sábado, 12 de dezembro de 2020

A França dá sinal verde ético para soldados biônicos

 Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 11 de dezembro de 2020.

Em parecer divulgado no dia 4 de dezembro, o comitê de ética do Ministério da Defesa pediu que fossem iniciados os trabalhos sobre métodos “invasivos” para melhorar o desempenho físico dos militares.

O comitê de ética, composto por dezoito membros civis e militares, deu às forças armadas do país luz verde para começar a pesquisa sobre o desenvolvimento de "soldados aprimorados" para melhorar o desempenho no campo de batalha. Um relatório divulgado no início desta semana citou pesquisas sobre implantes que poderiam "melhorar a capacidade do cérebro", ajudando os soldados a distinguirem inimigos de aliados, de acordo com as informações da mídia francesa. Melhorias adicionais podem incluir tratamentos médicos para melhorar as capacidades físicas dos soldados e sua resistência ao estresse.

Os únicos métodos "invasivos" usados ​​hoje nos exércitos franceses são o uso de uma série de produtos que facilitem a recuperação após o exercício, reduzindo o estresse, ou medicamentos como os anti-maláricos, além da vacinação, conforme enfatizou o escritório do Ministério da Defesa. Mas, em 2030, de acordo com o comitê de ética, o "campo de possibilidades" pode se abrir amplamente.

Imagem fornecida pelo Ministério das Forças Armadas com a visão de como será o combatente do futuro em 2040/2050, com roupas conectadas, mais proteções e uma interface homem-máquina para auxiliar o combatente. A imagem foi criada por alunos da École de Design Strate pour l’Armée de Terre.

"Sim para a armadura do Homem de Ferro e não para o aprimoramento genético e mutação do Homem-Aranha." Eis o que acaba de anunciar a Ministra das Forças Armadas, Florence Parly, sobre o desenvolvimento dos chamados soldados "aprimorados" no seio do exército francês. A ministra emitiu o seu parecer na sequência de parecer, emitido a título consultivo, por uma comissão de ética da defesa. Este comitê é responsável por lançar luz sobre as questões éticas levantadas pelas inovações científicas e técnicas e suas possíveis aplicações militares. Fundado no final de 2019, este comitê de ética se reuniu pela primeira vez em 10 de janeiro de 2020. Foi para se manifestar sobre dois temas: o “soldado aprimorados” e “autonomia em sistemas de armas letais”, em outras palavras, os chamados "robôs matadores" (robots tueurs).

Sobre esta primeira questão, os membros do comitê exploraram o tema do uso de técnicas invasivas para melhorar o desempenho físico ou cognitivo do corpo humano pela absorção de moléculas, ou pela introdução de implantes subcutâneos ou no cérebro, como a DARPA (Defense Advanced Research Projects Agency/ Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa) experimentou em 2016. Com sua tecnologia, o implante permitiu que o cérebro se comunicasse diretamente com computadores. Na época, a ideia não era tanto "aprimorar" as capacidades dos soldados, mas permitir que os feridos em combate recuperassem as sensações auditivas ou visuais. Como outras técnicas invasivas e definitivas, há, por exemplo, o aumento da acuidade visual de forma cirúrgica para poder prescindir de visão de longa distância.

Esquemática do "Combatente 2020", já testada na Operação Barkhane, no Mali.

No seu discurso sobre este relatório, a ministra Parly, no entanto, qualificou o alcance destas técnicas invasivas para o soldado aprimorado, sublinhando que era necessário por enquanto "pôr fim a todas as fantasias" e especificando que "estas evoluções ditas 'invasivas' não estão na agenda dos exércitos franceses". Por outro lado, a ministro sublinhou que “nem todos têm os nossos escrúpulos e é um futuro para o qual devemos nos preparar”. A França, portanto, não diz não ao soldado aprimorado, mas escolhe suas modalidades. O princípio será sempre buscar alternativas para transformações invasivas. Assim, “em vez de implantar um chip sob a pele, buscaremos integrá-lo a um uniforme”, disse a ministra Parly. Os “aprimoramentos” mais invasivos terão necessariamente o consentimento dos militares. Claramente, a injeção ou absorção de substâncias, operações cirúrgicas ou a integração de chips sob a pele que podem enviar ou receber informações remotamente em um teatro de guerra. E, em todos os casos, esses aprimoramentos devem ser reversíveis e não colocarem em risco a saúde ou a segurança destes mesmos militares.

Se o exército mandatou esse comitê, é porque a França - assim como os americanos - está preocupada com os experimentos feitos por outros países em humanos. Este seria particularmente o caso da China, onde testes teriam sido realizados em soldados chineses para melhorar biologicamente suas capacidades; uma afirmação que a diplomacia chinesa chamou de "mentiras".

Mas, além do lado invasivo exercido sobre o soldado aprimorado, o exército francês e os industriais do setor estão desenvolvendo inúmeras tecnologias, como cintos equipados com vibradores para permitirem que um ou dois soldados e seus cães se comuniquem à distância, ou radares para detectar uma presença através de uma parede. No final das contas, o soldado aprimorado estará longe de ser um verdadeiro ciborgue.

O relatório afirmava ainda que, sem permitir a pesquisa dessas tecnologias, as forças armadas francesas estariam em desvantagem em relação aos exércitos de outros países. O comitê declarou que a França deve manter "a superioridade operacional de suas forças armadas em um contexto estratégico difícil", respeitando as regras que regem o direito militar e humanitário e os "valores fundamentais da nossa sociedade".

A declaração incluiu "linhas vermelhas" éticas a não serem cruzadas, incluindo eugenia ou alteração genética, e qualquer coisa que "pudesse comprometer a integração do soldado na sociedade ou o retorno à vida civil". A ministra Florence Parly, forneceu informações sobre as questões em torno dos lastros durante uma mesa redonda antes da divulgação do relatório.

Parly disse que as Forças Armadas francesas não permitiriam técnicas de transformação invasivas que cruzassem "barreiras corporais", tais como implantes de chips. No entanto, ela acrescentou, os chips podem ser instalados nos uniformes.

Explicando seu ponto com mais detalhes, Parly disse que as forças armadas francesas diriam sim ao Homem de Ferro, mas não ao Homem-Aranha, referindo-se à mutação genética deste último super-herói dos quadrinhos. Ela descreveu as condições sob as quais um soldado seria "aprimorado", o que inclui o consentimento prévio da pessoa submetida a tal aprimoramento. No entanto, ela acrescentou que pode haver falta de consentimento em circunstâncias "excepcionais", mas as circunstâncias têm de ser "justificadas".

A outra condição para permitir um aprimoramento no corpo de um soldado é que seja "reversível", disse Parley, para que o soldado possa voltar à sua condição corporal original assim que deixar as forças armadas.

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