva e que poderia ser desencadeada contra alvos aéreos e terrestres fixos em curto prazo nos próximos dias.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

FOTO: Iranianos em combate urbano em Khorramshahr

Soldados iranianos em combate na cidade de Khorramshahr, 1980.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 8 de fevereiro de 2022.

Soldados iranianos em combate urbano contra os iraquianos. Eles estão equipados com capacetes M1 americanos e fuzis HK G3 alemães.

A Batalha de Khorramshahr foi um grande confronto entre o Iraque e o Irã na Guerra Irã-Iraque. A batalha ocorreu de 22 de setembro a 10 de novembro de 1980. Amplamente conhecida por sua brutalidade e condições violentas, Khorramshahr passou a ser chamada pelos iranianos de Khuninshahr (em persa: خونین شهر), "Cidade de Sangue". Khorramshahr caiu nas mãos dos iraquianos em 10 de novembro de 1980, e permaneceu ocupada por quase dois anos. A sua defesa e libertação tornou-se um grito nacional iraniano.

Soldados iranianos armados com fuzis HK G3, metralhadora MG3 e lança-rojão RPG-7.

A batalha durou 34 dias e sugou as forças iraquianas muito além do que os planos de guerra do Iraque previam. Quatro generais iraquianos morreram por Khorramshahr, três deles executados por sugerirem que o exército evacuasse a cidade. Por sua vez, esta batalha permitiu ao Irã estabilizar as linhas de frente em Dezful, Ahvaz e Susangerd, e mover reforços para o Cuzestão. Khorramshahr estava sendo defendida principalmente pelos Comandos da Marinha - o 1º Batalhão de Fuzileiros Navais Takavar na Base Naval de Khorramshahr -, em grande desvantagem numérica, algumas unidades da 92ª Divisão Blindada, combatentes Pasdaran e voluntários civis.

Khorramshahr eventualmente foi recapturada recapturado pelos iranianos durante a Operação Beit-ol-Moqaddas em 1982, um ponto de virada na guerra - à partir de então, travada em solo iraquiano.

terça-feira, 25 de janeiro de 2022

FOTO: Merkava em treinamento urbano.


Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 25 de janeiro de 2022.

Um Merkava israelense realizando treinamento operando seus tanques por entre contêiners simulando edifícios para imitar o combate urbano, onde as linhas de visão, a liberação do cano e o movimento do veículo podem ser fortemente restritos.

A Força de Defesa de Israel (FDI) tem vasta experiência em terrenos densamente urbanizados, e o Merkava é o único tanque principal de batalha (main battle tank, MBT) projetado especificamente para este ambiente; incluindo a capacidade de transportar quatro fuzileiros.


domingo, 1 de agosto de 2021

GALERIA: Treinamento de reservistas do 3e RMAT com o FAMAS


Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 1º de agosto de 2021.

Cena de combate em localidade dos reservistas do 3º Regimento de Material Bélico (3e régiment du Matériel, 3e RMAT) de Muret, com fuzis FAMAS F1 e munição de festim, no dia 27 de julho de 2021. O exercício de combate urbano ocorrera depois de 10 dias de treinamento, certificando os militares na  companhia de intervenção e de reserva do regimento (compagnie d’intervention et de réserve).

O 3e RMAT é o único regimento orientado para o paraquedismo na arma de Material Bélico do Exército Francês, e é uma das 10 formações ainda ativas no Comando de Manutenção da Força (Commandement de la maintenance des forces, COMMF)O regimento foi criado em Compiègne em 1961, estabelecido em 1º de julho de 1985 em Beauvais, depois dissolvido em 31 de julho de 1993 e recriado em Muret em 1º de julho de 1999. Herdeiro do estabelecimento de material bélico de Muret do qual recuperou o infraestrutura, ele também é herdeiro do 14º Regimento de Paraquedistas de Comando e Apoio (14e Régiment parachutiste de commandement et de soutien), do qual absorve duas companhias paraquedistas de manutenção móvel.



Desde o verão de 2010, o regimento já acolheu dois destacamentos: um localizado em Vayres perto de Bordéus, com sua especialização em manutenção eletrônica, o outro localizado em Montauban especializado na manutenção de equipamentos de largagem e paraquedismo. Seu lema é "Savoir-faire" ("Saber fazer"). Sua missão é a aquisição, reparo e gestão de materiais, e seu efetivos é de 1.200 militares.

A parte central está estacionada desde a sua recriação em 1º de julho de 1999 no quartel Commandant-Montalègre em Muret. Desde 1º de agosto de 2012, após o repatriamento das várias seções destacadas (Tarbes, Brive e Pau) e a criação do (Serviço Interarmas de Munições Service interarmées des munitions, SIMu), o regimento tem apenas dois destacamentos dentro do quartel Commandant-Corvée em Vayres e do quartel Capitaine-Vergnes em Montauban.


Bibliografia recomendada:

Le FAMAS et son histoire.
Jean Huon.

Introdução à Logística:
Fundamentos, práticas e integração.
Marco Aurélio Dias.

Leitura recomendada:




sábado, 27 de março de 2021

Os combates de rua na Batalha de Saigon

Paraquedistas sul-vietnamitas cercaram os rebeldes Binh Xuyen em frente à Escola Petrus Ky, na rua Cong Hoa, durante a Batalha de Saigon, em 28 de abril de 1955.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 27 de março de 2021.

A Batalha de Saigon (Operação Rung Sat) foi uma confrontação urbana de um mês entre o Exército Nacional Vietnamita e o exército privado do sindicato do crime organizado Binh Xuyen ocorrida de 28 a 30 de abril de 1955, no período em que o governo central de Saigon estava consolidando-se como um Estado. A batalha começou ao meio-dia de 28 de abril de 1955 e o ANV esmagou amplamente o Binh Xuyen em uma semana. Os combates se concentraram principalmente no distrito comercial chinês de Cholon, no centro da cidade. A área densamente povoada viu cerca de 500-1000 mortes e até 20.000 civis desabrigados no fogo cruzado. Os combates de limpeza fora de Saigon continuaram até maio.

O Binh Xuyen era uma organização criminosa que controlava atividades ilegais em Saigon, especialmente no distrito comercial chinês de Cho Lon, que cresceu o bastante para formar forças paramilitares e controlar regiões no Vietnã, seguindo a tradição regional de exércitos particulares. Os combates entre o Binh Xuyen e o Exército Nacional Vietnamita (Armée Nationale Vietnamien, ANV) se iniciaram em 28 de abril de 1955, após uma campanha de atentados à bomba por conta do ultimado do primeiro-ministro Ngo Dinh Diem para que o Exército Binh Xuyen fosse absorvido pelo ANV e ficasse sob a autoridade do Estado vietnamita. A batalha terminou em maio de 1955 com a vitória total do ANV e a completa destruição da organização criminosa.

Origem

Os grupos Binh Xuyen surgiram pela primeira vez no início dos anos 1920 como uma coalizão vagamente organizada de gangues e trabalhadores contratados com cerca de duzentos a trezentos homens. A história inicial de Binh Xuyen consistia em ciclos de sequestro, pirataria, perseguição e, ocasionalmente, prisão. Nos 1920-40, o Binh Xuyen sofreu pesada infiltração de comunistas através dos trabalhadores sindicalizados e participaram do grande levante comunista de 1940, e da guerra contra os franceses em 1945 ao lado do Viet Minh. Rapidamente derrotados, o Binh Xuyen se fragmentou e, para sobreviver como organização, seu líder Bay Vien se aliou ao serviço secreto francês (Deuxième Bureau) depois de escapar de uma tentativa de assassinato, protegido por duas companhias de capangas leais. Em junho de 1948, Bay Vien tornou-se coronel encarregado das Forças Auxiliares Binh Xuyen, reportando-se temporariamente a Tran Van Huru, vice-primeiro-ministro do governo provisório do Vietnã e governador de Nam Phan.

As autoridades francesas no Vietnã do Sul deram a Vien o controle total de Saigon-Cholon (Sài Gòn – Chợ Lớn), sob a condição de que ele destruísse a infraestrutura comunista da cidade. O conhecimento de Bay Vien sobre o Viet Minh e seu desejo de destruir as tropas de seu adversário Nguyen Binh em Saigon possibilitaram que ele destruísse as forças comunistas em muito pouco tempo. O governo colonial francês recompensou o sucesso do Binh Xuyen permitindo que Bay Vien monopolizasse a indústria de caminhões na Cochinchina (sul do Vietnã) e permitindo que o chefão operasse como um senhor da guerra. Bay Vien foi promovido a Général de division (General-de-Divisão, três estrelas).

Em 1949, o Imperador Bao Dai tornou-se o Chefe de Estado do recém-formado Estado do Vietnã. Para resolver o problema de ter que espalhar muito o Exército Nacional Vietnamita na guerra contra o Viet Minh, ele decretou todas as forças militares não-comunistas do país como exércitos independentes dentro do exército convencional. Bay Vien recebeu o posto de Major General do Exército Nacional Vietnamita após a operação para limpar a Rota Colonial 15 e suas tropas se tornaram o Exército Binh Xuyen (QDQG Bình Xuyên), que era um exército autofinanciado com receitas de bordéis e cassinos administrados legalmente; Bay Vien tomou à força o controle dos cassinos de grupos do crime organizado macaense.

O General Vien fez acordos com Bao Dai, garantindo-lhe o controle de seus próprios assuntos em troca de seu apoio nominal ao regime, assim como fizera com o governo colonial francês. Em março de 1955, o grupo juntou-se ao Cao Dai e Hoa Hao na formação de uma "Frente Unida das Forças Nacionais". Nesse período, o Exército Binh Xuyen tinha cinco batalhões de infantaria regulares e dois batalhões de tropas de choque de segurança pública (Công an xung phong). Essa força privada era poderosa demais e o novo primeiro-ministro do recém-independente Vietnã, Ngo Dinh Diem emitiu um ultimato para que eles se rendessem e ficassem sob o controle do Estado.

Na meia-noite de 29 a 30 de março, explosões abalaram Saigon enquanto o Binh Xuyen respondia à remoção de seu chefe de polícia por Diem. 200 tropas do Binh Xuyen atacaram a sede do ANV. Os confrontos foram inconclusivos, com o ANV sofrendo seis mortos para os 10 de seus oponentes, mas ao nascer do sol, os corpos de civis espalhavam-se pelas as calçadas.

A batalha

Paraquedistas do ANV em durante os combates, com fumaça ao fundo. O soldado à retaguarda carrega um FM Châtellerault 24/29 francês.

A batalha final entre o ANV de Diệm e o Binh Xuyen começou no dia 28 de abril ao meio-dia. Após a troca inicial de tiros de armas portáteis e morteiros, o ANV recorreu à artilharia mais pesada de seu arsenal. Isso coincidiu com os crescentes pedidos de dentro do governo Eisenhower para se livrar de Diem porque Eisenhower acreditava que ele não seria capaz de subjugar o Binh Xuyen e unificar o país. Ao anoitecer, uma grande parte do centro da cidade foi engolfada pelo combate de casa em casa. Na manhã de 29 de abril, o conflito jogou milhares de civis para fora de suas casas. Um quilômetro quadrado da cidade, em torno do densamente povoado distrito chinês de Cholon, onde o Binh Xuyen tinha uma fortaleza, tornou-se uma zona de fogo livre. Artilharia e morteiros arrasaram os bairros pobres da cidade, matando quinhentos civis e deixando 20 mil desabrigados.

Os observadores descreveram que o combate de ambos os lados carecia de estratégia e dependia de táticas de desgaste de força bruta. Uma das poucas manobras consideradas táticas foi uma tentativa do ANV de cortar os reforços de Bình Xuyen demolindo a ponte que cruza o canal Saigon-Cholon. Isso foi respondido com o Binh Xuyen lançou pontes flutuantes sobre o canal. Parecia que o conflito seria determinado pelo lado que fosse capaz de absorver o maior número de perdas. Aproximadamente 300 combatentes foram mortos no primeiro dia de combate.


Na manhã de 29 de abril, em Washington, John Foster Dulles, o Secretário de Estado dos EUA ligou para J. Lawton Collins para suspender as medidas destinadas a substituir Diem. Eisenhower determinou que eles deveriam ser colocados em espera enquanto se aguardava o resultado da operação do ANV. Collins e Dulles entraram em confronto na reunião do Conselho de Segurança Nacional (National Security Council, NSC), com Collins pedindo veementemente a remoção de Diem. Collins continuou a argumentar que a tentativa de destruir os Binh Xuyen pela força produziria uma guerra civil. O NSC endossou a posição de Dulles.

Após 48 horas de combate, o ANV começou a ganhar vantagem. Le Grand Monde, anteriormente o maior estabelecimento de jogos de Bay Vien e servindo temporariamente como cidadela do Binh Xuyen, foi tomado de assalto pelos paraquedistas de Diem após uma luta que causou pesadas perdas para ambos os lados. O ANV então tomou de assalto uma das fortalezas mais pesadamente fortificadas do Binh Xuyen, a Escola de Ensino Médio Petrus Ký, na rua Cong Hoa (na era francesa, era a rua Nancy, hoje Nguyen Van Cu) em Cholon. Quando Collins voltou ao Vietnã do Sul, em 2 de maio, a batalha estava quase vencida. As forças Binh Xuyen foram derrotadas e em retirada e seus postos de comando foram destruídos. O quartel-general de Bay Vien estava sendo bombardeado e seus tigres, pítons e crocodilos lá dentro foram mortos por ataques de morteiros e bombardeios.

Ngo Dinh Diem saiu vitorioso da operação: Bay Vien fugiu para Paris para viver sua vida com os lucros de seus empreendimentos criminosos, e o ANV perseguiu os remanescentes do Binh Xuyen no delta do Mekong, perto da fronteira com o Camboja. Em Saigon, multidões exultantes se reuniram em frente à residência de Diem gritando "Đả đảo Bảo Đại!" (que significa "Abaixo Bao Dại!").


Bibliografia recomendada:

The Twenty-Five Year Century:
A South Vietnamese General remembers the Indochina War to the Fall of Saigon.
General Lam Quang Thi.

Leitura recomendada:

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

Cinco lições das guerras de Israel em Gaza

Por Raphael S. Cohen, War on the Rocks, 3 de agosto de 2017.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 10 de fevereiro de 2021.

“Queremos quebrar seus ossos sem colocá-los no hospital.”

– Um analista de defesa israelense, Tel Aviv, Israel, 22 de maio de 2016.

Israel enfrenta um dilema estratégico único ao longo de sua fronteira ocidental. Desde que o grupo militante islâmico Hamas assumiu Gaza em 2007, o Hamas e Israel têm se envolvido em uma violência contínua na mesma moeda nesta estreita faixa de terra ao longo do Mar Mediterrâneo. Essa violência de baixa intensidade se transformou em uma guerra total três vezes: Operações Chumbo Fundido (2009), Pilar de Defesa, (2012) e Borda Protetora (2014). No entanto, por mais que Israel desdenhe o Hamas, Israel não pode simplesmente se livrar dele, porque não quer governar Gaza e porque teme o que pode acontecer a seguir. O desafio estratégico passa a ser como deter a violência do Hamas, mas mantê-los firmemente no controle da Faixa, ou, nas palavras do analista citado acima, "quebrar seus ossos, mas não mandá-los para o hospital".

Os desafios de Israel em Gaza são compostos por dois fatores adicionais. Embora Israel, os Estados Unidos e outros considerem o Hamas uma organização terrorista, ele governa Gaza como um pseudo-Estado - tornando o Hamas um ator híbrido clássico com capacidades além daquelas de muitos outros grupos terroristas. Além disso, Gaza é também uma das áreas mais densamente povoadas do mundo, forçando as Forças de Defesa de Israel (IDF) a operarem contra um adversário que está inserido em uma população civil.

As operações da IDF em Gaza fornecem um exemplo dos desafios que as forças armadas avançadas enfrentam ao confrontar adversários determinados, adaptáveis e híbridos em terreno urbano denso. Em particular, o último confronto - a Operação Borda Protetora de 51 dias de duração - ensina cinco lições básicas que se aplicam bem além de Gaza.

Lição 1: O poder aéreo enfrenta sérias limitações em terreno urbano denso

No início da década de 2010, Israel foi vítima do que Eliot Cohen certa vez chamou de "a mística do poder aéreo". Aproveitando as lições das experiências americanas na Tempestade no Deserto em 1994, Cohen argumentou que o poder aéreo de precisão parece fornecer uma panaceia estratégica - oferecendo aos formuladores de políticas a capacidade de realizar fins estratégicos sem pagar o custo em sangue e tesouro:

O poder aéreo é uma forma extraordinariamente sedutora de força militar, em parte porque, como o namoro moderno, parece oferecer gratificação sem compromisso.

Mas Cohen disse que isso era uma ilusão. Na realidade, disse ele, os efeitos do poder aéreo são limitados e os ataques aéreos não podem obscurecer a "confusão e brutalidade inerentes" das guerras.

Israel teve que reaprender essa lição em Gaza. Para muitos estrategistas israelenses, a Operação Pilar de Defesa estabeleceu essa mística quando oito dias de ataques aéreos pareciam interromper o lançamento de foguetes do Hamas. Essa conclusão se mostrou errada. Embora o poder aéreo visasse com êxito os líderes seniores do Hamas e locais de abastecimento, não foi esse o motivo pelo qual a operação foi tão curta, nem foi a causa da frágil calma que se seguiu. Em última análise, o cessar-fogo teve mais a ver com o sucesso da diplomacia, especificamente os esforços do Egito de Mohamed Morsi. Consequentemente, quando as condições políticas mudaram, cerca de dois anos depois, outra guerra de Gaza estourou.

Em 2014, a Operação Borda Protetora destruiu a ilusão da onipotência do poder aéreo. Durante a primeira fase da campanha, que durou aproximadamente de 8 a 16 de julho, a Força Aérea Israelense tentou repetir seu manual da Operação Pilar de Defesa e conduziu cerca de 1.700 ataques. Ainda assim, o poder aéreo sozinho não conseguiu acabar com a ameaça de foguetes de Gaza. Também falhou em conter efetivamente a nova tática do Hamas - túneis escavados em cidades vizinhas de Israel - uma vez que os próprios túneis eram subterrâneos e suas aberturas muitas vezes não eram detectadas por aeronaves. Em última análise, o poder aéreo falhou em encerrar o conflito e as IDF aprenderam da maneira mais difícil que alguns alvos precisavam ser destruídos no solo.

Lição 2: Operações terrestres em áreas urbanas nunca são sem sangue

Na maior parte, as IDF mantiveram sua ofensiva limitada, mas ainda assim não conseguiu evitar destruição. A batalha de Shuja’iya talvez seja a melhor demonstração desse truísmo. Shuja’iya era um bairro densamente povoado da Cidade de Gaza e uma fortaleza do Hamas. Após três dias de lançamento de panfletos alertando os civis sobre uma operação iminente, as IDF lançaram uma operação na noite de 19 de julho para destruir seis operações em túneis transfronteiriços. Depois que um veículo blindado quebrou, militantes do Hamas emboscaram o veículo, matando seus sete ocupantes. As tentativas israelenses de chegar ao veículo encontraram forte resistência, as baixas aumentaram e a situação se desintegrou. O comandante da brigada que liderava a operação estava ferido e precisava ser evacuado. As IDF responderam com um uso massivo de poder de fogo - disparando pelo menos 600 tiros de artilharia e lançando pelo menos 100 bombas de uma tonelada - para neutralizar os combatentes do Hamas. No final, a batalha ceifou a vida de pelo menos 13 soldados das IDF e 65 combatentes palestinos e civis e deixou centenas de feridos. O nível de violência pegou até mesmo alguns observadores veteranos desprevenidos. Após a batalha, o Secretário de Estado John Kerry - ele próprio um veterano da Guerra do Vietnã e não estranho ao combate - comentou, incrédulo: "É uma bela de uma operação de precisão".

Infelizmente, as experiências das IDF em Gaza não são únicas. Os Estados Unidos aprenderam lições semelhantes em Mogadíscio, na Somália, em 1993 ou mais recentemente, na Batalha de Fallujah em 2004 e na Batalha de Sadr City em 2008, no Iraque. Apesar de todas as vantagens tecnológicas em inteligência e armamento de precisão disponíveis para as forças armadas ocidentais modernas, quando as forças terrestres convencionais encontram resistência determinada em terreno urbano, o resultado nunca é uma operação limpa e sem derramamento de sangue.

Lição 3: Forças armadas ocidentais não conseguem escapar da "Lawfare"

Em parte porque as operações terrestres são assuntos inerentemente sangrentos, é quase inevitável que a luta se estenda do campo de batalha ao tribunal. O ex-juiz-adjunto do advogado-geral da Força Aérea dos Estados Unidos, Charles Dunlap, denominou esse fenômeno de "lawfare" ("guerra da lei"), descrevendo-o como "a estratégia de usar - ou abusar - da lei como substituto dos meios militares tradicionais para atingir um objetivo operacional". E durante as guerras de Israel em Gaza, as FDI estavam perfeitamente cientes desta dimensão da luta.

Os esforços das IDF para combater a lawfare evoluíram durante suas guerras em Gaza. Enviando advogados para atuar como consultores jurídicos em níveis inferiores de comando e os integrando melhor ao processo de seleção de alvos. Estabeleceu medidas, administradas de forma centralizada pela liderança sênior, para definir níveis “aceitáveis” de tolerância ao risco para danos colaterais. As IDF até fizeram experiências com a realização proativa de conduzir “lawfare” para justificar preventivamente o porquê de qualquer operação estar dentro dos limites legais. E, no entanto, como os próprios oficiais das IDF admitem, as IDF ainda podem não ter vencido a batalha judicial de lawfare. Na verdade, Israel ainda está sob intenso escrutínio de organizações não-governamentais e das Nações Unidas após a Operação Borda Protetora em 2014, assim como durante suas guerras anteriores em Gaza.

Embora por uma variedade de razões Israel domine os holofotes jurídicos internacionais, todos as forças armadas ocidentais ainda lutam para encontrar uma resposta aos desafios da lawfare. Embora os Estados Unidos sejam comparativamente mais imunes à "guerra da lei" do que Israel - na verdade, a embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Nikki Haley, recentemente acusou o Conselho de Direitos Humanos da ONU de um "viés anti-Israel crônico" - os Estados Unidos também enfrentam situações semelhantes críticas sobre os maus usos e abusos da força, seja no Afeganistão, Iraque, Síria ou em outro lugar.

Lição 4: A luta urbana não pode ser evitada

Se o poder aéreo for ineficaz e as operações terrestres forem sangrentas e que provavelmente acabarão em tribunal, podem as forças armadas simplesmente neutralizarem a ameaça que emana das áreas urbanas e evitar completamente a luta urbana? Até certo ponto, Israel tentou essa abordagem. O desenvolvimento do sistema de defesa antimísseis Iron Dome (Cúpula de Ferro) permitiu-lhe proteger grande parte de sua população dos ataques de foguetes do Hamas e aliviou a pressão sobre os legisladores israelenses para ordenar operações militares mais agressivas. Dito isso, essa abordagem foi apenas até certo ponto. Os ataques de foguetes do Hamas - mesmo que em grande parte neutralizados pela Cúpula de Ferro - ainda forçaram os israelenses a correr para abrigos e interromperam a vida diária. Além disso, a Cúpula de Ferro nada fez para proteger seus cidadãos de outras ameaças do Hamas, como ataques de túneis. No final, enquanto não houver um acordo de paz entre o Hamas e Israel, as IDF precisarão lutar em Gaza, queira ou não.

Os Estados Unidos chegaram a uma conclusão semelhante. Como observou o Chefe do Estado-Maior do Exército dos EUA, General Mark Milley, no ano passado:

"No futuro, posso dizer com muito alto grau de confiança, o Exército americano provavelmente estará lutando em áreas urbanas. Precisamos recrutar, organizar, treinar e equipar a força para operações em áreas urbanas, áreas urbanas altamente densas, e isso é uma construção diferente. Não estamos organizados assim agora."

Embora o Exército dos EUA não queira lutar nas cidades, é lá que a esmagadora maioria das pessoas viverá no futuro e, portanto, gostemos ou não, é lá que - na estimativa de Milley - as guerras do futuro estarão.

A Lição Elusiva: Transformando o sucesso em uma vitória duradoura

Depois de uma década operando contra Gaza, as IDF aprenderam muitas lições sobre a guerra urbana contra adversários híbridos, mas pelo menos uma permanece indefinida - como transformar o sucesso operacional em uma vitória duradoura. Na verdade, as guerras limitadas de Israel compraram períodos de relativa calma, mas não uma solução durável, e a violência ainda continua hoje.

Com as operações no Iraque, Afeganistão e Líbia ainda frescas na memória estratégica coletiva americana, os desafios da mudança de regime são bem conhecidos hoje. Às vezes esquecidas, entretanto, são as dificuldades inerentes de travar guerras limitadas. Felizmente, os Estados Unidos hoje não enfrentam um equivalente a Gaza ao longo de suas fronteiras. E, no entanto, em um mundo cheio de atores odiosos em que a mudança de regime pode não ser uma opção viável, os Estados Unidos também enfrentam o desafio de descobrir como quebrar ossos sem mandar pessoas para o hospital, por assim dizer.

Um ex-oficial da ativa do Exército dos EUA, Raphael S. Cohen é um cientista político na organização sem fins lucrativos e apartidária RAND Corporation. Ele é o autor principal de From Cast Lead to Protective Edge: Lessons from Israel’s Wars in Gaza (Da Operação Chumbo Fundido para a Borda Protetora: Lições das Guerras de Israel em Gaza).

Bibliografia recomendada:



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