domingo, 22 de março de 2020

Dividendos da Diplomacia: Quem realmente controla o Grupo Wagner?


Por Alexander Rabin, National Security Program, 4 de outubro de 2019.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 22 de março de 2020.

Muitos esperavam que a relação diplomática entre a Federação Russa e os Estados Unidos se esvaísse quando forças americanas mataram centenas de russos assaltando um posto avançado americano na Síria no início de 2018. No entanto, o Kremlin se distanciou rapidamente dos corpos russos no distante campo de batalha sírio Esses russos lutaram em nome do presidente sírio Bashar al-Assad, mas não usavam uniformes das forças armadas sírias ou russas. Em vez disso, eles trabalhavam para o oligarca empreendedor Yevgeny Prigozhin e seu Grupo Wagner, uma companhia militar privada (PMC).

Prigozhin é uma figura familiar para os americanos. Dois meses antes de seus mercenários morrerem na Síria, o advogado especial Robert S. Mueller III o acusou de operar a Agência de Pesquisa na Internet, uma fazenda de trolls de desinformação que interferiu nas eleições presidenciais de 2016 nos EUA. No entanto, os funcionários de Prigozhin incentivam os interesses da Rússia em uma nova era de guerra híbrida por meio de combate direto e manipulação online. Ao perseguir objetivos estratégicos russos sob uma bandeira privada, o Grupo Wagner fornece ao Kremlin um véu de negação plausível, reforçando a flexibilidade diplomática russa e minimizando a contagem oficial de baixas que poderiam condenar o envolvimento russo em conflitos domesticamente impopulares como a Guerra Civil Síria.

Quem é Prigozhin e o que é o Grupo Wagner?


Em uma foto de 2006, o presidente russo Vladimir Putin (à esquerda) recebe o presidente dos EUA George W. Bush em São Petersburgo, Rússia. O segunda à direita, de terno preto, é o empresário russo Yevgeny Prigozhin, conhecido como "chef de Putin".

O talento de Prigozhin para o lucro o levou a um caminho não-convencional para a confiança de Putin. Depois de cumprir nove anos de prisão em 1990, ele abriu barracas de cachorro-quente com seu padrasto. Quando a União Soviética se dobrou e o setor privado da Rússia cresceu, Prigozhin investiu na primeira cadeia de supermercados de São Petersburgo e finalmente abriu o restaurante de luxo New Island, onde serviu pessoalmente Putin. Prigozhin alavancou suas conexões importantes em contratos de restauração e construção de escolas públicas e militares de bilhões de dólares desde meados dos anos 2000, ganhando o apelido de "chef de Putin".

As profundas conexões do Grupo Wagner com os principais líderes políticos da Rússia distinguem a empresa de seus contemporâneos. A aparição dos contratados em pontos críticos geopolíticos ilustra uma estreita coordenação entre as aspirações comerciais de Prigozhin e a busca do interesse nacional pelo Kremlin. Prigozhin lucra prestando serviços nos países onde a Rússia está expandindo seu envolvimento, enquanto o estado mantém uma negação plausível ao utilizar as estruturas privadas de Prigozhin. No processo, Prigozhin acumula prestígio e capital político, abrindo caminho para futuros contratos lucrativos.


Desdobramento do Grupo Wagner, mostrando missões na Ucrânia, Venezuela, República Centro-Africana, Líbia, Síria, Madagascar e Sudão.

O Grupo Wagner ao redor do mundo


Contratados do Grupo Wagner na Ucrânia, 2014.

O Grupo Wagner apareceu pela primeira vez durante a anexação russa da Criméia, auxiliando unidades militares russas não-identificáveis, conhecidas como "homenzinhos verdes", na segurança do território sem derramamento de sangue e no desarmamento das instalações militares ucranianas. Os contratados lutaram ao lado de separatistas pró-russos na região do Donbas, na Ucrânia. O Grupo Wagner se manteve ocupado na autoproclamada República Popular do Donetsk (DPR) e na República Popular de Luhansk (LPR), supostamente abatendo um transporte aéreo militar ucraniano Il-76, assassinando líderes separatistas desonestos e participando da Batalha de Debaltseve (2015).



Logo após o apoio russo a Assad ter aumentado em 2015, as tropas do Grupo Wagner se tornaram um ativo crucial, como na Ucrânia, desempenhando papéis defensivos e ofensivos. Ao proteger as instalações militares e de energia, esses contratados reduziram a escassez de pessoal que impedia a capacidade de Assad de proteger instalações e montar ofensivas simultaneamente para recuperar território. O Grupo Wagner forneceu mão-de-obra ofensiva em batalhas como a Batalha de Palmira (2016), na qual forneceu a força de choque inicial para recuperar a cidade do Estado Islâmico.

No entanto, o caso da Síria difere das operações na Ucrânia por causa do claro incentivo monetário adicional de Prigozhin para o aumento da desdobramento do Grupo Wagner. Sua empresa Evro Polis assinou um contrato com a General Petroleum Corporation, estatal síria, em janeiro de 2018, concedendo à Evro Polis 25% da produção de quaisquer instalações petrolíferas retomadas para Assad. O assalto arriscado do Grupo Wagner ao posto avançado de Deir ez-Zor Conoco ocorreu apenas um mês após o acordo com a Evro Polis, e telefonemas interceptados pela inteligência dos EUA revelam que Prigozhin participou diretamente no planejamento do ataque.


Mercenários do Corpo Eslavônico na Síria, outubro de 2013. O Slavonic Corps Limited foi a primeira PMC "experimental" russa.

No entanto, o grau de comando que o Estado russo exerce sobre o Grupo Wagner na Síria permanece incerto. Enquanto algumas fontes próximas ao Ministério da Defesa afirmam que a ofensiva desastrosa do Grupo Wagner contra o posto avançado de Conoco surpreendeu os militares, outras alegam que o Kremlin provavelmente autorizou o ataque. Ainda assim, outros afirmam que o Grupo Wagner coordena dentro do Ministério da Defesa, mas o faz vagamente, o que poderia explicar o fracasso em garantir a aprovação de uma ofensiva específica.

Da mesma forma, à medida que a Rússia aumenta seu envolvimento na África, as operações do Grupo Wagner se expandem por todo o continente, onde protegem os investimentos de Prigozhin. No final de 2017, vídeos de contratados russos treinando tropas sudanesas circularam no Twitter, enquanto cerca de 300 contratados estavam no país. Na mesma época, a empresa M-Invest, a qual há rumores que Prigozhin possui, garantiu concessões de mineração ao governo sudanês. Os combatentes do Grupo Wagner agora guardam essas minas. Embora a M-Invest seja registrada como uma empresa de extração de recursos, também forneceu ao ex-presidente sudanês Omar al-Bashir, um líder amigo da Rússia que presidiu vários acordos comerciais bilaterais, com um plano para suprimir os protestos de Cartum no início de 2019. A empresa propôs campanhas de difamação e a adaptação como arma das mídias sociais remanescente da Agência de Pesquisa na Internet de Prigozhin.


Grupo Wagner na Síria.

O envolvimento russo na vizinha República Centro-Africana (RCA) também vincula apoio político a ganhos econômicos. A Rússia expulsou a França para obter uma exceção ao embargo de armas sobre a RCA das Nações Unidas em 2018, e os contratados Wagner entraram no país na mesma época, supostamente fornecendo segurança ao presidente Faustin-Archange Touadera. Enquanto a Rússia espera aparecer como uma fonte de estabilidade regional, essa ajuda não é gratuita; a RCA tem reservas abundantes de diamantes, petróleo, ouro e urânio, e o Ministério das Relações Exteriores da Rússia discutiu concessões de mineração com Touadera. Embora a Rússia tenha se encantado com Touadera, também se encontrou com grupos rebeldes da RCA, jogando em campo para obter acesso a território rico em recursos. A Lobaye Invest, uma subsidiária da M-Invest, já iniciou a extração de diamantes, e os contratados Wagner parecem novamente guardar as minas. Os dividendos inerentes ao papel de Prigozhin na geopolítica russa estão valendo a pena, e o Grupo Wagner fornece a força para defendê-los.

Notavelmente, três jornalistas russos que investigavam a presença do Grupo Wagner na RCA foram assassinados no verão de 2018. Os jornalistas mortos estavam rastreando o Grupo Wagner, mas na data de suas mortes, eles pretendiam filmar as minas de ouro de Ndassima, que Prigozhin planejava explorar. Os registros telefônicos mostram que o motorista dos jornalistas freqüentemente entrava em contato com um policial da RCA com laços estreitos com o Grupo Wagner, incluindo telefonemas no dia do assassinato.


Grupo Wagner na Síria.

Como o Grupo Wagner protegeu com sucesso os interesses russos e encheu os cofres de Prigozhin, o Kremlin confiou mais nos contratados. Em 2018, Moscou trabalhou duro para influenciar as eleições em Madagascar - e Prigozhin novamente forneceu os meios. O oligarca enviou consultores políticos, que apoiaram pró-russo Hery Rajaonarimampianina e outros candidatos, mas também desdobrou contratados Wagner para vigiar esses consultores. Prigozhin evidentemente identificou os recursos de Madagascar como outra fonte de lucro pessoal. Sob a presidência de Rajaonarimampianina, a empresa de mineração de cromita estatal de Madagascar, KRAOMA, entrou em uma controversa joint venture* com a Ferrum Mining, uma empresa russa ligada ao império comercial de Prigozhin. Sob um contrato de 2018, Ferrum recebeu fundos da Broker Expert, uma empresa aninhada em um sistema de contratos de empréstimo com juros entre muitas das empresas de Prigozhin, incluindo Concord Management and Consulting, M-Invest, M-Finance e Megaline. O caso de Madagascar apresenta outro vínculo por excelência das ambições russas e da manipulação política de Prigozhin.

*Nota do Tradutor: Uma joint venture é uma entidade comercial criada por duas ou mais partes, geralmente caracterizada por propriedade compartilhada, retornos e riscos compartilhados, e governança compartilhada.



Em novembro de 2018, surgiram evidências da parceria de Prigozhin com o Kremlin em outro local estratégico: a Líbia. Imagens notáveis mostram Prigozhin sentado entre importantes oficiais de defesa russos durante uma reunião com o pessoal do Exército Nacional da Líbia (LNA). Meses depois, materializaram-se relatórios de mercenários Wagner que apoiavam o LNA, cujo líder, marechal de campo Khalifa Haftar, o Kremlin apoiou silenciosamente, mas com firmeza. A Rússia demonstrou interesse nos recursos energéticos da Líbia, incluindo um acordo de venda de petróleo em 2017, e provavelmente buscará mais investimentos à medida que surgirem oportunidades para a resolução de conflitos na Líbia.


Contratados Wagner trabalhando com forças locais na Líbia.

O Kremlin, cada vez mais vendo o Grupo Wagner como um patrimônio diplomático, enviou contratados para a Venezuela no início de 2019. Quando o líder sitiado Nicolás Maduro começou a temer deserções de seu pessoal de segurança, o Grupo Wagner forneceu guardas. Essa medida reflete os investimentos de vários bilhões de dólares da gigante estatal russa Rosneft no petróleo venezuelano, bem como os enormes acordos de exportação de armas da Rússia.

Ligações entre o Grupo Wagner e o Estado russo

A estrutura de comando da Rússia para o Grupo Wagner permanece obscura, mas seu apoio se materializa em três formas: financiamento, equipamento e treinamento.


Prigozhin e o Grupo Wagner mantêm relações complicadas com o estado russo e outros governos. Os nós vermelhos representam empresas vinculadas ao império comercial de Prigozhin, enquanto os nós pretos representam entidades vinculadas aos governos estaduais.

A fonte dos fundos do Grupo Wagner permanece incerta, com apenas evidências anedóticas oferecendo insights. Aparentemente, Prigozhin desviou uma receita significativa de seus contratos de construção e catering* para estabelecer o Grupo Wagner. Os custos anuais da empresa, totalizando até US$ 150 milhões por volta de 2016 somente na Síria, exigem financiamento além da capacidade razoável dos negócios de logística de Prigozhin, mas essas empresas apresentam condutos ideais para canalizar fundos para o Grupo Wagner a partir do estado.

*NT: Catering é o serviço de fornecimento de refeições coletivas em locais remotos como hotéis, hospitais, aviões, navios de cruzeiro, locais de entretenimento, etc.

Enquanto conexões monetárias concretas permanecem ilusórias, Moscou claramente desempenha um papel crucial em armar o Grupo Wagner. O Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) afirma que o Grupo Wagner recebe equipamentos como tanques, lançadores de foguetes Grad e veículos blindados sem custo. Imagens de contratados Wagner revelam que eles operam veículos normalmente reservados para as Forças Armadas russas, como o veículo todo-o-terreno da Vystrel. Vários contratados alegam que voaram para a Síria em aviões de transporte militar russo. Essas histórias estão alinhadas às alegações da SBU de que os contratos entre a M-Invest e as unidades de vôo do Ministério da Defesa indicam que Prigozhin aluga aeronaves militares para contratados.


Contratados do Grupo Wagner na região de Starobeshevo, no Donetsk, 2014.

O Estado - particularmente o Diretório Principal do Estado Maior General (GRU) - tem um papel importante no treinamento do Grupo Wagner. Os contratados treinam em um complexo do GRU em Molkino, uma vila no sudoeste da Rússia, e o SBU identificou mais de 25 oficiais russos que instruem os contratados Wagner em habilidades que variam de artilharia a engenharia de combate. O GRU geralmente dirige e apóia o grupo em combate, e as evidências disponíveis indicam uma coordenação estreita na Ucrânia. No LPR, o oficial do GRU Oleg Ivannikov ajudou a comandar o Grupo Wagner; telefonemas interceptados revelam operações coordenadas de Ivannikov com o comandante do Grupo Wagner e o ex-tenente-coronel do GRU Dmitry Utkin durante a Batalha de Debaltseve.

Fundindo buscas geopolíticas e empresas privadas

Por meio do Grupo Wagner, a Rússia oferece apoio militar ou estabilização política em troca de influência política, oportunidades de expansão geoestratégica ou concessões de recursos. O Grupo Wagner pode ser considerada uma empresa militar privada apenas na medida em que alimenta a riqueza de um indivíduo particular, mas a realidade de sua integração nas estruturas de comando russas o torna um animal totalmente diferente. Apesar da natureza ostensivamente privada do Grupo Wagner, Putin agradeceu aos contratados por seus serviços, premiando comandantes de alto escalão com honras militares estaduais de Utkin, construindo estátuas dos contratados Wagner na Síria e Donbas, e posando para fotografias com comandantes. Prigozhin não recebeu prêmios ou monumentos militares brilhantes, mas, ao desdobrar o Grupo Wagner em três continentes, Putin o agradeceu por facilitar a extensão global de seu alcance comercial.

A comunidade internacional deve se familiarizar com o nome de Prigozhin. Enquanto os líderes de países politicamente instáveis concordarem em trabalhar com Putin e oferecer fontes de lucro para Prigozhin, esse modelo de fusão de atividades geopolíticas e empresas privadas permanecerá.

Original: https://www.fpri.org/article/2019/10/diplomacy-and-dividends-who-really-controls-the-wagner-group/

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