terça-feira, 8 de junho de 2021

FOTO: Batedores cubanos em Angola

Militares cubanos de uma unidade de reconhecimento perto de Menongue, no sul de Angola, em dezembro de 1987.
O fuzil do homem-ponto tem um silenciador.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 8 de junho de 2021.

As Forças Armadas Revolucionárias cubanas (Fuerzas Armadas Revolucionarias, FAR) foram moldadas seguindo o sistema soviético, com a criação de formações em estilo soviético. Estes batedores cubanos são moldados no razvedka soviético, dado o foco russo soviético na informação, dissimulação e paranóia, e com o objetivo de manter seus adversários em situação de desequilíbrio.

Os cubanos revolucionários tornaram-se um dos mais prolíficos "exportadores da revolução" na Guerra Fria, com desdobramentos da América do Sul ao Vietnã. Esta função expedicionária era chamada de "internacionalização", ou seja, a internacionalização da revolução socialista global. Nos anos 1980, o desdobramento cubano em Angola atingiu um pico de 50 mil militares e 8 mil civis auxiliando o governo comunista angolano do MPLA (ao lado dos conselheiros soviéticos); intervenção chamada Operação Carlota.

Na década de 80, os cubanos mantiveram missões militares na Argélia, Gana, Guiné-Bissau (ex-Guiné Portuguesa), Somália, Líbia, Tanzânia, Zâmbia, Síria e Afeganistão; além de contingentes militares consideráveis em Angola, conforme já citado, Congo (500 soldados), Etiópia (4 mil soldados, 1978-1984), Moçambique (600 soldados), Iêmen do Sul (500 soldados) e Nicarágua (500 soldados e 3 mil funcionários civis). Os cubanos também enviaram militares para a Síria em 1973, durante a Guerra do Yom Kippur, e uma equipe de 30 oficiais e engenheiros, munidos de 10 escavadeiras para fortificar a linha Ho Chi Minh no Vietnã e Camboja nos anos 1970. Conselheiros cubanos também ordenaram a tomada de Kolwezi pelos guerrilheiros Tigres em 1978.

Carlos Eugênio da Paz "Clemente" mencionando a oferta do General Ochoa


Segundo o líder guerrilheiro brasileiro da ALN, Carlos Eugênio da Paz (codinome Clemente), o próprio General Arnaldo Ochoa, futuro comandante do "Exército Ocidental" em Havana, ofereceu em 1973 o contingente de 100 soldados cubanos que entrariam no país pela Amazônia e criariam um foco inicial de guerrilha na selva, internacionalizando o conflito que na época já existia sendo feito por brasileiros - a Guerrilha do Araguaia - mas nesse momento já em fase de aniquilamento. Essa oferta foi rejeitada por serem hispânicos e não brasileiros, o que colocaria em dúvida a real liderança da campanha.

O General Ochoa

O General Arnaldo Ochoa (centro) em Angola.

O General Ochoa foi um veterano da guerrilha Movimento 26 de Julho e da Batalha da Baía dos Porcos em 1961. Em 1965, Ochoa entrou no Partido Comunista Cubano, depois estudou na escola militar de Matanzas, em Cuba, e em seguida na Academia Militar de Frunze, na União Soviética. Em 1966, Ochoa desembarcou em Falcón, na Venezuela, com 15 guerrilheiros cubanos apoiando comunistas venezuelanos; a campanha sendo esmagada de forma sangrenta pelo governo de Caracas. Em 1967-68, Ochoa treinou rebeldes congoleses.

Em 1975, Ochoa foi enviado para Angola para lutar contra o FNLA em Luanda, onde recebeu o reconhecimento dos comandantes soviéticos e cubanos. Em 1977 foi nomeado comandante das Forças Expedicionárias Cubanas na Etiópia no Ogaden, sob o general soviético Vasiliy Ivanovich Petrov. Seus sucessos durante a Guerra do Ogaden impressionaram os comandantes soviéticos em campanha.

Em 1980, Ochoa era amplamente considerado um grande internacionalista e recebeu o título de "Herói da Revolução" de Fidel Castro em 1984.

Operación Carlota: Pasajes de una epopeya.

Sendo o comandante das forças cubanas em Angola, e depois de ser derrotado na Batalha de Cuito Cuanavale, Ochoa foi acusado de corrupção e traição junto de outros oficiais. As acusações, condenações e sentenças de morte foram extremamente desagradáveis para grande parte da população cubana, especialmente no caso de Arnaldo Ochoa que era considerado pela maioria da população como um dos mais respeitados generais das forças armadas cubanas. Na madrugada de 13 de julho de 1989, Ochoa foi executado por um pelotão de fuzilamento na base militar "Tropas Especiales" em Baracoa, no oeste de Havana. Ele foi enterrado em uma sepultura sem marcação no Cemitério de Havana.

Uma das razões da execução foi a popularidade de Ochoa, que era o mais alto general cubano logo abaixo de Raúl Castro, então ministro da Defesa, e do próprio Fidel Castro.

Organização das FAR

As FAR também eram consideráveis, sendo a maior força latino-americana depois do Brasil. Isso se deveu à doutrina soviética de forças militares em massa divididas em funções de defesa, expedicionária e de controle interno; essa militarização maciça era alienígena à cultura cubana pré-revolução, e específica do novo sistema. Em 1990, o Exército cubano era assim composto:
  • 3 divisões blindadas,
  • 3 divisões mecanizadas,
  • 13 divisões de infantaria.
Exército Ocidental formava um corpo nas províncias de Pinar del Rio e Havana, o Exército Central formava um outro corpo em Matanzas e Las Villas e o Exército Oriental formava dois corpos em Camagüey e Oriente; a Isla de la Juventud (ex-Isla de Pinos) contava com uma divisão de infantaria.

Cada corpo continha 3 divisões, cada uma com três regimentos (2x batalhões), regimento de artilharia, batalhão de reconhecimento e unidades de serviço. Cada quartel-general do exército possuía uma divisão blindada e uma divisão mecanizada.

Divisão Blindada
  • 3 regimentos de tanques,
  • 1 regimento mecanizado,
  • 1 regimento de artilharia.
Divisão Mecanizada
  • 3 regimentos mecanizados (2x batalhões),
  • 1 regimento de tanques (3x batalhões),
  • 1 regimento de artilharia,
  • 1 regimento de reconhecimento mecanizado.
O exército ainda possuía robusta defesa anti-aérea com 26 regimentos AAe e brigadas de mísseis terra-ar, 8 regimentos de infantaria independentes, uma Brigada de Forças Especiais (2x batalhões) e uma Brigada Paraquedista. A Marinha tinha 12 mil homens, com um batalhão de fuzileiros navais com uniformes pretos copiados dos soviéticos; uma Força Aérea de 18.500 homens; tropas de segurança interna (estilo KGB) com 17 mil homens; 3.500 guardas de fronteira; e, em reserva, 1.200.000 homens e mulheres na Milícia Revolucionária, 100 mil na Juventude Trabalhista e 50 mil na Defesa Civil.

"O longo período de serviço militar (3 anos); forças armadas bem treinadas e eficientes; extensa experiência de combate na África e na Ásia; e uma força de reserva vigorosa, fazem de Cuba a maior potência militar do Caribe depois dos Estados Unidos."
- Caballero Jurado & Nigel Thomas, Central American Wars 1959-89, 1990, pg. 7.

Bibliografia recomendada:

Bush Wars: Africa 1960-2010.

Batalha Histórica de Quifangondo.

Leitura recomendada:





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