segunda-feira, 28 de junho de 2021

Retrofuturismo nuclear com o bullpup Korobov

O fuzil bullpup Korobov TKB-408 em uma arte conceitual do jogo Nuclear Union.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 28 de junho de 2021.

O retrofuturismo pós-apocalíptico é uma temática favorita dos países do Leste Europeu, com os grandes sucessos S.T.A.L.K.E.R. e Metro sendo ambientados em universos pós-apocalípticos com misturas de equipamentos e indumentárias de várias eras diferentes. O protagonista de União Nuclear é retratado carregando o fuzil bullpup Korobov TKB-408, um protótipo soviético de 1946.

O projeto russo-ucraniano União Nuclear (Nuclear Union em seu titulo em inglês), ou Nova União no original (Новый Союз / Novyy Soyuz), era um exemplar dessa tendência. Sendo um RPG em terceira pessoa, o mundo de União Nuclear é ambientado no pós-guerra nuclear de uma história alternativa onde a Crise dos Mísseis de Cuba em 1962 levou os Estados Unidos e a União Soviética à guerra nuclear. Ambos os lados arrasados, a União Soviética sobreviveu em um estado deplorável de semi-barbarismo, daí o nome original Nova União. Foram publicados três vídeos com trailers sobre o novo jogo.

Trailer de Anúncio


Trailer da Arte Conceitual


Trailer de Jogabilidade


Cinquenta anos depois da guerra, os fragmentos da União Soviética que foram rapidamente trazidos para a clandestinidade tornaram-se gradualmente um verdadeiro estado com sua própria capital, uma cidade chamada Pobedogrado. O principal protagonista do jogo é um ex-piloto da aviação militar soviética, que é enviado da cidade subterrânea de "Pobedogrado" no subsolo de Moscou para a superfície externa radioativa, para várias missões em nome do governo subterrâneo de Pobedogrado, incluindo o recuperação de tecnologias avançadas de guerra soviéticas pré-nucleares e a investigação de um conjunto de fenômenos estranhos e misteriosos que estão acontecendo na superfície externa; incluindo mutantes e atividades paranormais.

O jogo foi desenvolvido pela empresa ucraniana Best Way e deveria ser financiado e publicado pela editora russa 1C Company, com o lançamento para o Microsoft Windows marcado para 2014. No entanto, a empresa russa retirou o seu envolvimento no final de 2013 devido à instabilidade política na Ucrânia, resultando no cancelamento do jogo. Em fevereiro de 2014, tropas russas ocuparam a Criméia, no território ucraniano. O site do jogo permanece como um dos únicos vestígios do projeto. Nele, o protagonista senta-se observando a paisagem arrasada de Pobedogrado segurando o seu fuzil bullpup Korobov TKB-408 soviético.

Imagem do site novysoyuz.ru.

O TKB-408 Korobov foi um protótipo de fuzil bullpup do projetista soviético German A. Korobov em 1946, e que foi submetido a uma série de testes oficiais conduzidos, no mesmo ano, para selecionar um fuzil de assalto para o Exército Vermelho no calibre intermediário 7,62x39mm soviético. Assim como no caso do jogo União Nuclear, o bullpup de Korobov foi um projeto cancelado. A comissão do Exército Soviético considerou o TKB-408 insatisfatório, com os testes finalmente selecionando o AK-47 de Mikhail Kalashnikov; tornando o Korobov TKB-408 uma mera nota de rodapé na história das armas de fogo.

O fuzil TKB-408 teria sido esquecido completamente não fosse o desenho bullpup ser tão popular nos últimos anos. O russos tentaram outros projetos bullpup com o TKB-011, o TKB-022 e o TKB-0146 (que também estariam presentes no jogo). Os ucranianos também experimentaram com o conceito com o Vepr, uma conversão do AK-74. Na história do jogo, fuzis Korobov começaram a aparecer nas mãos de gangues contra-revolucionárias nas regiões de Ryazan e Tambov, na URSS, no início dos anos 1990. Estas gangues encontraram a documentação do TKB-408 e corrigiram suas deficiências. Nos documentos oficiais, o protótipo é referido como "Objeto 93" (Ob'yekt 93), em alusão ao ano da sua descoberta.

A sobrevida de um protótipo mal-sucedido é um enredo parecido com o uso do fuzil bullpup brasileiro LAPA no livro de ficção científica Selva Brasil, de Roberto de Sousa Causo; que, inclusive, tem um soldado brasileiro carregando o fuzil-metralhador argentino FARA 83 na capa. Em Selva Brasil, Jânio Quadros invade a Guiana Francesa e inicia uma guerra inter-geracional com as potências européias e os Estados Unidos, com uma aliança sul-americana lutando uma guerra de guerrilha.

Selva Brasil.
Roberto de Sousa Causo.

Trecho do livro:

"Em segundos, o tiroteio se transformou em uma barragem de fogo que vinha de todos os lados. Enfiei a cara na lama, levantei o fuzil e puxei o gatilho com toda a força. Por alguma razão, parei de respirar durante alguns segundos. Só tinha consciência de estampidos e zunidos e ricochetes e de impactos que se comunicavam do blindado pro chão e do chão pro meu peito.
Ouvi algumas explosões mais fortes -granadas-de-mão, na certa-, e a terra balançou mais intensamente debaixo do meu corpo, chocalhando meus dentes. Empunhei o meu LAPA M3. Ao meu lado Cides enfiou o FARA entre a lagarta e despejou um carregador de trinta tiros. Não tinha espaço pra que a arma ficasse na vertical e Cides deve tê-la virado com a face direita pra cima, porque os cartuchos expelidos batiam no fundo do blindado e caíam por cima da gente feito um chuveiro de rebites rubro-incandescentes - e só então notei que tinha deixado o capacete pra trás."

O vários protótipos russos e ucranianos não foram o fim dos bullpups eslavos. Além do fuzil VHS croata, projetado desde o início como um bullpup e seguindo a ergonomia do FAMAS, os fuzis da família AK vem sendo readaptados para o padrão bullpup no Oriente Médio nos anos recentes.

 Essas conversões realizadas em Idlib, na Síria, se tornaram onipresentes na atual guerra civil. Vários modelos são encomendados e convertidos para os combatentes, sendo empregados com miras ópticas modernas e camuflagens exóticas; de forma muito parecida com o universo sem lei de União Nuclear.

Apresentação do Korobov TKB-408 pelo Grupo Kalashnikov


Bibliografia recomendada:

Metro 2033.
Dmitry Glukhovsky.

Leitura recomendada:

O Exército Francês está contratando escritores de ficção científica para imaginar ameaças futuras, 3 de junho de 2020.

A Arte da Guerra em Tropas Estelares - 1 Os americanos e a Primeira Guerra Interestelar, 17 de fevereiro de 2020.

A Arte da Guerra em Tropas Estelares - 2 O exército do retro-futurismo, 17 de fevereiro de 2020.

A Arte da Guerra em Tropas Estelares - 3 Para a glória da Infantaria Móvel, 17 de fevereiro de 2020.

A Arte da Guerra em Tropas Estelares - 4 Derrotar civilizações extraterrestres, 17 de fevereiro de 2020.

A Arte da Guerra em Duna, 17 de setembro de 2020.

O FAMAS no mercado de exportação4 de novembro de 2019.

GALERIA: O FAMAS em Vanuatu22 de abril de 2020.

GALERIA: O Steyr AUG e os fuzis bullpup na Índia, 28 de julho de 2020.

GALERIA: Comandos Anfíbios Argentinos com o FAMAS, 17 de julho de 2020.

GALERIA: Cenas da Guerra da Indochina por Filip Štorch, 2 de maio de 2021.

Nenhum comentário:

Postar um comentário