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sexta-feira, 22 de outubro de 2021

A França ameaçada pela influência russa em seu quintal africano

Um mercenário do Grupo Wagner (centro) enquadra com mantenedores da paz ruandeses uma reunião do presidente centro-africano Faustin-Archange Touadéra, em 27 de dezembro de 2020, em Bangui.
(Alexis Huguet / AFP)

Por Fabrice Deprez, La Croix, 19 de outubro de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 21 de  outubro de 2021.

Análise: Em apoio à política externa de Moscou, Wagner se deslocou para vários países africanos, a ponto de "substituir" Paris na República Centro-Africana.

"O Mali perto de negociar com mercenários russos do Grupo Wagner": Em 13 de setembro, o despacho da agência de notícias Reuters soou como um trovão em Paris. Durante vários meses, o país lutou para lidar com as consequências do golpe de Estado de maio e com a decisão da França de reduzir seu braço militar na região. Os russos em Bamako? Paris se revolta e ameaça deixar o país por completo.

Borrão de rigor

Mercenários Wagner na Síria.
Notar a insígnia de caveira no braço do homem de pé.

Dos corredores da sede da ONU em Nova York, o ministro das Relações Exteriores russo, Sergey Lavrov, não hesita em agitar a polêmica, confirmando em 26 de setembro que "as autoridades malinesas fizeram contato com uma empresa militar russa". Um mês depois, a imprecisão ainda é necessária. O Estado-Maior francês assegurou ao La Croix que "não detectou a presença física do Grupo Wagner no Mali", ao mesmo tempo que reconheceu uma "intensificação da divulgação de notícias falsas contra a França" na região.

A avalanche de reações veio, de qualquer forma, lançar luz sobre a aura adquirida por este grupo desprovido de nome ou mesmo de existência oficial: “Moscou sabe muito bem que qualquer boato sobre a presença do Grupo Wagner em algum lugar da África atrai a atenção do Ocidente, explica Sergei Sukhankine, pesquisador da Fundação Jamestown e autor de um relatório sobre a atividade do Grupo Wagner na África. E, portanto, acredito que a Rússia também está usando o grupo como uma ferramenta de confronto informacional."

Mas não somente. Líbia, Moçambique, Sudão ou República Centro-Africana: a nebulosa paramilitar do oligarca russo Yevgeny Prigojine, forjada nos campos de batalha da Ucrânia e da Síria, tornou-se um ator-chave nos conflitos africanos. Além disso, é a sua ação na República Centro-Africana que, desde 2018, suscita inquietações em Paris, que se transpôs nas últimas semanas para o Mali. Porque neste país instável e entre os mais pobres do planeta, “Moscou substituiu Paris no papel de protetora do regime”, garante Thierry Vircoulon, especialista em África Central e Meridional do Instituto Francês de Relações Internacionais (Ifri).

Um recorde misto

Mercenários Wagner na República Centro-Africana, janeiro de 2021.

Paris, por sua vez, vai mais longe: o ministro francês das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, acusou o Grupo Wagner em 17 de setembro de “substituir” a autoridade do Estado na República Centro-Africana e “confiscar sua capacidade fiscal”. Uma referência aos rumores persistentes de que o grupo de mercenários assumiu o controle dos postos alfandegários após a assinatura entre Moscou e Bangui de um acordo de cooperação aduaneira.

Chegados como simples instrutores militares, os mercenários do grupo aos poucos foram se transformando em guarda pretoriana, participando em janeiro de 2021 da contra-ofensiva contra grupos rebeldes então próximos à capital Bangui. “As regras de engajamento da Minusca [a missão da ONU] não permitiram detê-los”, defendeu em outubro o presidente Faustin-Archange Touadéra no canal de televisão France 24. Regras de engajamento que não constrangem o Grupo Wagner: em março, especialistas da ONU acusaram o grupo de envolvimento em vários crimes de guerra, incluindo execuções sumárias e casos de tortura.

Experiente e barato, o grupo também é visto como uma extensão de uma política externa russa empenhada em reduzir a influência ocidental na região. E se o aumento da informação anti-francesa é visto como um mau presságio no Mali, é porque parece repetir um padrão já visto na República Centro-Africana, com financiamento de estruturas próximas a Evgueni Prigojine de mídias locais críticas à presença francesa.

Derrotas amargas


O desdobramento do grupo em todo o continente não foi isento de problemas, no entanto. “Os resultados devem ser colocados em perspectiva, há um delta entre a percepção da atividade do grupo e a realidade no terreno que não é desprezível”, observa Emmanuel Dreyfus, especialista em defesa russo do Instituto de Pesquisas Estratégicas da École Militaire.

Na Líbia, no Sudão e em Moçambique, os homens do Grupo Wagner não conseguiram estabelecer-se definitivamente e até sofreram derrotas severas. "Mas Paris, por outro lado, está em uma contradição óbvia, seja na República Centro-Africana ou no Mali", disse o juiz Thierry Vircoulon. “A França diz que não quer mais ser policial desses países, quer sair, mas não quer que outros países entrem”, acrescentou o analista. Uma contradição que Moscou não hesita em explorar.

Bibliografia recomendada:

The "Wagner Group":
Africa's Chaos in an Economic Boom.
Intel Africa.

Leitura recomendada:

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Se o Mali cooperar com os mercenários Wagner, a Estônia vai partir

Pelotão das Forças de Operações Especiais da Estônia no Mali.

Do ERR News, 22 de setembro de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 6 de outubro de 2021.

A Estônia retirará suas tropas que servem no Mali se o governo local decidir começar a trabalhar com a empresa militar privada russa Grupo Wagner e permitir que seus mercenários entrem no país, disse o Ministro da Defesa Kalle Laanet. O ministro também acredita que a Estônia terá capacidade para monitorar a situação regional no contexto da defesa aérea de médio alcance em cinco anos.

"Estou certamente convicto de que se houver um acordo de cooperação feito com o Grupo Wagner e o exército privado Wagner começar a operar no Mali, o contingente estoniano partirá", disse Laanet ao noticiário "Uudis+" da Vikerraadio na quarta-feira.

A Reuters relatou na semana passada um acordo em andamento que permitiria aos mercenários Wagner entrarem no Mali, estendendo a influência russa sobre os assuntos de segurança na África Ocidental. Uma fonte europeia que rastreia a África Ocidental e uma fonte de segurança na região disse que pelo menos 1.000 mercenários podem estar envolvidos.

Aproximadamente 100 membros das Forças de Defesa da Estônia (EDF) estão participando de três operações de paz no Mali, como parte da Operação Barkhane liderada pela França.

Em resposta aos planos da França de reduzir sua capacidade de missão no Mali, a junta militar no poder anunciou planos para contratar a empresa mercenária russa Grupo Wagner para treinar seus soldados e proteger altos funcionários do Estado. No ano anterior, houve dois golpes de Estado no Mali.

Laanet disse que cabe a Paris decidir sobre a possível cooperação de mercenários russos e tropas francesas, mas a Estônia não quer trabalhar com soldados do Grupo Wagner.

"Cabe aos franceses decidir se podem trabalhar lado a lado com uma empresa de segurança russa, mas os estonianos certamente não podem fazê-lo e nosso maior perigo ainda é do Leste - a Rússia. O maior perigo da OTAN ainda vem daquela direção e como a França é membro da OTAN, é completamente lógico que não é possível cooperar com nosso maior inimigo ou de onde vêm os maiores riscos militares", disse o ministro da Defesa ao ERR.

Patrulha final da ESTPLA-30 no Mali.

Laanet disse que a França e seus aliados pediram ao governo do Mali que organize eleições democráticas no próximo ano para permitir que um governo civil volte ao poder.

"Eu entendo perfeitamente aqueles que estão atualmente no poder no Mali - por que deveriam voluntariamente abrir mão de seu poder? E eles acham que foram inteligentes o suficiente e voltaram suas atenções para a Rússia e permitirão que o Grupo Wagner ajude a trazer paz ao Mali", Laanet explicado.

“É do interesse dos russos obter acesso aos recursos africanos e é do interesse dos malianos exercer pressão sobre a comunidade internacional - França e outros aliados - para que não exijam eleições democráticas e recuem”, afirmou o ministro disse.

A Operação Barkhane é uma missão anti-insurgência liderada pela França, que visa apoiar os governos dos países da região do Sahel, Mauritânia, Mali, Burkina Faso, Níger e Chade, em sua luta contra os terroristas islâmicos.

A Operação Barkhane também apoia a missão MINUSMA da ONU e a missão de treinamento da UE EUTM Mali para garantir a estabilidade no país africano. Ambas as missões acima mencionadas também consistem em cerca de uma dúzia de soldados estonianos cada.

Estônia monitorará as defesas aéreas da região do Mar Báltico em cinco anos

Laanet também falou sobre os gastos com defesa e observou que a Estônia deve ter capacidade para monitorar a situação no contexto das defesas aéreas de médio alcance na região do Mar Báltico dentro de cinco anos.

"Não ousaria dizer que podemos desenvolver defesas aéreas na região do Báltico em alguma data, mas podemos melhorar nossa conscientização sobre o Mar Báltico, providenciar todos os tipos de equipamentos de gestão. Ou seja, começaremos a desenvolver essa capacidade passo a passo e acredito que possa estar em algum nível nos próximos cinco anos", disse o ministro.

Respondendo a uma pergunta sobre defesas aéreas, o que significa mísseis antiaéreos, Laanet disse que considera a conscientização a coisa mais importante. "E, em segundo lugar, teríamos sistemas de controle anti-aéreo em funcionamento. Acredito que o lançamento de foguetes levará algum tempo."

Pessoal da Marinha da Estônia (Merevägi) no 102º aniversário da força.

Ele ressaltou que em breve será alcançado um acordo para a compra de mísseis anti-navio no valor de € 46 milhões. Além disso, a EDF pretende adquirir munições de grande calibre, que custarão cerca de € 25 milhões. Um montante semelhante será alocado para melhorar a prontidão dos veículos, outros € 15 milhões serão investidos na aquisição de canhões móveis adicionais, outros € 15 milhões serão usados para reconstruir veículos de combate CV-90 e um centro de medicina de emergência será desenvolvido no aeródromo Raadi.

Falando sobre a possível movimentação da Marinha da Estônia do Porto Minerador de Tallinn, Laanet disse que apóia uma mudança, mas nenhuma decisão foi tomada. Em primeiro lugar, deve-se decidir se a marinha e a marinha da Polícia e Guardas de Fronteira podem se fundir.

"Essa análise chegou a um ponto em que deve chegar à mesa do governo no início de outubro e o governo só pode tomar uma decisão se a fusão for realista ou não", disse Laanet. "Se essa decisão for tomada, podemos olhar para frente e pensar para onde o porto principal pode ir. Não há necessidade de apressar as coisas antes disso."

Ele disse que pensa pessoalmente que o Porto Minerador de Tallinn não é o melhor lugar para uma base naval, mas os especialistas devem avaliar a situação e os políticos devem discutir a melhor opção disponível.

Falando sobre as fronteiras da Estônia à luz da crise migratória na Bielorrússia, Laanet disse que a EDF poderia colocar barreiras de arame farpado nas fronteiras da Estônia em alguns dias, se a migração do Leste assim o exigir.

"Estou mais do que convencido de que nossas tropas das forças de defesa e da Liga de Defesa podem levantar essas barreiras mais rápido do que na fronteira entre a Lituânia e a Bielo-Rússia", disse Laanet.

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Higienizando o Grupo Wagner: novo filme pinta o grupo mercenário russo como salvadores

Mercenário Wagner ajuda uma soldado da RCA em cena do filme Turista (2021).

Por Steve Balestrieri, SOFREP, 2 de junho de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 15 de setembro de 2021.

“Os americanos dizem que lutam pela democracia... os russos lutam por justiça.” Esse é o tema de Turista (Турист, 19 de maio de 2021), um filme de propaganda financiado, filmado e estrelado por membros do Grupo Wagner de Yevgeny Prigozhin.

Turista conta a história de um grupo de jovens conselheiros militares russos (mercenários Wagner) enviados à República Centro-Africana (RCA) na véspera das eleições presidenciais. Após uma violenta rebelião, eles defendem os moradores contra grupos de rebeldes assassinos.

O filme não menciona nenhuma das violações dos direitos humanos pelo Grupo Wagner

Tropas russas Wagner na República Centro-Africana atuando como destacamento de segurança presidencial.

Conspicuamente ausente no filme, estava a menção de uma infinidade de acusações de crimes de guerra e abusos dos direitos humanos que foram apontados contra mercenários Wagner desde que chegaram à RCA.

De acordo com um relatório de março de um grupo de especialistas independentes da ONU, os mercenários russos Wagner cometeram abusos aos direitos humanos na RCA enquanto lutavam ao lado de forças governamentais.

As supostas violações incluem execuções sumárias em massa, detenções arbitrárias, tortura durante interrogatórios e o deslocamento forçado da população civil, cerca de 240.000 dos quais fugiram de suas casas por causa dos combates nas últimas semanas. A Radio France Internationale (RFI) publicou uma importante investigação baseada nos documentos da ONU sobre as atividades dos mercenários Wagner na RCA. Os jornalistas relataram que “instrutores militares russos” estavam cometendo execuções extrajudiciais, estupros coletivos e saques.

No entanto, ao longo do filme, os mercenários russos são retratados como gentis e generosos. Simultaneamente, o filme frequentemente critica franceses e outros assessores ocidentais, retratando-os como espalhando instabilidade e caos na região.

“Os americanos dizem que lutam pela democracia... Os russos lutam por justiça”, diz um dos protagonistas do filme, enquanto os inspetores russos se preparam para proteger uma vila local.

Trailer


O diretor do filme, Andrey Shcherbinin - que usa o pseudônimo de Andrey Batov - tentou retratar a benevolência dos mercenários Wagner. Embora Shcherbinin tenha passado apenas alguns dias na RCA, ele retratou o ponto de vista russo.

Em uma entrevista à mídia, Shcherbinin disse que está preocupado com o futuro que aguarda as crianças da África Central. “A natureza não suporta o vácuo. Se não estivermos na RCA, outros estarão. Eu os vi lá. São pessoas absolutamente materialistas, que buscam seus próprios interesses. Eles não se preocupam profundamente com a África ou com essas crianças”, disse Shcherbinin. “Quando a população local vê um homem branco e ouve [ele] falando francês, dá para ver a repulsa em seus rostos. Mas assim que ouvem russo, começam a sorrir, vêm e cumprimentam [você]”, acrescentou.

Filme de propaganda de Prigozhin

De acordo com fontes citadas pelo The Moscow Times, Prigozhin é provavelmente o dinheiro por trás do filme Turista.

“Ninguém mais gostaria de financiar um filme desses”, disse uma fonte da indústria cinematográfica ao The Moscow Times.

O filme foi produzido por um estúdio relativamente desconhecido com sede em São Petersburgo, registrado sob a marca “Paritet Film”. Registros públicos russos mostram que a esposa de Prigozhin, Lyubov Prigozhina, é proprietária de outra empresa que foi anteriormente registrada com o nome de "Paritet" em São Petersburgo.

Uma captura de tela de um vídeo de mídia social parece mostrar membros do Grupo Wagner matando um homem na Síria. Eles são acusados de mais violações na RCA.

O filme foi exibido na televisão russa e para quase 10.000 locais na RCA no Estádio Barthélemy Boganda, localizado na capital da RCA, Bangui. Uma reportagem da mídia de Prigozhin afirmou que 70.000 pessoas se aglomeraram para ver o filme no estádio com capacidade para 50.000.

Muitos membros do elenco do filme estiveram recentemente envolvidos em outros filmes financiados por Prigozhin. Os extras são todos mercenários Wagner. O ator que interpreta o chefe dos assessores russos tem uma forte semelhança com Prigozhin. Outros membros do elenco e da equipe, incluindo dois produtores e o roteirista-chefe, trabalharam para um filme financiado por Prigozhin sobre um de seus principais assessores. E o elenco do filme conduziu extensas entrevistas com a Agência Federal de Notícias (FAN) - um meio de comunicação dirigido por Prigozhin.

Vladimir Petrov, um dos principais atores do filme, disse em uma entrevista à FAN que os atores receberam treinamento e ajuda de “profissionais russos em campo”.

A crescente influência da Rússia na nação africana

Cena do filme Turista.

Os créditos de abertura do filme, que foi filmado em março e abril de 2021 na RCA, dizem que foi inspirado pelos 300 instrutores militares russos servindo no país rico em recursos em apoio ao regime do presidente Faustin-Archange Touadéra, que a Rússia apoiou abertamente desde 2018.

Embora o filme diga que apenas 300 mercenários Wagner estão estacionados na RCA, a maioria dos analistas militares acredita que o Grupo Wagner tem mais de 1.000 homens no país. Além disso, a Sewa Security Services, outra companhia militar privada russa, supostamente hospeda mais 1.000 mercenários. E esses números estão aumentando. A RCA notificou o Conselho de Segurança da ONU que o país deve trazer 600 novos instrutores russos.

A influência russa na RCA cresceu a tal ponto que os mercenários russos fazem parte do destacamento de segurança do presidente e um ex-oficial de inteligência russo, Valery Zakharov, é o conselheiro de segurança nacional do presidente.

Prigozhin teria dito ao meio de comunicação russo Meduza que os mercenários russos na RCA “merecem fama e respeito. Eles são russos e temos orgulho deles”. Alegadamente, este filme de ação foi uma tentativa de Prigozhin de aumentar os esforços de recrutamento do Grupo Wagner, que está tendo problemas em conseguir os melhores recrutas.

Prigozhin, o magnata da restauração conhecido como "Chef de Putin", negou sistematicamente ter qualquer vínculo com o Grupo Wagner. Ele está enfrentando sanções por interferir nas eleições presidenciais dos EUA.

Steve Balestrieri atuou como graduado, sargento e Warrant Officer (sem equivalente no Brasil) das forças especiais antes que ferimentos forçassem sua reforma precoce.

Bibliografia recomendada:

The "Wagner Group":
Africa's Chaos in an Economic Boom.
Intel Africa.

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Paris ameaça Bamako com retirada militar por causa do acordo com a companhia militar privada russa Wagner


Por Laurent Lagneau, Zone Militaire Opex360, 15 de setembro de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 15 de setembro de 2021.

Fundada por Dmitri Outkine, um veterano do GRU (inteligência militar russa), com o apoio do empresário Evguéni Prigojine, um amigo próximo do Kremlin, a companhia militar privada (CMP) russa Wagner se estabeleceu na República Centro-Africana em 2018, depois que Moscou obteve autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas para entregar armas às Forças Armadas da África Central (FACa).

Em seguida, a proteção do presidente centro-africano, Faustin-Archange Touadéra, foi confiada a mercenários russos enquanto uma campanha de desinformação contra a França era montada. Além disso, Bangui assinou acordos de cooperação com Moscou.

No entanto, a CMP Wagner, que claramente tem interesse nos recursos minerais do país, faz mais do que treinar soldados das FACa... já que está envolvido na luta contra grupos rebeldes da África Central. Em junho, um relatório das Nações Unidas denunciou os abusos cometidos por estes últimos e seus "instrutores" russos, enquanto, ao mesmo tempo, Jean-Yves Le Drian, o ministro francês das Relações Exteriores denunciava uma "tomada de poder" em Bangui por mercenários russos.

Insígnia não-oficial de caveira do Grupo Wagner.

Este cenário se repetirá no Mali? Em todo caso, é o que sugere a informação da Reuters, confirmada por várias fontes. Assim, Bamako pretende assinar um acordo com a CMP Wagner para formar as Forças Armadas do Mali (FAMa) e para garantir "a proteção de personalidades importantes". Mas tais "serviços" não seriam gratuitos: trata-se de uma remuneração de pouco mais de 9 milhões de euros por mês e de um acesso privilegiado a três jazidas minerais (duas de ouro e uma de magnésio).

“O Mali pretende agora diversificar as suas relações a médio prazo para garantir a segurança do país. Não assinamos nada com [o Grupo] Wagner, mas estamos discutindo com todos”, disse o Ministério da Defesa do Mali, à frente do qual está o Coronel Sadio Camara, que havia completado um estágio na Rússia pouco antes do golpe de Estado de agosto de 2020 , do qual ele foi um dos atores. Mas "até agora nada foi assinado", acrescentou ele, respondendo a um pedido da AFP.

Que a Rússia esteja interessada no Mali, onde, a pedido das autoridades malinenses, a França destacou tropas para combater os grupos jihadistas que aí abundam, no âmbito da Operação Barkhane, alargada a todo o Sahel, não é surpresa. Desde a independência em 1961, Bamako estabeleceu laços estreitos com Moscou... Mas essa relação não sobreviveu à implosão da União Soviética trinta anos depois.

De qualquer forma, a perspectiva de ver mercenários russos desembarcando no Mali não agrada a Paris, que em junho anunciou uma reforma em seu aparato militar no Sahel. De fato, foi isso que Le Drian disse durante uma audiência perante o Comitê de Relações Exteriores da Assembleia Nacional em 14 de setembro.

“É absolutamente irreconciliável com a nossa presença. [...] Uma intervenção de um grupo deste tipo no Mali seria incompatível com a ação dos parceiros sahelianos e internacionais do Mali”, lançou Le Drian. “Eles se distinguiram no passado, particularmente na Síria, na República Centro-Africana, muitos com extorsões, predações, violações de todos os tipos [e] não podem corresponder a nenhuma solução”, lembrou então. Ele insistiu: “Na República Centro-Africana, isso causou uma deterioração da situação de segurança”.

Mercenários Wagner na República Centro-Africana, janeiro de 2021.

No mesmo dia, perante os deputados da Comissão de Defesa, a Ministra das Forças Armadas, Florence Parly, avaliou que "se as autoridades do Mali celebrassem um contrato com a companhia Wagner, seria extremamente preocupante e contraditório, incoerente com tudo o que empreendemos há anos e tudo o que pretendemos realizar em prol dos países do Sahel”.

Em seu discurso de abertura, a ministra lembrou que não havia dúvida de que a França se retiraria militarmente do Sahel.

“Não vamos sair do Sahel. Continuamos a luta contra o terrorismo. Estamos mantendo um sistema militar para continuar a apoiar nossos parceiros do Sahel, enquanto nos adaptamos à evolução da ameaça. A transformação ordenada pelo Presidente da República não é de forma alguma uma saída do Mali, mas uma reconfiguração das nossas forças para torná-las ainda mais operativas e eficazes. Recordo-vos que a instalação final das tropas francesas no Sahel continuará a contar com o compromisso permanente e consistente dos soldados franceses em conjunto com os nossos parceiros. Posso dizer que isso representará um esforço real, consistente e constante para nossos exércitos”, explicou Parly.

De qualquer forma, segundo uma fonte da AFP, a chegada da CMP Wagner ao Mali (fala-se de pelo menos mil mercenários) colocaria em causa o apoio americano às operações francesas, ou mesmo da União Europeia, com o Grupo de Forças Especiais Takuba. “Os Estados Unidos parariam tudo” e “alguns países europeus também poderiam decidir se desligar”, enfatizou.

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FOTO: Mercenários noruegueses do Grupo Wagner na Síria

Mercenários noruegueses do Grupo Wagner na Síria em 2017.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 15 de setembro de 2021.

Mercenários noruegueses do Grupo Wagner na Síria, a famosa Companhia Militar Privada (Private Military Company, PMC) russa controlada pelo GRU - a inteligência militar russa. Os voluntários noruegueses têm armas russas, como o AK-74M, e o sniper, sentado no canto direito, tem um fuzil M1891/30 Mosin-Nagant com a luneta PU de ampliação de 3,5x; um fuzil veterano do final do século XIX, que lutou em conflitos tão diversos quanto a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), as guerras mundiais, a Guerra Civil Espanhola (1936-39) e as guerras na Indochina (1945-89).

O Grupo Wagner chegou à Síria no final de outubro de 2015 e participou de operações em Palmira, al-Shaer, Deir ez-Zor, Latakia e Damasco. Suas missões incluíam funções técnicas de aconselhamento e controle de apoio aéreo aproximado, além de atuarem como tropas de assalto à frente do Exército Árabe Sírio de Assad.

Mercenários com o fuzil de assalto russo AK-74M com o lança-granadas GP-25 ou GP-30M.

O mercenário tem um fuzil AK-74M com lança-granadas, e a viatura tem uma metralhadora Degtyaryov RP-46.

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segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Grupo Wagner: mercenários russos ainda chafurdando na África


Por Steve Balestrieri, SOFREP, 19 de abril de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 13 de setembro 2021.

O Grupo Wagner da Rússia está passando por momentos cada vez mais difíceis na África. Cerca de um ano atrás, Moscou estava se gabando de chegar primeiro que o Ocidente e a China na obtenção de contratos militares privados, subestimando as ofertas de vários países ocidentais ao divulgar seu "Modelo Sírio" de sucesso. Como resultado, eles acabaram conseguindo mais de 20 contratos militares privados na África. Mas toda essa euforia está secando.

Entraram no Moçambique cheios de confiança: Em agosto de 2019, o presidente moçambicano Filipe Nyusi encontrou-se com o presidente Putin e chegou a um acordo para que os russos apoiassem os militares moçambicanos. Este acordo deu à Rússia numerosas concessões do rico gás no país.

Insígnia não-oficial de caveira do Grupo Wagner.

O Grupo Wagner foi desdobrado logo depois, em outubro de 2019, com 200 contratados. Aterrou no Aeroporto de Nacala, em Moçambique, para ajudar na luta em curso do governo contra o Estado Islâmico na região norte da região rica em gás natural de Cabo Delgado.

O Grupo Wagner é uma companhia militar privada de propriedade de Yevgeny Prigozhin, um oligarca russo com laços muito próximos ao presidente Vladimir Putin. Ele é conhecido como o "chef de Putin", pois também possui uma vasta empresa de restaurantes. Com o objetivo de Putin de expandir a influência da Rússia na África, as forças proxy (de procuração) do Grupo Wagner estão operando no Sudão, na República Centro-Africana e em Moçambique. Eles também têm uma grande presença na Líbia e na Síria.

O Grupo Wagner é essencialmente um braço da política estatal russa: eles nunca foram empregados em nenhum lugar sem a aprovação do Kremlin. E embora não sejam oficialmente reconhecidos como tal, eles são, na verdade, forças terceirizadas do governo de Putin. “Não faço distinção entre os soldados russos e o Grupo Wagner - a maneira como eles cooperam”, disse Jasmine Opperman, especialista sul-africana em terrorismo, ao Voice of America em uma entrevista.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, chega a Durban, na África do Sul, em uma viagem oficial em 2013.

Como escrevemos no outono passado na SOFREP, embora existam várias empresas de proteção africanas - com uma vasta experiência nesta área do continente - disponíveis para aluguel, o governo moçambicano optou, no entanto, pelo Grupo Wagner, devido à sua óbvia influência política e à seu preço muito mais barato do que o de outras empresas. Enquanto uma empresa da África com 50-60 soldados qualificados com vasta experiência na área custaria ao governo entre US$ 15.000 e US$ 25.000 por mês para cada mercenário, o Grupo Wagner enviou 200 mercenários por entre US$ 1.800 e US$ 4.700 por mês cada.

Mas a velha advertência: “Você recebe o que paga” é uma descrição adequada do que aconteceu até agora na região.

Os superconfiantes contractors russos, apoiados por helicópteros Hind e transportados por helicópteros Mi-17 Hip, avançaram para o interior ao longo da fronteira entre Moçambique e Tanzânia. As forças aéreas e terrestres deveriam operar em estreita cooperação com o exército moçambicano (Forças Armadas de Defesa de Moçambique, FADM). No entanto, o ISIS não hesitou. Conforme relatado pelo Southern Times após a chegada dos russos, o ISIS rapidamente reforçou suas unidades em Moçambique, trazendo “voluntários” de outros países da África Oriental, especialmente da Somália. Isso logo levou a uma série intensificada de ataques da guerrilha.

Opperman chamou a situação de “tempestade perfeita” e disse sobre os esforços do Grupo Wagner na região: “Os russos não entendem a cultura local, não confiam nos soldados e têm que lutar em condições horríveis contra um inimigo que está ganhando mais e mais impulso. Eles estão totalmente fora do seu elemento.” Eles não estão acostumados a operarem em um ambiente de selva e sabem (ou se importam) pouco sobre os costumes e tradições locais.

Assim, os russos estão caindo no mesmo problema que tiveram durante a era soviética: tensões entre eles e as forças das nações anfitriãs. Os mercenários russos acusaram os soldados moçambicanos de não terem disciplina, enquanto as tropas da nação anfitriã sentem que estão sendo intimidadas pelos russos. E não existe um "Robin Sage" [personagem fictício americano] para os russos aprenderem como ganhar a confiança da força de uma nação anfitriã.

E agora, depois de sofrerem uma série de derrotas e mais de uma dúzia de mortes, o Grupo Wagner recuou suas tropas de volta para sua base principal em Nacala, cerca de 250 milhas ao sul.

Mercenários Wagner na República Centro-Africana, janeiro de 2021.

Eles enfrentam o mesmo problema na República Centro-Africana (RCA). Existem centenas de mercenários do Grupo Wagner operando na RCA, incorporados a uma infinidade de forças diferentes, mas eles estão perdendo todo o relacionamento com os locais devido ao tratamento brutal que dispensam a eles.

O Norte da África também não é mais gentil com eles.

Os russos têm cerca de 1.000 mercenários Wagner na Líbia. Eles sofreram 35 mortos em setembro, quando os turcos os atingiram com um drone, pois não tinham como se defender de ataques aéreos - a exemplo do que aconteceu com as tropas Wagner na Síria quando atacaram uma base dos EUA. Em janeiro, Putin e o presidente turco Erdogan chegaram a um acordo e, em seguida, surgiram relatórios de que as tropas russas Wagner foram retiradas da linha de frente em Trípoli.

A Líbia está em constante guerra civil desde a remoção do ditador Muammar al-Gadhafi, liderada pelos EUA, em 2011. Os Estados Unidos, a ONU e a maior parte da comunidade internacional reconhecem o Governo de Acordo Nacional (GNA), com sede na capital líbia Trípoli, como o governo legítimo. Mas a metade oriental do país é liderada por Khalifa Hafter, que é apoiado pela Rússia, Egito e Emirados Árabes Unidos (EAU). Hafter e suas tropas estão tentando capturar Trípoli.

As coisas não estão indo bem para os russos ou o Grupo Wagner na África. E quando você está mostrando uma fraqueza percebida, especialmente neste mundo de contratos militares privados, outros tentarão usar isso a seu favor.

Entra Erik Prince.

Prince, o fundador da empresa de segurança privada Blackwater, tem procurado nos últimos meses fornecer serviços militares o Grupo Wagner em pelo menos dois pontos de acesso africanos, de acordo com relatórios do The Intercept.

Prince supostamente se encontrou no início deste ano com um funcionário do Grupo Wagner e se ofereceu para apoiar as operações do Grupo Wagner na Líbia e em Moçambique. O advogado de Prince negou que ele tenha se encontrado com alguém do Grupo Wagner.

Erik Prince, fundador da Blackwater.

De acordo com o mesmo relatório, Prince também procura fornecer uma força para aumentar as operações do Grupo Wagner no Moçambique. Prince enviou uma proposta à empresa russa oferecendo-se para fornecer forças terrestres e vigilância baseada na aviação, algo que lhes falta no momento. No entanto, o Grupo Wagner/Rússia rejeitou sua proposta.

Os russos não querem admitir que precisam de ajuda, nem aceitá-la de um americano com laços tão estreitos com a Casa Branca de Trump - Prince é irmão da secretária de Educação Betsy DeVos.

Diga o que quiser sobre Prince, mas ele nunca se esquivou de fazer propostas não-solicitadas para suas ideias. Foi assim que ele acabou conhecendo o presidente Trump. Enquanto, neste caso, os russos/Wagner rapidamente rejeitaram sua proposta, isso não muda o fato de que outros podem ver que a "parada da vitória" russa, para obter contratos mercenários na África, foi um pouco prematura.

Eles estão tendo uma vida difícil no continente e, embora continuem a jogar dinheiro e mercenários na briga, estão nadando em águas desconhecidas e isso é visível.

Steve Balestrieri atuou como graduado, sargento e Warrant Officer (sem equivalente no Brasil) das forças especiais antes que ferimentos forçassem sua reforma precoce.

Bibliografia recomendada:

The "Wagner Group":
Africa's Chaos in an Economic Boom.
Intel Africa.

Bush Wars:
Africa 1960-2010.

Leitura recomendada:








EXCLUSIVO: Acordo que permite mercenários russos no Mali foi fechado

Malinenses seguram uma fotografia com uma imagem do Coronel Assimi Goita, líder da junta militar do Mali, e a bandeira da Rússia durante uma manifestação pró-Forças Armadas Malinenses (FAMA) em Bamako, no Mali, 28 de maio de 2021.
(REUTERS / Amadou Keita / Arquivo de foto )

Por John Irish e David Lewis, Reuters, 13 de setembro de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 13 de setembro de 2021.

Sumário
  • Acordo permitindo mercenários russos no Mali - fontes próximas
  • Paris quer evitar que o acordo seja assinado, dizem fontes
  • Pelo menos 1.000 mercenários podem estar envolvidos - duas fontes

PARIS, 13 de setembro (Reuters) - Está fechado um acordo que permitirá que mercenários russos entrem no Mali, estendendo a influência russa sobre os assuntos de segurança na África Ocidental e provocando a oposição da França, ex-potência colonial, disseram sete fontes diplomáticas e de segurança.

Paris deu início a uma campanha diplomática para impedir que a junta militar do Mali promulgasse o acordo, que permitiria que contratados militares privados russos, o Grupo Wagner, operassem na ex-colônia francesa, disseram as fontes.

Uma fonte europeia que rastreia a África Ocidental e uma fonte de segurança na região disse que pelo menos 1.000 mercenários podem estar envolvidos. Duas outras fontes acreditam que o número é menor, mas não forneceram números.

Quatro fontes disseram que o Grupo Wagner receberá cerca de 6 bilhões de francos CFA (US$ 10,8 milhões; US$ 1 = 0,8455 euros) por mês por seus serviços. Uma fonte de segurança que trabalha na região disse que os mercenários treinariam militares malinenses e forneceriam proteção para altos oficiais.

Insígnia não-oficial de caveira do Grupo Wagner.

A Reuters não pôde confirmar independentemente quantos mercenários poderiam estar envolvidos, quanto seriam compensados ou estabelecer o objetivo exato de qualquer acordo envolvendo mercenários russos para a junta militar do Mali.

A Reuters não conseguiu entrar em contato com o Grupo Wagner para comentar. O empresário russo Yevgeny Prigozhin, cujos meios de comunicação, incluindo a Reuters, estão ligados ao Grupo Wagner, nega qualquer conexão com a empresa. Seu serviço de imprensa também diz em seu site de rede social Vkontakte que Prigozhin não tem nada a ver com nenhuma companhia militar privada, não tem interesses comerciais na África e não está envolvido em nenhuma atividade lá.

Seu serviço de imprensa não respondeu imediatamente a um pedido da Reuters para comentar esta história.

Ameaça potencial ao esforço de contra-terrorismo

Mercenários Wagner na Síria.
Notar a insígnia de caveira no braço do homem de pé.

A ofensiva diplomática da França, disseram as fontes diplomáticas, inclui a ajuda de parceiros, incluindo os Estados Unidos, para persuadir a junta do Mali a não levar adiante o acordo, e o envio de diplomatas de alto escalão a Moscou e Mali para conversações.

A França teme que a chegada de mercenários russos prejudique sua operação contra-terrorista de uma década contra a al-Qaeda e os insurgentes ligados ao Estado Islâmico na região do Sahel, na África Ocidental, em um momento em que busca diminuir sua missão Barkhane de 5.000 homens para reformulá-la com mais parceiros europeus, disseram as fontes diplomáticas.

O Ministério das Relações Exteriores da França também não respondeu, mas uma fonte diplomática francesa criticou as intervenções do Grupo Wagner em outros países.

"Uma intervenção deste ator seria, portanto, incompatível com os esforços realizados pelos parceiros sahelianos e internacionais do Mali envolvidos na Coalizão pelo Sahel para a segurança e o desenvolvimento da região", disse a fonte.

Um porta-voz do líder da junta do Mali, que assumiu o poder por meio de um golpe militar em agosto de 2020, disse não ter informações sobre o acordo. "São rumores. As autoridades não comentam rumores", disse o porta-voz, Baba Cisse, que não quis comentar mais.

Um retrato do mercenário russo Maxim Kolganov, morto em combate na Síria, é retratado em um túmulo em sua cidade natal de Togliatti, Rússia, 29 de setembro de 2016.
(REUTERS / Maria Tsvetkova)

O porta-voz do ministério da defesa do Mali disse: "A opinião pública no Mali é a favor de mais cooperação com a Rússia, dada a situação de segurança em curso. Mas nenhuma decisão (sobre a natureza dessa cooperação) foi tomada."

Os ministérios da defesa e do exterior da Rússia não responderam aos pedidos de comentários, nem o Kremlin ou a presidência francesa.

A presença dos mercenários colocaria em risco o financiamento do Mali pelos parceiros internacionais e missões de treinamento aliadas que ajudaram a reconstruir o exército do Mali, disseram quatro fontes diplomáticas e de segurança.

Rivalidade na África

Mercenários Wagner na República Centro-Africana, janeiro de 2021.

Ter mercenários russos no Mali fortaleceria a pressão da Rússia por prestígio e influência globais e seria parte de uma campanha mais ampla para sacudir a dinâmica de poder de longa data na África, disseram as fontes diplomáticas.

Mais de uma dúzia de pessoas com laços com o Grupo Wagner disseram anteriormente à Reuters que o grupo realizou missões de combate clandestinas em nome do Kremlin na Ucrânia, Líbia e Síria. As autoridades russas negam que os contratados da Wagner cumpram suas ordens.

A junta militar do Mali disse que supervisionará uma transição para a democracia que levará às eleições em fevereiro de 2022.

Como as relações com a França pioraram, a junta militar do Mali aumentou os contatos com a Rússia, incluindo o ministro da Defesa, Sadio Camara, visitando Moscou e supervisionando os exercícios com tanques em 4 de setembro.

Uma fonte importante do Ministério da Defesa do Mali disse que a visita foi no "quadro de cooperação e assistência militar" e não deu mais detalhes. O Ministério da Defesa da Rússia disse que o vice-ministro da Defesa, Alexander Fomin, se encontrou com Camara durante um fórum militar internacional e "discutiu projetos de cooperação de defesa em detalhes, bem como questões de segurança regional relacionadas à África Ocidental". Nenhum detalhe adicional foi divulgado.

O principal diplomata africano do Ministério das Relações Exteriores da França, Christophe Bigot, foi enviado a Moscou para conversações em 8 de setembro com Mikhail Bogdanov, representante de Putin no Oriente Médio e na África. O Ministério das Relações Exteriores da Rússia confirmou a visita.

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Bush Wars:
Africa 1960-2010.

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