sábado, 29 de agosto de 2020

GALERIA: Os fuzis AK-74M da Síria

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 29 de agosto de 2020.

Da Rússia com amor...

O AK-74M lentamente ganhou seu lugar como o fuzil de assalto mais popular atualmente em uso com as várias facções que lutam pelo controle da Síria. Embora originalmente adquirido apenas em pequenas quantidades pela Síria, as entregas recentes garantiram uma presença sólida deste fuzil no país dilacerado pela guerra. O AK-74M não é popular apenas com as forças do Exército Árabe Sírio e da Guarda Republicana - leais a Assad -, mas também com vários outros grupos que lutam pelo controle do país.

A Síria adquiriu seu primeiro lote de fuzis AK-74M no final dos anos 90, embora em números muito pequenos. Acredita-se que esse primeiro lote tenha sido parte de um acordo fechado com a Rússia em 1996, que renovaria a cooperação militar e tecnológica com a Rússia após esta ter diminuído devido ao colapso da União Soviética.


O acordo previa a entrega de uma ampla seleção de armas portáteis, mísseis anti-carro, equipamentos de visão noturna e munição para armamentos já em uso pela Síria. Incluídos no pacote estavam um grande número de carabinas AKS-74U, um número menor de fuzis AK-74M, lança-rojões RPG-29, granadas PG-7VR para o RPG-7, mas também mísseis guiados anti-carro Konkurs 9M113M (ATGM) e até mesmo mísseis anti-carro lançados de canhões Bastion 9M117M para uso pela Síria, para os então recentemente atualizados T-55MV.

Desentendimentos sobre a insistência da Síria em preços mais baixos e esquemas de pagamento estendidos para compras futuras e sua dívida com a Rússia levaram ao fracasso de um relacionamento aprofundado entre os dois países. No entanto, grande parte do armamento encomendado finalmente chegou à Síria.

O programa também viu a fabricação de dois tipos de "novos" padrões de camuflagem, ambos cópias exatas do padrão de camuflagem florestal americana M81 Woodland, que também é usado por combatentes do Hezbollah. Além disso, um grande número de coletes à prova de balas e capacetes foram encomendados e entregues da China, e um número limitado de dispositivos de visão noturna para forças especiais foram recebidos de uma fonte desconhecida. O soldado visto abaixo descreve como seria a aparência do produto final. Observe que seu AK-74M vem equipado com uma mira a laser noturna Alpha-7115 e um lança-granadas GP-30M acoplado.


As relações entre Damasco e Moscou são muito antigas, se intensificando com o golpe de estado sírio de fevereiro de 1996, sendo sucedido por um novo golpe de estado em 13 de novembro de 1970, denominado Movimento Corretivo. Este levou o General Hafez al-Assad (o pai do atual ditador) ao poder na Síria, alinhando Damasco com a União Soviética ainda mais. Russo passou a ser ensinado como segunda língua nessa época e milhares de oficiais militares e profissionais qualificados sírios estudaram na Rússia. Em 1971, por meio de um acordo bilateral, a União Soviética teve permissão para abrir sua base militar naval em Tartus, dando à União Soviética uma presença estável no Oriente Médio. Esta base permanece como a única instalação naval da Rússia na região do Mediterrâneo e a única instalação militar restante fora da ex-União Soviética.

Em outubro de 1980, a Síria e a União Soviética assinaram um Tratado de Amizade e Cooperação de vinte anos.



A primeira aparição pública do AK-74M foi em 2000, quando foi flagrado sendo carregado por um guarda em frente à sede da Frente Progressista Nacional (NPF) em Damasco. Este AK-74M pertencia ao primeiro lote e, juntamente com as AKS-74U, foram distribuídos principalmente para unidades especiais e militares guardando locais de alto valor. A quantidade de fuzis AK-74M ainda era muito pequena para permitir uma distribuição mais ampla.

A segunda tentativa de adquirir fuzis AK-74M (em uma escala mais ambiciosa desta vez) ocorreu nos anos que antecederam a Guerra Civil Síria, iniciada em 2011. O Exército Árabe Sírio (SAA) lançou um ambicioso programa de modernização com o objetivo de melhorar a proteção e o poder de fogo de uma parte da sua força de infantaria durante esse período.

General-de-Brigada Nur-Ali Shushtari, da Guarda Revolucionária Iraniana, com um fuzil KH-2002 Khaybar durante uma demonstração.

O SAA testou dois fuzis de assalto como parte deste programa de soldado do futuro em 2008, o AK-74M e o iraniano KH-2002 "Khaybar", calibrados em 5,45x39mm e 5,56x45mm, respectivamente. Para tanto, a Organização das Indústrias de Defesa Iranianas (IDIO ou DIO) enviou dez fuzis KH-2002, um modelo bullpup, junto com vários representantes para a Síria. Todos, exceto dois dos dez KH-2002s, tiveram travamentos durante os testes, resultando em uma risada do lado sírio às custas dos envergonhados representantes iranianos. Sem surpresa, o AK-74M foi, portanto, declarado o vencedor da competição.

Depois que o interesse do Uruguai no KH-2002 também desapareceu, o programa foi cancelado em 2012. O fracasso em atrair encomendas de exportação e a falta de interesse do exército iraniano em comprar o fuzil condenou uma das poucas tentativas sérias de projetar e produzir um fuzil de assalto indígena no Irã.


A Rússia continua a provar que é uma apoiadora leal e confiável do regime de Assad, e a Guerra Civil evidentemente não serve como impedimento para que a Rússia continue entregando todo tipo de material, desde armas portáteis a tanques, vários lançadores de foguetes e até peças de reposição para a Força Aérea Árabe Síria (SyAAF). Para surpresa de ninguém, vários lotes grandes de fuzis AK-74M também encontraram seu caminho a bordo dos navios de desembarque da classe Ropucha da Marinha Russa entregues à Síria nos últimos anos.

Assim que chegaram à Síria, esses lotes permitiram uma ampla distribuição do AK-74M dentro do Exército Árabe Sírio e, em menor grau, na Guarda Republicana. A Força de Defesa Nacional (NDF) ainda tem que se contentar com os velhos AK-47, Tipo-56 e AKM, embora armas de fogo ocidentais ou outros AK adquiridos através do mercado negro no Líbano também estejam disponíveis.

A 104ª Brigada da Guarda Republicana, então sob o comando do Brigadeiro General Issam Zahreddine, recebeu um lote considerável de fuzis AK-74M e AKS-74U ao partir para Deir ez-Zor para enfrentar os combatentes do Estado Islâmico.

O General Issam Jad'aan Zahreddine testando um lança-granadas acoplado em um AK-74M.

O General Issam Zahreddine, "O Leão da Guarda Republicana", posando ao lado do seu guarda-costas Saqr al-Harath. O general era uma celebridade entre os combatentes pró-Assad até sua morte aos 56 anos, quando sua viatura detonou uma mina em Hawija Saqr, próximo a Deir Ezzor, em 18 de outubro de 2017.

O Estado Islâmico é o maior operador de AK-74M dos grupos que lutam pelo controle da Síria. Surpreendentemente, e ao contrário do fluxo normal de armas que vê principalmente fuzis M16 e carabinas M4 capturados transferidos do Iraque para a Síria, vários AK-74M também acabaram nas mãos de combatentes do Estado Islâmico no Iraque.

O AK-74M em si é uma variante modernizada do AK-74, e entrou em produção em 1991. Ele não apenas oferece mais versatilidade em comparação com o AK-74, mas também é mais leve e apresenta uma nova coronha sintética dobrável rebatível. Isso se opõe aos AKS e AKMS anteriores, que usam a típica coronha dobrável para baixo.


Vários tipos de miras ópticas russas podem ser instaladas no AK-74M para garantir um direcionamento mais preciso. Essas miras são instaladas no trilho de montagem padrão no lado esquerdo da caixa da culatra (receptor). Na Síria, os AK-74M equipados com essas miras são mais comuns do que os AK-74M que usam a mira de ferro padrão. A quantidade de miras ópticas e lança-granadas acoplados recebidos pela Síria nos últimos anos foi grande o suficiente para permitir a instalação em vários AK-47, Type-56 e AKM.

Vários AK-74M também foram equipados com miras de visão noturna NSPU. Apenas um número limitado de tais miras está disponível na Síria, e eles viram uso esporádico ao longo da Guerra Civil.


O AK-74M também pode ser equipado com um lança-granadas de 40mm, dois tipos dos quais foram adquiridos pelo Exército Árabe Sírio até o momento: o GP-25 e o GP-30M. O primeiro destina-se ao uso em fuzis de geração mais antiga, enquanto o GP-30M foi projetado para fuzis de assalto mais modernos, como o AK-74M ou o AK-103. O GP-30M pode engajar alvos em um alcance de 100m a 400m e é capaz de disparar granadas de fragmentação e granadas de fumaça. É apontado por meio de uma mira de quadrante.

O AK-74M é um fuzil temido e amado nos campos de batalha da Síria e que certamente continuará a desempenhar um grande papel no curso da guerra, agora que a paz parece cada vez mais distante.

Bibliografia recomendada:

The AK-47:
Kalashnikov-series assault rifles.
Gordon L. Rottman.

Arabs at War:
Military Effectiveness, 1948-1991.
Kenneth M. Pollack.

Estado Islâmico:
Desvendando o exército do terror.
Michael Weiss e Hassan Hassan.

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