Mostrando postagens com marcador América do Sul. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador América do Sul. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

FOTO: Monumento ao Soldado Colombiano.

"Ao Soldado Colombiano,
o maior dos heróis, valente diante das adversidades e humilde na vitória.
Honra - Disciplina - Coragem
1819"

Monumento na Escola de Soldados Profissionais do Exército Nacional (Escuela de Soldados Profesionales del Ejército Nacional, ESPRO), Centro Nacional de Treinamento (Centro Nacional de Entrenamiento, CENAE) no Forte de Tolemaida, na Colômbia.

Estátua principal do CENAE, ainda sem o distintivo na boina antes da sua inauguração em 2019.

sábado, 2 de outubro de 2021

A crise sem fim da Venezuela


Por Moisés Naím, Foreign Affairs, 28 de setembro de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 2 de outubro de 2021.

Para um vislumbre do futuro da Venezuela, olhe para Arauquita, uma cidade remota na fronteira da Colômbia com cerca de 5.000 habitantes. Em maio, milhares de enlameados refugiados venezuelanos do vizinho estado de Apure começaram a chegar a Arauquita com histórias terríveis de bombardeios aéreos e buscas de casa em casa feitas por soldados venezuelanos. Uma pequena guerra estourou na região, colocando o exército leal ao presidente venezuelano Nicolás Maduro contra a Décima Frente - uma facção dissidente das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), grupo rebelde marxista da Colômbia que virou cartel do narcotráfico, que anos antes cruzou a fronteira e efetivamente conquistou uma seção do estado de Apure.

Os motivos da luta permanecem envoltos em incertezas - pode ter se originado de uma disputa sobre os lucros das rotas de contrabando de drogas da Décima Frente. Mas o desfecho dos confrontos foi mais revelador, até chocante: a capacidade do Estado venezuelano é tão limitada que não consegue desalojar os combatentes das FARC. A Décima Frente continua sendo a autoridade de fato na área, apesar da exibição de poder de fogo do governo Maduro.

Líderes da Décima Frente durante uma transmissão televisiva lançada em 4 de setembro de 2019.

As batalhas no estado de Apure podem ser um sinal do que está por vir. O regime venezuelano não é apenas uma ditadura militar, mas também um empreendimento criminoso. Em vez de um Estado burocrático-racional weberiano, o que Maduro lidera é uma confederação frouxa de chefias criminosas, onde ele desempenha o papel de capo di tutti capi - o chefe dos chefes. Normalmente, Maduro é capaz de arbitrar disputas entre seus capitães. Mas às vezes, como em Apure, o sistema quebra e a violência explode.

Os generais do exército dirigem a maioria das rede de extorsão hoje. Os generais controlam tudo, desde os bem abastecidos bodegones de Caracas - varejistas sofisticados onde todo tipo de mercadoria importada está prontamente disponível por dólares americanos - até setores muito mais sombrios, como o comércio encharcado de sangue de coltan, um elemento de terra rara, das selvas do sul. Os sindicatos criminosos colombianos, como a Décima Frente das FARC e o grupo guerrilheiro rival ELN, conhecido por sua brutalidade, atuam em conluio com funcionários venezuelanos e, em outras ocasiões, desafiam as autoridades. Outros negócios lucrativos acabaram nas mãos de civis próximos ao regime - tais números presidiram sobre o boom da construção de alto padrão em áreas afluentes de Caracas - ou com gangues, as quais, por exemplo, administram o dia-a-dia da operação de prisões e extraem lucros gordos por meio da extorsão impiedosa de presidiários.

Um estado mafioso como a Venezuela pode parecer estável dia após dia, mas é inerentemente volátil - como os refugiados de Apure sabem muito bem. Think tanks e diplomatas em Washington continuam a se perguntar como o regime pode ser empurrado para a democracia, mas a verdadeira questão que a Venezuela enfrenta agora é muito mais sombria: a confederação de criminosos liderada por Maduro permanecerá coesa o suficiente para evitar conflitos internos, ou o futuro da Venezuela se parece muito com o presente de Apure, com gangues armadas travando guerras territoriais que mergulham o país em uma violência anárquica?

O ministro da Defesa da Venezuela, General Vladimir Padrino Lopez, fala durante uma transmissão no Palácio de Miraflores em Caracas, Venezuela, em 8 de março de 2019.

A Miragem de Caracas


Os relatos da situação difícil da Venezuela normalmente começam não no estado de Apure, mas entre os arranha-céus de Caracas, onde uma ilusão de normalidade agora é oferecida. Os protestos de rua massivos (e reprimidos de forma assassina) dos últimos anos acabaram. Assim também são os dias de confronto político de alto risco entre o regime Maduro e a oposição política venezuelana.

Os venezuelanos estão exaustos e sem esperança. Anos de protestos de rua, que ocorreram de 2002 a 2017, não produziram mudanças políticas tangíveis. Com as esperanças frustradas, muitos venezuelanos olham para a liderança da oposição com profundo ceticismo e raiva. Seu desespero impulsionou um êxodo para fora do país. O ACNUR, a Agência da ONU para os Refugiados, estimou que cerca de 5,4 milhões de venezuelanos deixaram o país nos últimos anos - quase um quinto da população. Um estudo recente descobriu que a idade média dos migrantes venezuelanos é 32: pessoas no auge de sua vida profissional, incluindo muitos jovens que já estiveram no centro do movimento de protesto.

Juan Guaidó, chefe da Assembleia Nacional da Venezuela, na cerimônia de posse de seu mandato como presidente interino em janeiro de 2019.

A oposição lançou outra tentativa de tomar o poder em janeiro de 2019, quando Juan Guaidó, então presidente da Assembleia Nacional, reivindicou a presidência para si mesmo depois que o governo de Maduro realizou uma votação presidencial grosseiramente fraudada. O desafio de Guaidó eletrizou os venezuelanos - e o mundo. Os Estados Unidos lideraram a acusação, com o Departamento de Estado rapidamente estendendo o reconhecimento oficial a Guaidó como presidente interino. Ao todo, 60 países acabaram por reconhecer a reivindicação de Guaidó, incluindo a maioria das democracias ricas e quase toda a América Latina.

Quase um quinto da população da Venezuela deixou o país.

O rápido abraço de Guaidó pelos EUA se encaixa em um padrão mais amplo de fanfarronice contra o regime Maduro. Por mais de um ano, o presidente Donald Trump, o vice-presidente Mike Pence, o secretário de Estado Mike Pompeo e o Conselheiro de Segurança Nacional John Bolton assumiram uma postura diplomática dura que enfatizou que "todas as opções estão sobre a mesa" em relação à Venezuela, mesmo intervenção militar. Sob a rubrica de "pressão máxima", os Estados Unidos lançaram sanções não apenas contra figuras do regime, mas também contra setores-chave da economia venezuelana, limitando a capacidade de Caracas de vender petróleo no exterior em uma tentativa de restringir o acesso do regime ao câmbio de que precisava desesperadamente. As sanções não destruíram a economia venezuelana - as próprias políticas econômicas do regime fizeram isso, com impressionante eficiência, nas duas décadas anteriores à introdução das sanções - mas aprofundaram a crise econômica do país e impossibilitaram uma recuperação econômica significativa.

Notavelmente, a principal prioridade das autoridades venezuelanas quando se sentam para conversar com representantes da comunidade internacional sempre foi o alívio das sanções individuais contra eles. Os chefes do regime parecem se preocupar mais com sua liberdade de viajar e possuir propriedades ao redor do mundo do que com as dificuldades dos venezuelanos comuns. Eles ficaram abalados com o anúncio dos Estados Unidos no ano passado de uma recompensa de US$ 15 milhões pela ajuda na apreensão de Maduro, junto com outras recompensas multimilionárias anexadas a outras figuras do regime e seus comparsas.

A retórica belicosa de Trump contra Maduro e as principais figuras do regime foi, no entanto, inútil na Venezuela. Alimentou a propensão da oposição venezuelana para o pensamento mágico. Algumas figuras da oposição radical optaram por agitar ruidosamente pela ação militar dos EUA. Esses demagogos reconheceram, em particular, que as chances de uma intervenção dos EUA realmente ocorrer eram muito pequenas, mas isso não os impediu de se alimentar do desespero de seus seguidores.

Refugiados venezuelanos assistem a um funeral em Arauquita, Colômbia, em março de 2021. (Luisa Gonzalez / Reuters)

O regime de Maduro, por sua vez, estimou corretamente que a fanfarronice americana equivalia a ameaças vazias. O foco era transformar a postura dos EUA em propaganda valiosa. A TV estatal venezuelana veiculou avidamente a agitação de sabre de Washington contra o regime. Isso permitiu que o governo de Maduro se esquivasse da responsabilidade pelos problemas econômicos do país, culpando-os pela suposta sabotagem dos EUA.

A pressão de Trump fez pouco para mudar os fatos na prática. A esperada cascata de deserções militares do regime nunca se materializou. Em vez disso, o regime esperou Guaidó sair de cena e continuou a reprimir e prender seus apoiadores. O vapor do seu desafio foi gradualmente drenado.

Com o tempo, as táticas de repressão de inspiração cubana usadas contra Guaidó e seus aliados mostraram-se brutalmente eficazes. Gradualmente, a confiança e o apoio do povo ao governo provisório de Guaidó diminuíram. O índice de aprovação de Guaidó caiu de 70% no início de seu desafio em 2019 para apenas 11% em janeiro. O regime, por sua vez, não trata mais a oposição como uma ameaça existencial. Em vez disso, vê a oposição, na pior das hipóteses, como uma doença crônica a ser contida e, mais frequentemente, como um adversário que pode ser facilmente manipulado.

A maior contração econômica em tempo de paz de todos os tempos em qualquer lugar


Para os venezuelanos comuns, a perseverança do regime é nada menos que uma catástrofe. Uma classe média outrora grande e crescente virtualmente desapareceu, deixando até 96% dos venezuelanos abaixo da linha da pobreza. A economia entrou em colapso dramático, com o PIB per capita caindo para cerca de um quarto do que era antes do início da crise em 2013. Segundo algumas estimativas, a economia venezuelana se contraiu mais desde 2012 do que qualquer outra economia em tempos de paz.

A implosão econômica da Venezuela remonta à destruição de sua indústria de petróleo, que por mais de um século esteve no centro da estratégia econômica do país. A produção de petróleo caiu de um pico de 3,7 milhões de barris por dia em 1998 para 2,2 milhões de barris por dia em 2017. Mas a combinação de sub-investimento crônico em exploração e manutenção, a perda de acesso aos mercados de crédito internacionais após a moratória em 2017 , e a imposição de sanções dos EUA à indústria do petróleo naquele mesmo ano levou à queda do setor. A Venezuela agora produz meros 700.000 barris por dia - nada perto do nível necessário para financiar as importações de que o país precisa para sobreviver.

Por um tempo, em 2017 e 2018, o regime imaginou que poderia enfrentar as sanções do petróleo apoiando-se em potências estrangeiras amigáveis. As autoridades venezuelanas esperavam que as petrolíferas chinesas e russas fossem convidadas para apoiarem a indústria em colapso. Mas depois de um longo e tortuoso conjunto de negociações, as empresas chinesas e russas rejeitaram as ofertas para adquirir a gigantesca refinaria Amuay-Cardón (que possui capacidade para produzir um milhão de barris por dia). Hoje, Amuay-Cardón está ociosa. A escassez de gasolina se tornou um fato cotidiano para milhões de venezuelanos, que devem passar até quatro dias na fila esperando que suprimentos raros de combustível encham seus tanques. O governo concedeu a empresas estrangeiras licenças lucrativas para explorar campos de petróleo abandonados e mal administrados. Por fim, uma a uma, essas petroleiras deixaram o país, pois a tarefa de restaurar a produção se mostrou impossível. A Venezuela continua, tragicamente, o país com as maiores reservas de petróleo do planeta.

Para os venezuelanos, a perseverança do regime é nada menos que uma catástrofe.

A escala do colapso econômico é mais clara em termos de degradação monetária. Após o segundo maior surto de hiperinflação já registrado (com 45 meses em condições hiperinflacionárias entre 2017 e 2021), o governo está se preparando para rebaixar ainda mais o bolívar, a moeda debilitada do país. É a terceira "redenominação" desde 2008. Ao todo, 14 casas decimais terão sido cortadas do bolívar, o que significa que uma nota de um bolívar em 2022 valerá 100 trilhões de bolívares da safra de 2008.

Um soldado em Caracas, Venezuela, maio de 2013. (Jorge Silva / Reuters)

À medida que o bolívar se torna cada vez menos útil, os venezuelanos o abandonam aos montes, optando cada vez mais por fazerem transações em dólares americanos ou em pesos colombianos ou reais brasileiros nas regiões fronteiriças adjacentes a esses países. Cerca de dois terços das transações são agora realizadas em moeda estrangeira. A mudança para o dólar americano ajudou a criar uma ilusão de normalidade em áreas anteriormente ricas de Caracas. Mas é uma miragem: uma pesquisa recente mostrou que apenas 40% das famílias recebem remessas em moeda forte de parentes no exterior. Os outros 60% têm que se contentar com bolívares. Eles enfrentam uma crise alimentar contínua, com taxas de desnutrição infantil chegando a 36% de acordo com a Organização Mundial de Saúde e pouca perspectiva de alívio em breve.

Essa estrutura econômica particular - um país dividido em dois entre aqueles com e sem acesso a moedas estrangeiras - é uma reminiscência de Cuba, que há muito mantém duas moedas paralelas: uma conversível em moeda estrangeira e uma segunda quase inútil. Dinâmica semelhante surgiu na Venezuela, com aqueles que têm acesso a dólares vivendo algo que lembra vagamente a vida em outros países e aqueles sem acesso condenados a privações insondáveis. Mas a estrutura do regime da Venezuela também se assemelha ao governo de Cuba, onde uma elite predatória militarizada pilha implacavelmente qualquer fonte de moeda estrangeira disponível e reprime violentamente aqueles que ousam se opor a ela.

Pessoas fazendo fila para comida e gás em San Cristóbal, Venezuela, novembro de 2018. (Carlos Eduardo Ramirez / Reuters)

Cuba continua sendo o aliado mais forte e essencial de Maduro. A recusa da China e da Rússia em ajudar Maduro deve ter sido um rude despertar para ele. Ambos os países vêem uma Venezuela hostil aos Estados Unidos como uma ficha geopolítica útil e, no passado, forneceram cobertura diplomática e assistência de segurança ao regime. Mas nenhum dos dois está interessado em despejar recursos escassos no que eles (com razão) consideram um saco quebrado no Caribe. Outros aliados venezuelanos, como Irã e Turquia, provaram ser mais úteis, despachando carregamentos de gasolina e alguns produtos acabados ou "reciclando e lavando" o ouro da Venezuela. Mas qualquer aliança mais ampla com esses dois governos distantes é invariavelmente limitada. Teerã e Ancara não têm capacidade e vontade para salvar Caracas de sua catástrofe econômica.

Isso deixa Maduro um último, verdadeiro e inabalável aliado: Cuba. A ditadura esquerdista latina original teve uma relação tão próxima com o regime venezuelano que a palavra "aliança" não lhe faz justiça. Na verdade, a Venezuela está sob uma espécie de ocupação cubana furtiva. Maduro parece confiar mais nas autoridades cubanas do que nas suas: espiões cubanos - não venezuelanos - trabalham em sua própria pasta de inteligência dentro do palácio presidencial, o que significa que Havana sabe mais sobre o que acontece na Venezuela do que a maioria das autoridades venezuelanas. E Maduro parece priorizar as necessidades de Cuba acima daquelas da Venezuela, como demonstrado pelo fato de que a Venezuela continuou a fornecer energia a Cuba durante esta crise, mesmo que seus próprios motoristas tenham visto os postos de gasolina secarem.

A Venezuela como um problema insolúvel


O que o mundo - e os Estados Unidos, em particular - deve fazer diante desse estado deplorável de coisas? Como se resolve um problema como o da Venezuela?

O primeiro passo é compreender totalmente que a lógica política normal tem pouca relevância quando se trata de um estado mafioso. A insistência da comunidade internacional em negociar em direção a eleições livres e justas, em particular, parece bem intencionada, mas equivocada. A alternativa a permanecer no poder para muitos partidários do regime - incluindo Maduro, que está sob indiciamento nos Estados Unidos por tráfico de drogas - é uma cela de prisão. O regime não pode e não vai oferecer à oposição a chance de lhe depor nas urnas.

Mas isso não significa que esteja imune a pressões externas. Washington deve, em primeiro lugar, aceitar a fraqueza da oposição, que não é, nesta fase, capaz de lançar um desafio realista ao controle do poder pelo regime. Em vez disso, os Estados Unidos deveriam insistir na libertação de presos políticos e no restabelecimento das liberdades básicas de imprensa e associação, oferecendo em troca o alívio de sanções individuais. Para aumentar sua influência nessa estratégia, Washington deve fazer um trabalho muito melhor de mobilizar democracias como a Itália e a Espanha para impor sanções contra figuras do regime; as pessoas associadas ao regime encontraram um porto seguro não apenas nas agradáveis vilas e palácios italianos e espanhóis que agora possuem, mas também em bancos e instituições financeiras italianas e espanholas.

Desfile militar cubano de comemoração aos 58 anos da Revolução, na Praça da Revolução em Havana, 2017.

A posição única de Cuba na Venezuela o torna um jogador essencial em qualquer resolução futura. Nenhum negócio de qualquer tipo é imaginável sem a adesão do regime cubano. A chave que abre a fechadura para a crise venezuelana é muito mais provável de ser encontrada em Havana do que em Caracas. Enquanto Cuba permanecer uma ditadura, a Venezuela provavelmente também permanecerá.

A lógica política normal tem pouca relevância quando se trata de um estado mafioso.

Em última análise, as democracias em todo o mundo - mas especialmente na América Latina - têm interesse em manter a Venezuela inteira, pacífica e pelo menos estável o suficiente para não exportar seus problemas. A guerra de fronteira no estado de Apure nesta primavera deve servir como outro aviso de que nada pode ser dado como certo. O esvaziamento do Estado venezuelano e sua substituição por uma estrutura de estilo mafioso alimenta uma instabilidade crônica que pode levar a uma violência generalizada.

Um possível futuro para o país seria ver os chefes um degrau abaixo de Maduro cada vez mais na garganta uns dos outros, com guerras territoriais se transformando em derramamento de sangue real. Maduro e seus conselheiros cubanos farão, é claro, o que puderem para conter o caos, mas está longe de ser certo que eles terão sucesso. Este futuro se parece muito com o conflito do século XIX na Venezuela, quando um presidente nominal em Caracas controlava pouco além da capital e das alfândegas do país, enquanto uma proliferação selvagem de caudilhos regionais governava praticamente incontestável sobre as outras cidades e vilas. Esse arranjo nunca foi estável: ao longo do século XIX, os caudilhos rotineiramente tentaram invadir a capital e tomar o poder para si próprios. Às vezes eles tinham sucesso, outras vezes não, mas os resultados eram sempre sangrentos.

Um segundo cenário veria Maduro manter sua autoridade sobre seus subordinados pelo menos o suficiente para evitar uma luta aberta entre eles. Sem democracia, sem liberdade política, sem acesso ao capital global e sem capacidade de gerar divisas, este é o caminho para a verdadeira cubanização da Venezuela: um regime petrificado no poder, construído sobre um substrato do sofrimento de seu próprio povo. É uma perspectiva miserável.

Esses são cenários sombrios e desagradáveis, mas, infelizmente, há alguns motivos para esperar coisa melhor. A esperança desejosa de que os criminosos responsáveis pelo regime venezuelano possam de alguma forma serem persuadidos a cederem à sua própria ruína é apenas isso - uma esperança - e certamente não uma base adequada para uma ação diplomática. Essas esperanças distorceram a formulação de políticas nos Estados Unidos e em outros lugares por muito tempo. A realidade que a Venezuela enfrenta é sombria, mas deve ser tratada como realidade.

Bibliografia recomendada:

Latin America's Wars:
The Age of the Caudillo, 1791-1899.
Robert L. Scheina.

Latin America's Wars:
The Age of the Professional Soldier, 1900-2001.
Robert L. Scheina.

Leitura recomendada:

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

A Venezuela acusou a Colômbia de intrusão em seu espaço aéreo com um drone Hermes


Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 22 de setembro de 2021.

Hoje, 22 de setembro, as forças armadas da Venezuela (oficialmente Fuerza Armada Nacional Bolivariana, FANB) afirmaram que ontem (21/09) um drone Hermes da Colômbia violou o espaço aéreo venezuelano na província de Zula. 



Comunicado oficial da Força Armada Nacional Bolivariana

A Força Armada Nacional Bolivariana denuncia a flagrante violação do espaço aéreo venezuelano por uma aeronave remotamente tripulada (drone), tipo Hermes, pertencente à Força Aérea Colombiana, fato ocorrido ontem, segunda-feira, 20 de setembro, às 16:48 horário legal da Venezuela.

A referida aeronave foi detectada pelos sistemas de exploração do nosso Comando Integral de Defesa Aeroespacial, sobrevoando o território do município de Jesús María Semprúm, estado de Zulia, na Região de Informação de Vôo Maiquetía (FIR) nas coordenadas 09º04'50″N - 72º53'52″O, 64 milhas náuticas a noroeste do aeroporto “Francisco García de Hevia” localizado em La Fría, estado de Táchira, a 8 mil pés de altitude, velocidade de 90 nós e rumo 318, vindo da FIR de Bogotá sem a devida autorização de sobrevôo ou apresentar o plano correspondente para entrar na República Bolivariana da Venezuela.

Este acontecimento constitui uma gritante ameaça à segurança do país por se tratar de um sistema militar utilizado para missões de reconhecimento aéreo, que com toda certeza não foi involuntário ou acidental, já que coincide com a presença na Colômbia do Almirante Crayg Faller, chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, em sua segunda visita este ano ao território neo-granadino, supostamente para discutir assuntos de "cooperação em questões de segurança".

Sem dúvida, estamos dando claros indícios de um estratagema do império norte-americano e do governo colombiano, seu indigno e incondicional aliado na região, para construir alguns de seus conhecidos falsos positivos ou qualquer tipo de incidente que permita continuar gerando instabilidade , e de maneira particular, torpedear o processo de diálogo que está ocorrendo atualmente no México, em busca de soluções para os problemas do país, da paz e da unidade de todo o povo venezuelano.

Não cairemos nas repetidas e grosseiras provocações de uma oligarquia criminosa e do decadente império que a patrocina, que se tornaram um anacronismo sem a mínima credibilidade no contexto das nações. Mas em estrito cumprimento das diretrizes estratégicas ensinadas pelo cidadão Nicolás Maduro Moros, Presidente Constitucional da República Bolivariana da Venezuela, nosso Comandante-em-Chefe, permaneceremos vigilantes, monitorando constantemente todo o espaço geográfico venezuelano, a fim de garantir sua integridade , bem como nossa liberdade, soberania e independência.

Chávez vive... a Pátria continua!

Independência e Pátria Socialista... Vamos viver e vencer!

Independência ou nada!

Sempre leais... Nunca traidores!

Nasce o Sol da Venezuela no Essequibo!

Caracas, 21 de setembro de 2021

VLADIMIR PADRINO LÓPEZ

General-em-Chefe

Comando Sul dos Estados Unidos (United States Southern Command, US SOUTHCOM) referido pelo comunicado venezuelano é o comando americano responsável pela América Latina. Seu quartel-general está localizado em Doral, na Flórida. O governo venezuelano frequentemente usa o fantasma do "imperialismo estadunidense" como ferramenta de união popular ao redor do regime. A Colômbia, além de um adversário tradicional de Caracas, é também o maior aliado americano no continente sul-americano, o que mata dois coelhos com uma cajadada só. Um dos exemplos dessa amizade é justamente que o governo colombiano condecorou o Comando Sul dos EUA com a Ordem de San Carlos, uma alta comenda por serviço excepcional à Colômbia.

 Almirante Crayg Faller e o distintivo do Comando Sul dos Estados Unidos.

Com uma tal amizade aberta, o governo bolivariano pode simplesmente ocupar a mídia nacional (controlada pelo governo) com ataques aos colombianos, alegando que o governo de Bogotá está iniciando uma agressão imperialista retrógrada contra o progresso da revolução socialista bolivariana da Venezuela. Dessa forma, o governo bolivariano justifica a escassez de bens, o fracasso econômico do país, a violência e criminalidade etc.

O diálogo no México mencionado pelo comunicado é uma sessão de reuniões na Cidade do México incluindo a oposição venezuelana. Em agosto, o presidente da Venezuela, Nicolas Maduro, libertou Freddy Guevara, um líder da oposição que estava preso há mais de um mês, para que ele possa atuar como um negociador nas negociações políticas programadas para começar em setembro desse ano na capital mexicana. Um importante aliado de Juan Guaido, Guevara foi libertado na noite de domingo da sede da unidade de inteligência policial conhecida como Sebin em Caracas. Ele deve representar Guaido quando delegados do governo e da oposição se reunirem na Cidade do México.

Freddy Guevara fala durante uma sessão da Assembleia Nacional em Caracas, em 19 de novembro de 2020.

Os militares colombianos, por sua vez, lançaram uma nota dizendo que estavam operando na área, mas que seu drone operava dentro do espaço aéreo colombiano. Esse último incidente na fronteira entre os dois países aumenta a suspeita de que há uma base das FARC em Zula, e tanto a operação quanto a acusação venezuelana podem indicar que realmente há uma base narco-guerrilheira ali. Assim como no comunicado venezuelano, os colombianos também providenciaram as coordenadas da ação, dado que a região selvática é de difícil navegação de outra forma.

Comunicado da Força Aérea Colombiana.

Comunicado Nº 007

Em referência à declaração hoje emitida pelo Ministro da Defesa da Venezuela, a Força Aérea Colombiana está autorizada a informar ao público que, no exercício legítimo de suas funções, na segunda-feira, 20 de setembro de 2021, às 16:48 horas, realizou missão de reconhecimento aéreo com aeronave não-tripulada, sobrevoando o espaço aéreo colombiano na área do município de Tibú, Norte de Santander.

De fato, as coordenadas 09º04'50”N - 72º53'52”O referidas no comunicado venezuelano, correspondem ao território colombiano.

Autor

Imprensa da Força Aérea Colombiana

O recente incidente vem na rabeira de mais um outro escândalo venezuelano, com uma lista de oficiais da inteligência naval da Armada Bolivariana sendo vazada na internet dez dias atrás (12/09). Foram 262 arquivos pessoais da marinha e, conforme foi noticiado, era pessoal de contra-inteligência visando a Colômbia - o que novamente levou às acusações de costume. 

Em 17 de agosto desse ano, Jorge Nobrega, um empresário americano foi acusado de violações de sanções e lavagem de dinheiro por ajudar em reparos de aeronaves militares da Venezuela, de acordo com uma queixa apresentada ao Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Sul da Flórida. Nobrega, presidente-executivo da Achabal Technologies Inc, com sede em Miami, foi então preso e compareceu ao tribunal de Miami na semana seguinte. O regime adquiriu um vasto arsenal comprado da Rússia e da China, e vem tendo problemas em manter a frota funcionando. O Irã vem fornecendo petróleo, mas a China está tomando caminhos contrários aos interesses da indústria petrolífera da Venezuela.

Recentemente, o governo da Espanha repotencializou a frota de carros de combate AMX-30B2, de procedência francesa, apesar das sanções impostas a Caracas. Os tanques desfilaram na celebração da Batalha de Carabobo em 5 de julho desse ano.

Um caça à jato Sukhoi Su-30MKV, de fabricação russa da Força Aérea da Venezuela, voa sobre uma bandeira venezuelana amarrada a lançadores de mísseis, durante o exercício militar "Escudo Soberano 2015" em San Carlos del Meta, no estado de Apure, em 15 de abril de 2015.

A morte de um mito: O General en jefe Jacinto Perez Arcay

O General-em-chefe Jacinto Perez Arcay sendo cumprimentado pelo presidente Nicolás Maduro.

Entre os vários tropeços do regime, há também a ação do mero acaso: nesta segunda-feira, dia 20 de setembro de 2021, faleceu o General en jefe Jacinto Perez Arcay, um conselheiro de longa data do presidente Maduro. Este último repetiu o grito de Che Guevara na sua mensagem de despedida ao Gal. Perez Arcay - ¡Hasta la Victoria Siempre!

Com 86 anos, o velho general era o militar da ativa com maior antiguidade na FANB, e sua convalescência foi um evento nacional na Venezuela. Outros generais famosos também morreram de COVID-19, como o General Pacepa, famoso por seus escritos sobre a espionagem soviética e romena, e o General Lam Quang Thi, famoso por seus escritos sobre a Guerra da Indochina e sobre o Exército da República do Vietnã (Vietnã do Sul).

No sistema venezuelano, os oficiais-generais do exército são General en jefe (G/J, 4 estrelas), Mayor general (M/G, 3 estrelas), General de division (G/D, 2 estrelas) e General de brigada (G/B, 1 estrela). O General-em-Chefe Jacinto Perez Arcay foi velado em uma procissão fúnebre, carregado por cadetes em uniformes tradicionais, incluindo o famoso Pickelhaube prussiano.



A morte do general é um verdadeiro caso de luto nacional, pois a militarização da Venezuela segue o típico padrão de engajamento total dos governos socialistas. O Gal. Jacinto Perez Arcay era basicamente onipresente nas várias manifestações públicas cívico-militares e era visto como um símbolo nacional e revolucionário. Em 2016, ele foi entrevistado pela jornalista Érika Ortega Sanoja para o jornal Actualidad RT.

Na entrevista, o velho general defende o socialismo cristão e menciona as figuras históricas venezuelanas Simón Bolívar e General Marcos Pérez Jiménez, além de elogiar o ex-ditador Coronel Hugo Chavez - de quem o General Arcay também foi mentor: “Amei Hugo Chávez como um filho e sinto que, em termos geopolíticos, sou o primeiro responsável por sua vida e sua morte” (5:32).


Arcay se formou na Academia Militar em 1956, com especialização na arma de artilharia. Formou-se em história e geografia pela Universidade Católica Andrés Bello. Ele participou do levante do Coronel Enrique Hugo Trejo em 1º de janeiro de 1958 contra o presidente-ditador General Pérez Jiménez. Ficou conhecido por dar aulas ao ex-presidente da Venezuela, Hugo Chávez, na Academia Militar, onde lhe incutiu os pensamentos de Ezequiel Zamora e Simón Bolívar. Arcay foi reconvocado ao serviço ativo em 2007.

Em 15 de fevereiro de 2012, foi promovido por Chávez de General de Divisão do Exército a Major-General da FANB. Ele foi considerado um assessor de Chávez em questões históricas, políticas e militares. Em 2016 foi premiado com a distinção "El Gran Cordón de Caracas", e foi Chefe do Estado-Maior Geral do Comandante-em-Chefe da FANB, o mais alto general venezuelano, designado como tal pelo Presidente Nicolás Maduro em 11 de julho de 2019.

Exemplar do livro "La Guerra Federal" com dedicatória do G/J Arcay a José Sant Roz, autor do livro "Bolívar y Santander - dos visiones contrapuestas".

O General Jacinto Perez Arcay escreveu os livros El Fuego Sagrado, Bolívar hoy (O Fogo Sagrado, Bolívar hoje, 1974), La Guerra Federal: Consecuencias (A Guerra Federal: Consequências, 1974) e Hugo Chávez, alma de la revolución en Cristo y en Bolívar (Hugo Chávez, alma da revolução em Cristo e em Bolívar, 2013).

Funeral na Academia Militar.

Os ritos fúnebres foram televisionados para todo o país em sua integralidade pelos canais estatais venezuelanos, ocorridos na Academia Militar em meio aos cadetes e ao presidente Maduro.


A perda de um tal símbolo revolucionário, ainda mais mediante tamanhos óbices e fracassos da revolução bolivariana, acabaria por levar o governo de Caracas a tentar mostrar firmeza e começar a criar pretextos para demonstrações de força. A ideia de uma Venezuela progressista, permanecendo unida sob o cerco "imperialista ianque", já é uma situação normal na rotina política da república bolivariana. A desastrada aventura de forças especiais americanas e mercenários em agosto do ano passado já deram voz à propaganda (além de legitimidade aos olhos da população comum). Agora, diante de negociações no México com a presença da oposição e sob pesado escrutínio internacional, a tendência é uma vocalização cada vez mais alta da Venezuela.

Milicianos bolivarianos com o fuzil FAL.
O grande número de paramilitares é uma forma de engajar a população na luta ideológica.

Leitura recomendada:


sábado, 4 de setembro de 2021

Militares da Venezuela: principais questões a saber


Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 3 de setembro de 2021.

Com informações da Agence France Presse (AFP).

A poderosa força armada da Venezuela, devastada por tumultos, juraram "lealdade incondicional" ao governo socialista de esquerda do presidente Nicolas Maduro. Ela é uma jogador-chave na crise política em curso.

Maduro, por sua vez, concedeu-lhe vastos poderes, não apenas em assuntos militares, mas sobre ministérios importantes do governo - oficiais ativos ou aposentados chefiando 12 de 32 cargos ministeriais - e em setores econômicos vitais, incluindo o petróleo.

As capacidades militares - e sua lealdade sob coação - são preocupações centrais em um momento em que seus líderes afirmam que uma força "paramilitar" liderada por um desertor e apoiada por "governos estrangeiros" atacou uma base militar no que pode ser visto como uma tentativa de golpe incipiente.

Apesar de sua promessa de apoio "absoluto" a Maduro, os militares estão sob forte pressão, acusados pela oposição de reprimirem violentamente os protestos e instados por ela a mudarem de lado. A perda de seu apoio significaria o fim de Maduro.

Aqui estão alguns fatos importantes sobre a força militar venezuelana, formalmente as Forças Armadas Bolivarianas Nacionais, ou FANB.

Poder armado


A FANB tem cerca de 365.000 soldados (exército, marinha, força aérea, guarda nacional e reserva), apenas 1.000 a menos que o Brasil, de acordo com a Latin American Security and Defense Network (Rede Latino-Americana de Segurança e Defesa), um centro de políticas e análises.

Mas a Venezuela tem 30 milhões de habitantes; o Brasil tem 210 milhões.

Em 2006, os Estados Unidos proibiram a venda ou transferência de armas ou tecnologia militar para a Venezuela, cujo então presidente, Hugo Chávez, tinha uma aliança estreita com a Rússia e a China.

A Rússia forneceu à Venezuela fuzis, lança-foguetes antitanque, tanques e outros veículos de combate, artilharia, sistemas de defesa antiaérea e aviões de combate, helicópteros e mísseis, segundo a ONG Control Ciudadano (Controle Cidadão), que monitora a atividade militar.

A China forneceu equipamentos de comunicação, uniformes, radares, veículos blindados, aviões e helicópteros.

Poder político

Dos 32 cargos ministeriais no governo de Maduro, 12 são ocupados por militares, 10 deles na ativa e dois aposentados.

As forças armadas são comandadas pelo general Vladimir Padrino, ministro da Defesa, e pelo general Remigio Ceballos, comandante da estratégia operacional. Padrino é uma espécie de "superministro" a quem os outros membros do gabinete devem se reportar, disse Maduro no ano passado.

Entre os principais cargos de gabinete em mãos militares estão os ministérios do Interior e da Justiça; o ministério da alimentação; agricultura e terras; e energia. A oposição culpa o ministro da Alimentação, Rodolfo Marco Torres, um coronel aposentado, pela severa escassez que assola o país.

Os líderes da oposição criticaram duramente o que chamam de "politização" dos militares sob Maduro e seu antecessor. "O pior erro cometido por Chávez foi tirar os militares dos quartéis" e colocá-los nas ruas, disse Henry Ramos Allup, ex-presidente da Assembleia Nacional.

"Quem vai colocá-los de volta?"

Poder econômico

Um canal de televisão, um banco, uma montadora de automóveis e um grupo de construção - esses são alguns dos negócios controlados pelos militares venezuelanos, integrando-se à Companhia Militar de Mineração, Gás e Petróleo Camimpeg.

Este último desempenha funções semelhantes à Petroleos de Venezuela, ou PDVSA, a empresa petrolífera estatal. Repara e mantém poços de petróleo, e vende e distribui os produtos das indústrias de petróleo, gás, mineração e petroquímica.

Camimpeg está no coração do "motor militar-industrial", uma ideia de Maduro para enfrentar o que ele vê como a "guerra econômica" travada pela oposição e empresas simpáticas para desestabilizar seu governo.

Bibliografia recomendada:

Latin America's Wars:
The Age of the Caudillo, 1791-1899.
Robert L. Scheina.

Latin America's Wars:
The Age of the Professional Soldier, 1900-2001.
Robert L. Scheina.

Leitura recomendada:


quinta-feira, 10 de junho de 2021

ENTREVISTA: A formação do Exército Nacional, com Frank D. McCann


Por Rodrigo GalloRevista Leituras da História, 16 de julho de 2014.

Historiador norte-americano defende que o papel das Forças Armadas brasileiras foi fundamental para a queda da Monarquia e a ascensão da República.

Hoje, o Exército brasileiro é pequeno, mas muito profissionalizado e respeitado em todo o mundo. Porém, para chegar neste nível de desenvolvimento militar, foram gastos anos de trabalho e preparação, que tiveram início antes mesmo da Proclamação da República. Essa foi uma das conclusões do historiador norte-americano Frank McCann, autor do livro Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro 1889-1937 (Cia. das Letras), que detalha minuciosamente um período de quase 40 anos da história bélica do País.

Segundo McCann, professor da University of New Hampshire (Estados Unidos), as Forças Armadas brasileiras tiveram uma participação essencial durante a transição do período monárquico para o republicano, pois, afinal, nenhuma organização civil teria condições de exigir o fim da coroa no Brasil exceto o próprio Exército. O povo, por exemplo, não era suficientemente forte e organizado para causar uma grande mudança na estrutura social. Além disso, muitos presidentes e ministros da época foram encontrados na carreira militar e continuaram influenciando os rumos do País por muito tempo.

Contudo, essa transformação no sistema político nacional não ocorreu de forma rápida e tranqüila. Foi um processo longo e gradativo, durante o qual houve revoltas em algumas partes do Brasil.

Logo no início das reformas políticas brasileiras, houve atritos entre o Estado e o poder eclesiástico no que diz respeito aos registros civis. Mas as brigas não ocorreram apenas no campo civil. Houve conflitos até mesmo entre o Exército e a Marinha. Segundo McCann, eram disputas de interesses, cujo pano de fundo envolvia sempre a profissionalização técnica e militar das Forças Armadas.

As revoltas, contudo, não podem ser vistas apenas de forma negativa. A Guerra de Canudos, por exemplo, contribuiu muito para o desenvolvimento da estrutura militar brasileira. O historiador norte- americano explica que o conflito foi importante para determinar mudanças fundamentais na estrutura do Exército, pois serviu para mostrar ao governo a real necessidade de investir na qualificação e profissionalização dos oficiais.

"O combate em Canudos entre as tropas legaes e os fanaticos de Antonio Conselheiro. Morte gloriosa do bravo capitão Salomão defendendo uma peça de artilharia." Legenda original do desenho de Angelo Agostini na revista Don Quixote, nº 82, 1897.

Mesmo hoje, tanto tempo depois da queda da Monarquia no Brasil, o Exército ainda segue parte das tradições daquela época, como canções de guerra e até mesmo a estrutura física de escolas e quartéis utilizados: prova de que certas características militares estão inseridas com bastante intensidade dentro da organização a ponto de resistiram por tanto tempo.

McCann ainda faz questão de ressaltar à Leituras da História que há uma diferença básica e crucial entre o Exército pós-republicano e o atual: agora, o projeto idealizado originalmente pelos chamados ‘jovens turcos’, de desvincular a organização da política e estruturá-la de forma adequada, foi definitivamente colocada em funcionamento. Esses oficiais, aliás, introduziram no País novos conceitos de estratégia militar, que haviam sido aprendidos durante o período de treinamento no exterior. De volta ao Brasil, eles fundaram a importante revista A Defesa Nacional, em que publicavam traduções de artigos bélicos alemães para difundir detalhes técnicos, de treinamento e relativos à indústria bélica.

A seguir, confira a entrevista concedida com exclusividade pelo historiador norte-americano à Leituras da História.


Leituras da História - Na transição da Monarquia para a República, qual foi o papel das Forças Armadas brasileiras? E, no mesmo período, quais eram as diferenças ideológicas entre Exército e Marinha?

Frank McCann - Uma resposta simples é que o papel das Forças Armadas foi fundamental na transição do período monárquico para o republicano. Na época, nenhum grupo civil tinha poder suficiente para abolir a coroa. É incerto até hoje se os golpistas estavam somente contra o ministério ou contra todo o sistema monárquico. Eu acho que, no princípio, o marechal Deodoro da Fonseca estava apenas procurando justiça para os oficiais punidos, mas durante as tensões do dia 15 de novembro ele mudou de objetivo e optou pela troca de todo o sistema. Até agora, acho que as explicações que temos não são satisfatórias. Porém, até alguém descobrir um documento dando justificativas mais claras, a história que temos é esta. É difícil analisar as diferenças entre o Exército e a Marinha. Ambos eram atrasados em termos de equipamento militar e treinamento. Acho que as duas instituições estavam frustradas porque não poderiam defender o Brasil no caso de ataque. Não sei se os marujos tinham os mesmos ideais sobre a Pátria, como entidade superior ao tipo de governo ou não, mas seria lógico pensar assim.

"Impossível governar com este Congresso. É mister que ele DESAPAREÇA PARA A FELICIDADE DO BRASIL."
Discurso do Marechal Deodoro durante a tentativa de fechar o Congresso Nacional.

"Proclamação da República", 1893, óleo sobre tela de Benedito Calixto (1853 - 1927). Acervo da Pinacoteca Municipal de São Paulo.

Nota da redação: A Proclamação da República ocorreu em 15 de novembro de 1889, liderada pelo marechal Deodoro da Fonseca, que assumiu provisoriamente o cargo de presidente. A primeira constituição brasileira, no entanto, só foi promulgada apenas em 1891.

LH - Quando e em que condições deu-se o desenvolvimento e a profissionalização do Exército brasileiro? E no que essa profissionalização acarretou para o desenvolvimento do País?

McCann - Essa é uma pergunta chave para o assunto. Vários capítulos do meu livro tratam desses problemas. Em parte, toda a crise com o Império estava ligada à profissionalização do Exército, mas isso foi diretamente ligado à grande falta de desenvolvimento nacional. Países pobres não tinham Exércitos fortes e altamente desenvolvidos. É bem possível que muitos militares não compreendiam o quanto o Brasil era pobre. O dinheiro do Império tinha valor forte nos mercados internacionais e as exportações eram altas. Então, eles poderiam ter pensado que o problema foi a atitude dos líderes civis que não gostavam de gastar a moeda em assuntos militares. Os oficiais sabiam muito claramente que o Exército deles era atrasado em relação aos da Europa. Eles sabiam que seria necessário aumentar o treinamento, mas de quem e com o quê?

A criação da revista A Defesa Nacional, pintura de Álvaro Martins.

LH - E o que faltava para conseguir realizar este treinamento?

McCann - Faltavam equipamentos modernos e faltavam recrutas com educação básica. Além disso, faltava apoio governamental. O desinteresse da elite pela educação produziu uma crise permanente em torno da missão do Exército de defender o País. A chamada crise militar do Império foi quase a mesma crise dos chamados ‘jovens turcos’, entre 1913 e 1918. Basicamente, pode-se não ter um grau alto de desenvolvimento profissional das Forças Armadas em uma sociedade desenvolvida. É preciso de educação, indústria, além de manter desenvolvimento científico. Para a profissionalização, era necessário desenvolvimento econômico e social.

Toda crise do Império estava ligada à profissionalização do Exército.

LH - Como ocorreu a transição do serviço militar opcional para o obrigatório no Brasil? No que isso implicou para o Exército?

McCann - Essa é uma parte importante da história militar do Brasil. Em 1874, o governo imperial criou a lei do serviço militar obrigatório, mas nunca foi possível colocá-la em prática. Ficou claro que, para ter um Exército moderno, era preciso ter soldados treinados e prontos para o combate, se fosse preciso. Gostaram dos modelos alemão e francês de ‘soldado-cidadão’, mas a idéia não combinava com a realidade brasileira daquela época. No século novo, com o quente desejo de modernizar o Brasil, a idéia ganhou mais forças. A Argentina implementou o serviço obrigatório e demonstrava condições de mobilizar-se rapidamente. Depois da crise do Acre, alguma coisa precisava ser feita. Em 1906, a primeiro turma de oficiais brasileiros foi mandada para servir com o Exército imperial alemão. Então, para ter um Exército moderno e funcional, era preciso de soldados de um tipo novo: não mais recrutados à força (o Exército era, na verdade, uma parte chave do sistema penal), mas de cidadãos vindo aos quartéis para cumprir um dever cívico.

Oficiais e soldados do Exército (esquerda) e dos Voluntários da Pátria (direita), 1865-68.

LH - Essa lei do serviço militar obrigatório entrou em vigor logo?

McCann - Em 1908, o Congresso aprovou a nova lei, mas a oposição cortou tão drasticamente o orçamento do Exército que o pequeno efetivo autorizado era preenchido por voluntários. Os oficiais que serviram com o Exército alemão estavam voltando com novas experiências (as três turmas tiveram um total de 32 oficiais que fundaram, em 1913, a importante revista militar A Defesa Nacional). Com as duas crises do Contestado e a Primeira Guerra Mundial (chamada na época simplesmente ‘A Grande Guerra’), os dirigentes políticos que pensavam que guerra era coisa do passado mudaram o ponto da vista. Houve muito debate público e, em 1916, a lei que havia sido criada em 1908 finalmente entrou em operação. Mas o que foi criado não era exatamente um serviço universal, mas um sorteio dos alistados. Alguns dos sorteados apresentaram objeções processuais, constitucionais e religiosas, e pediram dispensa. A coisa não produziu o Exército dos sonhos dos reformadores, mas foi uma etapa importante.

Para ter um exército moderno, era preciso ter soldados treinados e prontos para o combate.

LH - E houve mais mudanças depois do início da vigência da lei?

McCann - Desde então, o Exército precisou mudar quase tudo. Nas palavras do próprio ministro José de Caetano Faria, num discurso escrito por Estevão Leitão de Carvalho: ‘Precisamos concentrar todas as nossas energias nos trabalhos profissionais. Abandonemos de vez as ambições políticas e as ocupações colaterais e consagremos nossa atividade com decisão e patriotismo, a obra do Exército.’ Com isso, podemos entender que o Exército estava baseado num plano de 1915, reestruturado. Novos quartéis foram necessários, que começaram a surgir com Hermes da Fonseca na década de 1920. Para tratar com o novo tipo de soldado, não poderiam mais abusar deles. A disciplina mudou. Os quartéis mudaram e os uniformes também. O Exército, como tudo, passou a prestar mais atenção na educação, saúde, etc. Para o sistema funcionar, os oficiais teriam de tornar-se instrutores e educadores. Alguns oficiais receavam atrair as classes inferiores para um papel nacional ativo: o serviço militar obrigatório universal poderia enfraquecer o poder da oligarquia sobre as massas, e o alistamento não se aplicava aos trabalhadores rurais. No fim da década de 1910, a tarefa que os reformistas do Exército impuseram-se era nada menos que ‘a obra sublime de constituição de um povo digno deste maravilhoso Brasil’. Queriam ver uma mudança fundamental no comportamento social, particularmente das elites.

A Defesa Nacional, nº 322, 10 de março de 1941.

LH - Sabemos que houve uma ruptura entre o Estado civil e a sociedade clerical logo no início da República, por conta da briga pelos direitos de registros civis. Como o Exército comportou-se durante essa disputa?

McCann - Esse detalhe me escapou. Logicamente, dentro da liderança deveria ter existido um forte sentimento negativo contra a Igreja, porque imediatamente o corpo de capelães (mais ou menos 50) foi abolido. Eu tenho dúvidas sobre a ligação dessa ação e o positivismo. Mas note bem que a situação não durou muito tempo.

LH - Por que, em sua opinião, houve uma presença tão forte do Exército no cenário político brasileiro? A prova disso é que os primeiros presidentes eram militares, assim como os políticos de alto-escalão. Qual o motivo para essa atuação tão marcante do Exército no Estado brasileiro?

McCann - Na época, o Brasil tinha quatro tipos de homens cultos: padres, advogados, médicos e oficiais militares. Os militares pensaram que somente eles estavam apoiando totalmente a Pátria. Eles perderam a fé nos políticos convencionais. Deve-se lembrar que nos anos de 1890 não houve eleições com um eleitorado amplo. Também existia o problema de disciplina militar. Se o presidente fosse militar, ele poderia controlar melhor o que acontecia nas unidades. Logicamente, foi uma maneira ruim de cultivar a democracia. Mas esse não era o jogo da época.

Os militares pensavam que somente eles estavam apoiando totalmente a pátria.

Soldados do Exército brasileiro nos destroços do quartel do Batalhão Naval, dezembro de 1910.

LH - Em certos momentos, como no início da República (no governo de Hermes da Fonseca), houve atritos entre Exército e Marinha, por conta da revolta dos marinheiros. Por que esse conflito ocorreu e em que circunstâncias? O que justifica essa diferença ideológica entre Marinha e Exército no País?

McCann - Precisamos de mais estudos sobre a história da Marinha brasileira. Acho que a revolta da Armada em 1893 teve algum fator importante no conflito entre Exército e Marinha. Era mais uma questão de ciúme pessoal, mas em 1910 a causa teve mais relação com a disciplina severa e a frustração dos marujos. Acho que não houve questões ideológicas envolvidas nesse conflito além das atitudes dos homens, das elites brancas, talvez cheias de medo, controlando marujos pobres, mal-educados e negros. Imagine uma revolta no vapor de guerra mais moderna do mundo na época!

"Nós, marinheiros(...) NÃO PODENDO MAIS SUPORTAR A ESCRAVIDÃO NA MARINHA BRASILEIRA, a falta de proteção que a Pátria nos dá, e até então não nos chegou, rompemos o negro véu, que nos cobria aos olhos do patriótico e enganado povo."
Trecho inicial do ultimato dado pelos rebeldes da Revolta da Chibata ao Presidente Hermes da Fonseca.

LH - Durante a República Velha houve algumas insurgências na sociedade brasileira, como o tenentismo e a Guerra de Canudos. Quais eram as características das tropas que atuaram nestes conflitos? Fala-se que eram formadas por moradores locais, pois não havia um corpo fixo do Exército nestas regiões. Isso é correto? E o mais importante: por que esses conflitos ocorreram?

McCann - Canudos foi uma guerra completamente desnecessária. Os fatores para justificar isso são muitos, como a política estadual: Canudos era a segunda cidade da Bahia, em termos de população. Estava atraindo tanta gente que os senhores de terra sentiram-se ameaçados pela falta de trabalhadores. Os militares ficaram zangados após perderem as primeiras batalhas. O medo de uma possível restauração monárquica tomou conta da imprensa brasileira da época, que converteu Canudos num ninho monarquista. Havia muita bobagem de todos os lados. Outra vez, repito que o nível nacional de educação era muito baixo. Um pouco de paciência e muito conversa poderiam ter resolvido o caso sem conflitos armados. Mas vale lembrar que, na mesma época, nos Estados Unidos, índios e trabalhadores em greve foram mortos por causa da ignorância e do medo irracional. Claro que os guerreiros de Canudos eram simples sertanejos.

7º Batalhão de Infantaria nas trincheiras na Guerra de Canudos, 1897.

LH - As unidades vieram de um único local ou de vários Estados?

McCann - As unidades do Exército vinham de todo Brasil: da polícia militar de Manaus e Belém e de regimentos do Rio Grande do Sul. Mas a verdade é que a maioria das tropas foi formada por gente simples, algumas pessoas forçadas a entrar nas fileiras. O tenentismo é uma coisa completamente diferente, ligado mais ao desejo de profissionalização. O objetivo deles era convencer a geração acima deles de mudar a maneira de pensar, de ver o papel do Exército na sociedade. Mas vale lembrar que nessa parte da década de 1920, o Ministro de Guerra, Fernando Setembrino de Carvalho, fechou a Biblioteca do Exército porque ele preferia soldados com mentes vazias.

Nota da redação: A Guerra de Canudos é considerada um movimento sócio-religioso, que ocorreu entre 1893 e 1897, na região de Canudos, na Bahia. A insurreição foi liderada por Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro. O movimento, na época, foi taxado como monarquista e, por isso, houve repressão militar na região. No total, quatro expedições foram enviadas ao território baiano para combater os insurgentes, que culminou na morte de Conselheiro. Os conflitos foram testemunhados pelo escritor Euclides da Cunha, que na ocasião era repórter do jornal O Estado de São Paulo e, posteriormente, escreveu a obra ‘Os Sertões’, no qual narra a guerra.

"Em verdade vos digo, quando as nações brigam com as nações, o Brasil com o Brasil, a Inglaterra com a Inglaterra, a Prússia com a Prússia, das ondas do mar D. SEBASTIÃO SAIRÁ COM TODO O SEU EXÉRCITO."
Antônio Conselheiro.

Uniformes dos oficiais e soldados de infantaria do Exército em Canudos, 1897.
(Gustavo Barroso / Uniformes do Exército Brasileiro)

O Ministro da Guerra fechou a Biblioteca do Exército porque ele preferia soldados com mentes vazias.

LH - No capítulo 2 de Soldados da Pátria, o senhor cita que, após Canudos, o Exército ficou em ruínas. Por que isso ocorreu e como o Exército se reergueu?

McCann - O Exército mandou a Canudos cerca de 12 mil homens, quase a metade da força efetiva total. Houve registros de uns cinco mil mortos e feridos. Vários oficiais bem preparados morreram. Acho que, no fim, todo mundo entendeu que foi um desastre desnecessário. Ninguém fez pesquisas tratando dos efeitos psicológicos nos veteranos, mas sabemos que é bem provável que muitos dos sobreviventes sofreram por diversos anos depois. Na época, o Exército estava só no início da criação de um Estado-Maior baseado no sistema alemão. Por causa de Canudos, esse projeto levou muito mais tempo para ser implementado. Somente no governo de Hermes foi possível retomar ao caminho perdido. O momento chave foi quando Rio Branco convenceu Hermes a mandar para a Alemanha, em três grupos, os 36 oficiais mais tarde chamados os ‘jovens turcos’. Quase tudo que aconteceu depois foi ligado à experiência desses militares.

LH - O senhor comentou sobre os ‘jovens turcos’. Com que objetivo eles foram enviados à Alemanha?

McCann - Depois do desastre de Canudos, o Exército começou a tentar várias possibilidades de reforma. O Estado- Maior foi criado em 1899. A revolta da Escola Militar da Praia Vermelho, em 1904, causou seu fechamento e uma nova escola teve de ser aberta em Porto Alegre, a Escola de Guerra. Para preparar instrutores para os novos cursos projetados, o Ministério mandou seis oficiais de baixa patente servirem nos regimentos do Exército imperial alemão, por dois anos. Eles foram, mas não houve reforma porque faltou dinheiro. Em 1908, Rio Branco conseguiu um convite do governo alemão para os generais Hermes e Luís Mendes de Morais assistirem a manobras do Exército alemão. Hermes negociou com Berlim o envio de uma missão militar para supervisionar a reorganização do Exército. Então, a razão para a viagem dos oficiais brasileiros à Alemanha mudou um pouco. Agora, a idéia era ter um grupo de oficiais que poderiam assistir a missão. Em 1909, um segundo grupo de seis oficiais embarcou.


Neste intervalo, a Krupp (empresa bélica alemã) consolidou sua posição como fornecedora de artilharia, cedendo armas para os Fortes Copacabana e Leme. Em 1910, o terceiro grupo de 24 oficiais embarcou pra Alemanha. A missão alemã seria composta por um grupo de vinte a trinta oficiais sob comando do general Friedrich Colmar von der Goltz, conhecido escritor militar e reorganizador do Exército turco. A missão não deu certo principalmente porque os franceses, que já estavam treinando as forças estaduais de São Paulo desde 1906, montaram uma grande campanha de propaganda negativa. Os esforços dos militares franceses para influenciar a elite brasileira em favor de sua causa podem ser vistos nos relatórios do Estado-Maior francês. Era política francesa convencer a elite brasileira, como fora feito com o marechal Hermes, sobre a profunda convicção de que o Exército francês ainda era o Exército modelo.

LH - E essa idéia dos franceses foi aceita no Brasil?

McCann - Vários jornais brasileiros apoiariam os franceses. Os franceses e seus aliados brasileiros, como o senador mato-grossense Antonio Azeredo, impediram a missão alemã, mas não tiveram forças para impor uma missão francesa. Hermes prometera ao imperador alemão a assinatura de contratos com o Exército e a Marinha. Além dos franceses e paulistas, também os americanos e ingleses mostraram-se contrariados. A questão dividiu a oficialidade e o governo. Alguns altos oficiais opunham-se a qualquer missão estrangeira. Tamanha era a pressão sobre Hermes que lhe custava menos se opor à posição pró-alemã de seu ministro do exterior, Rio Branco, e recusar-se a honrar o compromisso assumido com Berlim do que mandar mais oficiais para juntarem-se aos que estavam completando seu treinamento na Alemanha. O governo teria pagado à Alemanha uma vultosa indenização para desfazer os acordos. A questão da missão militar estrangeira ficaria engavetada até o fim da Primeira Grande Guerra. Mas os oficiais com a experiência na Alemanha foram os que deram ao Exército um impulso reformista.

Era política francesa convencer a elite brasileira de que o Exército francês ainda era o modelo.

LH - Por que esses militares passaram a ser chamados de ‘jovens turcos’?

McCann - Foram chamados ‘jovens turcos’ porque, depois da revolução reformadora na Turquia, esta frase tornou-se comum no mundo inteiro e aplicada aos que queriam reformas.

Generalfeldmarschall Wilhelm Leopold Colmar Freiherr von der Goltz, 1917.

Nota da redação: após retornarem para o Brasil em 1913, os ‘jovens turcos’ fundaram a revista A Defesa Nacional, onde publicaram inúmeras traduções de textos militares alemães, difundindo detalhes técnicos, de treinamento e informações sobre a indústria bélica da Alemanha. Essas idéias de reforma tinham como base os pedidos de Benjamin Constant, que sofria influências claras do movimento positivista.

LH - Fala-se muito que havia castigos físicos como punição no Exército. Como essa cultura de punição começou?

McCann: A punição com castigos físicos fez parte de Exércitos de todo o mundo no século XIX. Aqui, não foi diferente, mas teve um agravante forte. Havia também o fator da escravidão e os efeitos que aquele sistema produzia na sociedade. Durante a República Velha, a maioria dos soldados eram negros e mestiços. Punição física era um método muito mais fácil do que educação.

"GETÚLIO [VARGAS] foi um sargento na fronteira do Mato Grosso, então ele SABIA DE PRIMEIRA MÃO SOBRE A VIDA DOS SOLDADOS."
Frank McCann.

LH - A hierarquia do Exército estava fragmentada na Revolução de 30. Por que o senhor acha que havia tanta diferença de pensamento entre o alto escalão e o restante dos militares?

McCann: Não foi todo o alto escalão, mas alguns, como Tasso Fragoso, foram campeões de reforma. Mas os outros foram acostumados com a vida militar; eles não viam razão de aprender novas táticas, usar novas armas, enfim tornar-se mais profissionais.

Uniformes dos regimentos de cavalaria e da Companhia de Carros de Assalto, 1922.
(Gustavo Barroso / Uniformes do Exército Brasileiro)

LH - Quais são as diferenças mais perceptíveis entre o Exército brasileiro no início da República e o do período de Getúlio Vargas?

McCann: É difícil ver os dois como o mesmo Exército. No primeiro caso, os governos não queriam ouvir problemas e sim deixá-los nos quartéis. No período Vargas, ele estava envolvido com tudo e tudo mundo. Ele prestava atenção às listas dos capitães que estavam prontos para serem promovidos ou não. Toda semana ele se reunia com o ministro da guerra, e correspondeu-se com muitos militares colhendo data, pontos de vista e sugestões. As reformas militares da década de 1930 tinham muita relação com a ação dele. Interessante que a experiência militar de Getúlio foi de um sargento na fronteira de Mato Grosso, então ele sabia em primeira mão sobre a vida dos soldados, mas sua vida ensinou-lhe como lidar com coronéis e generais.

LH - Nos quase 40 anos compreendidos em seu livro, é possível verificar elementos comuns ao Exército em todo este período?

Frank McCann: Sim, de uma forma geral, os Exércitos são entidades muito tradicionais. Ainda as unidades de hoje cantam canções da arma, do regimento, etc... Em muitas escolas e unidades pelo Brasil afora são usados edifícios construídos na época de Hermes. Para um soldado, isso dá a sensação de viver no passado. Até durante os chamados anos ‘militares’ eles sempre insistiram que eles foram trabalhando para um Brasil melhor. Eu não concordo com a maneira que eles fizeram isso, mas acho que eles foram sinceros na crença deles. Outra coisa; acho que os ‘jovens turcos’ ficariam felizes se eles pudessem ver os oficiais de hoje. O sonho que eles celebraram com a revista A Defesa Nacional é hoje uma realidade. O Exército de hoje ainda é pequeno, mas é muito profissional, solidamente fora da política e respeitado pelos outros exércitos do mundo.

Os “jovens turcos”, que lutaram pela profissionalização do exército, veriam seu sonho realizado na força de hoje.

Frank D. McCann, autor dos livros Soldados da Pátria e Aliança Brasil-Estados Unidos 1937-1945 e brasilianista militar famoso. Ele foi condecorado com o título de Comendador da Ordem do Rio Branco (1987) e com a Medalha do Pacificador (1995). McCann faleceu no dia 2 de abril de 2021. Ele foi chamado de "um grande americano e um grande amigo do Brasil".

Bibliografia recomendada:

Soldados da Pátria: História do Exército Brasileiro 1889-1937.

Leitura recomendada:



PERFIL: General Hans Kundt, conselheiro militar alemão na Bolívia24 de outubro de 2020.

FOTO: Raul Langlois, conselheiro militar no Paraguai5 de maio de 2020.

COMENTÁRIO: Pseudopotência, 1º de julho de 2020.