sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

Um breve comentário sobre o FN FAL

1972: Soldados britânicos armados em patrulha na Rua Lisboa, Belfast, durante o cessar-fogo incondicional do IRA Oficial. (Foto de Evening Standard/ Getty Images)

Por Jon Guttman, Military Times, 14 de fevereiro de 2020.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 21 de fevereiro de 2020.

Depois que 1945 inaugurou a Guerra Fria com a União Soviética e seus aliados, a Organização do Tratado do Atlântico Norte buscou um fuzil e um projétil padronizados para as muitas nações sob sua aliança.

Um grande obstáculo à universalidade que a OTAN desejava era um ramo teimoso de desenvolvimento de armas portáteis dos EUA, sob o Coronel René Studler, que estava determinado a tornar essa arma universal uma arma americana. Baseando seu conceito em uma munição .30-06 com um estojo de cartucho de 51mm de comprimento no lugar do cartucho de 63mm do M1 Garand, Studler colocou o Arsenal de Springfield em Massachusetts para trabalhar em uma arma "perfeita" para isso.


EM-2 Janson britânico.

Ao mesmo tempo, os britânicos estavam trabalhando no EM-2 "Bullpup", um fuzil compacto cujo mecanismo da culatra e carregador estavam contidos na coronha e não na frente dela - condenados na época, mas destinados a criar uma geração posterior de armas portáteis britânicas.

Também trabalhando em um novo fuzil semi-automático* a Fabrique Nationale de Herstal (FN) da Bélgica em Liège, liderada por Dieudonné Joseph Saive, ex-assistente de design do fundador da FN, o falecido John Moses Browning.

*Nota do Tradutor: O novo fuzil era, na verdade, automático. A sua versão métrica, adotada pela maior parte dos mais de 90 países que utilizaram o FAL, possui registro de segurança com fogo automático, semi-automático e de repetição. Apenas a versão imperial do FAL, "britânica", que é semi-automática.

O protótipo da FN ofereceu um bom mecanismo de ferrolho basculante, operado a gás, com um carregador destacável de 20 tiros. Durante testes em Fort Benning, na Geórgia, o competidor da FN causou a melhor impressão entre os oficiais do Exército dos EUA - exceto no Coronel Studler, ainda ligado ao seu projeto de estimação.


Coronel Rene Studler, o "vilão" da história.

Studler conseguiu obter sua munição de 7,62x51mm* adotada como cartucho oficial da OTAN em 1954, mas os belgas, protegendo suas apostas, recalibraram seu FN FAL** (Fusil Automático Léger ou Fuzil Automático Leve) e o viram ser adotado por todos os países da OTAN, exceto um: os Estados Unidos***.

*NT: Os belgas projetaram o FAL para usar a munição intermediária 7,92x33mm, a mesma do fuzil de assalto StG-44, e depois a munição britânica .280 também intermediária. O Coronel Studler, desejoso de ser promovido ao generalato, forçou o seu cartucho de estimação T65 (7,62x51mm) nos testes de padronização da OTAN. Os britânicos resumiram a situação simplesmente como "We got Studlered" ("Fomos Studlados").

**NT: Os americanos prometeram aos belgas que, se eles voassem à favor da munição americana 7,62x51mm, as enormes forças americanas seriam padronizadas com o novo fuzil belga FN FAL. Os belgas votaram à favor, e depois de aprovada a nova munição padrão, os americanos adotaram o M14. 


FN FAL T48 no Museu de West Point, nos EUA.

***NT: Em 1953, o Exército dos EUA realizou testes entre os protótipos T48 (FAL) e T44 (M14). O desempenho do FAL foi satisfatório e o Conselho de Infantaria tomou duas decisões: a adoção de um primeiro lote do protótipo belga e o fim do desenvolvimento do protótipo americano. O Corpo de Material Bélico americano (US Ordnance Corps) não aceitou a recomendação de um fuzil estrangeiro e, nos Testes de Inverno Ártico de dezembro de 1953, ordenaram que o fuzil belga fosse comparado sempre desfavoravelmente ao modelo americano. Os T48 foram encaixotados e enviados diretamente ao Alasca, enquanto os T44 foram desviados para o Arsenal Springfield para ajustes de várias semanas, com testes e mais testes na câmara fria do arsenal, realizando modificações para adaptação ao frio. Com uma avaliação marcada, o T44 foi declarado o "vencedor" dos Testes de Inverno Ártico e adotado.



Mesmo após sua aposentadoria em 1953*, Studler desencadeou uma cadeia de eventos que levaram a arma que ele patrocinou à adoção pelo Exército dos EUA como M14. O único outro país a encomendar o M14, no entanto, foi o governo nacionalista chinês em Taiwan*, enquanto cerca de 90 exércitos ao redor do mundo adotariam o FN FAL.

*NT: Studler foi para a reserva retendo o posto de coronel.

**NT: A adoção do M14 não foi uma decisão voluntária de Taiwan, mas dos próprios Estados Unidos, pois as forças taiwanesas dependiam inteiramente dos EUA para o seu aprovisionamento.

Isso incluiu a Commonwealth britânica, cujos SLR L1A1 ("self-loading rifles", "fuzis de auto-carregáveis") diferiam dos FN FAL métricos no seu uso de munição .303.*

*NT: O FAL/SLR britânico jamais foi calibrado em .303, o FM Bren que foi recalibrado em 7,62mm e viu serviço nesse calibre nas Falklands em 1982.


Selous Scouts armados de FAL em mais uma patrulha "in the bush".

Entre os primeiros usuários do FN*, os canadenses ficaram impressionados com sua simplicidade e com a rapidez com que podiam aprender pontaria e a ter confiança na arma, em comparação com o tão amado fuzil Lee-Enfield No.4 Mark I que foi substituído.

*NT: O Canadá adotou o FAL em 1954, sendo o primeiro país a adotá-lo, antes mesmo da Bélgica.


Fuzil-metralhador C1A2 canadense.

Além da variante semi-automática C1A1 de padrão em polegadas, os canadenses adotaram o FALO de cano pesado (fusil automatique lourd ou fuzil automático pesado) como sua arma automática de grupo de combate (GC) sob a designação de C2A1. Os fabricantes britânicos também estavam produzindo fuzis L1A1 sob licença desde 1957, embora eles preferissem manter o fuzil-metralhador Bren ao invés do FALO de cano pesado como sua metralhadora de GC.

A partir de 1985, os britânicos substituíram o L1A1 pelo SA80, um fuzil "bullpup" derivado do muito-à-frente-de-seu-tempo EM-2.

Variações no FN FAL apareceram em todo o mundo e ele estava fortemente envolvido nas guerras de emboscada nos matagais da segunda metade do século XX, desde a Emergência Malásia até a revolta Mau Mau no Quênia, da Guerra da Rodésia aos conflitos entre a Índia o Paquistão, e numerosos conflitos no Oriente Médio, onde a areia provou ser o principal calcanhar de Aquiles para o FN FAL, até que medidas foram tomadas para proteger seu mecanismo de interferências externas.



Além disso, praticamente todos os soldados que usaram o FN se lembram com carinho por sua durabilidade e confiabilidade. Seu alcance efetivo de 600 metros pode ser estendido para 800 metros em mãos especializadas, mas nunca foi tão estável em uma plataforma de tiro de longo alcance em comparação com o M14. Nem o FN nem o M14 conseguiram manter a controlabilidade ao disparar em automático por causa da munição 7,62x51mm e muitos fabricantes licenciados do FN FAL dispensaram totalmente a opção automática.

O Vietnã viu sua parcela de fuzis L1A1 em combate quando as tropas da Austrália e da Nova Zelândia serviram lá, principalmente na Batalha de Long Tan, em 18 de agosto de 1966, na qual o 6º Batalhão, Regimento Real da Austrália, derrotou um regimento Viet Cong e pelo menos um batalhão de apoio norte-vietnamita*.


Memorial Australiano da Guerra do Vietnã, Roma Street Parkland em Brisbane, Queensland. O soldado australiano está armado com o SLR (FAL australiano) e o seu colega vietnamita com um M16.

*NT:
Tratam-se do Batalhão Móvel Provincial D445 "Ba Ria" do Viet Cong e o 275º Regimento regular norte-vietnamita. O relatório oficial pós-ação do exército australiano chamou o FAL de "a arma excepcional da ação". Recentemente um filme sobre a batalha foi produzido, Danger Close: The Battle of Long Tan (2019).



Ilustração da carga dos Scots Guards no Monte Tumbledown, 1982. (Cranston Fine Arts)

As baionetas padrão com o FN FAL podem ter parecido anacrônicas, mas durante a Guerra das Falklands, o efeito psicológico do aço frio se reafirmou na noite de 13 a 14 de junho de 1982, quando um impasse no Monte de Tumbledown foi interrompido por uma manobra de flanco e uma carga de baioneta pelo 2º Batalhão de Guardas Escoceses (2nd Battalion, Scots Guards) para desbaratar o Bataillón de Infanteria de Marina 5 (5º Batalhão de Infantaria de Fuzileiros Navais).


Soldado argentino, provavelmente do 4º Regimento de Infantaria "Monte Caseros", morto à baioneta pelos Royal Marines no Monte Harriet, nas Falklands, 1982.

Pode-se notar que a única diferença entre armas de infantaria nessa ocasião foi que os britânicos estavam armados com fuzis SLR L1A1 de polegadas, enquanto os argentinos estavam equipados com fuzis FN FAL de padrão métrico.


Rio de Janeiro, Brasil: Um soldado do Exército Brasileiro do 26º Batalhão de Infantaria da Brigada Paraquedista aponta sua arma no telhado plano de uma casa na favela da Rocinha, em 14 de março de 2006, durante uma operação militar para encontrar 10 fuzis FAL 7,62mm e uma pistola de 9mm roubados de um quartel do exército no Rio de Janeiro. (Foto de Antonio Scorza/AFP)

Embora aposentado nos exércitos da OTAN nos anos 80, o FN FAL, em todas as suas variações e encarnações, permanece uma memória agradável entre os veteranos que o carregaram. Nos exércitos do Terceiro Mundo, principalmente na América do Sul e Central, ele permanece em serviço de primeira linha - e continua sendo uma arma eficaz e confiável.

Original: https://www.militarytimes.com/off-duty/gearscout/irons/2020/02/06/how-the-the-fn-fal-took-on-the-ak-47/

NT: Título original "Como o FN FAL enfrentou o AK-47".

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