quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Operação Haboob: E se a França tivesse engajado-se no Iraque em 2003?

Fuzileiros navais americanos posando com um retrato do ditador Saddam Hussein, 2003.

Pelo Tenente-Coronel Michel Goya, La Voie de l'Épée, 23 décembre 2011.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 13 de agosto de 2020.

A Operação Haboob ("Tempestade de Areia" em árabe) é o nome do engajamento das forças francesas no sul do Iraque de 2003 a 2009 como parte da coalizão liderada pelos Estados Unidos. A operação é obviamente imaginária e o nome é inventado. Porém, se acreditarmos, entre outros, nos documentos revelados pelo Wikileaks, com outro Presidente da República que não Jacques Chirac e até o atual poder, esta operação poderia ter ocorrido. Portanto, não é totalmente inútil torná-la ucrônica.* 

Soldados franceses do 3e RIMa diante de um retrato do ditador Saddam Hussein doze anos antes, em 1991.

*Nota do Tradutor: Ucronia, história de eventos fictícios a partir de um ponto de partida histórico; "counter-factual".

Áreas de responsabilidade da Coalização no Iraque em 30 de abril de 2004.

É provável que o volume do contingente francês engajado fosse bastante próximo ao do britânico, sem dúvida um pouco menor por causa de nossos meios um pouco mais limitados e de nossos compromissos em outros lugares. Como os outros contingentes aliados, uma vez derrubado o regime de Saddam Hussein, teríamos nos estabelecido no Sul, mas provavelmente não em Basra reservada aos britânicos, aliados privilegiados e ex-ocupantes da cidade. Tendo em conta o nosso volume de forças e a qualidade dos nossos quadros, poderíamos ter pego a chefia da divisão multinacional Centro-Sul no lugar dos polacos, entre Bagdá e as zonas petrolíferas. Além do núcleo duro do estado-maior da divisão, que teria levado em consideração cerca de vinte contingentes com regras de engajamento mais complexas e restritivas entre si, também teríamos fornecido dois ou três grupos de armas combinadas* para proteger os lugares sagrados de Najaf e Karbala, e os eixos logísticos na região do Kuwait.

Exemplo da ordem de batalha de um SGTIA.

*NT: Um Groupement Tactique Interarmes (GTIA) é uma força de armas combinadas de valor regimento que incorpora elementos de infantaria, cavalaria, artilharia e engenharia em uma força de combate auto-suficiente, para objetivos táticos definidos. O GTIA é geralmente uma unidade temporária, formada para cumprir uma missão - ou várias missões - durante um período fixo. 
Cada uma das unidades de combate de um GTIA (companhia ou esquadrão) provavelmente constituirá um subconjunto de armas combinadas denominado SGTIA (sous-groupement tactique interarmes/ subgrupo tático de armas combinadas). Um exemplo de uma configuração possível seria uma companhia de infantaria reforçada por um pelotão de carros de combate, mais elementos de engenharia.

Derrubada de uma estátua do ditador Saddam Hussein em Badgá, 2003.

Dado o fraco apoio da opinião pública francesa a esta operação, ela teria sido "encoberta" pelo apelo a todas as virtudes da ação humanitária. As forças teriam recebido instruções estritas de prudência, bem como de meios "tão justos" e especialmente não "agressivos". Como os outros, teríamos, portanto, tomado toda a força da revolta Mahdista de 2004. Lembre-se de que, na época, os contingentes aliados não lutaram e apelaram aos americanos para reduzirem as forças do exército Mahdi. Admitindo que fôssemos mais combativos, o que creio, teríamos nos envolvido, sozinhos ou mais provavelmente ao lado dos americanos, por vários meses de luta (a crise durou de abril a outubro de 2004). Teríamos perdido entre 100 e 200 mortos e feridos nessas batalhas.

Combatentes xiitas do Exército Mahdi, 2004.

Posteriormente, teríamos, como os britânicos em Basra, sem dúvida testemunhado impotentemente a tomada das províncias xiitas pelas várias milícias e, na segunda linha, a guerra civil de 2006. Com a aproximação das eleições presidenciais francesas de 2007 , as forças teriam sido solicitadas a deixar as bases o mínimo possível e a se manterem discretas. Uma parte delas seria até repatriada, para fins eleitorais. As últimas unidades francesas teriam deixado o país discretamente em 2008, aproveitando o sucesso inesperado do Surge (Surto) americano.

O General David Petraeus, um dos principais arquitetos do Surge.

Em resumo, comparando com outros aliados, principalmente os britânicos, teríamos cerca de 150 soldados mortos e 1.000 feridos, além de custos humanos indiretos (suicídios, distúrbios psicológicos graves, não-renovação de contratos, etc.) da mesma ordem, ou seja, o equivalente a dois regimentos completos perdidos. Financeiramente, ao acumular custos militares e civis, esta operação teria custado ao Estado entre 5 e 10 milhões de euros, já para não falar dos custos indiretos (pensões de feridos, recondicionamento de equipamentos, etc) dificilmente calculáveis, mas provavelmente superiores.

Elementos do GTIA de Kapisa no Vale do Alasei, em 2009.
Em primeiro plano um AMX-10RC e ao fundo alguns VAB.

Por esse preço, o número de armas de destruição em massa nas mãos dos malfeitores não teria diminuído no mundo, nem o número de terroristas. A França teria contribuído para a eliminação de uma tirania, o que está longe de ser desprezível, e para o estabelecimento de uma democracia imperfeita, corrupta e muito frágil. Sua imagem com os americanos teria sido preservada, mas talvez não no resto do mundo.

Mas é claro que tudo isso não passa de imaginação.

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