domingo, 25 de outubro de 2020

Tudo por alguns palmos da França


Pelo Tenente René Nicolas, 1915.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 25 de outubro de 2020.

Um oficial francês testemunha o caos da batalha na região da Champanha em 1915.

Originalmente com o título "A História do Tenente II e III".

Poilus, soldados franceses, em uma trincheira em 1915.
(Colorizada por Léo Couvoisier)

20 de março.

Encontro-me cedendo ao encanto da nossa vida aqui. Na verdade, é o retorno à natureza e à simplicidade; é físico, quase animal. Os instintos primitivos da raça têm controle total: comer, beber, dormir, lutar - tudo menos amar...

27 de março.

Estou escrevendo meu diário em um grande abrigo subterrâneo, confortavelmente esticado em uma rede que meu antecessor engenhosamente armou com dois lençóis de barraca... Estamos na mesma trincheira que o inimigo - vizinhos de porta na verdade, e nem um pouco corteses. Nada além de uma barricada de sacos de terra nos separa dos boches [alemães]. Perto da barricada estão as sentinelas, atentas e silenciosas. Nenhum som é ouvido em nenhum dos lados, exceto o zunido de granadas que são continuamente lançadas pra lá e pra cá. Mas as sentinelas estão bem protegidas nas laterais da trincheira e desafiam as "tartarugas" alemãs...

Assim, as primeiras linhas alemãs e francesas estão em contato imediato. A razão é que o nosso lado não conseguiu apoderar-se de toda a trincheira, da qual o inimigo ainda ocupa a extremidade oriental. Mas essa situação não vai durar, eu acho, e vamos aumentar nossos ganhos.

A trincheira está limpa, exceto por corpos imperfeitamente enterrados aqui e ali. Não prestamos mais atenção neles; mas o que é realmente deplorável é que muitos cadáveres caem na lama; a lama endureceu e a trincheira tem menos de um metro e meio de profundidade. É impossível aprofundá-la, pois ao menor golpe de uma picareta surge um pedaço de roupa ou um pedaço de carne. Para circular, temos que nos curvar como corcundas. É doloroso e perigoso, então os homens não se movem muito, mas ficam nos abrigos...

Desenho de um poilu mostrando o túmulo de um soldado desconhecido no parapeito da trincheira, 1915.

28 de março.

Que noite agitada!…

A primeira parte da noite transcorreu sem novidades, exceto por uma chuva abominável de granadas que os boches continuavam jogando em nós...

Fui até a barricada e vi que a trincheira [alemã] estava de fato vazia, exceto pelos metralhadores que estavam de plantão ao lado de suas armas. Rapidamente dei ordens para derrubar a barricada e corremos para a trincheira boche. Os homens da minha seção, de acordo com minhas instruções, iniciaram um fogo furioso... Enquanto corríamos, atiramos várias granadas contra os metralhadores, que afundaram antes que pudessem apontar suas armas contra nós.

Num piscar de olhos, chegamos ao fim da trincheira... e por trás da barricada de homens mortos e terra, disparamos três tiros contra os alemães em retirada. Eles foram jogados em um estado de pânico. Muitos devem ter morrido, pois a luz do dia trouxe ao nosso olhar a visão daquela trincheira empilhada de mortos. A coisa toda não durou mais do que dois minutos. Fomos inundados com granadas, um contínuo zip, zip; um dos nossos homens foi morto, três ou quatro feridos. Tudo estava em um tumulto selvagem - foguetes de trincheira subindo, canhões disparando rápido... Arame farpado foi colocado no lugar e a trincheira revertida - minutos de excitação louca e atividade insana. Estávamos sem consciência do perigo, hipnotizados pelo trabalho a ser feito.

Soldados alemães posando em uma trincheira, 1915.

Esperávamos um contra-ataque... Esperamos. Houve falsos alarmes. Um homem que está um pouco nervoso começa a atirar rápido, o vizinho segue o exemplo dele, depois o grupo de combate, depois a seção [pelotão], depois toda a companhia entra num alvoroço. As metralhadoras começam a matraquear, as tropas de segunda linha são alertadas, a artilharia se apresenta com alguns obuses e - os boches do outro lado, confusos com a confusão, mandam... foguetes de trincheira, cujos raios iluminam a grama que cresce verde na primavera, o emaranhado de arame, e vários pobres cadáveres deitados com as mãos estendidas na direção da trincheira oposta, como se apontando o caminho do dever para o que está atrás. O contra-ataque não veio, mas obuses sobre obuses caíram sobre nós... Dei meu cantil de vinho aos meus prisioneiros... Não é nada - 50 metros de trincheira; e, no entanto, são alguns palmos da França tomados de volta.

Quinta-feira Santa.

A coisa que mais me provou foi essa existência de toupeira. Eu que estou sempre desejando uma grande ação e uma luta aberta e intensa com um inimigo que está diante de seus olhos.

Os boches têm bombardeado com bastante violência. É de se esperar, uma vez que é Quinta-feira Santa. Mas, apesar de tudo, houve algo religioso na calma dos elementos nestes últimos dias. A natureza está em suas devoções. Esta noite está excelente. Os obuses explodem em grande número, e a igrejinha de Perthes cambaleia como se estivesse prestes a cair... Cotovias cantam a gargalhadas, sublime hino de vida e alegria. À distância estão os mortos e o cadáver mutilado assustador da vila de Perthes...

Poilus posando com a máscara de gás P2, o primeiro modelo francês, em 1915.

4 de maio.

Para nos protegermos das bombas de gás, recebemos máscaras e óculos horríveis e saídos de um pesadelo colocados em uma espécie de papada de porco ou focinho feito de borracha e contendo uma solução de amônia. Elas fazem se parecer com um animal selvagem, e assim que eu peguei a minha coloquei para o benefício dos meus [soldados]. Eles quase caíram de tanta gargalhada.

Mas a vida em geral é calma, calma até demais. Estou lendo Anna Karenina, que veio pelo correio ontem, e fumando cachimbos intermináveis.

Extrato do diário de campanha do Tenente René Nicolas, que narrou os cinco meses de serviço na Frente da Champanha em 1915. Primeiro publicado em francês em 14 de dezembro de 1915, passagens de livro foram sendo publicadas em inglês como artigos na revista Atlantic em 1917 como "Diário de um oficial francês".

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