terça-feira, 21 de abril de 2020

Tentativas da Argentina de um fuzil indígena

Este exemplar em particular de um fuzil argentino com mira telescópica mostrado em uma foto publicitária tem a alavanca de manejo no lado esquerdo e, quase imperceptível, uma alça de transporte do FAL dobrada para baixo.

Por Ronaldo Olive, Small Arms Defense Journal, 8 de maio de 2015.
Tradução FdL, Warfare Blog, 21 de abril de 2020.

[Nota do Tradutor: A palavra "indígena", aqui, se refere a produzir localmente.]

Da virada do século XIX para o XX, a Argentina, como muitos países do mundo, era equipada principalmente com fuzis Mauser de ação de ferrolho adquiridos diretamente da DWM (Deutsche Waffen und Munitionsfabriken), começando com o M1891 (cerca de 180.000 unidades) e seguido pelo M1909 (cerca de 130.000 unidades compradas no período de 1909-1911), todos calibrados em 7,65x53mm, a chamada munição Mauser argentina. O Arsenal Estebán de Luca local (também conhecido como Fábrica de Fusiles de Buenos Aires) começou a produzir peças de reposição para os fuzis, incluindo canos, em 1915. Entre 1947 e 1959, mais ou menos, as Fabricaciones Militares estatais produziram localmente cerca de 20.000 carabinas mais curtas (cano de 556mm), variantes de Engenharia/Cavalaria do fuzil padrão (com cano de 740mm) em sua Fábrica Militar de Armas Portáteis “Domingo Matheu”, em Rosário, província de Santa Fé. Para constar, os diferentes modelos Mauser permaneceram em uso no exército argentino até serem substituídos gradualmente pelo FN FAL 7,62x51mm à partir de meados de 1957. Após a entrega dos lotes iniciais fabricados na Bélgica, a fabricação local na Fábrica Domingo Matheu começou em 1959, quando 500 exemplares foram concluídos, mas a produção chegaria a cerca de 10.000 unidades por ano. Estima-se que 120.000 fuzis FAL tenham sido fabricados na Argentina antes que a produção finalmente parasse em meados da década de 90.

Logo após a Segunda Guerra Mundial, quando o M1 Garand americano, a série SVT soviética e o G43 e StG44 alemães mostraram a nova forma e a nova moda do fuzil do soldado de infantaria, o Exército Argentino achou que também era hora de seguir o exemplo, se possível, envolvendo fabricantes locais. Como o país não possuía o conhecimento técnico básico envolvendo o projeto e a produção de armas semi-automáticas, era necessária inspiração externa. Esta veio na forma do fuzil alemão StG 44, que de alguma forma chegou ao país sul-americano em cerca de 1947. Usando um processo de engenharia reversa, funcionários do CITEFA - Instituto de Investigaciones Científicas y Técnicas de las Fuerzas Armadas (Instituto de Pesquisas Científicas e Técnicas das Forças Armadas), em parceria com aqueles da Fábrica Militar de Armas Portáteis “Domingo Matheu”, produziram seu clone local do Sturmgeweher, que recebeu a designação CAM 1. Ao mesmo tempo, a Fábrica Militar de Cartuchos “San Lorenzo” do Exército, também na província de Santa Fé, preparou-se para a produção da munição de 7,92x33mm usada no fuzil, e alguns lotes de teste chegaram para uso no número desconhecido de protótipos CAM 1 que eventualmente emergiram da Fábrica Domingo Matheu. Por razões desconhecidas, no entanto, os planos para a fabricação em larga escala do fuzil terminaram gradualmente em 1953-54.


Fotografia rara do fuzil CAM 1 argentino, o clone de engenharia reversa do fuzil de assalto alemão StG 44, fabricado pela FMAP-DM em Rosário, província de Santa Fé. A munição de 7,92x33mm vista no carregador destacável de 30 tiros foi produzida localmente pela Fábrica Militar de Cartuchos “San Lorenzo”, também em Santa Fé.

Outra tentativa também datada do início da década de 1950 aparentemente veio da Marinha Argentina com o suporte técnico relatado da H.A.F.D.A.S.A. - Hispano Argentina Fábrica de Automóbiles S.A., um pequeno fabricante de submetralhadoras e carabinas semiautomáticas de calibre de pistola baseado em Buenos Aires. Isso acabou se materializando na forma de um fuzil M1 Garand modificado no calibre 7,65x53mm, do qual pelo menos um protótipo foi concluído pela Fábrica Militar de Armas Portáteis "Domingo Matheu" em 1953. As características externas mais notáveis do que era simplesmente chamado de Fusil Semiautomático (Fuzil Semi-automático) eram um elaborado guarda-mão de alumínio, com com aberturas de ventilação verticais no comprimento e contornos revisadas e aberturas mais finas para a coronha.

Também é relatado que a Força Aérea Argentina já havia brincado com a idéia de um programa de fabricação local do fuzil semi-automático M1941 de Melvin Johnson, alguma menção ao chamado M1947 (uma carabina semi-automática derivada da metralhadora M1941) para a Argentina surgindo ocasionalmente. Demoraria cerca de duas décadas para uma nova tentativa em direção a um projeto de fuzil indígena começar naquele país sul-americano.


Dimensões e carimbo da espoleta do cartucho argentino de 7,92x33mm fabricado pela FMC-SL para o fuzil de assalto CAM 1.

Em 1975, o Estado Mayor General del Ejército (Estado-Maior Geral do Exército) enviou à FMAP-DM os requisitos técnicos preliminares para um FAA (Fusil de Asalto Argentino) de 5,56x45mm. A responsabilidade do projeto foi atribuída a uma equipe chefiada por Enrique Chichizola e, em 1977, os parâmetros básicos do chamado "Proyeto Código 10.0187" foram definidos. Em meados de 1979, após cerca de sete meses de trabalho real de construção, o primeiro dos cinco protótipos de teste foi concluído.

Com inúmeras modificações ditadas pelo programa de teste inicial e por alterações consecutivas nos requisitos oficiais, um lote de pré-produção de aproximadamente 50 unidades foi concluído na Fábrica Domingo Matheu; as armas foram entregues posteriormente para avaliação e teste de campo real pelas unidades do Exército, com ênfase nas chamadas unidades "especiais", como tropas paraquedistas, comandos e de montanha. Isso ocorreu no período 1982-1983. Depois de ser chamada de FAA, a arma foi posteriormente denominada FAA 81 e, finalmente, FARA 83 (Fusil de Asalto República Argentina 1983). Estima-se que, no total, apenas algumas centenas de exemplos do fuzil tenham sido concluídos antes do cancelamento do programa pelo governo do presidente Carlos Menen, em meados da década de 1980, devido à falta de fundos disponíveis.


Enrique Chichizola chefiou a equipe de projeto que criou o fuzil FAA/FAA 81/FARA 83. Ele é visto aqui segurando um dos protótipos na FMAP-DM em fevereiro de 1990.

Ao longo do seu período evolutivo, as modificações aplicadas ao fuzil de assalto argentino resultaram em inúmeras alterações nas especificações técnicas. Basicamente, era uma arma de fogo seletivo (cerca de 700-750 tiros por minuto no modo automático) e era operada a gás com uma configuração bastante convencional de conjunto do ferrolho com êmbolo/ haste/ ferrolho, o trancamento da culatra sendo fornecido por um ferrolho rotativo de dois olhais. O cano de 452mm de comprimento (seis ranhuras à direita, passo 1:9 polegadas) era adequado tanto à munição M193 comum da época quanto ao novo cartucho SS109 que estava entrando no mercado militar. A alimentação era fornecida por carregadores patenteados de 30 tiros fabricados em aço, mas foi planejado substituí-los pelos modelos AR-15/M16 para futuras armas de produção em larga escala. 

O corpo do fuzil era feito principalmente de estampas de aço, as caixas da culatra superior e inferior articulando-se uma na outra a cerca da metade do comprimento. O primeiro protótipo tinha uma coronha dobrável de madeira, mas posteriormente deu lugar a uma unidade sintética com um pequeno compartimento interno que abrigava material de limpeza. No entanto, a maioria das armas fabricadas para o programa de avaliação das tropas foi equipada com uma coronha de metal tubular baseado no usado no fuzil Para-FAL, além da adição de um descanso plástico para a bochechas no qual o kit de limpeza foi acomodado.


Um FARA 83 parcialmente desmontado para manutenção em primeiro escalão. O guarda-mão de plástico incorporou uma jaqueta de metal perfurada para ventilação externa do cano e isolamento térmico.

As especificações finais do FARA 83 são as seguintes: comprimento total, 1.000mm; comprimento com a coronha dobrada, 745mm; altura sobre o carregador, 260mm; peso com carregador vazio, 4,16kg; peso com carregador cheio, 4,52kg; peso do bipé dobrável opcional, 0,4kg.

Como um post-scritum, em 1989-90, a Fábrica Militar de Armas Portáteis “Domingo Matheu” fez outra tentativa de dar ao Exército Argentino um fuzil 5,56x45mm. Este assumiu a forma de um fuzil Para-FAL de 7,62x51mm modificado, com cano trocado para a nova munição e alimentado por carregadores de plástico Steyr AUG de 30 tiros. Embora isso funcionasse adequadamente, o programa não amadureceu o suficiente para entrar em produção. Talvez porque o fuzil resultante fosse muito pesado para o calibre envolvido.


Protótipo Número 00015 ostentando um guarda-mão cilíndrico de plástico e a alavanca de manejo do lado direito. O bipé de metal dobrável dobrava como cortador de arame, adicionando cerca de 400 gramas ao peso da arma.

Desenhos comparativos do primeiro protótipo do FAA (em cima) com um modelo de desenvolvimento posterior. Alterações significativas serão encontradas na forma da caixa da culatra superior, na posição da alavanca de manejo (de 90 graus para a esquerda a 45 graus para a frente), na forma do guarda-mão, etc.

Original: http://www.sadefensejournal.com/wp/argentinas-indigenous-rifle-attempts/

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