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sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Operações especiais não são um substituto para a estratégia


Por Stewart Parker e Ari Cicurel, Breaking Defense, 19 de março de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 17 de setembro de 2021.

Usadas demais e sobrecarregadas na "guerra global contra o terror" desde o 11 de setembro, as Forças de Operações Especiais precisam que Biden lhes dê uma pausa para que possam se concentrar na Rússia, China e na "zona cinzenta".

De filmes a livros que contam tudo, a América adora seus operadores especiais. Mas um ritmo esmagador de operações e uma definição cada vez maior do que constitui uma “operação especial” esticou muito as Forças de Operações Especiais (Special Operations Forces, SOF), tornando mais importante do que nunca definir de forma restrita as missões SOF. A Orientação Provisória de Segurança Nacional do Presidente Joe Biden é um passo importante para redirecionar a política militar do contra-terrorismo no Oriente Médio para a competição estratégica contra a China.

Mas a emissão da orientação provisória em si não resolve os problemas das SOF. É possível para Biden criar uma pegada militar mais inteligente e sustentável no exterior, mas o sucesso estratégico requer a adaptação do modelo americano para contra-terrorismo e contra-insurgência enquanto muda a forma como utiliza as SOF.

A estratégia de Biden para o Oriente Médio busca "dimensionar nossa presença militar ao nível necessário para interromper redes terroristas internacionais, deter a agressão iraniana e proteger outros interesses vitais dos EUA" para que a América possa redirecionar recursos militares para ameaças cada vez mais perigosas como a China.

Após o choque histórico dos ataques de 11 de setembro, o contra-terrorismo e a contra-insurgência no Oriente Médio se tornaram os principais desafios para os planejadores de defesa americanos. Diante de terroristas ou insurgentes que rapidamente atacavam civis e depois se escondiam entre eles, os líderes dos Estados Unidos se apaixonaram por raides de operações especiais e ataques de drones.

Operador especial (CCT/USAF) à cavalo na invasão do Afeganistão, outubro de 2001.

Os EUA já tentaram se afastar da "guerra global contra o terrorismo" antes, começando com o "pivô para a Ásia" do presidente Obama, que nunca se materializou. Em seguida, veio a Estratégia de Defesa Nacional de 2018 da administração Trump e o Anexo de Guerra Irregular de 2020 que priorizou o Indo-Pacífico. Agora, a mudança estratégica de Biden indica que a primazia do contra-terrorismo e da contra-insurgência na segurança nacional americana está acabando.

No entanto, a retirada das tropas não encerrará os conflitos regionais nem eliminará a exposição dos Estados Unidos ao terrorismo. As demandas pelos recursos exclusivos fornecidos pelas SOF não vão diminuir, mesmo com a redução de sua presença no Oriente Médio.

No futuro, será um desafio para o Comando de Operações Especiais dos EUA (U.S. Special Operations CommandUSSOCOM) equilibrar as operações de contra-terrorismo e contra-insurgência em curso, enquanto também se prepara para envolver a China e a Rússia na "zona cinzenta" legal e estrategicamente obscura entre guerra e paz.

Durante grande parte das últimas duas décadas, os operadores especiais funcionaram como uma força não-convencional apoiada por forças convencionais, com as SOF frequentemente no papel principal. O combate contra forças semelhantes provavelmente inverteria esse relacionamento, exigindo que as SOF cumprissem missões de apoio à força combinada mais ampla, aliados e parceiros.

Contra-terrorismo e Contra-insurgência Sustentáveis

As Forças Especiais dos EUA (Boinas Verdes) atacam um objetivo em um evento de treinamento.

Mesmo que as forças americans se retirem do Afeganistão ou de todo o Oriente Médio, os terroristas não irão embora. O presidente Biden, portanto, pretende manter algum foco no contra-terrorismo e na contra-insurgência, mesmo enquanto reduz o engajamento militar em conflitos relacionados. A adoção de um modelo menos focado no combate cinético (poder de fogo) e mais focado no que é acessível e sustentável a longo prazo reduzirá o papel dos militares e contribuirá para melhores resultados de segurança. A Estratégia Nacional de Contraterrorismo de 2018, que exige "todos os instrumentos disponíveis do poder dos Estados Unidos para combater o terrorismo", é um ponto de partida para o plano sustentável do novo governo. Os raides das SOF e ataques aéreos podem atrair atenção descomunal, mas também têm um registro imperfeito de transparência. Para melhor abordar as preocupantes descobertas da comissão do 11 de setembro, os EUA devem continuar a desenvolver seu potente portfólio de capacidades não-militares.

A análise do Centro Nacional de Diplomacia e Contra-terrorismo deve moldar os programas de contra-terrorismo e contra-insurgência, com a aplicação da lei civil e agências de inteligência muitas vezes assumindo a liderança. Os formuladores de políticas devem definir claramente suas prioridades, limitando os esforços apenas contra os grupos terroristas que mais ameaçam a América, seus interesses e seus parceiros. Uma estratégia de recursos sustentáveis requer colaboração proativa, atribui funções claras a departamentos e agências para evitar redundância ineficiente e estimula parceiros e aliados a se apropriarem das missões globais de contra-terrorismo. Mais importante ainda, um modelo de contra-terrorismo com recursos sustentáveis libera cada vez mais Forças de Operações Especiais para se reorientarem contra os atores estatais e seus representantes (proxies).

Adaptando as Forças de Operações Especiais

Operadores especiais russos (Spetsnaz), conhecidos como "Homenzinhos Verdes", na Ucrânia em março de 2014.

O combate efetivo à China, Rússia e outros Estados malignos exige que os formuladores de políticas adaptem o papel das SOF. Embora o contra-terrorismo e a contra-insurgência com foco restrito continuem sendo um esforço duradouro, as SOF não se concentraram historicamente nessas missões. Os Rangers de Roger dominaram as táticas de raides de estilo indígena na Guerra Revolucionária - o que os teóricos hoje chamariam de um conflito "híbrido" envolvendo guerrilheiros e forças regulares, incluindo o Exército Continental de Washington e seus aliados franceses. O presidente Kennedy autorizou os Boinas Verdes a responderem às insurgências apoiadas pelos soviéticos, e uma das principais funções das SOF na Guerra Fria era preparar movimentos de resistência em nações aliadas em risco de serem ocupadas por Moscou. Foram os fracassos conjuntos na tentativa de resgate de reféns iranianos em 1980 e o sucesso superficial na invasão de Granada em 1983 que impulsionaram a criação do USSOCOM - não o terrorismo.

Somente depois do 11 de setembro as SOF foram totalmente absorvidas por raides de “ação direta” contra terroristas e insurgentes, à medida que o USSOCOM se tornou o comando apoiado na guerra global contra o terror, em vez de um elemento de apoio em uma campanha basicamente convencional. As Forças Armadas são mais hábeis dentro da caixa de operações convencionais, mas as atividades centrais das SOF serão indispensáveis para campanhas futuras bem-sucedidas em todo o espectro do conflito. No mês passado, os legisladores reconheceram isso criando um novo subcomitê para supervisionar as SOF.

Operadores Delta e Ranger no momento do choque entre o Bluebeard 3 e o Republic 4 durante a fracassada Operação Eagle Claw, em 1980.
(Ilustração de Jim Laurier e Johnny Shumate/Osprey Publishing)

A redução das atividades de CT melhorará a capacidade das SOF de competirem abaixo do nível de conflito armado, responderem a crises, recuperarem americanos sequestrados e criarem prontidão para a guerra em um ambiente operacional altamente contestado e desordenado.

Para se preparar para a competição estratégica, os Estados Unidos precisam adaptar suas missões de contraterrorismo e contra-insurgência. As SOF serão vitais nas operações contra a China e a Rússia, embora permaneçam cruciais contra as ameaças duradouras no Oriente Médio. Sem rodeios, não há guerra que os militares americanos possam vencer sem Forças de Operações Especiais eficazes.

O Tenente-Coronel Stewart “PR” Parker é um participante do Programa de Líderes Militares dos EUA de 2020 do Instituto Judaico para a Segurança Nacional (Jewish Institute for National Security of America, JINSA) e atualmente está designado para o Comando de Operações Especiais da Força Aérea. Ari Cicurel é um analista de política sênior no Gemunder Center for Defense and Strategy da JINSA.

Bibliografia recomendada:

Special Operations Forces in Afghanistan.
Leigh Neville e Ramiro Bujeiro.

Special Operations Forces in Iraq.
Leigh Neville e Richard Hook.

Leitura recomendada:


As lições de Mogadíscio, 7 de outubro de 2018.


terça-feira, 14 de setembro de 2021

NOHED: As Forças Especiais do Irã


Por Eren Ersozoglu, Grey Dynamics3 de setembro de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 13 de setembro de 2021.


Principais descobertas sobre a NOHED:

Brigada de “Forças Especiais Aerotransportadas” NOHED, estabelecida em 1959 como parte das Forças Especiais Imperiais do Irã. As Forças Especiais dos EUA durante a década de 1960, antes da Revolução Iraniana de 1979, treinaram o grupo. O Irã utilizou principalmente o NOHED na Guerra Irã-Iraque (1980-88).

O Coronel Holako Ahmadian liderou o grupo. A brigada é a elite das unidades de forças especiais do Irã. Em 4 de abril de 2016, as autoridades anunciaram oficialmente que a NOHED estava presente na Síria para apoiar o governo Assad na Guerra Civil Síria. A narrativa oficial era de desdobramento "consultivo".

Fontes não-oficiais de altas fatalidades sofridas pela unidade aumentam a improbabilidade dessa narrativa. O general iraniano Ali Arasteh apoiou esta avaliação. Ele afirmou que comandos e atiradores de elite (snipers) de suas forças armadas podem ser usados como "conselheiros militares".

É altamente provável que a NOHED permaneça na Síria em uma capacidade consultiva e operacional.

A NOHED, em uníssono com o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a secreta Força Quds, tem estado muito ativa na Síria. Este artigo de inteligência da Grey Dynamics analisa a unidade de forças especiais do Irã, fornecendo informações básicas, capacidades e presença na Síria.

Operadores da NOHED no Curdistão durante a Guerra Irã-Iraque.

Os Boinas Verdes do Irã

As raízes da NOHED remontam a 1953, quando oficiais do Exército Imperial Iraniano participaram de treinamento de paraquedismo na França. O Batalhão de Paraquedistas foi estabelecido em 1959, uma reforma da Unidade de Paraquedistas criada pelos oficiais treinados na França. Esta unidade tornou-se a 23ª Brigada de Forças Especiais Aerotransportadas em 1970, adotando as boinas verdes de estilo americano. O emblema da unidade até espelhava de forma quase idêntica (antes da Revolução Iraniana) a insígnia De oppresso liber das Forças Especiais do Exército dos EUA. Isso foi o resultado do envio de quatro destacamentos operacionais de operadores de forças especiais pelos EUA para treinar o pessoal militar do Irã na década de 1960. Parte desse treinamento incluiu a 65ª Brigada de Força Especial Aerotransportada do Irã, que agora é chamada de 65ª Brigada NOHED, um componente-chave das forças especiais iranianas. A brigada é dividida em quatro unidades principais: resgate de reféns, operações psicológicas, apoio e guerra irregular.

Comandos boinas verdes iranianos.

Treinamento

Passar no treinamento para a unidade de forças especiais do Irã, apelidada de "fantasmas poderosos" dentro do exército iraniano, é extremamente difícil. Aqueles que passam no treinamento inicial de paraquedismo passam períodos de treinamento em desertos, florestas, neve, mar e montanhas. Este estágio visa cultivar a capacidade de engajar efetivamente os adversários em qualquer ambiente. Obtidos os pontos necessários nesta etapa, dá-se início à etapa de especialização. Por exemplo, a Unidade de Resgate de Reféns (Unidade-110) provavelmente envolveria ênfase no arrombamento e eliminação de bombas. Outra seção do treinamento envolve espionagem, reconhecimento e telecomunicações, bem como guerra irregular. Isso fornece a capacidade para a guerra de guerrilha. Essas características permitem a utilização da NOHED em guerras híbridas/irregulares (Iraque, Síria) para atender aos objetivos do Estado iraniano. Com aproximadamente 5.000 militares, um relatório do Poder Militar do Irã da Agência de Inteligência de Defesa de 2019 afirmou que a Brigada NOHED é a elite das forças especiais iranianas.

A Unidade de Resgate de Reféns (Unidade-110) da NOHED durante um exercício de missão de resgate de reféns, o homem da frente armado de submetralhadora Uzi.

Lista de Ataques

Ao longo da história da unidade de forças especiais iranianas, a Brigada NOHED estabeleceu sua reputação dentro dos círculos militares iranianos com ações realizadas em teatros de guerra:
  • Primeira experiência de combate na Guerra Civil de Omã 1963-76.
  • Supressão da revolta do Khuzistão de 1979.
  • Rompimento do cerco de Abadan (1980-81) durante a Guerra Irã-Iraque, as forças iraquianas que lançaram um ataque surpresa em território iraniano foram retidas com sucesso pela 23ª Brigada de Forças Especiais Aerotransportadas.
  • Durante a Guerra Irã-Iraque, a unidade conseguiu manter posições estratégicas em Dopaza e Laklak, apesar dos ataques químicos do Iraque.
  • Em uma operação simulada, a 65ª tomou e capturou centros estratégicos importantes pela capital Teerã, alcançando o sucesso da missão em 2 horas.
Existem vários relatos não-confirmados de operações clandestinas no Afeganistão e no Paquistão. No entanto, não está claro até que ponto as capacidades de guerra irregular desta unidade ocorreram ao longo da história recente.

 A pegada na Síria

A Guerra Civil Síria de 2011 levou ao governo de Assad, grupos de oposição, forças estrangeiras proxy (terceirizadas), Forças Democráticas Sírias Curdas (SDF) e forças do Estado Islâmico a ficarem engalfinhados em um conflito em curso. Um dos muitos países envolvidos foi o Irã, fornecendo ao governo Assad apoio monetário, logístico, militar e diplomático. Em abril de 2016, o brigadeiro-general iraniano Ali Aratesh informou à Agência de Notícias Tasnim que assessores da 65ª Brigada NOHED estavam estacionados na Síria. O que significa que é provável que a unidade das forças especiais do Irã estivesse presente já em 2011-12, quando oficiais de inteligência ocidentais afirmaram que 150 membros do Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC) estavam presentes na Síria para apoiar Assad.

Em 10 de abril de 2016, reportagens afirmavam que beligerantes assassinaram um sargento da NOHED na Síria. Desde então, a atividade iraniana aumentou significativamente na Síria. Relatórios não-confirmados mostram pelo menos 30 membros da NOHED mortos apenas em 2016. O Irã utiliza combatentes xiitas do Afeganistão, Iraque, Paquistão, bem como o notório proxy Hezbollah. As forças militares apoiadas pelo Irã controlam os arredores de Damasco, com várias bases na Síria. A Síria está sofrendo com uma guerra contínua em um ambiente altamente volátil e com numerosos interesses. É nesse ambiente irregular que a Brigada NOHED foi treinada para operar e, sem dúvida, será utilizada.


Eren Ersozoglu é analista da Grey Dynamics. Ex-graduado em história pela Coventry University com foco em ligações entre terrorismo e crime organizado e estudos de inteligência e segurança, graduou-se na Brunel University.

Bibliografia recomendada:

World Special Forces Insignia.
Gordon L. Rottman e Simon McCouaig.

Leitura recomendada:

É por isso que as Forças Especiais do Irã ainda usam boinas verdes, 4 de janeiro de 2020.

COMENTÁRIO: O treinamento militar do Irã de acordo com um iraniano, 5 de fevereiro de 2021.

GALERIA: A Uzi iraniana3 de março de 2020.

A influência iraniana na América Latina, 15 de setembro de 2020.

O papel da América Latina em armar o Irã16 de setembro de 2020.

A Venezuela está comprando petróleo iraniano com aviões cheios de ouro, 8 de novembro de 2020.

Irã envia a maior frota de petroleiros de todos os tempos para a Venezuela15 de dezembro de 2020.

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As Forças de Defesa de Israel fazem uma abordagem ampla ao lidar com a ameaça iraniana16 de dezembro de 2020.

Com a série de espiões "Teerã", os israelenses alcançam um inimigo1º de outubro de 2020.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

COMENTÁRIO: O treinamento militar do Irã de acordo com um iraniano

Por Justen Charters, Coffee or Die, 1º de março de 2019.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 5 de fevereiro de 2021.

Nota do autor: A República Islâmica do Irã não tem relações diplomáticas com os Estados Unidos. No Irã, a mídia e a internet são monitoradas de perto pelo governo. No entanto, é impossível monitorar todo mundo. E às vezes, apesar do tremendo risco envolvido, um iraniano está ansioso para compartilhar sua história e revidar a propaganda generalizada que o governo do Irã usa para controlar seu povo.

A vasta base militar ficava nos arredores de uma pequena cidade. O solo estava quase congelado. Não havia uma única árvore ou vegetação à vista. Edifícios de concreto compunham o complexo onde Farhad (pseudônimo) receberia seus dois meses de treinamento militar obrigatório. Ele usava um uniforme marrom claro e verde escuro, um cinto e um par de botas de combate de fabricação ruim.

Primeiro, Farhad marchou por um tempo. Depois disso, sua foto foi tirada, junto com os outros recrutas. Ele então foi levado ao seu alojamento e beliche. Embora muitos campos de treinamento no Irã não permitam deixar a base, ele tinha permissão para voltar para casa todo fim de semana.

“Os soldados precisam de comida. A comida deles era uma merda - arroz com pedacinhos de carne - e isso ajudava a diminuir as despesas”, disse.

A comida pode ter sido ruim, mas permanecer ligado à família foi um dos benefícios. Ele e os outros podiam ligar para casa a qualquer hora depois das cinco da tarde, usando as cabines telefônicas instaladas no terreno da base.

Quanto ao treinamento que recebeu, Farhad chamou de “piada”, principalmente a parte de tiro.

A arma que ele recebeu - um fuzil Heckler & Koch G3 - existe desde 1959. Se ele fizesse parte do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, ou Sepâh), teria recebido um AK-47. De acordo com Farhad, você sai da base uma vez e atira uma dúzia de balas. Seus resultados são escritos em um cartão de pontuação e, em seguida, ele está de volta à ficar marchando. “Você marcha muito”, lembrou.

"Eles não estão tentando formar soldados. Eles querem uma força de trabalho."

Soldados iranianos em um quartel de treinamento básico. Captura de tela do vídeo postado no Youtube por Persian_boy.

Farhad descreveu ainda mais o que aprendeu sobre armas: “Não muito. Alcance efetivo. Alcance de fogo total. Calibre. Cadência de tiro. Peso. Quantas balas eles levam. Como descarregar. Como mirar. Como verificar uma arma com segurança. Como limpar sua arma. Como transportá-la. Quantas maneiras existem para carregá-la. Diferentes tipos de armas nas forças armadas. Coisas assim."

Além disso, ele não recebeu nenhum treinamento de combate desarmado ou treinamento médico. “Eles não estão tentando formar soldados. Eles querem uma força de trabalho ”, disse Farhad.

Mais do que realmente treinar em combate ou tática, a República Islâmica do Irã está interessada em criar soldados submissos à sua ideologia religiosa. Farhad disse que a doutrinação religiosa era uma parte importante da sua experiência de treinamento, mas ele e muitos outros não levavam os sermões a sério. Na verdade, eles questionariam e zombariam da palestra do mulá sempre que tivessem a chance.

“Os mulás realmente ficaram frustrados conosco”, disse Farhad. “Ninguém se importava com eles e zombava deles quando podia e ria e discutia com eles e apontava buracos em seus argumentos o tempo todo.”

Quando questionado se isso resultou em punições para ele ou qualquer outra pessoa envolvida, Farhad disse que não. “Não tivemos problemas. Quase todo mundo estava fazendo isso.”

Mesmo os graduados (sargentos) na base não seguiam as regras escritas que o regiam.

Em uma noite de serviço, Farhad sentiu um cheiro estranho. Havia um lugarzinho fora do refeitório que estava quase totalmente bloqueado e, quando ele olhou para fora, viu dois sargentos fumando. Não demorou muito para descobrir que estavam fumando maconha, o que é um crime para um soldado do exército iraniano. Ele investigou mais pela manhã, encontrando restos de dezenas de charutos de maconha no chão.

Soldados iranianos marchando. Captura de tela do vídeo postado no Youtube por Persian_boy.

As botas de Farhad e o frio gélido deram-lhe os maiores problemas, no entanto. Além das bolhas nos pés por causa das marchas, ele também teve uma infecção para tratar. E apesar do frio que fazia, as forças armadas não forneciam roupas quentes o suficiente para seus recrutas. Durante um serviço de guarda particularmente frio, ele e os outros do detalhe de serviço dividiram um único poncho, cada um usando-o por alguns minutos para se aquecer.

Quando o treinamento foi concluído, houve uma cerimônia em que todos se vestiram melhor, mas, ao contrário da graduação do treinamento básico nos Estados Unidos, a família e os amigos não foram autorizados a comparecer. Que ele se lembre, apenas um recruta não conseguiu completar o treinamento.

Farhad então passou dois anos no exército iraniano, o que apenas solidificou a impressão negativa que ele já tinha.

“É um sistema tão ruim, não confiável e quebrado”, disse ele. “Sempre que vejo esses sites falando sobre o poderio militar do Irã, dou risada. Eles não têm ideia do que estão falando.”

Bibliografia recomendada:

Os Iranianos.
Samy Adghirni.

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Irã envia a maior frota de petroleiros de todos os tempos para a Venezuela15 de dezembro de 2020.

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As Forças de Defesa de Israel fazem uma abordagem ampla ao lidar com a ameaça iraniana16 de dezembro de 2020.

Com a série de espiões "Teerã", os israelenses alcançam um inimigo1º de outubro de 2020.

GALERIA: A Uzi iraniana3 de março de 2020.

A influência iraniana na América Latina, 15 de setembro de 2020.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

Com a série de espiões "Teerã", os israelenses alcançam um inimigo

Esta imagem divulgada pela Apple TV+ mostra Niv Sultan como Tamar Rabinyan em uma cena de "Teerã".
(Apple TV+ via AP)

Por Mark Kennedy, Associated Press, 25 de setembro de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 1º de outubro de 2020.

NOVA YORK (AP) - As coisas não são como parecem na nova série da Apple TV+, “Teerã” - como deveriam ser em um thriller de espionagem.

A série começa com um vôo comercial da Jordânia para a Índia que é repentinamente desviado para o Irã. Alguns passageiros a bordo têm segredos. Esses segredos logo terão jatos de guerra levantando vôo e uma caçada humana oculta lançada.

Trailer

Tão audaciosa quanto a premissa, “Teerã” é igualmente ousada: uma produção israelense que oferece aos telespectadores uma visão simpática do Irã - um dos maiores inimigos de Israel - sem que ninguém da produção coloque os pés na República Islâmica.

“O núcleo do programa é lidar com a questão da identidade, nacionalidade, imigração e raízes familiares”, disse Moshe Zonder, de Tel Aviv, o co-criador e co-escritor do programa. “Ele pergunta como nos conectamos a eles e nossa obrigação para com eles e como podemos nos livrar deles? Isso é relevante para todos no globo”.

“Teerã” é centrado em uma agente-hacker de computador que realiza sua primeira missão na capital do Irã, que também é o lugar de seu nascimento. Quando a missão dá errado, o agente tem que sobreviver por sua própria perspicácia.

Com vários dos mesmos atores e apresentando uma espiã lidando com intrigas do Oriente Médio e da Ásia Central em seu centro, alguns espectadores podem ver semelhanças com a temporada recém-concluída de “Homeland”.

A atriz brasileira Morena Baccarin, na série Homeland, ao lado do ator Damian Lewis, famoso pelo papel do Major Dick Winters na série Band of Brothers.

“Não há um inimigo claro. Não se trata de um lado contra o outro. É realmente sobre as pessoas”, disse Niv Sultan, de Tel Aviv, uma atriz israelense que interpreta a heroína espiã de“ Teerã". “Pela primeira vez, mostramos um ponto de vista diferente deste conflito”.

O cenário da série definitivamente não é o que parece. Seções da capital grega, Atenas, representaram Teerã, depois que a co-criadora Dana Eden visitou o país europeu em férias com a família e ficou impressionada com as semelhanças visuais entre as duas cidades. Os israelenses são proibidos de visitar o Irã.

Transformar Atenas em Teerã significou substituir postes de luz, placas de carros e placas de rua, bem como adicionar vendedores de rua e placas de fachada. O aeroporto de Atenas foi usado para imitar o de Teerã e, em uma cena, um enorme mural do tamanho de um prédio retrata um aiatolá, um acréscimo graças aos efeitos especiais de computador.

Esta imagem divulgada pela Apple TV+ mostra Navid Negahban como Masoud Tabrizi em uma cena de "Teerã".
(Apple TV+ via AP)

Por meses antes das filmagens, Sultan mergulhou-se nas artes marciais israelenses Krav Maga e nas aulas intensivas de Farsi. Ela inicialmente abordou a atribuição do idioma com confiança, pensando que sua formação ajudaria.

“Eu pensei: 'Tudo bem. Sem problema'. Meu pai fala marroquino, que é árabe. Eu estava tipo, ‘Tudo bem, marroquino, farsi - provavelmente será parecido’. Não! Não tem nada a ver com hebraico e nem com árabe. A pronúncia é tão, tão difícil para um falante de hebraico”.

Zonder - que atuou como redator principal na primeira temporada de “Fauda”, a série de ação inovadora sobre o conflito israelense-palestino - passou anos pesquisando e escrevendo “Teerã”.

As duas séries compartilham uma tentativa de humanizar os inimigos. Em "Fauda", Zonder mostrou como um líder do Hamas com sangue israelense nas mãos também era um homem de família, assim como faz com o principal oficial de segurança iraniano perseguindo a heroína em "Teerã".

Zonder disse que voltou aos seus dias como jornalista investigativo, quando se sentava com os líderes do Hamas e da OLP e os entrevistava para entender seus pontos de vista.

“Eu sempre quero cruzar fronteiras - física e mentalmente - a fim de encontrar aquele que me disseram durante toda a minha vida é meu inimigo”, disse ele.

Esta imagem divulgada pela Apple TV+ mostra Shaun Toub como Faraz Kamali em uma cena de "Teerã". (Apple TV+ via AP)

Embora hoje o Irã e Israel sejam inimigos mortais, a série revela sua história compartilhada e o respeito que israelenses e iranianos tinham pelas culturas uns dos outros antes da Revolução Islâmica.

“É um país incrível. Eles têm uma natureza incrível, vistas e comida. Com sorte, algum dia, eu poderia visitar o Irã e Teerã”, disse Sultan. “Mas, por agora, estou me concentrando na possibilidade de que talvez nossa série abra os corações das pessoas e talvez abra um pouco de diálogo entre israelenses e iranianos”.

Embora a intenção possa ter sido construir pontes, a recepção do regime iraniano à série foi fria. O jornal Kayhan, alinhado ao governo, chamou a série de uma “produção anti-iraniana” que revela a agenda “pró-Ocidente e promíscua” de ativistas anti-Irã.

Ainda assim, isso não impediu os cineastas de esperarem que alguns no Irã encontrem uma maneira de ver o show e ficarem tocados com o que os israelenses estão alcançando.

“Embora não seja um documentário, é muito importante para nós que as pessoas do Irã vejam o show e pelo menos alguns deles sintam que alguns dos personagens são representativos”, disse Zonder.

Bibliografia recomendada:

Os Iranianos.
Samy Adgbirni.

Leitura recomendada:

O papel da América Latina em armar o Irã16 de setembro de 2020.

A influência iraniana na América Latina15 de setembro de 2020.

O desafio estratégico do Irã e da Venezuela com as sanções13 de setembro de 2020.

COMENTÁRIO: 36 anos depois, a Guerra Irã-Iraque ainda é relevante24 de maio de 2020.

PERFIL: Abu Azrael, "O Anjo da Morte"18 de fevereiro de 2020.

O regime do Irã planeja destruir a tumba de Ester e Mordechai?21 de fevereiro de 2020.

Israel provavelmente enfrentará guerra em 2020, alerta think tank1º de março de 2020.

GALERIA: A Uzi iraniana3 de março de 2020.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

O papel da América Latina em armar o Irã

Pela equipe do TIO, Center for Security Policy, 16 de março de 2015.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 16 de setembro de 2020.

Já se passaram quase cinco anos desde que as Forças Especiais da Colômbia detiveram Walid Makled Garcia. Depois de extraditar o chefão do tráfico para seu país natal, a Venezuela, um juiz finalmente decidiu sobre seu destino no mês passado [fevereiro de 2015]. O narcotraficante foi condenado a 14 anos de prisão por tráfico de drogas e financiamento do grupo guerrilheiro conhecido como Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Fuerzas Armadas Revolucionarias da Colômbia, FARC). Vinte e quatro horas após a sentença, o presidente Nicolas Maduro mandou prender o juiz governante por ser muito leniente.

O presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, havia informado inicialmente aos Estados Unidos em 2009 que Walid Makled havia sido detido; no entanto, o governo dos EUA não viu necessidade de extraditar o criminoso. Segundo o presidente Santos, os Estados Unidos não acreditavam que ele fosse uma pessoa de interesse. Como a administração estava errada!

Relatos de ex-confidentes de Hugo Chávez confirmam que o regime venezuelano realmente esteve envolvido na mediação de negócios entre o Irã e a Argentina. Walid Makled havia professado sua disposição de ajudar a inteligência americana a expor o apoio do governo venezuelano aos cartéis de drogas, organizações terroristas e várias nações hostis - principalmente a da República Islâmica do Irã.

Em 2007, o presidente Chávez foi uma figura-chave no estabelecimento de pagamentos para a campanha do regime iraniano à então candidata presidencial Cristina Kirchner. Em troca, os iranianos receberiam know how nuclear do ministro da Defesa argentino.

"Isso é uma questão de vida ou morte. Preciso que você seja um intermediário com a Argentina para obter ajuda para o programa nuclear do meu país. Precisamos que a Argentina compartilhe sua tecnologia nuclear conosco. Será impossível avançar com nosso programa sem a cooperação da Argentina."

Foi noticiado que a atual embaixadora argentina na Organização dos Estados Americanos e ex-militante de esquerda, Nilda Garre, atuou como principal negociadora entre os departamentos de defesa iraniano e argentino.

Os informantes afirmaram que nunca testemunharam a troca direta de tecnologia nuclear. No entanto, após um exame mais aprofundado, o reator de água pesada localizado fora de Arak no Irã e Atucha na Argentina compartilham muitas semelhanças estruturais e tecnológicas. Coincidentemente, o reator em Arak foi concluído após o acordo proposto entre as duas nações.

Atentado à bamba na Associação Mútua Israelita-Argentina (Asociación Mutual Israelita Argentina, AMIA) em 18 de julho de 1994.

Além de acordos secretos entre o Irã e a Argentina, foi divulgada a notícia de que o Irã tem enviado ajuda financeira abertamente a organizações muçulmanas para influenciar a sociedade argentina. Yussef Khalil, pessoa interessada no assassinato de Alberto Nisman, declarou que Mohsen Rabbani, o mentor do atentado à AMIA de 1994 em Buenos Aires, tem enviado dinheiro para a Argentina para continuar a disseminar o islamismo xiita iraniano - assim como a ideologia revolucionária islâmica.

Só podemos imaginar como os acontecimentos no Oriente Médio poderiam ter sido diferentes se a transferência de tecnologia nuclear entre a Argentina e o Irã tivesse sido interrompida. Os Estados Unidos deveriam ter aproveitado a oportunidade para questionar Walid Makled Garcia.

As informações que Walid Makled tinha na época poderiam ter impedido o regime iraniano de desenvolver sua tecnologia nuclear atual. Agora o mundo aguarda os detalhes de um acordo nuclear que inevitavelmente levará o Irã a obter uma arma nuclear.

Bibliografia recomendado:

O Mundo Muçulmano.
Peter Demant.

Leitura recomendada:

A influência iraniana na América Latina15 de setembro de 2020.

O desafio estratégico do Irã e da Venezuela com as sanções13 de setembro de 2020.

COMENTÁRIO: 36 anos depois, a Guerra Irã-Iraque ainda é relevante24 de maio de 2020.

Um olhar mais profundo sobre a interferência militar dos EUA na Venezuela4 de abril de 2020.

PERFIL: Abu Azrael, "O Anjo da Morte"18 de fevereiro de 2020.

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GALERIA: A Uzi iraniana3 de março de 2020.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

A influência iraniana na América Latina

Soldados do Exército da República Islâmica do Irã marchando em frente aos comandantes de mais alto escalão das Forças Armadas da República Islâmica do Irã durante o desfile da Semana da Defesa Sagrada, 22 de setembro de 2011. (Reza Dehshiri)

Pelo Sergeant Major Jorge A. Rivera, Army University Press, 19 de julho de 2019.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 15 de setembro de 2020.

“Este artigo foi influenciado pelo Livro de Trabalho de Metodologia de Avaliação de Vulnerabilidade do Asymmetric Warfare Group (Grupo de Guerra Assimétrica) e o livro Iran's Strategic Penetration of Latin America (A Penetração Estratégica do Irã na América Latina), editado por Joseph Humire e Alan Berman.”

- Sgt. Maj. Jorge A. Rivera, NCO Journal.

Quando os líderes e planejadores do Exército dos EUA enfrentam problemas mal-estruturados em ambientes operacionais ambíguos e complexos, eles usam um processo denominado Metodologia de Projeto do Exército (Army Design Methodology, ADM). De acordo com a Publicação de Técnicas do Exército 5-0.1: Metodologia de Projeto do Exército:

"A metodologia de projeto do Exército é uma metodologia para aplicar o pensamento crítico e criativo para compreender, visualizar e descrever problemas e abordagens desconhecidos para resolvê-los (ADP 5-0). Ao definir primeiro um ambiente operacional e os problemas associados, o ADM permite que os comandantes e os estados-maiores pensem a situação em profundidade." (Departamento do Exército, 2015, p. 1-3)

Enquadrando o Ambiente Operacional

A análise do ambiente operacional se concentrará no TBA (Tri-Border Area, Tríplice Fronteira), onde o alcance do Irã é o mais significativo. Esta região consiste na Argentina, Paraguai e Brasil.

A Área da Tríplice Fronteira (TBA). À esquerda está o Paraguai. À direita está o Brasil. E no fundo está a Argentina. Foto tirada em 6 de janeiro de 2011. (Phillip Capper/NCO Journal)

Variáveis Políticas

O TBA, com suas fronteiras abertas e infraestrutura de conexão, tornou-se um leito quente do comércio ilícito (Neumann & Page, 2018). A BBC News relata: "A área atrai turistas de todo o mundo, que viajam para ver as cachoeiras e a exuberante floresta tropical. Mas também tem a reputação de ser um centro de contrabando e tráfico de drogas em grande escala" ("Tesoureiro do Hezbollah Barakat preso", 2018, parágrafo 6). Também deve ser observado que o Hezbollah, de acordo com o jornalista Ian Talley do The Wall Street Journal, é uma "milícia libanesa apoiada pelo Irã designada como um grupo terrorista pelos EUA" (Talley, 2018, parágrafo 1). Matthew Levitt (ex-funcionário do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e especialista no Hezbollah) em sua entrevista ao The Washington Institute disse que as ações do Irã e do Hezbollah estão no radar dos EUA desde 1994 com o atentado à bomba de um importante centro comunitário judaico na Argentina chamado Associação Mútua Israelita-Argentina (Asociación Mutual Israelita Argentina, AMIA) (Levitt, 2016). E em 15 de outubro de 2018, o Departamento de Justiça dos EUA designou o Hezbollah como uma das principais organizações criminosas transnacionais ("Sessões do Procurador-Geral", 2018).

Paraguai

A corrupção sistêmica e o estado de direito limitado no Paraguai permitem que os cartéis de drogas mantenham o poder irrestrito. O Paraguai é frequentemente descrito como um paraíso fiscal, que é definido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (Organisation de coopération et de développement économiques, OCDE) como tendo "Nenhum ou apenas impostos nominais; falta de troca efetiva de informações; falta de transparência na operação do legislativo, jurídico ou disposições administrativas"(Glossário de Termos Fiscais, sd, parágrafo 27). Ser um paraíso fiscal torna o Paraguai muito lucrativo para os cartéis de drogas que fazem lavagem de dinheiro (Ottolenghi, 2019). De acordo com o Projeto Contra-Extremismo (Counter Extremism Project), o Hezbollah arrecada cerca de 200 milhões de dólares por ano através do TBA e os transfere/lava através do Paraguai por causa de suas leis tributárias suaves. ("Paraguai", sd)

Brasil

Também localizado na TBA, e como o Paraguai, o governo brasileiro luta contra a influência do Hezbollah. No Business Insider, o jornalista investigativo brasileiro Leonardo Coutinho informou o Comitê de Relações Exteriores da Câmara e disse: "Investigações oficiais conduzidas por autoridades argentinas, americanas e brasileiras revelaram como o Brasil figura na intrincada rede criada para exportar a revolução islâmica do Irã para o ocidente"(Lopez, 2015, para. 8).

O New York Times informa que em maio de 2013, o promotor argentino assassinado Alberto Nisman divulgou uma acusação "delineando como o Irã havia penetrado não apenas na Argentina, mas também no Brasil, Uruguai, Chile, Guiana, Paraguai, Trinidad e Tobago e Suriname, e como usou mesquitas, organizações de serviço social e suas próprias embaixadas para radicalizar e recrutar terroristas"(Dubowitz & Dershowitz, 2017, para. 12).

Argentina

Como os outros dois países da TBA, os sistemas político, judicial e econômico da Argentina promovem vulnerabilidades ao financiamento do terrorismo por meio da corrupção institucionalizada, evasão fiscal e lavagem de dinheiro. De acordo com o The New York Times, até a ex-presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, esteve envolvida em negociações duvidosas durante seus dois mandatos presidenciais e atualmente está sendo julgada por aceitar subornos de empresas de construção em troca de contratos governamentais lucrativos (Londoño & Politi, 2019 ; Misculin, 2019).

Para ilustrar melhor o clima político na Argentina, o Centro para Políticas de Segurança (Center for Security Policy) declara:

"O Irã tem enviado ajuda financeira abertamente a organizações muçulmanas para influenciar a sociedade argentina. Yussef Khalil, pessoa interessada no assassinato de Alberto Nisman, declarou que Mohsen Rabbani, o mentor do atentado à AMIA de 1994 em Buenos Aires, tem enviado dinheiro para a Argentina para continuar a disseminar o islamismo xiita iraniano - assim como a ideologia revolucionária islâmica." ("O papel da América Latina em armar o Irã", 2015, parágrafo 9)

Variáveis Militares

Uma bandeira do Hezbollah hasteada sobre uma peça de artilharia abandonada no terreno da antiga prisão ESL (Exército do Sul do Líbano), em 2 de janeiro de 2007. (Paul Keller)

Recentemente, as forças de segurança da Argentina, Brasil e Paraguai começaram a realizar esforços individuais e cooperativos para conter as atividades ilícitas do crime organizado e de grupos terroristas na TBA. Por exemplo, o Grupo de Ação Financeira da América Latina (GAFILAT) inclui as três nações da TBA, bem como todos os países latino-americanos, em um esforço para combater o financiamento do terrorismo e a lavagem de dinheiro ("Força-Tarefa de Ação Financeira da América Latina", sd).

Com a prisão em 2018 do financista do Hezbollah, Assad Ahmad Barakat, todos os três países da TBA mostraram que agora estão trabalhando juntos para limpar esta região. Promotores paraguaios ordenaram a prisão de Barakat, a Unidade de Inteligência Financeira da Argentina congelou os ativos de 14 libaneses ligados ao Hezbollah e a polícia brasileira realizou a prisão de Barakat (Ottolenghi, 2018; "Tesoureiro do Hezbollah", 2018).

Variáveis Econômicas

Edward Luttwak, do Grupo de Estudos de Segurança Nacional do Pentágono, afirma que a TBA é a base mais importante do Hezbollah fora do Líbano ("Hezbollah", 2018). Ilan Berman, vice-presidente sênior do Conselho de Política Externa Americana (American Foreign Policy Council) em DC e consultor da Agência Central de Inteligência (Central Intelligence Agency, CIA), escreve: "A América Latina há muito funciona como um teatro de apoio para o Irã e seus representantes, com dinheiro gerado por meio de atividades no mercado cinza e negro devolvidas para beneficiar o regime iraniano ou seus grupos afiliados”(Berman, 2014, pg. 4).

Em 2018, o presidente do Instituto Brasileiro de Ética na Concorrência (ETCO, organização fiscalizadora dos negócios e da ética), Edson Vismona, estimou que a TBA gere cerca de US$ 43 bilhões por ano por meios legais e ilegais, com grande parte disso indo para organizações criminosas e terroristas (Quiroga, 2018). O preocupante é que não é apenas o Hezbollah colhendo lucros e utilizando táticas de lavagem de dinheiro. Al-Qaeda, Hamas, o Estado Islâmico e outras organizações criminosas e terroristas também têm células na TBA (Brancoli, 2019).

Variáveis Sociais

Atualmente, estima-se que cerca de 90% dos árabes na TBA são descendentes de libaneses. Acredita-se que a população árabe cresceu na TBA em duas ondas. Primeiro na década de 1950 após a Guerra Árabe-Israelense, e então na década de 1980 durante a Guerra Civil Libanesa (Neumann & Page, 2018, pg. 56).

O autor e especialista em segurança global Joseph Humire explica "No nível tático, o Irã usa sua penetração cultural para obter acesso a indivíduos proeminentes dentro das comunidades islâmicas e indígenas em toda a região" (Humire, 2014, pg. 96).

Cultura e centros culturais são um nível de entrada lógico de uma perspectiva de base, guerra não-convencional e subversão. As redes construídas em centros culturais podem estabelecer empresas de fachada, redes de inteligência e apoio eleitoral (Humire, 2014).

Variáveis de Informação

Não há método melhor para penetrar na cultura e na sociedade do que o controle e a manipulação de informações (Departamento do Exército, 2018). O Irã investiu significativamente na divulgação pública em todo a TBA e lançou canais de televisão em espanhol e inglês.

A HispanTV é um meio de comunicação iraniano que lançou seu website em 2010 e seu sinal de TV em 2011. Sua missão é "Trabalhar sob o forte compromisso como meio de comunicação para promover a aproximação entre os povos do Irã, os hispano-americanos e aqueles do Oriente Médio, considerando também a necessidade de criar uma maior proximidade entre todos os povos da América Latina” (“Nós”, sd, parágrafo 3).

De acordo com a Liga Anti-Difamação (Anti-Defamation League, ADL), líder global na luta contra a retórica do ódio e crimes de ódio, "Aumentar sua influência na América Latina tem sido uma forte característica da política externa do governo iraniano na última década, e a HispanTV serve como um plataforma para divulgar as teorias da conspiração de Teerã, negação do Holocausto e anti-semitismo" ("A HispanTV do Irã", 2013, parágrafo 5). O artigo da ADL continua a documentar várias publicações anti-semitas que a HispanTV publicou e afirma que o YouTube desativou o recurso de transmissão ao vivo da HispanTV devido ao material anti-semita que estava transmitindo em 2013.

A PressTV é outro canal de notícias de TV patrocinado pelo Irã. A PressTV entrega a mensagem iraniana sob o disfarce de diversidade e unidade para um público de língua inglesa. É fácil reconhecer que as culturas do Irã e da América Latina são bastante diferentes, mas "as sementes dessa relação intercultural improvável há muito foram plantadas quando Fidel Castro e Muammar Kadafi fundaram o Al-Mathada, um aparato de propaganda conjunto projetado para coordenar mensagens anti-americanas em ambos os hemisférios "(Perdue, 2014, pg. 13).

Estado Atual do Ambiente Operacional

Operadores especiais do exército brasileiro fazem fila para mostrar alguns de seus equipamentos e capacidades durante uma demonstração para representantes do Exército dos EUA em Goiânia, Brasil, 25 de julho de 2017. (Tenente-Coronel Carol McClelland/ Exército Sul dos EUA)

Há uma crescente população muçulmana, não apenas na TBA, mas em toda a América Latina. O Relatório de Liberdade Religiosa Internacional de 2015 do Departamento de Estado dos EUA estimou que quase três milhões de muçulmanos residiam na América Latina e no Caribe em 2015. Isso representa um aumento de 23% em um período de cinco anos (Mora, 2016). Isso significa que a população muçulmana continuará crescendo no futuro e a cultura latino-americana será influenciada pelo Oriente Médio.

"A penetração do Irã na América Latina é de importância estratégica para a República Islâmica, uma vez que tenta construir aliados diplomáticos, lavar dinheiro sancionado e posicionar seus Guardas Revolucionários e representantes terroristas para atacar alvos ocidentais" (Hirst, 2014, pg. 21).

Estado-Final Desejado do Ambiente Operacional

O estado-final desejado é aquele em que os Estados Unidos têm permissão para participar. Uma parceria cooperativa de segurança de fortes democracias regionais para garantir a segurança e estabilidade em toda a região é essencial para promover as condições necessárias para o crescimento econômico. Para enfrentar os principais desafios de pobreza e desigualdade, eficácia do governo, corrupção, crime e terrorismo, os Estados Unidos devem ajudar a formar uma força-tarefa conjunta na qual sejam usados vários departamentos de cada país. Isso exigirá uma "integração contínua de vários elementos do poder nacional - diplomacia, informação, economia, finanças, inteligência, aplicação da lei e forças armadas" (Mattis, 2018, pg. 4).

Enquadrando o Problema

“O enquadramento de problemas identifica aquelas questões que impedem o comando de atingir seu estado-final desejado” (Departamento do Exército, 2015, pg. 4-4).

O problema na América Latina é melhor enquadrado pelo ex-comandante do Comando Sul Americano (U.S. Southern Command), Almirante Kurt W. Tidd, em sua Declaração de Postura de 2017 perante o Comitê dos Serviços Armados do 115º Congresso do Senado:

"Os fluxos ilícitos de bens e pessoas, e a violência e corrupção que esses fluxos alimentam em casa e no exterior, são manifestações visíveis de ameaças complexas adaptativas em rede. As redes de ameaças transregionais e transnacionais são agora a principal ameaça à segurança e estabilidade regional. Estas redes operam sem restrições de limites legais e geográficos, sem restrições de moralidade e alimentadas por enormes lucros." (Tidd, 2017, pg. 5)

Para atingir os objetivos das forças amigas, é importante que os planejadores identifiquem as capacidades adversas críticas.

Financiando o Esforço

Tanto o Irã quanto seus representantes (Hezbollah) estão usando a TBA para lavar dinheiro, adquirir suporte, controlar a infraestrutura e contornar as sanções e leis internacionais.

Manter um Ambiente Permissivo

A corrupção tem sido a chave para os criminosos manterem um ambiente permissivo, mantendo os legisladores pagos e no poder. Proporciona liberdade de manobra a criminosos e terroristas.

Construir e Manter Relacionamentos

O Irã investiu pesadamente em diplomacia e operações de informação de uma abordagem de cima para baixo. O Hezbollah tem raízes profundas na comunidade libanesa dentro da TBA e em toda a região.

Enquadrando a Solução

Esta seção usa uma abordagem operacional para descrever, em termos gerais, as ações que o governo dos Estados Unidos deve tomar para transformar as condições atuais no estado final desejado de uma parceria que diminuirá a corrupção e as atividades ilegais na TBA.

Diplomática

Recentemente, todos os três países da TBA elegeram líderes que priorizaram o crime e a corrupção (Ottolenghi & Stein, 2018). O objetivo, então, é que os novos governos e os EUA trabalhem juntos para manter a pressão sobre o Hezbollah e suas atividades ilegais na TBA, a fim de secar um de seus principais centros globais de arrecadação de fundos. Isso mostrará à região que os EUA estão trabalhando com os países para garantir a estabilidade de longo prazo na região.

Informação

Uma abordagem seria trazer de volta a Agência de Informações dos EUA (U.S. Information Agency, USIA). Esta solução é apoiada em escala global por James Clapper, ex-Diretor de Inteligência Nacional, com o objetivo de combater a informação e desinformação dos nossos adversários (Muñoz, 2017). Se a USIA pudesse operar na América Latina, ela ganharia a capacidade de conter as mensagens do Irã, especialmente por meio de suas estações de TV. Isso pode ser feito secretamente ou abertamente através dos meios de comunicação. Esta solução pode permitir aos EUA a capacidade de combater as mensagens anti-americanas em nível de base.

Militar

A cooperação em segurança deve continuar a melhorar. A abordagem, no entanto, deve incluir uma campanha de mensagens que coloque a colaboração como prioridade e remova qualquer dúvida de presença forçada.

Econômica

Em vez de se opor a alianças alternativas ao Acordo de Livre Comércio da América do Norte (North American Free Trade Agreement) ou Área de Livre Comércio das Américas (Free Trade Area of the Americas), alianças como Mercosul, ALBA e Aliança do Pacífico deveriam ser validadas. De acordo com o Conselho de Relações Exteriores, “as economias do Mercosul recentemente sinalizaram uma disposição para se abrir a outros mercados” (Felter, Renwick, & Chatzky, 2019, parágrafo 3). Essa pode ser a abertura que os EUA precisam não apenas unificar economicamente a TBA, mas a América Latina como um todo.

Conclusão

Está amplamente documentado que o Irã se infiltrou na América do Sul, especialmente em toda a TBA. Os EUA estão tomando medidas para combater o narco-terrorismo em toda a região, mas é imperativo que Paraguai, Argentina e Brasil trabalhem juntos para estabelecer uma solução de longo prazo para seus problemas de corrupção e crime.

O Sgt. Maj. Jorge A. Rivera é o praça conselheiro mais antigo para a Diretoria de Engenharia dentro da equipe do 1º Corpo do Exército dos EUA na Base Conjunta Lewis-McChord, Washington. Ele é graduado pela Universidade do Texas em El Paso.

Bibliografia recomendada:

A Guerra Irregular Moderna:
Em políticas de defesa e como fenômeno militar.
General Friedrich August von der Heydte.

Guerra Irregular:
Terrorismo, guerrilha e movimento de resistência ao longo da história.
Major FE Alessandro Visacro.

A Obsessão Antiamericana:
Causas e Inconseqüências.
Jean-François Revel,
da Academia Francesa.

Leitura recomendada:

O desafio estratégico do Irã e da Venezuela com as sanções, 13 de setembro de 2020.

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A Estratégia fracassada dos Estados Unidos no Oriente Médio: Perdendo o Iraque e o Golfo3 de setembro de 2020.

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