quinta-feira, 16 de julho de 2020

Os condutores da estratégia russa


Por Michael Kofman, Russian Military Analysis, 1º de maio de 2019.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 16 de julho de 2019.

A Rússia parece ressurgir na política internacional, entrincheirada em um crescente confronto com os Estados Unidos, ao mesmo tempo em que representa um desafio cada vez mais global para um estado que apenas recentemente foi considerado pelo ex-presidente dos EUA como uma potência regional em declínio. A política costuma ser uma questão de percepção. Na concepção ocidental, a Rússia normalmente existe em um dos dois estados analíticos, declínio ou ressurgimento. Tais representações são frequentemente combinadas com outra dicotomia, uma Rússia que é tática e oportunista, ou uma dirigida por uma estratégia coerente de organização central. Essas concepções não são especialmente úteis. O oportunismo deve ser avaliado dentro da estrutura de uma liderança russa com uma visão e um consenso relativo sobre o papel desejado do país nos assuntos internacionais, isto é, decisões táticas tomadas na busca de um estado final desejado. Declínio e ressurgimento são termos relativos, baseados mais na percepção, do que métricas úteis do poder econômico e militar.

Soldado russo na Chechênia queimando dinheiro soviético, completamente sem valor, em 1995.

Moscou foi amarrada a ciclos históricos de ressurgimento, após períodos de declínio, com estagnação após a mobilização. Mas, afastando-se desse padrão, pode-se ver facilmente que, ao longo dos séculos, a Rússia tem sido e continua sendo hoje uma grande potência duradoura. A Rússia é mais bem caracterizada como uma grande potência relativamente fraca, habitualmente atrasada em tecnologia e desenvolvimento socioeconômico em comparação com os contemporâneos. Portanto, a visão estratégica de Moscou sempre foi moldada tanto pelas percepções de vulnerabilidade, ameaças externas e domésticas, quanto pela ambição e uma busca por reconhecimento.

A União Soviética foi de longe a mais fraca das duas superpotências, apesar de ter se mostrado um adversário capaz dos Estados Unidos na segunda metade do século XX. Da mesma forma, o império russo, apesar dos momentos de força geopolítica, se viu enfrentando adversários mais capazes e tecnologicamente superiores em seu próprio tempo, e forças centrífugas de dentro. A tomada de decisão, a estratégia e o pensamento militar da Rússia permanecem profundamente influenciados pela história do país, uma visão compartilhada entre a elite dominante do lugar de direito da Rússia no sistema internacional e uma forte crença na eficácia das forças armadas como instrumento do poder nacional.

Exército russo avançando em Tskhinvali durante a invasão da Geórgia, 2008.

Além disso, não é necessariamente um prólogo, mas a história tem uma influência profunda na estratégia russa, a teoria do estado de como obter segurança para si e expandir a influência na política internacional. Embora não possua o dinamismo econômico dos concorrentes atuais, o Estado russo tem demonstrado propensão a assumir poderes mais fortes, que competem efetivamente na política internacional bem acima de seu poder relativo, ou, para simplificar, acima de seu peso. Ao mesmo tempo, a Rússia sofreu períodos de estagnação, instabilidade interna e ocasional colapso estatal, muitas vezes se engajando em ciclos de reconstrução ao invés de construção.

A estratégia russa para a competição de grandes potências começa com uma decisão de estabelecer dissuasão convencional e nuclear credível, moldando positivamente o equilíbrio militar, que paradoxalmente concede a Moscou confiança para se engajar em concorrência indireta contra os Estados Unidos. Essa é uma estratégia de imposição de custos e erosão, uma abordagem indireta que pode ser considerada uma forma de incursão. Enquanto a dissuasão convencional e nuclear se mantiver, ela torna várias formas de competição abaixo do limiar da guerra não apenas viáveis, mas altamente atraentes. Moscou espera se tornar um grande espinho estratégico pressionando os Estados Unidos, envolvendo-se em arbitragem geopolítica, estabelecendo-se como um intermediário de poder barato e enfraquecendo efetivamente as instituições que fortalecem a ação coletiva ocidental. Por fim, a Rússia busca um acordo, não baseado no equilíbrio de poder real no sistema internacional, mas vinculado ao seu desempenho na competição. Esse acordo pode ser melhor comparado a uma forma de afastamento, reconhecimento de status e privilégios ou entendimentos decorrentes, que têm profundas ramificações geopolíticas para a política na Europa.

O desafio russo

O Príncipe Bagration na Batalha de Borodino, 1812.
(Quadro de Alexander Yurievich Averyanov)

A Rússia se mede primeiro e principalmente contra os Estados Unidos e, quando busca reconhecimento, atenção ou busca de um acordo, é o desejo de Moscou de negociar com Washington mais do que qualquer outro poder. Moscou vê a OTAN como o Pacto de Varsóvia dos EUA, não uma aliança de defesa coletiva em que as políticas ou pontos de vista de cada estado são importantes. O desafio russo e, conseqüentemente, os insumos da estratégia russa podem ser definidos estritamente como um concurso nascido de visões conflitantes para a arquitetura de segurança da Europa, o esforço da Rússia em restaurar uma esfera privilegiada de influência na antiga União Soviética e uma diferença fundamental na perspectivas normativas sobre a condução das relações internacionais, é assim que os estados devem se comportar na política internacional e, portanto, qual deve ser o caráter da ordem internacional.

Os líderes russos buscam uma revisão do acordo pós-Guerra Fria na Europa, tendo concluído que não têm interesse na atual arquitetura de segurança da Europa. Moscou vê o período pós-Guerra Fria como algo semelhante ao tratado de Versalhes, uma ordem imposta em um momento de fraqueza russa. As fronteiras russas hoje refletem mais de perto o Tratado de Brest-Litovsk de 1918, assinado pelos bolcheviques com as potências centrais da Primeira Guerra Mundial, e, embora a Rússia não seja principalmente expansionista, sempre buscou profundidade geográfica contra as potências mais fortes da Europa. Não tendo nenhuma participação no atual quadro de segurança europeu, a liderança da Rússia seguiu uma estratégia tradicional para obter segurança através do estabelecimento de estados-tampão contra bloqueios político-econômicos ou militares. Essa é uma estratégia de defesa estendida, carregada de vulnerabilidade, e um consenso que surgiu após a Operação Barbarossa em 1941 nos círculos estratégicos russos de que a Rússia nunca mais deve ser colocada na posição de combater um conflito de escala industrial em seu próprio território.

Exército alemão avançando União Soviética adentro durante a Operação Barbarossa, 1941.

Os Estados-tampão não são neutros por design, mas representam um cálculo de soma zero, pois são os amortecedores da Rússia contra a OTAN ou, inversamente, os amortecedores da OTAN contra a Rússia. Moscou acredita que deve impor soberania limitada a seus vizinhos, a fim de controlar sua orientação estratégica. Os líderes russos passaram a ver os vizinhos como passivos, que muitas vezes apoiarão as grandes potências opostas. Esse processo levou a uma profecia auto-realizável: ao usar a força para impor sua vontade, Moscou inspira a apreensão e o comportamento de cercamento entre seus vizinhos, o que os leva a equilibrar e conter a Rússia em primeiro lugar. Embora Moscou sempre busque corrigir essas tendências por meio de instrumentos não-forçosos para manter sua influência, diante de perdas ou derrotas geopolíticas, invariavelmente recorre ao uso da força, colocando-se como a ameaça revisionista aos seus vizinhos.

Além de perseguir a segurança, a Rússia procura restaurar uma esfera privilegiada de influência, acreditando ser o legítimo hegemon em sua própria região, e reintegrar o antigo espaço soviético na medida do possível em torno de sua própria liderança. No entanto, Moscou carece dos meios econômicos, ou de um modelo atraente de desenvolvimento para outros Estados, ainda testemunhando uma fragmentação constante da influência sobre seus países "próximos ao exterior". Há outras forças em jogo. Há um século, a Rússia se encontrava entre duas potências dinâmicas em ascensão, a Alemanha e o Japão. Hoje, está entre duas potências econômicas expansionistas, a China e a União Européia, ambas mais atraentes para os Estados vizinhos.

O pensamento russo de longo prazo é conduzida por uma visão de Moscou no centro de sua própria esfera de influência, mas, na prática, a política russa é definida pela aversão à perda, tentando controlar o lento desenrolar da influência russa no que antes constituíra o antigo império soviético. Não muito diferente de outras potências, a estratégia russa é deliberada, mas também o produto de reações a crises, e em parte emergente na prática. Moscou vê os Estados Unidos como instrumentais por trás dessa entropia geopolítica e, embora as elites russas não vejam seu país em declínio, elas ainda são incomodadas com a atração gravitacional de Estados mais dinâmicos, versus sua própria estagnação econômica sem brilho.

Fuzileiros navais russo e sírio durante um exercício conjunto na cidade portuária síria de Tartus, em 17 de maio de 2017.

Além da defesa estendida e de se restaurar como hegemonia regional dominante dentro da sua própria região, a cultura estratégica russa não se livrou da percepção de que o país é uma grande potência providencial. Moscou vê esse status como de fato hereditário. A Rússia tem um papel especial no mundo porque é a Rússia, e Moscou acredita que tem uma missão. Nascida de sua herança soviética, hoje a Rússia se considera responsável pela segurança internacional, em grande parte por causa do seu arsenal nuclear estratégico e poder militar substancial, e igualmente porque pode desempenhar o papel de um contrapeso conservador ao revisionismo ideológico americano. Seja na Síria ou na Venezuela, a Rússia se considera uma defensora do status quo internacional e do sistema nacional de estado, enquanto vê os Estados Unidos como uma força radical que revisa os assuntos internacionais.

A perspectiva russa dificilmente é diferente de outras grandes potências clássicas, a maioria das quais praticava uma forma de excepcionalismo e hipocrisia de grande potência. No entanto, a visão de Moscou empresta coerência intelectual às ações mais básicas de sua política externa, além da mera busca de segurança à custa da soberania de outros, ou simplesmente mais poder. A Rússia é uma potência cínica, mas as elites russas têm uma visão e uma história que contam a si mesmas sobre o "porquê" da política externa russa. A atual concepção russa de seu papel nos assuntos internacionais está intrinsecamente ligada aos Estados Unidos, e é por isso que Moscou está em uma eterna busca por reconhecimento e em um acordo com Washington.

Um choque de visões

Churchill, Roosevelt e Stalin na Conferência de Yalta, 1945.

Menos reconhecido é o embate fundamental nas perspectivas da política internacional e a conduta dos assuntos entre os Estados. Moscou quer fazer parte de todas as instituições que governam a atual ordem internacional e participar de grupos de contato ou fóruns de discussão para várias questões internacionais, ou seja, promover seus interesses e ser visto como um sistema que determina o poder nos assuntos internacionais. Isso não é incomum, nem é a fonte do conflito com Washington. O problema é que a Rússia mantém uma visão do sistema internacional que vê apenas grandes potências como tendo verdadeira soberania e a capacidade de conduzir uma política externa independente. Pequenos Estados inerentemente têm soberania limitada a partir dessa perspectiva. Mais importante, o objetivo da política internacional é garantir a estabilidade ou a "previsibilidade" das relações entre as grandes potências, evitando uma guerra de grande potência. Portanto, na concepção russa, não apenas as potências nucleares são as primeiras entre iguais, mas os interesses de outros Estados estão subordinados a essa busca. Moscou pensa que um mundo estabilizado por esferas de influência (Yalta, 1945) e arbitragem entre um concerto de poderes (Concerto da Europa em 1815) é o sistema mais estável e com maior chance de perseguir seus próprios interesses.

Notavelmente, essa visão coloca primazia na força e status militares como potência nuclear, sobre o desempenho econômico. Os líderes russos também chegaram a acreditar que, como o Ocidente enfatiza a soberania individual e os direitos humanos acima do poder do Estado, ele inerentemente não vê regimes autoritários como legítimos ou com interesses legítimos. Assim, emerge uma perspectiva mutuamente exclusiva da política internacional, onde a Rússia sente que está de um lado do argumento com a China, promovendo uma ordem internacional conservadora com preferência aos interesses das grandes potências e, por outro, uma visão ideológica que promove a independência de Estados menores e a liberdade dos indivíduos em seus respectivos sistemas políticos.

Soldados soviéticos e britânicos durante a ocupação conjunta do Irã, em 1941.

Os EUA podem ver a agenda de Moscou como fundamentalmente retrógrada, mas o núcleo ideológico visível no centro do consenso de política externa de Washington convenceu a liderança da Rússia de que os Estados Unidos sempre buscarão mudanças de regime na Rússia e nunca reconhecerão o regime autoritário de Vladimir Putin como tendo interesses legítimos. A interpretação de Moscou da intenção dos EUA tende ao paranóico, entregando-se a narrativas infundadas da subversão política organizada dos EUA na periferia da Rússia. No entanto, ao mesmo tempo, a visão de Washington para a integração da Rússia com o Ocidente sempre teve um componente de mudança de regime não-declarado, presumindo que isso encorajaria Moscou a fazer uma transição democrática. Moscou percebe corretamente um impulso missionário no centro da política externa dos EUA.

Os caminhos da estratégia russa

General Shoigu, ministro da Defesa, estudando geografia.

A Rússia sempre foi melhor em alavancar instrumentos militares e diplomáticos do poder nacional em oposição à sua economia. Moscou investiu pesadamente na restauração do poder militar convencional, construindo um exército equilibrado que inclui uma força de propósito geral para conflitos locais, um dissuasor convencional não-nuclear e um arsenal nuclear capaz para a guerra nuclear no teatro de operações. Isso permite que Moscou imponha sua vontade aos vizinhos por meio de operações convencionais limitadas, mas, e de forma mais importante, se envolva em negociações coercitivas e manipulação de riscos contra os Estados Unidos e a OTAN. Inerente à estratégia russa está a presunção de que os interesses em jogo favorecem Moscou nessas competições, permitindo à Rússia ameaçar ataques convencionais de longo prazo em crises nas quais os adversários podem recuar. Escalada nuclear escalável está sempre sobre a mesa - algo para se pensar. Como conseqüência, o desafio para o Ocidente não é simplesmente uma lacuna de capacidade, mas uma lacuna cognitiva na compreensão do que importa no caráter moderno da guerra entre grandes potências.

A estratégia militar russa é fortemente influenciada pelas perspectivas sobre o caráter atual e emergente da guerra, considerando-a baseada na blitzkrieg com armas guiadas de precisão de longo alcance e em uma disputa pela superioridade da informação. O Estado-Maior da Rússia vê a guerra como de natureza sistêmica ou 'nodal', em que um sistema militar possui nós críticos que podem destruir sua capacidade de lutar e, da mesma forma, um sistema político possui elementos essenciais à sua vontade ou resolução política em uma crise. Os conceitos operacionais russos são voltados para moldar o ambiente durante um período ameaçado de guerra e alcançar o sucesso em uma competição de sistemas durante o período inicial da guerra. Há pouca noção no pensamento militar russo de uma guerra apenas convencional com a OTAN ou que, além de um período inicial decisivo de guerra, provavelmente haverá outras fases prolongadas, ou seja, um lado será comprovadamente bem-sucedido nas primeiras semanas da disputa. Desde o início, Moscou está decidida a empregar armas nucleares não-estratégicas, caso se encontre no lado perdedor da guerra.

Sistema de míssil inter-continental RS-24 Yars (SS-27 Mod 2) na Sibéria, 2017.

Nas competições, a Rússia usou o poder militar com base em suficiência razoável, não buscando a superação tanto quanto o poder coercitivo para alcançar os objetivos políticos desejados. As guerras recentes demonstraram alguma eficácia no emparelhamento da guerra indireta com o poder militar convencional, mas, em última análise, é o poder militar duro que alcançou os resultados desejados em disputas locais. O Estado-Maior Geral da Rússia valoriza a utilidade da guerra política e acredita que um conflito começará com subversão política organizada, guerra de informação e coisas do gênero. No entanto, eles vêem esse desafio sub-convencional como a vanguarda de uma ponta-de-lança, onde o verdadeiro poder coercitivo vem do poder militar tecnológico ocidental e do impressionante arsenal de armas guiadas com precisão. Moscou vê a guerra sem contato e a blitzkrieg aeroespacial, como os elementos definidores do modo de guerra ocidental. Eles são combinados com a subversão política para criar revoluções coloridas dentro da esfera de influência auto-atribuída da Rússia. Os elementos convencionais são, portanto, o golpe final de uma guerra não-declarada que começa com meios não-militares.

Apoiada por um crescente dissuasor convencional e nuclear, Moscou está mais confiante em perseguir a competição indireta por meio de hackers, guerra política e outras formas de coerção contra os Estados Unidos, na esperança de impor custos ao longo do tempo. Essa é uma forma de retaliação pelas sanções ocidentais e uma abordagem mais 'medieval' às disputas de grande potência, alavancando a capacidade de alcançar e afetar diretamente a coesão política entre os Estados ocidentais. É mais eficaz quando se considera os esforços ocidentais para reduzir o papel do Estado-nação e estabelecer economias interdependentes baseadas na liberdade de circulação de bens e mão-de-obra. A Rússia combina a imposição de custos sobre os Estados Unidos com uma série de apostas no cenário global para estabelecer um papel de arbitragem ou tornar-se um intermediário de poder em competições, conflitos ou questões de interesse do Ocidente. O objetivo final é criar custos de transação para a política externa dos EUA, forçar o Ocidente a lidar com Moscou, com o eventual desejo de forçar uma negociação sobre os principais interesses russos descritos acima.


Um terceiro esforço está centrado nas principais potências da Europa, criando dependências assimétricas por meio de gasodutos, comércio ou outros acordos com suas respectivas elites. A Rússia é mais poderosa que qualquer Estado europeu, mas muito mais fraca que a União Européia. O problema de Moscou no relativo equilíbrio de poder é auto-evidente, portanto, a Rússia procura enfraquecer a capacidade européia de ação coletiva e o papel das instituições que limitam sua liberdade de manobra na política externa. A Rússia está menos interessada na coesão da OTAN e mais preocupada com a atratividade e o expansionismo econômico da UE. A OTAN, na concepção russa, é simplesmente uma cabeça-de-ponte para a projeção do poder militar americano.

A UE não é simplesmente um projeto europeu, mas também uma conseqüência da grande estratégia dos EUA. Ou seja, a Europa não goza de autonomia estratégica de Washington. A Rússia se recusa a aceitar um teatro europeu de operações militares, onde os EUA gozam de domínio militar, enquanto seu aliado, a UE, tem primazia econômica e política. Portanto, na medida do possível, a Rússia trabalhará ativamente para incentivar forças centrífugas no continente, esperando restaurar a primazia política do Estado-nação e o ressurgimento de um sistema de poderes semelhante a um concerto sobre aquele de blocos políticos ou militares . A influência política russa, operações de informação e esforços semelhantes estão vinculados por essa visão geral, não para o revisionismo geográfico, mas para a restauração do poder relativo da Rússia nos assuntos europeus.

Bibliografia recomendada:




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quarta-feira, 15 de julho de 2020

O Batalhão Francês da ONU na Coréia - Lições Aprendidas

Monumento ao Batalhão Francês em Suwon, na Coréia do Sul.

Pelo Major Alain Pétit Jean, Revista Doctrine, abril de 2007.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 14 de julho de 2020.

O comentário pós-conflito do Major-General Young sobre o Batalhão Francês diz "Muito poucas unidades de combate no curso da História podem se orgulhar de tantos feitos de armas".

Na "memória coletiva" francesa, a Guerra da Coréia foi consignada na sombra ou no esquecimento por causa de um exigente compromisso militar com a Indochina. No entanto, deve-se enfatizar que esta expedição mandatada pela ONU registra como um episódio de clímax na "Era da Guerra Fria".

Posições do Batalhão Francês em T-Bone face ao exército chinês, agosto de 1952.
(Appay/ ECPAD)

Consistente com o armistício de Panmunjon, todos os combates pararam em 27 de julho de 1953. Isso concluiu três anos de conflito durante o qual uma força de coalizão de dezesseis nações, sob o comando dos EUA, estava se esforçando para restaurar a soberania da República da Coréia. Tropas de uma grande variedade de horizontes tiveram que aprender como deveriam trabalhar juntas e enfrentar todos os problemas relacionados à mistura de idiomas, equipamentos, procedimentos, políticas e conceitos; também métodos de avaliação de prontidão operacional.

A avalanche comunista

Embarque de voluntários no "L'Athos II" no porto de Marselha, outubro de 1950.
(François de Castries/ ECPAD)

Estamos no dia 25 de junho de 1950. Sete divisões norte-coreanas irrompem pelo paralelo 38. A onda de assalto compreende 90.000 homens apoiados por mais de 150 tanques de batalha; 1.700 peças de artilharia e 200 aeronaves. Face aos agressores, a República da Coréia (ROK) só pode opor a 4 divisões mal-equipadas e mal-treinadas. As forças comunistas tomam Seul após dois dias de combate e rapidamente estendem a pressão em direção ao sul. Este é o primeiríssimo ataque deliberado que ocorre no cenário internacional desde que a Organização das Nações Unidas foi criada. Portanto, sua credibilidade agora depende da resposta e determinação apropriadas dos Estados-membros.

Imediatamente chamado, mas na ausência do delegado soviético, o Conselho de Segurança "está convidando todos os Estados-membros a ajudarem e oferecerem seu apoio à República da Coréia agredida". Em 27 de junho, o Presidente Truman declara publicamente "Minha ordem para a Força Aérea e a Marinha dos EUA é que eles prestem apoio e assistência ao governo coreano. Esse ataque contra a Coréia mostra claramente que os comunistas estão mudando de atividades subversivas para a conquista militar de nações independentes. Eles vão entrar em guerra e invasões armadas".

Monclar e McArthur na Coréia.

O General MacArthur assume as responsabilidades de comandante em chefe do QG da Força estabelecido em Tóquio. A partir de meados de julho, o presidente da ROK coloca todas as Forças Armadas da Coréia sob comando americano, enquanto os vários contingentes nacionais se desdobram no teatro. Um a um, eles serão integrados a uma disposição internacional organizada, operada e supervisionada pelos EUA e no estilo americano. É a primeira vez que uma força de coalizão mundial é deliberadamente organizada para uma expedição, e sua eficácia deve ser validada em condições de combate ainda desconhecidas.

A França não pode ficar de fora da cena, mas os recursos são limitados

Ofensiva dos voluntários franceses no Inje, maio de 1951.
(Jean Caldairou/ ECPAD)

A França responde positivamente, embora mal esteja se recuperando da Segunda Guerra Mundial e queimando a maior parte do seu orçamento militar na Guerra da Indochina. "A situação política e social do mundo ficou tão sombria que sentimos que é nosso dever participar ativamente da operação de bloqueio, em oposição às forças que atualmente escravizam o povo coreano... Essa postura se aplica a todas as tentativas de sujeição contra seres humanos". Uma postura bastante nobre das autoridades francesas, de fato! Porém, conquanto as operações na Indochina vinham primeiro, foi solicitado aos EUA subsídios e o suprimento sucedem deste visível alinhamento. Os ativos franceses oferecidos à coalizão podem parecer mais simbólicos do que proporcionais ao conflito, mas, dadas as circunstâncias, tal símbolo significa muito em termos de conexão política entre Paris e Washington.

Em 22 de julho de 1950, a França destacou o "aviso colonial" La Grandière da sua Frota do Extremo-Oriente para a força expedicionária da ONU e este navio participa das operações de desembarque de Inchon no dia 15 de setembro. Mais tarde, em 25 de agosto, o governo francês decide enviar uma Força-Tarefa Terrestre para a Coréia. No que diz respeito à sua dedicação em juntar tudo, o General Blanc e o General Magrin-Vernerey (conhecido como Monclar) são realmente merecedores da paternidade deste projeto. Em suma, este batalhão de infantaria assume a forma de uma unidade auto-sustentável, padrão americano, composta por 39 oficiais, 172 graduados e 806 soldados. O pessoal é recrutado de forma voluntária. Eles vêm de todos os lugares; armas e serviços, seja da metrópole ou baseados no estrangeiro; tanto tropas regulares quanto da reserva. Tropas de reposição são colocadas em uma turnê de rotação a cada 2 meses para equilibrar as baixas.

Apresentação ao Secretário de Estado das Forças Armadas, Max Lejeune, do equipamento destinado aos voluntários do Batalhão Francês da ONU no campo de Augours (Sarthe) antes da partida para a Coréia, setembro de 1950.
(Maurice Barthélémy/ ECPAD)

O batalhão é ativado em 1º de setembro, no campo militar de Auvours (perto de Le Mans) e apresentado ao seu comandante, o General-de-Divisão Monclar, um verdadeiro general de 3 estrelas mas comissionado como tenente-coronel para a missão. O segundo em comando é o Major Le Mire. O batalhão integra um estado-maior extra composto por observadores. Sua missão principal é coletar lições aprendidas em situações de combate e com base em dados que especialistas funcionais de várias armas e serviços estão coletando para eles. Eles também ajudam o batalhão (UN French Battalion, UNFB) em seu relacionamento com as unidades/autoridades americanas. O Tenente Bouttin disse: "Foi ótimo observar operações militares e equipamentos mais recentes em ação, ao vivo e no local. Outra coisa boa foi re-explorar a implementação de alguns princípios militares básicos e deduzir disso, não um corpo de doutrina simples, mas pelo menos um conjunto de lições preciosas para o futuro. Portanto, esse aspecto de nossa participação coloca o escopo de pesquisas técnicas sobre as várias fases de uma guerra moderna".

Patrulha francesa em zona inimiga na região de Kumhwa, no setor do "Triângulo de Ferro", 1952.
(Borreill François/ ECPAD)

Na opinião de Monclar, esse estado-maior de classificação dual advoga implicitamente a elevação do UNFB para o tamanho regimental ou mesmo para o tamanho de uma brigada, tal como fizeram os britânicos e os turcos. É isso que ele novamente tenta obter do Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas em seu retorno à França na primavera de 1951. A resposta severa do Chefe de Estado-Maior foi: "Com o que já estou pagando pelo seu batalhão, eu poderia sustentar três batalhões na Indochina". Ele está certo nesse ponto: a França está financiando todas as despesas militares na Coréia, exceto munição.

Notavelmente, os estados-maiores de observadores acima mencionados desempenharam um papel especial ao analisar todas as facetas do conflito coreano do início ao fim da missão. Eles produziram um trabalho fundamental sobre as estruturas e métodos de combate das forças americanas.

Problemas de prontidão de combate

O Batalhão Francês sendo rendido pelo Batalhão Kagnew etíope no vale de Sataeri, 1951-52.
(Collard Pierre/ ECPAD)

O primeiro UNFB empregado desembarca em Pusan em 29 de novembro de 1950, quando os chamados "Voluntários Chineses" começam a atacar passando pelo rio Yalu, na direção do paralelo 38. O "French Bat" é orientado para o Centro de Recebimento das Nações Unidas (United Nations Receipt Center*) instalado em Taegu, neste imenso complexo de tendas e armazéns como um labirinto. "Soldados franceses engenhosos gerenciam rapidamente a melhoria das condições de vida atualmente austeras com as peças de conforto necessárias que eles podem beliscar aleatoriamente". Camp Walker é o local em que todas as unidades devem ser equipadas e familiarizadas com uniformes, armas e outros itens militares padrão "US Army". Somente o lançador de foguetes anti-carro francês (LRAC 50), que é muito bom em perfurar couraças de T-34, escapa desse "clima de americanização".

*Nota: Onde todos os contingentes nacionais estavam sendo equipados e então treinados de acordo com os padrões americanos antes do seu engajamento.

Composto de voluntários de todos os lugares, o UNFB começa a se familiarizar com o terreno, enquanto as companhias buscam sua coesão em exercícios concretos de campanha: exercícios de manuseio de armamento, prática de tiro, marchas, construção de fortificações de campanha, etc. Seu "chefe" nunca alivia a espora em cima deles. Ele sabe muito sobre os méritos de um treinamento básico sólido e exercícios intensos.

Equipe francesa de canhão 57 sem recuo no setor de Kumhwa, início de 1952.
(Appay/ECPAD)

Para ser franco, administrar Camp Walker como um "centro de integração" provou-se tudo, menos uma tarefa fácil para as equipes americanas. "Atualmente, os níveis de qualificação variavam drasticamente de um contingente para outro. Algumas tropas precisavam apenas de um pouco mais de treinamento, enquanto outras dificilmente atendiam ao padrão mínimo exigido". No entanto, os franceses conseguiram demonstrar capacidades excepcionais de adaptação naquele campo. Normalmente, era onde eles aprendiam a operar os canhões sem recuo calibre 57 e 75, com os quais deveriam fazer "hell of good use", mais tarde. Quando o UNFB pôde finalmente chegar a Suwon, tornou-se uma "unidade adjunta" ao 23º Regimento de Infantaria da 2ª Divisão de Infantaria "Indianhead"*. Esse regimento mal se recuperava de um sério choque com os "Voluntários Chineses" no rio Chongchon: um terço dos seus efetivos foi perdido. Tendo incorporado uma companhia sul-coreana com o objetivo de atender aos padrões americanos, o batalhão francês se integra a este regimento, durante toda a campanha, como seu 4º batalhão.

Acampamento francês a nordeste de Hoengsong, Cota 1037, 5 de março de 1951.
(Paul Callet e Raymond Benard/ ECPAD)

*Nota: Comandada pelo Major General Robert Nicholas Young, a 2ª Divisão de Infantaria "Indianhead" (lema "Second to none") era composta de:
  • 9º Regimento de Infantaria (compreendendo um batalhão tailandês);
  • 23º Regimento de Infantaria (incluindo o batalhão francês);
  • 38º Regimento de Infantaria (incluindo o batalhão holandês);
  • 612º Batalhão de Destruidores de Tanques (Tank Destroyer);
  • 741º Batalhão Blindado (Carros de Combate);
  • 12º Batalhão de Artilharia de Campanha;
  • 15º Batalhão de Artilharia de Campanha;
  • 37º Batalhão de Artilharia de Campanha;
  • 38º Batalhão de Artilharia de Campanha;
  • 462º Batalhão de Artilharia de Defesa Anti-Aérea (ADA);
  • 2º Batalhão de Engenharia de Combate;
  • 2º Batalhão de Apoio Médico.
Enfermeiros franceses com um médico tailandês na Coréia.
(Foto de Rémond Schappacher, marcado na mesma)

Estes "Frenchies" indesejáveis

Embora pouco aclimatizado ao inverno, o UNFB suporta uma temperatura de -40ºC e se engaja, em 25 de dezembro, em uma guerra de movimento que vai continuar até o verão de 1951. O batismo de fogo ocorre o mais tardar em 10 de janeiro em Wonju. Lá, os franceses retomam a Colina 247 na ponta das suas baionetas e ganham o respeito de todos os outros aliados no seu primeiríssimo engajamento. Uma façanha que explode a desagradável imagem, datada de 1940, de "tropas francesas sendo desbaratadas" que anteriormente assombrava os coronéis americanos, sempre que o French Bat deveria ser engajado.

Primeira página do Stars and Stripes de 14 de janeiro de 1951.

Monclar se posiciona de forma direta sobre o assunto em questão ao Comandante do 8º Exército, General Ridgway: "Desde que recebam os meios apropriados, os soldados franceses são tão bons em combate quanto quaisquer outros no mundo". Mais adiante, ele suaviza "declarações exageradas" sobre o episódio de Wonju: "Algumas pessoas pensam que o mundo gira em torno deles e costumam se gabar muito do que fizeram, assim distorcendo fatos por interesse pessoal... Na Coréia, as cargas de baioneta ofuscaram todo o resto. Mesmo olhando para o fraseado de 1914, histórias contadas sobre essas cargas podem ter envergonhado os comandantes que as ordenaram... Estas soavam como se fogo deveria ser ateado em todos os livros... e todas as teorias deveriam ser questionadas".

Explosão de um obus de fósforo em Chipyong-ni, fevereiro de 1951.
(François de Castries/ ECPAD)

O UNFB realmente entra no "recorde mundial de fama" durante a Batalha de Chipyong-ni, de 3 a 13 de fevereiro de 1951. O batalhão é desdobrado no perímetro de defesa do 23º Regimento de Infantaria, organizado no setor principal do 10º Corpo. A intenção é ajudar a estabilizar a linha de frente. Durante 3 noites e 2 dias, o batalhão francês obtém sucesso em arruinar todos os esforços de rompimento de quatro divisões chinesas, privando assim o inimigo de forças de reforço aguardadas para atacar Seul.

Nesta ocasião, o coronel Paul Freeman pode demonstrar o que realmente significa liderança: dinamismo, controle e uso perfeitos de todos os ativos disponíveis, habilidade organizacional consumada e presença energizante exibida aos subordinados em ação diante dos agressores. Como a reserva de assalto do 23º Regimento de Infantaria americano, o batalhão também lança muitos contra-ataques. A interoperabilidade do UNFB com a força expedicionária americana é agora uma questão de fato em termos de capacidade de combate.


Francês e chinês feridos aguardam evacuação em Arrowhead, outubro de 1952.
(François Borreill/ ECPAD)

De agora em diante, os franceses se tornam "prisioneiros de sua glória". Sobre esse assunto, as realizações do UNFB obviamente contribuem para forjar confiança mútua entre os parceiros franceses e americanos. Em troca, os soldados de Monclar apreciam muito seus companheiros de combate americanos, "Esses caras são maravilhosos. Tudo é feito para instilar e energizar o sentimento corporativo. Os métodos utilizados são aqueles que formaram o patriotismo americano dentro de uma geração. A 2ª Divisão está afirmando que não há melhor divisão nos Estados Unidos. O 23º Regimento está afirmando que não há melhor regimento na divisão e, para ser franco, chegamos ao ponto de acreditar nisso também".

A boa reputação e a confiança foram persistentes durante a guerra, seja durante fases dinâmicas (Putchaetul, Imje, Crèvecoeur/Heartbreak Ridge) ou estáticas (Arrowhead, Punchbowl).

Duas bandeiras e armamentos chineses capturados pelos franceses em Arrowhead (Colina 281) em outubro de 1952.
(François Borreill/ ECPAD)

Qualificações acumuladas

Visão de T-Bone na Coréia, verão de 1952.
(Appay/ ECPAD)

Os franceses tiveram que assimilar muitos Manuais de Campanha do Exército dos EUA sobre procedimentos técnicos e táticos para fins de integração. E em combate, eles mantêm seu lugar e missão designados. O comandante insiste permanentemente nisso:

"Senhores, nunca esqueçam que estão servindo em um batalhão. Vocês elaborarão palestras da Escola Superior de Guerra, quando forem postados em um QG de estado-maior no nível de Corpo de Exército."

Prisioneiro chinês capturado pelos franceses em Putchaetul, 18 de maio de 1951.
(ECPAD)

Por outro lado, a sobre-qualificação para o trabalho pode ser útil às vezes e o Crèvecoeur é um bom exemplo disso. As baixas são tão importantes* que o Coronel Adams pede conselhos a Monclar como último recurso. O último argumenta por uma ampla manobra através das colinas, em vez de persistir em ataques frontais que continuam sendo infrutíferos após semanas de esforços. O General Young aceita o plano e ele de fato funciona.

*Nota: O total de baixas foi de 600 homens. O Batalhão Francês teve 60 mortos e 207 feridos.

Carro de combate americano da 2ª Divisão de Infantaria apoiando os franceses em Putchaetul, maio de 1951.
(Paul Callet e Raymond Benard/ ECPAD)

A afiliação de unidades também ajuda a atender à unidade de ação necessária: "As unidades blindadas, de artilharia, reconhecimento, médicas e de manutenção mantêm-se centralizadas no nível divisional. Em seguida, são distribuídos onde exigido a uma variedade de regimentos de infantaria. É assim que as Forças-Tarefas Regimentais são criadas. As mesmas unidades são sempre afiliadas à mesma FT. Em todos os momentos tínhamos a mesma bateria ou grupo de artilharia, a mesma companhia de tanques e pelotão blindado". Em tais condições, a camaradagem de armas e o entendimento ideal entre cada um podem se desenvolver, forjando assim o sucesso da ação, apesar da dissimilaridade das línguas.A principal alavanca de integração para operações em uma força multinacional, porém, reside em capacidades de entendimento mútuo. Para ser franco sobre esse assunto, o UNFB frequentemente registra diálogos bastante estranhos, sobre o conteúdo e a forma*, com os comandantes americanos ou fornecedores de apoio ao combate. Um "pecado" sobre o qual o Tenente Bouttin costumava brincar foi colocado nos seguintes termos: "Às vezes, o comandante do regimento nos enviava ordens que não entendíamos muito bem, mas sabíamos que o trabalho deveria ser feito de qualquer maneira".

*Nota: Felizmente, a situação melhorou quando o Major Michelet, graduado em 1949 na Escola de Comando e Estado-Maior (Command and General Staff College, CGSC) no Fort Leavenworth, foi transferido para o batalhão.

Cerimônia em torno dos caixões que serão embarcados para a França no "Skaugum", 5 de dezembro de 1952.
(François Borreill/ ECPAD)

As tumbas francesas de um cemitério das Nações Unidas na Coréia do Sul, verão de 1952.
(Appay/ ECPAD)

Embaixador das Forças Armadas da França para quinze outras nações, o UNFB cumprira todas as missões que lhe foram designadas na Coréia entre 1950 e 1953. Como tal, este batalhão desempenhara perfeitamente seu papel político ao longo deste compromisso precursor em prol da Comunidade Internacional. Essa foi uma exibição clara de um contingente francês que elaborou procedimentos e planos de operação não-nacionais. A interoperabilidade entre ativos e métodos parece, para todos, um pré-requisito em vez de pura praticidade, mas esse preceito não se aplica a corações e culturas. Todo mundo deve manter sua personalidade e traços inatos de caráter; também sobre as principais capacidades específicas à pátria natal. "Interoperabilidade? Sim! Alinhamento filosófico? Não!" Esta observação recente está de fato coincidindo com as opiniões de Harold Martin publicadas pelo Saturday Evening Post em 1952. O longo trecho abaixo é realmente digno de nota.

"Esses franceses estão trazendo para a Guerra da Coréia um toque especial que ninguém mais poderia exibir, uma inspiração e um vigor que somente os franceses podem inventar... Eles não parecem se entediar nem se queixam do seu destino afinal de contas é a guerra. Eles vão à guerra de bom grado, tirando o melhor partido de uma situação ruim. Eles se divertem em desafiar nossos métodos às vezes. Eles vão dirigindo como o inferno por estradas geladas, digamos, do lado certo ou do lado errado da estrada. Mas eles também sabem escalar ladeiras íngremes com suas metralhadoras nas costas. Eles não apenas enviam uma patrulha no topo da colina; eles arrastam todo o batalhão até lá em cima... Eles são melhores do que nós em cavar tocas (foxholes) confortáveis onde ficariam, esperando à vontade, armas limpas, granadas dispostas ordenadamente em uma prancha, prontos para o combate. Como diz o comandante da 23ª Equipe de Combate Regimental (23rd Regimental Combat Team, 23rd RCT) diz: "Quando você os ordena na defesa, tem certeza de que eles manterão a posição. Quando você mostra a eles uma colina a ser tomada, você tem certeza de que eles conseguirão chegar ao topo. Você pode sair por dois dias, tempestades de granadas de artilharia e ondas de inimigos podem enxamear sobre eles, os franceses ainda estão lá!" Eles têm uma aparência estranha, com suas barbas flutuando ao vento. Eles saem correndo de rocha em rocha como se estivessem em uma competição. Eles realmente vieram para cá para combater esta guerra completamente e, embora gostem de cutucar um pouco as nossas regras e hábitos, rapidamente chegamos a apreciá-los como os melhores companheiros de combate que poderíamos desejar do nosso lado".

Epílogo

O retorno triunfal de Monclar na Gare de Lyon, na noite de 23-24 fevereiro de 1952.
(André Branlard/ ECPAD)

O segredo para integrar mil soldados franceses a um regimento americano provavelmente reside em sua perícia funcional bem construída e na percepção correta dos procedimentos de combate, juntamente com esse apêndice de estilo próprio que faz grandes tropas.

Em 9 de outubro de 1953, a UNFB despediu-se da 2ª Divisão de Infantaria dos EUA e acabou se tornando uma lenda com seu comandante. O mesmo acontece com os 12 oficiais, 43 sargentos e 208 soldados mortos na Coréia; juntamente com 7 combatentes "desaparecidos em ação" e 1.800 outros feridos.


Referências

- Tenente Jacques Bouttin, Bataillon Monclar, Paris, éditions du Scorpion, 1961, 191 páginas.
- Édme de Vollerons, Le général Monclar, un condottière du XXe siècle, Paris, Economica, 2000, 178 páginas.
- A.L. Hinshaw, Heartbreak Ridge: Korea 1951, New York, Praeger, 1989, 146 páginas.
- General de Giuli, La place et le rôle des forces terrestres dans la résolution des crises, CDES, Fórum de 8 de junho de 2000.
- Relatório do Tenente-Coronel Monclar sobre a Guerra da Coréia, Service Historique de la Défense (SHD), 7U297.

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