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quarta-feira, 9 de março de 2022

Armamento pesado do Vietcongue

Uma metralhadora leve ZB vz. 26 de fabricação tcheca (7,92x57mm) em uma posição antiaérea vietcongue.
Muitas foram fornecidos a partir de estoques chineses.
(Imagem: acervo do autor)

Por Tom Laemlein, The Armory Life16 de novembro de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 9 de março de 2022.

Os vietcongues (Viet Cong, VC) eram muitas coisas: um grupo político comunista e uma frente revolucionária, um grupo terrorista e o exército de uma guerra de guerrilha. Em última análise, em operações de combate, os vietcongues eram uma força de infantaria leve.

Eles foram projetados para se mover rapidamente e com grande discrição, emergindo das montanhas e selvas para emboscar seus oponentes sul-vietnamitas. Eles foram equipados com uma variedade de armas portáteis. Além disso, o VC tornou-se bastante hábil em usar armadilhas contra seus oponentes. No início da década de 1960, o VC foi muito bem-sucedido, empurrando as forças do governo sul-vietnamita para trás e confinando-as a um punhado de áreas urbanas e bases isoladas.

Um resquício colonial francês: uma metralhadora Reibel MAC mle 31 capturada dos vietcongues na Península de Ca Mau durante 1964.
(Imagem: coleção do autor)

Durante 1964, os vietcongues aumentaram constantemente seus números para mais de 100.000 homens em campanha, e seus sucessos no campo de batalha continuaram. Naquela época, havia apenas 23.000 militares americanos no Vietnã. Durante 1965, esse número cresceria para mais de 184.000, e os americanos se juntariam a mais de 20.000 soldados da Coréia do Sul.

Na frente está uma RP-46 soviético alimentado por cinto (ou Tipo 58 chinês), enquanto as metralhadoras leves RPD ocupam o fundo.
Elas foram capturadas pelas forças americanas em Nui Dat. (Imagem: NARA)

A situação de combate mudou drasticamente para o VC durante 1965, pois seus oponentes se tornaram muito mais agressivos e equipados com o que há de mais moderno em armamento.

Uma metralhadora chinesa Tipo 53 calibrada em 7,62x54mmR.
Ela foi capturada e exibida pelo USMC em março de 1966. (Imagem: NARA)

O think tank da RAND Corporation entrevistou centenas de prisioneiros vietcongues entre 1964 e 1969. Suas descobertas revelaram a crescente necessidade do VC por armas mais pesadas, particularmente para combater o poder aéreo americano e veículos blindados.

"Entrevistados expostos a ataques de bombardeiros e helicópteros mencionaram que tinham medo de helicópteros armados, embora tenham dito que essas máquinas eram altamente vulneráveis ao fogo de solo. Dizia-se que seu ataque era muito eficaz, muitas vezes mais eficaz do que o de caças-bombardeiros, porque eles podem se aproximar de seu alvo, pairar e disparar verticalmente em trincheiras e tocas vietcongues. Os foguetes de helicóptero, por outro lado, eram considerados pouco eficazes."

Ajustando-se para lutar contra os EUA

Uma entrada de outubro de 1968 de um diário VC capturado declarou:

"A luta contra os americanos hoje em dia é muito diferente da luta contra os franceses... as durezas e dificuldades da atual guerra anti-EUA são muito maiores, e a ferocidade muito mais selvagem. Nossas tropas não tiveram que dormir em trincheiras subterrâneas na luta anti-francesa e os franceses não possuíam meios de matança tão bárbaros quanto os B52 dos EUA."

Esses soldados examinam um RPG-7 danificado que foi capturado do VC durante a Ofensiva do Tet em fevereiro de 1968. (Imagem: NARA)

À medida que os Estados Unidos despejavam mais recursos militares no Vietnã, o poder da tecnologia militar americana começou a afetar os vietcongues. Os bombardeios da USAF e os helicópteros de combate do Exército dos EUA começaram a interromper as linhas de suprimento do VC e metralharam as concentrações de tropas VC. No solo, unidades blindadas do Exército e do Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA intimidaram o VC com tanques de batalha principais M48 e os novos veículos blindados M113. Embora houvesse oportunidades limitadas para operações blindadas no Vietnã, quando tanques e APCs foram empregados, eles tiveram um efeito dramático sobre os vietcongues. Um relatório RAND de 1965 revelou:

Blindados, particularmente o M113, foi citada por muitos entrevistados como tendo uma grande influência no resultado do combate e nas perdas sofridas pelas unidades vietcongues, especialmente aquelas não equipadas com armas anti-blindados. Vários casos foram citados em que unidades vietcongues entraram em pânico e sofreram pesadas perdas quando atacadas por tanques ou M113. As entrevistas relatam, no entanto, um aumento constante na disponibilidade de armas antitanque de origem chinesa.

O RPG-2 deu aos vietcongues uma potente arma antitanque. A munição HEAT do RPG-2 pode penetrar até 18cm de blindagem. (Imagem: NARA)

A nova arma antitanque foi o RPG-2 projetado pelos soviéticos (e sua variante chinesa, o B40). Este era um simples lançador de granadas propelido por foguete, disparando uma munição de 82mm carga oca (Alto Poder Explosivo Anti-Tanque / High Explosive Anti-Tank, HEAT) que poderia penetrar até sete polegadas de placa de blindagem. O RPG-2 era leve (4,67kg carregado) e deu ao VC alguma capacidade de resistência contra os blindados americanos, com um alcance efetivo de cerca de 150 metros. Foi particularmente eficaz contra a blindagem de liga de alumínio (máximo de 44mm) no veículo blindado M113.

O RPG-7, mais potente, disparou uma ampla gama de munições, incluindo uma alta carga explosiva. Este exemplar foi capturado do VC em julho de 1967. (Imagem: NARA)

Em 1968, o VC começou a receber o RPG-7, muito melhorado, dobrando o alcance efetivo e quase triplicando a penetração da blindagem. Mais importante para o VC, o RPG-7 oferecia uma munição alto explosiva/fragmentação, dando-lhes artilharia portátil eficaz.

O Helicóptero

"Os VC da força principal e, em menor grau, a infantaria VC da força local são treinadas para empregar suas armas contra aeronaves aliadas, particularmente helicópteros. A qualidade da formação é boa e tudo indica que está a melhorar. Metralhadoras e fuzis automáticos são enfatizados, mas também são dadas instruções sobre o uso de fuzis, RPG… na função antiaérea. O NVA/VC enfatiza que qualquer arma pode abater uma aeronave se devidamente empregada."
Relatório de lições aprendidas do Exército dos EUA de 1969.

Matador de Helicópteros: o lado letal de uma metralhadora pesada DShK de 12,7mm, capturada dos vietcongues em março de 1966. (Imagem: NARA)

Durante as décadas de 1950 e 1960, os militares americanos ficaram um pouco preocupados com as tecnologias "mais altas e mais rápidas" da era nuclear e da corrida espacial. Mas a guerra no Sudeste Asiático estava enraizada na mecânica prática mortal de uma guerra de infantaria. Havia pouco que os vietcongues pudessem fazer para combater os jatos americanos que voavam alto, então eles aprenderam maneiras de evitar a observação aérea americana. Os helicópteros americanos, no entanto, eram uma história bem diferente e representavam uma ameaça séria e imediata.

Um metralhadora chinesa Tipo 53 capturada e exibida com uma mira AAe. A SG-43/Tipo 53 deu ao VC uma arma mais poderosa para usar contra helicópteros americanos. (Imagem: NARA)

O VC descobriu que muitas de suas armas de infantaria poderiam ser usadas contra helicópteros a curta distância. Na falta de artilharia antiaérea dedicada, eles adotaram uma tática soviética da Segunda Guerra Mundial de tiro de voleio com armas portáteis de infantaria em aeronaves de ataque voando baixo. À medida que mais fuzis SKS e AK-47 se tornaram disponíveis para os vietcongues, essa tática se tornou mais eficaz.

Armas novas e mais pesadas começaram a chegar às mãos dos vietcongues em 1966. Uma metralhadora particularmente eficaz foi a metralhadora pesada DShK 12,7mm (12,7x108mm). Esta é uma arma projetada pelos soviéticos, pesando quase 34kg apenas para a arma. Não é igual à metralhadora americana Browning M2 .50 (e a munição não é intercambiável), mas mesmo assim, a DShK foi um divisor de águas ao ajudar o VC a defender posições importantes de ataques de helicópteros americanos. Disparando a 600 tiros por minuto, com um alcance efetivo de 2.000 jardas, a DShK (ou Tipo 54 chinesa) foi responsável por derrubar muitos helicópteros dos EUA e ARVN durante a guerra.

A metralhadora pesada DShK de 12,7x108mm deu às unidades vietcongues uma arma eficaz contra helicópteros americanos. (Imagem: NARA)

Um relatório do Exército dos EUA de 1969 observou a crescente eficácia das defesas antiaéreas vietcongues: “A organização do NVA/VC de defesa aérea passiva e ativa, treinamento com equipamentos e táticas são eficazes. Todas as indicações são de que eles estão melhorando.”

Metralhadoras de GC

Os vietcongues aceitaram alegremente quaisquer metralhadoras leves ou fuzis-metralhadores em seu arsenal. Sua combinação de peso leve e alto poder de fogo foi a combinação certa para as táticas de ataque e fuga do VC. As primeiras armas automáticas de grupo de combate disponíveis para o VC pareciam mais peças de um museu de história militar. Apesar da idade de algumas dessas armas e dos problemas logísticos que apresentavam, o VC mostrou que ainda eram bastante mortais em um campo de batalha moderno.

A descoberta de um grande esconderijo de armas VC rendeu MG34 alemãs, FM 24/29 francesas e pelo menos uma metralhadora M60 americana. (Imagem: acervo do autor)

MG34 alemã: Várias centenas de MG34 foram fornecidos aos vietcongues de estoques comunistas chineses, bem como através da União Soviética, que forneceu MG34 capturadas dos alemães na Segunda Guerra Mundial, bem como armas fabricadas na Tchecoslováquia no período imediato do pós-guerra. A MG34 (7,92x57mm) era uma arma muito bem feita, oferecendo uma alta cadência de tiro (900 tpm). Estes eram frequentemente alimentados por uma cinta ligada de 250 tiros, ou com o conjunto de cintas de 50 tiros semelhante a um tambor.

Milhares de metralhadoras como esta MG34 alemã foram capturadas pelos soviéticos durante a Segunda Guerra Mundial e depois fornecidas às nações satélites comunistas. (Imagem: acervo do autor)

FM 24/29 francês: O FM 24/29 foi um resquício da guerra vietnamita com os franceses. Muitos foram capturados das forças coloniais francesas e continuaram em serviço do Viet Minh ao Viet Cong. Calibrado no 7,5x54mm francês, o FM 24/29 foi alimentado por um carregador de cofre montado na parte superior de 25 tiros. Uma arma manuseável (apenas 9,1kg) para as tropas vietnamitas de porte ligeiro, o FM 24/29 serviu no Sudeste Asiático do final da década de 1940 até o final da década de 1970.

Uma metralhadora leve francesa FM 24/29 capturada das forças VC durante 1966. Muitos desses fuzis-metralhadores foram capturados dos franceses durante a primeira Guerra da Indochina. (Imagem: NARA)

Vz. ZB26 tcheca: A vz. 26 foi um projeto de metralhadora leve seminal de meados da década de 1920, levando os britânicos a desenvolver a metralhadora Bren. Os tchecos também tiveram muito sucesso na venda da vz. 26 (calibrada em 7,92x57mm) no mercado internacional, principalmente na China. Mesmo depois de um longo serviço com os chineses, muitas vz. 26 foram fornecidas aos norte-vietnamitas, e uma boa quantidade dessas excelentes metralhadoras leves (9,5kg) foi passada para os vietcongues.

DP soviética: Os vietcongues receberam quantidades de todas as variantes das metralhadoras DP soviéticas, desde a DP-27 inicial (com um carregador de frigideira de 47 tiros) até a RP-46 alimentada por cinta, todos calibrados em 7,62x54mmR.

Um soldado australiano exibe uma metralhadora leve RPD capturada do VC durante 1968. (Imagem: NARA)

À medida que a União Soviética e a China comunista começaram a fornecer mais armas para o NVA e aos vietcongues, metralhadoras comunistas mais recentes começaram a aparecer em unidades de combate VC.

Metralhadora média SG-43/SGM Goryunov: A SG-43 era um projeto intermediário que alavancava um cano refrigerado a ar particularmente denso. Calibrada em 7,62x54mmR, a SG-43 (13,8kg) era normalmente conectada a um suporte com rodas (41kg). Embora fosse uma arma confiável, o grande peso restringia muito as operações ofensivas do VC.

Um fuzil-metralhador RPD de fabricação soviética ou Tipo 56 chinês calibrado em 7,62x39mm. O RPD era a metralhadora leve padrão dos vietcongues em 1968. (Imagem: coleção do autor)

O RPD (ou Tipo 56 chinês): Como o RPD foi substituído no serviço soviético no início dos anos 1960, essas armas foram passadas para várias nações satélites comunistas. Calibrado em 7,62x39mm e alimentado por uma cinta segmentada de 100 tiros contidos em um tambor, o RPD tornou-se a metralhadora de GC padrão dos vietcongues em 1968. Fornecia uma base de fogo estável com uma cadência cíclica econômica de 650 tiros por minuto.

Foguetes do VC

À medida que a presença militar americana continuou a crescer no Vietnã do Sul, as bases americanas (particularmente as bases aéreas) tornaram-se alvos altamente lucrativos para ataques vietcongues. Esses ataques foram originalmente executados com morteiros pesados (81 e 82mm), e os morteiros mais móveis de 60mm. Com o passar do tempo, o VC começou a empregar um número maior de canhões sem recuo de 57mm e 75mm e, embora essas armas fossem mais precisas, sua assinatura de disparo muitas vezes trazia uma retribuição rápida e mortal. O avanço final em armas pesadas ofensivas do VC foi representado em um grupo de foguetes de artilharia não-guiados.

O foguete M-14 140mm de fabricação soviética era uma arma de fragmentação altamente explosiva contendo 3,6kg de TNT. Era uma arma simples. (Imagem: NARA)

Os foguetes tornaram-se uma arma simples e facilmente transportável para os vietcongues. Eles estavam disponíveis em três tamanhos: 107mm, 122mm e 140mm, e podiam ser disparados de lançadores de tubos simples ou até mesmo montes de terra. Para combater a observação aérea americana da assinatura de lançamento dos foguetes, as tropas de foguetes VC mantiveram a disciplina de disparar não mais do que cinco tiros de qualquer lançador de tripé/tubo, ou duas salvas das rampas de terra antes de desmontarem seus equipamentos e desaparecerem no selva.

Leitura recomendada:

Viet Cong Fighter.
Gordon L. Rottman e Howard Gerrard.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

FOTO: Tigre Negro Sargento-Chefe Tran Dinh Vy

Sargento-chefe Tran Dinh Vy com a boina preta dos Tigres Negros e medalhas, incluindo a Cruz de Guerra com palma, 1950.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 3 de fevereiro de 2022.

O sargento-chefe Tran Dinh Vy foi o assistente do famoso Ajudante-chefe Roger Vandenberghe, comandante do lendário Comando 24 que operou no Tonquim, conhecidos como Tigres Noirs.

Os Tigres Negros pertenciam aos Comandos do Vietnã do Norte. Inicialmente 8 comandos, o número se expandiu para 45 comandos organizados no Vietnã do Norte para travarem a guerra usando os métodos dos guerrilheiros. Assim como os demais comandos, o Comando 24 era uma formação especializada em táticas de pequenas unidades e pseudo-operações, se vestindo com o típico pijama negro usado pelo Viet Minh (VM) e os seus capacetes tropicais, com o objetivo de operarem profundamente atrás das áreas dominadas pelo VM.

A insígnia da boina tem um tigre, o animal apex da selva vietnamita, e o lema:

“Tha Chet Hon La Chiu Nhuc”

(Plutôt la mort que la honte)

(Antes a morte que a desonra)

Insígnia da boina dos tigres negros.

Em uma ocasião, Vandenbergh posou como um prisioneiro francês capturado por seus comandos posando de Viet Minh e a unidade atacou e destruiu um posto de comando (PC) do VM após um deslocamento de quilômetros por território controlado pelos comunistas. Outra das ações célebres foi a infiltração em Ninh-Binh para resgatar o corpo do Tenente Bernard de Lattre, filho do General Jean de Lattre de Tassigny, o comandante-em-chefe de todas as forças francesas na Indochina.

Vandenberghe foi morto em 1952, assassinado pelo Subtenente Nguien Tinh Khoï; o ex-comandante da unidade de assalto do Regimento 36 da Brigada 308 do VM, capturado na Batalha do Rio Day em 1951 e transformado em auxiliar do Comando 24.

O Sargento-chefe Tran Dinh Vy fez o curso de comando paraquedista em Pau, na França, em 1954. Mais tarde, foi oficial do Exército Sul-Vietnamita (ARVN) e depois da queda de Saigon em 1975, ele conseguiu escapar para a França, se alistando na Legião Estrangeira e terminando o seu serviço com a patente de coronel. Ele continuou sendo o guardião da memória do Comando 24.

Suas condecorações incluíram:
  • a Légion d'honneur (Legião de Honra),
  • a Médaille militaire
  • 20 citações francesas, americanas e vietnamitas.

O Sargento-chefe Tran Dinh Vy ao lado do Ajudante-chefe Vandenbergh com seus comandos Tigres Negros, vestidos com pijama negro e capacete tropical do Viet Minh, 1950.

Bibliografia recomendada:

Commandos Nord-Vietnam 1951-1954.
Jean-Pierre Pissardy.


Leitura recomendada:

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

PERFIL: General Caillaud, o Soldado do Incomum

Por Laurent Lagneau, Zone Militaire OPEX360, 26 de julho de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 7 de outubro de 2021.

“Soldado do Incomum”, o General Robert Caillaud deu seu nome à 207ª turma da ESM Saint-Cyr.

Quer seja para cadetes oficiais como para cadetes suboficiais, o baptismo de promoção é sempre um momento especial, pois constitui um forte sinal de identidade e pertencimento.

Além disso, a escolha do “patrocinador” é decisiva. E aconteceu que foi passível de cautela, pois em novembro de 2018, quando o Chefe do Estado-Maior do Exército, que era o General Jean-Pierre Bosser, decidiu “rebatizar” a promoção “General Loustanau-Lacau” da Escola Militar Especial (École spéciale militaireESM), por causa das simpatias políticas que manifestou na década de 1930.

Durante o Triunfo 2021 da Academia Militar de Saint-Cyr Coëtquidan, organizado no dia 24 de julho, a 60ª promoção da Escola Militar de Armas Combinadas (École militaire interarmesEMIA) deu-se como padrinho o General Jean-Baptiste Eblé, que se destacou durante as guerras da Revolução e do 1º Império.

Já a 207ª turma da ESM fez uma escolha mais contemporânea, com o General Robert Caillaud. E tendo em vista o registro de serviço deste último, questiona-se por que seu nome não foi escolhido anteriormente...

Saint-cyrien da promoção Charles de Foucauld (1941-42), e quando ele tinha acabado de obter sua "ficelle" como segundo-tenente, Robert Caillaud retornou à sua Auvergne natal e se juntou à Resistência. Assim, dentro de seus maquis, participou das lutas pela Libertação, inclusive da ponte Decize, que culminou com a rendição da coluna do General Botho Elster.

A “Divisão Auvergne” estando integrada no 1º Exército do General de Lattre de Tassigny, o jovem oficial participou nas campanhas da Alsácia e da Alemanha, durante as quais, segundo a Federação das Sociedades de Veteranos da Legião Estrangeira (Fédération des sociétés d’anciens de la Légion étrangèreFSALE) , ele mostrou um "gosto definitivo por soluções originais" que marcariam o resto de sua carreira. Um deles terá sido formar uma seção de reconhecimento em profundidade com Jipes.

A Legião Estrangeira precisamente... Promovido a tenente no final da guerra e contando três citações em sua Croix de Guerre, Robert Caillaud decidiu ingressar em suas fileiras. Depois de um curto período em Sidi Bel Abbès, na Argélia, foi designado para o 2º Regimento Estrangeiro de Infantaria (2e Régiment Étranger d’Infanterie, 2e REI), com o qual desembarcou em Saigon. Durante dois anos, distinguir-se-á pelas qualidades militares mas também pela capacidade de pensar fora da caixa, criando, por exemplo, um pelotão a cavalo. Isso fará com que ele ganhe mais quatro citações e a Legião de Honra, aos 27 anos.

Retornando à Argélia em 1948, o oficial recebeu a missão de formar a 1ª companhia do 2 ° Batalhão Estrangeiro de Paraquedistas (2e Bataillon Étranger de Parachutistes, 2e BEP). Em seguida, ele voltou para a Indochina com sua nova unidade em fevereiro do ano seguinte. Em dezembro de 1949, à frente da 1ª companhia, saltou, à noite e em condições difíceis, sobre a guarnição de Tra Vinh, então cercada por três regimentos Viet-Minh. Ao custo de três mortos entre os legionários, o ataque inimigo será repelido.

Durante esta segunda estadia na Indochina, o Capitão Caillaud foi ferido duas vezes. Em 1954, e depois de ter comandado o 3e BEP, regressou ao Extremo Oriente. Lá, ele se ofereceu para fazer parte da equipe do grupo aerotransportado do Coronel Langlais em Dien Bien Phu. Ao lado do Comandante Marcel Bigeard, ele organizou os contra-ataques. O resto é conhecido: o campo entrincheirado francês acaba caindo. Então começou um longo período de cativeiro nos campos do Viet-Minh. “Sua conduta no cativeiro no Campo nº 1 será exemplar, marcada por seu apoio aos mais fracos e sua recusa em se comprometer com o adversário”, disse Jean-Pierre Simon, seu biógrafo.

Le Général Caillaud: Soldat de l'insolite.
Jean-Pierre Simon.

Depois de libertado, o oficial foi designado para o 2e REP, tendo participado em inúmeras operações na Argélia. Ele ganha três novas citações. Retirado dos eventos de Argel (golpe dos generais em abril de 1961) devido ao seu destacamento para o estado-maior das Tropas Aerotransportadas (Troupes Aéroportées, TAP), foi nomeado oficial de ligação e instrutor paraquedista na Alemanha.

Depois, em maio de 1963, promovido a tenente-coronel, passou a comandante do 2e REP, então instalado em Bou-Sfer, a fim de garantir a segurança da base de Mers-el-Kébir. Começou então a “Revolução Caillaud”, que vai dar a cara que esta unidade tem hoje. “Ele é o principal ator na corrida pela inovação do regimento e pela especialização das seções que permite às companhias cumprirem de imediato as mais diversas missões”, escreve a FSALE.

“Nunca, talvez, Robert Caillaud tenha sentido a que ponto semeou tão abundantemente. Nunca, sem dúvida, ele foi capaz de testar, inventar, criar, exigir e receber tanto desta valiosa tropa, que soube fazer vibrar. Sempre carregou consigo esta pedra que queria cortar e esculpir à medida do que era, pedra angular de toda uma vida, obra magistral que deixamos em vestígios indeléveis”, abunda Jean-Pierre Simon.

Depois de uma (breve) passagem no estado-maior das Forças Aliadas na Europa Central e, em seguida, no Gabinete de Tropas Aerotransportadas e Anfíbias do Departamento Técnico de Armas, o Coronel Caillaud assumiu o comando da Escola de Tropas Aerotransportadas (ETAP) em 1972. Lá, ele passou seu brevê de salto operacional de alta altitude. Ele tinha então 52 anos (o que o tornará o mais velho dos saltadores operacionais). Promovido a general três anos depois, assumiu as rédeas da 1ª Brigada de Paraquedistas (1ere Brigade parachutiste, 1ere BP), antes de encerrar a carreira militar no estado-maior da 11ª Divisão Paraquedista (11e Division Parachutiste, 11e DP) em 1978.

O General Caillaud faleceu em 1995. Foi Grande Oficial da Legião de Honra, titular da Croix de Guerre 1939-1945 com três citações, da Croix de Guerre des T.O.E. com oito citações incluindo três na ordem do exército, a Cruz Militar do Valor com três citações incluindo duas para a ordem do exército.

domingo, 12 de setembro de 2021

FOTO: O Comando Lassere na Indochina

Demonstração do Comando Lasserre em Ha Dong, em Hanói, fevereiro de 1954.
Em primeiro plano, o Adjudant Laserre, o comandante da unidade.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 12 de setembro de 2021.

O Comando Lasserre, com cerca de uma centena de homens, era especialista na procura de informação (a qual explorava diretamente), na detecção e procura de caches e túneis. Recrutados entre os soldados ou apoiadores do Viet-Minh capturados, os membros do comando eram agrupados em células especializadas de 4 ou 5 homens: choque, sapador-desminador, propagandista, equipe canina etc.

A demonstração ocorreu no distrito de Ha Dong, na capital Hanói, em fevereiro de 1954. A reportagem foi fotografada por Camus Daniel, com o exercício de demonstração ocorrendo na presença de autoridades civis e militares - o Presidente Pleven, Monsieur de Chevigne, General Cogny e Coronel de Clerk - durante uma viagem de inspeção.

Como parte da demonstração, um membro da unidade desce para inspecionar um cache (esconderijos de armamento e víveres) que acaba de ser detectado. Soldados Viet-Minh (comandos atuando como FINGIM) são extraídos do subsolo e se rendem. A reportagem termina com um retrato do Adjudant Lasserre, o comandante do comando que leva seu nome.

O soldado de costas na primeira foto está armado com uma submetralhadora MAT 49, e muniu-se do cinto com uma baioneta Karabiner 98K alemã (Kurtz), granadas ofensivas OF 37 e granadas defensivas DF 37 (presas em porta-granadas de couro, de fabricação local) e dois porta-carregadores britânicas.

Armas do cache "Viet-Minh" (um morteiro japonês e um fuzil-metralhador 24/29) que um soldado desce até o fundo para inspecionar. Armado com uma submetralhadora M3 "Grease Gun" (de uso raro na Indochina), um comando tomou posição para cobrir seus companheiros.

Modo de Operação:

Quando o comando obtém inteligência sobre uma aldeia, explora-a em uma operação, entrando no assentamento seguindo as unidades do setor que a apreenderam. Metodicamente, a aldeia é revistada por equipes de cães e o solo cuidadosamente sondado com agulhas de aço. Uma vez localizados, os esconderijos são cuidadosamente inspecionados e esvaziados de armas, munições, drogas ou material de propaganda que contêm. Da mesma forma, os túneis são explorados e toda a resistência inimiga neutralizada pelo uso de fumaça, gás lacrimogêneo ou cargas explosivas.

Os comandos vasculham cuidadosamente o terreno e então, tendo detectado a entrada camuflada de um cache, um dispositivo é montado: uma equipe se posiciona em cobertura, outra inspeciona cuidadosamente a abertura que leva ao cache para detectar toda peça de armadilha, depois um comando entra furtivamente e entrega aos seus camaradas na superfície as armas apreendidas no subsolo.

Ajudante Lasserre, comandante do comando que leva seu nome, durante demonstração realizada por sua unidade. Ele usa o boné específico para seu comando e usa no cinto uma adaga britânica "Fairbairn Sykes", colocada em uma bainha americana M8 (originalmente destinada para a adaga M3), bem como uma pistola alemã Luger P08 (Pistole 08) calibre 9mm, no quadril esquerdo.

Bibliografia recomendada:

Street Without Joy:
The French Debacle in Indochina.
Bernard B. Fall.

Leitura recomendada:

O que um romance de 1963 nos diz sobre o Exército Francês, Comando da Missão, e o romance da Guerra da Indochina12 de janeiro de 2020.

PERFIL: O filho do general, 27 de julho de 2021.

VÍDEO: Lugers da ocupação francesa em 1945, 7 de abril de 2021.

GALERIA: Operação Brochet no Tonquim3 de outubro de 2020.

GALERIA: Atividades cotidianas do 6e BPC nos postos de Pak-Hou e de Muong-Sai, 4 de fevereiro de 2021.

GALERIA: Construção de um posto no Camboja16 de outubro de 2020.

GALERIA: Atividades militares dos Cuirassiers na Planície dos Jarros, 20 de agosto de 2021.

GALERIA: Com os Tirailleurs Marroquinos na Operação Aspic na região de Phu My14 de outubro de 2020.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

FOTO: Armadilha Punji na Indochina

Um soldado francês mostra o as estacas Punji, armadilha vietnamita feita de bambu partido, sobre as quais um de seus colegas soldados foi vítima durante uma patrulha em dezembro de 1953.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 7 de setembro de 2021.

Durante a Guerra da Indochina, o Viet-Minh lançou mão desde armadilhas arcaicas - como as estacas punji - até armadilhas mais sofisticadas, envolvendo explosivos. Os Viet-Minh até mesmo improvisaram armas de fogo em oficinas subterrâneas. Era comum que as estacas punji fossem revestidas com fezes humanas para infeccionarem os pés da vítima, que teria de ser evacuada por meio de marchas longas e árduas pela selva até atingir qualquer tipo de transporte (caminhão, navio ou avião) que o levasse para um hospital.

O General Giap descreveu o Exército Francês como um poderoso tigre que seria sangrado lentamente por incontáveis mosquitos sugando seu sangue, até que o grande tigre caísse de exaustão.

Pistola improvisada e capacete Viet-Minh no Museu da Legião Estrangeira em Aubagne, França.
(Foto do Autor)

Estacas punji preservadas no Museu da Legião Estrangeira em Aubagne, França.
(Foto do Autor)

Bibliografia recomendada:

Street Without Joy:
The French Debacle in Indochina.
Bernard B. Fall.

Leitura recomendada:

terça-feira, 27 de julho de 2021

PERFIL: O filho do general

General de Lattre condecorando o Tenente de Lattre, seu filho, com a Croix de Guerre no dia 11 de maio de 1951, por suas ações na Batalha de Dien Mai, na Indochina. O Tenente de Lattre morreria na Batalha do Rio Day apenas 19 dias depois dessa foto.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 27 de julho de 2021.

Bernard de Lattre de Tassigny (11 de fevereiro de 1928 - 30 de maio de 1951) foi um oficial do exército francês que lutou na Segunda Guerra Mundial e na Guerra da Indochina, recebendo várias medalhas durante sua carreira militar, incluindo a Médaille Militaire e a Croix de Guerre 1939-45 e dos Teatros Exteriores. Ele foi morto em ação aos 23 anos, lutando perto de Ninh Binh. Na época de sua morte, seu pai, o General Jean de Lattre de Tassigny, era o comandante geral das forças da União Francesa na Indochina.

Ainda com apenas 16 anos, Bernard recebeu permissão especial do General Charles de Gaulle para se juntar ao exército que estava sendo montado para invadir a França e, posteriormente, lutou na libertação do sul da França após a Operação Dragoon e também na Alemanha. Ele foi gravemente ferido em 8 de setembro de 1944, em Autun, retornando mais tarde para lutar novamente na Alemanha. Foi por suas ações nessas campanhas que ele recebeu a sua primeira Croix de Guerra e a Médaille Militaire - o mais jovem a receber essa medalha.

O jovem Cabo Bernard com seu pai, o General d'Armée Jean de Lattre de Tassigny, em 1945.
Bernard usa o distintivo do 2º Regimento de Dragões no peito.

O Pós-Guerra e a Indochina

Bernard entrou na Escola Militar Interarmas em 1º de agosto de 1945 (promoção "Victoire" - Vitória), escolhendo a arma blindada e de cavalaria (arme blindée et cavalerie, ABC). Em 26 de novembro de 1945, ele era um aspirante. Estagiário na Escola de Cavalaria de Saumur, foi nomeado segundo tenente em 26 de novembro de 1946. Depois foi designado para o 4º Regimento de Couraçados, em Mourmelon-le-Grand. Foi promovido a tenente em 26 de novembro de 1947.

Ele deixou a metrópole para a Indochina em 1º de julho de 1949. Chefe de um pelotão blindado do 1º regimento de caçadores, era comandante do posto de Yen My, que controlava quinze vilarejos e uma população de cerca de 20.000 habitantes. Ele foi citado pela ordem da brigada em 21 de abril de 1950.

Em 6 de dezembro de 1950 o seu pai, o General de Lattre, tornou-se Alto Comissário, Comandante-em-Chefe na Indochina e Comandante-em-Chefe da Força Expedicionária Francesa no Extremo Oriente. Bernard de Lattre assumiu o comando de um esquadrão formado em grande parte por voluntários vietnamitas em 1º de março de 1951.

Após os combates em Maï Dien, ele foi citado na ordem do corpo de exército em 11 de maio e recebeu sua segunda Croix de Guerre das mãos do pai em 11 de maio de 1951.


Ele foi morto em ação 19 dias depois, perto de Ninh Binh, durante a Batalha do Rio Day. Ele morrera obedecendo às ordens de seu pai de manter a cidade a todo custo, enfrentando três divisões regulares do Viet Minh; essa batalha travada teimosamente é creditada com a interrupção do avanço do Viet Minh na ofensiva do General Giap no Delta do Rio Vermelho. A ofensiva, que visava tomar Hanói, duraria ainda três semanas até perder força e ser repelida completamente. A citação das ações de Bernard na batalha concluiu:

"Ele caiu heroicamente, dando um exemplo das melhores virtudes militares".

Após a morte de seu filho, o General de Lattre organizou uma missa católica na catedral Saint-Joseph de Hanói, a catedral dos Mártires de Hanói. Dois dias após a batalha, o corpo de Bernard de Lattre foi transladado de volta para a França, acompanhado por seu pai, e o jovem soldado foi enterrado com honras militares. Os túmulos de todos os três de Lattre estão agora localizados lado a lado no cemitério de Mouilleron-en-Pareds, o local de nascimento de Jean de Lattre. A morte de Bernard de Lattre recebeu ampla cobertura da imprensa na época, incluindo artigos nos jornais Le Figaro, Le Monde, The New York Times e na revista Time. Seu funeral foi apresentado na revista Life como "Picture of the Week" (Imagem da Semana).

"Beijo para um filho soldado".
Imagem da Semana da LIFE Magazine.

Bernard Fall, em seu clássico Street Without Joy, faz um ode aos vários soldados - do general ao soldado raso - combatendo na Indochina, lutando e morrendo ao lado de seus camaradas nas selvas sufocantes do Sudeste Asiático.

"Em uma tal guerra sem frentes, ninguém estava seguro e ninguém era poupado. Tenentes morriam pelas centenas, e era calculado que para manter linhas de comunicação principais ao longo do Viet-Nã do Norte custa em média três ou quatro homens por dia para cada centena de quilômetro de estrada. Oficiais superiores morriam também. O General Chanson foi assassinado por um terrorista no Viet-Nã do Sul. O General da Força Aérea Hartman foi derrubado sobre Langson; os Coronéis Blankaert, Edon e Érulin foram mortos por minas enquanto lideravam seus grupos móveis através dos pântanos e arrozais. E a guerra não poupou os filhos dos generais, também. O Tenente Bernard de Lattre de Tassigny foi morto na defesa do ponto rochoso que era a chave para o forte de Ninh-Binh. Ele era o único filho do Marechal de Lattre e a sua morte partiu o coração do homem. O Tenente Leclerc, filho do Marechal Leclerc, morreu em um campo de PG comunista; e o Tenente Gambiez, filho do chefe de estado-maior do General Navarre, foi morto em Dien Bien Phu.

Estes homens, e milhares de outros, da Martinica ao Taiti e de Dunquerque ao Congo, de todas as partes da península indochinesa, e legionários estrangeiros de Kiev na Ucrânia a Rochester, Nova Iorque, compuseram as Forces de l'Union Française - sem dúvida o maior, e último, exército francês a lutar na Ásia."

- Bernard Fall, Street Without Joy, pg. 252.

A Batalha de Ninh Binh

Durante a noite de 28 a 29 de maio de 1951, o General Von Ngyuen Giap lançou sua terceira ofensiva contra o Delta do Rio Vermelho desde o início do ano, iniciando a Batalha do Rio Day, pela posse do delta do rio de mesmo nome que flui a sudoeste de Hanói.

A batalha foi a primeira campanha convencional de Giap, e viu suas forças do Exército Popular do Vietnã (Armée Populaire Vietnamienne, APVN) de Viet Minh atacarem a região dominada pelos católicos do Delta para quebrar sua resistência à infiltração de Viet Minh. Depois de duas derrotas em empreendimentos semelhantes durante março e abril daquele ano, Giap liderou três divisões em um padrão de ataques de guerrilha e dissimulação em Ninh Bình, Nam Dịnh, Phu Ly e Phat Diem começando em 28 de maio, que viu a destruição do Comando François, um comando naval, enquanto atrasavam os regulares Viet Minh.

Comandos navais do Comando François, aniquilado na igreja de Ninh Binh.

As rochas de Ninh-Binh (hoje Cuc Phûong), que se projetam sobre o rio, constituem um bloqueio estratégico. Para o General Giap, é uma questão de destruir a linha de defesa protegendo o delta criada pelo General de Lattre de Tassigny (comandante em chefe da Indochina) e, assim, alcançar o celeiro de arroz que representa a planície fértil do baixo rio Vermelho.

A área é mantida pelo Comando François sob as ordens do Tenente Labbens. As tropas francesas não têm outro refúgio que uma igreja e a formação rochosa com vista para o rio. O ataque de milhares de Bô Doï da Daï Doan (divisão) é particularmente violento e os pitons de Ninh Binh são tomados pelos combatentes Viet Minh. Os soldados resistiram a noite toda até o fim de munição. A unidade foi aniquilada, com relatos de prisioneiros franceses sendo mortos a tiros pelos captores Viet Minh. Entre os reforços está um esquadrão do 1er Chasseur, composto por tropas indochinesas comandadas pelo Tenente Bernard de Lattre de Tassigny.

A situação foi assim descrita por Bernard Fall:

"O ataque inicial Viet-Minh, que começou em 29 de maio, se beneficiou, como quase sempre acontecia, de uma surpresa completa. Ao amanhecer, a maior parte da 308ª Divisão de Infantaria tomou de assalto as posições francesas em e ao redor de Ninh-Binh, penetrando na cidade e prendendo os sobreviventes franceses restantes na igreja. Durante aquela primeira noite caótica da batalha, um batalhão de reforços vietnamitas reunidos às pressas da vizinha Nam-Dinh foi lançado na batalha. Uma de suas companhias, chefiada pelo único filho do comandante-em-chefe francês, o Tenente Bernard de Lattre, foi obrigado a manter a todo custo um forte francês situado em um penhasco com vista para Ninh-Binh. Apesar do intenso bombardeio de morteiros, a companhia de de Lattre resistiu, mas quando amanheceu , o jovem de Lattre e dois de seus mais graduados suboficiais jaziam mortos na falésia. (Antes do fim da guerra da Indochina, mais vinte filhos de marechais e generais franceses morreriam como oficiais; outros vinte e dois morreram na Argélia mais tarde.)"

 - Bernard Fall, Street Without Joy, pg. 45.

Tomado de surpresa, o Comando francês rapidamente reagiu e em 48 horas mobilizou três grupos móveis (grupamentos mecanizados de armas combinadas semelhantes a equipes de combate regimentais), quatro grupos de artilharia, um grupamento blindado e o 7º Batalhão de Paraquedistas Coloniais (7e Bataillon de Parachutistes Coloniaux, 7e BPC), bem como uma dinassaut. O fluxo e refluxo de posições capturadas e retomadas continuaria até que as linhas de suprimento de Giap foram cortadas por volta de 6 de junho. O ponto culminante da batalha ocorreu na noite de 4 para 5 de junho com o posto-chave de Yen Cu Ha mudando de mãos várias vezes. Giap com suas forças, movendo-se em grandes números e durante o dia, eram vulneráveis ao poder de fogo francês e às forças terrestres francesas apoiadas por uma milícia católica local amigável. Com a artilharia, embarcações ribeirinhas e aviões que massacravam as centenas de pequenos juncos e sampanas que constituíam a linha de suprimentos Viet Minh cruzando o rio Day, as unidades do exército Viet Minh foram forçadas a se retirar entre 10 e 18 de junho, deixando 1.000 prisioneiros nas mãos dos franceses e 9.000 baixas para trás.

Os últimos defensores Viêt-Minh no rochedo de Ninh-Binh são capturados pelos tirailleurs do 2e BM/1er RTA.

O corpo do Tenente de Lattre foi recuperado por um golpe-de-mão do Comando 24 "Tigres Negros".

La Noblesse Oblige

O Major Médico Grauwin em seu livro J’étais médecin à Dien Bien Phu (Eu fui médico em Dien Bien Phu) faz um ode aos filhos de oficiais-generais que, ao invés de aceitarem postos confortáveis em unidades administrativas, decidiram que la noblesse oblige (a nobreza tem obrigações) e voluntariam-se para lutar e morrer na defesa do império francês na Ásia.

No sistema francês, o comandante da unidade é chamado pela tropa como "Le Patron", o patrão ou patrono. O culto aos patronos tão enraizado no Exército Brasileiro deriva desse costume por influência direta da Missão Militar Francesa vinda em 1920. Grauwin menciona os comentários de "Ó, o filho do patrão...", quando estes jovens oficiais de "dinastias" militares eram avistados nos quartéis.
 
"O que todos esses tenentes tinham?

Conheço dezenas e dezenas de todas as armas e todas as unidades. Em uma primeira estadia na Indochina é chefe de pelotão, em uma segunda estadia, comandante de companhia, mas a terceira estadia geralmente terminava com um membro a menos ou em um cemitério militar perdido no mato.

Da antiga equipe de tenentes do terceiro estrangeiro, quantos ainda restam até hoje? Onde estão enterrados Benoistel, Hamacek, Guillemin, Palissère, Fontaine?...

Na primavera de 1947, ainda em Nam Dinh; havia três oficiais de cavalaria que mantinham a comida, eu os via todas as noites, eles se chamavam: de Lassus, Mercier e Monroe. Eles foram enterrados todos os três em intervalos de um ano não muito distantes um do outro.

Os filhos dos generais pagam a grande honra de ostentarem um nome glorioso: o Tenente Leclerc, o Tenente de Lattre ou o Tenente Preau...

Por que eles recusam um cargo tranqüilo depois de terem cumprido grandemente seu tempo como chefe de pelotão ou comandante de companhia? O medo que se diz: "Ó, o filho do patrão..." Não! O amor simplesmente, como os camaradas de nomes desconhecidos; o amor de sua profissão de soldado e pelo país."

- Major Médico Grauwin, J’étais médecin à Dien Bien Phu.

J’étais médecin à Dien Bien Phu.
Major Médico Grauwin.

A morte de Bernard de Lattre teve um grande impacto em seu pai e sua mãe. Seu pai, em particular, fora profundamente afetado e ele morreu de câncer menos de oito meses depois. Sua mãe, agora com o direito de se chamar Madame la Maréchale após a promoção póstuma de seu marido, foi descrita em um obituário publicado em 2003 como tendo "se dedicado à memória de seu filho e à história de seu marido e dos exércitos que ele havia comandado".

Em 1952, foi publicado um livro de 308 páginas intitulado Un destin héroïque: Bernard de Lattre (Um destino heróico: Bernard de Lattre). O livro é uma coleção de histórias da vida de Bernard, junto com cartas que ele escreveu. O livro foi escrito e editado pelo professor francês de filosofia Robert Garric. Outra resposta escrita à morte de Bernard de Lattre foi fornecida por sua mãe em sua obra em dois volumes sobre o marido: Jean de Lattre: mon mari (Jean de Lattre: meu marido, Paris, 1972). Nesta obra, Madame de Lattre escreve sobre a reação de seu marido à morte de seu filho, mas também escreve sobre seus próprios sentimentos e o idealismo de uma geração de soldados franceses morrendo tal como seu filho.

Um dos memoriais duradouros a Bernard de Lattre é uma pequena capela ao ar livre na comuna de Wildenstein, no departamento do Haut-Rhin, na Alsácia, no nordeste da França. Hoje conhecida como Capela de São Bernardo, essa estrutura foi inaugurada em 1955. É constituída por um altar e um pequeno abrigo ao lado de uma trilha de caminhada. A construção do local começou em 1954, usando plantas aprovadas por Madame de Lattre. O material de construção usado foi arenito rosa da vizinha Rouffach. O site é dedicado à memória de Bernard de Lattre, de seu pai Jean de Lattre e das forças francesas que lutaram na área em 1944 para libertar a Alsácia dos alemães na Segunda Guerra Mundial. Posteriormente, a capela ficou em mau estado, mas foi renovada e reinaugurada durante uma missa de 20 de agosto de 2004, dia dedicado a São Bernardo de Claraval. Há um serviço anual realizado lá em homenagem a Bernard de Lattre de Tassigny, com a presença de associações de veteranos, dignitários locais e parentes dos de Lattre.

Também localizado em Wildenstein está o Centre Bernard de Lattre, que inclui um memorial a Jean de Lattre. Este memorial estava originalmente localizado na Argélia, mas foi transferido para Wildenstein em 1962 após a Argélia se tornar independente da França. Uma comemoração adicional do nome de Bernard de Lattre veio quando a turma de 1984-1985 da École Militaire Interarmes, a escola militar em que ele estudou, foi nomeada "Promoção Tenente Bernard de Lattre de Tassigny" em sua homenagem. Um serviço anual também ocorre nos túmulos dos de Lattre em Mouilleron-en-Pareds.

Historiadores e outros autores que escreveram sobre a Primeira Guerra da Indochina comentaram sobre o simbolismo da morte de Bernard de Lattre. Em Soldats perdus: de l'Indochine à l'Algérie, dans la tourmente des guerres (Soldados perdidos: da Indochina à Argélia, 2007), a jornalista e autora francesa Hélène Erlingsen diz que a morte de Bernard de Lattre foi um símbolo "do mundo moderno devastado pela guerra" e que sua vida foi “representativa do nosso tempo”. A morte de Bernard de Lattre foi contextualizada em relação a outras mortes nesta guerra, com Brian Moynahan, na sua obra The French century: an illustrated history of modern France (O século francês: uma história ilustrada da França moderna, 2007), observando que "ao todo 21 filhos de marechais e generais franceses morreram na Indochina", conforme registrado por Bernard Fall em 1961.

Post-script: Suspense militar

O título deste artigo é uma paráfrase do filme A Filha do General (The General's Daughter, 1999), um filme de investigação militar onde o investigador Paul Brenner (John Travolta) ao lado de sua parceira Sara Sunhill (Madeleine Stowe) investigam a misteriosa morte da oficial de guerra psicológica Capitã Elisabeth Campbell (Leslie Stefanson), filha do comandante da base: o General Joe Campbell (James Cromwell).

Outros personagens marcantes sendo o Coronel Bob Moore (James Woods), o oficial comandante e mentor da Capitã Elisabeth Campbell, e o Coronel George Fowler (Clarence Williams III), o leal segundo em comando do General Campbell. Além da investigação e da discussão sobre mulheres no exército em uma época onde este era um conceito novo, o filme ainda apresenta a estética esverdeada dos antigos uniformes BDU americanos.

Recomendação do Warfare.


A Filha do General ainda gerou um filme de suspense e investigações militares, Violação de Conduta (Basic, 2003), dessa vez com John Travolta contracenando com a futura rainha Hipólita, Connie Nielsen, como a investigadora Capitão Júlia Osborne e com o titã Samuel L. Jackson interpretando o implacável Sargento Nathan West.

Bibliografia recomendada:

Street Without Joy:
The French Debacle in Indochina.
Bernard Fall.

Leitura recomendada:












Armas vietnamitas para a Argélia, 14 de dezembro de 2020.