Mostrando postagens com marcador Private Military Company. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Private Military Company. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Higienizando o Grupo Wagner: novo filme pinta o grupo mercenário russo como salvadores

Mercenário Wagner ajuda uma soldado da RCA em cena do filme Turista (2021).

Por Steve Balestrieri, SOFREP, 2 de junho de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 15 de setembro de 2021.

“Os americanos dizem que lutam pela democracia... os russos lutam por justiça.” Esse é o tema de Turista (Турист, 19 de maio de 2021), um filme de propaganda financiado, filmado e estrelado por membros do Grupo Wagner de Yevgeny Prigozhin.

Turista conta a história de um grupo de jovens conselheiros militares russos (mercenários Wagner) enviados à República Centro-Africana (RCA) na véspera das eleições presidenciais. Após uma violenta rebelião, eles defendem os moradores contra grupos de rebeldes assassinos.

O filme não menciona nenhuma das violações dos direitos humanos pelo Grupo Wagner

Tropas russas Wagner na República Centro-Africana atuando como destacamento de segurança presidencial.

Conspicuamente ausente no filme, estava a menção de uma infinidade de acusações de crimes de guerra e abusos dos direitos humanos que foram apontados contra mercenários Wagner desde que chegaram à RCA.

De acordo com um relatório de março de um grupo de especialistas independentes da ONU, os mercenários russos Wagner cometeram abusos aos direitos humanos na RCA enquanto lutavam ao lado de forças governamentais.

As supostas violações incluem execuções sumárias em massa, detenções arbitrárias, tortura durante interrogatórios e o deslocamento forçado da população civil, cerca de 240.000 dos quais fugiram de suas casas por causa dos combates nas últimas semanas. A Radio France Internationale (RFI) publicou uma importante investigação baseada nos documentos da ONU sobre as atividades dos mercenários Wagner na RCA. Os jornalistas relataram que “instrutores militares russos” estavam cometendo execuções extrajudiciais, estupros coletivos e saques.

No entanto, ao longo do filme, os mercenários russos são retratados como gentis e generosos. Simultaneamente, o filme frequentemente critica franceses e outros assessores ocidentais, retratando-os como espalhando instabilidade e caos na região.

“Os americanos dizem que lutam pela democracia... Os russos lutam por justiça”, diz um dos protagonistas do filme, enquanto os inspetores russos se preparam para proteger uma vila local.

Trailer


O diretor do filme, Andrey Shcherbinin - que usa o pseudônimo de Andrey Batov - tentou retratar a benevolência dos mercenários Wagner. Embora Shcherbinin tenha passado apenas alguns dias na RCA, ele retratou o ponto de vista russo.

Em uma entrevista à mídia, Shcherbinin disse que está preocupado com o futuro que aguarda as crianças da África Central. “A natureza não suporta o vácuo. Se não estivermos na RCA, outros estarão. Eu os vi lá. São pessoas absolutamente materialistas, que buscam seus próprios interesses. Eles não se preocupam profundamente com a África ou com essas crianças”, disse Shcherbinin. “Quando a população local vê um homem branco e ouve [ele] falando francês, dá para ver a repulsa em seus rostos. Mas assim que ouvem russo, começam a sorrir, vêm e cumprimentam [você]”, acrescentou.

Filme de propaganda de Prigozhin

De acordo com fontes citadas pelo The Moscow Times, Prigozhin é provavelmente o dinheiro por trás do filme Turista.

“Ninguém mais gostaria de financiar um filme desses”, disse uma fonte da indústria cinematográfica ao The Moscow Times.

O filme foi produzido por um estúdio relativamente desconhecido com sede em São Petersburgo, registrado sob a marca “Paritet Film”. Registros públicos russos mostram que a esposa de Prigozhin, Lyubov Prigozhina, é proprietária de outra empresa que foi anteriormente registrada com o nome de "Paritet" em São Petersburgo.

Uma captura de tela de um vídeo de mídia social parece mostrar membros do Grupo Wagner matando um homem na Síria. Eles são acusados de mais violações na RCA.

O filme foi exibido na televisão russa e para quase 10.000 locais na RCA no Estádio Barthélemy Boganda, localizado na capital da RCA, Bangui. Uma reportagem da mídia de Prigozhin afirmou que 70.000 pessoas se aglomeraram para ver o filme no estádio com capacidade para 50.000.

Muitos membros do elenco do filme estiveram recentemente envolvidos em outros filmes financiados por Prigozhin. Os extras são todos mercenários Wagner. O ator que interpreta o chefe dos assessores russos tem uma forte semelhança com Prigozhin. Outros membros do elenco e da equipe, incluindo dois produtores e o roteirista-chefe, trabalharam para um filme financiado por Prigozhin sobre um de seus principais assessores. E o elenco do filme conduziu extensas entrevistas com a Agência Federal de Notícias (FAN) - um meio de comunicação dirigido por Prigozhin.

Vladimir Petrov, um dos principais atores do filme, disse em uma entrevista à FAN que os atores receberam treinamento e ajuda de “profissionais russos em campo”.

A crescente influência da Rússia na nação africana

Cena do filme Turista.

Os créditos de abertura do filme, que foi filmado em março e abril de 2021 na RCA, dizem que foi inspirado pelos 300 instrutores militares russos servindo no país rico em recursos em apoio ao regime do presidente Faustin-Archange Touadéra, que a Rússia apoiou abertamente desde 2018.

Embora o filme diga que apenas 300 mercenários Wagner estão estacionados na RCA, a maioria dos analistas militares acredita que o Grupo Wagner tem mais de 1.000 homens no país. Além disso, a Sewa Security Services, outra companhia militar privada russa, supostamente hospeda mais 1.000 mercenários. E esses números estão aumentando. A RCA notificou o Conselho de Segurança da ONU que o país deve trazer 600 novos instrutores russos.

A influência russa na RCA cresceu a tal ponto que os mercenários russos fazem parte do destacamento de segurança do presidente e um ex-oficial de inteligência russo, Valery Zakharov, é o conselheiro de segurança nacional do presidente.

Prigozhin teria dito ao meio de comunicação russo Meduza que os mercenários russos na RCA “merecem fama e respeito. Eles são russos e temos orgulho deles”. Alegadamente, este filme de ação foi uma tentativa de Prigozhin de aumentar os esforços de recrutamento do Grupo Wagner, que está tendo problemas em conseguir os melhores recrutas.

Prigozhin, o magnata da restauração conhecido como "Chef de Putin", negou sistematicamente ter qualquer vínculo com o Grupo Wagner. Ele está enfrentando sanções por interferir nas eleições presidenciais dos EUA.

Steve Balestrieri atuou como graduado, sargento e Warrant Officer (sem equivalente no Brasil) das forças especiais antes que ferimentos forçassem sua reforma precoce.

Bibliografia recomendada:

The "Wagner Group":
Africa's Chaos in an Economic Boom.
Intel Africa.

Leitura recomendada:







Paris ameaça Bamako com retirada militar por causa do acordo com a companhia militar privada russa Wagner


Por Laurent Lagneau, Zone Militaire Opex360, 15 de setembro de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 15 de setembro de 2021.

Fundada por Dmitri Outkine, um veterano do GRU (inteligência militar russa), com o apoio do empresário Evguéni Prigojine, um amigo próximo do Kremlin, a companhia militar privada (CMP) russa Wagner se estabeleceu na República Centro-Africana em 2018, depois que Moscou obteve autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas para entregar armas às Forças Armadas da África Central (FACa).

Em seguida, a proteção do presidente centro-africano, Faustin-Archange Touadéra, foi confiada a mercenários russos enquanto uma campanha de desinformação contra a França era montada. Além disso, Bangui assinou acordos de cooperação com Moscou.

No entanto, a CMP Wagner, que claramente tem interesse nos recursos minerais do país, faz mais do que treinar soldados das FACa... já que está envolvido na luta contra grupos rebeldes da África Central. Em junho, um relatório das Nações Unidas denunciou os abusos cometidos por estes últimos e seus "instrutores" russos, enquanto, ao mesmo tempo, Jean-Yves Le Drian, o ministro francês das Relações Exteriores denunciava uma "tomada de poder" em Bangui por mercenários russos.

Insígnia não-oficial de caveira do Grupo Wagner.

Este cenário se repetirá no Mali? Em todo caso, é o que sugere a informação da Reuters, confirmada por várias fontes. Assim, Bamako pretende assinar um acordo com a CMP Wagner para formar as Forças Armadas do Mali (FAMa) e para garantir "a proteção de personalidades importantes". Mas tais "serviços" não seriam gratuitos: trata-se de uma remuneração de pouco mais de 9 milhões de euros por mês e de um acesso privilegiado a três jazidas minerais (duas de ouro e uma de magnésio).

“O Mali pretende agora diversificar as suas relações a médio prazo para garantir a segurança do país. Não assinamos nada com [o Grupo] Wagner, mas estamos discutindo com todos”, disse o Ministério da Defesa do Mali, à frente do qual está o Coronel Sadio Camara, que havia completado um estágio na Rússia pouco antes do golpe de Estado de agosto de 2020 , do qual ele foi um dos atores. Mas "até agora nada foi assinado", acrescentou ele, respondendo a um pedido da AFP.

Que a Rússia esteja interessada no Mali, onde, a pedido das autoridades malinenses, a França destacou tropas para combater os grupos jihadistas que aí abundam, no âmbito da Operação Barkhane, alargada a todo o Sahel, não é surpresa. Desde a independência em 1961, Bamako estabeleceu laços estreitos com Moscou... Mas essa relação não sobreviveu à implosão da União Soviética trinta anos depois.

De qualquer forma, a perspectiva de ver mercenários russos desembarcando no Mali não agrada a Paris, que em junho anunciou uma reforma em seu aparato militar no Sahel. De fato, foi isso que Le Drian disse durante uma audiência perante o Comitê de Relações Exteriores da Assembleia Nacional em 14 de setembro.

“É absolutamente irreconciliável com a nossa presença. [...] Uma intervenção de um grupo deste tipo no Mali seria incompatível com a ação dos parceiros sahelianos e internacionais do Mali”, lançou Le Drian. “Eles se distinguiram no passado, particularmente na Síria, na República Centro-Africana, muitos com extorsões, predações, violações de todos os tipos [e] não podem corresponder a nenhuma solução”, lembrou então. Ele insistiu: “Na República Centro-Africana, isso causou uma deterioração da situação de segurança”.

Mercenários Wagner na República Centro-Africana, janeiro de 2021.

No mesmo dia, perante os deputados da Comissão de Defesa, a Ministra das Forças Armadas, Florence Parly, avaliou que "se as autoridades do Mali celebrassem um contrato com a companhia Wagner, seria extremamente preocupante e contraditório, incoerente com tudo o que empreendemos há anos e tudo o que pretendemos realizar em prol dos países do Sahel”.

Em seu discurso de abertura, a ministra lembrou que não havia dúvida de que a França se retiraria militarmente do Sahel.

“Não vamos sair do Sahel. Continuamos a luta contra o terrorismo. Estamos mantendo um sistema militar para continuar a apoiar nossos parceiros do Sahel, enquanto nos adaptamos à evolução da ameaça. A transformação ordenada pelo Presidente da República não é de forma alguma uma saída do Mali, mas uma reconfiguração das nossas forças para torná-las ainda mais operativas e eficazes. Recordo-vos que a instalação final das tropas francesas no Sahel continuará a contar com o compromisso permanente e consistente dos soldados franceses em conjunto com os nossos parceiros. Posso dizer que isso representará um esforço real, consistente e constante para nossos exércitos”, explicou Parly.

De qualquer forma, segundo uma fonte da AFP, a chegada da CMP Wagner ao Mali (fala-se de pelo menos mil mercenários) colocaria em causa o apoio americano às operações francesas, ou mesmo da União Europeia, com o Grupo de Forças Especiais Takuba. “Os Estados Unidos parariam tudo” e “alguns países europeus também poderiam decidir se desligar”, enfatizou.

Bibliografia recomendada:

The "Wagner Group":
Africa's Chaos in an Economic Boom.
Intel Africa.

Leitura recomendada:









FOTO: Mercenários noruegueses do Grupo Wagner na Síria

Mercenários noruegueses do Grupo Wagner na Síria em 2017.

Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 15 de setembro de 2021.

Mercenários noruegueses do Grupo Wagner na Síria, a famosa Companhia Militar Privada (Private Military Company, PMC) russa controlada pelo GRU - a inteligência militar russa. Os voluntários noruegueses têm armas russas, como o AK-74M, e o sniper, sentado no canto direito, tem um fuzil M1891/30 Mosin-Nagant com a luneta PU de ampliação de 3,5x; um fuzil veterano do final do século XIX, que lutou em conflitos tão diversos quanto a Guerra Russo-Japonesa (1904-1905), as guerras mundiais, a Guerra Civil Espanhola (1936-39) e as guerras na Indochina (1945-89).

O Grupo Wagner chegou à Síria no final de outubro de 2015 e participou de operações em Palmira, al-Shaer, Deir ez-Zor, Latakia e Damasco. Suas missões incluíam funções técnicas de aconselhamento e controle de apoio aéreo aproximado, além de atuarem como tropas de assalto à frente do Exército Árabe Sírio de Assad.

Mercenários com o fuzil de assalto russo AK-74M com o lança-granadas GP-25 ou GP-30M.

O mercenário tem um fuzil AK-74M com lança-granadas, e a viatura tem uma metralhadora Degtyaryov RP-46.

Bibliografia recomendada:

The "Wagner Group":
Africa's Chaos in an Economic Boom.
Intel Africa.
Leitura recomendada:







segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Grupo Wagner: mercenários russos ainda chafurdando na África


Por Steve Balestrieri, SOFREP, 19 de abril de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 13 de setembro 2021.

O Grupo Wagner da Rússia está passando por momentos cada vez mais difíceis na África. Cerca de um ano atrás, Moscou estava se gabando de chegar primeiro que o Ocidente e a China na obtenção de contratos militares privados, subestimando as ofertas de vários países ocidentais ao divulgar seu "Modelo Sírio" de sucesso. Como resultado, eles acabaram conseguindo mais de 20 contratos militares privados na África. Mas toda essa euforia está secando.

Entraram no Moçambique cheios de confiança: Em agosto de 2019, o presidente moçambicano Filipe Nyusi encontrou-se com o presidente Putin e chegou a um acordo para que os russos apoiassem os militares moçambicanos. Este acordo deu à Rússia numerosas concessões do rico gás no país.

Insígnia não-oficial de caveira do Grupo Wagner.

O Grupo Wagner foi desdobrado logo depois, em outubro de 2019, com 200 contratados. Aterrou no Aeroporto de Nacala, em Moçambique, para ajudar na luta em curso do governo contra o Estado Islâmico na região norte da região rica em gás natural de Cabo Delgado.

O Grupo Wagner é uma companhia militar privada de propriedade de Yevgeny Prigozhin, um oligarca russo com laços muito próximos ao presidente Vladimir Putin. Ele é conhecido como o "chef de Putin", pois também possui uma vasta empresa de restaurantes. Com o objetivo de Putin de expandir a influência da Rússia na África, as forças proxy (de procuração) do Grupo Wagner estão operando no Sudão, na República Centro-Africana e em Moçambique. Eles também têm uma grande presença na Líbia e na Síria.

O Grupo Wagner é essencialmente um braço da política estatal russa: eles nunca foram empregados em nenhum lugar sem a aprovação do Kremlin. E embora não sejam oficialmente reconhecidos como tal, eles são, na verdade, forças terceirizadas do governo de Putin. “Não faço distinção entre os soldados russos e o Grupo Wagner - a maneira como eles cooperam”, disse Jasmine Opperman, especialista sul-africana em terrorismo, ao Voice of America em uma entrevista.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, chega a Durban, na África do Sul, em uma viagem oficial em 2013.

Como escrevemos no outono passado na SOFREP, embora existam várias empresas de proteção africanas - com uma vasta experiência nesta área do continente - disponíveis para aluguel, o governo moçambicano optou, no entanto, pelo Grupo Wagner, devido à sua óbvia influência política e à seu preço muito mais barato do que o de outras empresas. Enquanto uma empresa da África com 50-60 soldados qualificados com vasta experiência na área custaria ao governo entre US$ 15.000 e US$ 25.000 por mês para cada mercenário, o Grupo Wagner enviou 200 mercenários por entre US$ 1.800 e US$ 4.700 por mês cada.

Mas a velha advertência: “Você recebe o que paga” é uma descrição adequada do que aconteceu até agora na região.

Os superconfiantes contractors russos, apoiados por helicópteros Hind e transportados por helicópteros Mi-17 Hip, avançaram para o interior ao longo da fronteira entre Moçambique e Tanzânia. As forças aéreas e terrestres deveriam operar em estreita cooperação com o exército moçambicano (Forças Armadas de Defesa de Moçambique, FADM). No entanto, o ISIS não hesitou. Conforme relatado pelo Southern Times após a chegada dos russos, o ISIS rapidamente reforçou suas unidades em Moçambique, trazendo “voluntários” de outros países da África Oriental, especialmente da Somália. Isso logo levou a uma série intensificada de ataques da guerrilha.

Opperman chamou a situação de “tempestade perfeita” e disse sobre os esforços do Grupo Wagner na região: “Os russos não entendem a cultura local, não confiam nos soldados e têm que lutar em condições horríveis contra um inimigo que está ganhando mais e mais impulso. Eles estão totalmente fora do seu elemento.” Eles não estão acostumados a operarem em um ambiente de selva e sabem (ou se importam) pouco sobre os costumes e tradições locais.

Assim, os russos estão caindo no mesmo problema que tiveram durante a era soviética: tensões entre eles e as forças das nações anfitriãs. Os mercenários russos acusaram os soldados moçambicanos de não terem disciplina, enquanto as tropas da nação anfitriã sentem que estão sendo intimidadas pelos russos. E não existe um "Robin Sage" [personagem fictício americano] para os russos aprenderem como ganhar a confiança da força de uma nação anfitriã.

E agora, depois de sofrerem uma série de derrotas e mais de uma dúzia de mortes, o Grupo Wagner recuou suas tropas de volta para sua base principal em Nacala, cerca de 250 milhas ao sul.

Mercenários Wagner na República Centro-Africana, janeiro de 2021.

Eles enfrentam o mesmo problema na República Centro-Africana (RCA). Existem centenas de mercenários do Grupo Wagner operando na RCA, incorporados a uma infinidade de forças diferentes, mas eles estão perdendo todo o relacionamento com os locais devido ao tratamento brutal que dispensam a eles.

O Norte da África também não é mais gentil com eles.

Os russos têm cerca de 1.000 mercenários Wagner na Líbia. Eles sofreram 35 mortos em setembro, quando os turcos os atingiram com um drone, pois não tinham como se defender de ataques aéreos - a exemplo do que aconteceu com as tropas Wagner na Síria quando atacaram uma base dos EUA. Em janeiro, Putin e o presidente turco Erdogan chegaram a um acordo e, em seguida, surgiram relatórios de que as tropas russas Wagner foram retiradas da linha de frente em Trípoli.

A Líbia está em constante guerra civil desde a remoção do ditador Muammar al-Gadhafi, liderada pelos EUA, em 2011. Os Estados Unidos, a ONU e a maior parte da comunidade internacional reconhecem o Governo de Acordo Nacional (GNA), com sede na capital líbia Trípoli, como o governo legítimo. Mas a metade oriental do país é liderada por Khalifa Hafter, que é apoiado pela Rússia, Egito e Emirados Árabes Unidos (EAU). Hafter e suas tropas estão tentando capturar Trípoli.

As coisas não estão indo bem para os russos ou o Grupo Wagner na África. E quando você está mostrando uma fraqueza percebida, especialmente neste mundo de contratos militares privados, outros tentarão usar isso a seu favor.

Entra Erik Prince.

Prince, o fundador da empresa de segurança privada Blackwater, tem procurado nos últimos meses fornecer serviços militares o Grupo Wagner em pelo menos dois pontos de acesso africanos, de acordo com relatórios do The Intercept.

Prince supostamente se encontrou no início deste ano com um funcionário do Grupo Wagner e se ofereceu para apoiar as operações do Grupo Wagner na Líbia e em Moçambique. O advogado de Prince negou que ele tenha se encontrado com alguém do Grupo Wagner.

Erik Prince, fundador da Blackwater.

De acordo com o mesmo relatório, Prince também procura fornecer uma força para aumentar as operações do Grupo Wagner no Moçambique. Prince enviou uma proposta à empresa russa oferecendo-se para fornecer forças terrestres e vigilância baseada na aviação, algo que lhes falta no momento. No entanto, o Grupo Wagner/Rússia rejeitou sua proposta.

Os russos não querem admitir que precisam de ajuda, nem aceitá-la de um americano com laços tão estreitos com a Casa Branca de Trump - Prince é irmão da secretária de Educação Betsy DeVos.

Diga o que quiser sobre Prince, mas ele nunca se esquivou de fazer propostas não-solicitadas para suas ideias. Foi assim que ele acabou conhecendo o presidente Trump. Enquanto, neste caso, os russos/Wagner rapidamente rejeitaram sua proposta, isso não muda o fato de que outros podem ver que a "parada da vitória" russa, para obter contratos mercenários na África, foi um pouco prematura.

Eles estão tendo uma vida difícil no continente e, embora continuem a jogar dinheiro e mercenários na briga, estão nadando em águas desconhecidas e isso é visível.

Steve Balestrieri atuou como graduado, sargento e Warrant Officer (sem equivalente no Brasil) das forças especiais antes que ferimentos forçassem sua reforma precoce.

Bibliografia recomendada:

The "Wagner Group":
Africa's Chaos in an Economic Boom.
Intel Africa.

Bush Wars:
Africa 1960-2010.

Leitura recomendada:








EXCLUSIVO: Acordo que permite mercenários russos no Mali foi fechado

Malinenses seguram uma fotografia com uma imagem do Coronel Assimi Goita, líder da junta militar do Mali, e a bandeira da Rússia durante uma manifestação pró-Forças Armadas Malinenses (FAMA) em Bamako, no Mali, 28 de maio de 2021.
(REUTERS / Amadou Keita / Arquivo de foto )

Por John Irish e David Lewis, Reuters, 13 de setembro de 2021.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 13 de setembro de 2021.

Sumário
  • Acordo permitindo mercenários russos no Mali - fontes próximas
  • Paris quer evitar que o acordo seja assinado, dizem fontes
  • Pelo menos 1.000 mercenários podem estar envolvidos - duas fontes

PARIS, 13 de setembro (Reuters) - Está fechado um acordo que permitirá que mercenários russos entrem no Mali, estendendo a influência russa sobre os assuntos de segurança na África Ocidental e provocando a oposição da França, ex-potência colonial, disseram sete fontes diplomáticas e de segurança.

Paris deu início a uma campanha diplomática para impedir que a junta militar do Mali promulgasse o acordo, que permitiria que contratados militares privados russos, o Grupo Wagner, operassem na ex-colônia francesa, disseram as fontes.

Uma fonte europeia que rastreia a África Ocidental e uma fonte de segurança na região disse que pelo menos 1.000 mercenários podem estar envolvidos. Duas outras fontes acreditam que o número é menor, mas não forneceram números.

Quatro fontes disseram que o Grupo Wagner receberá cerca de 6 bilhões de francos CFA (US$ 10,8 milhões; US$ 1 = 0,8455 euros) por mês por seus serviços. Uma fonte de segurança que trabalha na região disse que os mercenários treinariam militares malinenses e forneceriam proteção para altos oficiais.

Insígnia não-oficial de caveira do Grupo Wagner.

A Reuters não pôde confirmar independentemente quantos mercenários poderiam estar envolvidos, quanto seriam compensados ou estabelecer o objetivo exato de qualquer acordo envolvendo mercenários russos para a junta militar do Mali.

A Reuters não conseguiu entrar em contato com o Grupo Wagner para comentar. O empresário russo Yevgeny Prigozhin, cujos meios de comunicação, incluindo a Reuters, estão ligados ao Grupo Wagner, nega qualquer conexão com a empresa. Seu serviço de imprensa também diz em seu site de rede social Vkontakte que Prigozhin não tem nada a ver com nenhuma companhia militar privada, não tem interesses comerciais na África e não está envolvido em nenhuma atividade lá.

Seu serviço de imprensa não respondeu imediatamente a um pedido da Reuters para comentar esta história.

Ameaça potencial ao esforço de contra-terrorismo

Mercenários Wagner na Síria.
Notar a insígnia de caveira no braço do homem de pé.

A ofensiva diplomática da França, disseram as fontes diplomáticas, inclui a ajuda de parceiros, incluindo os Estados Unidos, para persuadir a junta do Mali a não levar adiante o acordo, e o envio de diplomatas de alto escalão a Moscou e Mali para conversações.

A França teme que a chegada de mercenários russos prejudique sua operação contra-terrorista de uma década contra a al-Qaeda e os insurgentes ligados ao Estado Islâmico na região do Sahel, na África Ocidental, em um momento em que busca diminuir sua missão Barkhane de 5.000 homens para reformulá-la com mais parceiros europeus, disseram as fontes diplomáticas.

O Ministério das Relações Exteriores da França também não respondeu, mas uma fonte diplomática francesa criticou as intervenções do Grupo Wagner em outros países.

"Uma intervenção deste ator seria, portanto, incompatível com os esforços realizados pelos parceiros sahelianos e internacionais do Mali envolvidos na Coalizão pelo Sahel para a segurança e o desenvolvimento da região", disse a fonte.

Um porta-voz do líder da junta do Mali, que assumiu o poder por meio de um golpe militar em agosto de 2020, disse não ter informações sobre o acordo. "São rumores. As autoridades não comentam rumores", disse o porta-voz, Baba Cisse, que não quis comentar mais.

Um retrato do mercenário russo Maxim Kolganov, morto em combate na Síria, é retratado em um túmulo em sua cidade natal de Togliatti, Rússia, 29 de setembro de 2016.
(REUTERS / Maria Tsvetkova)

O porta-voz do ministério da defesa do Mali disse: "A opinião pública no Mali é a favor de mais cooperação com a Rússia, dada a situação de segurança em curso. Mas nenhuma decisão (sobre a natureza dessa cooperação) foi tomada."

Os ministérios da defesa e do exterior da Rússia não responderam aos pedidos de comentários, nem o Kremlin ou a presidência francesa.

A presença dos mercenários colocaria em risco o financiamento do Mali pelos parceiros internacionais e missões de treinamento aliadas que ajudaram a reconstruir o exército do Mali, disseram quatro fontes diplomáticas e de segurança.

Rivalidade na África

Mercenários Wagner na República Centro-Africana, janeiro de 2021.

Ter mercenários russos no Mali fortaleceria a pressão da Rússia por prestígio e influência globais e seria parte de uma campanha mais ampla para sacudir a dinâmica de poder de longa data na África, disseram as fontes diplomáticas.

Mais de uma dúzia de pessoas com laços com o Grupo Wagner disseram anteriormente à Reuters que o grupo realizou missões de combate clandestinas em nome do Kremlin na Ucrânia, Líbia e Síria. As autoridades russas negam que os contratados da Wagner cumpram suas ordens.

A junta militar do Mali disse que supervisionará uma transição para a democracia que levará às eleições em fevereiro de 2022.

Como as relações com a França pioraram, a junta militar do Mali aumentou os contatos com a Rússia, incluindo o ministro da Defesa, Sadio Camara, visitando Moscou e supervisionando os exercícios com tanques em 4 de setembro.

Uma fonte importante do Ministério da Defesa do Mali disse que a visita foi no "quadro de cooperação e assistência militar" e não deu mais detalhes. O Ministério da Defesa da Rússia disse que o vice-ministro da Defesa, Alexander Fomin, se encontrou com Camara durante um fórum militar internacional e "discutiu projetos de cooperação de defesa em detalhes, bem como questões de segurança regional relacionadas à África Ocidental". Nenhum detalhe adicional foi divulgado.

O principal diplomata africano do Ministério das Relações Exteriores da França, Christophe Bigot, foi enviado a Moscou para conversações em 8 de setembro com Mikhail Bogdanov, representante de Putin no Oriente Médio e na África. O Ministério das Relações Exteriores da Rússia confirmou a visita.

Bibliografia recomendada:

Bush Wars:
Africa 1960-2010.

Leitura recomendada:











quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Vega Strategic Services: as PMC russas como parte da guerra de informação?

Por Sergey Sukhankin, The Jamestown Foundation, 10 de abril de 2019.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 9 de fevereiro de 2021.

A agência russa de investigação Equipe de Inteligência de Conflitos (Conflict Intelligence Team, CIT) publicou um relatório, em 28 de março, informando que, além dos exércitos militares privados, a Rússia criou agora uma Companhia Militar Privada (Private Military Company, PMC) de um novo tipo. Especificamente, o relatório examina a Vega Strategic Services Ltd. (Vega), “uma PMC 'clássica' russo-ucraniana”, que atualmente opera na Síria e apóia o presidente Bashar al-Assad. Conforme observado no relatório, “ao contrário da ‘PMC Wagner’, [Vega] não conduz operações militares formais; seu objetivo principal está focado no treinamento de forças locais, bem como a proteção de vários objetos - semelhante a missões realizadas por PMC ocidentais... Dados os laços estreitos entre a milícia Liwa al-Quds e as forças russas na Síria, pode-se argumentar que o Vega está agindo com a permissão das autoridades russas ”(Citeam.org, 28 de março). A Liwa al-Quds (também conhecida como Brigada de Jerusalém) é uma milícia predominantemente palestina e luta como parte das forças do governo pró-Síria na Guerra Civil Síria.

O relatório investigativo baseia-se em três fontes principais de informação. Em primeiro lugar, refere-se ao ex-correspondente da ANNA News, Oleg Blokhin, que postou imagens de instrutores do Vega, na Síria, onde estavam evidentemente treinando combatentes Liwa al-Quds.

A segunda fonte por trás do relatório da CIT é um perfil abrangente de dois membros do Vega, ambos cidadãos ucranianos. Anatoly Smolin, um dos alegados fundadores desta PMC, após se aposentar da KGB soviética, seguiu carreira no Ministério de Assuntos Internos da Ucrânia. Em 1997, ele passou a prestar serviços de segurança privada. Em 2004, Smolin fundou as empresas de segurança Alfa-Shchit e Kolchuga; enquanto, em 2011, organizou a Vega Strategic Services. Imagens recuperadas pela CIT parecem mostrar Smolin treinando militantes da Liwa al-Quds na Síria. O outro perfil apresentado é de Dmitry Dzhinikashvili, que, de acordo com o relatório, não só foi empregado do Vega entre 2012 e 2014, mas também serviu por um breve período no Slavonic Corps Limited, uma PMC russa de vida curta organizado por ex-membros do Moran Security Group, Vadim Gusev e Evgeny Sidorov. O Slavonic Corps foi destruído na Síria em 2013. Os investigadores relacionaram a suposta presença de Dzinikashvili na Síria com uma foto de Palmira publicada na rede de mídia social online Vkontakte.

O terceiro elemento da investigação do relatório da CIT é baseado em uma entrevista com Andrey Kebkalo, um dos fundadores do Omega Consulting Group PMC, que supostamente abriu uma filial em Burkina Faso (o quarto maior produtor de ouro da África) (ver EDM, outubro 17, 2018). Na entrevista, Kebkalo reconheceu seu papel na criação do Vega e corroborou o papel de Smolin nesta PMC.

O relatório gerou uma reação imediata e extremamente dura do Serviço de Segurança da Ucrânia (SSU). Em seu comentário, o chefe do SSU, Vasyl Hrytsak, afirmou: “Membros do sindicato terrorista dos serviços especiais russos sob o nome de ‘PMC Wagner’ não têm cidadania. Nos últimos anos, o SSU trouxe à luz centenas de mercenários deste destacamento da [isto é, apoiado pela] Diretoria do Estado-Maior das Forças Armadas Russas (GU) [inteligência militar russa, ainda freqüentemente referida por seus antiga sigla GRU], entre os quais pessoas da Ucrânia, Bielo-Rússia, Moldávia, Cazaquistão, Sérvia e outros países. A única coisa que os une é a prontidão para matar qualquer um e em qualquer lugar do mundo por ordem do Kremlin e por seu dinheiro. Nenhuma falsificação russa pode esconder essa verdade do mundo.” O serviço de imprensa do SSU corroborou o fato de que Smolin e Dzhinikashvili são de fato cidadãos ucranianos, que, no entanto, deixaram o país após 2014 e começaram a cooperar ativamente com a inteligência militar russa e outros serviços especiais. O SSU também confirmou que o Vega, embora criada por Smolin em 2011, não se dedicava à prestação de serviços de segurança privada. Em sua análise final, o SSU chamou o relatório produzido pela CIT de “notícia falsa”, afirmando que “ainda é o Grupo Wagner que treina forças pró-Assad” (Ssu.gov.ua, 28 de março).

Em sua resposta, o investigador-chefe da CIT, Ruslan Leviev, expressou sua surpresa com a reação do SSU e criticou-o por uma "abordagem não profissional". Ele também apontou que o Vega não é de forma alguma uma iniciativa conjunta (russo-ucraniana), como foi afirmado pelo SSU. Em um comentário relacionado, Leviev afirmou que, “quando estamos falando de uma PMC russo-ucraniana, não queremos dizer que ela foi criada ou formada com a participação de autoridades estatais ucranianas. Estamos dizendo que foi organizada por cidadãos ucranianos e foi posicionada como uma PMC ucraniana desde o início... Isso não significa que é um projeto conjunto desses dois estados, é apenas um negócio privado” (Currenttime.tv, 29 de março).

Apesar das narrativas concorrentes do SSU e da CIT, alguns aspectos relativos ao Vega são de fato bastante confusos. Por exemplo, não é de todo evidente por que os meios de comunicação russos abertamente pró-Kremlin têm dado tanta atenção a esta PMC em particular, enquanto outras empresas desse tipo (o Grupo Wagner ou Patriot, por exemplo) permaneceram tabu na imprensa russa. Especificamente, um artigo intitulado “Damasco está hospedando a 60ª Exposição Internacional de Produtos Industriais”, publicado no ano passado na Federalnoye Agentstvo Novostey (Riafan.ru), relata, “o lado russo participou ativamente durante o fórum. Ou seja, pode-se ver o Vega Strategic Services Ltd., que foi criada em 2012, no Chipre, por veteranos e ex-membros de formações marítimas, militares e policiais especiais da Ucrânia, Rússia e Grécia ”(Riafan.ru, 30 de julho de 2018). Uma atenção particular deve se concentrar na fonte da publicação: O Federalnoye Agentstvo Novostey é um meio de comunicação apoiado por Moscou intimamente relacionado com a notória "Fábrica de Trolls" com sede em São Petersburgo, financiada por Yevgeny Prigozhin (conhecido como "Chef" de Vladimir Putin). Outro veículo de informação antiocidental ultraconservador, a Tsargrad TV (pertencente ao “oligarca ortodoxo” Konstantin Malofeev, que foi sancionado pela Comissão Europeia por financiar o separatismo na Ucrânia) também divulgou um artigo complementar que confirma as informações anteriores (Tsargrad.tv, 9 de fevereiro de 2019).

Comentando esses desenvolvimentos, Yevgeny Shabaev, o ataman (chefe) da comunidade cossaca de Khovrino, afirmou que conhece o Vega como uma empresa com recursos limitados e dificilmente compatível com as tarefas freqüentemente desempenhadas por contratados militares russos. Ele acrescentou que toda a história com o Vega não passa de um exemplo de uma operação de contra-informação (contra-propaganda) realizada por meios de informação próximos ao Kremlin. Esta campanha de contra-propaganda, argumentou Shabaev, visa desacreditar outros meios de comunicação que cobrem o Grupo Wagner (Rtvi.com, 12 de fevereiro).

Bibliografia recomendada:


Leitura recomendada:



Os condutores da estratégia russa16 de julho de 2020.



terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

A dependência da Rússia de contratados militares privados soa alarme no mundo todo

 

Instrutores do Vega treinam combatentes da Liwa al-Quds (Brigada de Jerusalém) na Síria em uma foto postada em janeiro de 2019.
(Oleg Blokhin / VKontakte)

Por Kanat Altynbayev, Central Asian News, 11 de dezembro de 2020.

Tradução Filipe do A. Monteiro, 9 de fevereiro de 2021.

A Vega se junta a uma lista crescente de mercenários russos - incluindo o Grupo Wagner - realizando o trabalho sujo do Kremlin em países estrategicamente importantes e oferecendo a Putin uma negação plausível.

ALMATY - As evidências crescentes de que a Rússia está aumentando sua dependência de unidades militares informais para resolver problemas estratégicos em países de interesse geopolítico estão causando preocupação em todo o mundo.

Além do Grupo Wagner - uma companhia militar privada (private military companyPMC) notoriamente envolvida em guerras no leste da Ucrânia, Síria, Líbia, Sudão, Venezuela, Madagascar e mais, e criada por associados próximos do presidente russo Vladimir Putin - a PMC russo-ucraniana Vega está sendo examinada pelo microscópio.

Esses contratados permitem que o regime russo inflija e sofra baixas, sem que nenhum derramamento de sangue apareça nos livros do Kremlin.

Em março de 2019, a Equipe de Inteligência de Conflitos (Conflict Intelligence Team, CIT), um grupo de blogueiros russos independentes que usa fontes abertas para investigar guerras, publicou dados indicando que mercenários do Vega operam na Síria desde 2018 para apoiar o presidente Bashar al-Assad, assim como seus homólogos do Grupo Wagner.

Instrutores do Vega treinam combatentas da Liwa al-Quds (Brigada de Jerusalém) na Síria em uma foto posada em janeiro de 2019.
(Oleg Blokhin / VKontakte)

Apoiando os combatentes da Liwa al-Quds na Síria

No início, o Vega protegeu pessoas físicas, bem como várias empresas, bancos e navios em áreas de alto risco. Mas, nos últimos anos, o Vega expandiu seu trabalho de segurança para incluir o treinamento de milícias em nome da Rússia. O Vega está treinando uma milícia predominantemente palestina conhecida como Liwa al-Quds (Brigada de Jerusalém), a maior unidade de Aleppo que apóia o governo sírio.

Foi o que os investigadores do CIT concluíram após examinarem as fotos tiradas pelo jornalista Oleg Blokhin, que trabalha na Síria para as publicações online pró-Kremlin ANNA News e Russkaya Vesna (Primavera Russa).

As imagens mostram soldados usando brevês dos Vega Strategic Services (Serviços Estratégicos Vega).

Os Vega Strategic Services foi fundada em 2011 na Ucrânia por veteranos das forças especiais russas e ucranianas, descobriram os investigadores. Tornou-se Vegacy Strategic Services em 2012, quando o fundador da empresa, o cidadão ucraniano Anatoly Smolin, mudou sua sede para o Chipre.

Smolin, um veterano da marinha soviética e da KGB e depois das forças do Ministério do Interior ucraniano (MVD), disse à BBC em março de 2019 que se mudou para o Chipre porque a legislação que regia as PMC era favorável. A sede está situada no Chipre, com outros escritórios na Ucrânia, Rússia, Síria, Sri Lanka e Egito.

A Rússia "reforçou significativamente seu apoio à Liwa al-Quds" desde 2019, informou a Deutsche Welle em março de 2019, citando a publicação online libanesa Al-Modon. O grupo palestino ganhou várias centenas de novos membros, incluindo menores, disse o relatório. Relatórios de janeiro de 2019 reconheceram a Rússia como a força por trás do Vega. Smolin participou pessoalmente do treinamento militar dos combatentes da Liwa al-Quds na Síria, de acordo com o CIT - As fotos do treinamento mostram alguém que se parece com ele.

Operando "nas sombras" no Oriente Médio

Observadores na Ásia Central vêem as PMC russas como uma ameaça multifacetada à segurança de seus países. As PMC como o Grupo Wagner realizam missões militares e de inteligência que Moscou não pode executar oficialmente, disse Edil Osmonbetov, de Bishkek, um cientista político e especialista em relações internacionais.

“Estas não são forças armadas regulares que se enquadram no direito internacional; os estados que as coordenam não têm responsabilidade por suas ações”, disse ele.

O Vega é apenas uma das PMC criadas a pedido do Kremlin, disse Dauren Ospanov, um major aposentado do exército cazaque e ex-oficial da guarnição regional de Almaty. Ele nomeou outras PMC - Shchit (Escudo) e Patriot (Patriota) - que não existem oficialmente na Rússia, mas recrutam ativamente jovens para realizar missões perigosas no Oriente Médio.

"Ao contrário do Grupo Wagner, o Vega e outras PMC russas não têm equipamento militar, veículos blindados ou artilharia e não foram vistos em combate", disse Ospanov. "Eles estão nas sombras, lidando com segurança e treinando combatentes, mas isso poderia muito bem ser apenas um escudo para esconder crimes de guerra."

Instrutores do Vega treinam combatentes da Liwa al-Quds (Brigada de Jerusalém) na Síria em uma foto postada em janeiro de 2019.
(Oleg Blokhin / VKontakte)

Recrutando combatentes na Ásia Central

As PMC russas também estão envolvidas em atividades destrutivas, não apenas aquelas tarefas "obscuras", disse Ospanov. Eles contratam jovens de famílias carentes, principalmente os que vivem na Rússia, e oferecem-lhes altos salários para lutar na Síria. "Muitos dos mercenários são mortos, mas ninguém é responsabilizado", disse ele. O recrutamento também está ocorrendo nos países da Ásia Central.

Em agosto, soube-se que o Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) abriu processos criminais contra 15 membros do Grupo Wagner, incluindo três quirguizes, que supostamente lutaram no leste da Ucrânia ao lado de separatistas pró-russos.

Dois anos antes, o jornal cazaque Caravan citou o SBU quando informou que bielo-russos, moldavos e cazaques estavam lutando como parte de uma PMC russa na Síria.

As PMC russas estão contratando estrangeiros para que "haja menos reclamações" sobre a Rússia, Andrei Buzarov, um cientista político de Kiev, Ucrânia, disse ao Caravan, sem especificar a origem das reclamações. Os mercenários também concordam em trabalhar para as PMC por razões financeiras, disse ele.

"Máquinas de matar" apoiadas pelo Kremlin

Ospanov está convencido de que o Vega está intimamente ligada ao Kremlin, já que está treinando um grupo apoiado pela Rússia.

“Não há necessidade de alimentar ilusões de que o Vega está ficando fora de combate e cumprindo as regras internacionais sobre as PMC”, disse ele. “Não há dúvida de que, em um momento decisivo, as PMC como o Vega puderiam ser mobilizadas e, de uma forma ou de outra, serem levadas a uma guerra híbrida, executando as missões de combate do Kremlin, como foi o caso da Ucrânia”.

A ameaça da Rússia de desencadear uma guerra híbrida também é relevante para a Ásia Central, particularmente para o Cazaquistão, disse Dosym Satpayev, de Almaty, cientista político e diretor do Grupo de Avaliação de Risco. Os problemas internos estão crescendo no Cazaquistão, que Moscou pode explorar para seus próprios interesses, disse ele.

"O surgimento de uma PMC estrangeira no Cazaquistão representa uma séria ameaça ao nosso país, já que é possível que, se a situação política mudar, ela possa se envolver em sabotagens", disse Satpayev.

As autoridades cazaques, por sua vez, desconfiam da própria ideia das PMC e não permitem que tais entidades operem legalmente no Cazaquistão. Em março de 2018, Dariga Nazarbayeva, senadora na época e filha mais velha do ex-presidente Nursultan Nazarbayev, denunciou a ideia de criar empresas PMC no Cazaquistão.

"Não apoio essa ideia. Isto é literalmente uma máquina de matar privada", disse ela. "Essas organizações não deveriam existir."

Bibliografia recomendada:

Russian Security and Paramilitary Forces since 1991.
Mark Galeotti.

Leitura recomendada:

Os condutores da estratégia russa16 de julho de 2020.


Síria: Os "ISIS Hunters", esses soldados do regime de Damasco treinados pela Rússia8 de setembro de 2020.

Helicóptero Gazelle de mercenários sul-africanos foi abatido em Moçambique26 de abril de 2020.

PERFIL: Akihiko Saito, o samurai contractor, 2 de fevereiro de 2020.