sexta-feira, 5 de junho de 2020

Estupro, esterilização forçada e abortos fracassados: as escravas sexuais dos guerrilheiros das FARC na Colômbia

O tribunal de crimes de guerra da Colômbia deve ouvir testemunhos sobre o recrutamento ilegal de jovens pelas FARC. (AFP)

Por Mathew Charles, The Telegraph, 4 de janeiro de 2020.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 5 de junho de 2020.

Na Colômbia, eles a chamam de guerra invisível. Mas para as crianças e adolescentes para quem o playground se tornou um campo de batalha, a violência era inconfundível.

Em um conflito civil sangrento que durou mais de 50 anos, quase 17.000 crianças soldados foram roubadas de sua juventude, inocência e, em muitos casos, de suas vidas. E eles não eram apenas bucha de canhão.

Meninas jovens, e às vezes meninos, foram recrutadas para se tornarem escravas sexuais*. "Era como se eu fosse um brinquedo novo", diz Yamile Noscué, que foi sequestrada de sua casa por guerrilheiros de esquerda quando tinha apenas 15 anos em 2005. "Eu basicamente me tornei a prostituta de camuflado deles", diz ela.

*Nota do Tradutor: Essa prática também era comum nas guerrilhas esquerdistas brasileiras. A halterofilista Marília Coutinho foi estuprada pelos colegas militantes do Partido Comunista Brasileiro (PCB) aos 15 anos por "solidariedade revolucionária"; um trauma que a levou ao halterofilismo. 

Poucas horas depois de chegar a um campo pertencente às Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (as FARC) em Tolima, no centro da Colômbia, Yamile foi submetida a estupro e agressão sexual. Seria uma provação que duraria dois anos.

“Depois que o comandante toca uma garota, qualquer outra pessoa também pode, e quando quiser. Os estupros são constantes.


Yamile Noscue, ex-combatente das FARC e sobrevivente de aborto forçado.

O caso de Yamile agora está sendo investigado pelo tribunal de crimes de guerra da Colômbia. O tribunal, criado como parte do acordo de paz de 2016 entre o governo colombiano e os rebeldes das FARC, começará a ouvir testemunhos sobre o recrutamento ilegal de jovens em janeiro, e ex-comandantes superiores da guerrilha enfrentarão perguntas sobre o suposto abuso sexual que ocorreu dentro das fileiras da insurgência.

Yamile, que agora tem 29 anos, tentou relatar seu pesadelo às superiores, mas foi ignorada por elas. Ser usada para o sexo seria sua contribuição para a revolução, ela foi informada.

“Por causa do estupro, acabei grávida. Eu nem sabia quem era o pai. Poderia ter sido qualquer um de dezenas de homens”, diz Yamile. Aos 16 anos, e com seis meses de gravidez, ela foi forçada a abortar. Seus olhos expõem a dor que sua voz tenta esconder.

“Eles me seguraram e me deram pílulas. Eu estava enjoada e estava sangrando. Foi tão doloroso”, ela diz. Yamile pertence a uma crescente facção vocal de mulheres ex-combatentes testemunhando uma litania de abuso sexual, e falar tem um custo.


Um relatório de 2016 disse que havia pelo menos 214 casos de meninas 'sujeitas a estupro, esterilização forçada, aborto forçado e outras formas de violência sexual' nas mãos dos guerrilheiros das FARC. (AFP)

Ela foi seguida e ameaçada várias vezes por homens mascarados, que dizem para ela calar a boca e virar a página.

Em 2016, um relatório do promotor público colombiano disse que havia pelo menos 214 casos de meninas “sujeitas a estupro, esterilização forçada, aborto forçado e outras formas de violência sexual” nas mãos dos guerrilheiros das FARC.

O mesmo relatório estimou que poderia haver até mil abortos por ano realizados pelos insurgentes.

“Camila” - que estava com muito medo de dar seu nome verdadeiro - foi tirada de casa pelos guerrilheiros quando tinha apenas 14 anos. Quando engravidou um ano depois, recebeu uma injeção antes de ser operada contra sua vontade. “Eu lembro de acordar e estava sangrando muito”, lembra Camila.

Ela agora tem insuficiência renal crônica como resultado do aborto que sofreu. A organização, Women's Link Worldwide, enviou um relatório sobre a violência reprodutiva das FARC ao tribunal de crimes de guerra em outubro [de 2019].


Victoria Sandino, ex-comandante da guerrilha e agora senadora das FARC.

“Os abortos foram conduzidos em condições insalubres e não-higiênicas. Às vezes eles usavam drogas ou métodos não-ortodoxos para interromper a gravidez, outras vezes usavam cirurgia ”, diz Mariana Ardila, uma das advogadas da ONG.

As vítimas de violência sexual dentro das FARC dizem que o aborto forçado era uma política da guerrilha para garantir a rebelião e impedir que seus campos fossem soterrados por crianças.

Isso foi negado por Victoria Sandino, que já foi comandante guerrilheira e agora senadora das FARC, o qual se tornou um partido político*.

*NT: Por recomendação do ex-presidente do Brasil, Luís Inácio "Lula" da Silva, em 28 de abril de 2009.

"Se era uma política ou regra, eu não sabia disso e certamente não a inventei", disse ela ao Telegraph. “É claro que isso é algo que precisa ser investigado, mas é absurdo que as mulheres tenham sido recrutadas apenas para sexo. Além disso, no contexto da guerra, entendeu-se que a gravidez era simplesmente impossível. O que era obrigatório era contracepção."


O líder das FARC, Rodrigo Londoño - ou 'Timochenko' - pediu desculpas recentemente pelo sofrimento sofrido pelos jovens - mas não reconheceu o abuso que ocorreu nas fileiras da guerrilha.

A Sra. Sandino reconheceu que os abortos aconteceram dentro da insurgência. "Foi uma escolha que tivemos como mulheres", disse ela. "Assim como a escolha que tivemos para deixar a insurgência e criar uma família, se é isso que queríamos fazer, e muitas mulheres fizeram".

Não é assim, de acordo com Yamile. “Tive amigas que foram executadas, mortas a tiros por um pelotão de fuzilamento porque queriam ficar com o bebê. Não havia escolha - ela disse. "Você abortava a gravidez ou era fuzilada."

A história de Héctor Albeidis Arboleda, conhecido como "O Enfermeiro" ou "O Médico", também põe em dúvida a liberdade que as mulheres poderiam ter para deixar os rebeldes.

Em março de 2017, ele foi extraditado da Espanha para a Colômbia. Ele é acusado de realizar mais de 500 abortos forçados em mulheres militantes e atualmente está detido em uma instalação de alta segurança enquanto aguarda julgamento.

"Se algo fosse forçado, teria sido a decisão de comandantes individuais", disse Sandino.

Aquelas que sofreram aborto forçado não foram reconhecidas como vítimas pelo Estado colombiano, porque são consideradas ex-insurgentes e não sobreviventes de agressão sexual e violência reprodutiva.


Quase 17.000 crianças soldados foram roubadas de sua juventude no sangrento conflito civil que durou mais de 50 anos. (AFP)

Mas em uma decisão na semana passada, o Tribunal Constitucional do país anulou essa política, garantindo reparações para mulheres como Yamile e Camila.

"O Estado deve garantir atenção especializada a mulheres, meninas, adolescentes e adultos mais velhos que sobrevivam à violência sexual perpetrada por atores armados, o que implica a obrigação de atender essas vítimas de maneira imediata, abrangente e especializada", afirmou a decisão.

Em um evento recente em Medellín, realizado para comemorar os 2,3 milhões de jovens vítimas do conflito na Colômbia, o líder das FARC, Rodrigo Londoño ou "Timochenko", não reconheceu o abuso ocorrido nas fileiras dos guerrilheiros, mas reconheceu desculpar-se pelo sofrimento sofrido por gerações de crianças e adolescentes no país.

"Causamos dor e sofrimento, e muitas crianças morreram, mas essa nunca foi a nossa intenção", disse ele. "E por isso lamentamos."

Mas para Yamile, o pedido de desculpas não foi suficiente. "Eles devem pagar pelo que fizeram", diz ela. "Só espero que eles recebam o castigo que merecem."

Original: https://www.telegraph.co.uk/global-health/women-and-girls/rape-forced-sterilisation-botched-abortions-sex-slaves-colombias/

Post Scriptum: Abortos forçados e estupros na Guerrilha do Araguaia

A guerrilha FOGUERA, do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), de linha chinesa-maoísta e instalada no Araguaia, também cometeu os mesmos crimes com decisões do comando da guerrilha, ordenaram o estupro coletivo de guerrilheiras para "aliviar a tensão" dos colegas, assim como ordenaram o aborto forçado de guerrilheiras que engravidaram.



Em 1971, Pedro Albuquerque Neto desertou com sua namorada grávida, Tereza Cristina, porque o comando militar da guerrilha decretou o aborto forçado da criança. Eles dois foram presos pelos militares. Isto foi decretado pela esquerda como a "traição" que entregou a guerrilha aos militares. 

Essa versão foi revista em prol de outra, onde a verdadeira "culpada" foi a guerrilheira Lúcia Regina, que desertou da guerrilha por conta de uma curetagem mal-feita durante o aborto forçado. A curetagem uterina é um procedimento médico executado para retirar material placentário ou endometrial da cavidade uterina por um instrumento denominado cureta. Este método é necessário quando existem complicações pós-aborto e tem como função principal limpar os restos do mesmo.


Uma Equipe Zebra com dois guerrilheiros capturados no Araguaia. Os "zebras" eram militares e mateiros atuando descaracterizados em missões de contra-guerrilha.

Conforme narra o historiador Hugo Studart no livro "A Lei da Selva" (2006), páginas 91 a 94:

'Nessas mais de três décadas, as suspeitas recaem principalmente sobre dois ex-guerrilheiros, Pedro Albuquerque Neto e Lúcia Regina de Souza Martins. Eles desertaram em 1971, antes da chegada dos militares. Em seu relatório, o comandante Ângelo Arroyo aponta na direção de Pedro sua "verdade":

"O Exército soube da nossa posição através de denúncia do traidor Pedro Albuquerque que, meses atrás, havia fugido, com sua mulher [Tereza Cristina, grávida], do Destacamento C. O casal tinha concordado plenamente com as tarefas que iam realizar e com as condições difíceis que iam enfrentar. No entanto, logo depois de sua chegada ao Destacamento C, a mulher de Pedro Albuquerque começou a dizer que não tinha condições para permanecer na tarefa e acabou convencendo o marido a fugir. (...) Em março de 72, sabe-se que Pedro Albuquerque havia sido preso no Ceará e, em seguida, começou a pesquisa policial na zona."

De saída, vemos, o PC do B condenou Pedro como traidor. Ele desertou com a mulher em agosto de 1971. A partir do início dos anos 1980, o partido mudaria de posição; inocentou Pedro e passou a apontar outra guerrilheira, Lúcia Regina, como a "verdadeira" traidora. A principal suspeita a recair sobre Regina era o fato de ter desertado a fim de retornar para a casa dos pais em São Paulo, em dezembro de 1971, pouco antes da chegada dos militares à região.A suspeita se acentuou ao circular dentro do partido a informação de que o pai de Lúcia seria oficial aposentado do Exército. Principal acusadora: Elza Monerat, dirigente da guerrilha.

Em 2002, depois de 30 anos de silêncio, Lúcia Regina concedeu entrevista a quatro estudantes de Jornalismo. Sua "verdade" era outra. Negou que tenha entregado a guerrilha aos militares ao desertar. Na "verdade", conta ela, seu interrogatório só teria acontecido em 1975, depois de exterminada a guerrilha; aí, sim, contou o que sabia. E por que Regina desertou? Porque, conforme explicou aos estudantes, os comandantes a obrigaram a praticar aborto, já que, naquela situação, as regras da guerrilha não permitiam gravidez. Ela contraiu forte infecção. Corria perigo de vida e a dirigente Elza Monerat levou-a até um hospital em Anápolis (GO). Assim que Elza se retirou, Regina fugiu para a casa dos pais em São Paulo. Recusou-se a voltar para a guerrilha e nunca mais falou com membro algum da direção do PC do B.'

O caso foi reconfirmado por Studart durante uma entrevista sobre o livro seguinte, Borboletas e Lobisomens (2018), onde é registrado que o livro "[r]evela ainda o caso de uma outra guerrilheira: em plena selva e no meio das ações, ela engravidou e foi obrigada pela guerrilha a abortar. Para completar, há relatos que mostram guerrilheiras sendo obrigadas a fazer sexo com até cinco “companheiros”, para aliviar a tensão da turma."



Vale lembrar que, conforme relatado pelo Coronel Lício Maciel aos 11:14 do vídeo:

"Pedro Albuquerque, ele fugiu porque os bandidos exigiram que ele fizesse um aborto em sua mulher, que estava grávida. Eles não se conformaram com a ordem, principalmente porque outra guerrilheira grávida tinha sido mandada para São Paulo para ter o filho nas mordomias daquela cidade. Ela era casada com o filho do chefe militar da guerrilha, Maurício Grabois."

Bibliografia recomendada:





Leitura recomendada:

Poderia haver uma reinicialização da Guerra Fria na América Latina?4 de janeiro de 2020.

Um olhar mais profundo sobre a interferência militar dos EUA na Venezuela4 de abril de 2020.

Nenhum comentário:

Postar um comentário