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sexta-feira, 13 de maio de 2022

ENTREVISTA: Svetlana Alexievich, A Guerra não tem rosto de Mulher


Por Svetlana Alexievich, The Paris Review, 25 de julho de 2017.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 12 de maio de 2022.

Svetlana Alexievich, ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura, é conhecida por seu tipo singular de colagem de história oral, que a Academia Sueca chamou de “uma história das emoções… uma história da alma”. Agora, seu primeiro livro, The Unwomanly Face of War: An Oral History of Women in World War II , publicado originalmente em 1985, foi traduzido do russo por Richard Pevear e Larissa Volokhonsky, que foram entrevistados para nossa série Writers at Work (Escritores Trabalhando) em 2015. Temos o prazer de apresentar um trecho abaixo.



Uma conversa com uma historiadora

Nós éramos uma carga alegre.

The Paris Review:
— Em que momento da história as mulheres apareceram pela primeira vez no exército?

— Já no século IV a.C. mulheres lutaram nos exércitos gregos de Atenas e Esparta. Mais tarde, eles participaram das campanhas de Alexandre, o Grande. O historiador russo Nikolai Karamzin escreveu sobre nossos ancestrais: “As mulheres eslavas ocasionalmente iam à guerra com seus pais e maridos, não temendo a morte: assim, durante o cerco de Constantinopla em 626, os gregos encontraram muitos corpos femininos entre os eslavos mortos. Uma mãe, criando seus filhos, os preparou para serem guerreiros.”

TPR: — E nos tempos modernos?

— Pela primeira vez na Inglaterra, onde de 1560 a 1650 começaram a equipar hospitais com mulheres soldados.

TPR: — O que aconteceu no século XX?

— O início do século... Na Inglaterra, durante a Primeira Guerra Mundial, as mulheres já estavam sendo levadas para a Royal Air Force. Um Corpo Auxiliar Real também foi formado e a Legião Feminina de Transporte Motorizado, que contava com 100.000 pessoas.

Na Rússia, Alemanha e França, muitas mulheres foram servir em hospitais militares e trens de ambulância.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o mundo foi testemunha de um fenômeno feminino. As mulheres serviram em todos os ramos das forças armadas em muitos países do mundo: 225.000 no exército britânico, 450.000 a 500.000 no americano, 500.000 no alemão…

Cerca de um milhão de mulheres lutaram no exército soviético. Eles dominavam todas as especialidades militares, incluindo as mais “masculinas”. Surgiu até um problema linguístico: até então não havia gênero feminino para as palavras motorista de tanque, infante, metralhador, porque as mulheres nunca haviam feito esse trabalho. As formas femininas nasceram ali, na guerra…

*

Maria Ivanovna Morozova (Ivanushkina)
Cabo, sniper

Esta será uma história simples… A história de uma garota russa comum, das quais havia muitas na época…

O lugar onde ficava minha aldeia natal, Diakovskoe, agora é o Distrito Proletário de Moscou. Quando a guerra começou, eu ainda não tinha dezoito anos. Tranças longas, muito longas, até os joelhos... Ninguém acreditava que a guerra duraria, todos esperavam que ela terminasse a qualquer momento. Expulsaríamos o inimigo. Trabalhei em um kolkhoz, depois terminei a faculdade de contabilidade e comecei a trabalhar. A guerra continuou... Minhas amigas... Diziam-me: “Devemos ir para a [linha de] frente.” Já estava no ar. Todas nós nos inscrevemos e tivemos aulas no escritório de recrutamento local. Talvez algumas tenham feito isso apenas para fazer companhia umas às outras, não sei. Ensinaram-nos a disparar um fuzil de combate, a lançar granadas-de-mão. No começo... confesso, eu tinha medo de segurar um fuzil, era desagradável. Eu não podia imaginar que iria matar alguém, eu só queria ir para a frente. Tínhamos quarenta pessoas em nosso grupo. Quatro meninas da nossa aldeia, então éramos todas amigas; cinco das aldeias vizinhas; em suma, algumas de cada aldeia. Todas elas meninas... Todos os homens já tinham ido para a guerra, os que podiam. Às vezes, um mensageiro vinha no meio da noite, dava duas horas para eles se aprontarem e eles eram levados. Eles podiam até mesmo serem retirados diretamente dos campos. (Silêncio.) Não me lembro agora — se tínhamos bailes; se tivéssemos, as meninas dançavam com as meninas, não havia mais meninos. Nossas aldeias ficaram quietas.


Logo veio um apelo do comitê central do Komsomol para que os jovens fossem defender a Pátria, já que os alemães já estavam perto de Moscou. Hitler tomar Moscou? Não vamos permitir! Eu não era a única… Todas as nossas meninas expressaram o desejo de ir para a frente. Meu pai já estava lutando. Pensávamos que éramos as únicas assim... Especiais... Mas chegamos ao escritório de recrutamento e havia muitas garotas lá. Eu apenas suspirei! Meu coração estava em chamas, tão intensamente. A seleção foi muito rigorosa. Em primeiro lugar, é claro, você tinha que ter uma saúde robusta. Eu tinha medo que eles não me levassem, porque quando criança eu ficava muitas vezes doente, e meu corpo era fraco, como minha mãe costumava dizer. Outras crianças me insultavam por causa disso quando eu era pequena. E então, se não havia outras crianças na casa, exceto a menina que queria ir para a frente, eles também recusavam: uma mãe não deveria ser deixada sozinha. Ah, nossas queridas mães! Suas lágrimas nunca secavam... Elas nos repreendiam, imploravam... Mas em nossa família restaram duas irmãs e dois irmãos — é verdade, eles eram todos muito mais novos do que eu, mas contava de qualquer maneira. Havia mais uma coisa: todo mundo do nosso kolkhoz tinha ido embora, não havia ninguém para trabalhar nos campos, e o presidente não queria nos deixar ir. Em suma, eles nos recusaram. Fomos ao comitê distrital do Komsomol e lá... recusa. Depois fomos como delegação do nosso distrito ao Komsomol regional. Houve grande inspiração em todos nós; nossos corações estavam em chamas. Novamente fomos mandadas para casa. Decidimos, já que estávamos em Moscou, ir ao comitê central do Komsomol, ao topo, ao primeiro secretário. Para levar até o fim... Quem seria nosso porta-voz? Quem era corajosa o suficiente? Pensávamos que com certeza seríamos as únicas ali, mas era impossível sequer mesmo entrar no corredor, quanto mais chegar até ao secretário. Havia jovens de todo o país, muitos dos quais estavam sob ocupação, querendo se vingar da morte de seus entes próximos. De toda a União Soviética. Sim, sim… Resumindo, ficamos até surpresas por um tempo…

À noite, chegamos à secretária, afinal. Eles nos perguntaram: “Então, como você pode ir para a frente se você não sabe atirar?” E dissemos em coro que já havíamos aprendido a atirar… “Onde? … Como? … E você pode aplicar bandagens?” Você sabe, naquele grupo no escritório de recrutamento nosso médico local nos ensinou a aplicar bandagens. Isso os calou, e eles começaram a nos olhar mais seriamente. Bem, tínhamos mais um trunfo nas mãos, que não estávamos sozinhas, éramos quarenta, e todas podíamos atirar e prestar primeiros socorros. Eles nos disseram: “Vão e esperem. Sua pergunta será decidida afirmativamente.” Como ficamos felizes quando partimos! Eu nunca vou esquecer... Sim, sim...

E, literalmente, em alguns dias, recebemos nossos papéis de convocação…

Chegamos ao escritório de recrutamento; entramos por uma porta de uma vez e fomos liberadas por outra. Eu tinha uma trança tão linda, e saí sem ela... Sem minha trança... Eles me deram um corte de cabelo de soldado... Também levaram meu vestido. Eu não tive tempo de enviar o vestido ou a trança para minha mãe... Ela queria muito ter algo meu com ela... Nós fomos imediatamente vestidas com camisas do exército, casquetes, recebemos kits e embarcados em um trem de carga - em palha. Mas palha fresca, ainda cheirando a campo.

Nós éramos uma carga alegre. Pretensiosa. Cheia de piadas. Lembro-me de rir muito.

Onde estávamos indo? Nós não sabíamos. No final, não era tão importante para nós o que seríamos. Desde que fosse na frente. Todo mundo estava lutando — e nós também estaríamos. Chegamos à estação Shchelkovo. Perto havia uma escola de atiradoras de elite femininas. Acontece que fomos enviadas para lá. Para nos tornar atiradoras. Todos nos regozijamos. Isso era algo real. Estaríamos atirando. Começamos a estudar. Estudamos os regulamentos: de serviço de guarnição, de disciplina, de camuflagem em campanha, de proteção química. Todas as meninas trabalharam muito duro. Aprendemos a montar e desmontar um fuzil de franco-atirador com os olhos fechados, a determinar a velocidade do vento, o movimento do alvo, a distância até o alvo, a cavar uma trincheira, a rastejar de bruços – já tínhamos dominado tudo isso. Só para chegar à frente o quanto antes. Na linha de fogo... Sim, sim... No final do curso tirei a nota máxima no exame para serviço de combate e não-combate. A coisa mais difícil, eu me lembro, foi levantar ao som do alarme e estar pronta em cinco minutos. Escolhemos botas um ou dois tamanhos maiores, para não perder tempo com elas. Tínhamos cinco minutos para nos vestir, colocar as botas e fazer fila. Houve momentos em que corríamos para nos alinhar com as botas sobre os pés descalços. Uma garota quase teve seus pés congelados. O sargento notou, repreendeu-a e depois nos ensinou a usar panos para os pés. Ele parou em cima de nós e murmurou: “Como vou fazer de vocês soldados, minhas queridas, e não alvos para Fritz?” Queridas meninas, queridas meninas... Todo mundo nos amava e tinha pena de nós o tempo todo. E nos ressentimos de terem pena. Não éramos soldados como todo mundo?

Bem, então chegamos à frente. Perto de Orsha... A sexagésima segunda Divisão de Infantaria... Lembro-me como hoje, o comandante, Coronel Borodkin, nos viu e ficou bravo: “Eles impingiram garotas em mim. O que é isso, algum tipo de dança de ciranda feminina? ele disse. “Corpo de balé! É uma guerra, não uma dança. Uma guerra terrível...” Mas então ele nos convidou, nos ofereceu um jantar. E nós o ouvimos perguntar ao seu ajudante: “Não temos algo doce para o chá?” Bem, é claro, ficamos ofendidas: o que ele pensa de nós? Viemos para fazer a guerra... E ele nos recebeu não como soldados, mas como menininhas. Na nossa idade, poderíamos ter sido suas filhas. “O que vou fazer com vocês, minhas queridas? Onde eles encontraram vocês?” Foi assim que ele nos tratou, foi assim que ele nos conheceu. E achávamos que já éramos guerreiros experientes... Sim, sim... Na guerra!

No dia seguinte ele nos fez mostrar que sabíamos atirar, como nos camuflar em campanha. Atiramos bem, melhor mesmo do que os atiradores de elite homens, que foram chamados da frente para dois dias de treinamento, e que ficaram muito surpresos por estarmos fazendo o trabalho deles.

Provavelmente foi a primeira vez em suas vidas que viram mulheres franco-atiradoras. Depois do tiro foi camuflagem em campanha... Veio o coronel, deu uma volta olhando a clareira, depois pisou num montículo — não viu nada. Então a “montinho” sob ele implorou: “Ai, camarada coronel, não aguento mais, você é muito pesado.” Como ríamos! Ele não podia acreditar que era possível se camuflar tão bem. “Agora”, disse ele, “retiro minhas palavras sobre as meninas”. Mas mesmo assim ele sofreu... Não conseguiu se acostumar conosco por muito tempo.

Então veio o primeiro dia de nossa “caçada” (assim os snipers chamam). Minha parceira era Masha Kozlova. Nós nos camuflamos e ficamos ali: estou de olho, Masha está segurando seu fuzil. De repente, Masha diz: “Atire, atire! Veja, é um alemão...”

Eu digo a ela: “Eu sou o vigia. Você atira!"

“Enquanto estamos resolvendo isso”, diz ela, “ele vai fugir”.

Mas insisto: “Primeiro temos que traçar o mapa de tiro, observar os marcos: onde fica o galpão, onde a bétula…”

“Você quer começar a brincar com papelada igual na escola? Eu vim para atirar, não para mexer em papelada!”

Vejo que Masha já está com raiva de mim.

"Bem, atire então, por que não?"


Estávamos brigando desse jeito. E enquanto isso, de fato, o oficial alemão dava ordens aos soldados. Uma carroça chegou, e os soldados formaram uma corrente e repassaram algum tipo de carga. O oficial ficou ali, deu ordens e depois desapareceu. Ainda estamos discutindo. Vejo que ele já apareceu duas vezes, e se não atirarmos nele novamente, será o fim. Nós vamos perdê-lo. E quando ele apareceu pela terceira vez, foi apenas momentâneo; agora ele está lá, agora ele se foi - eu decidi atirar. Eu decidi, e de repente um pensamento passou pela minha mente: ele é um ser humano; ele pode ser um inimigo, mas é um ser humano — e minhas mãos começaram a tremer, comecei a tremer toda, fiquei com calafrios. Algum tipo de medo... Esse sentimento às vezes volta para mim em sonhos mesmo agora... Depois dos alvos de compensado, era difícil atirar em uma pessoa viva. Eu o vejo na mira telescópica, eu o vejo muito bem. Como se ele estivesse perto... E algo em mim resiste... Algo não me deixa, não consigo me decidir. Mas me controlei, puxei o gatilho... Ele balançou os braços e caiu. Se ele estava morto ou não, eu não sabia. Mas depois disso estremeci ainda mais, uma espécie de terror tomou conta de mim: matei um homem?! Eu tive que me acostumar até mesmo com esse pensamento. Sim... Resumindo — horrível! Eu nunca esquecerei isso…

Quando voltamos, começamos a contar ao nosso pelotão o que havia acontecido conosco. Eles convocaram uma reunião. Tínhamos uma líder do Komsomol, Klava Ivanova; ela me assegurou: “Eles deveriam ser odiados, não lamentados...” Seu pai havia sido morto pelos fascistas. Começamos a cantar e ela nos implorava: “Não, não, queridas meninas. Vamos primeiro derrotar esses vermes, então vamos cantar.”

E não de imediato... Não conseguimos de imediato. Não é tarefa de uma mulher – odiar e matar. Não para nós... Tivemos que nos persuadir. Para nos convencermos disso…

Unwomanly Face of War:
An Oral History of Women in World War II.
Traduzido do russo por Richard Pevear e Larissa Volokhonsky.

Versão brasileira:

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher.
Traduzido do russo por Cecília Rosas.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

O Exército Federal Austríaco

Por Filipe do A. MonteiroWarfare Blog, 12 de maio de 2022.

O Bundersheer, o novo Exército Federal da Áustria, estava armado com material americano, soviético e alemão; seus homens vestem o novo camuflado austríaco Kampfanzug 1957. O capacete é o M1 americano e a arma de apoio ao grupo de combate (GC) é a venerável metralhadora MG42. O T-34/85 foi deixado pela Força de Ocupação soviética, uma força de 150 mil homens que deixou a Áustria em 1955.

Composto de exército (Landstreitkräfte), aeronáutica (Luftstreitkräfte) e, atualmente, das forças especiais (Spezialeinsatzkräfte), o Exército Federal foi criado em 7 de setembro de 1955 para solucionar a questão alemã no ambiente de bipolaridade da Guerra Fria. Apesar de padronizar seu material com fornecedores ocidentais, a função do Bundersheer era manter a neutralidade da Áustria.

Homens do recriado Bundesheer da Áustria durante um exercício de demonstração de combate (Gefechtsvorführung) em Bruck an der Leitha, 1958.

Apenas um ano depois de sua fundação, durante a crise húngara de 1956, o novo exército federal teve que provar seu valor e foi mobilizado para a fronteira de modo a garantir sua inviolabilidade; garantindo assim a neutralidade e, com isso, a independência da Áustria.

Soldados austríacos usando uniformes austríacos misturados com capacetes e armamentos americanos patrulham a fronteira com a Hungria, 1956.

Leitura recomendada:



VÍDEO: Alemanha Ano Zero, 19 de maio de 2020.



quarta-feira, 11 de maio de 2022

Exército de Potemkin? As Legiões superestimadas da Rússia


Por Jan Kallberg, CEPA, 6 de maio de 2022.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 11 de maio de 2022.

Uma obsessão doentia por números pode explicar a má interpretação do Ocidente sobre as capacidades militares da Rússia.

As datas não devem importar muito na guerra, mas 9 de maio não é um dia como qualquer outro. Para os homens do Kremlin, o Dia da Vitória é uma chance de polir suas credenciais como herdeiros do que muitos russos ainda consideram sua maior geração – os homens e mulheres que pagaram o preço com sangue para derrotar os invasores nazistas.

A ligação com a Ucrânia é inevitável. Não só o exército russo está sofrendo sua campanha mais cara desde a Segunda Guerra Mundial, mas também está supostamente fazendo isso para livrar a Ucrânia de um regime nazista (embora liderado por um judeu democraticamente eleito).


À medida que as fileiras polidas de soldados russos marcham pela Praça Vermelha e linhas de munições de alta tecnologia repintadas percorrem os paralelepípedos, temos que fazer uma pergunta que provavelmente não nos teria ocorrido no ano passado – como por tantas décadas poderíamos ter superestimado as forças armadas russas? Isso é, como alguns dizem agora, um Exército de Potemkin, melhor em polir botões do que lutar em guerras?

Se for esse o caso, então o problema não é apenas para os russos. Isso significaria que o Ocidente julgou mal seu adversário. Na verdade, o Ocidente vem sofrendo de path dependency, um conceito econômico em que o comportamento passado influencia o comportamento atual, independentemente das mudanças nas circunstâncias. Neste caso, a OTAN tem seguido um caminho traçado durante a Guerra Fria. Uma guerra contra os soviéticos exigia que a OTAN estabelecesse suas defesas com precisão matemática para compensar a inferioridade numérica.


Durante anos, houve uma cultura de acreditar nas declarações de capacidades e especificações técnicas da URSS/Rússia porque elas alimentaram nossos modelos matemáticos. Para a OTAN criar essa arte da guerra científica, as habilidades do adversário tinham que se tornar números. Se um regimento de fuzileiros motorizados soviético fosse capaz de avançar 20km em 24 horas, de acordo com os soviéticos, os números entrariam no modelo da OTAN. Como vimos a URSS como altamente capaz, os soviéticos ficaram presos em sua propaganda incontestada. E isso retroalimentava o pensamento russo – eles não podiam ser tão ruins na guerra, já que a OTAN os temia.

Durante a Guerra Fria, a OTAN e os países ocidentais criaram uma forma de arte da estimativa das forças do Pacto de Varsóvia, avaliando todos os aspectos das forças armadas do outro lado da Cortina de Ferro. Durante as décadas de 1970 e 1980, o resultado potencial de uma futura grande guerra europeia baseava-se em números que levavam a recomendações baseadas em avaliações matemáticas. Poderíamos chamar isso de economia do Passo de Fulda.

A chegada de computadores e estimativas computadorizadas impulsionaram o sistema de contagem de corpos do Secretário de Defesa (1961-68) Robert McNamara no Vietnã, onde o conflito passou a ser impulsionado por um modelo matemático. No documentário do Serviço de Radiodifusão Pública (PBS) “A Guerra do Vietnã”, um ex-soldado declarou: “Se você não pode contar o que é importante, você torna o que você pode contar importante”. Uma guerra potencial na Europa também se tornou números.


Os números nos dão certezas em um mundo incerto onde buscamos fazer inferências cercados por uma névoa de informações. Nos últimos 60 anos, os números, chamados de dados, orientaram como os países ocidentais avaliaram primeiro a União Soviética e depois a Federação Russa.


“O objetivo primordial da ofensiva de armas combinadas [soviética] é transformar rapidamente o sucesso tático em sucesso operacional por uma combinação bem orquestrada de fogo maciço, manobras e ataques profundos e violentos.”

Visto do Ocidente, o Exército Vermelho era um oponente capaz, bem integrado e competente, capaz de lançar rapidamente operações ofensivas conjuntas com pouco ou nenhum aviso. Todos os soldados ocidentais aprenderam como os soviéticos lutariam assistindo a filmes de propaganda do Exército Vermelho que projetavam um ataque blindado de movimento rápido que tomaria de assalto qualquer defesa ou destruiria as forças de defesa após o cerco.


O Ocidente foi enganado pela máquina de propaganda comunista porque esses eram os únicos filmes que mostravam as capacidades soviéticas. Acreditávamos que as divisões blindadas russas varreriam a paisagem aberta, atravessariam rios e córregos com facilidade quando os engenheiros desdobrassem pontes flutuantes quando a ponta de lança chegasse, todas cercadas por uma sinfonia de artilharia e foguetes bem orquestrados e emolduradas pelas trilhas de fumaça das aeronaves de ataque ao solo SU -24 em operações conjuntas.

Nós olhamos para a ordem de batalha soviética, e agora russa, e fizemos uma inferência matemática – e acabamos errados.

Ignoramos disciplina, liderança, coordenação, confiança e os efeitos nas tropas e equipamentos, vivendo em uma cultura de corrupção e roubo por décadas. Esses fatores não puderam ser quantificados e nunca chegaram ao modelo. Em vez de passar a fronteira portuguesa no dia 75 do ataque, seguindo o modelo original de Seven Days to the Rhine (Sete Dias para o Rio Reno), os russos na realidade mal chegaram ao próximo código postal no Donbas.

Os números já enganaram antes – não é a primeira vez. Durante 1938, após a crise da Tchecoslováquia, e em 1939, o ministro das Relações Exteriores alemão nazista Joachim von Ribbentrop e o alto comando alemão estudaram e mediram os preparativos de guerra franceses e britânicos e a capacidade de mobilização. A avaliação quantificada dos alemães foi que os aliados não conseguiriam se envolver com sucesso em uma guerra em grande escala em curto prazo. Os alemães acreditavam que os números revelavam a realidade – os aliados não iriam à guerra pela Polônia porque não estavam prontos nem aptos. Assim, a Alemanha invadiu a Polônia em 1º de setembro de 1939. Dois dias depois, a Grã-Bretanha e a França declararam guerra.


A avaliação quantificável estava de fato correta e levou à derrota dos aliados e à retirada de Dunquerque, mas a avaliação maior estava errada e subestimou a vontade britânica e francesa de enfrentar a luta. A Segunda Guerra Mundial deixou pelo menos 50 milhões de mortos, metade da Europa atrás da Cortina de Ferro soviética e (mais felizmente) a destruição do próprio regime nazista. A disposição da Grã-Bretanha de lutar até o fim, seu sucesso em convencer os EUA a fornecer recursos e a subsequente luta bem-sucedida dos aliados nunca foram capturados nos dados. A avaliação quantificada alemã foi um instantâneo dos preparativos de guerra britânicos e franceses no verão de 1939 – nada mais.

O modelo matemático não continha nenhuma variável para as tropas voltando para a Bielorrússia para postar iPads roubados e outros saques, falta de ótica em veículos de combate vendidos há muito tempo no mercado negro ou pneus de baixa qualidade comprados por uma agência corrupta de aquisição do exército. Todos nós fomos enganados pelos demônios da economia do Passo de Fulda. Realmente não há outra explicação de como poderíamos ter superestimado o exército russo a esse ponto.

Jan Kallberg, Ph.D., LL.M., tem se concentrado em cibernética há vários anos. Ele é membro do corpo docente da Universidade de Nova York e da Universidade George Washington. Seus trabalhos apareceram em Joint Forces Quarterly, Strategic Studies Quarterly, IEEE Security & Privacy e IEEE Access. Siga-o em cyberdefense.com e @Cyberdefensecom.

terça-feira, 10 de maio de 2022

FOTO: Soldado soviético da Guarda de Fronteira da KGB

Soldado soviético V. Krapalov, 1981.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 10 de maio de 2022.

Retrato do guarda de fronteira soviético V. Kapralov, enquanto ele participa da recepção no Comitê Central do Komsomol e do departamento político das tropas da KGB em homenagem ao Dia da Guarda de Fronteira, 1981.

Todos os países soviéticos necessitavam de uma guarda de fronteira, e sua principal função era impedir que cidadãos dos países comunistas fugissem para o ocidente capitalista.

Marcha da Guarda de Fronteira Soviética


Leitura recomendada:

quinta-feira, 5 de maio de 2022

DOCUMENTÁRIO: A história do Exército Vermelho soviético


Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 5 de maio de 2022.

Documentário em duas partes sobre a história do Exército Vermelho soviético pelo canal alemão Deutsche Welle ("Onda Alemã"), de suas origens brutais na Guerra Civil Russa ao caldeirão da Grande Guerra Patriótica. Criado em 1918, com o nome de Exército Vermelho dos Operários e Camponeses (RKKA), o Exército Vermelho soviético lutaria contra os brancos contra-revolucionários e esmagaria as revoltas camponesas de forma brutal - especialmente a de Tambov. O momento de catarse deste exército do socialismo internacionalista foi a invasão alemã, com o enfrentamento titânico das forças da Wehrmacht e do Exército Vermelho Soviético.

Inicialmente despreparado, milhares de soldados soviéticos foram mortos e capturados, com muitos se unindo aos alemães por apostarem em uma vitória dos nazistas. Com forte apoio ocidental e uma incrível quantidade de sangue soviético, o Exército Vermelho sairia por cima da disputa.

A segunda parte lida com o retorno dos veteranos que, deixando de serem heróis, passaram a ser tratados com suspeita; rebaixados a cidadãos de segunda-classe. Foi apenas com Khrushchov, 11 anos depois, que os veteranos e o exército foram reabilitados. A profissionalização do Exército Soviético para travar a Guerra Fria o afastou do velho exército dos operários e camponeses, tornando-o mais sofisticado e engajado na nova disputa nuclear com os Estados Unidos. Outro campo de batalha foi a exploração especial. O lançamento da cachorra Laika em órbita levou os EUA a criarem a NASA. A disputa levou à conquista do espaço por Yuri Gagarin, um dos momentos de apoteose do Exército Vermelho e da ideologia socialista. No entanto, a sua principal função continuou como sendo de repressão, como gendarmaria do Pacto de Varsóvia. As intervenções na Polônia, Hungria e Tchecoslováquia sendo os maiores exemplos.

Em meio a isso, a miséria da vida no Exército Vermelho, com os soldados sendo abusados e até mesmo estuprados, atingiu o ponto de ebulição na tragédia da guerra no Afeganistão, marcando o ponto mais baixo da experiência do exército do internacionalismo socialista. Uma tentativa de repressão contra os próprios russos em Moscou levou à perda de poder do partido comunista diante da resistência liderada por Boris Yeltsin. O Exército Soviético deixou de existir com o colapso e dissolução da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1991.



Descrição da Primeira Parte:

Em 1918, Leon Trotsky fundou o Exército Vermelho. Em pouco tempo, o exército seria usado não apenas contra o mundo exterior, mas também contra o povo soviético. Preocupado com o grande poder do exército, Stalin iniciou expurgos em 1937 e 1938.

Em 1918, a Rússia soviética estava travando uma guerra total – contra inimigos estrangeiros e seu próprio povo. Logo, o Exército Vermelho, fundado por Trotsky, teve que abandonar seus nobres ideais de igualdade e democracia. Quando o racionamento de alimentos foi ordenado durante a guerra civil, a população rural se revoltou contra o incipiente Estado comunista. Para acabar com a revolta camponesa em Tambov, o ex-oficial czarista Mikhail Tukhachevsky usou gás venenoso contra os aldeões por ordem de Lenin em 1920.

General Mikhail Tukhachevsky com a Budyunovka,
"O Napoleão Vermelho".

 Selo soviética com Mikhail Tukhachevsky, 1963.

O Exército Vermelho emergiu mais forte e confiante como resultado de sua vitória na guerra civil contra os "brancos" e a Rússia czarista. No entanto, Stalin, que chegou ao poder após a morte de Lenin em 1924, temia a crescente influência do exército, bem como a popularidade do comandante marechal Mikhail Nikolayevich Tukhachevsky. Ele o executou em 12 de junho de 1937 e ordenou expurgos. Aqueles anos, 1937 e 1938, ficaram na história como a época do "Grande Terror".

Quando a Wehrmacht alemã invadiu a Rússia, o Exército Vermelho era apenas uma sombra de seu antigo eu. Além de Tukhachevsky, outros três marechais, 13 generais e cerca de 5.000 oficiais foram executados como parte dos expurgos de Stalin. Quase metade da liderança do Exército Vermelho estava morta, assassinada por seu próprio líder.

Prisioneiros soviéticos capturados pelos alemães, 1941.

Para combater o ataque alemão, Stalin ordenou a mobilização geral. Em novembro de 1941, os alemães estavam às portas de Moscou. O General Zhukov conseguiu forçá-los a recuar no último momento. O Exército Vermelho recebeu ajuda do movimento partisan [guerrilheiro], que cresceu como resultado do genocídio dos judeus [pelos nazistas], e conseguiu enfraquecer o moral de combate alemão por meio de ataques direcionados.

Infantaria soviética em combate perto de Tula, durante a Batalha de Moscou, em novembro de 1941.

Soldados alemães marchando em direção a Moscou, 1941.

Em Stalingrado, Zhukov foi capaz de desgastar o inimigo. Graças à coalizão anti-Hitler que a URSS formou com os EUA e a Grã-Bretanha, o Exército Vermelho conseguiu lançar uma contra-ofensiva. Em sua marcha triunfal para Berlim, o Exército Vermelho descobriu os campos de concentração e extermínio, os quais acenderam o desejo de vingança dos soldados. [Durante a marcha sobre a Alemanha] seguiram-se saques e estupros generalizados. Os principais homens de Stalin, os generais Zhukov e Konev, capturaram a capital alemã. A Alemanha nazista se rendeu em 8 de maio de 1945, e o documento de rendição foi assinado em Karlshorst na noite de 9 de maio de 1945.

Pintura do hasteamento da bandeira soviética sobre o Reichstag.

Hasteamento da bandeira sobre o Reichstag, por Yevgeny Khaldei, 2 de maio de 1945.

Descrição da Segunda Parte:

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a glória do Exército Vermelho diminuiu. Então, com o desenrolar da Guerra Fria, Khrushchev poliu a reputação do exército mais uma vez. Mas, a partir de então, o exército passou a ter uma função puramente repressiva.

Após a Segunda Guerra Mundial, as atividades do Exército Vermelho foram direcionadas principalmente contra levantes populares na esfera de influência da URSS. Estes foram brutalmente reprimidos. Hoje, o Exército Vermelho é principalmente um símbolo de aspirações nacionalistas nostálgicas.

Manifestantes tchecos em cima de tanques soviéticos, 21 de agosto de 1968.

Tanques soviéticos em Praga, 1968.

Após a vitória sobre o fascismo no verão de 1945, nove milhões de soldados soviéticos voltaram para casa. Mas os prisioneiros de guerra que sobreviveram aos campos alemães eram frequentemente acusados de traição quando finalmente chegavam à sua pátria e enviados para gulags. Outros foram forçados a mendigar, pois suas pensões de guerra foram cortadas, ou se viram banidos das grandes cidades. Stalin decidiu pôr fim aos dias gloriosos do Exército Vermelho, após a vitória contra a Alemanha de Hitler. Quando a Guerra Fria começou, a única função do Exército Vermelho era manter a ordem e a segurança públicas.

Mas após a morte de Stalin em 1953, as cartas foram re-embaralhadas. O novo homem forte Nikita Khrushchov havia se livrado de seu rival, o chefe do Ministério do Interior Lavrenti Beria, com a ajuda do Exército Vermelho. Depois de tomar o poder, Khrushchov iniciou um programa de desestalinização. Ele nomeou o marechal Georgi Zhukov, que havia caído em desgraça com Stalin, como ministro da Defesa. Khrushchov então reorganizou e modernizou o Exército Vermelho. Ele restaurou seu prestígio e reintroduziu uma pensão para o serviço de guerra.

Cosmonauta Yuri Alekseyevich Gagarin,
o primeiro homem no espaço em 12 de abril de 1961.
Oficial da força aérea do Exército Vermelho.

Soldados do Exército Vermelho em combate no Afeganistão.
A coluna blindada foi emboscada por guerrilheiros mujahideen.

Com o apoio dos tanques soviéticos, o Exército Vermelho foi fundamental para esmagar sangrentamente as revoltas na Polônia e Budapeste em 1956 e em Praga em 1968. E eles desempenharam um papel nas batalhas da Guerra Fria em curso com o Ocidente.

Na década de 1970, as condições de vida dos soldados do Exército Vermelho se deterioraram drasticamente. Muitos recrutas tentaram evitar o serviço militar. Mas muitas vezes não havia como escapar da missão de pesadelo no Afeganistão. O Exército Vermelho estava cada vez mais enfraquecido e desmoralizado à medida que crescia a antipatia pelo sistema soviético. Em 1989, dez anos após o início do conflito no Afeganistão, o presidente Mikhail Gorbachov ordenou que o Exército Vermelho se retirasse daquele país e trouxesse seus soldados para casa. Essa derrota desempenhou um papel na desintegração da URSS, que ocorreu após a renúncia de Gorbachov em 25 de dezembro de 1991.

Bibliografia recomendada:

The Soviet Union at War: 1941-1945.
David R. Stone.

Meninos de Zinco.
Svetlana Aleksiévitch.

Leitura recomendada:

domingo, 20 de março de 2022

A Doutrina Putin

O presidente russo, Vladimir Putin, em uma cerimônia diplomática em Moscou, em dezembro de 2021.
(Sputnik Photo Agency / Reuters)

Por Angela Stent, Foreign Affairs, 27 de janeiro de 2022.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 20 de março de 2022.

Uma jogada na Ucrânia sempre foi parte do plano.

[Este artigo foi escrito antes da invasão de 24 de fevereiro]

A atual crise entre a Rússia e a Ucrânia é um acerto de contas que está sendo elaborado há 30 anos. É muito mais do que a Ucrânia e sua possível adesão à OTAN. É sobre o futuro da ordem europeia criada após o colapso da União Soviética. Durante a década de 1990, os Estados Unidos e seus aliados projetaram uma arquitetura de segurança euro-atlântica na qual a Rússia não tinha nenhum compromisso ou participação clara, e desde que o presidente russo Vladimir Putin chegou ao poder, a Rússia vem desafiando esse sistema. Putin reclamou rotineiramente que a ordem global ignora as preocupações de segurança da Rússia e exigiu que o Ocidente reconheça o direito de Moscou a uma esfera de interesses privilegiados no espaço pós-soviético. Ele organizou incursões em Estados vizinhos, como a Geórgia, que saíram da órbita da Rússia para impedir que se reorientassem totalmente.

Putin agora levou essa abordagem um passo adiante. Ele está ameaçando uma invasão muito mais abrangente da Ucrânia do que a anexação da Crimeia e a intervenção no Donbas que a Rússia realizou em 2014, uma invasão que prejudicaria a ordem atual e potencialmente reafirmaria a preeminência da Rússia no que ele insiste ser seu “legítimo” lugar no continente europeu e nos assuntos mundiais. Ele vê isso como um bom momento para agir. Em sua opinião, os Estados Unidos são fracos, divididos e menos capazes de buscar uma política externa coerente. Suas décadas no cargo o tornaram mais cínico sobre o poder de permanência dos Estados Unidos. Putin está agora lidando com seu quinto presidente dos EUA e passou a ver Washington como um interlocutor não confiável. O novo governo alemão ainda está encontrando seus pés políticos, a Europa como um todo está focada em seus desafios domésticos e o mercado de energia apertado dá à Rússia mais influência sobre o continente. O Kremlin acredita que pode contar com o apoio de Pequim, assim como a China apoiou a Rússia depois que o Ocidente tentou isolá-la em 2014.

Putin ainda pode decidir não invadir. Mas, quer ele faça ou não, o comportamento do presidente russo está sendo impulsionado por um conjunto interligado de princípios de política externa que sugerem que Moscou será disruptivo nos próximos anos. Chame isso de “doutrina Putin”. O elemento central dessa doutrina é fazer com que o Ocidente trate a Rússia como se fosse a União Soviética, uma potência a ser respeitada e temida, com direitos especiais em sua vizinhança e voz em todos os assuntos internacionais sérios. A doutrina sustenta que apenas alguns Estados devem ter esse tipo de autoridade, juntamente com soberania completa, e que outros devem se curvar aos seus desejos. Implica defender regimes autoritários em vigor e minar democracias. E a doutrina está ligada ao objetivo abrangente de Putin: reverter as consequências do colapso soviético, dividir a aliança transatlântica e renegociar o assentamento geográfico que encerrou a Guerra Fria.

Explosão do passado

A Rússia, de acordo com Putin, tem direito absoluto a um assento à mesa em todas as principais decisões internacionais. O Ocidente deve reconhecer que a Rússia pertence ao conselho de administração global. Depois do que Putin retrata como a humilhação da década de 1990, quando uma Rússia muito enfraquecida foi forçada a aderir a uma agenda definida pelos Estados Unidos e seus aliados europeus, ele alcançou amplamente esse objetivo. Embora Moscou tenha sido expulsa do G-8 após a anexação da Crimeia, seu veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas e seu papel como superpotência energética, nuclear e geográfica garantem que o resto do mundo leve em consideração suas opiniões. A Rússia reconstruiu com sucesso suas forças armadas após a guerra de 2008 com a Geórgia, e agora é a potência militar regional proeminente, com a capacidade de projetar poder globalmente. A capacidade de Moscou de ameaçar seus vizinhos permite forçar o Ocidente à mesa de negociações, como ficou tão evidente nas últimas semanas.


No que diz respeito a Putin, o uso da força é perfeitamente apropriado se a Rússia acredita que sua segurança está ameaçada: os interesses da Rússia são tão legítimos quanto os do Ocidente, e Putin afirma que os Estados Unidos e a Europa os desconsideraram. Na maior parte, os Estados Unidos e a Europa rejeitaram a narrativa de queixa do Kremlin, que se concentra principalmente na dissolução da União Soviética e especialmente na separação da Ucrânia da Rússia. Quando Putin descreveu o colapso soviético como uma “grande catástrofe geopolítica do século XX”, ele lamentava o fato de 25 milhões de russos se encontrarem fora da Rússia e criticava particularmente o fato de 12 milhões de russos se encontrarem no novo Estado ucraniano. Como ele escreveu em um tratado de 5.000 palavras publicado no verão passado e intitulado “Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos”, em 1991, “as pessoas se viram no exterior da noite para o dia, levadas, desta vez, de sua pátria histórica”. Seu ensaio foi recentemente distribuído às tropas russas.

Em um ensaio no ano passado, Putin escreveu que a Ucrânia estava sendo transformada em “um trampolim contra a Rússia”.

Essa narrativa de perda para o Ocidente está ligada a uma obsessão particular de Putin: a ideia de que a OTAN, não contente em apenas admitir ou ajudar Estados pós-soviéticos, pode ameaçar a própria Rússia. O Kremlin insiste que essa preocupação se baseia em preocupações reais. Afinal, a Rússia foi repetidamente invadida pelo Ocidente. No século XX, foi invadida por forças aliadas anti-bolcheviques, incluindo algumas dos Estados Unidos, durante sua guerra civil de 1917 a 1922. A Alemanha invadiu duas vezes, levando à perda de 26 milhões de cidadãos soviéticos na Segunda Guerra Mundial. Putin vinculou explicitamente essa história às preocupações atuais da Rússia sobre a infraestrutura da OTAN que se aproxima das fronteiras da Rússia e as demandas resultantes de Moscou por garantias de segurança.

Hoje, no entanto, a Rússia é uma superpotência nuclear brandindo novos mísseis hipersônicos. Nenhum país – muito menos seus vizinhos menores e mais fracos – tem qualquer intenção de invadir a Rússia. De fato, os vizinhos do país a oeste têm uma narrativa diferente e enfatizam sua vulnerabilidade ao longo dos séculos à invasão da Rússia. Os Estados Unidos também nunca atacariam, embora Putin os tenha acusado de tentar “cortar um pedaço suculento de nossa torta”. No entanto, a auto-percepção histórica da vulnerabilidade da Rússia repercute na população do país. A mídia controlada pelo governo está repleta de alegações de que a Ucrânia poderia ser uma plataforma de lançamento para a agressão da OTAN. De fato, em seu ensaio no ano passado, Putin escreveu que a Ucrânia estava sendo transformada em “um trampolim contra a Rússia”.

Putin também acredita que a Rússia tem direito absoluto a uma esfera de interesses privilegiados no espaço pós-soviético. Isso significa que seus antigos vizinhos soviéticos não devem aderir a nenhuma aliança considerada hostil a Moscou, particularmente a OTAN ou a União Européia. Putin deixou essa exigência clara nos dois tratados propostos pelo Kremlin em 17 de dezembro, que exigem que a Ucrânia e outros países pós-soviéticos – bem como a Suécia e a Finlândia – se comprometam com a neutralidade permanente e evitem a adesão à OTAN. A OTAN também teria que recuar para sua postura militar de 1997, antes de sua primeira ampliação, removendo todas as tropas e equipamentos da Europa Central e Oriental. (Isso reduziria a presença militar da OTAN ao que era quando a União Soviética se desintegrou.) A Rússia também teria poder de veto sobre as escolhas de política externa de seus vizinhos não pertencentes à OTAN. Isso garantiria que os governos pró-Rússia estivessem no poder nos países que fazem fronteira com a Rússia – incluindo, principalmente, a Ucrânia.

Dividir e conquistar

Até agora, nenhum governo ocidental estava preparado para aceitar essas exigências extraordinárias. Os Estados Unidos e a Europa adotam amplamente a premissa de que as nações são livres para determinar seus sistemas domésticos e suas afiliações de política externa. De 1945 a 1989, a União Soviética negou a autodeterminação à Europa Central e Oriental e exerceu controle sobre as políticas doméstica e externa dos membros do Pacto de Varsóvia por meio de partidos comunistas locais, a polícia secreta e o Exército Vermelho. Quando um país se afastou demais do modelo soviético — Hungria em 1956 e Tchecoslováquia em 1968 — seus líderes foram depostos à força. O Pacto de Varsóvia foi uma aliança que teve um histórico único: invadiu apenas seus próprios membros.

Cidadãos alemães-orientais atirando pedras num tanque soviético durante a intervenção de 1953.

A interpretação moderna da soberania do Kremlin tem paralelos notáveis com a da União Soviética. Sustenta, parafraseando George Orwell, que alguns Estados são mais soberanos do que outros. Putin disse que apenas algumas grandes potências – Rússia, China, Índia e Estados Unidos – desfrutam de soberania absoluta, livres para escolher quais alianças aderir ou rejeitar. Países menores, como Ucrânia ou Geórgia, não são totalmente soberanos e devem respeitar as restrições da Rússia, assim como a América Central e a América do Sul, segundo Putin, devem atender seu grande vizinho do norte. A Rússia também não busca aliados no sentido ocidental da palavra, mas busca parcerias instrumentais e transacionais mutuamente benéficas com países, como a China, que não restringem a liberdade da Rússia de agir ou julgar sua política interna.

Tais parcerias autoritárias são um elemento da Doutrina Putin. O presidente apresenta a Rússia como defensora do status quo, defensora dos valores conservadores e um ator internacional que respeita os líderes estabelecidos, especialmente os autocratas. Como os eventos recentes na Bielorrússia e no Cazaquistão mostraram, a Rússia é o poder principal para apoiar governantes autoritários em apuros. Defendeu autocratas tanto em sua vizinhança quanto em muito além – inclusive em Cuba, Líbia, Síria e Venezuela. O Ocidente, de acordo com o Kremlin, apoia o caos e a mudança de regime, como aconteceu durante a guerra do Iraque em 2003 e a Primavera Árabe em 2011.

O Pacto de Varsóvia foi uma aliança que teve um histórico único: invadiu apenas seus próprios membros.

Mas em sua própria “esfera de interesses privilegiados”, a Rússia pode atuar como uma potência revisionista quando considera seus interesses ameaçados ou quando quer avançar em seus interesses, como demonstraram a anexação da Crimeia e as invasões da Geórgia e da Ucrânia. A tentativa da Rússia de ser reconhecida como líder e apoiadora de regimes de homens fortes tem sido cada vez mais bem-sucedida nos últimos anos, à medida que grupos mercenários apoiados pelo Kremlin agiram em nome da Rússia em muitas partes do mundo, como é o caso da Ucrânia.

A interferência revisionista de Moscou também não se limita ao que considera seu domínio privilegiado. Putin acredita que os interesses da Rússia são mais bem atendidos por uma aliança transatlântica fraturada. Assim, ele apoiou grupos antiamericanos e eurocéticos na Europa; apoiou movimentos populistas de esquerda e direita em ambos os lados do Atlântico; envolvidos em interferência eleitoral; e geralmente trabalhou para exacerbar a discórdia nas sociedades ocidentais. Um de seus principais objetivos é fazer com que os Estados Unidos se retirem da Europa. O presidente dos EUA, Donald Trump, desdenhou da aliança da OTAN e desdenhou alguns dos principais aliados europeus dos Estados Unidos – principalmente a então chanceler alemã Angela Merkel – e falou abertamente em retirar os Estados Unidos da organização. O governo do presidente dos EUA, Joe Biden, buscou assiduamente reparar a aliança e, de fato, a crise fabricada de Putin sobre a Ucrânia reforçou a unidade da aliança. Mas há dúvidas suficientes na Europa sobre a durabilidade do compromisso dos EUA após 2024 para que a Rússia tenha encontrado algum sucesso reforçando o ceticismo, principalmente por meio das mídias sociais.

Autoridades militares venezuelanas e russas.

O enfraquecimento da aliança transatlântica poderia abrir o caminho para Putin realizar seu objetivo final: abandonar a ordem internacional liberal e baseada em regras do pós-Guerra Fria promovida pela Europa, Japão e Estados Unidos em favor de uma ordem mais acessível à Rússia. Para Moscou, esse novo sistema pode se assemelhar ao concerto de poderes do século XIX. Também poderia se transformar em uma nova encarnação do sistema de Yalta, onde a Rússia, os Estados Unidos e agora a China dividem o mundo em esferas de influência tripolares. A crescente aproximação de Moscou com Pequim de fato reforçou o apelo da Rússia por uma ordem pós-Ocidente. Tanto a Rússia quanto a China exigem um novo sistema no qual exerçam mais influência em um mundo multipolar.

Os sistemas dos séculos XIX e XX reconheciam certas regras do jogo. Afinal, durante a Guerra Fria, os Estados Unidos e a União Soviética respeitavam principalmente as esferas de influência um do outro. As duas crises mais perigosas daquela época – o ultimato de Berlim em 1958 do primeiro-ministro soviético Nikita Khrushchev e a crise dos mísseis cubanos em 1962 – foram desarmadas antes do início do conflito militar. Mas se o presente é alguma indicação, parece que a “ordem” pós-Ocidente de Putin seria um mundo hobbesiano desordenado com poucas regras do jogo. Em busca de seu novo sistema, o modus operandi de Putin é manter o Ocidente desequilibrado, adivinhando suas verdadeiras intenções e depois surpreendendo quando ele age.

O recomeço russo

Dado o objetivo final de Putin, e dada sua crença de que agora é a hora de forçar o Ocidente a responder aos seus ultimatos, a Rússia pode ser dissuadida de lançar outra incursão militar na Ucrânia? Ninguém sabe o que Putin decidirá em última análise. Mas sua convicção de que o Ocidente ignorou o que ele considera os interesses legítimos da Rússia por três décadas continua a impulsionar suas ações. Ele está determinado a reafirmar o direito da Rússia de limitar as escolhas soberanas de seus vizinhos e ex-aliados do Pacto de Varsóvia e forçar o Ocidente a aceitar esses limites – seja pela diplomacia ou pela força militar.

Isso não significa que o Ocidente é impotente. Os Estados Unidos devem continuar a buscar diplomacia com a Rússia e buscar criar um modus vivendi que seja aceitável para ambos os lados sem comprometer a soberania de seus aliados e parceiros. Ao mesmo tempo, deve continuar coordenando com os europeus para responder e impor custos à Rússia. Mas está claro que, mesmo que a Europa evite a guerra, não há como voltar à situação anterior à Rússia começar a reunir suas tropas em março de 2021. O resultado final desta crise poderia ser a terceira reorganização da segurança euro-atlântica desde o final da década de 1940. A primeira veio com a consolidação do sistema de Yalta em dois blocos rivais na Europa após a Segunda Guerra Mundial. A segunda surgiu de 1989 a 1991, com o colapso do bloco comunista e depois da própria União Soviética, seguido pelo impulso subsequente do Ocidente para criar uma Europa “inteira e livre”. Putin agora desafia diretamente essa ordem com seus movimentos contra a Ucrânia.

Enquanto os Estados Unidos e seus aliados aguardam o próximo passo da Rússia e tentam deter uma invasão com diplomacia e a ameaça de pesadas sanções, eles precisam entender os motivos de Putin e o que eles anunciam. A crise atual é, em última análise, sobre a Rússia redesenhando o mapa pós-Guerra Fria e buscando reafirmar sua influência sobre metade da Europa, com base na afirmação de que está garantindo sua própria segurança. Pode ser possível evitar um conflito militar desta vez. Mas enquanto Putin permanecer no poder, sua doutrina também permanecerá.

Angela Stent é membro sênior não residente da Brookings Institution e ex-oficial de inteligência nacional dos EUA para a Rússia e a Eurásia. Ela é a autora do livro Putin's World: Russia Against the West and With the Rest.