terça-feira, 3 de novembro de 2020

Uma lição de história coercitiva de Vladimir Putin

 

Soldados russos em Moscou, novembro de 2011. (Denis Sinyakov/ Reuters)

Por Andrei Kolesnikov, Foreign Affairs, 29 de outubro de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 3 de novembro de 2020.

O triunfalismo substitui o cálculo enquanto a Rússia se lembra do passado soviético.

Para marcar o primeiro dia de volta às aulas em 1º de setembro, os alunos russos receberam uma aula online de ninguém menos que o presidente Vladimir Putin. Ele escolheu o tema da história, que nos últimos anos se tornou muito importante para ele. Seu foco específico era um tópico sobre o qual ele vem falando obsessivamente há quase um ano: a reescrita da história russa, em particular a da Segunda Guerra Mundial.

Putin está principalmente preocupado com duas questões. Uma é o Pacto Molotov-Ribbentrop entre o Terceiro Reich e a União Soviética, que os historiadores ocidentais há muito acreditam "pavimentou o caminho para a eclosão da Segunda Guerra Mundial". Putin afirma que Stalin não teve escolha a não ser assinar o pacto com a Alemanha. A outra é o papel decisivo que a União Soviética desempenhou na derrota dos nazistas, que Putin acredita que outras nações não conseguem reconhecer adequadamente.

Pintura da entrega das bandeiras e estandartes nazistas na parada da vitória, em 1945.

Se essas fossem as opiniões de um indivíduo particular, outros poderiam simplesmente concordar ou discordar delas. Mas quando um chefe de estado as pressiona repetidamente, elas se tornam dogmas ideológicos nacionais. No que diz respeito aos serviços de segurança de um Estado autoritário, elas são nada menos que um apelo à ação.

“As pessoas que cooperam com o inimigo durante uma guerra são chamadas e sempre e em toda parte foram chamadas de colaboracionistas. Aqueles que concordam com os reescritores da história podem facilmente ser chamados de colaboracionistas de hoje”, disse Putin durante a aula pública em 1º de setembro. E, com certeza, o Comitê Investigativo da Rússia, um órgão federal com poderes de longo alcance, não demorou nada no estabelecimento de um novo departamento para investigar crimes relacionados com a reabilitação do nazismo e a falsificação da história. A caça aos “colaboracionistas” históricos começou.

Os Vingadores da História

Segundo a lei russa, a reabilitação do nazismo é um crime. Mas quais critérios os órgãos de investigação usarão para avaliar a “reescrita da história” e como eles punirão os culpados por isso ainda não está claro. Alexander Bastrykin, chefe do Comitê Investigativo e amigo de Putin desde seus dias de São Petersburgo, definiu essas infrações como "tentativas de atribuir responsabilidade igual à eclosão da guerra aos criminosos nazistas e aos países aliados", como a União Soviética.


Ao criminalizar certas interpretações da história, Putin está mirando menos no Ocidente do que nas figuras domésticas, que, diante da ameaça de um processo, hesitarão em se desviar da narrativa oficial da União Soviética pré-Segunda Guerra Mundial, por exemplo. Da mesma forma, quando o comitê abre investigações criminais sobre eventos no exterior - como fez na República Tcheca em abril, quando as autoridades municipais de Praga removeram o monumento da cidade ao herói de guerra soviético Marechal Ivan Konev - a mensagem para os russos comuns é o objetivo real. Veja como eles gostam pouco de nós no Ocidente: eles contaminam a memória de nossa vitória e de nossos heróis.

Ao criar um novo departamento para vingar a história dessa maneira, o Kremlin corre o risco de criminalizar o trabalho dos historiadores profissionais. Já havia incidentes que sombreavam nessa direção: em 2018, o Ministério da Justiça classificou como extremista um artigo do historiador Kirill Alexandrov sobre o líder nacionalista ucraniano Stepan Bandera, apesar do artigo não ter tentado justificar as ações de Bandera durante a Segunda Guerra Mundial. Alexandrov deveria receber o doutorado em 2017, mas o Ministério da Educação e Ciência o negou por motivos políticos: ele havia escrito sua dissertação sobre soldados que se juntaram a uma unidade colaboracionista durante a Segunda Guerra Mundial.

Oficial russo do Exército de Libertação Russo (ROA).
Conhecido como "O Exército de Vlasov", o ROA era um exército colaboracionista da Wehrmacht que atingiu 50 mil homens.

Tudo e qualquer coisa a ver com a Grande Guerra Patriótica, como os russos se referem à Segunda Guerra Mundial, é extremamente sensível para a liderança russa. A memória da vitória naquela guerra é um dos poucos laços restantes para manter a nação russa unida e legitimar o regime de Putin como herdeiro de grandes ancestrais triunfantes. Putin chegou ao ponto de consagrar sua luta contra a falsificação da história na constituição, aprovando emendas nesse sentido neste verão (junto com sua mais conhecida jogada de acertar o relógio em termos presidenciais, permitindo-se permanecer no poder além de 2024) .

O Renascimento de Stalin

O problema com esse novo discurso histórico oficial é que ele implicitamente vindica Stalin e o stalinismo. Criticar a versão da história de Putin é criticar a memória sagrada da guerra, e criticar Stalin é diminuir a apreciação pública da vitória da Rússia naquela guerra. Esse paradigma é precisamente aquele em que o regime soviético de Leonid Brejnev construiu sua propaganda oficial. Agitar o desagrado em torno da repressão sob Stalin era o negócio sujo dos dissidentes: Stalin deveria ser lembrado acima de tudo como o líder que ganhou a guerra.

Aperto de mão entre oficiais alemão e soviético na cidade de Brest, na Polônia, setembro de 1939.

O renascimento dessa narrativa já começou a excluir capítulos importantes da história russa da discussão pública. Estudiosos, escritores e o público não exploram mais a Guerra de Inverno que Stalin desencadeou contra a Finlândia em 1939. Eles não consideram a cooperação desavergonhada de Stalin com Hitler, que incluiu a realização de paradas conjuntas e a entrega dos antifascistas alemães aos nazistas. Eles não podem falar sobre detalhes da ocupação dos Estados Bálticos ou da invasão da Polônia de acordo com os protocolos secretos do Pacto Molotov-Ribbentrop e sob o pretexto de libertar “irmãos” ucranianos e bielorrussos lá.

Provavelmente haverá poucas bolsas de estudos sobre o fuzilamento perpetrado pela polícia secreta soviética contra mais de 20.000 oficiais poloneses em Katyn em 1940. Propagandas anteriores sugeriram que foram os alemães que executaram os poloneses em Katyn. O próprio Putin uma vez desmentiu essa idéia. Mas agora a idéia ressurgiu em um artigo que a agência oficial do estado, RIA Novosti, publicou em março. Além disso, nesta primavera, o escritório do promotor em Tver ordenou a remoção de placas memoriais de um prédio em cujo porão os esquadrões da morte de Stalin executaram mais de 6.000 poloneses.

Oficiais alemães Generalleutnant Mauritz von Wiktorin (à esquerda), General der Panzertruppe Heinz Guderian (centro) e o Kombrig Semyon Krivoshein (à direita), oficial soviético, em pé na plataforma durante a parada de 22 de setembro de 1939, na cidade de Brest.

Tropas alemãs passando pela plataforma com os oficiais em 22 de setembro de 1939.

A atmosfera na Rússia de hoje encoraja a reivindicação do stalinismo e suas atrocidades. Ao simplificar e mitificar a história, o presidente russo está encorajando a deterioração do conhecimento público dos eventos históricos. O discurso histórico que antes era marginal está se tornando dominante, com o endosso do Estado. Aqueles que homenageiam as vítimas da repressão enfrentam perseguição oficial. O historiador Yury Dmitriev, por exemplo, descobriu uma vala comum de vítimas da repressão política na Carélia, no norte da Rússia. Neste verão, ele foi condenado a três anos e meio de prisão por pedofilia, uma acusação que se acredita ser uma invenção vingativa. O escritório do promotor apelou da sentença como muito branda, e a Suprema Corte da Carélia acrescentou mais nove anos e meio. O Ministério da Justiça rotulou o Memorial, uma organização não-governamental que por várias décadas heróica e meticulosamente reconstituiu crimes da era Stalin, como um "agente estrangeiro", e um tribunal após o outro o devastou com multas. Esse é o contexto em que o Comitê de Investigação pretende punir as pessoas por "espalharem conscientemente informações falsas sobre os atos da URSS."

Enquanto o Comitê Investigativo da Rússia estava pensando em novas maneiras de combater a dissidência histórica, os parlamentares na Espanha começaram a debater um novo projeto de lei sobre "memória democrática". A lei espanhola, que sofreu críticas ferozes, inclui “um plano para recuperar os restos mortais das vítimas da guerra civil e a criação de um promotor especial para investigar os abusos dos direitos humanos de 1936 a 1978”.

Se e quando a Rússia fizer a transição do autoritarismo de Putin para a democracia, deve olhar para o exemplo da Espanha. A Rússia precisa restaurar, ao invés de apagar, a memória de milhões de vítimas do totalitarismo e parar de colocá-la em competição com a memória daqueles que morreram em batalha na Segunda Guerra Mundial. Promover essa falsa oposição é uma tática deliberada para aprofundar a divisão nacional.

Andrei Kolesnikov é membro sênior e presidente do Programa de Política Doméstica Russa e Instituições Políticas no Carnegie Moscow Center.

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