quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

101st Airborne, a "Nossa" Divisão

"Águias Gritantes" preparando-se para o salto no Dia D.

Pelo General A. de Lyra Tavares, 1976.
Transcrito por Filipe do A. Monteiro, 20 de fevereiro de 2014.

Em 1943, como integrantes do primeiro grupo de oficiais brasileiros na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército norte-americano, o então Tenente-Coronel Humberto Castello Branco e eu estudávamos juntos as operações de uma Divisão Aerotransportada, a 101.ª, que, no quadro geral de uma invasão da França por poderosas forças anglo-americanas, com base na Inglaterra, teria que as preceder, muito antes do clarear do dia D, de modo a ocupar a eclusa de Barquette, perto de Carentan, para cobrir a conquista de Bayeux, objetivo naquela frente, do desembarque das primeiras vagas de assalto sobre as praias da Normandia.

Ao mesmo tempo e para o mesmo fim, a 82.ª Divisão Aerotransportada, em sincronia com a nossa, deveria apossar-se de Sainte-Mère-Église, para constituírem as duas uma prévia frente de cobertura, neutralizando os obstáculos e assegurando a posse de certas estradas de modo a abrir a caminho do 7.º Corpo do Exército norte-americano que iria desembarcar na praia de Arromanches, com o objetivo de conquistar Bayeux.

No Plano de Operações, as praias de desembarque, embora francesas, foram codificadas com nomes americanos convencionais: Omaha Beach (entre Vierville e Colleville-sur-mer) e Utah Beach (litoral de Contentin, com 1.500 metros de frente), que servia de área principal às operações do 7.º Corpo do Exército.


Fileira de cima: Lebrao, J. M., Major, Artilharia; Maggessi, A. C., Tenente-Coronel, Infantaria; Kruel, A., Tenente-Coronel, Cavalaria; de Paiva, N. B., Major, Infantaria; Almeida de Moraes, A. H., Major, Artilharia. Fileira do centro: Arruda, J. T., Tenente-Coronel, Cavalaria; Figueiras, H., Tenente-Coronel, Artilharia; Lyra, A., Tenente-Coronel, Engenharia (Autor); Castello Branco, H. A., Tenente-Coronel, Infantaria. Fileira de baixo: Leal, J. E., Coronel, Artilharia; Lott, H. T., Coronel, Infantaria; Brayner, F. L., Coronel, Infantaria.

Tudo girava, para nós, em torno da conquista de Bayeux, que era o ponto-chave da grande e arrojada operação, cujo sucesso iria depender do êxito da missão a ser cumprida pela nossa 101.ª Divisão Aerotransportada, o que dependeria das condições atmosféricas, dos obstáculos do terreno e das reações do inimigo.

Tudo isso despertava, como é natural, nosso grande interesse profissional. Eram assuntos novos e de grande importância, sobretudo naquela oportunidade, quando só pensávamos na Grande Guerra e já se pressentia a participação do Brasil.

Tratava-se, porém, ao que imaginávamos, de um tema de estudo, para o fim de exercitarmos nosso método de raciocínio e a técnica de elaborar decisões, embora os problemas fossem apresentados com o máximo de realismo, até nos pormenores, tanto que nos familiarizamos com todos os aspectos das operações, até mesmo pelo exercício de interpretação das fotografias dos trabalhos defensivos dos alemães, colhidos pela Real Força Aérea inglesa nos sobrevôos de suas esquadrilhas de observação sobre a chamada "muralha do Atlântico".

Foi assim que conservamos no espírito, depois da volta ao Brasil, em setembro de 1943, o problema da conquista de Bayeux, no caso de invasão da Europa e, em particular, a arrojada missão a ser cumprida no dia D pela "nossa" 101.ª Divisão Aerotransportada.


Easy Company em Saint Marie-du-Mont.

Aqui chegados, nossas preocupações passaram a ser muito outras. Voltamo-nos inteiramente para os problemas da organização da FEB. Já iniciávamos o mês de junho de 1944 quando, na manhã do famoso dia 6, fui despertado por uma chamada telefônica, para mim inesquecível, do grande e saudoso amigo, então Tenente-Coronel, Humberto Castello Branco. Em palavras apressadas e incisivas, muito ao seu modo, ele queria saber se eu estava ouvindo o rádio. Urgia que eu o fizesse. E terminava - "Nossa Divisão Aerotransportada, sob o comando do General Taylor, cumpriu sua missão, e os Aliados estão desembarcando em Bayeux".

Claro que ele e eu nos despedimos sem mais dizer. O que a ambos nos interessava era o noticiário. E foi com muita emoção que eu me pus a ouvi-lo. Tudo me dava a impressão de estar vivendo um sonho, naquele repentino despertar de coisas que estavam guardadas e adormecidas no meu subconsciente.


O rádio dizia que o General Eisenhower tinha estado pessoalmente, à meia-noite, no aeródromo de decolagem da "nossa" 101.ª Divisão para encorajar os seus homens e testemunhar o início da grande jornada da marcha sobre Berlim.

Os Aliados estavam, realmente, em Bayeux. Nossa Divisão, depois de uma aterragem escalonada e muito dura, a partir de 2h 30min da madrugada do dia D, tinha tido completo êxito. Tudo ocorria como estava previsto.


E logo me vieram ao pensamento, como se eu estivesse vivendo a operação, todos aqueles problemas do tema que havíamos estudado, apenas no referente à conquista de Bayeux, durante o Curso da Escola de Leavenworth. Desfilava em minha mente um turbilhão de lembranças: o grande arrojo e o vulto inimaginável da operação Overlord, as falaises da Normandia, o formidável sistema de fortificações, além de muitas outras coisas que me acudiam ao espírito, sob o impacto daquela alvissareira notícia.

Era, afinal, a invasão que começava, a despeito da poderosa organização defensiva do General von Rundsted. A muralha começava a ceder sob a pressão da formidável mola que começava a distender-se, partindo do Sul da Inglaterra, para levar de roldão aquele imenso arsenal casamatado que Hitler mandara erguer para compensar a falta de efetivos de que já se ressentia para cobrir-se na nova e difícil frente ameaçada.

Tudo isso nos trazia a certeza de que a guerra estava mudando os seus rumos. A vitória estava estava à nossa vista. Nossa Divisão Aerotransportada cumprira sua missão e Bayeux estava em poder dos Aliados.

- General Aurélio de Lyra Tavares, Brasil França: Ao longo de 5 séculos, 1979, pg. 288-292.
(Artigo do Autor, publicado pelo Mensário do Arquivo Nacional - Outubro - 1976.)



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