quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

GALERIA: A revolta anti-comunista na Alemanha Oriental de 1953


Por Filipe do A. Monteiro, Warfare Blog, 26 de fevereiro de 2020.

A revolta de 1953 na Alemanha Oriental (República Democrática Alemã, RDA) começou com uma greve dos trabalhadores da construção civil de Berlim Oriental em 16 de junho de 1953. Ela se transformou em uma revolta generalizada contra o governo da República Democrática Alemã no dia seguinte. Na Alemanha, a revolta é freqüentemente chamada de Revolta Popular na Alemanha Oriental (Volksaufstand in der DDR). Envolveu mais de um milhão de pessoas em cerca de 700 localidades e o 17 de junho foi feriado na Alemanha Ocidental até a reunificação, e ainda é um Gedenktag (aniversário) até hoje. Greves e redes operárias, particularmente relacionadas ao antigo Partido Social-Democrata da Alemanha, redes de resistência anti-comunistas e sindicatos desempenharam um papel fundamental no desdobramento da revolta.


A revolta em Berlim Oriental foi violentamente reprimida por tanques do Grupo das Forças Soviéticas na Alemanha e pela Volkspolizei. Apesar da intervenção das tropas soviéticas, a onda de greves e protestos não foi facilmente controlada. Depois de 17 de junho, houve manifestações em mais de 500 cidades alemãs.



A crise começou quando a proposta de 1952 de Stálin, de unificação e neutralização da Alemanha, foi recusada. Em Berlim, o secretário-geral do partido socialista alemão (Partido da Unidade Socialista da Alemanha/Sozialistische Einheitspartei Deutschlands, SED), Walter Ulbricht, interpretou a tentativa fracassada de Stálin de reunificação alemã como um "sinal verde" para prosseguir com a “construção acelerada do socialismo na RDA”, anunciada pelo partido na Segunda Conferência do Partido Comunista em julho de 1952. Essa mudança para sovietizar a RDA consistiu em um aumento drástico no investimento alocado à indústria pesada, tributação discriminatória contra as últimas empresas industriais privadas, coletivização forçada da agricultura e uma campanha concertada contra a atividade religiosa na Alemanha Oriental.

No entanto, o resultado dessa mudança de direção econômica foi a rápida deterioração do padrão de vida dos trabalhadores, que durou até a primeira metade de 1953, e representou a primeira clara tendência de queda no padrão de vida da Alemanha Oriental desde a crise da fome de 1947. Os custos de viagem aumentaram quando os generosos subsídios estatais foram cortados e muitos bens de consumo começaram a desaparecer das prateleiras das lojas.



O aumento da norma entraria em vigor em 30 de junho, aniversário de 60 anos de Ulbricht. A sua resposta às conseqüências da sovietização forçada foi apertar ainda mais os cintos dos alemães orientais; já a resposta de muitos alemães orientais foi fazer as malas e atravessar a fronteira com o mundo capitalista. Em 1951, 160.000 pessoas se mudaram; em 1952, 182.000. No entanto, nos primeiros quatro meses de 1953, 122.000 alemães orientais já haviam partido para o Ocidente, apesar da fronteira agora praticamente fechada.

As fábricas foram forçadas a reprimirem as horas extras: a massa salarial agora era excessiva quando comparada a um orçamento restrito. O custo de vida dos trabalhadores, portanto, aumentou, enquanto o salário de um grande número de trabalhadores - muitos dos quais dependiam de horas extras para sobreviver - estava diminuindo. No inverno de 1952-53, também houve sérias interrupções no fornecimento de calor e eletricidade às cidades. Em novembro de 1952, rebeliões esporádicas por cause de alimentos e incidentes de agitação industrial ocorreram em alguns dos principais centros industriais da RDA: Leipzig, Dresden, Halle e Suhl. Os distúrbios industriais continuaram durante a primavera seguinte, que variava de rebeliões violentas a pichações anti-SED, a supostas sabotagens.

Enquanto isso, os preços dos alimentos aumentaram por causa da coletivização - 40% dos agricultores mais ricos da RDA fugiram para o Ocidente, deixando mais de 750.000 hectares de terras produtivas em ociosidade - e uma colheita ruim em 1952.



Para aliviar a tensão econômica causada pela "construção do socialismo", o Politburo alemão decidiu aumentar as normas dos trabalhadores em uma base obrigatória em 10% em todas as fábricas estatais. Em outras palavras, os trabalhadores agora tinham que produzir 10% a mais pelo mesmo salário. Além disso, houve aumentos nos preços de alimentos, serviços de saúde e transporte público. Em conjunto, a norma e os aumentos de preços representaram um corte mensal de 33% nos salários.

O Politiburo soviético, informado da situação pela Comissão de Controle Soviética na Alemanha, ficou assustado com o que foi relatado. Em 2 de junho, a liderança da União Soviética emitiu uma ordem "Sobre medidas para melhorar a saúde da situação política na RDA", na qual a política do SED de construção acelerada do socialismo foi fortemente criticada. A grande fuga de todas as profissões e origens da Alemanha Oriental para a Alemanha Ocidental criou "uma séria ameaça à estabilidade política da República Democrática Alemã".

Para salvar a situação, agora era necessário acabar com a coletivização forçada e a guerra contra as empresas privadas. O Plano de Cinco Anos agora precisava ser alterado às custas da indústria pesada e a favor dos bens de consumo. Os controles político-judiciais e o regime tiveram que ser relaxados, e as medidas coercitivas contra a Igreja Protestante tiveram que cessar. O "exercício frio do poder" de Ulbricht foi denunciado. No entanto, não havia uma demanda explícita para reverter as impopulares normas de trabalho levantadas. Este decreto foi entregue aos líderes do SED, Walter Ulbricht e Otto Grotewohl, em 2 de junho, o dia em que desembarcaram na capital soviética. Georgy Malenkov advertiu-os de que as mudanças eram essenciais para evitar uma catástrofe.



O comunicado do "Novo Curso", e sua admissão direta a erros do passado, chocou e confundiu muitos alemães orientais - tanto membros do SED quanto a população em geral. Decepção, descrença e confusão invadiram as organizações locais do partido, cujos membros se sentiram traídos e em pânico. A população em geral viu o "Novo Curso" como um sinal de fraqueza por parte do regime da Alemanha Oriental. No dia seguinte, 12 de junho, 5.000 pessoas participaram de uma manifestação em frente à prisão de Brandemburgo. Mais confusão se seguiu: em 14 de junho, um editorial da Neues Deutschland condenou as novas normas de trabalho; no entanto, nessa edição exata, havia artigos de notícias elogiando os trabalhadores que haviam excedido essas mesmas normas.

Em 15 de junho, trabalhadores do Stalinallee "Block 40", em Berlim, agora com suas esperanças elevadas com relação à possibilidade de rescisão das normas de trabalho, enviaram uma delegação ao primeiro-ministro da Alemanha Oriental, Otto Grotewohl, para apresentar uma petição pedindo uma revogação das normas de trabalho mais altas. Grotewohl ignorou as demandas dos trabalhadores.



Um artigo do jornal sindical Tribune, em 16 de junho de 1953, reafirmou a necessidade do aumento da norma. Evidentemente, o governo não recuaria sobre a questão do aumento da norma de 10%. Assim, às 9h da manhã de 16 de junho, 300 trabalhadores dos canteiros de obras do “Hospital Friedrichshain” e do “Stalinallee Block 40” entraram em greve e marcharam até a sede da FDGB (Freier Deutsche Gewerkschaftsbund/Federação dos Sindicatos Livres Alemães) na Wallstrasse, e daí para o centro da cidade, erguendo faixas e exigindo o restabelecimento das antigas normas de trabalho. As demandas foram ampliadas para abrangerem questões políticas.



O Politburo alemão foi pego completamente de surpresa e, após várias horas de deliberação, decidiu revogar a nova norma; decretando que os aumentos de produtividade agora seriam voluntários. O Politburo culpou as greves e manifestações em parte por como o aumento havia sido implementado, e em parte por provocadores estrangeiros. Mas quando um funcionário do SED chegou à Câmara dos Ministérios para dar notícias aos trabalhadores, a agenda dos manifestantes havia se expandido muito além da questão dos aumentos de normas. A situação escalou rapidamente, e o Alto Comissário Soviético para a Alemanha, Vladimir Semyonov, informou ao SED que tropas soviéticas seriam mobilizadas em Berlim.

As autoridades soviéticas também ficaram completamente surpresas com os protestos generalizados que se seguiram às manifestações em Berlim Oriental. Sua resposta foi improvisada e descoordenada. Após a decisão de Semyonov, as tropas soviéticas entraram nos arredores de Berlim Oriental no início da manhã de 17 de junho. Enquanto isso, multidões de trabalhadores começaram a se reunir em Strausberger Platz e em outros locais públicos e começaram a se dirigir ao centro da cidade.



Todas as 24 cidades da Alemanha Oriental com uma população maior que 50.000 sofreram levantes; da mesma forma no caso de aproximadamente 80% de suas cidades com populações acima de 10.000, mas abaixo de 50.000. Aproximadamente 339.000 participaram de 129 manifestações fora de Berlim; mais de 225.000 pessoas paralisaram 332 fábricas. Os principais centros de atividade incluíam a região industrial em torno de Halle, Merseburg e Bitterfeld, além de cidades de tamanho médio como Jena, Gorlitz e Brandenburg. Até 25.000 pessoas participaram de greves e manifestações em Leipzig, mas havia 32.000 em Magdeburgo, 43.000 em Dresden, 53.000 em Potsdam - e em Halle, um número próximo a 100.000.

No total, 1.500.000 manifestantes foram reprimidos por 20 mil soldados soviéticos e 8 mil policiais da Volkspolizei, com 5 policiais mortos e 55 a 125 alemães mortos e 17 desaparecidos.

Protestos e manifestações continuaram por dias após 17 de junho e, de acordo com o serviço de segurança da RDA, a situação se acalmou apenas em 24 de junho de 1953.



Muitos trabalhadores perderam a fé no estado socialista da Alemanha Oriental após o desenlace da Revolta. Por Desgosto com a violenta repressão das greves - com o fato da Volkspolizei ter atirado nos trabalhadores: de trabalhadores terem matado sua própria espécie - o SED perdeu um grande número de membros. Durante o Bezirke de Leipzig e Karl-Marx-Stadt, centenas de membros do SED, muitos dos quais passaram décadas no movimento trabalhista, deixaram o partido. Na fábrica Textima em Altenberg, 450 membros do SED deixaram o partido em 7 de julho - a maioria trabalhadores, muitos dos quais com grande experiência no movimento trabalhista. Houve também uma recusa generalizada de trabalhadores em pagar suas assinaturas sindicais: eles agora deixaram de apoiá-lo e, portanto, também lhe conferiram legitimidade.

A primeira lição do SED com relavação à Revolta foi a maior preocupação com o descontentamento no chão de fábrica e agora procuravam com mais determinação impedir que ele se transformasse em um conflito mais amplo. Foi criado um sistema de vigilância das fábricas para monitorar melhor o humor da força de trabalho, o Kampfgruppen der Arbeiterklasse (Grupos de Combate da Força de Trabalho) foi estabelecido como uma força no local para impedir ou reprimir qualquer sinal de agitação, e a Stasi (serviço secreto) foi ampliada e aprimorada para lidar rapidamente com quaisquer sinais de protesto organizado no futuro.



Em 18 de junho de 1953, o Neues Deutschland, a publicação oficial do Partido da Unidade Socialista da Alemanha (Sozialistische Einheitspartei DeutschlandsSED) e do jornal diário nacional, publicou um artigo em sua primeira página intitulado "Was ist Berlin geschehen?" (O que ocorreu em Berlim?), explicava que a greve e a subsequente revolta foram um resultado direto das tentativas das "agências ocidentais" de perturbar a estabilidade e a legitimidade nacional do SED.

Outras edições arquivadas do Neues Deutschland documentam comentários similares feitos por autoridades do partido que condenaram a influência da cultura popular americana na juventude alemã. A proeminência dos filmes e da música norte-americanos em Berlim Oriental e Ocidental influenciou a ascensão de uma subcultura da juventude comumente conhecida como Halbstarke (literalmente "meias-forças"). Filmes americanos da época como The Wild One (O Selvagem, 1953) e Rebel Without a Cause (Juventude Transviada, 1955), com as estrelas de cinema Marlon Brando e James Dean, respectivamente, foram vistos pela RDA como a romanização da desobediência e rebelião pública, além de encorajar crimes violentos. As ocorrências contínuas de desobediência civil e levantes por parte de jovens alemães eventualmente levariam à decisão de oficiais do partido SED de iniciar a construção do Muro de Berlim em 1961.



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