Mostrando postagens com marcador Iraque. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Iraque. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 31 de agosto de 2021

O último soldado americano deixa o Afeganistão

Último soldado americano a deixar o Afeganistão.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 31 de agosto de 2021.

Foto do último soldado americano deixando o Afeganistão publicada pelo Comando Central Americano (United States Central Command, US CENTCOM), com o quartel-general baseado em Tampa na Flórida, mas responsável pelo Oriente Médio, Egito, Ásia Central e partes do Sul da Ásia; sendo o comando responsável pelo Afeganistão.

"O último soldado americano deixa o Afeganistão.
O General Chris Donahue, comandante da 82ª Divisão Aerotransportada do Exército dos EUA, embarca em um avião de carga C-17 no Aeroporto Internacional Hamid Karzai em Cabul, Afeganistão."

A postagem foi retuitada pelo professor Michael Shurkin, da RAND Corporation, com o comentário:

"Se bem me lembro, as primeiras imagens que vimos das tropas americanas no Afeganistão foram de Rangers fazendo uma incursão à noite. Também em verde de visão noturna. Finais de livros apropriados, eu suponho."

Um epitáfio interessante para a saída inglória dos americanos na calada da noite. A incursão citada pelo professor trata-se da Operação Rhino (Rinoceronte), onde uma tropa de 200 homens (um Chalk valor companhia) do 3º Batalhão Ranger fez um salto de combate, na noite de 19 para 20 de outubro de 2001, sobre uma pista de pouso abandonada nas cercanias de Kandahar, a segunda maior cidade no Afeganistão. O salto foi liderado pelo então Coronel Joseph Votel, comandante do batalhão e atualmente um general de quatro estrelas aposentado.

Rangers embarcando em um dos quatro Lockheed MC-130.

A pista de pouso havia sido bombardeada por aviões de ataque AC-130 Combat Talon e outras aeronaves, causando algumas baixas (30-100 mortos) e dispersando os talibãs. Os Rangers saltaram em zero visibilidade sobre a pista de pouso deserta, com um único talibã tentando atirar nos paraquedistas, mas sendo rapidamente morto a tiros. Os Rangers tiveram dois feridos no salto, e mais tarde dois 2 Rangers mortos na queda de um helicóptero sobrevoando em volta da zona de lançamento (ZL) em missão de Busca e Resgate em Combate (Combat Search and RescueCSAR).

Rangers lançam-se no espaço durante a Operação Rhino na noite de 19 para 20 de outubro de 2001.

Vídeo do salto Ranger na Operação Rhino

O salto foi principalmente uma peça de propaganda, com um risco basicamente inexistente, com os únicos dois mortos por acidente de helicóptero - uma certa tradição americana, com as primeiras baixas ocorrendo dessa forma antes mesmo do início da invasão - e uma ZL virtualmente vazia.

A façanha foi repetida na invasão do Iraque, com o salto sem oposição da ZL Bashur sobre a pista de pouso de 2,1km de Bashur, classificada como "base aérea" no norte do Iraque, na Operação Northern Delay (Operação Atraso ao Norte, o que indica seu objetivo). Na noite de 26 de março de 2003, paraquedistas da 173ª Brigada Aerotransportada (173rd Airborne Brigade), partindo da Itália, saltaram sem oposição sobre a pista abandonada e fizeram a baliza dos vôos de re-suprimento em Bashur.

A operação foi classificada como salto de combate pelo Exército, embora a zona de lançamento já estivesse protegida por forças curdas aconselhadas por forças especiais americanas. O salto, comandado pelo Coronel William Mayville Jr., levou um total de 58 segundos, embora 32 paraquedistas não tenham conseguido saltar porque teriam pousado muito longe do resto da força.

Segundo o Comando americano, a presença dos paraquedistas forçou o Exército iraquiano a manter aproximadamente seis divisões na área para proteger seu flanco norte, fornecendo alívio estratégico para as Forças da Coalizão avançando em Bagdá a partir do sul. A força acabou espalhada em uma zona de lançamento de mais de 9km e levou 15 horas antes de estar completamente reunida. Nas semanas anteriores havia chovido forte e a lama criou problemas para quem saltava. Os paraquedistas protegeram a pista de pouso, permitindo que os aviões C-17 pousassem e trouxessem blindados pesados e os contingentes do 1º Batalhão do 63º Regimento Blindado.

O salto sobre Bashur

Uma força total de 996 ou 969 Sky Soldiers saltaram no dia em 10 Chalks ("Giz"), apelido para o grupo total dentro de uma aeronave. Um Chalk geralmente corresponde a uma unidade do tamanho de um pelotão para operações de assalto aeromóvel (helitransportado) ou a uma organização igual ou abaixo da companhia para operações paraquedistas. Para operações de transporte aéreo, pode consistir em uma unidade igual ou maior que uma companhia. Freqüentemente, uma carga de paraquedistas em uma aeronave, preparada para um salto, também é chamada de Stick.

O termo Chalk foi cunhado pela primeira vez na Segunda Guerra Mundial para tropas aerotransportadas durante a Operação Overlord, a invasão aliada da Europa. O número de vôo da aeronave era colocado nas costas das tropas com giz. Mais tarde, foi usado durante a Guerra do Vietnã, quando era prática comum numerar com giz as laterais dos helicópteros envolvidos em uma operação. No 75º Regimento Ranger do Exército Americano, eles usam o termo Chalk desde uma formação do tamanho de uma companhia ou tão pequena quanto uma esquadra-de-tiro de quatro homens; a menor formação tática.

Bibliografia recomendada:

82nd Airborne.
Fred Pushies.

AIRBORNE:
A Guided Tour of an Airborne Task Force.
Tom Clancy.

Leitura recomendada:



terça-feira, 27 de julho de 2021

FOTO: T-62 iraquiano atolado

Um T-62 iraquiano atolado num pântano durante a guerra contra o Irã, anos 1980.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 27 de julho de 2021.

A Guerra Irã-Iraque, que durou de 1980 a 1988, viu incontáveis batalhas em terreno pantanoso nas regiões de Abadan, próxima à península de al-Faw, de Bostan, nos pântanos de Hawizeh e nas ilhas Majnoon.

O T-62, já ultrapassado pelo T-72, enfrentou carros de combate ocidentais iranianos comprados na época do Xá. Em algumas ocasiões até conseguiram alguns disparos de sorte, mas ambos os lados operavam seus equipamentos com baixíssima capacidade por falta de treinamento.

Chieftain Mk3/5 iraniano nocauteado por um disparo de 115mm de um tanque T-62 iraquiano (munição 3UBM5 ou 3UBM9 APFSDS/Flecha). Disparo de sorte, atravessou o mantelet, o ponto menos blindado possível.

Cena de combate entre iranianos e carros T-72 iraquianos


Bibliografia recomendada:

TANKS:
100 Years of Evolution.
Richard Ogorkiewicz.

Leitura recomendada:




FOTO: T-62M no Passo de Salang, 28 de janeiro de 2020.


quarta-feira, 30 de junho de 2021

FOTO: Combatente xiita iraquiano

Um combatente muçulmano xiita das Saraya al-Salam (Companhias de Paz) na linha de frente de Jurf al-Sakhr ao sul de Bagdá em 18 de agosto de 2014. (AFP)

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 30 de junho de 2021.

As Companhias de Paz (árabe: سرايا السلام, Sarāyā as-Salām), frequentemente mal traduzidas como Brigadas de Paz na mídia americana, são um grupo armado iraquiano ligado à comunidade xiita do Iraque. Eles são um renascimento de 2014 do Exército Mahdi (جيش المهدي Jaysh al-Mahdī) que foi criado pelo clérigo xiita iraquiano Muqtada al-Sadr em junho de 2003 e dissolvido em 2008. Apoiadas pelo Irã, as Companhias de Paz foram recriadas em 2014.

O Exército Mahdi alcançou proeminência internacional em 4 de abril de 2004, quando liderou o primeiro grande confronto armado da comunidade xiita contra as forças dos Estados Unidos e seus aliados no Iraque. O confronto tratou-se de um levante que se seguiu à proibição do jornal de al-Sadr e sua subsequente tentativa de prisão, que durou até uma trégua em 6 de junho. A trégua foi seguida por medidas para desmantelar o grupo e transformar o movimento de al-Sadr em um partido político para participar nas eleições de 2005; Muqtada al-Sadr ordenou que os combatentes do Exército Mahdi cessassem as hostilidades, a menos que fossem atacados primeiro. A trégua foi quebrada em agosto de 2004 após ações provocativas do Exército Mahdi, com novas hostilidades surgindo. O grupo foi dissolvido em 2008, após uma repressão das forças de segurança iraquianas.

No auge, a popularidade do Exército Mahdi era forte o suficiente para influenciar o governo local, a polícia e a cooperação com os sunitas iraquianos e seus apoiadores. O grupo era popular entre as forças policiais iraquianas; além de ser acusado de operar esquadrões da morte. Suas batalhas mais notáveis nesse período foram a Batalha de Karbala em 2007 e o Cerco de Basrah em 2008. Um dos seus membros mais célebres é Abu Azrael, "O Anjo da Morte".

Moqtada al-Sadr (centro) ao lado do clérigo Ali Khamenei e do General Qassem Soleimani, Teerã, 2019.

As Companhias de Paz estavam armadas com uma variedade de armas leves, incluindo dispositivos explosivos improvisados (improvised explosive devicesIEDs). Muitos dos IEDs usados durante os ataques às Forças de Segurança e Forças de Coalizão do Iraque usaram sensores infravermelhos como gatilhos, uma técnica amplamente usada pelo IRA na Irlanda do Norte no início a meados da década de 1990.

O grupo foi re-mobilizado em 2014 para lutar contra o Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIS) e ainda estava ativo em 2016; participando na recaptura de Jurf al-Sakhr (Operação Ashura, 24–26 de outubro de 2014) e na Segunda Batalha de Tikrit (2 de março a 17 de abril de 2015).

Bibliografia recomendada:

Estado Islâmico: Desvendando o exército do terro.
Michael Weiss e Hassan Hassan.

Leitura recomendada:


PERFIL: Abu Azrael, "O Anjo da Morte", 18 de fevereiro de 2020.



GALERIA: Os fuzis AK-74M da Síria, 29 de agosto de 2020.


quinta-feira, 3 de setembro de 2020

A Estratégia fracassada dos Estados Unidos no Oriente Médio: Perdendo o Iraque e o Golfo


Por Anthony H. Cordesman, Center for Strategic & International Studies, 2 de janeiro de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 3 de setembro  de 2020.

É muito tentador para os Estados Unidos se concentrarem na atual crise do confronto entre o Irã e os Estados Unidos no Iraque. Os eventos têm aumentado constantemente desde o final de dezembro. O Irã patrocinou ataques das Forças de Mobilização Popular (Popular Mobilization Forces, PMF) iraquianas contra tropas e instalações americanas - como resultado, os Estados Unidos lançaram ataques de retaliação contra as PMF do Iraque. Isso foi seguido por manifestações e ataques bem organizados à embaixada dos EUA em Bagdá, que foram seguidos por ataques de drones americanos que mataram Qasem Soleimani - o chefe da Força Quds do Irã - e Abu Mahdi al-Muhandis - o chefe da Al -Hashd al-Shaabi, um grupo de milícias iraquianas vinculado ao Irã que estava vinculado a ataques a alvos americanos.

Além disso, o governo central iraquiano praticamente entrou em colapso mesmo antes desses eventos. Sua corrupção, ineficácia e políticas econômicas fracassadas levaram a enormes manifestações populares. Sua legislatura foi praticamente dissolvida após a aprovação da legislação exigindo um sistema diferente, eleito localmente e mais representativo. O primeiro-ministro Mahdi havia renunciado, mas depois permaneceu em uma incerta capacidade "interina". O governo regional curdo permaneceu dividido. Durante todo o tempo, o governo não conseguiu efetivamente ajudar as cidades sunitas no O oeste que foram destruídas na luta com o ISIS.

Parada militar do Estado Islâmico (ISIS) realizada no norte de Raqqa, na Síria, para celebrar a captura de território no vizinho Iraque.

O Exército e a Força Aérea do governo central permaneceram em grande parte separados das forças curdas no norte. Esforços para integrar as várias PMF xiitas e sunitas - que ajudaram a combater o ISIS - nas forças do governo central resultaram em um sistema impraticável, onde essas forças profundamente divididas - muitas com laços estreitos com o Irã - se reportaram diretamente a um primeiro-ministro sem real autoridade que havia perdido seu mandato popular.

Os Estados Unidos enfrentam um risco muito real de que os eventos no Iraque desencadeiem um conflito muito mais sério entre os Estados Unidos e o Irã no Iraque - assim como o Irã no resto da região - para não mencionar que os Estados Unidos enfrentarão grande hostilidade iraquiana sobre o seu uso da força no Iraque, apesar da oposição do governo iraquiano. Os Estados Unidos reduziram novamente sua presença oficial no Iraque, e o embaixador dos EUA alertou os cidadãos americanos a deixarem o país. Ao mesmo tempo, o Iraque não tem um caminho claro para a unidade, a criação de um sistema político viável ou de um governo eficaz, ou as perspectivas de recuperação econômica. Lidar com uma nova crise de cada dia parece frequentemente fora do alcance dos Estados Unidos.

Arrancando a derrota das garras da vitória pela terceira vez

Ao mesmo tempo, o foco na crise atual levou a falhas consistentes na estratégia americana ao lidar com o Iraque e o Oriente Médio nas últimas duas décadas - e já transformou duas aparentes “vitórias” em derrotas no mundo real. Desde a queda de Saddam Hussein em 2003 até o presente, os Estados Unidos nunca tiveram uma grande estratégia viável para o Iraque ou quaisquer planos e ações consistentes que foram além dos eventos atuais.

Dois carros de combate americanos M1 Abrams em frente ao monumento das "Mãos da Vitória", no centro de Bagdá, em 2003.

Os Estados Unidos nunca definiram grandes objetivos estratégicos viáveis, fizeram esforços efetivos para criar um Iraque estável pós-conflito ou mostraram ao povo iraquiano que sua presença realmente serve aos seus interesses. Ao mesmo tempo, o Departamento de Defesa informou que gastou mais de US$ 765 bilhões no conflito no Iraque e na luta contra o ISIS em 31 de março de 2019 - e isso é apenas uma fração do custo direto. Não há um fluxo claro de relatórios sobre os gastos do Estado ou da USAID, mas parece ter atingido outros US$ 100 bilhões.

A atual reação iraquiana aos ataques militares americanos no Iraque e aos ataques à embaixada americana em Bagdá alertam que os Estados Unidos podem estar à beira de arrancarem a derrota das garras da "vitória" pela terceira vez desde 2003.

Soldado americano observa iraquianos derrubando uma estátua de Saddam Hussein, 2003.

Na primeira rodada, os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 para enfrentar uma ameaça inexistente de proliferação e expulsar Saddam Hussein do poder. Os EUA marcaram uma vitória militar maciça, sem nenhum plano para o que aconteceria depois que Saddam fosse removido. O impacto líquido resultou em forças militares iraquianas debilitadas, conflitos sectários profundos e divisões étnicas, o empoderamento de extremistas sunitas e a criação de uma nova guerra.

Na segunda rodada, os Estados Unidos e seus aliados acabaram lutando contra esses extremistas islâmicos de 2004 a 2010. Embora os Estados Unidos tenham derrotado esses extremistas no oeste do Iraque com a ajuda de uma onda maciça de tropas terrestres americanas e a ajuda de forças populares sunitas iraquianas , os Estados Unidos falharam em criar um governo e economia iraquianos estáveis. Os Estados Unidos abandonaram efetivamente seus esforços de construção nacional após 2009 e retiraram suas forças de combate no final de 2011 - criando um vácuo de poder que abriu o Iraque ao ISIS - durante todo o tempo, nunca foi capaz de decidir sobre nenhuma estratégia ativa para estabilizar o Iraque ou lidar com a guerra civil síria. Os EUA se concentraram em derrotar o ISIS - contando com os curdos sírios no processo - e obteve outra "vitória" em 2016-2018 ao dissolver o "califado" do ISIS.

No entanto, os Estados Unidos nunca desenvolveram nenhum plano significativo para lidar com as crises políticas e econômicas do Iraque, para lidar com a Síria ou mesmo para lidar com as dezenas de milhares de prisioneiros do ISIS que sua "vitória" criou. No processo, abriu a Síria para a Rússia, Irã e Hezbollah. Enquanto os Estados Unidos conseguiram reconstruir parcialmente as forças militares oficiais do Iraque, também viram o Irã criar uma poderosa Força de Mobilização Popular (PMF) ligada à influência iraniana. Os Estados Unidos finalmente falharam em garantir que a maioria dos iraquianos visse o papel crítico que os conselheiros e o poder aéreo dos EUA desempenharam na derrota do ISIS, em fazer todos os esforços claros para reformar um governo falido do Iraque ou impulsionar a economia iraquiana, ou garantir que as áreas povoadas destruídas pela luta seriam reconstruídas ou receberiam ajuda efetiva.

Paramilitares das Forças de Mobilização Popular (PMF) de influência iraniana.

A terceira rodada ainda está tomando forma, mas ninguém pode acusar os Estados Unidos de não terem uma estratégia coerente ao lidar com um sistema político iraquiano que não tem coesão - seu governo tão irremediavelmente corrupto e ineficaz - e uma economia que está em um estado de crise que não se desenvolveu desde pelo menos o início da Guerra Irã-Iraque em 1979. Não existe um governo real no Iraque, apenas um primeiro-ministro em exercício e um presidente sem poder real.

Os Estados Unidos tinham cerca de 5.200 conselheiros e forças de treinamento e assistência que tentam reconstruir as forças militares do Iraque pela segunda vez desde 2003; no entanto, não há um plano claro para o futuro, não fizeram nada para convencer os iraquianos de que os esforços dos EUA estão em seu interesse e abandonou efetivamente qualquer esforço sério de reforma econômica, estabilidade e crescimento. O Irã cometeu muitos erros, mas claramente está tentando empurrar os Estados Unidos para fora do Iraque, pois tem fortes laços com milícias importantes e movimentos políticos xiitas. Os Estados Unidos têm a estrutura de uma embaixada completa, nenhum plano claro de influenciar o futuro do Iraque, e um presidente americano que fala sobre retirada, bem como um nível de vitória sobre o ISIS que nunca ocorreu.

De maneira mais ampla, os Estados Unidos perderam constantemente a confiança de seus parceiros estratégicos árabes na região do Golfo. Os Estados Unidos ignoraram seus conselhos durante a invasão em 2003 - fazendo do Irã o poder militar dominante no norte do Golfo, enquanto também transformavam o Iraque em uma fonte constante de fraquezas e preocupações instáveis. Começando com o presidente Obama, os Estados Unidos intimidaram seus aliados pelo compartilhamento de encargos, mesmo quando estavam gastando cerca de 10% de seu PIB em forças militares - levantando questões crescentes sobre a disposição dos EUA de manter seu papel militar no Golfo e apoiar a segurança de seus aliados. Em vez disso, os Estados Unidos sancionaram e provocaram o Irã - sem dissuadi-lo ou reagir adequadamente às ações militares iranianas - permaneceram inativos à medida que a China criava uma grande base e instalações portuárias no Djibuti e permitiram que Rússia, Turquia e China se tornassem atores crescentes nos assuntos do Golfo. Os Estados Unidos adotam uma postura rígida contra o Irã sem agirem de maneira decisiva com base nas suas palavras, e o presidente americano não consegue decidir se os Estados Unidos se retirarão ou permanecerão no Iraque com base no dia da semana.

O Iraque é o principal interesse estratégico da ação política dos EUA na região do MENA* tanto como parceiro quanto como estado verdadeiramente independente

*Nota do Tradutor: Middle East and North Africa (MENA), Oriente Médio e Norte da África.

Os Estados Unidos já perderam muito terreno para ter boas opções no Iraque e no Golfo, mas devem pelo menos evitar perder decisivamente a terceira rodada. O Golfo é importante demais para "abandonar", principalmente se partir significa ceder o Iraque a uma mistura imprevisível de extremismo, conflito civil, estados falidos - como Síria e Iêmen - e seus adversários - como Irã, Rússia, China e a Turquia liderada por Erdogan.

Spetsnaz SSO russos em Palmira, na Síria, em 2017.

Existem muitos casos no Oriente Médio em que as opções são muito ruins para uma ação eficaz americana, a menos que eventos internos imprevisíveis mudem radicalmente um determinado estado. Líbia, Síria, Líbano e Iêmen se tornaram “estados falidos” que são tragédias altamente instáveis - com Argélia e Tunísia como possíveis novos casos a serem adicionados à lista. Ao mesmo tempo, todos têm apenas prioridade terciária em termos de interesses estratégicos dos EUA. Outros parceiros estratégicos como Marrocos, Egito e Jordânia têm prioridade mais alta, mas não enfrentam o mesmo nível de instabilidade e ameaças - exigindo menos esforços externos dos EUA.

O Iraque, no entanto, é uma história diferente. Tem prioridade estratégica crítica para garantir o Golfo, combater o Irã e o extremismo e garantir o fluxo estável das exportações globais de petróleo para atender às crescentes necessidades da economia global. Se os Estados Unidos e seus aliados puderem impedir que o Iraque se torne o "homem fraco do Golfo" - ou seja dominado pelo Irã -, a segurança geral do Golfo será relativamente fácil para os Estados Unidos garantirem, se apenas puderem se decidir se vão permanecer no Golfo e darem à região sua prioridade estratégica adequada.

Comandos iraquianos da Divisão de Operações Especiais, "Divisão Dourada".

Um Iraque forte e unificado não é apenas a melhor defesa prática contra o extremismo regional, mas também se torna um amortecedor crítico que limita o Irã como uma ameaça. Nossos parceiros estratégicos na Península Arábica e Israel serão relativamente seguros. Apesar da falta de uma estratégia clara na Casa Branca, as forças armadas americanas e o CENTCOM dos EUA já tomaram a maioria dos outros passos necessários para defender contra e dissuadir o Irã. O ISIS e o extremismo continuarão sendo uma ameaça duradoura, mas não para o tipo de preocupação que exigiria novos níveis importantes de atenção dos EUA se o Iraque for capaz de resistir a outra divisão entre sunitas e xiitas diante do extremismo crescente.

A verdadeira escala do desafio iraquiano

"Salvar" o Iraque, no entanto, é um desafio muito mais sério do que simplesmente lidar com suas atuais divisões políticas, os remanescentes do ISIS ou os desafios de curto prazo colocados pelo Irã. O Iraque é um estado falido de muitas outras maneiras e enfrenta problemas muito mais sérios do que muitos analistas parecem dispostos a admitir.

Reconstruir a imagem americana no Iraque será um desafio crítico, assim como criar qualquer forma de governança eficaz. No entanto, esses desafios são apenas parte da história. Os atuais protestos e revoltas públicas no Iraque não são simplesmente o resultado da raiva atual contra intervenções estrangeiras, corrupção, más condições econômicas ou falta de oportunidades significativas de emprego.

Policial federal iraquiano disparando um VHS-2 croata, de olhos fechados, contra militantes do Estado Islâmico na Cidade Velha de Mosul, no Iraque, em 28 de julho de 2017.

Os problemas do Iraque são o resultado de problemas estruturais profundos que se combinaram ao longo de décadas de guerra e crises políticas - com fatores como alto crescimento populacional, hiperurbanização, colapso das estruturas econômicas tradicionais, excesso de emprego agudo em indústrias estatais improdutivas, cultivo de água e problemas climáticos, e o equivalente a uma petro-cleptocracia profundamente dividida que reivindica uma parcela muito grande da riqueza petrolífera do país.

O Iraque não apenas precisa "se recuperar" da luta contra o ISIS, mas também das contínuas revoltas étnicas e sectárias desencadeadas pela invasão dos EUA que removeram Saddam sem nenhum plano claro de substituí-lo também. Os Estados Unidos estão reconstruindo toda a economia e o sistema político iraquiano - durante um período que provavelmente levará uma década - e tentando criar uma estrutura política e de governança honesta e eficaz o suficiente para realmente implementar uma reforma abrangente da distribuição econômica nacional da riqueza da nação.

O Iraque também deve combinar esse progresso civil com uma estrutura de segurança que possa criar um Iraque forte e independente o suficiente para proteger a região do Golfo e a estrutura mais ampla do Oriente Médio. Nenhum montante de investimento nos outros estados do Golfo Árabe que já são parceiros estratégicos dos Estados Unidos - Bahrein, Kuwait, Omã, Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos (e na Jordânia na prática) - pode fazer o mesmo para deter e defender-se contra o Irã e garantir as exportações de petróleo do Golfo - 20% do suprimento diário do mundo - como um Iraque forte e unificado que pode se defender e servir a seus próprios interesses econômicos e políticos.

Um Iraque forte e independente é crítico; criar um novo parceiro estratégico não é


Forças especiais iraquianas.

Os Estados Unidos precisam entender claramente que seu objetivo principal deve apoiar a capacidade do Iraque de ser forte e independente, em vez de criar um novo parceiro estratégico. O Iraque seria um complemento ideal à lista atual de parceiros estratégicos dos EUA - e esse objetivo deve ser possível se atender às expectativas e desejos de iraquianos suficientes. As pesquisas de opinião iraquianas - agravadas pela raiva causada pelos ataques dos EUA contra alvos da PMF - são um aviso, no entanto, de que talvez seja tarde demais para atingir esse objetivo.

Consequentemente, a política dos EUA deve se basear no entendimento de que “parceria” não é nem de longe tão crítica quanto limitar a influência de outros estados externos - especificamente a interferência econômica e de segurança iraniana no Iraque. Também não há necessidade do Iraque basear as forças de combate americanas durante o tempo de paz, se suas forças forem suficientemente fortes por si só - mas a criação de tais forças dificilmente significa que o Iraque deve retornar ao tipo de estado militarista que existia sob Saddam Hussein.

Será suficiente que o Iraque tenha forças de segurança unificadas e fortes o suficiente para lidar com distúrbios internos, possa resistir à intervenção iraniana e ao aumento do extremismo, limitar o fluxo de armas e "voluntários" para o Líbano e a Síria, restringir quaisquer ameaças de "área cinza" do Irã e de potências externas, e manter o Iraque seguro por tempo suficiente para que seus vizinhos árabes e os Estados Unidos possam ajudá-lo em caso de uma emergência real.

Por fim, os Estados Unidos também podem achar que um Iraque independente - e não um parceiro estratégico formal - pode ser a chave para quaisquer acordos de segurança duradouros no Golfo que garantam a segurança do Iraque sem deixar o resto da região vulnerável.

O papel do Iraque nas exportações de petróleo e a saúde da economia global


Da mesma forma, os Estados Unidos precisam atualizar seu pensamento estratégico de maneira a moldar uma estratégia que reflita um entendimento adequado da importância atual do Iraque como potência petrolífera e seu papel de garantir o fluxo estável das exportações mundiais de petróleo. Os Estados Unidos podem estar alcançando algum tipo de superávit líquido nas exportações de petróleo, mas também se tornaram muito mais dependentes da saúde geral da economia global do que de suas importações diretas de petróleo, principalmente do Golfo. Além disso, o crescimento econômico e a estabilidade do mundo em desenvolvimento permanecerão dependentes de combustíveis fósseis - e das exportações de energia do Golfo - pelo menos para a próxima geração.

O fluxo de petróleo através do Estreito de Ormuz aumentou de 17,2 milhões de barris por dia (MMBD) em 2014 para 20,7 MMBD em 2018 - um aumento de 20%. A exportação de gás natural líquido (GNL) aumentou para 4,1 trilhões de pés cúbicos (Tcf) por ano. Virtualmente, todos os principais parceiros comerciais dos EUA na Ásia dependem do fluxo estável de petróleo do Golfo - e a Europa também é um importador-chave.

Os países em desenvolvimento em todo o mundo dependem dos portos de petróleo do Golfo para manter os preços acessíveis. O fato dos Estados Unidos não serem mais exportadores líquidos não significa que os preços do petróleo nos EUA não subam imediatamente para os níveis mundiais no momento em que ocorrer uma crise nas exportações do Golfo. No mundo real, "independência energética" é um paradoxo econômico. Como é o caso das nações que são muito mais diretamente dependentes do petróleo do Golfo, todos os empregos e empresas americanas hoje são mais dependentes do fluxo estável de petróleo do Golfo do que em 2000.

O Iraque não é apenas o aspecto mais crítico e incerto da segurança do Golfo, é uma parte essencial desse fluxo de petróleo. O Iraque tem uma “riqueza petrolífera” muito real em um sentido do termo. Possui mais de 147 bilhões de barris de reservas comprovadas de petróleo - cerca de 9% da oferta mundial - e uma proporção muito alta de reservas em relação à produção real (4,6 MMBD em 2018). Ele também possui 125,6 Tcf de reservas de gás, o que poderia alimentar seu desenvolvimento industrial e reduzir seus custos de produção de petróleo.

A Cleptocracia da "Riqueza do Petróleo" do Iraque

A "riqueza do petróleo" do Iraque também é muito limitada em outro sentido: atender às demandas de seu povo. O Departamento de Energia dos EUA indica que os ganhos totais de especialistas em petróleo do Iraque em 2018 totalizaram US$ 91 bilhões. Existem muitas estimativas diferentes do tamanho total da economia do Iraque, mas esse número seria cerca de 40% das estimativas do Banco Mundial do PIB do Iraque em 2018. Mais importante, da perspectiva da estabilidade e segurança iraquianas, o Iraque forneceria apenas cerca de US$ 2.300 em renda per capita anual - ou 39% da estimativa do Banco Mundial de uma renda per capita total de US$ 5.878.

Esse nível de riqueza petrolífera per capita não chega nem perto da riqueza do petróleo para os iraquianos comuns - a grande maioria dos iraquianos vê muito pouco desse dinheiro, e o que eles recebem tende a assumir a forma de subsídios e outras despesas governamentais que chegam às custas do crescimento e benefícios econômicos reais.


Não há como saber quanto desse dinheiro é realmente captado pela elite política e econômica extremamente corrupta do Iraque - mas mesmo se alguém presumisse que o governo do Iraque não era uma cleptocracia, a renda per capita total do petróleo é menos de um terço da renda recebida pelas economias muito mais ricas e estáveis da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos e, no máximo, cerca de um sétimo da renda per capita do petróleo do Kuwait e do Catar.

Mais importante, os iraquianos baseiam suas esperanças e expectativas em um passado em que o Iraque era líder no desenvolvimento e crescimento econômicos da região. Eles também baseiam suas expectativas no total de renda per capita e no desenvolvimento econômico que agora foi alcançado por seus vizinhos árabes mais ricos - um fato que é visível demais para uma população iraquiana que vive desde guerras e crises contínuas desde 1980.

O Banco Mundial estima que o PIB per capita do Iraque em 2018 foi de apenas US$ 5.834, mas o do Bahrein - que quase não tem petróleo - foi de US$ 24.051, o do Kuwait foi de US$ 34.244, o de Omã - com um histórico de desenvolvimento muito mais curto - foi de US $ 16.419, o Catar foi de US$ 69.027 e o da Arábia Saudita US$ 23.219, e os Emirados Árabes Unidos foram de US$ 43.005.

Poucos iraquianos têm alguma idéia desses números, mas todo iraquiano pode ver a diferença de renda refletida em todos os aspectos de sua vida cotidiana. Como resultado, somente essa lacuna é suficiente para explicar a ira e o desprezo iraquianos por sua elite dominante.


Isto é, no entanto, apenas parte da história. Todos os estados do Golfo - incluindo o Irã - canalizam uma grande quantidade de seu petróleo e outras receitas controladas pelo governo para suas elites reais, religiosas, políticas, econômicas e de segurança. Grande parte do dinheiro, no entanto, acaba nas mãos de outros cidadãos. Depois de examinar o governo e o sistema político do Iraque, fica claro que grande parte da renda das exportações de petróleo do Iraque nunca chega aos iraquianos comuns - embora a falha em quantificar o nível relativo de corrupção e cleptocracia seja uma das muitas questões críticas nas estatísticas econômicas internacionais. e praticamente todos os planos de desenvolvimento econômico.

O que está claro é que o nível de cleptocracia no Iraque atingiu o ponto em que afeta todos os iraquianos que não se beneficiam do sistema atual. O fracasso em criar empregos reais com salários reais resulta no uso de subornos para acessar o sistema jurídico, empregos e promoções, serviços governamentais, serviços médicos e de educação e o "preço de mercado" da aplicação da lei.

Olhando além das manifestações, protestos e rodadas atuais de ataques


Os Estados Unidos precisam lidar com a crise atual e com os elementos que evoluirão cada vez mais como consequência do status do Iraque como um estado falido. Não há dúvida de que muitas análises do Iraque, que se concentram nos problemas imediatos - com instabilidade política, problemas estruturais nas eleições e governança iraquianas e a necessidade igualmente imediata de criar forças de segurança mais eficazes - estão corretas. Esses problemas são reais e requerem ações de curto prazo que precisam reagir rapidamente à pressão dos eventos atuais. O mesmo acontece com as necessidades humanitárias imediatas - criadas pelas divisões étnicas e sectárias do Iraque, bem como as lacunas entre as forças regulares do Iraque e a PMF.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos não podem continuar ignorando o aspecto crítico de longo prazo da construção nacional, concentrando-se também na ação de curto prazo que lida estreitamente com os elementos sobreviventes do ISIS e as ameaças mais diretas colocadas pela Força Quds do Irã e milícias populares.

Existem boas razões pelas quais o texto atual da seção World Factbook da CIA sobre a economia iraquiana inclui passagens como:

"A maior parte da economia estatal do Iraque é dominada pelo setor de petróleo, que fornece cerca de 85% da receita do governo e 80% das receitas de câmbio, e é um dos principais determinantes da sorte da economia. Os contratos do Iraque com grandes empresas de petróleo têm o potencial de expandir ainda mais as exportações e as receitas de petróleo, mas o Iraque precisará fazer melhorias significativas em sua infraestrutura de processamento, oleoduto e exportação de petróleo para permitir que esses acordos atinjam seu potencial econômico.

. . . O Iraque está progredindo lentamente, promulgando leis e desenvolvendo as instituições necessárias para implementar a política econômica, e ainda são necessárias reformas políticas para amenizar as preocupações dos investidores em relação ao clima incerto dos negócios. O governo do Iraque está ansioso por atrair investimentos estrangeiros diretos adicionais, mas enfrenta uma série de obstáculos, incluindo um sistema político tênue e preocupações com segurança e estabilidade social. Corrupção desenfreada, infraestrutura desatualizada, serviços essenciais insuficientes, falta de mão-de-obra qualificada e leis comerciais antiquadas impedem o investimento e continuam a restringir o crescimento de setores privados e não-petrolíferos."


Organizações internacionais como o Banco Mundial, o FMI e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento tendem a fazer previsões mecânicas sobre o progresso - quando apenas alguns aspectos do governo iraquiano realizam reformas sistemáticas parciais - mas se observarmos os dados reais que eles fornecem sobre a economia iraquiana, encontra-se avisos muito mais sombrios:

"Com 48,7%, o país tem uma das taxas mais baixas de participação da força de trabalho no mundo, e na região, especialmente para mulheres (12%) e jovens (26%). A taxa de desemprego, que estava caindo antes do ISIS e da crise do petróleo, aumentou além do nível de 2012 para 9,9% em 2017/18. Além disso, quase 17% da população economicamente ativa está subempregada. A subutilização é particularmente alta entre as pessoas deslocadas internamente, com quase 24% dos deslocados internos desempregados ou subempregados. As crises corroeram o progresso gradual no emprego das mulheres; a taxa de desemprego feminino aumentou de 11,3% antes da crise para 20,7% em 2017. Além disso, mais de um quinto da juventude economicamente ativa (de 15 a 24 anos) não tem emprego, e mais de um quinto da juventude economicamente ativa não está empregada, nem em educação ou treinamento (NEET)."

Na visão geral da economia do Iraque, realizada em outubro de 2019, no Banco Mundial, o otimismo inicial de que "a economia do Iraque está aumentando gradualmente após as profundas tensões econômicas dos últimos quatro anos" é seguido por avaliações que - palavras de ordem à parte - têm um caráter muito diferente:

"Espera-se que o crescimento não-petrolífero permaneça positivo com o aumento do investimento necessário para reconstruir a rede de infraestrutura danificada, o consumo privado e o investimento do país. No entanto, o orçamento aprovado para 2019 recentemente apresenta um aumento considerável nos gastos recorrentes e, a menos que haja uma reorientação significativa da política fiscal para uma abordagem abrangente de recuperação, haverá espaço fiscal limitado para sustentar a recuperação pós-guerra e o desenvolvimento a longo prazo.

. . . As condições sociais continuam desafiadoras, refletindo o sub-investimento e a fraca capacidade institucional, uma lacuna que se torna flagrante para crises previsíveis, como os problemas sazonais de eletricidade e água, especialmente em Basra. As instituições fiscais ainda precisam se adaptar à volatilidade dos preços do petróleo e o risco de políticas pró-cíclicas permanece muito alto. Um declínio na receita do petróleo, sem reformas estruturais contínuas, e o aumento contínuo das despesas orçamentárias de acordo com o orçamento de 2019, levarão, mais cedo ou mais tarde, a ajustes gerados por crises e recuperação de vaivém. Pode ser difícil financiar o déficit no orçamento de 2019 com recursos internos e há incertezas na disponibilidade de financiamento externo, especialmente em condições de mercado de fronteira aplicáveis ao Iraque. Como antes, ajustes altamente abaixo do ideal na forma de pagamentos atrasados e acordos pontuais de infraestrutura poderiam ressurgir."

A ligação entre a crise econômica e a crise de segurança

Essas questões são examinadas com muito mais profundidade em um estudo anterior da Cadeira Burke - Por que o Iraque está “queimando”. Os eventos desde aquela época deixaram brutalmente claro que nenhuma política dos EUA para o Iraque pode ser bem-sucedida se apenas se concentrar no curto prazo e se basear em falso otimismo e análise mecânica - particularmente quando nenhum dos estudos de política econômica do Iraque parecem reconhecer suas necessidades contínuas de gastos com segurança. Notavelmente, essas despesas específicas são apenas parcialmente relatadas no orçamento do Iraque - embora o IISS tenha relatado 9,95% do PIB em 2016, 10,02% em 2017 e 7,47% em 2018.

Embora esses custos de segurança devam cair com o desmembramento do “califado” do ISIS, o Iraque deve agora continuar a financiar as forças de que necessita para a defesa nacional. A repressão brutal do governo iraquiano aos protestos populares nos últimos seis meses, no entanto, deixou claro que é necessário reformar totalmente suas forças de segurança interna, bem como encontrar maneiras de reduzir o nível de corrupção e abusos em todas as suas forças de segurança. Olhando para os dados de fonte aberta sobre o Iraque, não está claro se o Iraque pode pagar o desenvolvimento da força de que precisa sem gastar uma média de cerca de 6% a 7% do seu PIB em segurança, pelo menos nos próximos cinco anos.

Membros do Serviço de Contra-Terrorismo do Iraque (Counter-Terrorism Service, CTS) comemoram enquanto carregam de cabeça para baixo uma bandeira negra do Estado Islâmico, com a destruída mesquita Al-Nuri vista ao fundo, na Cidade Velha de Mosul em 2 de julho de 2017.

Para colocar essa carga de gastos em perspectiva, o Iraque precisará gastar mais de três vezes a meta de 2% do seu PIB estabelecida pela OTAN - uma meta que a maioria dos países da OTAN não consegue cumprir. É quase o dobro da porcentagem do PIB necessária para financiar as despesas básicas do Departamento de Defesa dos EUA.

Até agora, o Iraque não anunciou nenhum plano realista para lidar com essas questões, e os Estados Unidos não trataram de sua estimativa das necessidades do Iraque ou dos níveis de ajuda necessários. O nível existente de progresso nas forças do Iraque envolveu questões que o IISS abordou brevemente em seu Balanço Militar para 2019 (pp. 327-329), mas o relatório ainda não reconhece o papel crítico desempenhado pelos conselheiros americanos e do apoio aéreo/terrestre dos EUA e da Coalizão na derrota do ISIS.

O relatório do IISS também não aborda a necessidade de reforma da polícia e das forças de segurança interna do Iraque ou da criação de uma força de defesa nacional que possa dissuadir e defender contra o Irã ou outras potências externas. Isso mostra que o efetivo total das forças do Iraque em 2019 totalizou apenas 64.000 contra 523.000 do Irã. O Iraque tinha apenas 393 tanques de batalha principais contra 1.513 do Irã. O Iraque tinha apenas 1.085 peças de artilharia contra as mais de 6.798 do Irã. A força aérea do Iraque está crescendo e tem 65 aeronaves com capacidade de combate, mas o Irã tem 336 aeronaves com capacidade de combate e um monopólio virtual sobre mísseis balísticos e de cruzeiro e forças de defesa aérea de superfície.

Os relatórios do Inspetor-Geral dos Estados Unidos para o Congresso sobre a Operação Inherent Resolve também alertaram que as forças de combate do Iraque ainda têm grandes problemas de qualidade, requerem amplo apoio e aconselhamento externo e não são capazes de operações conjuntas terrestres-aéreas eficazes em qualquer escala séria. O Relatório de 1º de julho de 2019 a 25 de outubro de 2019 abordou uma série de questões atuais - incluindo cortes no efetivo americano no Iraque que tiveram um grande impacto no treinamento militar e nos níveis relativamente pequenos restantes de ajuda civil americana, bem como no riscos criados pela influência iraniana por meio de algumas PMF.

Milícia PMF iraquiana xiita Hashid Shaabi marcha durante um desfile que marca o dia anual al-Quds, ou Dia de Jerusalém, em Bagdá, Iraque, em 23 de junho de 2017.

O relatório também advertiu, no entanto, que muitos elementos das forças do Iraque não seriam capazes de se manter por conta própria. Esses avisos eram muito semelhantes àqueles dos especialistas americanos quando os Estados Unidos se retiraram precipitadamente em 2011, criando o vácuo de poder que levou ao sucesso inicial do ISIS.

"As forças americanas têm treinado as ISF (Forças de Segurança do Iraque) desde o início do OIR em 2015, com o objetivo de criar uma força de combate auto-suficiente, sustentável e independente capaz de combater o ISIS. Para esse fim, as forças americanas treinaram a elite do CTS do Iraque, seu exército, Polícia Federal, Guardas de Fronteira e outras unidades. Nos últimos dois anos, as forças americanas empreenderam uma sub-operação chamada Parceria de Operação Confiável (Operation Reliable Partnership), que busca desenvolver as capacidades gerais das ISF e a superioridade tática sobre o ISIS.

Neste trimestre, a CJTF-OIR relatou que o treinamento resultou em capacidades das ISF para conduzir operações de segurança dentro e ao redor de centros populacionais e para atacar um alvo assim que o alvo for identificado. No entanto, a CJTF-OIR também identificou a capacidade das ISF de "encontrar e fixar" um alvo como uma "grande deficiência", e disse que sua capacidade de aproveitamento do êxito é "virtualmente inexistente" sem a assistência da Coalizão. A CJTF-OIR disse que a maioria dos comandos dentro das ISF não conduzirá operações para limpar os insurgentes do ISIS em terreno montanhoso e desértico sem cobertura aérea, inteligência, vigilância e reconhecimento (intelligence, surveillance, and reconnaissance, ISR) e coordenação da Coalizão. Em vez disso, os comandos das ISF contam com a Coalizão para monitorar “pontos de interesse” e coletar ISR para eles. Apesar do treinamento contínuo, a CJTF-OIR disse que as ISF não mudou seu nível de dependência das forças da coalizão nos últimos 9 meses e que os comandantes iraquianos continuam a solicitar recursos da Coalizão em vez de utilizar seus próprios sistemas. De acordo com a CJTF-OIR, as ISF continua a depender do ISR da Coalizão devido a fatores culturais e essa dependência precisa acabar.

Além dessa dependência geral da Coalizão, o nível de capacidade das diferentes forças das ISF varia, às vezes de uma unidade para outra, e freqüentemente apesar do treinamento específico. Por exemplo, a CJTF-OIR disse que algumas unidades CTS são bem-equipadas, comandadas e apoiadas, enquanto outras são "virtualmente ineficazes em combate". Uma unidade CTS localizada no sul do Iraque foi “amplamente negligenciada e não utilizada” devido à sua localização geográfica, disse a CJTF-OIR. No geral, permanecem lacunas entre todas as unidades CTS em ativos de coleta de inteligência, fusão de dados de inteligência, e logística. O CTS também carece de sistemas de comunicação de dados seguros, o que prejudica sua capacidade de compartilhar inteligência rapidamente dentro da organização e se comunicar com segurança por telefone ou e-mail uns com os outros ou com a Coalizão

Citando outros exemplos, a CJTF-OIR relatou que embora a Polícia Federal tenha começado a utilizar morteiros enquanto conduzia operações de limpeza contra o ISIS, seu uso de morteiros permanece "em grande parte impreciso, mesmo após o treinamento da Coalizão." Neste trimestre, o comando das ISF na província de Anbar "não mostram um grande aumento na capacidade de fogos”, ou de usar seus próprios drones, em vez isso dependendo dos sistemas aéreos não-tripulados da Coalizão, disse a CJTF-OIR.

A CJTF-OIR relatou que o CTS continua incapaz de executar operações rapidamente contra o ISIS. Ela disse que a estrutura de comando e controle altamente centralizada do CTS contribuiu para sua incapacidade de tomar uma ação decisiva contra o ISIS porque as unidades táticas não têm muita liberdade para agir rapidamente baseadas na inteligência local. A capacidade do CTS de conduzir operações é "prejudicada pelo micro-gerenciamento do nível operacional e estratégico", disse o CJTF-OIR. A CJTF-OIR relatou que a saída ordenada do pessoal americano do Iraque atrasou temporariamente o exame de indivíduos dentro das ISF por laços com organizações terroristas, que o DoS conduz quando uma força estrangeira deve receber financiamento americano. De acordo com a CJTF-OIR, esses atrasos variaram de 6 semanas a até 75 dias úteis e “afetaram gravemente” o treinamento e o equipamento do pessoal das ISF. Para amenizar os efeitos de uma equipe reduzida da embaixada dos EUA, a CJTF-OIR disse que todas as solicitações de verificação para treinamento de pessoal iraquiano e transferências de equipamento para as ISF são enviadas com três meses de antecedência."


O relatório do Inspetor-Geral Chefe também adverte que,

"Um ano após um verão de protestos violentos em Basra sobre o fracasso do governo em fornecer empregos, eletricidade e água potável e acabar com a corrupção, a juventude iraquiana novamente liderou manifestações em grande escala no Iraque em busca de empregos significativos, serviços públicos melhorados, como água e eletricidade e o fim da corrupção endêmica. Os manifestantes culparam o governo al-Mahdi por não ter conseguido um progresso significativo na oferta de empregos e serviços. Esses protestos generalizados destacaram as falhas de governança de longa data do Iraque que o governo deve enfrentar para ajudar a eliminar as condições que deram origem ao ISIS e anteriormente à Al-Qaeda no Iraque.

As manifestações, organizadas nas redes sociais, começaram por volta de 1º de outubro e eram incomuns em um país onde os comícios são tipicamente convocados por políticos ou religiosos. No entanto, os clérigos xiitas proeminentes Muqtada al-Sadr e Ammar al-Hakim anunciaram rapidamente seu apoio às demandas dos manifestantes enquanto criticavam o primeiro-ministro. O mais alto clérigo xiita do Iraque, Ayatollah al-Sistani, endossou os protestos e emitiu um alerta severo de que "o povo voltará ainda mais forte", a menos que o governo tome "medidas claras e imediatas" antes que seja tarde demais. O aiatolá al-Sistani destacou o governo iraquiano e os partidos políticos por seu fracasso em combater a corrupção.

As manifestações começaram em Bagdá com mais de 5.000 jovens protestando na Praça Tahrir de Bagdá em 1º de outubro. As forças de segurança do governo usaram gás lacrimogêneo, canhões de água e fogo real para dispersar os manifestantes. Os protestos rapidamente se expandiram para o sul, irrompendo na cidade sagrada xiita de Karbala e mais ao sul para Basra, Najaf, Diwaniyah e Nasiriyah.

Na tentativa de conter a propagação de protestos anti-governamentais, o governo iraquiano suspendeu o acesso às redes de comunicação social, incluindo o Facebook Messenger e o WhatsApp. O primeiro-ministro declarou toque de recolher em Bagdá e em três cidades do sul, o qual os manifestantes ignoraram. Os confrontos entre os manifestantes e as forças de segurança do governo ficaram ainda mais violentos antes de terminar em 7 de outubro. Um comitê do governo iraquiano nomeado pelo primeiro-ministro Abd al-Mahdi relatou que as forças de segurança iraquianas mataram 149 pessoas e mais de 3.000 feridos, com mais de 70 por cento das mortes causadas por tiros na cabeça ou no peito, a partir de 22 de outubro."

Falando com o pessoal americano de treinamento e assistência, alguns estão impressionados com o progresso que o Iraque está fazendo na melhoria do seu Exército e Força Aérea e com a qualidade de alguns dos seus colegas militares iraquianos. Eles sentem, no entanto, que as medidas tomadas para reduzir o efetivo americano, a falta de confiança que cresce a partir da "retirada" dos EUA da Síria, as incertezas na resposta americana aos ataques do Irã e a falta de qualquer resposta clara dos EUA aos políticos às convulsões no Iraque minaram drasticamente a confiança do Iraque nos Estados Unidos - até mesmo de iraquianos que antes acreditavam nos esforços americanos.

Cortes de pessoal americano e o Programa da USAID

O programa civil é uma história diferente e também era um problema sério antes dos ataques à Embaixada dos EUA e da retirada de ainda mais efetivos americanos. O relatório do Inspetor-Geral Chefe também levantou questões críticas sobre este aspecto dos cortes de pessoal americano e o baixo nível do programa de ajuda civil:

"Desde a partida ordenada do pessoal americano do Iraque em maio de 2019, a USAID teve em média 6 funcionários expatriados no país contra 26 no início de 2019. Alguns dos funcionários da USAID anteriormente baseados no Iraque foram evacuados para Washington, DC, enquanto um pequeno grupo opera em escritórios satélites na Alemanha. A USAID relatou que realocar cidadãos de terceiros países - muitos dos quais têm mais de 10 anos de experiência trabalhando com a Embaixada de Bagdá - para outros cargos no exterior se provou particularmente complicado e continua sendo um desafio significativo. Os funcionários da USAID são encarregados de planejar, administrar e supervisionar um portfólio de US$ 1,16 bilhão de programas de desenvolvimento, estabilização e assistência humanitária.

Neste trimestre, as autoridades da USAID informaram ao USAID-OIG que as reduções de pessoal associadas à saída ordenada tiveram efeitos adversos significativos no planejamento, gerenciamento e atividades de supervisão do programa no Iraque. Não há mais funcionários humanitários da USAID presentes de forma permanente no Iraque; em 31 de agosto, o Escritório de Assistência a Desastres no Exterior (Office of Foreign Disaster Assistanc, OFDA) da USAID e o Escritório de Alimentos pela Paz (Office of Food for Peace, FFP) da USAID começaram a conduzir toda a gestão de programas humanitários remotamente. A USAID continua administrando um portfólio de assistência humanitária de US$ 430 milhões no Iraque.

Por causa da partida ordenada, a equipe da USAID está monitorando programas humanitários remotamente por meio de ligações telefônicas e relatórios de implementadores, bem como por meio de deslocamentos temporários. A equipe do USAID-OFDA e do FFP está participando remotamente das principais reuniões no país. De acordo com a USAID, nessas condições, os funcionários só podem se envolver na coordenação mínima com outras partes do Governo dos Estados Unidos, com o Governo do Iraque e outras partes da comunidade internacional.

Uma complicação adicional é que a equipe que opera remotamente trabalha de segunda a sexta-feira, enquanto Bagdá e Erbil operam de domingo a quinta-feira, perdendo efetivamente um dia de trabalho por semana. Além disso, todos os funcionários expatriados da USAID, incluindo nacionais de países terceiros e contratações diretas, que entram no Iraque devem primeiro ser aprovados pelo DoS, que a USAID relata ser um processo lento e opaco. O restante do pessoal da USAID em Bagdá e Erbil relatou ao USAID-OIG que, além de, e em vez de, suas funções atribuídas, eles estavam gastando de 30 a 100 por cento do seu tempo em configurações de pessoal associadas à redução.

...Em meados de novembro, a USAID é responsável por administrar um portfólio de assistência de US$ 1,16 bilhão no Iraque que contribui diretamente para os objetivos do DoS identificados na Estratégia de País Integrada para o Iraque: combater o Irã, derrotar o ISIS e apoiar as minorias religiosas e étnicas na recuperação pós-genocídio. As reduções de pessoal juntamente com o grande portfólio criam incerteza sobre como os programas serão supervisionados remotamente e se a USAID terá acesso a uma plataforma regional para apoiar sua atividade de supervisão. A incerteza sobre os níveis de pessoal também levanta questões sobre a capacidade contínua da USAID de supervisionar com eficácia seu portfólio de alta prioridade e alto risco."

Além disso, quase todo o esforço de ajuda civil dos EUA está agora focado nas questões de curto prazo que afetam as minorias e o retorno de pessoas deslocadas internamente - com alguma preocupação com o desenvolvimento no sul e terminando os programas separados de exportação de petróleo entre o governo central e o Governo regional curdo. Como o esforço de assistência militar, não há objetivos claros de longo prazo americanos ou indicações de que os Estados Unidos estão tratando ativamente das questões mais amplas de reforma econômica abordadas no início desta análise.

Olhando para o futuro e moldando uma estratégia de longo prazo

Esses problemas são tão sérios que não está claro se o Iraque pode criar um progresso político estável ou evitar outra rodada de combates civis. Também não está claro se os Estados Unidos manterão a presença e a influência de que precisam para ajudar o Iraque a enfrentá-los. As reações do Iraque aos ataques aéreos americanos em 30 de dezembro de 2019 - e os ataques à Embaixada dos EUA em Bagdá - deixaram muito claro que os ataques americanos às PMF iraquianas apoiadas pelo Irã trouxeram tensões entre os Estados Unidos e o Irã para o ponto em que não está claro se os Estados Unidos terão a capacidade de desempenhar um papel importante nos problemas de curto prazo do Iraque - muito menos desempenhar um papel-chave em ajudar o Iraque a resolver seus problemas estruturais e de longo prazo.

O foco americano anterior no ISIS - excluindo os problemas e necessidades do Iraque, o sofrimento desencadeado por toda uma série de eventos desde a invasão dos EUA em 2003 e os ataques aéreos americanos contra as PMF iraquianas - pode acabar impedindo os Estados Unidos de jogarem um papel importante no futuro no Iraque, mesmo que o governo dos EUA possa finalmente decidir dar ao Iraque a prioridade estratégica e o nível de esforço duradouro de que o Iraque precisa. Independentemente de quantos iraquianos se ressentem da presença e interferência do Irã nos assuntos iraquianos, um número igual ou maior agora parece se ressentir da presença dos Estados Unidos. O Irã pode exercer imensa pressão política sobre muitas facções importantes no Iraque, bem como usar os iraquianos para protestar contra ou atacar alvos americanos.

General Qassem Soleimani, morto por um ataque de drone americano em 3 de janeiro de 2020.

De uma perspectiva americana, os Estados Unidos podem ter o direito de se defender de entidades que atacaram as forças e instalações dos EUA, as PMF pró-iranianos e o General Soleimani. De uma perspectiva iraquiana, no entanto - assumida a partir de declarações feitas por figuras-chave como o Presidente do Iraque e o primeiro-ministro em exercício - os iraquianos se opõem aos ataques às PMF e a Soleimani, pois vêem as ações unilaterais americanas como uma violação da soberania iraquiana.

O primeiro-ministro Adel Abdul-Mahdi chamou os ataques aéreos americanos contra as PMF de "uma violação da soberania iraquiana e uma escalada perigosa e ameaça à segurança do Iraque e da região". O mais alto clérigo xiita iraquiano, o Grande Aiatolá Ali al-Sistani, condenou o ataque americano às PMF, afirmando que o governo iraquiano deve "garantir que o Iraque não se torne um campo para acerto de contas regionais e internacionais", e advertiu que independentemente dos ataques americanos serem “retaliação por ações ilegais”, deveriam ter sido as autoridades iraquianas a lidarem com eles, não as forças americanas.

O famoso anel que identificou o corpo do General Soleimani.

Quanto aos ataques aéreos a Soleimani e Abu Mahdi al-Muhandis, líderes de várias milícias iraquianas prometeram vingar suas mortes. O clérigo xiita e líder da milícia Badr, Muqtada al-Sadr, descreveu o ataque contra Soleimani como “visando a jihad, a oposição e o espírito revolucionário do estado”. O clérigo xiita e líder do movimento Al-Hikma, Ammar al-Hakim, disse que o ataque foi uma "violação flagrante da soberania do Iraque". Al-Hakim também afirmou que esta ataque “coloca a região em um telhado de zinco quente”. Os iraquianos re-tweetaram o que disseram ser uma fotocópia de uma declaração de Qais al-Khazali, secretário-geral da milícia Asaib Ahl al-Haq (Liga dos Justos), na qual ele prometeu vingar a morte de ambos os líderes e prometeu que a "dor e tristeza" pela morte de Soleimani e Muhandis se transformaria em "entusiasmo, raiva e revolução". O Movimento Al-Nujaba, um importante grupo xiita supostamente financiado pelo Irã, emitiu um comunicado que advertia os Estados Unidos de que “lamentariam o ato tolo que cometeram”.

Esses desenvolvimentos levaram os Estados Unidos a reduzir sua embaixada a uma operação ainda mais central - e agora não tem mais uma presença civil efetiva no Iraque, especialmente depois que o embaixador alertou os cidadãos americanos para irem embora após a morte de Solemani. Os Estados Unidos se concentraram quase exclusivamente no Irã e não mostraram nenhum interesse claro ainda no futuro do Iraque ou no papel americano no país.

Parece possível que o resultado final seja outra saída americana do Iraque - seja por causa da pressão iraquiana ou por causa das decisões de alto nível dos Estados Unidos de cortar sua presença no Iraque a ponto de não ser mais um ator importante. Na melhor das hipóteses, os Estados Unidos enfrentam um conjunto extremamente difícil de desafios de curto prazo, em um momento em que uma abordagem eficaz americana para o Iraque não apenas exige que os Estados Unidos lidem com os problemas mais imediatos, mas também um foco nos três objetivos do termo abordados neste artigo:
  • A necessidade de ajudar o Iraque a alcançar a paz e estabilidade internas, fornecendo ajuda na reforma de sua governança e economia, ao mesmo tempo atendendo às necessidades de todo o seu povo.
  • A necessidade de ajudar o Iraque a criar forças de segurança que proporcionem estabilidade e segurança internas com níveis suficientes de capacidade de dissuasão e defesa para se manter por conta própria, sem ter que temer ou depender de qualquer potência vizinha ou externa.
  • A necessidade de convencer os iraquianos de que os Estados Unidos estão agindo em seus interesses e não somente servindo apenas aos interesses americanos como uma potência ocupante de fato, mas, em vez disso, desempenham uma importante fonte de apoio para o Exército e a Força Aérea iraquianos.

Um tanque iraquiano T-72 dispara, durante um exercício de treinamento de tiro ao vivo, no Campo de Tiro de Besmaya, perto de Bagdá, em 28 de outubro de 2008.

Há riscos claros em fazer sugestões específicas sobre como os Estados Unidos podem abordar esses objetivos quando os eventos são tão imprevisíveis e os desafios são tão grandes. É claro que não há respostas simples, que planos específicos requerem uma abordagem totalmente interagências e que qualquer esforço efetivo só pode realmente começar com um nível de liderança presidencial e apoio do Congresso que atualmente enfrenta grandes desafios neste ponto da política americana. Também está claro que muitos fracassos americanos anteriores foram o resultado do estabelecimento de metas irrealistas e simplistas, falta de continuidade em seus esforços, transformando o progresso incerto em imagens de sucesso e negando as complexidades e incertezas envolvidas. Existem, no entanto, lições que os Estados Unidos claramente precisam aprender com seus fracassos anteriores:
  • Primeiro, trate o Iraque como um objetivo estratégico-chave de longo prazo dos EUA e como uma chave para reconstruir a influência e capacidade dos EUA no Golfo e no Oriente Médio. Os Estados Unidos precisarão ser flexíveis e adaptáveis, mas precisam definir grandes objetivos estratégicos claros e se concentrarem nos problemas imediatos do Iraque, ao mesmo tempo em que criam um Estado eficaz com estabilidade de longo prazo.
  • Em segundo lugar, mostre aos iraquianos que os Estados Unidos estão agindo em seus interesses, fornecendo apoio civil e de segurança que ajudará o Iraque a se unir, se desenvolver e ser totalmente independente. Com muita frequência, os Estados Unidos não conseguiram mostrar que sua presença e ações atendem aos interesses do Iraque, vão além dos objetivos de curto prazo dos EUA e podem oferecer um futuro melhor.
  • Terceiro, concentre-se na arte do possível - apoiar o Iraque no cumprimento dos objetivos que ele pode alcançar claramente e que tratam dos piores problemas e preocupações que seu povo sente, para que possa servir melhor sua nação e suas prioridades. Aceite a realidade de que a ajuda dos Estados Unidos é necessária, mas que os esforços transformacionais baseados na rápida imposição dos valores americanos são um caminho quase certo para o fracasso. Em termos gerais, as prioridades iraquianas provavelmente se concentrarão nas condições de vida, emprego e serviços governamentais eficazes sem corrupção grosseira. O progresso será lento e, na maioria dos casos, será melhor apoiar as áreas onde o Iraque pode mudar do que lutar contra seus limites e falhas nas áreas onde a maioria dos iraquianos está satisfeita com o status quo.
  • Quarto, use os esforços da USAID e do Estado para atender às necessidades do Iraque quando possível, mas reconheça o fato de que a USAID ainda não demonstrou ampla competência em muitos aspectos da construção nacional e que um esforço liderado pelos EUA tem limites inerentes. Em um mundo ideal, a ONU seria uma ferramenta possível para internacionalizar os programas civis, de governança e econômicos de que o Iraque precisa. Na prática, a competência central de sua equipe profissional é mais do que compensada pelas divisões entre seus líderes nacionais de alto nível. A ONU essencialmente foi embora após o primeiro grande ataque no Iraque, mas nenhum elemento do esforço de ajuda ao Afeganistão falhou tão definitivamente quanto a UNAMA.
Não parece ser uma boa escolha para criar o tipo de esforço de ajuda internacional de que o Iraque precisa, mas o Banco Mundial pode ser o mais próximo dessa opção. Em qualquer caso, quer os Estados Unidos ou outro organismo internacional tente essa ajuda, existem algumas lições claras dos últimos dezessete anos. Não faz sentido financiar mais esforços do que o Iraque pode fazer com sucesso - e qualquer órgão que administre o esforço de ajuda deve ser cruelmente realista. Terá de adaptar seu foco para trazer estabilidade às divisões internas no Iraque, enfrentar honestamente os desafios da corrupção e do autoritarismo a ponto de realmente obrigar o governo a melhorar todos os elementos-chave que precisam de mudança, conforme exigido pelo povo iraquiano, e condicionar implacavelmente o fluxo de ajuda externa à honestidade e ao sucesso dos esforços iraquianos, cortando publicamente o financiamento e o apoio aos corruptos e incompetentes. Os Estados Unidos não podem ajudar um Iraque que não ajuda a si mesmo.
  • Quinto, concentre-se em tornar as forças de segurança iraquianas eficazes em termos realistas - um processo que levará pelo menos mais meia década. As forças armadas iraquianas não precisam ser reinventadas, mas precisam de ajuda e orientação para reconstruir seu país, fazendo as coisas “à sua maneira” - apenas melhor. Eles precisarão construir até o ponto em que possam deter e defender, mas este é o nível onde o esforço americano deve parar.
Mesmo com ajuda substancial, o Iraque não pode se dar ao luxo de se desenvolver e ao mesmo tempo retornar a algo remotamente semelhante ao seu nível anterior de forças militares. Ao mesmo tempo, reduzir as formas complexas de corrupção nas forças armadas iraquianas será um desafio tão importante quanto reduzir a corrupção no governo civil e nas empresas estatais.

E, na área de segurança interna, a primeira prioridade será impedir que as forças envolvidas causem danos por meio de repressão, reação exagerada e corrupção ou extorsão. A segunda será garantir que possam operar sem níveis inaceitáveis de influência externa e interferência política. A terceira será garantir que os métodos usados pelas forças de segurança funcionem dentro dos padrões e limites estabelecidos pelo sistema legal do Iraque.


Finalmente, os Estados Unidos não precisam de uma “embaixada normal” no Iraque; ele precisa de uma missão estável que possa ajudar o Iraque a atender às suas necessidades civis e de segurança. Ele precisa de um esforço americano que forneça apoio e ajuda consistentes - um esforço que não expresse indecisão de forma consistente ou uma mudança constante em seu curso. Os Estados Unidos devem se adaptar às suas circunstâncias, ter planos concretos para seus níveis de ajuda que serão fornecidos ao longo do tempo, manter um nível de presença que forneça o apoio realmente necessário e demonstrar que está agindo no interesse de todos os elementos principais no Iraque. Mais uma vez, fazer do Iraque um parceiro estratégico é desejável, mas criar um Iraque forte e independente é o objetivo que realmente importa.

Anthony H. Cordesman detém a cadeira Arleigh A. Burke em Estratégia no Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais em Washington, D.C. Ele atuou como consultor sobre o Afeganistão para o Departamento de Defesa dos Estados Unidos e o Departamento de Estado dos Estados Unidos.

Bibliografia recomendada:




Leitura recomendada: