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sexta-feira, 13 de maio de 2022

ENTREVISTA: Svetlana Alexievich, A Guerra não tem rosto de Mulher


Por Svetlana Alexievich, The Paris Review, 25 de julho de 2017.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 12 de maio de 2022.

Svetlana Alexievich, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura, é conhecida por seu tipo singular de colagem de história oral, que a Academia Sueca chamou de “uma história das emoções… uma história da alma”. Agora, seu primeiro livro, The Unwomanly Face of War: An Oral History of Women in World War II , publicado originalmente em 1985, foi traduzido do russo por Richard Pevear e Larissa Volokhonsky, que foram entrevistados para nossa série Writers at Work (Escritores Trabalhando) em 2015. Temos o prazer de apresentar um trecho abaixo.



Uma conversa com uma historiadora

Nós éramos uma carga alegre.

The Paris Review:
— Em que momento da história as mulheres apareceram pela primeira vez no exército?

— Já no século IV a.C. mulheres lutaram nos exércitos gregos de Atenas e Esparta. Mais tarde, eles participaram das campanhas de Alexandre, o Grande. O historiador russo Nikolai Karamzin escreveu sobre nossos ancestrais: “As mulheres eslavas ocasionalmente iam à guerra com seus pais e maridos, não temendo a morte: assim, durante o cerco de Constantinopla em 626, os gregos encontraram muitos corpos femininos entre os eslavos mortos. Uma mãe, criando seus filhos, os preparou para serem guerreiros.”

TPR: — E nos tempos modernos?

— Pela primeira vez na Inglaterra, onde de 1560 a 1650 começaram a equipar hospitais com mulheres soldados.

TPR: — O que aconteceu no século XX?

— O início do século... Na Inglaterra, durante a Primeira Guerra Mundial, as mulheres já estavam sendo levadas para a Royal Air Force. Um Corpo Auxiliar Real também foi formado e a Legião Feminina de Transporte Motorizado, que contava com 100.000 pessoas.

Na Rússia, Alemanha e França, muitas mulheres foram servir em hospitais militares e trens de ambulância.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o mundo foi testemunha de um fenômeno feminino. As mulheres serviram em todos os ramos das forças armadas em muitos países do mundo: 225.000 no exército britânico, 450.000 a 500.000 no americano, 500.000 no alemão…

Cerca de um milhão de mulheres lutaram no exército soviético. Eles dominavam todas as especialidades militares, incluindo as mais “masculinas”. Surgiu até um problema linguístico: até então não havia gênero feminino para as palavras motorista de tanque, infante, metralhador, porque as mulheres nunca haviam feito esse trabalho. As formas femininas nasceram ali, na guerra…

*

Maria Ivanovna Morozova (Ivanushkina)
Cabo, sniper

Esta será uma história simples… A história de uma garota russa comum, das quais havia muitas na época…

O lugar onde ficava minha aldeia natal, Diakovskoe, agora é o Distrito Proletário de Moscou. Quando a guerra começou, eu ainda não tinha dezoito anos. Tranças longas, muito longas, até os joelhos... Ninguém acreditava que a guerra duraria, todos esperavam que ela terminasse a qualquer momento. Expulsaríamos o inimigo. Trabalhei em um kolkhoz, depois terminei a faculdade de contabilidade e comecei a trabalhar. A guerra continuou... Minhas amigas... Diziam-me: “Devemos ir para a [linha de] frente.” Já estava no ar. Todas nós nos inscrevemos e tivemos aulas no escritório de recrutamento local. Talvez algumas tenham feito isso apenas para fazer companhia umas às outras, não sei. Ensinaram-nos a disparar um fuzil de combate, a lançar granadas-de-mão. No começo... confesso, eu tinha medo de segurar um fuzil, era desagradável. Eu não podia imaginar que iria matar alguém, eu só queria ir para a frente. Tínhamos quarenta pessoas em nosso grupo. Quatro meninas da nossa aldeia, então éramos todas amigas; cinco das aldeias vizinhas; em suma, algumas de cada aldeia. Todas elas meninas... Todos os homens já tinham ido para a guerra, os que podiam. Às vezes, um mensageiro vinha no meio da noite, dava duas horas para eles se aprontarem e eles eram levados. Eles podiam até mesmo serem retirados diretamente dos campos. (Silêncio.) Não me lembro agora — se tínhamos bailes; se tivéssemos, as meninas dançavam com as meninas, não havia mais meninos. Nossas aldeias ficaram quietas.


Logo veio um apelo do comitê central do Komsomol para que os jovens fossem defender a Pátria, já que os alemães já estavam perto de Moscou. Hitler tomar Moscou? Não vamos permitir! Eu não era a única… Todas as nossas meninas expressaram o desejo de ir para a frente. Meu pai já estava lutando. Pensávamos que éramos as únicas assim... Especiais... Mas chegamos ao escritório de recrutamento e havia muitas garotas lá. Eu apenas suspirei! Meu coração estava em chamas, tão intensamente. A seleção foi muito rigorosa. Em primeiro lugar, é claro, você tinha que ter uma saúde robusta. Eu tinha medo que eles não me levassem, porque quando criança eu ficava muitas vezes doente, e meu corpo era fraco, como minha mãe costumava dizer. Outras crianças me insultavam por causa disso quando eu era pequena. E então, se não havia outras crianças na casa, exceto a menina que queria ir para a frente, eles também recusavam: uma mãe não deveria ser deixada sozinha. Ah, nossas queridas mães! Suas lágrimas nunca secavam... Elas nos repreendiam, imploravam... Mas em nossa família restaram duas irmãs e dois irmãos — é verdade, eles eram todos muito mais novos do que eu, mas contava de qualquer maneira. Havia mais uma coisa: todo mundo do nosso kolkhoz tinha ido embora, não havia ninguém para trabalhar nos campos, e o presidente não queria nos deixar ir. Em suma, eles nos recusaram. Fomos ao comitê distrital do Komsomol e lá... recusa. Depois fomos como delegação do nosso distrito ao Komsomol regional. Houve grande inspiração em todos nós; nossos corações estavam em chamas. Novamente fomos mandadas para casa. Decidimos, já que estávamos em Moscou, ir ao comitê central do Komsomol, ao topo, ao primeiro secretário. Para levar até o fim... Quem seria nosso porta-voz? Quem era corajosa o suficiente? Pensávamos que com certeza seríamos as únicas ali, mas era impossível sequer mesmo entrar no corredor, quanto mais chegar até ao secretário. Havia jovens de todo o país, muitos dos quais estavam sob ocupação, querendo se vingar da morte de seus entes próximos. De toda a União Soviética. Sim, sim… Resumindo, ficamos até surpresas por um tempo…

À noite, chegamos à secretária, afinal. Eles nos perguntaram: “Então, como você pode ir para a frente se você não sabe atirar?” E dissemos em coro que já havíamos aprendido a atirar… “Onde? … Como? … E você pode aplicar bandagens?” Você sabe, naquele grupo no escritório de recrutamento nosso médico local nos ensinou a aplicar bandagens. Isso os calou, e eles começaram a nos olhar mais seriamente. Bem, tínhamos mais um trunfo nas mãos, que não estávamos sozinhas, éramos quarenta, e todas podíamos atirar e prestar primeiros socorros. Eles nos disseram: “Vão e esperem. Sua pergunta será decidida afirmativamente.” Como ficamos felizes quando partimos! Eu nunca vou esquecer... Sim, sim...

E, literalmente, em alguns dias, recebemos nossos papéis de convocação…

Chegamos ao escritório de recrutamento; entramos por uma porta de uma vez e fomos liberadas por outra. Eu tinha uma trança tão linda, e saí sem ela... Sem minha trança... Eles me deram um corte de cabelo de soldado... Também levaram meu vestido. Eu não tive tempo de enviar o vestido ou a trança para minha mãe... Ela queria muito ter algo meu com ela... Nós fomos imediatamente vestidas com camisas do exército, casquetes, recebemos kits e embarcados em um trem de carga - em palha. Mas palha fresca, ainda cheirando a campo.

Nós éramos uma carga alegre. Pretensiosa. Cheia de piadas. Lembro-me de rir muito.

Onde estávamos indo? Nós não sabíamos. No final, não era tão importante para nós o que seríamos. Desde que fosse na frente. Todo mundo estava lutando — e nós também estaríamos. Chegamos à estação Shchelkovo. Perto havia uma escola de atiradoras de elite femininas. Acontece que fomos enviadas para lá. Para nos tornar atiradoras. Todos nos regozijamos. Isso era algo real. Estaríamos atirando. Começamos a estudar. Estudamos os regulamentos: de serviço de guarnição, de disciplina, de camuflagem em campanha, de proteção química. Todas as meninas trabalharam muito duro. Aprendemos a montar e desmontar um fuzil de franco-atirador com os olhos fechados, a determinar a velocidade do vento, o movimento do alvo, a distância até o alvo, a cavar uma trincheira, a rastejar de bruços – já tínhamos dominado tudo isso. Só para chegar à frente o quanto antes. Na linha de fogo... Sim, sim... No final do curso tirei a nota máxima no exame para serviço de combate e não-combate. A coisa mais difícil, eu me lembro, foi levantar ao som do alarme e estar pronta em cinco minutos. Escolhemos botas um ou dois tamanhos maiores, para não perder tempo com elas. Tínhamos cinco minutos para nos vestir, colocar as botas e fazer fila. Houve momentos em que corríamos para nos alinhar com as botas sobre os pés descalços. Uma garota quase teve seus pés congelados. O sargento notou, repreendeu-a e depois nos ensinou a usar panos para os pés. Ele parou em cima de nós e murmurou: “Como vou fazer de vocês soldados, minhas queridas, e não alvos para Fritz?” Queridas meninas, queridas meninas... Todo mundo nos amava e tinha pena de nós o tempo todo. E nos ressentimos de terem pena. Não éramos soldados como todo mundo?

Bem, então chegamos à frente. Perto de Orsha... A sexagésima segunda Divisão de Infantaria... Lembro-me como hoje, o comandante, Coronel Borodkin, nos viu e ficou bravo: “Eles impingiram garotas em mim. O que é isso, algum tipo de dança de ciranda feminina? ele disse. “Corpo de balé! É uma guerra, não uma dança. Uma guerra terrível...” Mas então ele nos convidou, nos ofereceu um jantar. E nós o ouvimos perguntar ao seu ajudante: “Não temos algo doce para o chá?” Bem, é claro, ficamos ofendidas: o que ele pensa de nós? Viemos para fazer a guerra... E ele nos recebeu não como soldados, mas como menininhas. Na nossa idade, poderíamos ter sido suas filhas. “O que vou fazer com vocês, minhas queridas? Onde eles encontraram vocês?” Foi assim que ele nos tratou, foi assim que ele nos conheceu. E achávamos que já éramos guerreiros experientes... Sim, sim... Na guerra!

No dia seguinte ele nos fez mostrar que sabíamos atirar, como nos camuflar em campanha. Atiramos bem, melhor mesmo do que os atiradores de elite homens, que foram chamados da frente para dois dias de treinamento, e que ficaram muito surpresos por estarmos fazendo o trabalho deles.

Provavelmente foi a primeira vez em suas vidas que viram mulheres franco-atiradoras. Depois do tiro foi camuflagem em campanha... Veio o coronel, deu uma volta olhando a clareira, depois pisou num montículo — não viu nada. Então a “montinho” sob ele implorou: “Ai, camarada coronel, não aguento mais, você é muito pesado.” Como ríamos! Ele não podia acreditar que era possível se camuflar tão bem. “Agora”, disse ele, “retiro minhas palavras sobre as meninas”. Mas mesmo assim ele sofreu... Não conseguiu se acostumar conosco por muito tempo.

Então veio o primeiro dia de nossa “caçada” (assim os snipers chamam). Minha parceira era Masha Kozlova. Nós nos camuflamos e ficamos ali: estou de olho, Masha está segurando seu fuzil. De repente, Masha diz: “Atire, atire! Veja, é um alemão...”

Eu digo a ela: “Eu sou o vigia. Você atira!"

“Enquanto estamos resolvendo isso”, diz ela, “ele vai fugir”.

Mas insisto: “Primeiro temos que traçar o mapa de tiro, observar os marcos: onde fica o galpão, onde a bétula…”

“Você quer começar a brincar com papelada igual na escola? Eu vim para atirar, não para mexer em papelada!”

Vejo que Masha já está com raiva de mim.

"Bem, atire então, por que não?"


Estávamos brigando desse jeito. E enquanto isso, de fato, o oficial alemão dava ordens aos soldados. Uma carroça chegou, e os soldados formaram uma corrente e repassaram algum tipo de carga. O oficial ficou ali, deu ordens e depois desapareceu. Ainda estamos discutindo. Vejo que ele já apareceu duas vezes, e se não atirarmos nele novamente, será o fim. Nós vamos perdê-lo. E quando ele apareceu pela terceira vez, foi apenas momentâneo; agora ele está lá, agora ele se foi - eu decidi atirar. Eu decidi, e de repente um pensamento passou pela minha mente: ele é um ser humano; ele pode ser um inimigo, mas é um ser humano — e minhas mãos começaram a tremer, comecei a tremer toda, fiquei com calafrios. Algum tipo de medo... Esse sentimento às vezes volta para mim em sonhos mesmo agora... Depois dos alvos de compensado, era difícil atirar em uma pessoa viva. Eu o vejo na mira telescópica, eu o vejo muito bem. Como se ele estivesse perto... E algo em mim resiste... Algo não me deixa, não consigo me decidir. Mas me controlei, puxei o gatilho... Ele balançou os braços e caiu. Se ele estava morto ou não, eu não sabia. Mas depois disso estremeci ainda mais, uma espécie de terror tomou conta de mim: matei um homem?! Eu tive que me acostumar até mesmo com esse pensamento. Sim... Resumindo — horrível! Eu nunca esquecerei isso…

Quando voltamos, começamos a contar ao nosso pelotão o que havia acontecido conosco. Eles convocaram uma reunião. Tínhamos uma líder do Komsomol, Klava Ivanova; ela me assegurou: “Eles deveriam ser odiados, não lamentados...” Seu pai havia sido morto pelos fascistas. Começamos a cantar e ela nos implorava: “Não, não, queridas meninas. Vamos primeiro derrotar esses vermes, então vamos cantar.”

E não de imediato... Não conseguimos de imediato. Não é tarefa de uma mulher – odiar e matar. Não para nós... Tivemos que nos persuadir. Para nos convencermos disso…

Unwomanly Face of War:
An Oral History of Women in World War II.
Traduzido do russo por Richard Pevear e Larissa Volokhonsky.

Versão brasileira:

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher.
Traduzido do russo por Cecília Rosas.

quinta-feira, 31 de março de 2022

Tireurs d'élite na Frente Ocidental

"Na trincheira de Suffren, armado com um fuzil com luneta, um vigia da linha de frente está em seu posto, apoiado em sacos de areia, 12 de fevereiro de 1917."
(
Maurice Boulay / ECPAD)

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 31 de março de 2022.

Foto tirada por Maurice Boulay na comuna de Tracy-le-Val, no departamento do Oise, na região da Picardie durante a guerra de trincheiras na Frente Ocidental. O atirador de elite (tireur d'élite) está armado com um fuzil Lebel e uma das lunetas APX francesas, o conjunto padrão para os snipers franceses da Primeira Guerra Mundial.

Funcionamento interno do Lebel


Antes da eclosão da Grande Guerra em 1914, a França tinha uma pequena indústria óptica, concentrada principalmente em Paris, baseada predominantemente na produção de telescópios, binóculos, óculos de ópera e lunetas de pontaria de artilharia. Porém, pouquíssimo tempo foi dedicado ao estudo de miras ópticas para o soldado de infantaria. O número elevado de soldados mortos por snipers alemães nos primeiros meses da guerra levou os comandantes franceses a iniciarem estudos para se adaptarem ao novo estilo de guerra. A França teve competições de tiro de mil metros muito populares que eram abertas aos civis, então o exército conscrito de 1914 entrou na guerra contendo muitos atiradores de longa distância competentes.

Lebel com luneta APX 1917.

Da mesma forma que os demais exército, a França não possuía um fuzil projetado especificamente para o tiro de precisão e incorporou o fuzil padrão usado pelo exército: o Lebel M1886/M93Não havia lunetas nos estoques do exército e - em estado de urgência - o Ministro da Guerra, , realizou testes com uma luneta modificada do canhão de infantaria TR de 37mm, mas sem resultados. Também foi testada uma luneta modelo 1907 de uso comercial. Em 1915, após a condução de experimentos com lunetas capturadas dos alemães, foi desenvolvida a luneta  APX 1915 (Atelier de Puteaux Mle 1907-1915). Essa luneta APX era muito parecida com o a luneta Gerard alemã, com ampliação de 3x, um anel de foco no corpo da luneta, retículo cruzado e um tambor de alcance graduado para 800 metros. Esse modelo foi sendo atualizado nos APX 1916 e APX 1917, com um modelo APX 1921 no pós-guerra que tinha o retículo de um V invertido.

O maior problema para os armeiros foi a criação de um suporte para afixar a luneta ao fuzil que não atrapalhasse o manuseio do ferrolho. Este precisava ser levantado e puxado para trás toda vez que um disparo fosse feito. Esse sistema de repetição expelia o estojo do cartucho e carregava a munição subsequente. Poucos exemplares desses fuzis snipers sobreviveram, e os modelos preservados apresentaram montagens à mão, usando uma variação de combinações de blocos de montagem no lado esquerdo da caixa da culatra e um retém lateral de liberação rápida, com um sistema de encaixe. Os métodos de encaixe variam, alguns apresentando uma montagem frontal que encaixava-se em um anel era deslizado para baixo do cano até a culatra, onde era soldado no lugar. Outros tinham uma base frontal rosqueada e soldada em cima do cano próximo à alça de mira, e a montagem traseira era ou rosqueada à lateral da culatra ou, em alguns casos, montada em uma treliça de ferro que também era rosqueada no lugar.

Todos os modelos e variantes de lunetas, bem como os três suportes mais comuns.

Da esquerda pra direita:
  • Tipo 1886 APX montagem 15
  • APX 1907/15 montagem 16
  • APX 1907/15
  • 4 APX 1916 (diferentes marcações e retículos dependendo do ano de fabricação)
As 4 lunetas que seguem adotam um pára-brisa (parte traseira) de maior diâmetro à partir do final de 1916:
  • APX 1917 montagem lateral 17
  • 2 APX 1921 (diferentes marcações)
  • APX 34 (igual à APX 21 em desenho, mas sem marcação no pára-brisa da luneta)

Disparo com o Lebel a 500m


Como todos os fuzis de precisão da época, todas as lunetas eram agrupadas de fábrica com fuzis que se provaram particularmente precisos durante testes. O fuzil e a luneta recebiam um número de série de modo a garantir que a luneta permanecesse com o fuzil certo, e um estojo de couro era emitido para o transporte da luneta.

Luneta APX 1916 fabricada pela G. Forest de Paris colocada em um Lebel, número de série 15309.

O ferrolho do Lebel.

O fuzil Lebel foi revolucionário na sua época, sendo o primeiro fuzil moderno disparando com pólvora sem fumaça (Poudre B), mas era um projeto com raízes no antigo Chassepot da Guerra Franco-Prussiana (1870-1871) e em 1915 já estava ficando obsoleto. O exército então passou a introduzir o Berthier na infantaria. Ele era alimentado com pentes de três tiros (depois 5) ao invés do carregamento tubular do Lebel. A armação da luneta no Berthier usava uma montagem de duas peças, similar ao Lebel, ou uma armação fundida que era rosqueada no lado direito da culatra. A maioria dos Berthiers foi equipado com a luneta APX 1917, a qual era maior (280mm) do que a APX 1915 (240mm). Não há um número exato de lunetas produzidas mas fontes francesas indicam até 50 mil unidades.

Na Frente Ocidental, os franceses eram supridos com fuzis de luneta na base de três ou quatro por companhia, sem uma doutrina centralizada. Desta forma, o uso de snipers era de acordo com a visão do comandante local, sem uma prática definida ou escola própria. O historiador do Regimento de Infantaria nº 70 do exército alemão comentou sobre enfrentar os snipers franceses na floresta de Argonne:

"[A] cada passo, a morte batia. Os tireurs d'élite franceses estavam solidamente presos às árvores. Mesmo que um ou dois fossem atingidos, ainda não poderíamos passar. Nesta situação, as posições inimigas não puderam ser encontradas. Era como metralhadoras nas árvores [...] era como lutar contra fantasmas."

"Lagoa do papagaio. Um atirador de elite, trincheira."
Foto do Exército francês, 17 de janeiro de 1916.

Luneta APX 1917.

Manual de armamento francês de 1940 descrevendo a luneta APX 1921.

Desenho técnico da luneta APX 1921 e descrição da pontaria e montagem no fuzil.

No clássico do cinema Nada de Novo no Front (All Quiet on the Western Front, 1930), o protagonista Paul Baumer (interpretado por Lew Ayres) é morto por um sniper francês no ato final do filme. Ao som de uma triste gaita, Paul se estica de dentro da trincheira com a intenção de pegar uma borboleta e acaba alvejado pelo sniper, que usa um fuzil comercial Oberndorf Mauser Sporter com luneta. A música pára, e o fantasma de Paul marcha junto a tantos outros para um cemitério de cruzes brancas. A última passagem do livro assim descreve a morte de Paul:

Ele tombou em 1918 em um dia que estava tão quieto, tudo o que o alto comando alemão relatou foi "Tudo quieto na frente ocidental". Ele não sofreu muito. Seu rosto parecia tranquilo, como se quase aliviado pelo fim finalmente chegar.
FIM

O sniper francês com o Oberndorf Mauser Sporter.

A luneta.

Cena final do Nada de Novo no Front


Leitura recomendada:

Out of Nowhere:
A History of the Military Sniper.
Martin Pegler.

segunda-feira, 7 de março de 2022

FOTO: Sniper australiano na Coréia

Soldado B. Coffman com o seu fuzil Lithgow No. 1 Mk. III* na Coréia, 1951.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 7 de março de 2022.

O soldado B. Coffman, nativo de Nova Gales do Sul, está portando o fuzil Lithgow No. 1 Mk. III*, o Lee Enfield (SMLE) australiano. Seu uniforme e equipamento de lona são americanos, pois os australianos tiveram dificuldades de suprimento na Coréia.

A Coréia passou a ser uma guerra estática de 1953 em diante, o que proliferou os snipers em ambos os lados. Ian Robertson, fotógrafo e franco-atirador, foi o maior sniper australiano na Coréia. Em uma ocasião, ele matou 31 inimigos em um único dia. Posteriormente, ele ensinou dança aos franco-atiradores com o objetivo de treinar coordenação corporal. Ele se casou com sua namorada japonesa, Miki; falecida em 2014.

Robertson usou uma variante especial do Lee-Enfield, com uma luneta padrão 1918 feito pela Australian Optical Co., com melhor impermeabilidade. Esses Lee-Enfields ostentavam canos pesados e vinham com um protetor de bochecha pronto para instalar, mas os atiradores não gostavam dele e na maioria das vezes não o colocavam em seus fuzis. Essa proteção de bochecha era a mesma dos fuzis N°4 Enfield, que não eram muito apreciadas, pois não permitiam o alinhamento ocular adequado com a luneta.

domingo, 6 de março de 2022

Mulheres em lados opostos da guerra na Síria

Mulher combatente da Unidade de Proteção ao Povo Curdo.

Por Khalil Hamlo, The Arab Weekly, 1º de agosto de 2016.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 6 de março de 2022.

DAMASCO - Elas são bem treinados, podem manejar fuzis automáticos e grandes armas e são excelentes em sniping. A Brigada de Um Ali, o Primeiro Batalhão de Comandos e as unidades curdas são destacamentos femininos que lutam em lados opostos do violento conflito sírio.

Voluntária curda com um distintivo de Abdullah Öcalan.

Em um fenômeno raro nas sociedades árabes conservadoras, as mulheres sírias têm lutado lado a lado com os homens, seja com o Exército Sírio e forças afiliadas ou com grupos de oposição.

Embora as mulheres tenham servido no exército antes da eclosão da guerra civil em 2011, seu papel foi amplamente confinado a tarefas administrativas ou logística militar e unidades de abastecimento. E de acordo com um oficial do exército que pediu para ser identificado como Mohamad, o papel desempenhado pelas mulheres na guerra foi exagerado para fins meramente políticos.

“Por exemplo, os grupos de oposição destacaram a participação das mulheres nos combates do lado do regime alegando falta de efetivos masculinos após a deserção ou morte de milhares de soldados. Eles alegaram que o regime teve que recorrer às mulheres para compensar as perdas incorridas”, disse Mohamad ao The Arab Weekly.

Ela argumentou que a participação feminina na oposição armada também foi exagerada “para dar a impressão de que o que está acontecendo na Síria é uma verdadeira revolução popular que abrange todos, incluindo as mulheres”.

Soldado feminino pertencente à primeira brigada de comandos femininos na Guarda Republicana Síria.

O Primeiro Batalhão de Comandos da Guarda Republicana, o principal destacamento feminino do Exército Sírio, foi desdobrado em Jobar, na periferia leste de Damasco. Yolla, uma filha de 23 anos de um oficial reformado do exército recentemente matriculada na unidade. Ela disse que queria ajudar a libertar milhares de mulheres e crianças sequestradas por milícias.

“Entrei para o batalhão de comandos depois de testemunhar os horrores cometidos na zona rural de Latakia em 2013, quando homens armados invadiram as aldeias e levaram dezenas de mulheres e crianças para Ghouta Sharqiya, perto de Damasco”, disse Yolla. “Decidi pegar em armas com a esperança de contribuir para a sua libertação.”

Mohamad Sleiman, um general aposentado do exército, minimizou a importância das mulheres na luta real. “As mulheres estão se alistando no exército há décadas”, disse ele. “Existem milhares de mulheres oficiais que se formaram na academia militar, mas sempre atuaram nas fileiras de trás, na administração e dentro das instalações militares.”

Combatente curda com um Kalashnikov.

No entanto, a Brigada da Guarda Republicana inclui 130 franco-atiradoras posicionadas nos arredores de Damasco. Estima-se que 3.000 mulheres, com idades entre 20 e 35 anos, operam dentro das Forças de Defesa Nacional, uma unidade pró-regime criada durante o conflito. Elas são desdobradas principalmente em bloqueios militares e centros de busca dentro de áreas relativamente seguras em Damasco, Latakia, Tartus e Sweida.

“Essas meninas também estão presentes na linha de frente e se envolvem em combate direto. Algumas se ofereceram para transportar armas e munições, enquanto outras manuseiam fuzis de precisão e, às vezes, grandes armas”, disse Salem Hassan, porta-voz das forças de defesa.

Snipers cristãs sírias do Exército Árabe Sírio em Sotoro Qamishli, na Síria.

Do lado dos rebeldes, as mulheres também estão ativas, especialmente em Aleppo e Idlib, no norte da Síria, que estão sob o controle de Jaysh al-Fateh. “As mulheres sírias se juntaram aos homens na luta contra as forças do regime para defender a liberdade”, comentou um ativista da mídia em Idlib, identificado por seu sobrenome, Taleb.

“As mulheres sírias provaram ser tão corajosas quanto os homens na condução da guerra destinada a libertar a Síria (do regime Ba'ath). Elas participaram de combates reais e eu as vi manusear fuzis automáticos e, às vezes, armas pesadas com facilidade”, disse Taleb em entrevista por telefone.

Sniper curda com um fuzil Dragunov.

No entanto, estima-se que as mulheres combatentes dos grupos armados da oposição não sejam superiores a 1.000, devido à grande oferta de combatentes do sexo masculino, explicou ele. “Mas milhares de mulheres estão ativas no resgate e assistência médica aos feridos e na preparação de alimentos para os combatentes.”

“Guevara”, uma ex-professora de inglês apelidada em homenagem ao líder guerrilheiro revolucionário marxista argentino Che Guevara, ficou famosa como a “Sniper de Aleppo”. Ela pegou em armas contra o regime depois que seus dois filhos foram mortos em um ataque aéreo. Desde então, ela está “caçando” soldados na linha de frente de Saladino. A Brigada de Um Ali é outro grupo de combate feminino de renome na cidade agredida. O que começou como um grupo médico de sete mulheres evoluiu para uma unidade de combate exclusivamente feminina composta por 60 mulheres especializadas em atiradores de elite.

A sniper "Guevara", uma palestina-síria em Aleppo, na Síria, armada com um fuzil FAL e luneta.

“As mulheres de Aleppo se destacaram nas linhas de frente, especialmente no trabalho de inteligência, coletando informações sobre posições do exército na parte da cidade controlada pelo regime”, disse Mustafa Issa, ex-combatente da Brigada al-Tawheed.

As mulheres curdas que lutam com as Unidades de Proteção da Mulher (YPJ), o braço feminino da principal força curda, ganharam reconhecimento como combatentes obstinadas durante a batalha de Kobani contra o Estado Islâmico (ISIS). “Elas participaram de todos os tipos de combate no norte da Síria”, disse o jornalista Marwan Hami.

Atiradora do YPJ com um Dragunov na linha de frente de Raqqa em novembro de 2016.

“Elas são combatentes da linha de frente que desempenharam um papel importante no confronto com os terroristas do ISIS que cometeram massacres contra os curdos, levando-as a assumir sua responsabilidade na defesa de seu povo e seus direitos”, disse Hami.

A Brigada al-Khansa do ISIS, que opera em Raqqa, a capital de fato do Estado Islâmico, é a unidade feminina mais notória cujo papel se limita à coleta de inteligência e ao monitoramento da oposição ou crítica ao governo do ISIS. Eles também supervisionam a implementação estrita das diretrizes e instruções islâmicas do grupo.

Combatente curda do YPJ de Rojava, na Síria, em novembro de 2014.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Precisão Russa: O Fuzil Sniper Dragunov


Por Leroy Thompson, Tactical-Life, 15 de outubro de 2013.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 17 de fevereiro de 2022.

O Fuzil Sniper Dragunov (SVD) serviu como um fuzil sniper para as forças armadas russas por quase 50 anos!

Se você tivesse US$ 25.000 em 1975, isso valeria US$ 106.383 hoje. (Alguns de vocês que se lembram da guerra no Sudeste Asiático provavelmente sabem onde quero chegar com isso.) Durante e imediatamente após a Guerra do Vietnã, as agências de inteligência dos EUA estavam oferecendo US$ 25.000 por um fuzil de precisão Dragunov. Embora tenha sido produzido na União Soviética desde 1963, era praticamente desconhecido no Ocidente. Na época havia descrições dele, mas nem fotos estavam disponíveis. Houve alguns relatos de atiradores de elite soviéticos com unidades norte-vietnamitas usando o Dragunov contra as tropas americanas. No entanto, nenhum dos franco-atiradores foi capturado, nem seus fuzis.

Rastreando-o


Ainda hoje, o Dragunov - isto é, um verdadeiro fuzil sniper Dragunov russo - raramente é encontrado nos EUA. Um faux Dragunov, o PSL romeno, é bastante comum nos EUA. Mas conquanto um Dragunov usa um sistema de pistão de curso curto e operado a gás com um ferrolho rotativo, o PSL usa um sistema de curso longo baseado no AK-47. Pelo que entendi, o Dragunov tem um sistema de curso curto porque acreditava-se que um sistema de curso longo teria um efeito negativo nos fuzis de batalha; os fuzis Tigr (Tigre) não parecem “certos”.

Na ponta do cano há um quebra-chama longo e uma alça de baioneta. O orifício na parte superior da coberta da massa de mira permite o seu ajuste.

O Dragunov também é conhecido como SVD, ou Snayperskaya Vintovka Dragunova, que se traduz em “fuzil de precisão Dragunov”. Embora tenha funcionado como um fuzil sniper dentro das forças armadas russas por quase 50 anos, o SVD é realmente mais parecido com o que as forças armadas americanas consideram um fuzil de atirador designado. O SVD pretendia dar a um grupo de combate russo uma arma com capacidade de engajamento de mais longo alcance do que a de um AK-47 (ou, mais recentemente, um AK-74). Um membro de cada grupo de combate de infantaria russo deveria estar armado com um SVD.

Detalhes da arma

O fuzil pareceu leve e prático, e disparar com a mão sem apoio resultava em acertos consistentes a 100 jardas (91,4m).

Como o Dragunov é um semiautomático com um carregador de 10 tiros, ele é capaz de disparos rápidos de acompanhamento quando usado em apoio ao avanço da infantaria. Ele também é compartimentado para o mesmo cartucho 7.62x54R usado por snipers russos durante a Segunda Guerra Mundial. Isso lhe dá mais alcance do que um AK-47 de 7,62x39mm ou um AK-74 de 5,45x39mm. Como o Dragunov dispara o poderoso cartucho 7,62x54R, o ferrolho rotativo possui três terminais de trancamento robustos. Para melhorar a operação em condições de sujeira ou inverno, o SVD possui um regulador de gás de duas posições.

O cano é revestido de cromo, pois a munição 7,62x54R foi corrosiva durante grande parte do serviço da arma. Há um quebra-chama longo no final do cano, que também possui uma alça de baioneta. Um ex-atirador das Spetsnaz com quem conversei na Rússia me disse que muitos snipers achavam que seus Dragunovs eram mais precisos com a baioneta montada porque levava à melhor harmonia do cano.

Carregador e retém do carregador.

Conjunto do gatilho e registro de segurança.

As coronhas e guarda-mãos do SVD são distintos. A coronha esquelética é realmente bastante confortável e alivia o peso do fuzil o suficiente para torná-lo relativamente fácil de disparar à mão sem base, e os guarda-mãos de madeira ventilados parecem ajudar a dissipar o calor. Um apoio de bochecha removível é montada na coronha para uso com a luneta.

Se as miras de ferro de reserva forem usadas, o apoio de bochecha é removido. Muitos fuzis de precisão não têm miras de ferro de reserva, mas deveriam - fuzis de precisão se tornam inúteis se algo acontecer com a luneta. Como o Dragunov usa uma montagem de luneta lateral, as miras podem ser usadas quando uma luneta é montada.

Luneta PSO-1

O retículo da luneta PSO-1 do Dragunov.

Falando da luneta, o escopo padrão do Dragunov é o PSO-1. Quando foi introduzido na década de 1960, o PSO-1 era uma das óticas militares mais avançadas do mundo, talvez uma das razões pelas quais os russos eram tão secretos sobre o SVD. A ampliação do PSO-1 é de 4x e o retículo é iluminado por meio de uma bateria. O retículo pode ser usado para busca de distância, compensação da altura ou movimento. Para permitir o uso no rigoroso inverno russo, o PSO-1 incorpora um aquecedor de bateria.

A luneta tem um mostrador de elevação com um compensador de queda da bala e um metascópio para identificar uma fonte infravermelha. Uma proteção ocular de borracha evita que a luz periférica distraia o atirador e também fornece o espaço correto de alívio do olho de 68mm para o escopo. Mesmo meio século depois de ter entrado em produção, o PSO-1 continua bastante utilizável, tendo adquirido muitos alvos em todo o mundo. A geração atual é o PSO-1M2.

Aqui é mostrada a alça de mira de ferro.
Como o Dragunov usa uma montagem de luneta lateral, o BUIS pode ser usado quando uma luneta é montada.

Visão lateral mostrando a montagem da luneta.

Às vezes, Dragunovs designados como “SVDN” são encontrados. Essas armas montarão uma das miras russas de visão noturna. Os dois telescópios passivos de visão noturna que eu sei que foram usados no Dragunov são o NSP-3 de 2.7x e o PGN-1 de 3.4x. (Acredito que o visor noturno 1PN93-3 usado na metralhadora PKM também foi usada no Dragunov.) Um contato russo meu que estava em uma unidade Spetsnaz no Afeganistão me contou sobre o uso de um Dragunov com ótica de visão noturna. Acredito que seja um PGN-1, mas nossa conversa aconteceu há 20 anos, então posso ter entendido errado. Meu contato disse que eles usaram os Dragunovs com ótica de visão noturna até 400 ou 500 metros. (Ele também me mostrou o sistema de jogar no ombro, enquanto aferrava de joelhos, eles usavam para jogar mujahideen de penhascos em combate corpo a corpo noturno!)

Com munição padrão 7,62x54R, esperava-se que o Dragunov disparasse cerca de 2 MOA (Minuto de Ângulo); com as munições especiais de sniper 7N1, pouco mais de 1 MOA. No entanto, isso era teórico: Com munição padrão 7.62x54R, esperava-se que o Dragunov disparasse cerca de 2 MOA; com as munições especiais de sniper 7N1, pouco mais de 1 MOA. No entanto, isso era teórico: esses grupos raramente eram alcançados ao que me parece.

O PSO-1 de 4x possui um retículo iluminado, um mostrador de elevação com um compensador de queda de bala e um metascópio para identificar uma fonte infravermelha.

O SVD tem uma coronha esquelética de madeira e punho de pistola, e muitos atiradores acham o punho grosso. O apoio de bochecha destacável é para uso com a luneta.

Em 1999, o 7N1 foi substituído pelo 7N14, que possui uma bala perfurante. Eu nunca disparei a munição 7N14, mas alguns anos atrás eu tive a chance de disparar alguns carregadores de 7N1. O estande não tinha alvos de papel configurados, então eu atirei em silhuetas de 200 jardas e acertei-as todas as vezes. O PSO-1 daquele fuzil foi zerado a 200 jardas. Um lote de munições 7N1 chegou aos EUA há alguns anos e foi engolido rapidamente. Eu ocasionalmente o vejo à venda no GunBroker.com por cerca de um dólar por munição.

Outras encarnações


O Dragunov foi atualizado ao longo de sua vida útil. A versão atualizada frequentemente vista em uso hoje tem uma coronha esquelética de material sintético e bipé e pode montar uma luneta de potência variável de 3-9x42mm. Há também o SVDS, que foi projetado para uso por tropas aerotransportadas e incorpora um cano mais curto e coronha dobrável. É normalmente equipado com o osciloscópio PSO-1M2, ou com óptica de visão noturna e designado como SVDSN.

Embora os russos permanecessem em segredo sobre o Dragunov por alguns anos, ele foi fornecido aos exércitos parceiros do Pacto de Varsóvia ou construído sob licença. Eventualmente, outros países dentro da esfera soviética também receberam Dragunovs. Os atiradores americanos provavelmente estão mais familiarizados com o Tipo 79 chinês, que era uma cópia licenciada* do SVD russo produzido pela Norinco. Houve algumas pequenas diferenças, incluindo, supostamente, uma coronha ligeiramente menor para acomodar a menor estatura dos soldados chineses.

*Nota do Tradutor: A China produziu uma cópia não licenciada do SVD através da engenharia reversa de exemplares capturados durante a Guerra Sino-Vietnamita de 1979.

Norinco NDM-86.
A versão chinesa do Dragunov.

O primeiro Dragunov que disparei foi um Tipo 79: Vários anos atrás, algumas unidades de operações especiais dos EUA adquiriram Tipos 79 para usar no treinamento de familiarização com o Dragunov, e eu tive a chance de atirar com um. Alguns dos Dragunovs Tipo 79 foram produzidos em 7,62x51mm OTAN, e estou ciente de uma unidade de operações especiais dos EUA que os adquiriu por causa da munição prontamente disponível.

Existem algumas indicações de que os primeiros Dragunovs chineses foram realmente construídos na Rússia e fornecidos aos chineses. Hoje, os Dragunovs Norinco são bastante procurados nos EUA, pois nem todos foram importados - cerca de 2.000 por algumas estimativas. No ano passado, vi Tipos 79 7,62x51mm NATO saírem por US$ 5.000 e bons com câmara para 7.62x54R por US$ 7.500. Observe que, às vezes, os Tipos 79 podem ser designados como Tipo 85, dependendo de qual luneta é usada.

A Índia também construiu Dragunovs sob licença, e o Irã produziu uma arma própria baseada no Dragunov, o fuzil sniper Nakhjir. Atiradores finlandeses usam uma versão bem feita do Dragunov, o TKIV, produzido pela Sako. Muitos daqueles que atiraram no TKIV o consideram o Dragunov mais preciso que dispararam, embora eu tenha que admitir que alguns finlandeses que conheço não o consideram muito bem. Por outro lado, os finlandeses emitiram o TKIV de 7,62mm e me disseram que o preferem, pois é muito mais fácil de transportar do que o TKIV de 8,6mm mais pesado (Sako TRG-42) e sua munição mais pesada.


Praticamente todos os outros países dentro da esfera de influência soviética durante a Guerra Fria usaram o Dragunov. Alguns, como a Ucrânia, ainda o fazem. Cuba tinha usado o Dragunov, e lembro-me de ter visto um capturado durante a operação de Granada. O SWD-M da Polônia era uma versão modernizada do SVD, com um cano mais pesado, mira de potência variável e bipé destacável.

Como acontece com a maioria das armas russas, o Dragunov continuará aparecendo em pontos problemáticos por décadas. Na verdade, as tropas russas enfrentaram franco-atiradores chechenos - muitas vezes ex-atiradores do Exército russo - armados com Dragunovs durante a guerra de 1999 a 2009. As tropas dos EUA enfrentaram Dragunovs nas mãos de atiradores mercenários chechenos no Iraque também.

Impressões do disparo


Enquanto preparava este artigo, tive a chance de atirar com um Draugnov para me familiarizar novamente com o fuzil. Se eu tivesse alguns cartuchos de sniper 7N1 disponíveis, eu os teria usado e depois usado água fervente para limpar a munição corrosiva. No entanto, não o fiz, então aproveitei o fato de que a Century International Arms fornece munição Barnaul 7.62x54R, 185 grãos, FMJ, não corrosiva e encomendei 100 cartuchos. O Barnaul era na verdade mais pesado do que a carga de 152 grãos da 7N1 sniper, mas eu estava atirando para me familiarizar com o fuzil, não para zerá-lo para a munição de sniper padrão. Uma das primeiras coisas que notei foi como o Dragunov é leve e prático em comparação com a maioria dos fuzis de precisão.

Este fuzil deveria ser carregado pelo atirador de longo alcance em um grupo de combate de infantaria – ênfase na palavra "carregado". Embora os atiradores de grupo de combate normalmente usassem uma bandoleira com o Dragunov algumas vezes, o Dragunov que eu atirei não tinha uma bandoleira montada.

"23, tá sem bandoleira?"


Como de costume, acho a segurança do tipo AK relativamente lenta para operar: tenho que remover o polegar do punho da pistola ou usar o dedo do gatilho. Na verdade, isso é um problema menor para um fuzil sniper do que para um AK que provavelmente será carregado por um homem-ponto. Eu provavelmente carregaria o SVD com a trava de segurança desativada e uma câmara vazia e estenderia a mão de apoio para engajar o ferrolho. A luneta atrapalha até certo ponto, mas eu executei a ação algumas vezes e funcionou.

No passado, estudei traduções dos manuais do SVD e PSO-1, para aprender a usar os vários recursos do retículo, incluindo o alcance. Aqui achei desnecessário. Usar o ponto de mira central de insígnia foi suficiente e fácil de usar para pontaria precisa. Na maior parte, usei a insígnia para atirar em placas de 100 e 200 jardas. Eu não ajustei para elevação, apenas meu ponto de mira. De um descanso em pé, eu estava atingindo as placas praticamente todas as vezes, e com a mão sem apoio a 100 jardas eu estava atingindo consistentemente.

O gatilho do Dragunov certamente não é o que esperávamos para um verdadeiro fuzil sniper, mas é consistente e bastante nítido. Eu tinha atirado bastante com o .30-06 1903 Springfield recentemente e pensei que seria uma boa base de comparação com o 7,62x54R SVD.

Subjetivamente, o recuo do SVD parecia menos perceptível, possivelmente porque a operação semiautomática do ferrolho  amortece o recuo. Eu gostei da coronha do Dragunov, embora sentisse um pouco curto em termos de obter o melhor apoio na bochecha e espaço de alívio do olho.

Os fuzis politicamente corretos que foram importados com coronhas esqueléticas com punho de pistola me ofendem, mas eu gosto dessa coronha do Dragunov, provavelmente porque foi com ela que o fuzil foi emitido. Com exceção de querer uma polegada a mais, também acho essa coronha muito confortável.

Considerações finais


Eu tenho fuzis de precisão com os quais posso atirar consistentemente em grupos meio-MOA. Se em um dia muito bom eu atirasse um grupo 2-MOA com o Dragunov, ficaria emocionado. Meus outros fuzis de precisão não parecem tão naturais nas mãos quanto o Dragunov, nem se prestam tão bem a um tiro rápido sem base.

Há algo sobre o Dragunov. Talvez tenha a ver com o prêmio de US$ 25.000 por capturar um, ou que ele provavelmente seja visto nas mãos dos inimigos dos Estados Unidos, da Guerra Fria à Guerra ao Terror. Mas para mim, honestamente, muito do apelo do Dragunov é estético – elegante e mortal.