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quinta-feira, 15 de julho de 2021

Moçambique: um exército frágil diante do jihadismo

Tropas moçambicanas em treinamento. À fraqueza das forças deve ser adicionada uma avaliação pobre da ameaça.

Para Laurent Touchard, Areion24, 2 de abril de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 14 de julho de 2021.

Marcado por uma independência adquirida com sangue em 1975, depois por uma guerra civil alimentada por conflitos na Rodésia (atual Zimbábue) e com o apartheid da África do Sul até 1992, Moçambique foi então considerado como prometido para um futuro brilhante. A aparência de uma paz sólida combinada com recursos naturais significativos construiu a ilusão. No entanto, as tensões entre o poder do antigo movimento revolucionário de independência (FRELIMO) e os ex-combatentes do movimento rebelde (RENAMO) surgiram em 2013 sem nunca terem sido apagadas desde 1992. Elas levam a tensões violentas entre os irmãos inimigos. Apesar de uma relativa calma entre estes dois protagonistas no final de 2016, o Moçambique continua a ser em 2020 um dos países mais pobres do planeta com uma coesão nacional muito relativa. Ao mesmo tempo, a FRELIMO e a RENAMO perderam a aura de outrora entre grande parte da juventude, especialmente no norte, onde cresce o perigo jihadista que as autoridades ignoraram durante vários anos.

A cidade de Palma, no extremo norte do Moçambique.
(AFP)

Com as divisões entre a FRELIMO e a RENAMO, os respectivos mecanismos de lealdade conduzem a uma dupla cadeia de comando nas Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) tendo como corolário problemas de disciplina e coesão. Na maioria das unidades regulares, o moral está baixo. Não poderia ser de outra forma com soldos baixos, unidades que têm falta de alimentos... As habilidades dos militares são insuficientes. Se as unidades de elite forem melhores, essa eficiência permanecerá bastante relativa, em comparação com um nível geral pobre. Esforços para melhorar a formação do pessoal, em particular dos quadros, não são suficientes, enquanto a necessidade de modernização esbarra na falta de visão estratégica e na corrupção.

Para piorar a situação, focadas nas promessas de um futuro econômico, as autoridades colocam a questão da defesa e da segurança em segundo plano. Os efetivos se elevam a cerca de 12.000, dos quais até 10.000 são para o Exército, em comparação com cerca de 30.000 no total. No entanto, esse número nunca foi alcançado devido à falta de voluntários suficientes.

Combatentes do Estado Islâmico em edifício público em palma, província de Cabo Delgado, 24 de março de 2021.

A ordem da batalha é difícil de estabelecer a partir de fontes abertas. É comumente aceito que o exército está organizado em três batalhões de "forças especiais", sete batalhões de infantaria, dois ou três batalhões de artilharia, dois batalhões de engenharia e, finalmente, um batalhão de logística. No entanto, a imprensa lusófona moçambicana bem como diversos documentos oficiais recentes (relativos a promoções, cerimônias, etc.) fornecem diferentes informações que, quando compiladas, permitem estabelecer que a ordem de batalha inclui um batalhão de paraquedas, um batalhão comando e um batalhão de infantaria de marinha (Batalhão de Fuzileiros). Essas três unidades são talvez as descritas como "forças especiais". Eles são considerados a elite das FADM.

Em seguida, vêm unidades regulares, de qualidade desigual, divididas em cinco “brigadas” de infantaria (a brigada Songo, a 3ª brigada de Chimoio, a 4ª brigada de Tete, a 7ª brigada de Cuamba e finalmente a 8ª brigada Chokwe, por vezes referida como “108ª Brigada”) e em pelo menos quatro batalhões de infantaria independentes: Boane, Pemba, Quelimane e Sofala. As FADM também alinham em princípio um regimento de carros de combate (Regimento de Tanques), um batalhão e um grupo misto de artilharia, um regimento de artilharia antiaérea e, por último, um batalhão de transmissão e um batalhão de logística, em particular encarregado da "produção logística", nomeadamente manutenção de equipamentos, produção agroalimentar, etc.; um batalhão de artilharia costeira é mencionado, mas sua existência é altamente incerta.

O exército moçambicano tem no papel equipamentos envelhecidos, mesmo obsoletos e díspares, dos quais apenas 10% são considerados operacionais em 2020. Ao lado destes veículos, os veículos modernos são representados por 11 veículos blindados MRAP Casspir. Em 2018, os Tigers foram adquiridos da empresa chinesa Shaanxi Baoji Special Vehicles Company, às vezes confundida com os ZFB-05 ou mesmo com os VN-4. Eles são usados ​​em particular pelo batalhão comando e pela unidade de fuzileiros navais. A existência desses veículos permaneceu relativamente secreta. Seu número, que parece relativamente pequeno, sugere que os Tigres são atribuídos a um "grupo" e atribuídos a unidades de acordo com as necessidades atuais. Além disso, a unidade de resposta rápida da polícia, uma verdadeira força paramilitar, possui veículos blindados de modelo não-identificado. A chegada de equipamentos mais modernos foi anunciada durante o verão de 2020, sem nenhum detalhamento quanto à sua natureza.

Soldados moçambicanos sendo instruídos por fuzileiros navais americanos.

A artilharia é substancial, com nada menos que cinco calibres para os obuseiros, aos quais são adicionados uma dúzia de lançadores de foguetes múltiplos BM-21 e canhões de campanha. O arsenal também inclui vários canhões sem recuo e morteiros tradicionais de 82mm, bem como pelo menos uma dúzia de morteiros de 120mm. A artilharia antiaérea consiste em várias peças de quatro calibres diferentes, incluindo alguns canhões autopropulsados ​​ZSU - 57/2 que parecem não estar mais operacionais. Finalmente, as armas leves estão em mais ou menos boas condições dependendo da unidade, com os clássicos AKM e variantes (incluindo os Tipos 56-2), PKM, RPG-7, etc. Os militares têm falta de equipamentos de base, e mesmo uniformes de combate (não é incomum vê-los em operação dotados de roupas civis totalmente inadequadas), munição e às vezes até comida.

Pequeno em tamanho em comparação com as necessidades, a marinha se beneficiou dos esforços de modernização com notadamente seis HSI-32 e especialmente três Ocean Eagle 43. A sua ordem de batalha inclui uma unidade de infantaria de marinha (Fuzileiros) que representa uma das unidades mais sólidas do Moçambique, empenhada em operações contra os jihadistas. A força aérea tem seis MiG-21bis e dois MiG-21UM que, embora pareçam estar no ar, são de valor limitado para missões de ataque ao solo em um cenário de contra-insurgência. No verão de 2019, eles ainda não haviam se engajado contra os jihadistas. Para a luta contra-insurrecional, o país conta com apenas dois FTB-337G, de disponibilidade questionável (e que, aliás, não foram utilizados), dois Mi-24 considerados não-operacionais e dois Mi-8. A aviação de transporte é essencialmente representada por um An-26B. Como um todo, as FADM são muito fracamente operacionais.

A insurgência jihadista


A insurgência jihadista no norte de Moçambique foi notada em 2018 com a presença relatada de elementos do Estado Islâmico (IS), o que o governo nega veementemente. Na verdade, esta presença tem vindo a crescer de forma constante desde o outono de 2017. É construída em torno do movimento Ansar al-Sunna na província de Cabo Delgado. Este último veio da aglomeração de 2015 de pequenos grupos islâmicos (1) que reuniam jovens rapidamente denominados "al-Shabaab" (2) ("os jovens"). Seu treinamento militar é ministrado inicialmente por pelo menos três ex-integrantes das Forças de Defesa e Segurança (FDS) demitidos (policiais e guardas de fronteira). Há indícios de que há ligações com o Estado Islâmico (EI) a partir de 2017, mas os Shabaabs moçambicanos estão inicialmente calados sobre esta influência. Essa imprecisão sobre a criação do movimento e sobre as proporções de sua filiação ao EI deve-se à falta de informação. Autoridades trabalham para impedir o trabalho de jornalistas e pesquisadores, ao mesmo tempo em que negam a existência de jihadistas, acusando "criminosos".

Não é novidade que o movimento está aproveitando fatores sociais que alimentam o descontentamento, a começar pelo número de jovens desempregados. Além disso, embora o país tenha cerca de 20% de muçulmanos, eles representam mais de 50% da população do norte. Os habitantes desta região despertam a desconfiança das autoridades de um país predominantemente cristão. Soma-se a isso a corrupção generalizada, a existência de vários tráficos (pedras preciosas, madeira, marfim, drogas) e a fraqueza das FDS. Em 2020, o movimento é constituído principalmente por moçambicanos, mas também por tanzanianos e somalis. Pretória também teme que os cidadãos sul-africanos que já se juntaram ao EI na Síria e no Iraque possam se reunir lá (3).

Do outono de 2017 ao outono de 2018, cerca de 200 pessoas foram mortas por insurgentes em cerca de 50 ataques. Seus motivos religiosos ainda são incertos. A hipótese de proximidade com os Shabaabs somalis é mencionada, mas sem provas tangíveis. Os observadores, no entanto, suspeitam do surgimento de um foco jihadista. O primeiro ataque do Ansar al-Sunna ocorreu em 5 de outubro de 2017, com uma operação de cerca de 40 homens contra três delegacias de polícia em Mocímboa da Praia. Dois policiais e 14 agressores são mortos. Em junho de 2019, o EI reivindicou o primeiro ataque em solo moçambicano, contra a aldeia de Metubi, seguido de novos ataques, ainda reivindicados pelo EI.

Fuzileiros navais moçambicanos.

As FADM estão engajadas, em particular o Batalhão de Fuzileiros, em uma força operacional conjunta que inclui elementos da polícia e serviços de inteligência militar. No entanto, os meios militares e paramilitares, pessoal e material, continuam fracos. A relação entre as FADM e a polícia é terrível. Grupos de autodefesa civis estão se formando, mas os jihadistas estão se aproveitando das armas leves tiradas dos governos, que ainda estão crescendo em número. Aos ataques islâmicos responde-se com contra-ataques desajeitados dos governamentais. Na defesa, as unidades moçambicanas são más, com posições mal-preparadas, um desleixo terrível, falta de coordenação entre as unidades... O governo também está tentando uma abordagem mais indireta: é criada uma Agência de Desenvolvimento para o Norte e até parecem ter sido cogitadas negociações com os jihadistas.

Durante o verão de 2019, Maputo apelou à ajuda russa. Em agosto, o presidente moçambicano Filipe Nyusi encontra Vladimir Putin em Moscou. Ao mesmo tempo, empresas militares privadas que reúnem veteranos sul-africanos particularmente experientes e conhecedores da área oferecem seus serviços. Mas, em última análise, são os russos que vencem, "mais baratos" e principalmente perto do Kremlin, que é sinônimo de oportunidades de obtenção de equipamentos. Em 13 de setembro, os primeiros elementos da empresa militar privada Wagner chegaram de avião. Eles estão baseados principalmente no norte do país para desempenhar o papel de conselheiros militares (4).

Esta empresa é uma provável "subsidiária" do GRU (5) ou, pelo menos, do setor de defesa russo (6), permitindo a Moscou agir sem restrições diplomáticas formais. Tem cerca de vinte representações na África e interveio na República Centro-Africana, Sudão e Líbia. No início de outubro de 2019, os russos permitiram muito temporariamente que os governos recuperassem o controle sobre os jihadistas. Embora Moscou negue qualquer envolvimento em Moçambique, um grande carregamento de armas, nomeadamente com destino ao Grupo Wagner, é descarregado em Narcala. Cerca de 200 russos e três helicópteros (Mi-24 e Mi-171Sh) usados ​​pela empresa estavam no país na época. Ao mesmo tempo, os russos estão realizando uma ofensiva de influência nas redes sociais. Os bons resultados das ações militares e da política de Maputo são aí destacados, desajustados da realidade.

No terreno, a situação é ruim. Do lado inimigo, já não há dúvidas de que o EI/ISIS consolidou a sua influência, abrangendo o movimento moçambicano Ansar al-Sunna na sua "Província da África Central" (Islamic State’s Central Africa Province – ISCAP). Alguns elementos jihadistas da ISCAP são mesmo chefiados por sírios (7) e, portanto, possivelmente em Moçambique. As vitórias permitem que os islamitas confisquem um butim considerável, incluindo vários morteiros. O moral das FADM é catastrófico e os jihadistas exploram essa fraqueza. Antes de muitos ataques, eles avisam em voz alta que vão atacar e onde o farão. Como resultado, ao atacar, as FDS desertaram de suas posições. Além disso, a luta entre os jihadistas e os russos está crescendo em intensidade. Os primeiros parecem ser especialmente dirigidos aos segundos. Graças a ligações com outras regiões onde o ISIS está presente, reforços teriam se infiltrados no norte de Moçambique a fim de evitar que elementos do Grupo Wagner criassem condições favoráveis ​​para a retomada da iniciativa do governamental (8).

Mercenários do Grupo Wagner na Síria.

Em 10 de outubro, dois russos foram mortos. No dia 27, um elemento de soldados moçambicanos enquadrados por russos caiu numa emboscada. Cinco conselheiros militares e 20 moçambicanos são mortos. Durante o mês de novembro, as relações entre o governo e os russos foram tensas devido à deplorável ineficácia das FADM. A cooperação no terreno é interrompida, até que cesse totalmente. Os russos parecem ter sido "leves" na inteligência militar e avaliaram mal a situação (9). No final de novembro de 2019, alguns dos conselheiros militares russos presentes em Moçambique foram retirados. Apenas alguns elementos permanecem em Pemba (capital provincial), Nacala (a sua base principal) e Mocímboa da Praia. Em tese em violação da lei americana, Erik Prince, fundador da Blackwater, propõe ao Grupo Wagner apoiar a sua ação no Moçambique (10), o que os russos recusam.

Em fevereiro de 2020, a ExxonMobil e a Total, particularmente preocupadas com projetos em Cabo Delgado, pediram a Maputo para reforçar a segurança da província, aumentando o número da força-tarefa conjunta (FADM, polícia, contratados) para 800 homens enquanto ela tem apenas cerca de 500. A situação é ainda mais difícil porque, em março, não havia mais funcionários do Grupo Wagner trabalhando ao lado das FADM (11). No dia 23 de março, os jihadistas tomaram a capital distrital de Mocímboa da Praia. As forças governamentais que controlam a cidade são derrotadas por um ataque terrestre e marítimo. A surpresa é total e correm os rumores de que os elementos que protegiam a localidade dormiam no momento do ataque jihadista e não tinham munições. Os agressores que se espalham pelas ruas têm o cuidado de serem disciplinados, evitando deliberadamente massacres, executando "apenas" funcionários do governo, distribuindo alimentos para civis. Com essa atitude, eles rompem com os crimes que cometem desde 2017. No entanto, esse empreendimento de “sedução” não continuará até o amanhã e os assassinatos em massa serão retomados rapidamente. De qualquer forma, em Mocímboa da Praia, os jihadistas se retiraram poucas horas após sua vitória.

Os contractors sul-africanos

Em abril de 2020, os jihadistas lançaram os primeiros ataques no distrito de Muidumbe. Os combates também aumentam no distrito de Mocímboa da Praia. Maputo está se voltando para conselheiros militares privados sul-africanos, cujas ofertas foram inicialmente rejeitadas em favor dos russos. Um contrato é assinado com o Grupo de Aconselhamento Dyck (Dyck Advisory Group, DAG). Prevê o destacamento de cerca de 30 homens e pelo menos três helicópteros (12) por um período de três meses. Eles entram em ação no início de abril de 2020, ajudando grandemente a bloquear o avanço jihadista em Pemba e a retomar várias aldeias em maio. Não sem perdas: um Gazelle foi abatido no dia 10 (13) de abril durante um ataque mal preparado às Ilhas Qirimbas.

Um contratado sul-africano artilheiro de porta com um canhão de 20mm em um Gazelle. (Joseph Hanlon)

Embora esses reforços aumentem a eficácia dos governamentais, depoimentos denunciam disparos imprecisos de helicópteros, atingindo tanto civis inocentes quanto jihadistas. Os conselheiros sul-africanos estão tentando implementar, como no conflito da Rodésia cerca de 40 anos antes, o método da "Fire Force" [Força de Fogo] (os Gazelle servindo como gunships). No entanto, isso requer a disponibilidade de elementos helitransportáveis e tropas no solo muito bem treinadas e eficientes, o que não corresponde às características das FADM. Apesar disso, graças aos sul-africanos, as FADM estão recuperaram pelo menos dois veículos blindados perdidos, enquanto forçam os jihadistas a se retirarem para os distritos de Palma e Nangade, mais ao norte. Em 15 de junho, um Bat Hawk em uma missão de reconhecimento foi acidentalmente perdido.

Ao mesmo tempo, estão em curso discussões com a África do Sul para obter uma intervenção militar sul-africana. Isso não é fácil com um exército atormentado por décadas de cortes orçamentários e vários problemas, constantemente fraturado, tanto dentro quanto fora das fronteiras. Por conveniência, Pretória fecha os olhos à ação do DAG no Moçambique, visto que a empresa parece não cumprir as leis da África do Sul sobre empresas militares privadas. Surge outro problema: quando a África do Sul se diz disposta a intervir no domínio das forças especiais e da inteligência militar, especifica que isso só será possível se Moçambique o solicitar oficialmente... o que demora a chegar.

Apesar dos esforços do DAG, Mocímboa da Praia caiu pela segunda vez, a 27 de junho de 2020, antes de uma operação de reconquista que resultou na recaptura da cidade a 30 de junho. Em julho, o contrato do DAG é prorrogado por pelo menos seis meses (14). Infelizmente, as FDS não conseguem reter Mocímboa da Praia. Na madrugada de 12 de agosto, após infligir vários reveses às forças governamentais desde 5 de agosto, os jihadistas o tomaram pela terceira vez. Parte do governo conseguiu fugir para o norte, principalmente com barcos, mas uma centena foi morta (15). Durante a retirada, um barco-patrulha HSI-32 foi atingido por um tiro de RPG-7. O ataque parece ter sido realizado inicialmente com jihadistas à paisana infiltrando-se na cidade. Com frequência, as FDS carecem de munição.

Quatro soldados moçambicanos dividem uma moto em Palma, 17 de abril de 2021.

As tentativas das FADM de retomarem Mocímboa da Praia são infrutíferas. Se a cidade tanto chama a atenção dos jihadistas, deve-se à sua importância econômica, centro de projetos offshore de gás natural, da ordem de 60 bilhões de dólares. O início das operações estava previsto para 2022 com os primeiros efeitos perceptíveis em termos de receitas a partir de 2028. A captura da cidade e o agravamento da situação geral no norte (16) levaram Moçambique a solicitar a 16 de setembro de 2020 à União Européia (UE) ajuda para treinamento e logística das FADM, bem como apoio médico e humanitário. Por seu turno, Washington apela ao Zimbábue para que intervenha ao lado dos moçambicanos. Em 14 de outubro, o conflito se espalhou para além das fronteiras do país, com uma incursão na aldeia de Mtwara, na Tanzânia. Apesar disso, nem a comunidade econômica de que depende Moçambique (17) nem a União Africana podem fornecer ajuda rápida e concreta a Maputo. É verdade que Moçambique não está particularmente inclinado a pedir ajuda aos seus vizinhos.

Por outro lado, foi assinado um memorando entre Maputo e a empresa Total com o objetivo de viabilizar as operações das FADM em Cabo Delgado e, de fato, a proteção do projeto levado a cabo pela empresa (no valor de cerca de 20 milhões de dólares). O que parte da oposição moçambicana observa com desconfiança, o princípio levantando muitas questões sobre a soberania nacional. A ideia, cujos contornos não são bem conhecidos, não é nova e já foi esboçada pelo antecessor da Total para o projeto em questão. Consiste em permitir o reforço da força operacional moçambicana, aumentando seus efetivos para 3.000 homens. Para isso, a Total deve aumentar as receitas concedidas e expandir as capacidades das FADM por meio de empresas privadas (formação/treinamento?). Além disso, a empresa é responsável pelo abastecimento alimentar de parte das FADM alocada à força operacional conjunta (18).

Soldados moçambicanos treinando CQB com fuzis de madeira.

A ExxonMobil e a Eni também financiam os esforços do poder. Se o conceito é criticado por associações, é difícil proceder de outra forma. Este financiamento, por menos saudável (19) que possa parecer, é a única forma de prevenir o colapso de Cabo Delgado. Prosaicamente, o Estado moçambicano é corrupto, mas sem dinheiro e sem apoio externo sólido para as FADM, Cabo Delgado reverterá para a ISCAP que então se expandirá.

Em 9 de outubro, a UE respondeu favoravelmente ao pedido de assistência de Maputo, mas com condições estritas, uma vez que as forças do governo foram acusadas de violência, incluindo várias execuções extrajudiciais. As autoridades afirmam inicialmente que as atrocidades são cometidas por jihadistas vestidos como militares. No entanto, os inúmeros depoimentos mostram que os governamentais travam uma “guerra muito suja”, com métodos (20) que servem ao inimigo, embora ele não fique de fora em matéria de atrocidades (21). Nesta questão, as firmas petrolíferas podem desempenhar um papel importante no exercício da sua influência sobre o poder, tanto mais que correm o risco de se encontrarem no centro de escândalos por terem sido "cúmplices" dos crimes cometidos pelas FADM.

Meados de outubro marca a retomada da ofensiva das forças governamentais que infligem pesadas perdas aos jihadistas, anunciando a morte de pelo menos 270 combatentes inimigos e a retomada do controle da área de Awasse. De qualquer forma, a iniciativa pende para o campo dos governamentais. A grande base apelidada de "Síria" está mirada para o dia 28 de outubro. Os jihadistas, no entanto, mantêm sua pressão e atacam a Tanzânia: em 20 de outubro, mais de 300 combatentes lançam ataques na região de Mtwara. Apesar de vários assassinatos e destruição, as FDS da Tanzânia parece estar no controle. Em Moçambique, os jihadistas apreendem Muidumbe enquanto avançam para a estratégica cidade de Mueda, no processo assumindo o controle de várias localidades, a começar por Namacande, capital do distrito de Muidumbe. Cada vez, os jihadistas assassinam e destroem instalações, tanto governamentais quanto privadas. O número de deslocados está aumentando consideravelmente: eram entre 200.000 e 300.000 no final de outubro.

Comandos moçambicanos.

Uma contra-ofensiva em grande escala, em vista dos meios, foi lançada em novembro de 2020. Mais de 1.000 homens entraram em linha em uma operação tanto terrestre quanto aeromóvel. Eles são supervisionados notavelmente por elementos da DAG e, talvez, muito discretamente, por forças especiais de Pretória. O componente terrestre alinha principalmente os veículos blindados leves Tiger e Casspir das FADM, bem como os veículos blindados da unidade de intervenção policial. Um dos dois elementos da força ofensiva se desdobra defensivamente em Mueda-Sede, a fim de fixar os jihadistas e impedir que se espalhem para leste a partir da zona costeira de Mocímboa da Praia. A posição é tanto mais importante quanto é a maior base militar do norte de Cabo Delgado. O outro elemento começou a avançar em direção a Muidumbe para retomar as aldeias caídas, incluindo Namacande, que foi libertada em 16 de novembro de 2020. Em 19 de novembro, o controle do distrito de Muidumbe voltou às forças governamentais. Resta saber se o ímpeto permitirá o recomeço de Mocímboa da Praia... E mesmo assim, esta vitória militar não seria suficiente para resolver o colossal somatório de problemas, o primeiro deles o da implantação do EI. Além disso, não transformará as FADM em um exército nacional real e profissional. E se essa condição é essencial para estabelecer a estabilidade na região (e de forma mais geral no país), não será suficiente. Essa estabilidade requer outros pilares além da justiça e do desenvolvimento. Toda a dificuldade decorre do fato de que leva anos para reconstruí-los e colher os frutos desse esforço. O que, portanto, os torna utopias quando interesses políticos e econômicos clamam por resultados rápidos.

Laurent Touchard é especialista em questões de defesa, e é o autor do livro "Forces Armées Africaines: Organisation, équipements, état des lieux et capacités" ("Forças Armadas Africanas: Organização, equipamento, inventário e capacidades"). Este artigo foi publicado na revista Défense et Securité Internationale (DSI) nº 151, "Royal Marines : nouvelles missions, nouvelles visions" ("Royal Marines: novas missões, novas visões"), janeiro-fevereiro de 2021.

Défense et Securité Internationale (Defesa e Segurança Internacional), nº 151, janeiro-fevereiro de 2021.

Notas

(1) Grupos informais que começam a se formar entre 2013 e 2014.

(2) Sem qualquer ligação com a organização somali comumente conhecida por esse nome, embora a presença de "treinadores mercenários" do Shabaab somali tenha sido relatada, esses combatentes estrangeiros foram pagos pelo Ansar al-Sunnah.

(3) Cerca de cem. Outros cem teriam aderido ao EI/ISIS em Moçambique com a suspeita da presença de vários simpatizantes do EI na África do Sul. Christian Jokinen, "Islamic State’s South African Fighters in Mozambique: The Thulsie Twins Case, Christian Jokinen" ("Combatentes Sul-Africanos do Estado Islâmico em Moçambique: O Caso dos Gêmeos Thulsie, Christian Jokinen"), Terrorism Monitor, vol. 18, no 20, 5 de novembro de 2020, The Jamestown Foundation, link.

(4) Observe que helicópteros Gazelle não marcados foram vistos sobre Pemba em 6 de agosto de 2019; eles foram "contratados" com suas tripulações por um período de três meses do Grupo de Serviço de Fronteira (Frontier Service Group, FSG) de Erik Prince, via Umbra Aviation, na África do Sul. Com a chegada dos russos, eles foram retirados em setembro de 2019.

(5) "Wagner Mercenaries With GRU-Issued Passports: Validating S BU's Allegation" ("Mercenários Wagner com passaportes emitidos pelo GRU: validando a alegação de S BU"), Bellingcat, 30 de janeiro de 2019, link.

(6) CAATSA (Countering America’s Adversaries Through Sanctions Act of 2017 / Enfrentando os Adversários dos EUA por meio da Lei de Sanções de 2017) Seção 231 (e) Lista sobre o Setor de Defesa do Governo da Federação Russa, Departamento de Estado dos EUA, link.

(7) Al J. Venter, “Mozambique Update” ("Atualidades do Moçambique"), Air Forces Monthly, nº 388, julho de 2020; informação reportada a Al J. Venter por fontes incluindo Maputo.

(8) Ibid.

Contratados do Grupo Wagner na região de Starobeshevo, no Donetsk, 2014.

(9) Pjotr ​​Sauer, "In Push for Africa, Russia’s Wagner Mercenaries Are ‘Out of their Depth’ in Mozambique" ("Em avanço pela África, os mercenários russos [do Grupo] Wagner estão ‘mordendo mais que a boca’ no Moçambique"), Moscow Times, 19 de novembro de 2019, link; outras hipóteses também podem ser levantadas: um declínio na qualidade do Grupo Wagner enquanto seu volume aumenta correlativamente a seus numerosos engajamentos, uma subestimação da combatividade e habilidades dos jihadistas africanos.

(10) Matthew Cole e Alex Emmons, "Erik Prince offered Lethal Services to Sanctioned Russian Mercenary Firm Wagner" ("Erik Prince ofereceu serviços letais à firma mercenária russa sancionada Wagner"), The Intercept, 13 de abril de 2020, link.

(11) Elementos sobre operações aéreas são fornecidos em Al J. Venter, "A dirty little war in Mozambique" (“Uma guerrinha suja em Moçambique”), Air Force Monthly, nº 386, maio de 2020.

(12) Dois Gazelle e um Bell 206 Long Ranger, um UH-1, um DA-42 Cessna Caravan e pelo menos um Bat Hawk. O DAG também foi capaz de usar brevemente um drone CADG Helix por meio da empresa Ultimate Air (ela própria possuindo pelo menos o Cessna Caravan, Helix e Cessna sendo vistos na pista de Pemba); "Helix surveillance aircraft spotted in Mozambique" (“Aeronaves de vigilância de hélice plotados no Moçambique”), DefenceWeb, 28 de abril de 2020, link.

Aérospatiale Gazelle semelhante aos utilizados pelos sul-africanos.

(13) Um comunicado à imprensa do Estado Islâmico fornece a data de 8 de abril.

(14) Até março de 2021, na melhor das hipóteses.

(15) Segundo fontes, 55 mortos e 90 feridos.

(16) A Tanzânia opera no setor florestal no seu lado da fronteira.

(17) Comunidade de desenvolvimento da África (Austral Southern Africa Development Community, SADC).

(18) "Au Mozambique, Total ravitaille l’armée pour protéger ses intérêts" ("Em Moçambique, a Total supre o exército para proteger os seus interesses"), Courrier International, 10 de setembro de 2020, link.

(19) E muito arriscado; o investimento da Total - e, portanto, indiretamente da França - é colossal, de até US$ 20 bilhões...

(20) Anistia Internacional, "Mozambique. Des vidéos glaçantes montrent des actes de torture infligés par les forces de sécurité : une enquête doit être menée" (“Moçambique. Vídeos assustadores mostram atos de tortura infligidos pelas forças de segurança: uma investigação deve ser realizada”), 9 de setembro de 2020, link.

(21) "Djihadisme. L’horreur sur un terrain de foot au Mozambique : une cinquantaine de civils décapités" (“Jihadismo. O horror num campo de futebol em Moçambique: cinquenta civis decapitados”), Courrier International, 11 de novembro de 2020, link.

Bibliografia recomendada:

Guerra Irregular:
Terrorismo, guerrilha e movimentos da resistência ao longo da história.
Alessandro Visacro.

Estado Islâmico:
Desvendando o exército do terror.
Michael Weiss e Hassan Hassan.

Leitura recomendada:

Compreendendo a ascensão meteórica do Estado Islâmico em Moçambique, 24 de junho de 2021.


Por que Moçambique está terceirizando a contra-insurgência para a Rússia25 de março de 2020.

Dividendos da Diplomacia: Quem realmente controla o Grupo Wagner?, 22 de março de 2020.

A máquina de guerra é operada por contratos, 25 de janeiro de 2020.

Os contratados militares privados são mais econômicos do que o pessoal uniformizado?, 20 de fevereiro de 2020.

Vega Strategic Services: as PMC russas como parte da guerra de informação?10 de fevereiro de 2021.

A dependência da Rússia de contratados militares privados soa alarme no mundo todo9 de fevereiro de 2021.

Helicóptero Gazelle de mercenários sul-africanos foi abatido em Moçambique26 de abril de 2020.

7 mercenários ligados ao Kremlin mortos em Moçambique em outubro - Fontes militares, 1º de novembro de 2019.

Islâmicos ligados ao Estado Islâmico decapitaram mais de 50 pessoas em campo de futebol em Moçambique11 de novembro de 2020.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

Compreendendo a ascensão meteórica do Estado Islâmico em Moçambique


Por Michael Shurkin, Newlines Institute, 22 de junho de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 23 de junho de 2021.

Um recente ataque à cidade de Palma, no norte de Moçambique, pelo Ahl al-sunnah wa al Jamma'ah, um grupo afiliado ao Estado Islâmico, levantou questões sobre suas origens e rápido sucesso em uma parte do mundo que poucos associariam à violência islâmica.

Em 24 de março, mais de cem combatentes islâmicos filiados ao Estado Islâmico tomaram a cidade de Palma, no norte de Moçambique. Eles a mantiveram por 10 dias, saqueando e aterrorizando seus habitantes. O ataque levou a gigante do petróleo francesa Total, que usa Palma como base, a declarar força maior - o que significa que se declarou livre de suas obrigações contratuais - e suspendeu um projeto de gás natural estimado em bilhões de dólares.

Mulher espera que as autoridades verifiquem seus pertences quando chega à praia do Paquitequete em Pemba em 22 de maio de 2021. A praia do Paquitequete em Pemba é onde a maioria dos deslocados internos (internally displaced people, IDP) chegam de barco do norte de Moçambique e passam seus primeiros dias noites antes de ser transferido para um estádio esportivo coberto. Pemba, a capital de Cabo Delgado, acolheu dezenas de milhares de pessoas que fogem da violência desencadeada pelos rebeldes islâmicos em toda a província do norte há mais de três anos. (John Wessels / AFP via Getty Images).

O grupo em questão, conhecido localmente como Al-Shabaab e mais formalmente como Ahl al-Sunnah wa al Jamma’ah (O povo das línguas e al-Gama'ah, ASWJ), existe há apenas alguns anos. Era praticamente desconhecido fora de Moçambique até agosto de 2020, quando invadiu a cidade de Mocímba da Praia, a qual ainda controla. O ASWJ parece agora agir com impunidade em toda a província de Cabo Delgado, onde foi responsável por milhares de mortes e deslocamentos de mais de 700.000 residentes, muitos deles crianças, provocando uma crise humanitária “épica”.

Tudo isso implora por explicações sobre a natureza do ASWJ, seus laços com o Estado Islâmico e seu rápido sucesso em uma parte do mundo que poucos associariam à violência islâmica. As respostas são importantes, dado o aparente potencial do ASWJ de crescer e se tornar um bastião do Estado Islâmico que ameaça o sudeste da África, especialmente devido à incapacidade do governo de Moçambique de detê-lo. Além disso, a orla ocidental do Oceano Índico é alvo de intensificação da concorrência entre China, Índia, Rússia e França (que possui território offshore no Canal de Moçambique).

O fato da ascensão do ASWJ vir como uma surpresa reflete a falta de atenção dada a Cabo Delgado, uma das províncias mais pobres de Moçambique; a relativa negligência do país lusófono entre acadêmicos e analistas, pelo menos em comparação com seus vizinhos mais proeminentes e anglófonos; e a preferência arraigada do governo moçambicano em insistir que tudo está bem quando claramente não está.

Uma História de Negligência

Estátua do ditador socialista Samora Machel em Maputo, no Moçambique.

A história de Moçambique é de pobreza e falta de desenvolvimento. Os portugueses investiram pouco na ex-colônia e de fato não fizeram nenhum esforço real para governá-la até o século XX. Depois veio a destrutiva guerra de independência (1964-1974) e a ainda mais destrutiva guerra civil entre a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO) e a oposição Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) (1977-1992). A paz não trouxe prosperidade, mas sim estagnação e mais pobreza, com grande parte da culpa recaindo sobre as elites rentistas do partido no poder, a FRELIMO. As revelações de algumas de suas negociações financeiras mais flagrantes em 2016 levaram o Fundo Monetário Internacional a congelar os desembolsos de empréstimos, desencadeando uma reação em cadeia que afundou a economia do país.

Os empréstimos refletem um problema crescente, o qual é que a promessa de uma grande sorte inesperada devido aos grandes depósitos de gás natural do país fortaleceu ainda mais os instintos de busca de renda das elites do país - encorajando-as a serem ainda menos responsivas às necessidades da população - ao mesmo tempo que aumenta as expectativas do público. Em Cabo Delgado, uma das províncias mais pobres de Moçambique, esta tensão provou ser explosiva.

Samora Machel, o líder da FRELIMO de viés marxista-leninista, com o líder socialista cubano Fidel Castro em Moçambique, 1980.

Num relatório divulgado em Janeiro, o Observatório do Meio Rural (OMR), um think tank moçambicano, identificou em Cabo Delgado cinco “eixos internos de contradições” que aí impulsionam o conflito. O primeiro fator é a idade: uma grande população de jovens está privada de qualquer meio de vida real em uma época em que as descobertas de recursos naturais, principalmente rubis e gás natural (o local recentemente descoberto de Montepuez é considerado um dos maiores depósitos de rubi no mundo), alimentaram expectativas e colocaram os jovens em conflito direto com pessoas mais velhas e estabelecidas com seus meios de subsistência. As diferenças de classe também são importantes, o qual em Cabo Delgado tem a ver com quem tem acesso aos recursos do Estado ou recursos naturais. Também há elementos étnicos e geográficos: os Mwanis ou Makuas costeiros, que são muçulmanos, freqüentemente entram em conflito com os Macondes do interior, que são cristãos.

O relatório afirma que essas quatro divisões informam a quinta: política. Os Macondes estão historicamente alinhados com a FRELIMO, enquanto os Mwanis costeiros tendem a ter laços com a RENAMO, o que significa que historicamente a sua relação com o Estado tem sido definida pelo confronto.

Encontro de Machel com Margot Honecker em Berlim, 1983.
Margot Honecker foi uma política da Alemanha Oriental que foi um membro influente do regime comunista daquele país até 1989. De 1963 a 1989, ela foi Ministra da Educação Nacional (Ministerin für Volksbildung) da RDA. Ela foi casada com Erich Honecker, o líder do Partido da Unidade Socialista da Alemanha Oriental de 1971 a 1989 e, simultaneamente, de 1976 a 1989, o chefe de estado do país.

Todas essas coisas vieram à tona quando, por exemplo, o Estado agiu brutalmente para retirar os mineiros artesanais de rubi de Montepuez para o benefício de um consórcio empresarial ligado à FRELIMO ou quando o Estado forçou as comunidades costeiras a deixarem suas terras para abrir caminho para infraestruturas relacionadas à produção de gás natural. A violência recente também deslocou milhares de pessoas, interrompendo o comércio e o fluxo de mercadorias do norte para o sul e do litoral para o interior, dificultando a agricultura e fazendo com que os preços dos alimentos subissem. O Estado, por sua vez, abandonou áreas e as pessoas que moram nelas (como a Mocímba da Praia) ou as predaram.

A Surpreendente Ascensão do ASJW

Os muçulmanos de Moçambique são uma comunidade econômica, étnica, ideológica e politicamente diversa que, como em outras partes da África subsaariana, está sujeita ao que pode ser descrito como correntes tradicionalistas e outras correntes descritas como islâmicas ou mesmo wahhabistas, embora isso não necessariamente implique rejeição ao Estado. Na verdade, o Conselho Islâmico semi-oficial de Moçambique é identificado com as comunidades de orientação wahhabista da nação.

O especialista em Moçambique Eric Morier-Genoud traça as origens do ASJW em 2007, quando um jovem chamado Sheikh Sualehe Rafayel, um local que se radicalizou na Tanzânia, formou sua própria comunidade após separar-se de uma comunidade wahabista. Ele e seus seguidores entraram em confronto violento com outros muçulmanos e com o Conselho Islâmico apoiado pelo Estado. O grupo do xeique Sualehe pode ou não estar diretamente conectado ao grupo que acabou se tornando o ASJW, mas estabeleceu uma tendência de rebelião islâmica contra instituições islâmicas sancionadas pelo Estado, que, com o apoio do Estado, tentou suprimi-la.


O próprio ASJW surgiu em 2014, quando outro clérigo, o xeique Abdul Carimo, estabeleceu uma seita islâmica semelhante que o Conselho Islâmico perseguiu da mesma forma. Entrou em confronto violento com outros muçulmanos em 2016 e sitiou uma delegacia de polícia, o que levou a uma altercação na qual o xeique Carimo foi baleado. Ele teria morrido na prisão em 2018. No entanto, o grupo se espalhou por vários distritos em 2016 e 2017 e continua a crescer. Hoje, além de controlar a Mocímba da Praia, o ASJW parece atuar em toda a província, para onde se desloca impunemente.

Tanto Morier-Genoud como Liazzat Bonate, que estuda os muçulmanos moçambicanos, insistem na natureza local da insurgência islâmica de Cabo Delgado, quaisquer que sejam os contatos que possa ter com organizações externas. Os residentes de Mocímba da Praia teriam identificado a maioria dos envolvidos na violência de 2017 como moradores ou estrangeiros que moravam na cidade há algum tempo. Hoje há, sem dúvida, um elemento estrangeiro entre eles, o que ajudaria a explicar algumas das habilidades técnicas e militares em exibição nos ataques sofisticados e cuidadosamente planejados do ASJW. Em junho de 2019, o ASJW jurou fidelidade ao Estado Islâmico do Iraque e do Levante, e é comumente considerado parte ou subordinado à Província da África Central do Estado Islâmico, ou ISCAP, que se estabeleceu na República Democrática do Congo. No entanto, a extensão dos laços entre o ASJW e o Estado Islâmico permanece desconhecida. O Estado Islâmico publicou um vídeo do ataque de Palma, por exemplo, mas isso não prova nada. De acordo com um relatório recente da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, há indicações de que o ASJW recebe apoio de indivíduos de fora do país e da ISCAP, mas, novamente, os detalhes são desconhecidos.


Talvez o melhor vislumbre que temos dentro da organização venha do estudo recente do sociólogo moçambicano João Feijó baseado em entrevistas com mulheres que escaparam do controle do ASJW. As mulheres deixaram claro que a maioria dos membros do grupo eram locais, embora houvesse muitos tanzanianos, residentes de Moçambique e da Tanzânia que se “internacionalizaram” no exterior, e indivíduos de outros países. De acordo com seus depoimentos, os estrangeiros e locais internacionalizados eram mais doutrinários e motivados pela religião, enquanto muitos dos membros locais mais jovens eram essencialmente movidos por motivos materiais ou ressentimentos gerados pelo comportamento abusivo das forças de segurança. Feijó avaliou que o ASJW conseguiu capitalizar sobre os sentimentos de exclusão da população local que a inclina a se rebelar não apenas contra o Estado, mas também contra suas comunidades de origem.

Atualmente, o ASJW parece ter a vantagem. Há um movimento lento em direção a um possível desdobramento militar patrocinado pela Comunidade de Desenvolvimento da África Austral, e os Estados Unidos e Portugal estão fornecendo treinamento em escala relativamente pequena. O governo, que ainda em geral insiste que tem tudo sob controle, tornou difícil para si mesmo reconhecer que este não é, de fato, o caso, o que significa que mesmo se tivesse os meios para resolver a miríade de problemas que impulsionam o conflito, é improvável que isso aconteça.

Soldados indianos e franceses durante um exercício conjunto.

Os atores regionais até agora não influenciaram a crise, embora isso possa mudar devido às próprias vulnerabilidades e necessidades de energia da África do Sul; o interesse da França, no mínimo, na segurança marítima e quaisquer eventos que possam afetar negativamente os territórios franceses próximos; interesse russo na região, demonstrado recentemente pelo destacamento de mercenários em 2019-2020 para Moçambique e interferência nas eleições em Madagascar; e a competição entre China e Índia, cada vez mais alinhada com a França. Não seria surpreendente se algum poder externo interviesse. A questão seria quem, e com que resposta dos outros?

Michael Shurkin é cientista política sênior da RAND Corporation, organização sem fins lucrativos e apartidária. O Dr. Michael Shurkin é Diretor de Programas Globais da 14 North Strategies. O Dr. Shurkin trabalha na segurança africana há cerca de 16 anos, incluindo mais de uma década na RAND Corporation e vários anos como analista político na Agência Central de Inteligência. Shurkin é Ph.D. em história pela Yale University e também estudou em Stanford e na Ecole des Hautes Études en Sciences Sociales em Paris, França. Ele twitta em @MichaelShurkin.

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Estado Islâmico: Desvendando o exército do terror,
Hassan Hassan.

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quarta-feira, 31 de março de 2021

Portugal enviará tropas a Moçambique após ataque descarado em Palma por insurgentes islâmicos

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog,  31 de março de 2021.

Portugal vai enviar soldados na primeira quinzena de abril para Moçambique onde vão treinar tropas locais na sequência de um ataque de rebeldes islâmicos à cidade de Palma, afirmou a agência noticiosa Lusa nesta terça-feira, citando fonte do Ministério da Defesa.

A mídia portuguesa afirmou que está a ser finalizado um acordo bilateral que prevê um total de 60 militares das forças especiais portuguesas em missão para Moçambique. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, disse ainda na segunda-feira à estação de televisão estatal RTP que uma equipe de "cerca de 60" militares "se prepara" para ser enviada para a ex-colónia de Portugal "nas próximas semanas". A equipe vai "apoiar o exército moçambicano na formação de forças especiais", disse.

Em uma escalada dramática de uma insurgência lançada em 2017, os jihadistas atacaram na última quarta-feira a cidade de Palma, no norte, localizada a apenas 10 quilômetros do local de um projeto de gás multibilionário. Na segunda-feira, o Estado Islâmico afirmou que conduziu a operação de três dias contra alvos militares e do governo e disse que havia assumido o controle da cidade. O governo moçambicano disse que dezenas de pessoas morreram na operação, mas o número exato de vítimas na remota cidade do norte não é conhecido.

Portugal é um país ativo na África, com tropas à serviço da ONU na República Centro-Africana e no Mali. Apesar de ter garantido a independência das suas colônias de Angola, Moçambique e Guiné Bissau (ex-Guiné Portuguesa), Portugal permanece envolvido na solução de problemas nos três países. Em janeiro do ano passado, Portugal interveio no Moçambique depois que uma enchente matou cerca de 30 pessoas e deixou mais 58 mil desabrigadas.

Portugal, mantendo sua tradição centenária de presença na região, continuará apoiando o país "irmão" lusófono, cuja segurança atualmente está nas mãos de mercenários russos e sul-africanos servindo a um governo com pouca força real à frente de um Estado não-consolidado.

Comandos portugueses na República Centro-Africana.

Palma estava quase totalmente deserta na segunda-feira após o massacre, que obrigou seus moradores a fugir por estrada, barco ou a pé. Foi o maior e mais próximo ataque a um projeto multibilionário de gás, que está sendo construído em uma península a apenas 10 quilômetros de distância, pela francesa Total e outros gigantes da energia. Muitos sobreviventes disseram que caminharam por dias pela floresta para buscar refúgio em Mueda, 180 quilômetros ao sul, onde chegaram mancando com os pés inchados.

Milhares de fugitivos chegaram em barcos a Pemba, capital da província a cerca de 250 quilômetros ao sul, segundo fontes locais. Até 10.000 outros aguardavam evacuação, de acordo com agências humanitárias. Pemba já está lotada com centenas de milhares de refugiados deslocados pela insurgência islâmica, que expulsou quase 700.000 de suas casas em toda a vasta província. O ataque forçou trabalhadores expatriados e moradores locais a buscarem refúgio temporariamente em uma usina de gás fortemente protegida localizada na península de Afungi.

“Um número significativo de civis resgatados de Palma também estão sendo transportados para o local de Afungi, onde recebem apoio humanitário e logístico”, revelou a Total em um comunicado divulgado segunda-feira.

Os insurgentes são conhecidos localmente como al-Shabab (sem relação com a organização jihadista somaliana de mesmo nome), liderados por Abu Yasir Hassan e declarando apoio ao Estado Islâmico. Em novembro do ano passado, o al-Shabab decapitou 50 moçambicanos em um campo de futebol. Ainda essa semana, diferentes grupos radicais islâmicos ameaçaram os franceses e americanos no Djibouti e explodiram uma catedral católica na Indonésia em uma clara mensagem contra os cristãos e contra o Ocidente.

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domingo, 28 de março de 2021

Moçambique: Localizada perto de um importante local de gás, a cidade de Palma caiu sob o jugo do Estado Islâmico

Por Laurent LagneauZone Militaire OPEX360, 28 de março de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 28 de março de 2021.

Em outubro de 2017, o grupo jihadista Ahlu Sunnah wal Jamaa (os "seguidores da tradição do profeta"), também chamado de "al-Shabab" (não relacionado à organização somaliana de mesmo nome) lançou uma insurreição armada na região da província de Cabo Delgado, onde a descoberta de imensas reservas de gás natural permitiria a Moçambique tornar-se um dos maiores produtores mundiais.

Apesar das apostas que esta região representava, as autoridades moçambicanas demoraram a reagir, quando não se refugiaram na negação. Depois, acabaram solicitando a ajuda de companhias militares privadas (PMC), principalmente russas e sul-africanas. Ao mesmo tempo, o grupo al-Shabab prometeu lealdade ao Estado Islâmico e adotou o nome de "Estado Islâmico da África Central" (ISCAP).

A cidade de Palma, no extremo norte do Moçambique. (AFP)

No entanto, a situação continuou a piorar. Em agosto de 2020, os jihadistas tomaram o porto de Mocímboa da Praia, estratégico para a logística das instalações do gasoduto Afungi, no qual o grupo francês Total é um dos principais investidores. Então, um mês depois, desembarcaram nas ilhas de Metundo e Vamizi, dando-se assim a possibilidade de ameaçarem o tráfego marítimo ao largo de Cabo Delgado.

Nos meses seguintes, diversos ataques perpetrados nas proximidades de Afungi levaram a Total a suspender suas atividades na região. Depois houve uma calmaria, atribuída à ação das Forças Armadas de Defesa de Moçambique. No entanto, em fevereiro, a situação continuou preocupante, como Bernard Émié, chefe da Direção-Geral de Segurança Externa (DGSE, serviço secreto francês), apontou em fevereiro durante um Comitê Executivo de Contraterrorismo.

Na verdade, a calmaria terá durado pouco. Depois da Total ter acabado de anunciar o reinício das suas atividades no sítio de Afungi, Palma, uma cidade de 75.000 habitantes situada a apenas dez quilómetros de distância, foi atacada pelo ISCAP em três locais diferentes.

O destino de Palma pode ser uma reminiscência do destino de Kolwezi, submergido por rebeldes katangeses em 1978.* De fato, muitos expatriados - pelo menos 180 - ficaram presos. Operações de evacuação - por mar e terra - foram tentadas em 26 de março. Mas, de acordo com a imprensa local, pelo menos um comboio foi emboscado e fazendo pelo menos sete mortos.

Bandeira do Zaire presenteada à Legião em exposição no Museu da Legião Estrangeira em Aubagne, no sul da França. (Foto do tradutor)

Nota do Tradutor: Famosa Operação Bonite/Léopard onde os paraquedistas da Legião Estrangeira (2e REP) saltaram em ação de emergência e derrotaram os rebeldes katangueses e seus conselheiros cubanos no Zaire (atual República Democrática do Congo). A ação rápida e decisiva da Legião salvou a vida de 2.200 europeus e 3.000 africanos. A Frente de Libertação Nacional Congolesa (FNLC) já havia massacrado 60 europeus e 100 africanos e, sob orientação de seus conselheiros cubanos, pretendia massacrar os demais e se recuar para a Angola comunista. A Legião perdeu 5 legionários mortos e teve 25 feridos na operação. A FLNC perdeu em torno de 400 mortos e 160 prisioneiros, além de 1.500 armas leves e pesadas capturadas; notadamente 10 metralhadoras pesadas, 38 fuzis-metralhadores, 4 peças de artilharia, 15 morteiros e 21 lança-rojões. A FLNC jamais se recuperou da derrota.

É difícil obter informações sobre a situação na cidade, pois os retransmissores telefônicos foram cortados (confirmado pela operadora Vodacom). Portanto, só temos testemunhos de pessoas que conseguiram fugir do conflito. De acordo com a Pinnacle News, “dezenas de civis foram decapitados ou baleados e pelo menos 21 soldados foram mortos."

De qualquer forma, em 27 de março, Palma acabou caindo sob o controle dos jihadistas. “As forças do governo retiraram-se de Palma, por isso a cidade está efetivamente tomada”, disse uma fonte de segurança citada pela AFP. “Palma está nas mãos dos atacantes”, confirmou outro.

O fato deste ataque ter sido lançado quando a Total tinha acabado de anunciar o recomeço das suas atividades é presumivelmente uma coincidência... E a calmaria que se tinha referido anteriormente deveu-se provavelmente a dificuldades relacionadas com a época das chuvas do que à ação das forças moçambicanas na região.

Nesse ínterim, a Total voltou a anunciar a suspensão das atividades na Anfugi. E resta saber o que Maputo pretende fazer para retomar o controle da cidade... Preocupada com a situação devido à presença de expatriados sul-africanos na região, a África do Sul pode tentar uma intervenção...

Isso é o que o "Daily Maverik" publicado em Joanesburgo entende. "A África do Sul estava planejando no sábado enviar forças especiais para a cidade costeira de Palma, a fim de evacuar vários sul-africanos que ainda estariam presos ou mantidos como reféns pelos insurgentes islâmicos", disse ele. De fato, escrito em 27 de março.

Recorde-se que as forças especiais americanas lançaram recentemente uma missão para formar e treinar os seus homólogos moçambicanos. Quanto à França, preocupada com o envolvimento da Total em Cabo Delgado e presente na região (com Mayotte), pretende fazer o mesmo. Foi o que disse Florence Parly, a Ministra das Forças Armadas, durante uma audiência parlamentar em janeiro. “Estamos agora a ver como podemos apoiar, através da formação e educação, as forças armadas” de Moçambique, disse ela.

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