terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

A dependência da Rússia de contratados militares privados soa alarme no mundo todo

 

Instrutores do Vega treinam combatentes da Liwa al-Quds (Brigada de Jerusalém) na Síria em uma foto postada em janeiro de 2019. (Oleg Blokhin / VKontakte)

Por Kanat Altynbayev, Central Asian News, 11 de dezembro de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 9 de fevereiro de 2021.

A Vega se junta a uma lista crescente de mercenários russos - incluindo o Grupo Wagner - realizando o trabalho sujo do Kremlin em países estrategicamente importantes e oferecendo a Putin uma negação plausível.

ALMATY - As evidências crescentes de que a Rússia está aumentando sua dependência de unidades militares informais para resolver problemas estratégicos em países de interesse geopolítico estão causando preocupação em todo o mundo.

Além do Grupo Wagner - uma companhia militar privada (private military companyPMC) notoriamente envolvida em guerras no leste da Ucrânia, Síria, Líbia, Sudão, Venezuela, Madagascar e mais, e criada por associados próximos do presidente russo Vladimir Putin - a PMC russo-ucraniana Vega está sendo examinada pelo microscópio.

Esses contratados permitem que o regime russo inflija e sofra baixas, sem que nenhum derramamento de sangue apareça nos livros do Kremlin.

Em março de 2019, a Equipe de Inteligência de Conflitos (Conflict Intelligence Team, CIT), um grupo de blogueiros russos independentes que usa fontes abertas para investigar guerras, publicou dados indicando que mercenários do Vega operam na Síria desde 2018 para apoiar o presidente Bashar al-Assad, assim como seus homólogos do Grupo Wagner.

Instrutores do Vega treinam combatentas da Liwa al-Quds (Brigada de Jerusalém) na Síria em uma foto posada em janeiro de 2019. (Oleg Blokhin / VKontakte)

Apoiando os combatentes da Liwa al-Quds na Síria

No início, o Vega protegeu pessoas físicas, bem como várias empresas, bancos e navios em áreas de alto risco. Mas, nos últimos anos, o Vega expandiu seu trabalho de segurança para incluir o treinamento de milícias em nome da Rússia. O Vega está treinando uma milícia predominantemente palestina conhecida como Liwa al-Quds (Brigada de Jerusalém), a maior unidade de Aleppo que apóia o governo sírio.

Foi o que os investigadores do CIT concluíram após examinarem as fotos tiradas pelo jornalista Oleg Blokhin, que trabalha na Síria para as publicações online pró-Kremlin ANNA News e Russkaya Vesna (Primavera Russa).

As imagens mostram soldados usando brevês dos Vega Strategic Services (Serviços Estratégicos Vega).

Os Vega Strategic Services foi fundada em 2011 na Ucrânia por veteranos das forças especiais russas e ucranianas, descobriram os investigadores. Tornou-se Vegacy Strategic Services em 2012, quando o fundador da empresa, o cidadão ucraniano Anatoly Smolin, mudou sua sede para o Chipre.

Smolin, um veterano da marinha soviética e da KGB e depois das forças do Ministério do Interior ucraniano (MVD), disse à BBC em março de 2019 que se mudou para o Chipre porque a legislação que regia as PMC era favorável. A sede está situada no Chipre, com outros escritórios na Ucrânia, Rússia, Síria, Sri Lanka e Egito.

A Rússia "reforçou significativamente seu apoio à Liwa al-Quds" desde 2019, informou a Deutsche Welle em março de 2019, citando a publicação online libanesa Al-Modon. O grupo palestino ganhou várias centenas de novos membros, incluindo menores, disse o relatório. Relatórios de janeiro de 2019 reconheceram a Rússia como a força por trás do Vega. Smolin participou pessoalmente do treinamento militar dos combatentes da Liwa al-Quds na Síria, de acordo com o CIT - As fotos do treinamento mostram alguém que se parece com ele.

Operando "nas sombras" no Oriente Médio

Observadores na Ásia Central vêem as PMC russas como uma ameaça multifacetada à segurança de seus países. As PMC como o Grupo Wagner realizam missões militares e de inteligência que Moscou não pode executar oficialmente, disse Edil Osmonbetov, de Bishkek, um cientista político e especialista em relações internacionais.

“Estas não são forças armadas regulares que se enquadram no direito internacional; os estados que as coordenam não têm responsabilidade por suas ações”, disse ele.

O Vega é apenas uma das PMC criadas a pedido do Kremlin, disse Dauren Ospanov, um major aposentado do exército cazaque e ex-oficial da guarnição regional de Almaty. Ele nomeou outras PMC - Shchit (Escudo) e Patriot (Patriota) - que não existem oficialmente na Rússia, mas recrutam ativamente jovens para realizar missões perigosas no Oriente Médio.

"Ao contrário do Grupo Wagner, o Vega e outras PMC russas não têm equipamento militar, veículos blindados ou artilharia e não foram vistos em combate", disse Ospanov. "Eles estão nas sombras, lidando com segurança e treinando combatentes, mas isso poderia muito bem ser apenas um escudo para esconder crimes de guerra."

Instrutores do Vega treinam combatentes da Liwa al-Quds (Brigada de Jerusalém) na Síria em uma foto postada em janeiro de 2019. (Oleg Blokhin / VKontakte)

Recrutando combatentes na Ásia Central

As PMC russas também estão envolvidas em atividades destrutivas, não apenas aquelas tarefas "obscuras", disse Ospanov. Eles contratam jovens de famílias carentes, principalmente os que vivem na Rússia, e oferecem-lhes altos salários para lutar na Síria. "Muitos dos mercenários são mortos, mas ninguém é responsabilizado", disse ele. O recrutamento também está ocorrendo nos países da Ásia Central.

Em agosto, soube-se que o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) abriu processos criminais contra 15 membros do Grupo Wagner, incluindo três quirguizes, que supostamente lutaram no leste da Ucrânia ao lado de separatistas pró-russos.

Dois anos antes, o jornal cazaque Caravan citou o SBU quando informou que bielo-russos, moldavos e cazaques estavam lutando como parte de uma PMC russa na Síria.

As PMC russas estão contratando estrangeiros para que "haja menos reclamações" sobre a Rússia, Andrei Buzarov, um cientista político de Kiev, Ucrânia, disse ao Caravan, sem especificar a origem das reclamações. Os mercenários também concordam em trabalhar para as PMC por razões financeiras, disse ele.

"Máquinas de matar" apoiadas pelo Kremlin

Ospanov está convencido de que o Vega está intimamente ligada ao Kremlin, já que está treinando um grupo apoiado pela Rússia.

“Não há necessidade de alimentar ilusões de que o Vega está ficando fora de combate e cumprindo as regras internacionais sobre as PMC”, disse ele. “Não há dúvida de que, em um momento decisivo, as PMC como o Vega puderiam ser mobilizadas e, de uma forma ou de outra, serem levadas a uma guerra híbrida, executando as missões de combate do Kremlin, como foi o caso da Ucrânia”.

A ameaça da Rússia de desencadear uma guerra híbrida também é relevante para a Ásia Central, particularmente para o Cazaquistão, disse Dosym Satpayev, de Almaty, cientista político e diretor do Grupo de Avaliação de Risco. Os problemas internos estão crescendo no Cazaquistão, que Moscou pode explorar para seus próprios interesses, disse ele.

"O surgimento de uma PMC estrangeira no Cazaquistão representa uma séria ameaça ao nosso país, já que é possível que, se a situação política mudar, ela possa se envolver em sabotagens", disse Satpayev.

As autoridades cazaques, por sua vez, desconfiam da própria ideia das PMC e não permitem que tais entidades operem legalmente no Cazaquistão. Em março de 2018, Dariga Nazarbayeva, senadora na época e filha mais velha do ex-presidente Nursultan Nazarbayev, denunciou a ideia de criar empresas PMC no Cazaquistão.

"Não apoio essa ideia. Isto é literalmente uma máquina de matar privada", disse ela. "Essas organizações não deveriam existir."

Bibliografia recomendada:


Leitura recomendada:

Os condutores da estratégia russa16 de julho de 2020.

Dividendos da Diplomacia: Quem realmente controla o Grupo Wagner?22 de março de 2020.

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