sábado, 14 de março de 2020

O fuzil de infantaria principal de vida mais curta da América - O M14


Por Tim HarmsenMilitary Arms Channel, 12 de março de 2020.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 14 de março de 2020.

Publiquei recentemente um vídeo comparando o fuzil de serviço M14 dos EUA com o FN FAL. Nesse vídeo, discuti por que prefiro o FAL em vez do M14 e por que acredito que o FAL deveria ter sido o fuzil de serviço do nosso país em 1959.

(O Warfare Blog já tratou sobre esse assunto aquiaqui, aqui e aqui.)


Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos chegaram lentamente à conclusão de que o M1 Garand estava obsoleto. É verdade que, durante a guerra, o M1 Garand estava realmente à frente de seu tempo, mas a tecnologia pode mudar muito rapidamente e o que antes era de vanguarda pode rapidamente se tornar obsoleto.


Durante a Segunda Guerra Mundial, os Aliados viram o desenvolvimento de fuzis como o StG-44 alemão e outras armas de fogo, que os despertaram para o fato de que seus fuzis de infantaria precisavam evoluir e rápido. Os estados da recém-formada OTAN entraram em discussões sobre a padronização de armas e calibres por razões logísticas óbvias. Hoje veríamos isso como uma coisa óbvia, mas durante a Segunda Guerra Mundial houve uma mistura diversificada de armas e calibres em uso comum por nações aliadas, o que tornou a logística complicada na melhor das hipóteses. A OTAN procurou resolver esse problema.

Para encurtar a história, nossos aliados propuseram que os estados da OTAN concordassem com um único fuzil de infantaria e calibre. Os Estados Unidos insistiram na adoção de um calibre que imitava de perto o desempenho do 30-06 usado no M1 Garand. Os britânicos não ficaram muito entusiasmados com esse pedido firme, pois estavam desenvolvendo um calibre .280 para acompanhar seu fuzil bullpup EM2, mas seguiram o plano, assim como outros estados da OTAN.


O EM2 (visto acima) foi submetido à consideração, assim como o fuzil FN FAL (T48) e, é claro, o T44 dos EUA (M14). Desnecessário dizer, houve muita briga envolvendo o fuzil a ser selecionado para uso comum. Aparentemente, para encontrar algum ponto em comum, os Estados Unidos disseram a seus aliados que adotaríamos o mesmo fuzil que nossos aliados caso eles concordassem em adotar o cartucho T65 (agora conhecido como 7,62x51mm OTAN).

Todos concordaram.

Exemplo de pente-guia no modelo C1A1 canadense, com a alimentação seguindo o padrão antigo dos carregadores fixos, que serviam como depósito. (Imagem de um vídeo do Forgotten Weapons)

Em 1955, os Estados Unidos contrataram a Harrington&Richardson para fabricar 500 fuzis FAL (T48) para testes. Estes fuzis tinham uma aparência distinta e foram convertidos do sistema métrico para o sistema Imperial (padrão em polegadas) e calibrado no cartucho T65 7,62x51mm. O T48 tinha uma série de recursos interessantes, como uma tampa aberta e pente-guia para o carregador e um guarda-mato de inverno dobrável.

Acima, um fuzileiro naval americano testa o T48 durante os testes.

No final, os Estados Unidos decidiram adotar o T44 (M14) e T65 (7,62x51mm) e ignorar a promessa que fizemos aos nossos aliados. Os aliados passaram a adotar o FAL de uma forma ou de outra, com o Canadá sendo o primeiro a adotar o FAL como o C1A1. A Alemanha ficou de fora porque a FN se recusou a conceder à HK uma licença para fabricar o FAL na Alemanha*. Eu acho que eles ainda estavam salgados sobre toda aquela coisa de Segunda Guerra Mundial**. Até a Grã-Bretanha, que queria desesperadamente adotar um projeto bullpup, optou pelo FAL como o SL1 L1A1, mantendo assim sua promessa de padronização.

*Nota do Tradutor: A Alemanha adotou o FAL em 1956, quando um lote de fuzis FAL do "modelo canadense", com a coronha e empunhadura de madeira, e quebra-chama em dente de garfo, foi encomendado para a Bundesgrenzschutz (Guarda de Fronteira Federal) alemã no final de 1955, ou início de 1956. A Bundeswehr (Força de Defesa Federal), criada em 12 de novembro de 1955, era armada com fuzis M1 Garand e carabinas M1, encomendou 100 mil fuzis FAL da Bélgica em novembro de 1956; com a designação G1 (de Gewehr, fuzil). O G1 alemão possuía modificações à pedido, sendo o primeiro a utilizar a mira 3mm mais baixa. Este fuzil foi produzido pela FN belga de abril de 1957 a maio de 1958; a Alemanha, apesar de satisfeita com o FAL, acabou decidindo pela adoção do CETME e do G3 pela recusa dos belgas em permitirem a produção sob licença. Muitos fuzis G1 alemães foram repassados para a Turquia, outros chegando nas mãos dos rodesianos.

Soldado do Bundesgrenzschutz com o FAL "canadense". Pode-se notar a coronha de madeira.

**NT: A Bélgica foi ocupada pelos alemães de 28 de maio 1940 a 4 de fevereiro de 1945 (e de 1914 a 1918, também de forma brutal), sofrendo com perseguições e desmandos do regime nazista de Berlim, especialmente racionamento de comida gerador de fome generalizada e a perseguição contra judeus e resistentes. Sob a ocupação alemã, a Fabrique Nationale (FN) foi tomada pela Deutsche Waffen- und Munitionsfabriken (DWM), seus diretores foram presos as linhas de montagem foram operadas por trabalhadores escravos, depois que apenas 10% dos operários belgas apareceram quando ordenados pelo ocupante. Quando pressionados pelos aliados em 1944, os alemães recuaram depenando a fábrica da FN de todo material que pudessem carregar de volta para a Alemanha, destruindo o resto. A FN tentou se levantar no final de 1944, reparando armas aliadas e produzindo peças de reposição simples e baratas, tais como lagartas de tanques. Para piorar a situação, os alemães tentaram destruir a fábrica com mísseis V1, conseguindo dois impactos diretos. Essas memórias eram ainda muito frescas em 1956.

É interessante notar que nossos aliados da OTAN foram essencialmente forçados a adotar um calibre de de potência total 7,62x51mm que eles não queriam enquanto os EUA deram as costas ao FAL e adotaram o que se tornaria o fuzil de infantaria principal de vida mais curta da história dos EUA. Ops.

Um soldado do exército americano disparando o protótipo inicial T44 (M14) em condições de inverno.

O que fez do M14 um fuzil de infantaria tão ruim? Este relatório de 1968 sobre o M14 é um bom ponto de partida.

O M14 foi atormentado por problemas de fabricação. Os canos estavam fora de especificação, as hastes opcionais não estavam alinhadas adequadamente com as guias, as coronhas não eram adequados, a cromagem da alma do cano estava freqüentemente muito espessa ou inconsistente, e a precisão era abismal. Pior, quanto mais você disparasse o M14, pior seria a precisão, e não estamos sequer falando da munição. As coronhas de madeira também tiveram uma tendência desagradável a inchar nas selvas do Vietnã, causando problemas significativos de precisão.


Enquanto o FN FAL conquistou ampla aceitação pela maioria do mundo livre, com cerca de 90 países adotando-o*, os EUA ficaram presos com um limão problemático que logo descartaria em favor de uma arma totalmente nova, mais alinhada com o conceito de "fuzil de assalto" empregado pela Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Seis anos após a adoção do M14, o M16 começaria a substituí-lo no serviço militar. O FAL, por outro lado, continuar em serviço militar com um bom número de nossos aliados até os anos 80 e além.

*NT: Foram mais de 90 países, com 15 países o fabricando sob licença. Atualmente, o Brasil, os Estados Unidos e a Índia o produzem em ciclo completo.


Outra história engraçada, se o completo fracasso de um fuzil de infantaria pode ser considerado "engraçado", é que o Exército gastou milhões de dólares e gastou quase duas décadas tentando aperfeiçoar o M14 para ser usado como um fuzil sniper, o M21. O programa M21 também foi um fracasso completo. O Exército finalmente desistiu e adotou um fuzil ferrolhado baseado no Modelo 700 chamado M24, algo que o Corpo de Fuzileiros Navais vinha usando há décadas como o M40.

Hoje, o M14 continua em serviço militar por necessidade. Os Estados Unidos lutam no Oriente Médio há 20 anos e a munição 5,56x45mm mostrou-se inadequada à distância, de modo que os estoques antigos de M14 foram espanados e recolocados em serviço. Muitos foram refinados com estruturas sintéticas ou colocados em um pesado chassi "EBR", em um esforço para transformá-lo em algo que não é - um DMR moderno ou um fuzil sniper*.


*NT: EBR significa Enhanced Battle Rifle (Fuzil de Batalha Melhorado), DMR significa Designated Marksman Rifle (Fuzil de Atirador de Elite Designado) que é uma função de atirador de elite especializada entre os 300m da infantaria e os 800m dos atiradores de longa distância; geralmente com fuzis semi-automáticos e designados para uma fração, como pelotão ou grupo de combate. Os americanos agora decidiram por um fuzil multi-calibres.

O programa SCAR surgiu para encontrar uma solução mais moderna e eficaz para o uso de antigos fuzis de desfile para combater no Oriente Médio. O M110 foi outra alternativa usada pelos Estados Unidos para substituir o obsoleto M14 em campo. Apesar de todos esses esforços e programas, ainda é comum encontrar o M14 sendo usado por forças americanas por necessidade.

Um fuzileiro naval americano disparando o fuzil M110.

Enquanto o M14 ainda desfruta de um culto de seguidores dentre os atiradores civis americanos, a realidade é que o fuzil foi facilmente um dos piores fuzis militares modernos já utilizados por uma grande potência militar no século XX. Você provavelmente não encontrará escassez de postagens em fóruns de discussão e na seção de comentários dos vídeos do YouTube por pessoas que alegam que o M14 é a arma mais precisa e confiável já criada pelo homem, mas as pessoas que realmente os disparam bastante sabem a verdade.

Vou encerrar com algumas citações do Tenente-Coronel Chandler, do USMC, que estava encarregado de vários programas de pontaria e sniping no Corpo de Fuzileiros Navais.

"Lembre-se de que o Exército dos EUA lutou por mais de vinte anos para transformar o M14 em uma arma do tipo sniper. O Exército finalmente abandonou todas as tentativas de salvar o fuzil M14. O uso continuado do M14 como outra coisa que não seja um fuzil de desfile é melhor descrito como um DESASTRE. O M14 é antigo e nunca foi mais do que um M1 Garand modificado."

"Enquanto discutimos os custos de trazer fuzis M14 com luneta para a linha de frente em grandes quantidades, permita-me outra digressão. O M14 é uma droga para se manter em sintonia, e um M14 desafinado, não importa quem fez a precisão, é tão preciso quanto uma pedra arremessada. A menos que o M14 seja continuamente ninado como um bebê, ele não manterá a precisão. Imagine as dificuldades e brutalidades que um M14 com luneta sofrerá como uma arma de Atirador Designado em combate. Nenhum M14 já construído permanecerá zerado com precisão e com tira em grupagem próxima, sob condições de campanha." - Ten-Coronel Chandler, USMC.


Bibliografia recomendada:




Leitura recomendada:

FN FAL: “O Braço Direito do Mundo Livre”14 de janeiro de 2020.

O FAL no Vietnã, 14 de janeiro de 2020.

Um comentário:

  1. Tudo por culpa de uma m... de coronel que queria ser promovido a general. Ordenou que os testes feitos com o FAL (T48) fossem feitos em condições desfavoráveis afim de evidenciar o M-14.

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