domingo, 1 de março de 2020

Israel provavelmente enfrentará guerra em 2020, alerta think tank

Merkava israelense nas Colinas de Golã.

Por Itamar Eichner, Yedioth Ahronoth, 11 de janeiro de 2020.
Tradução Filipe do A. Monteiro, 1º de março de 2020.

Nota do Tradutor: Um "think tank" é um corpo de especialistas suprindo conselhos e idéias sobre problemas específicos, como política ou economia.

Guerra total no norte, escalada em Gaza e Cisjordânia, e Irã uma ameaça crescente, diz avaliação do INSS; O instituto da Universidade de Tel Aviv recomenda nova oferta de negociações com os palestinos, restauração das relações com a Jordânia, tornando Israel uma questão de consenso bilateral na política dos EUA.

A possibilidade de guerra em 2020 aumentou, diz um novo relatório publicado esta semana pelo Instituto de Estudos de Segurança Nacional (Institute for National Security Studies, INSS), um think tank da Universidade de Tel Aviv. 

No centro dessa avaliação estratégica, está a tensão entre o crescente poder e influência de Israel na região, e a possibilidade dessa força atual se tornar frágil e temporária.

Amos Yadlin, chefe do INSS, e o Presidente de Israel Reuven Rivlin. (Foto: GPO)

Essa tensão decorre de uma lista de fatores que podem levar no próximo ano a um conflito em larga escala e até à guerra na região.

Tudo isso devido à conduta de Israel em relação a vários desafios de segurança nacional: a crescente tenacidade e determinação do regime iraniano, tanto em relação às suas capacidades nucleares quanto aos seus esforços para aumentar sua presença na Síria e em outras áreas, a fim de operar contra Israel; Os esforços do Hezbollah para obter armas de precisão; e os esforços do Hamas para acalmar as tensões na Faixa de Gaza e influenciar os termos de seu acordo em desenvolvimento com Israel.

Esses fatores estão acontecendo enquanto Israel está no meio de uma crise política em andamento que paralisa seu governo há mais de um ano.

A Morte de Soleimani - potencial para mudança estratégica

A apresentação do relatório ao presidente Reuven Rivlin ocorreu no início desta semana, à sombra do assassinato do general iraniano Qassem Soleimani pelos EUA, um evento que, segundo os analistas do instituto, dá peso a uma possível escalada na região e à necessidade de uma nova estratégia israelense.

Da esquerda pra direita: Líder supremo do Irã Ali Khamenei, líder do Hezbollah Hassan Nasrallah e o assassinado general iraniano Qassem Soleimani.

A morte do general pode levar a um novo potencial na realidade estratégica da região, cujo tamanho e influência ainda não foram vistos. 

O Irã e os Estados Unidos ainda podem estar contemplando outras medidas, o que exemplifica a incerteza, a falta de estabilidade e a volatilidade que já caracterizam o Oriente Médio na última década.

Essas medidas podem levar a uma variedade de cenários: uma escalada que leva a um conflito de larga escala entre os EUA e o Irã, que pode muito bem envolver Israel; uma continuação da situação atual entre as duas nações de batalhas terceirizadas e ataques direcionados; ou até o adiamento de uma reação iraniana quando o nível de alerta dos EUA e de seus aliados for reduzido.

Uma escala de ameaças

Guerra no Norte: Segundo o Instituto, a ameaça mais crítica de Israel em 2020 é a possibilidade de uma guerra ao longo de sua região de fronteira norte com as forças armadas postadas lá: Irã; Hezbollah no Líbano; regime sírio e milícias pró-iranianas. 

Os desafios de Israel ao longo da fronteira norte aumentaram no ano passado, com as IDF tendo que se preparar para uma guerra de múltiplas frentes como o cenário principal na área.

Combatentes do Hezbollah no Líbano. (Foto: AP)

Tal escalada, caso se deteriore em uma guerra total, poderá ocorrer em um dos dois cenários principais.


1. Uma "Terceira Guerra do Líbano" com o Hezbollah, um conflito que seria muito mais feroz e mais mortal do que seu antecessor em 2006.

2. "A Primeira Guerra do Norte" com o Hezbollah no Líbano, mas também com forças na Síria e até no Iraque, Irã ou outras facções na região.

O risco de tal escalada exige que Israel conduza um debate aprofundado sobre os prós e os contras de qualquer esforço para impedir que o inimigo adquira melhores armas convencionais (em oposição aos esforços para obter capacidades nucleares, que têm ampla oposição). 

Israel deve realizar um debate abrangente sobre o conceito de "contra-ataque" contra o Hezbollah e o momento correto de tal ação. Também deve considerar alternativas, dados os últimos esforços da organização terrorista para melhorar a precisão de seu arsenal de foguetes.

Instalação nuclear do Irã em Bushehr. (Foto: EPA)

O programa nuclear do Irã: a urgência dessa ameaça ainda é bastante baixa em 2020, mas sua futura gravidade potencial é muito maior. 

Israel deve se preparar para o cenário mais extremo, apesar de seu baixo imediatismo, do Irã alcançar um avanço no caminho para uma bomba nuclear. 

Israel deve planejar simultaneamente dois cenários mais realistas: uma renovação das negociações sobre o acordo nuclear com o Irã (uma possibilidade baixa diante da morte de Soleimani) e o início do "rastejamento lento" em direção à bomba.

Ambos os cenários exigem profundo entendimento e planos conjuntos, inclusive um plano militar, com os Estados Unidos.

Guerra no Sul: Uma potencial explosão entre o Hamas e Israel continua alta, apesar dos esforços em andamento para alcançar um acordo de longo prazo para a calma. De qualquer forma, a ameaça de uma escalada ao longo da fronteira sul de Israel é muito menor do que no norte. 

Se Israel e o Hamas não implementarem um acordo, aumenta a possibilidade de um confronto militar em larga escala na Faixa de Gaza - um confronto pelo qual nenhum dos lados tem nenhum desejo real. 

Se tal batalha ocorrer, Israel deve ser rápido e manobrável, concentrando-se na ala militar do Hamas, destruindo toda a organização e conquistando o enclave - e, finalmente, encerrando o surto com mediação diplomática, resultando em uma posição forte para Israel.

Apoiadores do Hamas protestam na Faixa de Gaza. (Foto: AFP)

Desafios para 2020 

Os palestinos: O instituto novamente pede ao governo que tente reiniciar as negociações de paz. Se isso falhar, devem ser tomadas medidas para preservar a imagem do país como uma nação judaica, democrática, segura e moral. 

Os preparativos para o dia seguinte à demissão do presidente palestino Mahmoud Abbas são necessários, assim como o apoio contínuo ao desenvolvimento econômico da Autoridade Palestina. 

O instituto vê grande importância na publicação de longa data da proposta de paz do Oriente Médio "Deal of the Century" (Negócio do Século) do presidente Donald Trump.

O presidente palestino, Mahmoud Abbas, discursa na Assembléia Geral da ONU. (Foto: AFP)

Esse plano tentará estabelecer novos parâmetros para as negociações e reconhecer as novas realidades regionais criadas nos últimos 50 anos. 

A avaliação mostra que a falta de um novo planejamento estratégico em relação aos palestinos é prejudicial para Israel e pode levar a uma escalada na Cisjordânia e na Faixa de Gaza.

As eleições presidenciais dos EUA: os EUA vão às urnas este ano.

O instituto recomenda que Israel enfatize que não deseja que os EUA lutem ou derramem sangue em seu nome. Israel é um ativo estratégico e um aliado confiável para a América, portanto, aumentar suas próprias capacidades militares e diplomáticas é o melhor curso de ação.

Israel deve fazer todo o possível para voltar a ser uma questão de consenso para ambas as partes. Também deve fazer um esforço renovado para trazer de volta o público judeu americano, uma comunidade que ultimamente se distanciou do monopólio do judaísmo ortodoxo sobre a vida judaica israelense. 

Reaproximação sunita: Israel deve quebrar o teto de vidro da cooperação com os pragmáticos regimes sunitas no Oriente Médio. 

Os dois principais esforços para esse avanço são o marketing de suas capacidades tecnológicas, econômicas e de defesa, que poderiam ajudar essas nações em sua luta contra o Irã e enfrentar os desafios econômicos e inovadores que eles enfrentam no século XXI, e o avanço significativo da questão palestina - dando cobertura a essas nações para aumentar seus laços com Israel.

Ministra da Cultura Miri Regev na Grande Mesquita Sheikh Zayed, em Abu Dhabi, outubro de 2018. (צילום: חן קדם מקטובי)

A Jordânia: A reconstrução do relacionamento entre Israel e a Jordânia é um esforço crítico que o instituto acredita que deve ser realizado. 

Aqui também os "Frutos da Paz" (água, defesa, gás e projetos conjuntos) podem desempenhar um papel para chegar a um acordo com os palestinos, e são fundamentais para encerrar um dos períodos mais baixos nos laços bilaterais desde o tratado de paz de 1994.

Rei Abdullah II da Jordânia durante um exercício militar.

Gastos com defesa: considerando a crescente ousadia iraniana e sua presença contínua na Síria, Iraque e Líbano, as FDI devem aumentar seus níveis de preparação em todas as frentes: Irã, Hezbollah, Síria e palestinos. 

Um plano plurianual para as FDI deve ser implementado, incluindo um plano de ajuda financeira estrangeira que foi suspenso nos últimos dois anos, melhorar suas capacidades de ataque ao Irã, aumentar o treinamento, e trabalhar para implementar planos estratégicos e operacionais adequados às capacidades atuais e habilidades de ação desenvolvidas pelo Irã, Hezbollah e Hamas.

Amos Yadlin apresenta o relatório anual do INSS ao Presidente Reuven Rivlin. (Foto: GPO)

"O impasse político de Israel não poderia acontecer em um momento pior", disse Rivlin ao aceitar o relatório do diretor executivo do INSS, Amos Yadlin. 

"Infelizmente, os atores políticos centrais estão cientes do perigo atual, mas evitam trabalhar juntos e minimizam as lacunas entre eles".

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